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O PREÇO DA LINHA DE COTA: O SUPER “EL NIÑO” DE 2026 E O LEGADO DE OMISSÃO NO VALE DO ITAJAÍ

Por Aurélio Marcos de Souza (*)

Eu tinha apenas 13 (treze) anos em 1983 aqui em Gaspar. Lembro perfeitamente do som da chuva que parecia eterna, do cheiro persistente da lama e da angústia do isolamento que tomava a nossa região.

Mas a imagem mais viva que carrego daquela infância é a do meu pai, o Seu Zeca Campina.

Diante do caos, vi meu pai usar todo o seu conhecimento de carpintaria para construir, ali na raça, uma bateira de madeira. Foi com esse barco que ele atravessava dezenas de moradores que estavam completamente ilhados na entrada do bairro Santa Terezinha, bem perto do antigo viaduto da estrada de ferro.

A engenharia do meu pai era a da sobrevivência e do amor ao próximo.

O tempo passou e a vida me colocou na linha de frente de um cenário ainda mais doloroso. Em novembro de 2008, a maior catástrofe climática da nossa história desabou sobre Gaspar. Eu estava lá, não como espectador, mas como Procurador-Geral do Município de Gaspar/SC.

Senti nas costas o peso de uma tragédia que rasgou nossos morros e nos tirou inúmeras vidas.

Aquele desastre foi traiçoeiro: não foi anunciado, não veio precedido por alertas de TV ou decretos com meses de antecedência. Fomos golpeados no escuro.

Vi o então prefeito Adilson Luis Schmitt ser pego completamente de surpresa pela fúria de uma natureza que não deu aviso prévio. Mas vi também o que significa gestão pública de verdade diante do luto e do caos.

Não houve espaço para discursos ensaiados, vídeos para redes sociais ou marketing de crise.

Enquanto chorávamos nossos mortos e resgatávamos os sobreviventes, o prefeito Adilson e a nossa equipe trabalhamos dia e noite, no braço, abrindo estradas e acolhendo as famílias. Ali existia espírito público legítimo e respeito à dor do povo, ““NÃO OPORTUNISMO””.

Hoje, aos 55 anos, não falo por ouvir dizer. Minha trajetória não foi construída assistindo à história de longe. Sentei com orgulho nos bancos acadêmicos do Direito, da Educação Física e da Administração Pública.

E é essa mesma inquietação que me faz, hoje, continuar estudando e buscando respostas práticas nos cursos de Engenharia Civil e de Engenharia Sanitária e Ambiental.

Desde as lições de 1983 e 1984, a ciência hidrológica e a engenharia avançaram significativamente. O comportamento das bacias hidrográficas diante de eventos extremos tornou-se previsível através de modelos matemáticos e simulações hidráulicas.

No entanto, o que se viu ao longo das últimas administrações foi um abismo intransponível entre o conhecimento técnico e a prática política de balcão.

Essa bagagem multidisciplinar me dá a autoridade legal, administrativa e técnica para afirmar: “““o que fizeram com a topografia do nosso Vale foi um crime previsível, e a conta chegou”””.

Por isso, ver o recente Decreto de Alerta Climático Estadual (nº 1530 de 18/05/2026) e acompanhar prefeituras correndo para cancelar festas na tentativa tardia de remanejar orçamentos não me traz alívio. TRAZ INDIGNAÇÃO.

Essa correria não é prevenção: “É UMA CONFISSÃO DE CULPA”. É o atestado de falência de 4 (quatro) décadas de gestão urbana e ambiental no Vale do Itajaí.

Em 2008, fomos pegos de surpresa e respondemos com dignidade, silêncio e trabalho duro. Agora, em 2026, o desastre está anunciado há meses. O que vemos é um teatro político de emergência para mascarar 40 (quarenta) anos de omissão e falta de planejamento estrutural.

Sob a ótica da Engenharia Civil, cometemos um erro brutal contra o nosso relevo. As planícies de inundação, as “BAIXADAS” que atuavam como amortecedores naturais de cheias na minha infância, foram sistematicamente retalhadas, loteadas e aterradas.

A concessão indiscriminada para a execução de aterros geométricos gerou uma falsa sensação de segurança para os novos empreendimentos, mas criou um efeito colateral devastador: “O DESLOCAMENTO DE MASSA DE ÁGUA POR REDUÇÃO DE VOLUME ÚTIL DE ARMAZENAMENTO”.

Ao elevar o solo das baixadas para tirá-lo da cota histórica de inundação, as gestões passadas estrangularam a seção de vazão do rio e ribeirões.

A equação é matemática e implacável: se a água não pode ocupar o espaço que ocupava em 1983 e 1984, ela subirá a níveis muito mais altos e invadirá bairros e encostas que historicamente eram considerados seguros. O erro de planejamento de um loteamento na baixada decretou a inundação futura de quem mora na encosta.

Do ponto de vista sanitário e ambiental, a negligence com o escoamento superficial urbano reduziu drasticamente o tempo de concentração da bacia.

A substituição da cobertura vegetal por asfalto, concreto e telhados, sem a exigência rigorosa de medidas de mitigação na fonte, como bacias de detenção, micro-reservatórios e pavimentos permeáveis nos planos diretores, fez com que a água da chuva atinja a calha dos rios de forma quase instantânea.

O resultado não é apenas o aumento do volume inundado, mas a velocidade avassaladora com que o pico da cheia acontece, minando a capacidade de reação e encurralando a população. Não se investiu em infraestrutura verde; preferiu-se empurrar o passivo ambiental para as gerações futuras.

Como gestores públicos, o diagnóstico é ainda mais severo. A administração pública no Vale do Itajaí viciou-se no fetiche da “GESTÃO DE DESASTRES”.

É politicamente MAIS CONVENIENTE para um governante aparecer na televisão decretando calamidade, distribuindo donativos e inaugurando abrigos do que aplicar recursos orçamentários em obras invisíveis de macrodrenagem, dragagem perene, reflorestamento de APP e desapropriação de áreas de risco.

O pré-posicionamento de equipes e o contingenciamento de verbas de festividades a escassos dias do impacto previsto pelo Super El Niño expõem a mentalidade tacanha de governos que tratam a hidrologia como um evento surpresa.

O El Niño não é um CISNE NEGRO; ““é um fenômeno cíclico, monitorado mundialmente. SABIA-SE QUE ELE VOLTARIA FORTE””.

Em 2026, o Vale do Itajaí não enfrentará apenas a fúria da natureza. Mas sim enfrentará o resultado de 40 (quarenta) anos de concessões políticas fáceis, de Planos Diretores flexibilizados pela pressão imobiliária e de total ausência de engenharia proativa.

Cortar verbas de eventos agora não apagará o erro dos metros cúbicos de aterros autorizados nas últimas décadas.

Se o nível das águas ultrapassar os limites históricos e atingir os pontos altos da nossa região, a culpa não será do clima. Será de cada assinatura, de cada licença ambiental negligenciada e de cada omissão técnica que permitiu que o interesse econômico de curto prazo alterasse o relevo e condenasse a segurança de toda uma população.

Eu vi o rio em 1983 com os olhos de um menino orgulhoso do pai carpinteiro que salvava vidas na raça.

Enterrei nossos mortos e reconstruí a cidade em 2008 como Procurador-Geral ao lado do prefeito Adilson.

E hoje, vejo o perigo com la clareza de quem domina as leis e os cálculos da engenharia.

Se o povo de Gaspar precisar de bateiras novamente em 2026, a culpa será daqueles que herdaram os avisos da história, mas preferiram ignorar a ciência e dar as costas para a vida das pessoas.

(*) Sobre o autor convidado: Aurélio Marcos de Souza, é advogado, foi ex-procurador geral de Gaspar 2005/08, graduado em Gestão Pública, pela Udesc, graduando em engenharia civil e em engenharia sanitária e ambiental. Originalmente, este artigo foi publicado nas redes sociais do autor.

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7 comentários em “O PREÇO DA LINHA DE COTA: O SUPER “EL NIÑO” DE 2026 E O LEGADO DE OMISSÃO NO VALE DO ITAJAÍ”

  1. Mas é sempre assim, logo após as enchentes e outras catástrofes que ocorrem na região, vem o discurso de que será feito um controle sobre aterros e construções . Passado algum tempo, a ganância e a especulação imobiliária toma conta e deixam de lado o discurso de prevenção de tragédias. No último governo fizeram vários aterros para a construção de loteamentos, sem se preocupar os impactos ambientais, apenas pensando em arrecadar mais (em todos os sentidos), Não sei como não deixaram fazer um loteamento nos pastos do falecido Jacaré. Agora não adianta construir bateiras….

    1. Ali, era para ser uma área inundável, segundo o levantamento e o estudo que custou uma baba e se jogou fora. Quando os empresários notaram isso, bateram pé. O prefeito da época, Pedro Celso Zuchi, PT, resolveu engavetar o projeto. E dai em diante esta história é bem conhecida dos gasparenses. Esperemos pela enchente, se vier.

  2. Pingback: SÃO OS POLÍTICOS, GESTORES, COMISSIONADOS, SERVIDORES E AGENTES PÚBLICOS CULPADOS OU VÍTIMAS DOS QUE ELES CHAMAM DE CARTÉIS E TEIAS DO CRIME ORGANIZADO QUE DEVORAM - DE TODOS AS FORMAS E MANHAS - OS NOSSOS CADA VEZ MAIS ALTOS IMPOSTOS ON LINE? - Olha

  3. Herculano

    O teatro da vez, vem travestido de eficiência. O fato é que o governo não conseguiu licitar a festa, que hoje diz ter cancelado por conto do el ninho…

    #incompetencia
    #faltadetransparencia

    1. Impressionante a enrolação, à falta de transparência e diálogo (incluindo entidades) da atual administração municipal. Impressionante, como a dita imprensa gasparense e regional, que é trazida aqui para espetáculo de última hora, está calada naquilo que a cidade toda sabe. Impressionante como a área de comunicação da prefeitura (a que não tem estabilidade e troca de titular a cada tempo) é parte deste circo, como se estivesse num programa de entretenimento. Agora, está vestida de coleta da Defesa Civil. Sensação falsa.

      As eleições de outubro estão chegando. Será outro “El niño”, mas sem a mesma precaução à previsão do verdadeiro fenômeno meteorológico, já usado como desculpas a reiterada inércia e falta de resultados da gestão municipal. Muda, Gaspar!

  4. Adilson Luis Schmitt

    Parabéns pela análise feita no artigo postado.

    Penso, meu amigo Aurélio Marcos de Souza , que a nossa Cidade, a nossa Região, nosso Estado e o Brasil ainda nao se deu conta de que precisares conviver com as adversidades do clima.

    Quanto as enchentes de 1983 e 1984, além das demais que ocorreram em nossa Cidade e Região, muitas vidas foram ceifadas e prejuízos enormes aconteceram. Já em 2008, choveu praticamente 100 dias. O solo ficou encharcado e tivemos a maior tragédia climática de SC. Mas aonde eu quero, a facilidade de informações, as ferramentas tecnologicas melhoraram e muito, sem falar nas Defesas Civis. Lembrando que em Gaspar, o Departamento de Defesa Civil, foi instituído na nossa Gestão em 2005.

    Entretanto o que vimos nestes últimos 18 anos são shows pirotécnicos, discursos baratos e acima de tudo desculpas esfarrapadas. Minha colocação final os Gestores a nível Municipal, Estadual e Federal, que arregassem as mangas, planejamento de ações necessárias e mantenha a população muito bem informada. Um grande abraço e peço que Deus nos cuide e proteja!

    Adilson Luis Schmitt
    Ex Prefeito de Gaspar

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