Alterado e corrigido, porque Roni Jean Muller, MDB foi ao evento. Correção às 10h03min deste 05..06.2026. O pré-candidato pela aliança PSD, PP, MDB e União Brasil ao governo de Santa Catarina em outubro deste ano, o gaúcho de São Valentin, João Rodrigues, 59 anos, empresário, ex-radialista, ex-prefeito de Chapecó, ex-vice e prefeito de Pinhalzinho – e que lhe custou uma punição na Justiça -, ex-deputado estadual e federal, esteve em Gaspar.
Ele se reuniu na noite de quarta-feira, vésperas de um feriadão, com lideranças partidárias e empresariais de Gaspar e Ilhota, no Restaurante Questão de Gosto, no Poço Grande. Antes visitou a Apae e a empresa Vida & Cor. O roteiro incluirá outras cidades polos do Vale do Itajaí neste final de semana. Na imprensa local, pouca repercussão. Compreensível. Aos que foram lá, saíram bem impressionados.
Então, eu não vou escrever como João, experimentado político e gestor público, é articulado e antenado. E, consequentemente, também não vou escrever, a razão pela qual o governador Jorginho Mello, PL, o que sempre está no lado mais oportuno da história – já esteve com Dilma Vanna Rousseff, PT -, teme pela sua sorte dele nas próximas eleições.
ESTAR NO SEGUNDO TURNO
Mas, não custa repetir. Tudo o que Jorginho mais teme é se João chegar ao segundo turno das eleições deste outubro. E se chegar, primeiro não será tão fácil diante do poder da máquina que dispõe Jorginho para se auto-beneficiar; segundo, há claros impasses nesta amarração para João conseguir esta meta. E João está consciente disso. O que já é uma grande vantagem. Então João está garimpado. Está ajuntando os cacos deixados pelo caminho pelo próprio Jorginho – outro experimentado político, reconheça-se desde já -, alguns deles, fruto do radicalismo que o imobiliza nas alianças que fez para se eleger, se manter no poder e agora tentar à reeleição. Veja que não escrevi sobre as ou não entregas. Um capítulo à parte.
Veja o caso desta quarta-feira em Gaspar.
Ilhota, sob lideranças partidárias fortes veio em peso. Já Gaspar um paraíso de paraquedistas na cabala de votos nas eleições gerais, de lideranças atualmente frágeis. Tudo conta disso e de submissão aos donos da cidade por décadas.
O senador Esperidião Amim Helou Filho, PP, por exemplo, não viu no convescote o “fiel”, o “pedichão” e mais longevo dos vereadores (sete mandatos), José Hilário Melato. O União Brasil não deu as caras porque o seu presidente, o suplente de vereador Eder Carlos Muller da Silva é comissionado do governo de Paulo Norberto Koerich, PL; nem mesmo o vereador do partido, Thimoti Thiago Deschamps, que anda às turras com Paulo, deu às caras.
E o que falar do MDB? Lá só o seu presidente, Ciro André Quintino e a velha guarda do partido. Ela foi trazida pelo deputado Federal de Agrolândia, Rafael Pazentti,sucessor de deputado Federal de Ituporanga, Rogério Peninha Mendonça, que veio a Gaspar e promete sair da aposentadoria por João. Os vereadores Carlos Francisco Bornhausen não foi e Roni Jean Muller que estava ao lado da velha guarda, não está no projeto de Ciro.
JUNTANDO OS CACOS
Quem ressurgiu como estrela na vinda de João por aqui foi o vereador e presidente do PSD de Gaspar, um partido que cabe num fusca por erros táticos do passado, Giovano Borges.
É este quadro de recomposição que João tenta atalhar para se dar bem no primeiro turno e deixá-lo posicionado para uma disputa dentro do próprio conservadorismo catarinense. João, no discurso, e nas realizações, tem a cara dinâmica de Santa Catarina e que só na na cara e desconectada marquetagem para Jorginho aparece, mas não cola quando ela é confrontada com a realidade.
Ah, mas eu exagero? Então me diga qual é mesmo a marca de quase quatro anos de governo de Jorginho Mello, PL, que mudou a vida dos catarinenses e fez Santa Catarina diferente, se não pela resiliência de empresários e investidores? Santa Catarina é muito mais do que a disputa entre frágil esquerda e a direita que se tornou arrogante. Santa Catarina é acima de tudo resolutiva e mais do que isso, com o exemplo do ex-governador Celso Ramos, mostrou-se dinâmica e de que era necessário se adaptar, rotineiramente, por investimentos, segurança e certa previsibilidade de médio prazo, às novas exigências competitivas e sociais.
AS CARTAS
João, na verdade, joga com muitas cartas na manga. Incrivelmente, todas dadas por Jorginho. Entre elas, está à falta de preparação adequada do governo do estado para enfrentar o “El Niño” com a força prometida pelas previsões e entendidos no assunto, mesmo que ele nunca venha. O que Jorginho e seus sábios dizem serem ações preventivas, João as classifica como paliativas. Ou seja, desperdício – um vício da burocracia -, proposital e repetitivo.
Mas, há outro desastre no radar destas eleições que pode afetar o desempenho de Jorginho Mello, PL, e favorecer João Rodrigues, PSD, no mesmo campo ideológico, além do pragmatismo de João: são as dúvidas que rondam o governo de Jorginho. E se isso fosse pouco, em tão pouco tempo rondam administrações do PL recém eleitas, como as de Indaial, Gaspar e Blumenau – para não sair daqui onde pode ser compreendido melhor o meu exemplo – herdeiras de dúvidas do passado, que por inércia na não rápida na separação do joio do trigo, deixaram – esses políticos e gestores públicos – o imaginário popular ser contaminado. Como essa gente vai liderar e ser cabo eleitoral de Jorginho?
E se isso fosse pouco, a arrogância e a esperteza do uso, seguido do cruel devido descarte após a vitória de gente como o ex-prefeito Adilson Luiz Schmitt (2005/08), na foto ao lado, que esteve no PL para eleger Paulo Norberto Koerich, PL, mas foi corrido, faz desse movimento, ao meu ver, um exército de improváveis (unlikely party). E ele engrossa a favor de João Rodrigues que diz ser amigo do velho Jair Messias Bolsonaro, mas não dos filhos dele que usam o nome do pai para voos cheios de acrobacias que vai exterminando as possibilidades de união – e vitória – na direita nacional e ampliando falésias em Santa Catarina.
Basta dizer que João Rodrigues, PSD, só está nesta corrida porque o senador Esperidião Amim Helou Filho, PP, foi rifado na sua pretensão de continuar senador e decidida entre radicais da direita, num projeto sem a identidade de Santa Catarina.
Finalizando. João parece que está saindo do modo de espera. Nos debates, se houver, vai desmontar Jorginho. E Jorginho, os bolsonaristas e a direita radical, que atrasa o modelo de sobrevivência econômica de Santa Catarina, sabem disso. E perdeu o discurso. E poderemos ter a repetição do que aconteceu com Carlos Moisés da Silva, eleito pelo bolsonarismo do PSL como Comandante Moisés, sentado em beço esplêndido na Casa d’Agronômica, quando viu, era tarde demais. Jorginho, o experto, parece que desaprendeu com a lição.
O pré-candidato pela aliança PSD, PP, MDB e União Brasil ao governo de Santa Catarina em outubro deste ano, o gaúcho de São Valentin, João Rodrigues, 59 anos, empresário, ex-radialista, ex-prefeito de Chapecó, ex-vice e prefeito de Pinhalzinho – e que lhe custou uma punição na Justiça -, ex-deputado estadual e federal, esteve em Gaspar.
Ele se reuniu na noite de quarta-feira, vésperas de um feriadão, com lideranças partidárias e empresariais de Gaspar e Ilhota no Restaurante Questão de Gosto, no Poço Grande. Antes visitou a Apae e a empresa Vida & Cor. O roteiro incluirá outras cidades polos do Vale do Itajaí neste final de semana. Na imprensa local, pouca repercussão. Compreensível. Aos que foram lá, saíram impressionados.
Então, eu não vou escrever como João, experimentado político e gestor público, é articulado e antenado. E, consequentemente, também não vou escrever, a razão pela qual o governador Jorginho Mello, PL, o que sempre está no lado mais oportuno da história – já esteve com Dilma Vanna Rousseff, PT -, teme pela sua sorte dele nas próximas eleições.
ESTAR NO SEGUNDO TURNO
Mas, não custa repetir. Tudo o que Jorginho mais teme é João chegar ao segundo turno das eleições deste outubro. E se chegar, primeiro não será tão fácil diante do poder da máquina que dispõe Jorginho para se auto-beneficiar; segundo, há claros impasses nesta amarração para João conseguir esta meta. E João está consciente disso. O que já é uma grande vantagem. Então João está garimpado. Está ajuntando os cacos deixados pelo caminho pelo próprio Jorginho – outro experimentado político, reconheça-se desde já -, alguns deles, fruto do radicalismo que o imobiliza nas alianças que fez para se eleger, se manter no poder e agora tentar à reeleição. Veja que não escrevi sobre as ou não entregas. Um capítulo à parte.
Veja o caso desta quarta-feira em Gaspar.
Ilhota, sob lideranças partidárias fortes veio em peso. Já Gaspar um paraíso de paraquedistas na cabala de votos nas eleições gerais, de lideranças atualmente frágeis. Tudo conta disso e de submissão aos donos da cidade por décadas.
O senador Esperidião Amim Helou Filho, PP, por exemplo, não viu no convescote o “fiel”, o “pedichão” e mais longevo dos vereadores (sete mandatos), José Hilário Melato. O União Brasil não deu as caras porque o seu presidente, o suplente de vereador Eder Carlos Muller da Silva é comissionado do governo de Paulo Norberto Koerich, PL; nem mesmo o vereador do partido, Thimoti Thiago Deschamps, que anda às turras com Paulo, deu às caras.
E o que falar do MDB? Lá só o seu presidente, Ciro André Quintino e a velha guarda do partido. Ela foi trazida pelo deputado Federal de Agrolândia, Rafael Pezenti,sucessor de deputado Federal de Ituporanga, Rogério Peninha Mendonça, que veio a Gaspar e promete sair da aposentadoria por João. Os vereadores daqui Roni Jean Muller e Carlos Francisco Bornhausen, não deram as caras.
JUNTANDO OS CACOS
Quem ressurgiu como estrela na vinda de João por aqui foi o vereador e presidente do PSD de Gaspar, um partido que cabe num fusca por erros táticos do passado, Giovano Borges.
É este quadro de recomposição que João tenta atalhar para se dar bem no primeiro turno e deixá-lo posicionado para uma disputa dentro do próprio conservadorismo catarinense. João, no discurso, e nas realizações, tem a cara dinâmica de Santa Catarina e que só na na cara e desconectada marquetagem para Jorginho aparece, mas não cola quando ela é confrontada com a realidade.
Ah, mas eu exagero? Então me diga qual é mesmo a marca de quase quatro anos de governo de Jorginho Mello, PL, que mudou a vida dos catarinenses e fez Santa Catarina diferente, se não pela resiliência de empresários e investidores? Santa Catarina é muito mais do que a disputa entre frágil esquerda e a direita que se tornou arrogante. Santa Catarina é acima de tudo resolutiva e mais do que isso, com o exemplo do ex-governador Celso Ramos, mostrou-se dinâmica e de que era necessário se adaptar, rotineiramente, por investimentos, segurança e certa previsibilidade de médio prazo, às novas exigências competitivas e sociais.
AS CARTAS

João, na verdade, joga com muitas cartas na manga. Incrivelmente, todas dadas por Jorginho. Entre elas, está à falta de preparação adequada do governo do estado para enfrentar o “El Niño” com a força prometida pelas previsões e entendidos no assunto, mesmo que ele nunca venha. O que Jorginho e seus sábios dizem serem ações preventivas, João as classifica como paliativas. Ou seja, desperdício – um vício da burocracia -, proposital e repetitivo.
Mas, há outro desastre no radar destas eleições que pode afetar o desempenho de Jorginho Mello, PL, e favorecer João Rodrigues, PSD, no mesmo campo ideológico, além do pragmatismo de João: são as dúvidas que rondam o governo de Jorginho. E se isso fosse pouco, em tão pouco tempo rondam administrações do PL recém eleitas, como as de Indaial, Gaspar e Blumenau – para não sair daqui onde pode ser compreendido melhor o meu exemplo – herdeiras de dúvidas do passado, que por inércia na não rápida na separação do joio do trigo, deixaram – esses políticos e gestores públicos – o imaginário popular ser contaminado. Como essa gente vai liderar e ser cabo eleitoral de Jorginho?
E se isso fosse pouco, a arrogância e a esperteza do uso, seguido do cruel devido descarte após a vitória de gente como o ex-prefeito Adilson Luiz Schmitt (2005/08), na foto ao lado, que esteve no PL para eleger Paulo Norberto Koerich, PL, mas foi corrido, faz desse movimento, ao meu ver, um exército de improváveis (unlikely party). E ele engrossa a favor de João Rodrigues que diz ser amigo do velho Jair Messias Bolsonaro, mas não dos filhos dele que usam o nome do pai para voos cheios de acrobacias que vai exterminando as possibilidades de união – e vitória – na direita nacional e ampliando falésias em Santa Catarina.
Basta dizer que João Rodrigues, PSD, só está nesta corrida porque o senador Esperidião Amim Helou Filho, PP, foi rifado na sua pretensão de continuar senador e decidida entre radicais da direita, num projeto sem a identidade de Santa Catarina.
Finalizando. João parece que está saindo do modo de espera. Nos debates, se houver, vai desmontar Jorginho. E Jorginho, os bolsonaristas e a direita radical, que atrasa o modelo de sobrevivência econômica de Santa Catarina, sabem disso. E perdeu o discurso. E poderemos ter a repetição do que aconteceu com Carlos Moisés da Silva, eleito pelo bolsonarismo do PSL como Comandante Moisés, sentado em berço esplêndido na Casa d’Agronômica, quando viu, era tarde demais. Jorginho, o experto, parece que desaprendeu com a lição.
TRAPICHE
Não é só em Blumenau. Em Gaspar há desfile de tornozeleiras. Elas controlam os passos de gente daqui tanto na Operação “DNA do Crime” como na “Ponto Final”, esta de Blumenau, mas que tinha as reuniões aqui na “pedreira”. As reuniões não são mais na “pedreira”.
Sobre o artigo principal, pensar é livre pensar. Quanto tempo será necessário para o pessoal que se entocou, sair da toca. Basta os ventos das pesquisas darem um certo refresco. E pensar que antigamente, todos estavam em qualquer reunião política. Hoje, fingem descomprometimento. Dia quatro de julho quando se fecha as torneiras das emendas deste ano, estará também aberta a porteira da traição. E dos mesmos.
12 comentários em “JOÃO RODRIGUES VEIO A GASPAR. MOSTROU A RAZÃO PELA QUAL JORGINHO MELLO O TEME E COMO O ESQUEMA QUE ELEGEU PAULO NORBERTO KOERICH ESTÁ EM RETALHOS CONTRA O PRÓPRIO JORGINHO”
Pingback: "PRESTA ATENÇÃO". O VICE-PREFEITO RODRIGO, DE GASPAR, ARRUMOU UM PÉ PARA SAIR DO SEU SILÊNCIO SEPULCRAL DIANTE DE TANTAS DÚVIDAS, FALTA DE ENTREGAS DO GOVERNO. NÃO FOI PARA ESCLARECÊ-LAS, MAS PARA FAZER MÉDIA E POLITICAGEM COM OS SERVIDO
O CUSTO DOS AGROTROGLODITAS, por Elio Gaspari, nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo
Está entendido que Donald Trump fará o que estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia 15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.
Passada a barulheira da semana passada, entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.
O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente.” (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)
A certa altura o relatório diz:
“É mais fácil e menos dispendioso produzir produtos agrícolas em pastagens degradadas e previamente desmatadas. Isso contribui para que mais produtos agrícolas brasileiros concorram nos mercados globais, o que leva à queda dos preços desses produtos.”
Ora, se um cultivo se dá numa terra desmatada há 20 anos e se a soja plantada pelo novo fazendeiro sai mais barata qual é o problema. A “queda dos preços” pode ser uma boa notícia.
A argumentação dos americanos tem momentos de fragilidade, mas tem também argumentos robustos que mais uma vez obrigam o Brasil a olhar para o prejuízo causado pelos agrotrogloditas.
A certa altura o relatório cita a saída da Moratória da Soja de grandes empresas exportadoras. Pouco conhecida fora do mundo do agro, essa moratória é um pacto firmado pelas grandes tradings, há quase 20 anos, pelo qual elas se comprometem a não comprar soja plantada em área de desmate. Em troca recebiam benefícios fiscais.
Aos poucos o pacto foi sendo comido pelas beiradas e incentivos foram retirados. Resultado: grandes tradings saíram do pacto e agora o governo americano usa esse caso para exemplificar a capacidade do Brasil de andar para trás.
O mau humor americano deriva também do fato de o Brasil saber andar para a frente.
JOHANNA DOBEREINER, A MADRINHA DA SOJA
Em 1970, com a ajuda americana, o agrônomo Norman Borlaug ganhou o prêmio Nobel da Paz, numa disputa com D. Helder Câmara. Seu mérito foi ter criado uma nova variedade de trigo, resistente a pragas.
No Brasil, Johanna Dobereiner (1924-2000) revolucionou o plantio de soja e foi indicada para o Prêmio Nobel de Química, mas não levou. Tendo passado quase toda a vida em Seropédica (RJ) e considerando-se uma “camponesa de laboratório”, ela hoje é pouco conhecida fora do mundo científico ou do agro mais ilustrado.
Nos anos 1970, quando ir contra a adubação química era um sacrilégio, suas descobertas permitiram a entrada da soja no cerrado e tornaram o Brasil o segundo maior produtor de soja, atrás dos Estados Unidos. (Dobereiner descobriu uma forma de fixar o nitrogênio nas plantas por meio de bactérias.)
Já em 1973 a Central Intelligence Agency produzia um relatório intitulado “Soja do Brasil: uma ameaça emergente para as exportações dos EUA”.
GROSSERIA DIPLOMÁTICA
Depois de deixar a embaixada americana em Brasília sem titular por mais de um ano, Donald Trump indicou o deputado estadual Daniel Perez para o cargo. Perez tem 38 anos, faz política na Flórida e, como o secretário de Estado Marco Rubio, é filho de cubanos.
Num tempo de relações crispadas, Trump e Rubio fizeram mais uma grosseria. Anunciaram a indicação de Perez antes que o governo brasileiro lhe tivesse concedido o agrément. É uma formalidade, mas desrespeitá-la sinaliza má vontade.
Nos anos 60 do século passado, o presidente francês Charles De Gaulle, abespinhado com João Goulart, engavetou o pedido de agrément para o embaixador Vasco Leitão da Cunha, a quem havia conhecido na África, durante a guerra. O governo brasileiro havia divulgado a indicação sem avisar ao francês. Vasco acabou mandado para Moscou.
A encrenca se repetiu em 2022, com a Argentina. O então embaixador, o empresário Daniel Scioli, foi nomeado ministro de Desenvolvimento e deixou o posto. Durou 47 dias no novo cargo. No dia de sua demissão, a Casa Rosada anunciou que ele voltaria para a embaixada em Brasília. Fizeram isso sem consultar o Itamaraty.
Os presidentes Alberto Fernandez e Jair Bolsonaro sequer se falavam. O então chanceler Carlos Alberto França não quis jogar gasolina na fogueira e sugeriu a Bolsonaro que relevasse a grosseria e Scioli voltou.
O MUNDO PARALELO DE LULA
Na semana passada Lula referiu-se ao “sucesso da minha visita ao Trump”.
Se ele acredita nisso, as relações do Brasil com os Estados Unidos passarão por novas turbulências.
É o Itamaraty quem informa, os EUA mostraram a faca antes que se esgotasse prazo combinado na bem-sucedida visita de Lula a Trump
IMORALIDADES
O governo americano viu um incentivo à corrupção na anulação das condenações da empreiteira Odebrecht pelo ministro Dias Toffoli.
Por mais extravagantes que sejam as decisões de Toffoli em casos de delinquentes do andar de cima, o ministro baseou-se em argumentos jurídicos, elas não se comparam com a máquina de perdões de Donald Trump.
Trump já perdoou larápios da política como um governador que tentou vender uma cadeira no Senado, ou finórios de Wall Street, como o papeleiro Michael Milken que no século passado pagou uma multa de 600 milhões de dólares, foi condenado a dez anos de cadeia e ralou apenas 22 meses.
Como repetia o professor Delfim Netto, “dois erros não fazem um acerto.”
FESTINHAS DO VORCARO
Depois que veio à tona que Daniel Vorcaro patrocinou uma Noite das Astronautas, com mulheres (inclusive russas e ucranianas) para entreter os convidados, caiu a ficha em relação às suas festas.
Finalmente percebe-se que havia algo a mais que a degustação de uísques e charutos nos eventos de Vorcaro. Afinal, por mais que Nova York tenha atrativos, os hierarcas de Brasília não voariam nove horas só para tomar um trago e fumar um charuto.
TARIFAÇO E A OPORTUNIDADE PARA O BRASIL, por Lourival Sant’Anna, no jornal O Estado de S. Paulo
As pressões tarifárias do governo Trump abrem oportunidade histórica para o Brasil reduzir de forma negociada suas barreiras comerciais, que fazem mais mal aos brasileiros que aos próprios americanos. A demagogia do governo Lula e a influência política dos setores industriais beneficiados pelo protecionismo me dão a triste certeza de que isso não vai acontecer. Os segmentos mais dinâmicos da economia brasileira serão castigados, mais uma vez.
Os argumentos do governo, de que o Brasil aplica efetivamente tarifas médias de 3% sobre os produtos americanos, e de que os EUA usufruem de superávit no comércio bilateral, são falaciosos. As alíquotas brasileiras sobre bens industrializados costumam partir de 20%, chegando a 35% no caso dos automóveis. Os produtos americanos não pagam esses impostos porque eles cumprem a função para a qual foram criados: bloquear as importações.
Quanto ao déficit brasileiro, os americanos podem argumentar que exportariam muito mais se não fossem as tarifas, as barreiras não tarifárias e as ações antidumping destinadas a impedir o livre comércio – havendo outras que são legítimas. O pior é que o Brasil também exportaria mais produtos de valor agregado mais alto se não fossem essas barreiras protecionistas.
As barreiras encarecem insumos e bens de capital dos quais todos os setores produtivos brasileiros necessitam para inovar e elevar a produtividade e a competitividade. Sem falar nos consumidores brasileiros, reféns de produtos caros e de má qualidade protegidos por essas barreiras, que desestimulam a pesquisa e o desenvolvimento.
A presença de Javier Milei na Casa Rosada possibilita acordos para reduzir a Tarifa Externa Comum do Mercosul, estacionada em astronômicos 11%, quando a tarifa média da União Europeia é de 4% e a dos EUA, 3%. Mas Lula provém dos setores protegidos, como a indústria automobilística, e cultiva um fetiche pela tese da “substituição de importações”, que desde os anos 30 se prova uma farsa.
COLATERAL. Como resultado, são prejudicados os setores mais dinâmicos e inovadores, que mais se beneficiariam com a possibilidade de importar para produzir e exportar mais, como o agronegócio, os plásticos, a saúde e todos os que dependem das cadeias de valor globais.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, chegou a declarar que a solução para as tarifas americanas é o Brasil adotar mais medidas de defesa comercial – precisamente a origem do problema.
O Brasil não deve ceder em exigências como acabar com o Pix ou aceitar monopólio no fornecimento de minerais críticos. Mas deveria negociar a redução das barreiras comerciais.
ATAQUES DOS ESTADOS UNIDOS AO PIX NÃO PARAM DE PÉ, editorial do jornal O Globo
Não fazem sentido as críticas do governo americano ao Pix. A conclusão da investigação contra o Brasil movida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) reproduz reclamações de bandeiras de cartões de crédito que consideram sofrer concorrência desleal. Basicamente, elas têm duas queixas. Primeiro, dizem que o Banco Central (BC) atua, ao mesmo tempo, como regulador e operador desse meio de pagamento digital, incorrendo em conflito de interesses. Segundo, alegam que os demais meios não têm como concorrer com o sistema de custo zero oferecido pelo governo. É evidente que nenhuma das queixas para de pé.
O Pix é um sistema aberto que pode ser usado por qualquer empresa, inclusive as americanas — a própria Visa criou uma subsidiária para explorar o mercado de transações instantâneas valendo-se de iniciativas do BC. E sistemas de pagamentos instantâneos não são exclusividade brasileira. Antes do Pix, a Índia já tinha sua Interface Unificada de Pagamentos (UPI). No Reino Unido, existe o Faster Payments, na Austrália o NPP, em Cingapura o PayNow, na Tailândia o PromptPay. Os próprios americanos criaram o Zelle, serviço da Early Warning Services — controlado por grandes bancos como JP Morgan Chase e Bank of America —, que também sofre resistência das bandeiras de cartão, receosas de perder a receita da cobrança de taxas.
O BC não opera o Pix por acaso. O sistema financeiro brasileiro tem longa história de convívio com surtos inflacionários. Para proteger o dinheiro dos efeitos corrosivos da inflação, as instituições financeiras vendiam aplicações de prazos cada vez mais curtos. Para isso, se viram obrigadas a desenvolver tecnologias avançadas. Um efeito inesperado do descontrole de preços foi ter florescido no Brasil um dos sistemas financeiros mais ágeis e modernos do mundo, cuja operação era centralizada no BC. Antes do Pix, já havia compensação em 48 horas de cheques, diária de DOCs e instantânea de TEDs — enquanto os americanos mantinham o hábito de mandar pelo correio cheques que por vezes levam semanas para cair na conta depois de depositados.
A ideia de um sistema instantâneo de pagamentos foi uma evolução natural do que já existia. Ela surgiu no BC em 2016, e o Pix foi lançado em 2020, com a intenção de aumentar a concorrência, reduzir o custo das transferências bancárias e ampliar a inclusão financeira. Os objetivos foram amplamente atingidos, e a bancarização crescente da população beneficia as próprias empresas americanas que reclamam. Mais de 170 milhões de brasileiros já fizeram pelo menos um Pix. As operações passam de 200 milhões por dia e, em janeiro, somaram 7 bilhões. Em outubro, transitaram pelo sistema mais de R$ 3 trilhões, ou três PIBs mensais.
Os cartões de crédito se adaptaram aos costumes brasileiros e hoje vivem mais dos juros implícitos no parcelamento que das taxas que afirmam perder para o Pix. Há temor de que o sistema se espalhe pelo mundo e até de que sirva de base a uma moeda alternativa ao dólar. Ora, chega a ser irônico que os Estados Unidos, pioneiros em avanços na economia digital, se incomodem com o uso inteligente de tecnologias de ponta. Em vez de acionar lobbies em Washington, as empresas americanas deveriam tratar de acordar para não perder a corrida global de pagamentos instantâneos para sistemas desenvolvidos em países como Índia ou Brasil.
Impressionante. O Judiciário virou palanque para injustiças e comícios para causas de todos os tipos, apesar da Lei ignorada ser a pauta condutora para as decisões na Jurisdição. Alguma coisa está fora da ordem nacional…
A MISOGENIA NÃO MATOU HENRY, por Thaís Oyama, no jornal O Globo
Quando Henry Borel, de 4 anos, deu entrada no hospital carioca Barra D’Or já sem sinais vitais, sua mãe, Monique Medeiros, endossou a versão do namorado, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, segundo a qual a criança havia caído da cama. Na quinta-feira passada, Dr. Jairinho, como é conhecido, foi condenado a 43 anos de prisão pela morte de Henry. Sete laudos concluíram que o menino morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causada por ação contundente. Peritos descartaram a hipótese de acidente doméstico.
Ao longo do julgamento do casal, Monique admitiu que o filho disse a ela duas vezes que o “tio” o agredia. E reconheceu ter recebido ao menos um relato da babá por suspeitar que Jairinho maltratava Henry quando se trancava no quarto com ele.
Monique, portanto, sabia que o filho corria riscos no convívio com o parceiro — um agressor contumaz que, segundo laudo psiquiátrico, se comprazia em infligir dor em crianças. Mas, entre se separar do namorado para proteger o filho e continuar com ele, mesmo expondo a criança ao perigo, ela escolheu a segunda opção. Os sete jurados do caso, diante do que viram e ouviram ao longo de 11 dias de julgamento, consideraram Monique responsável por homicídio culposo e omissão diante da tortura sofrida pelo filho.
A juíza Elizabeth Louro, porém, decidiu dar à condenada o perdão judicial pelo crime de homicídio culposo. Como considerou que a pena pela omissão diante de tortura já havia sido cumprida por Monique durante o processo, ordenou a expedição do seu alvará de soltura logo depois da leitura da sentença. Monique foi solta no mesmo dia.
O perdão judicial é um benefício cabível quando a consequência do crime impõe ao réu um sofrimento tamanho que torna a pena desnecessária. A juíza avaliou que a dor de perder o único filho, para Monique, já constituía castigo suficiente. Mas não só. Monique, afirmou Elizabeth Louro, merecia o benefício porque, ao não ajustar seu comportamento ao padrão ditado pela sociedade, foi vítima de um “massacre” social e misógino. “É que o papel culturalmente reservado à mulher nos moldes patriarcais não só dela exige ser mãe, mas, muito além, a mãe perfeita”, disse. Se a intenção da magistrada era prestar um serviço às mulheres e ao aprimoramento da Justiça, é mais provável que tenha contribuído para ajudar a desmoralizar ambas.
Ao invocar conceitos como misoginia e discriminações de gênero, ambos presentes em sua sentença, a juíza introduziu uma categoria ideológica como parte da sustentação de uma decisão penal. Por essa lógica, as mulheres, vítimas estruturais do patriarcado, têm direito a um bônus moral, dispensadas de ter sua conduta julgada pelos mesmos critérios aplicáveis aos demais réus. Com sua fundamentação, ela conseguiu, ao mesmo tempo, lançar a retórica feminista no terreno da caricatura e levar ao paroxismo uma distorção cada vez mais frequente em certos círculos progressistas: a ideia de que mulheres não devem ser tratadas como seres iguais aos homens, mas sim moralmente superiores — agora também perante a Justiça. Nesse terreno, a fundamentação produziu consequência ainda pior.
Quando a lei deixa de ser aplicada de forma universal para ser filtrada pelo critério das identidades — mãe e mulher, no caso de Monique—, que outras categorias, por desigualdades históricas, terão direito a ganhar desconto nas sentenças? Quem escolherá quais identidades serão beneficiadas e quais ficarão de fora? Os já bastante desacreditados tribunais brasileiros ganharão ou perderão a confiança da população diante da percepção de que a categoria a que pertence o réu importa mais que os fatos?
De volta à morte do menino Henry: crianças dependem dos pais para protegê-las dos perigos do mundo. Henry dependia de Monique. Monique falhou miseravelmente com ele. E o patriarcado não tem nada a ver com isso.
POR AMIZADE, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...
Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?
Será o caso de lembrar que os senhores que comandam as instituições portas de entrada para o acordo, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, sentaram-se à mesa do clube do uísque londrino de Vorcaro, em abril de 2024, com os delatáveis Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Hugo Motta estava lá. Clube do uísque vorcárico cuja versão nova-iorquina, de maio daquele ano, teria Ciro Nogueira, Cláudio Castro e o onipresente Motta.
(Será o caso de lembrar a mensagem de Vorcaro à noiva, em março de 2025, poucos dias antes do anúncio do memorando de entendimento para a compra do Master pelo BRB: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”.)
Confrarias que tanto impõem nomes incontornáveis, cujas ausências em propostas de delação redefiniriam o conceito de escárnio, quanto explicam a essência peculiar da colaboração premiada à brasileira. Colaboração premiada à brasileira, exposta no contrato firmado por Mauro Cid, cuja delação foi reformada até entregar – não será crença inverossímil – o que Xandão queria. Ninguém – da inteligência jurídica influente – reclamou; ninguém, entre os virtuosos defensores monopolistas do estado democrático de direito. Era um golpista, afinal.
Com Vorcaro, consideradas as relações do sujeito em (a partir de) Brasília e a natureza de seus golpes (cuja prosperidade dependeu desses relacionamentos), as reações são diferentes, em disputa o controle sobre a delação seletiva do cara; sobre a capacidade de lhe denunciar a delação seletiva. Dado – admitido – que a delação será seletiva, lançada está a campanha por não estar nela; no que formará a plantação na imprensa de ministros do Supremo preocupados com a carga pública para que o banqueiro entregue ministros do Supremo.
Disputa-se o benefício da mentira. O benefício de fazer prevalecer o texto segundo o qual a invisibilidade do “elefante pintado de azul” (apud Flávio Dino), que engordava charutando pela Praça dos Três Poderes, derivaria da incompetência dos fiscais – e não de estarem todas as turmas sobre o bicho Master.
Para (por ora) a tranquilidade geral do sistema de poder no Brasil, Vorcaro, amante do cinema e da hotelaria nacionais, parece insistir – no que seria mais uma oferta de acordo – na tese de que distribuía milhões a autoridades, com ou sem contrato, “por amizade”. Os gonets querem acreditar.
A SOBERANIA SEQUESTRADA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o clã Bolsonaro vêm prestando ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT um serviço político de valor inestimável: devolveram à campanha presidencial deste ano a palavra “soberania”, que não faz muito tempo ajudou o presidente a recuperar um pouco sua popularidade e que os petistas, por isso mesmo, estavam ansiosos para resgatar.
Primeiro veio a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, anunciada logo após a visita do candidato Flávio Bolsonaro à Casa Branca e que, segundo os petistas, abrirá caminho para ações americanas no Brasil. Em seguida, veio a ameaça dos EUA de impor novas tarifas sobre produtos nacionais e, supremo pecado, contra o Pix – inovação pública que se tornou parte da vida dos brasileiros de todas as ideologias e que incomoda os administradores americanos de cartões de crédito.
Pouco importa que as ações dos EUA sejam pautadas exclusivamente pelos interesses internos de Trump e que os esforços da família Bolsonaro para influenciar a Casa Branca a tomar decisões contra o Brasil, na expectativa de que prejudicassem Lula, são praticamente irrelevantes. O que importa, do ponto de vista da campanha eleitoral, é que Lula e os morubixabas petistas mais uma vez ganharam a chance de posar como defensores da soberania nacional diante de uma ingerência estrangeira. Não é pouco para um governo de resultados modestos e de uma candidatura, a de Lula, que nada tem a oferecer ao País.
Eis a armadilha brasileira. De um lado, o patriotismo de fancaria dos Bolsonaro, cuja devoção a Trump tornou-se disposição servil de buscar em Washington aquilo que não consegue obter nas instituições brasileiras. Não raro, integrantes do bolsonarismo tratam tarifas, sanções ou gestos de pressão contra o Brasil como vitórias de seu campo político, deixando de agir como oposição a Lula para se comportar como despachantes de interesses estrangeiros. De outro lado, há a transformação da soberania em ativo de campanha, como se o demiurgo petista fosse o único capaz de responder à altura ao imperialismo trumpista combinado à vassalagem bolsonarista.
É claro que não se pode permitir que o cálculo político de um governo estrangeiro redefina, segundo seus próprios interesses, os termos de um problema brasileiro. Mas isso não torna Lula proprietário do tema. A soberania nacional não pertence ao PT, à esquerda, à direita nem a qualquer governante de turno. Pertence ao Estado brasileiro e à sociedade que ele representa. O fato de Trump e os Bolsonaro terem aberto uma avenida política ao lulopetismo não obriga o País a aceitar que Lula desfile sozinho por ela, como se todo crítico de seu governo fosse cúmplice do entreguismo bolsonarista.
Convém separar o dever republicano da conveniência lulopetista. Defender o Brasil de pressões externas é obrigação de qualquer presidente, mas não se pode confundir soberania com licença para bravatas diplomáticas, protecionismo improvisado, estatismo anacrônico ou blindagem ideológica de um governo medíocre. Tampouco se deve permitir que a crítica legítima ao servilismo bolsonarista interdite o debate sobre os erros de Lula, sua política externa errática, sua dificuldade de modernizar a economia e sua incapacidade de apresentar uma política robusta de segurança pública.
Registre-se, porém, que há um limite eleitoral que Lula e o PT conhecem. Soberania é palavra nobre, mas vaga. Mobiliza sentimentos legítimos de dignidade nacional, porém não organiza sozinha as preocupações imediatas de quem enfrenta inflação de alimentos, insegurança, serviços públicos ruins, baixa renda e descrença na política. Para o eleitor comum, o tema só ganhará densidade se traduzido em consequências concretas: empregos preservados, exportações defendidas, empresas competitivas, crime enfrentado, fronteiras vigiadas, tecnologia protegida, instituições respeitadas e governo capaz de negociar com firmeza.
O Brasil tem o dever de reagir a qualquer tentativa de coerção estrangeira. Mas terá fracassado se essa reação servir apenas para alimentar a campanha de Lula ou encobrir a falta de projeto de seu governo. Soberania não é comício, nem salvo-conduto para populismo.
QUANDO A CONFIANÇA COMEÇA A SE DESGASTAR
A democracia depende da confiança da população em seus representantes. No entanto, quando promessas são abandonadas, discursos mudam e os mesmos grupos políticos parecem se acomodar ao poder, é natural que surjam questionamentos por parte dos cidadãos.
Em Gaspar, muitos eleitores observam com estranheza o silêncio de representantes que, durante a campanha, se apresentavam como combativos, fiscalizadores e defensores intransigentes dos interesses da população. A vereadora que defendia a bandeira de que “quem tem dor tem pressa” é cobrada por parte da comunidade para manter a mesma intensidade de atuação após a eleição. Da mesma forma, surgem questionamentos sobre a coerência entre discurso e prática de outros representantes eleitos.
A situação se torna ainda mais delicada quando se observa o cenário político mais amplo. Em Santa Catarina, ao longo dos anos, diversas operações policiais e investigações atingiram prefeitos, vereadores e agentes públicos. Independentemente do resultado de cada processo, a sucessão desses episódios contribui para o aumento da desconfiança popular em relação às instituições.
Recentemente, um caso que ganhou repercussão envolveu o IÇARAPREV, instituto de previdência dos servidores municipais de Içara. O Tribunal de Contas de Santa Catarina apontou irregularidades em aplicações financeiras realizadas em fundo ligado ao então Banco Máxima, atualmente Banco Master. As aplicações investigadas somaram aproximadamente R$ 3,3 milhões, e houve determinação de ressarcimento de valores aos cofres do instituto. Para muitos cidadãos, episódios dessa natureza reforçam a necessidade de fiscalização rigorosa sobre a gestão dos recursos públicos.
Também ganham repercussão denúncias eleitorais envolvendo práticas ilícitas. Quando surgem acusações de compra de votos mediante oferecimento de dinheiro, bens ou até mesmo drogas ilícitas, a preocupação ultrapassa a esfera eleitoral e passa a atingir diretamente os fundamentos éticos da democracia. Se comprovadas, práticas dessa natureza representam não apenas uma violação da legislação eleitoral, mas um ataque à liberdade de escolha do eleitor.
Diante desse cenário, cresce entre muitos cidadãos a percepção de que as disputas eleitorais nem sempre produzem a renovação esperada. Surge a sensação de que adversários de campanha tornam-se aliados após as eleições, que críticas desaparecem quando determinados grupos chegam ao poder e que interesses políticos acabam prevalecendo sobre os interesses da população.
E é justamente aí que nasce a crise de confiança. Não porque existam provas de acordos ocultos entre todos os agentes políticos, mas porque a falta de posicionamento, a ausência de fiscalização firme e o silêncio diante de temas relevantes acabam alimentando suspeitas e descontentamento.
A população não espera perfeição de seus representantes. Espera independência, coerência, transparência e coragem para fiscalizar, independentemente de quem esteja ocupando o poder. Afinal, o mandato pertence ao povo, e a confiança depositada nas urnas precisa ser honrada diariamente por meio de ações concretas e não apenas por discursos eleitorais
O mau exemplo do império que pode impor, não justifica o mau exemplo de quem para competir, precisa sacrificar direitos, saúde física e mental dos seus
TRUMP NÃO OLHOU PARA O PRÓPRIO UMBIGO, por Raquel Landin, no jornal O Estado de S. Paulo
No seu afã protecionista, o presidente Donald Trump decidiu remontar seu arsenal tarifário, mas se esqueceu de olhar para o próprio umbigo.
Partiu de uma premissa louvável: punir países que produzem ou importam mercadorias que utilizam trabalho escravo.
Porém, produziu um absurdo: taxou em cerca de 12,5% mais de 80 países, incluindo Noruega, Suíça e todos os europeus. Lá no meio da lista está o Brasil.
Segundo a ONG Walk Free, baseada na Austrália, os EUA, até pelo tamanho de sua população e economia, são o maior escravizador das Américas.
Em 2023, 1,091 milhão de pessoas viviam no país em condições análogas à escravidão, número superior ao 1,053 milhão do Brasil e aos cerca de 800 mil do México.
Conforme a ONG, a situação americana é resultado de trabalho forçado nas prisões do país, mas também de serviço doméstico não remunerado de imigrantes ilegais, de exploração de imigrantes em fazendas, exploração de mulheres na prostituição, casamento forçado de crianças, entre outros.
Os americanos também importam um volume imenso de produtos feitos com trabalho escravo: US$ 169,6 bilhões, conforme a Walk Free. E, junto com os chineses, se recusam a assinar tratados internacionais que combatam essa prática.
Além disso, os trabalhadores americanos ganham mais que os brasileiros por hora, mas, quanto mais informais, menos protegidos. Lá não existe a licença-maternidade ou o SUS. Se alguém se acidenta, vai depender de convênio de saúde privado.
O enfraquecimento da Organização Mundial de Comércio (OMC) tornou mais difícil combater esse tipo de medida arbitrária vinda dos EUA ou de qualquer país do mundo.
Não dá mais para abrir um painel e combater via multilateralismo. Qualquer revés tem de vir de dentro dos EUA por reclamação na própria Justiça americana.
O primeiro tarifaço de Trump, que impôs 10% de sobretaxa para vários países do mundo, estava baseado na chamada Lei de Emergência Econômica.
A alegação era de que os Estados Unidos sofriam com o déficit provocado pelo comércio internacional. Foi derrubado pela Suprema Corte americana, que considerou que Trump usurpava de seus poderes.
Agora será mais difícil, porque o instrumento utilizado, apesar de absurdo, é menos frágil juridicamente, dizem os especialistas.
“É mais provável conseguir excluir um setor ou um produto do que derrubar toda a lei”, diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio do Barral Advogados Associados.
TUDO, MENOS MEXER NO PIX!, por Eliane Cantanhêde, no jornal O Estado de S. Paulo
Os EUA podem até ameaçar duplamente com mais tarifas, pela Seção 301 e por alegação de “trabalho forçado”, mas não se atrevam a mexer com uma coisa: o Pix, que mais de 170 milhões de brasileiros (93% dos adultos do País) usam e não aceitariam voltar para as velhas notas amassadas, desagradáveis, que exigem troco, algo cada vez menos disponível.
Gente que faz negócio sujo é que gosta de dinheiro vivo, gente trabalhadora ou empreendedora não abre mão do Pix. Donald Trump tende a dividir o Brasil, na mesma proporção da polarização política, ao declarar PCC e CV como “terroristas” e se autoconceder o direito de pintar e bordar por aqui, como fez na Venezuela. Mas ameaçar o Pix não divide, e sim une de lulistas a bolsonaristas.
Tanto é assim que Flávio Bolsonaro classificou como “grande dia” o da classificação do PCC e CV como “terroristas”, mas tratou, rapidinho, de desmentir, ou tentar desmentir, a sensação generalizada de que estava por trás da ameaça de Trump ao Pix e até postou foto com um cartaz dizendo que “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”.
Versão de Flávio não se leva a sério, já foi pego na mentira, por exemplo, negando com uma gargalhada que Daniel Vorcaro tivesse financiado o filme Dark Horse, horas antes da divulgação do áudio em que pedia a bagatela de R$ 134 milhões a Vorcaro, para o filme sobre o pai. Mentira tem perna curta.
Logo, o que transparece na pressa em negar que tenha incentivado Trump a meter a mão no nosso Pix e dizer que até tentou dissuadi-lo da ideia é a certeza do quanto isso afetaria sua candidatura à Presidência. Afinal, foi logo depois do encontro e da foto com Flávio na Casa Branca que Trump voltou sua metralhadora giratória contra o Brasil.
Primeiro, o PCC e o CV como pretexto para intervir no Brasil; depois, o anúncio, sem comunicação ao governo, de tarifas de 25% como sanção por “concorrência desleal”, dentro da Seção 301; agora, mais 12,5% por “trabalho forçado”. Coincidência? E Flávio defenderia a ingerência externa, mas não o bocão sobre o Pix? E o tal “trabalho forçado”?
Trump chamou Flávio de “jovem inteligente que ama muito o seu país” e pode até querer intervir no Brasil, mas ele não vota aqui. Os 160 milhões de brasileiros que votam não devem gostar de mexerem no nosso Pix de cada dia e de Flávio no meio disso. Segundo a Genial/Quaest, no Estadão, a mentira e o áudio com Vorcaro já abalam a credibilidade do candidato entre os eleitores “independentes” (nem Lula nem Bolsonaro) e são eles, justamente, os que devem decidir as eleições. Imaginem a pimenta do Pix nesse angu…
STF É A PANELA PRESTES A EXPLODIR, por Vera Magalhães, no jornal O Globo
Passada a semana do feriado, a volta ao trabalho presencial deverá ser acompanhada por um clima para lá de pesado no Supremo Tribunal Federal (STF). As tensões que vêm se acumulando entre os ministros nos últimos meses, em razão de divisões internas e discordâncias quanto ao papel do Judiciário no jogo institucional, tendem a deixar os bastidores e resultar em algum tipo de confrontação explícita.
Os gatilhos são vários, mas o estopim foi aceso com a organização de um evento pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Herman Benjamin, para tratar de ética no Judiciário, simultaneamente à realização do Fórum de Lisboa, evento anual promovido pelo IDP, instituição de ensino fundada pelo decano do STF, ministro Gilmar Mendes.
O evento, que está em sua 14ª edição, ganhou na imprensa e entre os frequentadores o apelido de “Gilmarpalooza”, numa analogia entre a sua grandiosidade e o conhecido festival internacional de música. Todo ano reúne diversas autoridades brasileiras, portuguesas e de outros países, além de empresários e acadêmicos do mundo jurídico, numa programação de palestras, mesas de debates e lançamento de livros.
A confluência de autoridades e empresários com interesses nos três Poderes num ambiente propício ao lobby tem sido uma das razões para eventos dessa natureza terem entrado na mira dos críticos. O congresso organizado pelo presidente do STJ, que contou com palestras do presidente do STF, ministro Edson Fachin, e da ministra Cármen Lúcia, escolhida por ele para relatar um até aqui incipiente código de conduta da Corte, foi marcado por críticas indiretas a essas e outras práticas.
Ficou explícita a divisão vigente hoje no Supremo. De um lado, o grupo sob a órbita de influência do decano e de Alexandre de Moraes. De outro, Fachin, um presidente minoritário que enfrenta imensa dificuldade de implementar a agenda que timidamente empunhou.
O próprio Gilmar já tratou de tirar o mal-estar da coxia ao cobrar publicamente Fachin pela paralisação da discussão de temas importantes no tribunal. Ele acusou o colega de recorrer a filibuster, prática de obstrução legislativa característica do Senado dos Estados Unidos, e listou uma série de processos importantes, com repercussão econômica, que se encontram parados.
Há também temas da política pendentes de decisão por iniciativa da ala ligada ao decano. Ele próprio pediu vista da ação que questiona as mudanças introduzidas pelo Congresso à Lei da Ficha Limpa. Essa indefinição condiciona a possibilidade de vários políticos que estavam inelegíveis, mas poderiam ser candidatos graças à nova interpretação dada pelo Legislativo, prosseguirem com suas campanhas.
O ministro Flávio Dino, que integra o grupo de Gilmar, também paralisou a discussão sobre a realização de eleições diretas ou indiretas no Rio de Janeiro para suprir a vacância criada com a renúncia do governador e do vice — diferentemente de outros estados que passaram por situações similares, mas já realizaram pleitos indiretos.
Para além das divergências jurídicas e filosóficas sobre o papel do Judiciário, existe ainda um elefante estacionado no plenário do STF que torna as relações ainda mais explosivas, e ele se chama caso Master. O relator do caso, André Mendonça, designado depois que Dias Toffoli finalmente se declarou suspeito para continuar relatando o caso a que ficou aferrado por mais de dois meses, tem conduzido o explosivo inquérito longe dos holofotes da imprensa e das redes sociais, mas sob o escrutínio desconfiado de colegas.
Os próximos dias também fornecerão combustível extra para a crise, com a decisão do Ministério Público Federal e do relator sobre a nova tentativa de delação de Daniel Vorcaro, que, a depender do que decidir revelar, pode engolfar integrantes da já conflagrada Corte, como Toffoli e Alexandre de Moraes.
GILMARPALOOZA, por João Brandão, diretor Executivo do Instituto Transparência Brasil, no jornal Expresso, Lisboa, Portugal
“No início de julho do ano passado, o Aeroporto de Lisboa atingiu o seu limite de aterragem para jatos privados, forçando diversas aeronaves a desviarem‑se para Cascais e Faro. A razão? Um fluxo extraordinário de grandes empresários brasileiros.
Não chegavam à capital para aproveitar o verão europeu. Tampouco se tratava de uma conferência empresarial — ou seria? O motivo dessa invasão foi o 13.º Fórum de Lisboa, realizado na Universidade de Lisboa, e sobretudo o seu animado programa paralelo de eventos sociais. Nesta semana, é de esperar novo engarrafamento de aviões de luxo nos céus portugueses, para a atual edição deste evento anual, que começa esta segunda-feira.
Oficialmente, o Fórum de Lisboa é coorganizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), juntamente com o Instituto de Ciências Jurídico-Políticas (ICJP) da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O seu site descreve-o como um espaço anual de diálogo sobre “desafios, visões e diferentes modelos de sistemas jurídicos presentes em ambos continentes e a partir de perspetivas variadas”.
Até à 11.ª edição, chamava-se “Fórum Jurídico de Lisboa”, mas, à medida que a participação se expandiu muito para além dos círculos (e dos interesses) jurídicos, os organizadores optaram por retirar a palavra “Jurídico”.
No Brasil, porém, o encontro é amplamente conhecido como “Gilmarpalooza”. O termo faz eco do festival de música “Lollapalooza”, conhecido pela sua escala e intensidade, combinando-o com o nome de Gilmar Mendes, o mais longevo juiz do Supremo Tribunal Federal do Brasil, proprietário do IDP e principal patrono do Fórum.
Em 2023, o então presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Arthur Lira, abriu a sessão inaugural do Fórum. Apenas semanas antes, a Polícia Federal tinha identificado apontamentos relacionados com despesas pessoais pagas em seu benefício por um assessor e um motorista — ambos visados numa investigação por desvio de verbas públicas destinadas à aquisição de kits de robótica escolar no estado brasileiro de Alagoas.
Uma semana após o Fórum de Lisboa, já de volta a Brasília, o juiz Gilmar Mendes suspendeu essa investigação contra o seu keynote speaker. Lira já acumulava um histórico significativo de acusações de corrupção — e até uma condenação, posteriormente anulada — quando foi convidado para o Fórum. Não é caso único: vários outros oradores estiveram envolvidos em investigações de corrupção ou têm vínculos com empresas sob escrutínio.
A própria Fundação Getúlio Vargas (FGV), coorganizadora do evento, e os seus dirigentes, enfrentaram investigações relevantes por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais — posteriormente interrompidas por decisões de Gilmar Mendes, que também suspendeu medidas cautelares contra executivos da instituição. Mendes não se declarou impedido para julgar o caso, apesar da extensa parceria do seu IDP com a FGV no âmbito do Fórum e noutros projetos.
O Fórum de Lisboa constitui um caso peculiar de interesse extraordinário do setor privado num seminário académico. Em 2025, 64 executivos de grandes empresas e associações empresariais participaram como oradores. O envolvimento do setor privado no programa social paralelo é ainda mais intenso, com jantares e receções opulentas em espaços de luxo da cidade.
Investigações jornalísticas de 2024 revelaram que os anfitriões desses eventos eram partes em, pelo menos, 145 processos pendentes nos tribunais superiores do Brasil, incluindo o Supremo Tribunal Federal — onde Mendes é o juiz mais antigo em funções. Centenas de autoridades brasileiras e portuguesas — em especial magistrados dos tribunais superiores — circulam por esses encontros.
O sucesso do Fórum inspirou eventos semelhantes no estrangeiro, que combinam uma aparência académica com interações altamente problemáticas entre atores privados e juízes. Frequentemente realizados em capitais estrangeiras, estes fóruns contornam regulamentações nacionais sobre este tipo de contacto e distanciam-se confortavelmente do escrutínio público.
Um desses “filhotes” do Gilmarpalooza foi o 1.º Fórum Legal: Brasil de Ideias, realizado em Londres em 2024. Organizado pelo Grupo Voto, uma empresa privada que se apresenta como “a mais importante empresa de diplomacia empresarial e interlocução política no Brasil”, o evento decorreu no “The Peninsula”, um dos hotéis mais luxuosos do Reino Unido, com diárias entre 800 e 8.100 libras.
Gilmar Mendes marcou presença, tal como outros dois juízes do Supremo Tribunal Federal, mais de uma dezena de magistrados de tribunais superiores, o Procurador-Geral da República, o ministro da Justiça e o diretor-geral da Polícia Federal. Entre os patrocinadores, responsáveis por cobrir viagens e alojamento de luxo, encontrava-se a British American Tobacco, empresa com processos no Supremo brasileiro e que se beneficiou de decisões dos juízes convidados.
Outro patrocinador foi o Banco Master, grande financiador da programação social, que incluiu jantares em restaurantes com estrelas Michelin, uma degustação de whiskey no valor de 570 mil euros, um espetáculo particular do cantor Seal e até prostituição, segundo revelado pela imprensa.
O Banco Master, que gastou cerca de 10 milhões de euros com autoridades brasileiras em eventos deste tipo em Londres, Nova York e Lisboa (cerca de 1,4 milhões de euros na programação social e jatos privados para o Fórum de Lisboa), está a ser investigado pela maior fraude bancária da história brasileira. Várias das autoridades comensais em Londres e Lisboa foram envolvidas no escândalo.
É neste contexto que que se espera o engarrafamento habitual de jatos privados na capital portuguesa. Este ano, o embaraço criado pelo escândalo do Banco Master e uma pressão pública cada vez maior sobre a ética dos juízes do Supremo brasileiro poderá diminuir um pouco o fluxo de políticos, empresários e magistrados ao convívio animado do “Gilmarpalooza”.
Ainda assim, este continua a ser o maior festival de lobby jurídico do planeta, mas a sociedade portuguesa ainda não se dá conta do trânsito de influências que acorre todos os anos a Lisboa, hospedado pela maior Universidade pública do país.”