Texto acrescentado no último parágrafo do artigo principal diante da repercussão do fato, às 8h28min deste sábado dia 27.06.2026. Ontem, o governador Jorginho Mello, PL, com três anos de atraso, sem uma marca de governo, com uma habilidade de cego nas composições políticas para ficar no Centro Administrativo por mais quatro anos e acossado, diante disso tudo, pela candidatura surpresa no mesmo campo conservador de João Rodrigues, PSD, o qual não pode nas contas do próprio entorno tático de Jorginho chegar ao segundo turno, pois dessa forma se tornará um perigo para a reeleição Jorginho, criou um factoide de última hora e lançou apenas uma intenção de colocar na praça o edital de construção do lote quatro da Viamar – a via alternativa à colapsada BR-101 – entre Navegantes e Itajaí, ou seja 22,5 dos 145 quilômetros, quando pronta.
Custo fictício desta iniciativa e farra? R$2,2 bilhões de R$20 bilhões projetados para tudo. E a partir daí vem os incontroláveis aditivos, atrasos, surpresas, inspeções, medições investigações, polêmicas…
Esta via é indiscutível, de fato, uma necessidade à mobilidade, competitividade e logística. Não contesto um milímetro. Está na cara de todos. É também a prova de que Jorginho está atrasado. Enxergou tarde. Ou foi atropelado pelo medo. A verdade, também, é que alguém precisa começar e neste projeto deveria estar uma ferrovia para ligar os portos.
Todavia, o ato de ontem foi para exibir um papelinho, para criar expectativas, e gravar imagens de campanha. É no fundo, um papelinho, marquetagem barata e manjada, repetida e antiga. É num ato de pré-campanha. É uma enganação. É um canal escancarado à enrolação, falta de transparência tão comum nesta área, bem como uma porta à corrupção.
É papelinho, porque se der tudo certo, e as propostas, se houverem, serão aceitas até o dia 21 de setembro. Coincidente, duas semanas antes das eleições, dia quatro de outubro. Se der certo, a papelada levará semanas para se ver se tudo está certo, se as empresas e consórcios pretendentes possuem condições técnicas e econômicas. E daí, outro rosário: as contestações e aí também terão passadas as eleições não só a de primeiro turno, mas a de segundo, se Jorginho for obrigado à ela.
Vão contratar a obra sem um estudo, aprofundado sério. Por onde está riscado no mapa, é cheio de problemas geológicos, ambientais e interesses de investidores. Alguns deles já fizeram afundaram o caminho em Florianópolis, acompanhados com padrinhos políticos para salvá-los ou levar vantagens? É tempo de troca de votos e apoios.
Esta obra, sem estes estudos e até projetos de execução sólidos, é uma porta aberta para atrasos, mas principalmente para aditivos bilionários. É uma rocha aqui que não estava prevista, uma terra de turfa ali, uma indenização conturbada lá, bichos e árvores raras acolá, se não encontrar uma terra indígena ou quilombola que surgirá por ONGs organizadas, partidos radicais de esquerda, no meio ou à beira do percurso para ser discutida interminavelmente na Justiça Federal.
Agora, para terminar e continuar nas dúvidas, todas criadas pelos mesmos políticos que estavam ontem no palanque.Os discursos lembraram que Santa Catarina neste aspecto está atrasada em pelo menos 20 anos de abandono de do governo Federal. E é verdade. Acho que muito mais pelo meu testemunho de vida. Mas, nestes 20 anos mencionados está o governo de Jair Messias Bolsonaro, PL. Ele foi padrasto de Santa Catarina. Aqui só passeios, e o uso dos votos dos estado para ele e os seus, inclusive o longevo inexpressivo vereador carioca Carlos Bolsonaro, PL.
Eu exagero, mais uma vez?
O ex-governador bolsonarista Carlos Moisés da Silva, União Brasil, que foi acusado pelos bolsonaristas como traidor, algo recorrente e doentio dentro do próprio campo ideológico, teve que botar dos bolsos dos catarinenses R$465 milhões em estradas federais
E só com esta iniciativa foi possível, entre outras rodovias federais, a duplicação da BR-470 aqui do nosso lado avançar. Jorginho foi um crítico desta iniciativa de Carlos Moisés. Agora, está recebendo este valor de volta de Brasília para engordar o seu próprio caixa. E se isto fosse pouco, Jorginho, ao tempo da cassada Dilma Vanna Rousseff, PT, era o dono do DNIT de Santa Catarina, por delegação de Valdemar da Costa Neto, PL. Naquele tempo, a BR-101, se enrolou contra os catarinenses. Jorginho mudou ou está fazendo o que sempre fez?
E de onde virá esta montanha de dinheiro para o que está calculado e principalmente, para o que vai aparecer como bilionários aditivos? Ah, mas você já está colocando defeitos antes da obra começar? Mas, perguntar, mais uma vez, não ofende: quando mesmo a Rodovia Viamar começará a se tornar um projeto executivo? No ano que vem ou vai ser engavetado depois das eleições pelo próprio Jorginho, se ele ganhar, por dificuldades técnicas e financeiras? E se João Rodrigues avalizar esta ideia tão necessária que já se ensaia com os pré-candidatos dele ao senado Esperidião Amin Helou Filho, PP, e Antídio Aleixo Lunelli, MDB? Roda na praça um esclarecedor vídeo dos três, com experiência executiva indiscutível no setor público, desmentido a papagaiada de Jorginho e que relatei acima, no dia do festival de besteiras. E Jorginho precisava disso para se descredibilizar mais uma vez? Quem é o guru que o orienta no crepúsculo político dele? Restou criticar a passagem desastrosa e discriminatória, também cheia de bobagens e mentiras, de Luiz Inácio Lula da Silva, PT, por Santa Catarina. No que Jorginho está certo. Até parecem, neste quesito, da mesma balaia. Credo!
NESTA SEXTA-FEIRA, UM ARTIGO PINÇADO DA ÁREA DE COMENTÁRIOS DE UMA LEITORA, MAIS UMA DAQUELAS QUE NÃO TENHO
Escreve-me Maria Paula, nesta semana na área de comentários do artigo QUASE TODOS QUEREM O PODER. MAS, QUANDO NELE, NÃO SABEM O QUE FAZER COM ELE. FICAM SURDOS AOS QUE LHE DERAM ESTE PODER, CERCAM-SE DE BOBOS-DA-CORTE, EXIGEM UMA OPOSIÇÃO SUBMISSA E DESMORALIZADA. QUEREM ANULADOS OS CRÍTICOS. ESQUECEM ATÉ O PRÓPRIO DISCURSO QUE EMBRULHARAM QUASE TODOS PARA CHEGAREM AO PODER PELOS VOTOS LIVRES. Ela é parte do que pensa a maioria dos gasparenses que votaram nele. Ah, mas ele pode estar influenciada pelos meus escritos. Primeiro, é subjugar um eleitor. Segundo, é a de desmentir, convenientemente, o que o governo de hoje e os poderosos de sempre, de que ninguém me lê.
O “selo”[de transparência e comunicação], o delegado e a cidade parada.
É curioso ver a surpresa de alguns com o desempenho do atual prefeito. Afinal, de onde surgiu a expectativa de que Paulo Koerich seria um gestor transformador?
Durante toda a sua vida profissional, nunca precisou prestar contas ao cidadão. Transparência, comunicação e participação popular jamais foram exatamente marcas registradas de sua trajetória. Agora, diante das críticas, a solução encontrada parece ser contratar consultoria para conquistar “selo de transparência”. Uma espécie de transparência terceirizada.
Mas o problema nunca foi o “selo”.
Os grupos econômicos mais influentes da cidade sabiam exatamente o que queriam quando apoiaram sua eleição. E Paulo também sabia qual papel deveria desempenhar. Modernizar a cidade, romper estruturas antigas ou mexer nos centros tradicionais de poder nunca pareceu fazer parte do plano. Mudança de verdade costuma incomodar quem está confortável.
Também não se pode dizer que tenha sido eleito por um histórico de grandes realizações administrativas. Basta observar o estado em que permaneceu, por anos, a própria estrutura da delegacia onde construiu sua carreira. Mais tarde, quando ocupou uma das mais poderosas cadeiras da segurança pública catarinense, os prédios, quartéis e delegacias continuaram envelhecendo à espera de investimentos.
Por isso, talvez a discussão esteja sendo feita no lugar errado. O problema não é a falta de um “selo diamante”. O problema é a falta de obras, resultados e visão de futuro. Paulo não sabe como, muito menos o que fazer.
Porque selo se compra. Transformação …
TRAPICHE
Gaspar, realmente está sem gestor. O Corpo Bombeiros Militar anunciou que vai disponibilizar um moderno caminhão equipado para Gaspar. Quem é o pai da criança nas redes sociais? Um vereador candidato a qualquer coisa. Foi ele que pediu, louvando e está agradecendo
Só para lembrar: Paulo Norberto Koerich, PL, policial civil de 30 anos de carreira que se orgulha transitar neste meio, já foi secretário de Segurança, não teve força para pedir e interferir nesta decisão? Meu Deus. Ou é mesmo ingratidão?
Caixa forrado. A prefeitura de Gaspar vai desembolsar R$4,099 milhões para desapropriar e comprar a Sociedade Carijós, na Margem Esquerda. No local do clube dos Zimmermann’s será uma unidade de educacional. Os minguados sócios que vão dividir a bolada, já aprovaram na assembleia de ontem, conforme publicação em veículo de comunicação local.
A sessão da Câmara desta terça-feira começou com duas ausências – Mara Lúcia Xavier da Costa dos Santos, PP, fez chegar um atestado médico – e terminou com menos da metade dos vereadores presentes, incluindo a líder do governo e integrantes da mesa diretora. Uma sessão por semana.
Todos na vibe técnica. O melhor da sessão da Câmara de Vereadores de Gaspar na terça-feira, foi a presença, a explanação técnica, clara, convincente da metrologista do Alerta Blu, de Blumenau, Emily Cláudia Pereira Ramos, que veio a convite do superintendente da Defesa Civil de Gaspar, o sargento do Corpo Bombeiros Militar, Rafael Araújo Freitas.
Os candidatos se contorceram todos para tirar uma casquinha. O “El Niño” está aí. Se fará o estrago que ele pode fazer, depende de várias condições incontroláveis da natureza. Então, é melhor não esperar pela sorte.
E por falar nisso, é cada vez mais preocupante como o governo de Jorginho Mello, PL, está atrasado e enrolado na recuperação das comportas e seus sistemas da barragem de José Boiteaux e que pode diminuir em até dois metros o nível do Rio Itajaí Açú em Indaial, Timbó, Blumenau e Gaspar. Vídeos que circulam feitos mostram uma distância abissal entre a propaganda e a realidade.
Em Gaspar, nada é diferente no que toca as comportas do Bela Vista e a do Sertão Verde. Falam em milhões, mas de projetos, obras e resultados de verdade, nada até agora.
Gente radical e sem noção. A deputada petista de Blumenau, Ana Paula Lima, jura que trouxe R$27 milhões para Gaspar no seu mandato. O cabo eleitoral dela por aqui, Dionísio Luiz Bertoldi, PT, fez uma moção de agradecimento. Quatro bolsonarista do PL presentes – uma estava ausente – na sessão votaram contra.
Gente sem noção. E essa gente ainda diz que não sabe a razão pela qual Gaspar anda para trás. Na outra ponta, impera hipocrisia. No discurso, se fala que estes recursos são dos pesados impostos do povo, e não do deputado, do vereador. Estão certos. Mas, cada um desses discurseiros, vive gabando o quanto conseguem para a cidade, para justificar as suas cada vez mais altas diárias para viagens a Florianópolis e Brasília. Muda, Gaspar!
Perguntar não ofende. A mulher de Jair Messias Bolsonaro, PL, Michele, está fazendo campanha para o PT, ou apenas está mostrando aos brasileiros o quanto são perigosos os filhos de Jair para a política e o futuro do Brasil?
Então, para matutar sobre o “selo diamante de transparência e comunicação” da empresa especialista de Belém, do Pará e que está custando quase R$100 mil aos gasparenses.
A prefeitura de Blumenau virou mesmo uma sucursal da de Blumenau que tocada por outro delegado está sob ataque de parar a cidade na simples manutenção e de não expurgar o rolo compressor dos donos dela, que se reuniam na pedreira, aqui em Gaspar.
No press release “Gaspar atualiza regras para regularização fundiária“, ao final dele, podia-se de ler, Fonte: prefeitura de Blumenau”. Muda, Gaspar!
Definitivamente, Kleber Edson Wan Dall, Podemos, está de volta ao cenário político e sem medo de ser feliz. Estava em Florianópolis do encontro que discutia a modernização das cidades, o que ele não fez quando no poder de plantão, em Gaspar. Já Paulo Norberto Koerich, PL…
O lixo vai ser tornar um dos problemas a ser enfrentado pelo atual governo, e naquilo que foi aviusado que estava pecando…. Gente teimosa.
Registro. O dono e radialista Joel Reinert, da 89 FM, está temporariamente afastado das atividades profissionais. Se recupera de um acidente vascular, segundo ele, sem gravidade. Este blog, deseja pronto retorno.
Gaspar era conhecida como Coração do Vale e de forma esquisita como Capital Nacional da Moda Infantil. Quem tentou vender esta moda aos passantes daqui, faliu. Agora, Gaspar é a capital estadual de deputados (federais e estaduais) – possivelmente sem votos e chance de eleições – nas eleições de quatro de outubro. O que mostra isto. A incapacidade de diálogo, união e a reconstrução de Gaspar no ambiente políticos e administrativo. Revela à falta de liderança e o olho gordo de todos nos bilionários fundos eleitorais e partidários feitos com os nossos pesados impostos e que estão faltando ao povo pobre, eleitor dessa gente. Voltarei ao tema. Muda, Gaspar!
12 comentários em “DEPOIS DA ANESTÉSICA VITÓRIA DA SELEÇÃO DE FUTEBOL BRASILEIRA DE FUTUBOL É PRECISO ACORDA E OLHAR COMO E PORQUÊ DOS POLÍTICOS, POR ESTA SIMPLES VITÓRIA, ESTAREM NOS DOPANDO, NÃO EM BRASÍLIA, MAS AQUI EM GASPAR, BLUMENAU, VALE E SANTA CATARINA PARA NOS EMBRULHAR MAIS UMA VEZ E NAS ELEIÇÕES DE OUTUBRO”
Pingback: QUANDO O JORNALISMO PLURAL FALHA, O POLÍTICO FAZ FARRA E DISCURSA PARA ALIMENTAR AS BOLHAS NAS REDES SOCIAIS, DEVIDAMENTE ENVENENADAS PARA A CAMPANHA ELEITORAL. JORGINHO MELLO, PL, PISCOU. DESESPERO? PRECISAVA DISSO? E JOÃO RODRIGUES, PSD, O PEGOU NO PU
SINAL DE ALERTA NA AMERICANAS, por Elio Gaspari, nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo
A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.
Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e festas com jovens eslavas.
A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.
A fraude da Americanas mobilizou várias equipes de investigadores e produziu a maior pizzaria dos últimos tempos. Chegaram ao ponto de criar uma CPI que não ouviu ninguém relevante e não apontou para vivalma. Exageraram na exibição do próprio poderio. Soberba.
Só não haviam domesticado a Polícia Federal. Má ideia.
Quando o caso do banco Master começou, urdiu-se uma vacina judicial. Levaram a farinha, o queijo e os tomates. Iam ligar o forno e, sem estridência, alguém pôs na pizza contratos de advocacia e um resort de granfinos no Paraná. O tempero azedou a pizza.
O CANALHA E O TRIBUNAL
O nível de uma banda do Supremo Tribunal Federal chegou a tal ponto que merece atenção um ensinamento do advogado americano Roy Cohn (1927-1986):
“Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz.”
Como promotor, Cohn foi o braço direito do senador Joseph McCarthy na caça às bruxas dos anos 50. Como advogado foi um temível litigante e teve como cliente e discípulo um jovem empresário chamado Donald Trump.
Em setembro chegará às livrarias sua biografia, escrita pelo craque Kai (Oppenheimer) Bird. Seu título diz tudo:
“Um canalha americano.”
MENDONÇA NÃO É MORO
Não custa repetir: André Mendonça não é Sergio Moro. Seu único projeto é sair inteiro do Supremo Tribunal.
CONVERSA DIFÍCIL
A conversa de Lula com o senador Jaques Wagner que resultou no seu afastamento da liderança do governo foi das mais difíceis de seus 80 anos.
MAGGIE HABERMAN
Chegou às livrarias nos Estados Unidos o novo livro da repórter Maggie Haberman. É “Regime Change”, desta vez, com seu colega Jonathan Swan. Destrincha o primeiro ano do governo de Donald Trump. Resulta um presidente vingativo, egocêntrico e mercurial. Na sua Casa Branca o bilionário Elon Musk passou de gênio a doido.
Num de seus melhores momentos eles descrevem a subserviência pós-eleitoral de Mark Zuckerberg, que o havia banido de sua rede, e de Jeff Bezos. Bezos reclamou dos jornalistas do seu Washington Post, e um dos filhos de Zuckerberg escreveu uma carta a Trump dizendo que ele levará os EUA a uma era de ouro.
Puxa-saco é parte da vida, mas presidente tripudiando com a exibição das mensagens que eles lhe mandaram é novidade.
O último livro de Haberman foi uma biografia de Trump. Chama-se “Vigarista”.
TRUMP E O IRÃ
Em outubro passado, o comentarista Tucker Carlson alertou-o para o risco de se meter com o Irã, tema da agenda de Benjamin Netanyahu.
“Não vamos fazer isso”, respondeu Trump.
“Ótimo. Porque a única coisa que pode implodir seu governo é uma guerra com o Irã. Essa é uma armadilha de seus inimigos. Essa gente o odeia. Depois que você entra, é difícil sair. Estropia sua presidência“.
Deu no que deu.
MADURO
Haberman e Swan contam que no dia 21 de novembro o bilionário brasileiro Joesley Batista esteve com Trump e Marco Rubio (seu canal seria Melania, a mulher do presidente). Eterno desconfiado, Trump conduziu a conversa em espanhol para testar a proficiência de Joesley com o idioma.
Batista foi a Caracas e sugeriu a Maduro que renunciasse. Nada feito.
Trump tentou de novo, mandando Tucker Carlson a Maduro. O ditador venezuelano ofereceu ao intermediário americano provas de que as urnas da eleição de 2020 nos Estados Unidos estavam viciadas. Não colou, o recado de Trump era claro: vamos tomar seu país e seu petróleo.
Com a frota americana ao largo, Maduro tentou negociar. Trump oferecia-lhe a carta do exílio. A essa altura, o secretário de Estado Marco Rubio já tinha posto uma coleira na vice-presidente Delcy Rodríguez. O secretário de Estado diz que ela é séria, porém corrupta.
Na véspera do Natal, Trump tinha três opções: Maduro seria mandado para o Qatar, para a Turquia ou para a cadeia. No dia 3 de janeiro Maduro e sua mulher foram sequestrados e estão presos nos Estados Unidos.
A PRIORIDADE DE RUBIO
Marco Rubio credenciou-se para ocupar a Secretaria de Estado com a ideia de que os Estados Unidos perdem muito tempo com a Europa e o Oriente Médio enquanto deveriam ser mais ativos na América Latina.
A encalacrada em que Trump se meteu com o Irã indica que Rubio não foi ouvido por seu chefe, mas já já ele arruma outra encrenca por aqui.
ALEXANDRE E ALCOLUMBRE
Pode vir a ser perda de tempo supor que o próximo Senado votará o impedimento do ministro Alexandre de Moraes. A amizade do doutor com o senador Davi Alcolumbre é uma barreira quase intransponível.
Como a sede é muita, escolherão outra vítima.
VORCARO NA PAPUDINHA
Instalado numa cela da Papudinha, Daniel Vorcaro terá mais clima para refletir sobre a qualidade de sua delação. A cada semana que passa, a Polícia Federal e o Ministério Público precisam menos dela.
A esta altura, sua transferência para um regime de prisão domiciliar é pouco mais que um sonho de noite de inverno.
BOLSONARO X BOLSONARO
Que grande novela dariam as brigas passadas, presentes e futuras da família Bolsonaro.
Ganha um fim de semana em Miami quem souber um só tema de política pública que os divide. É puro Nelson Rodrigues.
GORDON NO PLANALTO
Atribui-se ao escritor Otto Lara Resende uma frase cruel, disparada durante o governo do marechal Castello Branco (1964-1967):
“Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente da República.”
Gordon, um professor de Harvard, era o embaixador americano e não achava a menor graça na piada. Seu senso de humor era limitado.
Já o adido militar, general Vernon Walters, era uma piada ambulante. Renomado poliglota, dizia: “Eu falo sete idiomas e não penso em nenhum.”
Quando falavam que ele urdiu a deposição do presidente João Goulart, respondia:
“Se eu entendesse o Brasil, não teria comprado um apartamento no Panorama Palace Hotel.”
O prédio, construído numa encosta de Ipanema, nunca ficou pronto.
REVER ISENÇÕES TRIBUTÁRIAS É IMPERIOSO, editorial do jornal O Globo
Faltando pouco mais de três meses para as eleições, governo e oposição fazem de tudo para fugir de temas fundamentais, mas impopulares. Nenhum candidato quer nem ouvir falar de reduzir isenções tributárias. Ninguém quer ser acusado de “prejudicar” algum setor ou “ameaçar” empregos em alguma região. Nem mesmo instaurar alguma política para avaliar a eficácia dos programas. Uma vez concedidos, isenções e benefícios têm permanecido doravante inalterados para sempre, e o país tem pagado custo cada vez mais alto.
Pelas contas do próprio governo, a renúncia fiscal da União equivale a 4,4% do PIB, embora a legislação tenha estabelecido um limite de 2%, há muitos anos desrespeitado. Graças à sanha inesgotável de grupos de interesse por toda sorte de isenção, essa proporção tem aumentado consistentemente desde 2011, quando estava ao redor de 3,5%. Considerando o desequilíbrio crônico das contas públicas brasileiras, abdicar de tanta receita — R$ 613 bilhões neste ano, ou 20% da arrecadação administrada pelo Fisco — não faz o menor sentido. A situação é ainda mais dramática por não haver avaliação sistemática dos benefícios, apesar dos movimentos nessa direção.
As distorções são patentes. Nos Estados Unidos, um dos setores beneficiados com isenção de imposto são os semicondutores, base da economia digital. No Brasil, a empresa com maior renúncia é o braço da Honda que fabrica motos. Enquanto o mundo se prepara para a era da inteligência artificial, o foco brasileiro está num produto do século XIX. Segundo análise do Ministério da Fazenda com dados de 2024, 44% das renúncias são destinadas a setores de baixa complexidade econômica e 46% aos de baixa intensidade tecnológica — e a Fazenda deixou fora do cálculo o Simples Nacional, responsável pela maior fatia das isenções, inacreditáveis R$ 134 bilhões neste ano.
Ganha destaque na lista a Zona Franca de Manaus (R$ 36 bilhões). Concebida como temporária, tornou-se permanente, embora traga ineficiência na alocação de recursos. Uma coalizão pan-amazônica de partidos e empresas argumenta que os empregos gerados pelas isenções contribuem para ocupar uma população que, de outro modo, seria atraída pelas atividades que devastam a Amazônia. Mas esquece que montar motos ou aparelhos de ar condicionado não tem relação com a vocação da região ou que a logística para produção em território tão remoto é insana — e emite carbono.
Os benefícios tributários prosseguem em dezenas de linhas de renúncias bilionárias: carnes, agricultura, combustíveis, automóveis, embarcações e aeronaves, fármacos, eventos, microempreendedores individuais, informática e automação, deduções de Imposto de Renda, petroquímica, construção civil, transporte coletivo, futebol e até água mineral. Cada região ou setor agraciado usa os argumentos possíveis e impossíveis para manter as vantagens. A pressão sobre o Congresso é enorme, e o resultado é a inação.
É perfeitamente possível que diversas dessas isenções se justifiquem, ainda que temporariamente. Mas como saber isso sem ao menos promover avaliações independentes? Só assim será possível extinguir o que não é mais necessário para destinar benefícios a atividades com retorno comprovado para a sociedade. As isenções estão voltadas ao passado, e o governo que assumir em janeiro terá de olhar para a frente.
Uma boa leitura, para ainda consegue ler – pois estamos num mundo de recortes de vídeos onde muita gente que os vê não suporta mais de um minuto para não ser esclarecido e gosta de ser enganado neste um minuto. Uma reflexão. É um contexto. Muito bem aplicável entre nós.
O CENTRO PROGRESSISTA PRECISA SE RADICALIZAR, por Fareed Rafik Zakaria, controverso escritor e jornalista indiano-norte-americano, no publicação traduzida publicada no jornal O Estado de S. Paulo
Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.
Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.
No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.
FALHAS. Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.
A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.
Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.
O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.
Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.
Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.
Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.
MERITOCRACIA. A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite
A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.
Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.
Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.
É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.
A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.
Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem.
HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DOS BOLSONAROS, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Se Shakespeare exagerasse um pouco no vinho, talvez escrevesse um dramalhão parecido com o que a família Bolsonaro ora protagoniza para todo o Brasil. Há de tudo ali: intrigas entre madrasta e enteados, o patriarca que não pode falar por si, conspiradores que instigam a cizânia e, sobretudo, a sede irrefreável de poder. Seria divertido, se fosse apenas uma peça de teatro. Mas não: a exposição pública das vísceras da família Bolsonaro, por meio de um vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro com duras críticas ao enteado Flávio Bolsonaro, é uma pequena amostra da natureza degenerada do clã que tem chances consideráveis de voltar a governar o Brasil.
Essa novela só interessa aos brasileiros na medida em que abre uma fresta para testemunhar o projeto político de uma família que fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita.
Desde que Jair Bolsonaro deixou o Exército – onde, não nos esqueçamos, foi punido por insubordinação e chegou a ser acusado de envolvimento num plano para explodir unidades militares –, migrou com sucesso para a política e construiu com os filhos algo que muito apropriadamente pode ser chamado de uma empresa familiar voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família. Mas não para implementar um projeto de desenvolvimento do Brasil, e sim para que todos, sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado.
O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo. É uma habilíssima máquina de mobilização emocional de setores da sociedade construída sobre ressentimentos e a irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988. Nesse balaio de rancores e teorias da conspiração, entram o reacionarismo travestido de “conservadorismo de costumes”, a desconfiança nas instituições republicanas, o desdém pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, donde vem sua força eleitoral.
Sem o nome de Jair Bolsonaro nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político. Michelle, uma espécie de Lady Macbeth da Casa de Bolsonaro, dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma, ainda que negue publicamente essa intenção. Flávio é pré-candidato à Presidência da República. Outros filhos de Bolsonaro têm suas próprias pretensões eleitorais. Cada um se ocupa de seus interesses particulares – e o Brasil, claro, não entra nessa equação.
Nenhum dos protagonistas do reality show da família Bolsonaro perde tempo ou tem competência para discutir a sério assuntos que considera menores, como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade, o desalento entre os jovens, as deficiências da educação básica e a violência urbana. Seria pedir demais. Afinal, a família Bolsonaro nunca se preocupou com nada disso. Sempre foi mais fácil apontar o inimigo – o PT, a imprensa profissional, o Supremo Tribunal Federal e o comunismo internacional, entre outros fantasmas – do que propor soluções para problemas reais sobejamente conhecidos, que exigem competência técnica, habilidade política, respeito por adversários e, acima de tudo, interesse genuíno no bem comum.
O bolsonarismo só sobrevive porque o antipetismo é uma força real e legítima na sociedade brasileira, e Bolsonaro soube como nenhum outro político se apresentar como o candidato anti-Lula. Mas, no que concerne aos interesses do Brasil, isso não basta. Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral.
Felizmente, a sra. Michelle Bolsonaro resolveu fazer um grande favor ao Brasil ao gravar e divulgar seu depoimento a respeito de Flávio Bolsonaro. Assim, deu aos eleitores conservadores a chance de ver, com os próprios olhos, de que material é feito o bolsonarismo original. Quem sabe os estimule, finalmente, a procurar alternativas que estejam genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade – qualidades estranhas a Jair Bolsonaro e sua grei.
A EXPULSÃO DO CAPITAL PRODUTIVO, por Murilo Aragão, na edição eletrônica da Revista Veja
Software institucional do país favorece o rentismo e cria paradoxo
O Brasil vive um paradoxo. Em 2025, consolidou-se como o terceiro maior receptor mundial de investimento estrangeiro direto, com 77 bilhões de dólares, alta de 23% sobre o ano anterior. A participação estrangeira na B3 alcançou níveis recordes. À primeira vista, são indicadores de uma economia atrativa. Ao mesmo tempo, mais de duzentas empresas levaram parte de sua produção para o Paraguai — 70% das maquiladoras paraguaias pertencem a brasileiros. Têxteis, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, eletrônicos e, mais recentemente, a agroindústria passaram a produzir do outro lado da fronteira. O investimento produtivo sai; os produtos retornam.
São dois efeitos do mesmo ambiente institucional. O capital financeiro é atraído pelos juros reais elevados e por ativos únicos, como petróleo, mineração, agronegócio e um grande mercado consumidor. Já a indústria, que pode escolher onde produzir, busca países com menor custo operacional. O diferencial paraguaio é conhecido: tributação simples, estabilidade regulatória, energia barata, encargos trabalhistas significativamente menores e incentivos garantidos por longo prazo. A pergunta correta, portanto, não é por que tantas empresas estão migrando, mas por que tantas ainda seguem no Brasil.
“A pergunta não é por que empresas estão migrando para o Paraguai, mas por que tantas seguem no Brasil”
A resposta está em um software institucional construído em décadas. Não se trata de conspiração, mas da combinação de políticas que favorecem o rentismo e desestimulam o investimento produtivo. O primeiro componente são juros reais persistentemente elevados, consequência da fragilidade fiscal. Emprestar ao governo tornou-se mais rentável e menos arriscado do que investir em produção. O segundo é a complexidade tributária. Embora necessária, a reforma do consumo conviverá até 2033 com dois sistemas simultâneos, prolongando a incerteza justamente quando países concorrentes oferecem regras simples e estáveis. O terceiro é a insegurança jurídica. O Brasil possui mais de 80 milhões de ações judiciais. Todo esforço da Justiça em criar precedentes e até mesmo mudanças modernizadoras de legislação é, em grande parte, ignorado nas instâncias superiores. Além do mais, o investidor é vítima de mudanças frequentes de interpretação tributária, decisões judiciais oscilantes e instabilidade regulatória.
Somam-se a isso encargos trabalhistas elevados, energia cara para um país de vocação hidrelétrica, infraestrutura logística deficiente e um Judiciário lento. Quando esses fatores operam em conjunto, o resultado é um ambiente em que o investidor financeiro prospera, o exportador de commodities mantém competitividade, mas o empreendedor industrial conclui que produzir no Paraguai tornou-se mais racional que investir no Brasil.
A indústria de pequeno e médio porte sempre foi um dos pilares da classe média produtiva. Quando ela migra, encolhe também a base social que sustenta a estabilidade democrática, ampliando a distância entre uma economia cada vez mais financeirizada e uma sociedade mais dependente do Estado. A frase do senador Flávio Bolsonaro, de que o Brasil teria “o melhor ministro da Fazenda do Paraguai”, é injusta com Fernando Haddad, mas aponta para um problema estrutural. O desafio não pertence a um governo. É resultado de um modelo institucional que atravessa diferentes gestões. Ainda há tempo para reescrever esse software.
O RISCO SOCIALISTA NO CASO ORTOBOM, por André Marsiglia, advogado, no Poder 360
A condenação da empresa Ortobom pela 3ª turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) ao pagamento de R$ 300 mil por não possuir mulheres em cargos de gerência vai muito além da promoção de políticas de diversidade. A questão principal é outra: o que significa um Estado, pela força do Judiciário, intervir na liberdade de escolha e de decisão de uma empresa privada?
Se o Estado pode punir a empresa porque seus dirigentes não correspondem a determinado perfil, então já não é a empresa quem escolhe seus líderes. A escolha passa a ser condicionada pela vontade estatal.
E, se é o Estado quem escolhe, a empresa não é mais privada. Disfarçadamente, a decisão aproxima o Estado do que ocorre em regimes socialistas. É legítimo punir uma empresa que discrimine pessoas em razão de seu gênero. Outra coisa, muito diferente, é presumir discriminação simplesmente porque a distribuição dos cargos não corresponde à expectativa do Estado.
Se uma empresa possui menos mulheres em cargos de direção, isso é, por si só, prova de discriminação? O direito não costuma ser tão simplista. Se um homem se casa com uma mulher, não há discriminação porque ele não se casou também com outro homem. Se um cargo público é ocupado por um homem, não decorre daí a obrigação de que outro cargo equivalente seja reservado a uma mulher. Do contrário, a Presidência da República deveria ser obrigatoriamente exercida por duas pessoas: um homem e uma mulher.
A igualdade não é uma fórmula estatística. E promover a igualdade constitucional não significa distribuir cargos, mas criar condições para que todas as pessoas tenham oportunidade de alcançar determinadas posições por seus próprios méritos.
Além disso, parte significativa dos movimentos que defendem políticas dessa natureza também sustenta que o conceito de mulher é definido pela autopercepção de gênero. Ora, se a condição feminina decorre de tamanha subjetividade, qual é o critério jurídico objetivo para que um Tribunal conclua que existem “mulheres de menos” em determinada empresa?
Tudo isso deve nos fazer refletir: estamos combatendo discriminações ou redefinindo, pouco a pouco, os limites da liberdade econômica? Estamos promovendo a igualdade ou caminhando para um modelo socialista?
A história mostra que o caminho para o socialismo, muitas vezes, não começa com a desapropriação de uma empresa. Começa quando o poder público decide que determinadas escolhas privadas já não pertencem mais aos cidadãos.
Um país de malandros? Sim. Mas, de políticos malandros. Além de não trabalharem em qualquer escala, e ganharem fortunas dos cada vez mais altos impostos on-line quase sem canais de canais de contestações e compensações, bem como a de lobistas de vários interesses, inclusive de quadrilhas de ladrões, querem que se produza menos, menos impostos, mais inflação, com a irresponsável, por não haver debates e estudos de impactos sérios, sobre a redução de jornada sem a redução de salários, afastando ainda mais a competitividade e os investidores, estes tidos como exploradores do povo.
O BRASIL NA LANTERNA DA COMPETITIVIDADE, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O Brasil conseguiu a proeza de cair sete posições no Ranking Mundial de Competitividade, elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral. O que já era ruim ficou ainda pior. Na edição de 2026, o País aparece num desalentador 65.º lugar, em um rol de 70 economias, à frente apenas de Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela.
Entre outros vizinhos latino-americanos, o Brasil amarga a pior posição. Chile (43.º), Porto Rico (52.º), Argentina (58.º), Colômbia (59.º), Peru (60.º) e México (62.º) estão todos à sua frente.
Apesar de desempenho razoável em indicadores como “atração de investimento estrangeiro” e “geração de energia renovável”, o País segue falhando em áreas fundamentais para a competitividade. No quesito “eficiência governamental”, ficou na penúltima colocação: 69.ª entre 70 países, superando apenas a Venezuela. Por si só, esse resultado é bastante revelador.
A ineficiência do Estado está na raiz de muitos dos problemas crônicos do Brasil, a começar pela educação básica de baixa qualidade. Da primeira infância à capacitação profissional, o País falha sistematicamente na qualificação de seus cidadãos. Não por acaso, a produtividade medida pelas horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre).
O contraste com economias asiáticas é constrangedor. China e Coreia do Sul, outrora mais pobres do que o Brasil, investiram décadas em educação, infraestrutura e tecnologia. Hoje, superam o País, e muito, em PIB per capita, indicadores educacionais e produtividade do trabalho.
O Brasil só não está ainda pior no ranking porque em critérios como “performance econômica” aparece uma posição acima da Suíça (36.ª, ante 37.ª). Mas a comparação é enganosa. A economia suíça, além de figurar há décadas entre as mais maduras do mundo, combina alta eficiência governamental com excelente infraestrutura. Basta dizer que, no ranking geral, a Suíça ocupa o 3.º lugar, atrás apenas de Singapura e Hong Kong. Seu PIB per capita é praticamente dez vezes maior que o brasileiro.
O crescimento econômico do Brasil não tem bases sólidas. O País insiste em estratégias de curto prazo, como o estímulo ao consumo imediato, em vez de reformas estruturais com horizonte mais largo. Corre, assim, o risco de perder posições até mesmo nos quesitos em que ainda não figura na lanterna.
Como se o quadro já não fosse grave o suficiente, o País está prestes a aprovar o fim da escala de trabalho 6×1, medida cujos efeitos deletérios sobre a produtividade são sobejamente conhecidos. Vale dizer, almeja-se desfrutar das condições de trabalho típicas das nações desenvolvidas, onde as jornadas são mais curtas justamente porque a produtividade é alta, sem passar pelas reformas estruturais e pelos investimentos de longo prazo que tornaram essa realidade possível.
Os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) dimensionam o fosso que separa o Brasil daquelas nações mais prósperas. Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global cresceu 675%; o do Brasil, no mesmo período, avançou 428%, ou seja, menos de dois terços da média mundial. Enquanto Coreia do Sul, Taiwan e Singapura se desvencilharam da chamada armadilha da renda média, o Brasil parece ter se acomodado nela. Como já sublinhamos nesta página, nada disso é fortuito (ver editorial O Brasil escolheu o atraso, 10/5/2026).
A opção pelo desperdício é tanto mais lamentável quanto maiores são as oportunidades desperdiçadas pela Nação. O País dispõe de capital humano, extensão territorial e diversidade de recursos que poucos no mundo podem contrastar. Se não está inscrito em pedra que o Brasil está condenado à mediocridade, há, no entanto, escolhas que há anos nos mantêm aprisionados a esse fado. E enquanto essas escolhas não mudarem, os rankings continuarão a retratar este país que decidiu ser medíocre.
A ONIPRESENÇA DAS BETs TEM QUE ACABAR, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
A decisão do Ministério da Justiça de investigar a prática de propaganda abusiva do canal CazéTV, que divulga promoções de bets durante a transmissão da Copa do Mundo, é correta, mas suscita dúvidas sobre a seletividade da iniciativa. Concentrar esforços em um veículo específico, enquanto a publicidade ostensiva das apostas online corre solta, de forma desavergonhada, por praticamente todos os espaços de comunicação do País, é um desserviço. É urgente que o Estado imponha regras muito mais restritivas à publicidade das bets, cujos efeitos nocivos para os apostadores há muito são estudados e sobejamente conhecidos.
Hoje, é impossível ignorar a publicidade das bets. Basta assistir a um jogo de futebol para perceber a extensão do problema. Mas não só. Os anúncios de bets, produto responsável por aumentar o endividamento das famílias e afetar a educação de jovens, entre tantos problemas, estão em plataformas digitais, rádios, TV, festas populares, nas ruas e em diversas transmissões esportivas, sem mais restrições além de avisos a serem lidos com lupa sobre a “moderação” na jogatina.
É um escárnio. Não faltam dados sobre o estrago que a ludopatia tem feito no País. O Instituto Locomotiva constatou que 86% dos apostadores têm dívidas, 64% dos quais já estão negativados pelos serviços de proteção ao crédito. Entre os brasileiros inadimplentes, quase um terço aposta regularmente. Os efeitos extrapolam o orçamento doméstico: ansiedade, estresse, culpa e alterações de humor aparecem de forma recorrente entre os próprios jogadores. Seis em cada dez entrevistados na pesquisa admitem que as apostas afetam seu estado emocional e provocam sentimentos negativos.
Em um aspecto ainda mais alarmante, o estudo O impacto das bets na educação superior, realizado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), mostra que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula por causa de gastos com apostas. Isso representa quase 1 milhão de brasileiros fora do ensino superior.
Já passou da hora de o Estado determinar regras restritivas às propagandas das apostas online, assim como ocorre com a publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas. Não se trata de ferir as liberdades individuais, mas de limitar a publicidade de produtos de altíssimo potencial de dano, que obviamente devem estar submetidos a regras compatíveis com os estragos que provocam. Aqueles que quiserem seguir jogando têm todo o direito de fazê-lo, mas sem incentivos sedutores nem tampouco desconhecimento dos riscos que estão correndo.
Há iniciativas em curso para tentar conter o avanço das apostas online no Brasil. No início de junho, os Ministérios da Justiça e da Fazenda firmaram uma parceria para combater violações de casas de apostas e ampliar a regulamentação do mercado. Um dos focos da cooperação técnica são as interfaces e recursos que enganam os usuários e os induzem a tomar decisões que beneficiam as bets. Mas essas ações claramente são insuficientes. A restrição tem de ser muito mais draconiana.
Como mostrou o Estadão, a publicidade feita por influenciadores, atletas e até medalhistas olímpicos durante as transmissões esportivas edulcora as bets, faz com que as apostas pareçam um entretenimento inofensivo, ampliando os riscos inerentes aos jogos de azar, acelerando sua difusão e convertendo vícios individuais em danos coletivos.
Diante de todos esses fatos, é difícil entender o que ainda impede autoridades com poder de barrar a onipresença das bets na vida dos brasileiros de tomar uma decisão de interesse público. Não há dúvida sobre o que precisa ser feito, mas o que sobressai é a falta de coragem para desafiar o lobby dessa indústria deletéria, sob o falso pretexto de risco de colapso do mercado publicitário.
A história está aí para denunciar a falácia. Tal como ocorreu à época da imposição de restrições à propaganda de álcool e tabaco, o mercado encontrará rapidamente novos anunciantes. Times, atletas, influenciadores, canais do YouTube e eventos culturais vão seguir atraindo patrocinadores dos mais diversos produtos para sustentar seus modelos de negócio, sem que isso seja feito à custa da saúde física, psíquica e financeira dos brasileiros.
DOIS PRESOS, DUAS MEDIDAS, por Carolina Brígido, no jornal O Estado de S. Paulo
Dentre as muitas divisões que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje, uma delas é estrutural. A Corte é dividida em duas turmas. Por força do acaso, cada uma ficou com um dos temas de maior sensibilidade política da temporada: a Primeira Turma, de Alexandre de Moraes, julga os processos ligados à tentativa de golpe de Estado e a Segunda, de André Mendonça, está com as fraudes do Banco Master.
O destino dos protagonistas dos dois escândalos deve ser definido em breve pelos relatores dos processos. Moraes está para decidir se Jair Bolsonaro seguirá na prisão domiciliar depois que um segurança foi flagrado com uma arma do ex-presidente dentro do carro em uma blitz. Mendonça vai definir se Daniel Vorcaro, o dono do Master, continua em uma cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, ou se será transferido para um presídio.
Moraes permitiu que Bolsonaro ficasse em casa por questões de saúde. A revelação de que mantém uma arma e a preocupação do condenado com a manutenção do equipamento podem mudar a situação. O problema é que, segundo boletins médicos da equipe que atende o ex-presidente, ele continua com a saúde frágil.
O entorno de Moraes considera pouco provável que ele mande o ex-presidente de volta para a Papudinha, pelos cuidados médicos que demanda. Em ano eleitoral, uma piora do quadro de saúde causada por falta de estrutura do estabelecimento poderia servir de motivo para novos ataques ao STF. Como solução, o relator poderá impor novas restrições ao réu na prisão domiciliar.
Já pessoas próximas de Mendonça apostam que o ministro mande Vorcaro para um presídio. Depois que a proposta de delação premiada foi recusada duas vezes pelos investigadores, não faria sentido manter o ex-banqueiro na superintendência da PF. Se Mendonça retirar Vorcaro de lá, deixará claro que a terceira tentativa de delação, aventada pela defesa, está fora de cogitação.
Sejam quais forem as decisões dos relatores, os dois devem ter as decisões confirmadas em votações posteriores nas turmas que integram. Mas por motivos diferentes.
Ao fortalecer Moraes, a Primeira Turma enfraquece o time de Bolsonaro em ano eleitoral. Lembrando que o ex-presidente foi condenado não apenas por ameaçar a democracia, mas por ameaçar o funcionamento do próprio STF.
A maioria da Segunda Turma apoia Mendonça não somente em nome da punição dos culpados pelas fraudes do Master, mas para fortalecer o bloco do ministro na briga interna contra o grupo de Gilmar Mendes, que tem atacado o relator pela forma como ele conduz as investigações.
Isso embrulha o estomago, política e seus aproveitadores de plantão, sou defensor da tese que a melhor saída do Brasil é qualquer aeroporto internacional mais perto. Não acredito em mudanças já vivi mais de meio século para ver que muitos poucos valores estão preocupados com futuro de Gaspar, Estado ou até do Brasil. Infelizmente minha posição é pessimista neste sentido, chegamos no limiar onde daqui a poucos dias vamos ter votar em dois corruptos, ou escolher melhor ou pior corrupto. AFF !!!!
UM DESSERVIÇO AO SUPREMO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Durante quase 90 minutos de entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes criticou o colega André Mendonça pela relatoria do chamado caso Master, questionou a condução do STF por seu presidente, Edson Fachin, e, de quebra, afirmou que a decisão liminar de Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de suspender a divulgação de uma pesquisa de intenção de voto feita pelo instituto AtlasIntel não deveria ser mantida. Como se vê, o sr. Gilmar Mendes mirou em muitos alvos, mas alvejada foi a dignidade do próprio Supremo.
A investida mais incisiva do decano, não há dúvida, foi contra Mendonça. Gilmar afirmou que o colega cometeu uma “impropriedade” ao receber do advogado de um dos implicados no caso Master uma “proposta de delação seletiva”. O ministro disse ainda que Mendonça teria cometido um “erro crasso” por estar “participando de conversas” na condução de um acordo de colaboração premiada – prerrogativa que a lei reserva ao Ministério Público e à Polícia Federal. “Se está participando de conversas ou se está expulsando advogados do processo”, disse Gilmar à banca de entrevistadores, “isso tem algo de errado”.
O artigo 36, inciso III, da Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) é cristalino ao proibir todos os magistrados de “manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças, de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos e em obras técnicas ou no exercício do magistério”. Pois foi exatamente isso o que o ministro decano do STF fez, ignorando olimpicamente um interdito legal que vale tanto para o juiz de primeiro grau da mais remota comarca brasileira quanto para os ministros da mais alta corte de Justiça do País.
A experiência no cargo não coloca Gilmar em posição de superioridade moral ou funcional sobre os demais ministros do STF. Como bem disse ao Estadão o jurista Wálter Maierovitch, o decano “não é o juiz dos juízes”. A rigor, o decanato impõe uma sobriedade e um recato ainda maiores do que aos demais, pois espera-se que quem ocupe essa nobilíssima posição na República seja a personificação da discrição, da prudência e do comedimento que devem nortear a judicatura.
Para piorar, a atitude de Gilmar Mendes ainda suscita questões inquietantes. Afinal, por quais motivos o ministro se lançou nessa campanha de admoestações públicas contra colegas, em particular André Mendonça e Edson Fachin? Por que Gilmar Mendes é tão recalcitrante à proposta de um código de conduta para ministros do STF? Em que medida a exposição pública de divergências internas serve ao Supremo justamente na quadra histórica em que a Corte passa por sua maior crise de credibilidade?
Mendonça é o ministro responsável por presidir as investigações do maior crime financeiro de que o País já teve notícia, um escândalo com ramificações nos Três Poderes e com suspeitas que, pela primeira vez, recaem sobre ministros do próprio Supremo. É nesse contexto que aumentam as aflições dos brasileiros preocupados com a construção de um acordo em Brasília que leve à impunidade de todos os eventuais culpados pelos crimes de Daniel Vorcaro et caterva. Portanto, não se pode condenar quem interprete as palavras e as atitudes de Gilmar Mendes como parte de um arranjo voltado à nulidade das investigações do caso Master.
Por fim, há uma contradição incontornável exposta pelo decano na entrevista. A presença e, sobretudo, o comportamento do ministro no centro do Roda Viva só reforçaram a premência da edição do código de conduta que ele tanto rejeita. Decerto sem a intenção de fazê-lo, o ministro expôs quão republicana é a iniciativa de seu colega Edson Fachin. As atitudes de Gilmar Mendes diante das câmeras, nas redes sociais e nas páginas dos jornais são o exato oposto do que se espera de um ministro do STF no que concerne à sua persona pública.
Essa e outras distorções ajudam a explicar o processo de erosão da imagem do Supremo, que ora atravessa o momento mais desafiador em toda sua história republicana. Gilmar Mendes deveria ser o agente de uma inflexão virtuosa, não seu obstáculo.