Chupa que é de uva. Era para ser um texto curto. Virou textão, outra vez. Não tomo jeito.
Falta de avisos por todos os cantos do Vale do Itajaí, Gaspar e Florianópolis, não foi. E desde a formação do governo. Inclusive aqui neste espaço, explicitamente, e várias vezes. E antes que comece a reiterada choradeira declaro: só o governo de Paulo Norberto Koerich, PL, tem culpa por estar embrulhado em manchetes embaraçosas por todo o estado e meio que escondida aqui, tipo cabeça de avestruz enterrada na areia. Simples assim.
O quadro piora porque beira à teimosia. Mais do que isso: Paulo Norberto Koerich, PL, resolveu, diante de fatos inequívocos, dobrar a aposta no erro.
O delegado Paulo como fazia questão de ser chamado na campanha – o que limparia a corrupção que era a desconfiança que rondava os oito anos de governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB, hoje no podemos, bem como se seus vices Luiz Carlos Spengler Filho e Marcelo de Souza Brick, ambos do PP -, pode até ser um inexperiente político e neófito gestor municipal – é a primeira vez que é eleito pelo voto popular. Todavia, ele não é, nem de longe, pelo currículo que exibe para lhe dar credenciais, abrir portas e segredos, um investigador principiante, um desinformado, ou ingênuo. Mais do que isso, Paulo ainda se orgulha de possuir uma vasta e atualizada rede de informantes.
O GAECO IMPLICOU O ATUAL GOVERNO DE GASPAR EM MENOS DE 17 MESES

Neste caso desta semana, o governo, mas especialmente o “delegado Paulo” da campanha, que está embrulhado por gente que como investigador, policial e delegado jamais deixaria com a vida fácil ou solto. É isto que impressiona negativamente neste momento perante os incrédulos eleitores dele que deram uma esmagadora vitória de 52,98% dos votos válidos, contra outros quatro candidatos, sendo um deles de três inéditos mandatos e outro que queria ser a continuidade de oito anos de Kleber.
O Gaeco, o Ministério Público, a Polícia que Paulo tanto a conhece, desta vez, não viram pegar gente de outro governo, o de Kleber, para o Paulo e sua turma cantar de galo na cidade.
O Gaeco veio aqui pegar gente que estava servindo com agente de confiança e liderando, repito, liderando processos, com desenvoltura incomum delegada pelo próprio titular, no governo de Paulo Norberto Koerich, PL.
Mesmo que Paulo diga, e está dizendo e é verdade, que o Gaeco vasculha pelo passado de quem Paulo escolheu como um de seus principais assessores e não, supostamente, até aqui, pelas ações presentes do implicado na prefeitura de Gaspar, Paulo, então, ao mesmo tempo, está dizendo aos gasparenses, escolheu mal. E não só com este, mas com muitos que importou de Blumenau e arredores. Também simples assim.
A TORNOZEIRA

Paulo Norberto Koerich, PL, pegou a casca de uma banana podre, lançou no outro lado da rua, atravessou-a e foi escorregar nela. E agora, mais uma vez, que fez outras vezes, disfarça, some e está tentando encontrar culpados, que não ele próprio. A cidade tem outra percepção. É só olhar como as redes sociais perderam o medo do “delegado Paulo”, incluindo criativos memes, e como freneticamente, a maior parte ainda se esconde nas observações dos aplicativos de mensagens.
A pergunta que se faz na cidade, incluindo gente que era próxima a Paulo Norberto Koerich, PL, é de que como o mundo político – de Gaspar, Blumenau e Florianópolis – cegou o “delegado Paulo” e o deixou sem ouvidos, mas principalmente sem faro, o melhor sentido de um reconhecido investigador profissional, aquele que vai atrás da cobra e mostra a cabeça, não como uma vingança contra a cobra, mas como um mal que era de reconhecida ameaça no ambiente em que foi morta? Incrível.
O que é certo? O principal secretário, o de Planejamento Territorial, Michael Jackson Schoenfelder Maiochi, PL, um dos muitos importados e indicados pelo ex-prefeito de Blumenau, Mário Hildebrandt, PL, ex-secretário de Defesa Civil e Proteção, do governo de Jorginho Melo, PL, está com restrições cautelares e vigiado com tornozeleira eletrônica por suposta corrupção – não aqui, esclareça.
Nunca na história dos assessores de alguma administração gasparense dos 92 anos de emancipação de Blumenau algo similar aconteceu. Inacreditável.
AVISADO PAULO ESTAVA. POR QUE INSISTIU E CORREU ESTE RISCO À SUA BIOGRAFIA?
Paulo Norberto Koerich, PL, é e sempre fez questão de se posicionar assim – um investigador linha de frente – e por isso fez brilhante carreira na Polícia Civil – além dos padrinhos, naturalmente para alcançar os cargos -, como um exímio caça a bandidos – desde os dos executores de brutais crimes contra a integridade individual e coletiva até contra os complexos de se elucidar realizados por bandos do chamado colarinho branco.
Paulo Norberto Koerich, PL, para encurtar esta imagem de lenda de policial caçador de corruptos, basta citar duas passagens dele. Paulo foi chefe de gabinete do conhecido ex-promotor linha dura contra a corrupção de Blumenau, Luiz Carlos Schmidt de Carvalho e que se tornou secretário de Segurança Pública de Esperidião Amim Helou Filho, PP. Carvalho morreu no cargo em acidente aéreo em junho de 1999.
Paulo foi mais. Foi e relembro pela enésima vez para quem é novato por aqui ou é jovem, por algumas vezes, integrante das forças do Gaeco – Grupo de Atividades Especiais de Combate ao Crime Organizado – ao longo da carreira de mais 30 anos além de investigador, delegado, delegado regional, delegado geral e até secretário de segurança ao tempo do governo de Carlos Moisés da Silva, sem partido.
Com essas credenciais, é difícil de se aceitar de que Paulo Norberto Koerich, PL, tenha se deixado levar pelos novos amigos, sabendo-se que no ambiente político que não era de todo desconhecido para ele nos bastidores, e mesmo que não tivesse essa experiência, é sabido – ainda mais hoje com o noticiário aberto nas redes sociais das falcatruas dos poderosos de Brasília e alhures – que aos políticos, eles correm sempre grandes riscos de ser pegos por malhas invisíveis de sedução do poder. E na polícia tem-se uma máxima para quem entra no mundo do crime: quando se percebe é tarde demais e na maioria dos casos, não tem saída.
Vou encerrar por hoje, mas este assunto vai render ainda muito mais. Quer a prova de que Paulo foi avisado? Na semana do dia seis de junho, o militante do Novo de Blumenau, Halley Edson da Silva, conservador, de direita, fez um vídeo e eu publique. Republico abaixo. Ele estava no artigo meu O GOVERNO DO “DELEGADO PREFEITO” PAULO VAI TENTAR, NO SEU SEXTO MÊS DA POSSE E QUASE DEZ MESES DEPOIS DA EXPLENDOROSA VITÓRIA DE 52,98% VOTOS VÁLIDOS CONTRA A CONTINUAÇÃO DE KLEBER E A VOLTA DE UM PREFEITO DE TRÊS MANDATOS, RECOMEÇAR A PARTE QUE INCOMODA INVESTIDORES
Paulo, pelo jeito, 17 meses, depois vai ter que recomeçar o seu governo naquilo que lhe mais caro e os donos da cidade lhe deram, mais uma vez, um trança pé.
TRAPICHE
O ex-secretário de Planejamento Territorial de Gaspar, Michael Jackson Schoenfelder Maiochi chegou aqui com a corda toda. E logo, ocupou um espaço incomum. Ele logo se tornou uma espécie de novo “prefeito de fato”, rivalizando com a secretária de Fazenda e Gestão Administrativa, Ana Karina Schramm Matuchaski da Cunha, outra da turma política de Blumenau, mas que conhece do riscado.
Havia um “comitê gestor”. Ainda, em tese, há. Ele dava as cartas na prefeitura de Gaspar. Os outros secretários a reboque das decisões entre quatro paredes desse “comitê” Um desastre administrativo. Nem tudo que se decidia, mesmo depois de muita demora, ia para frente, por vários motivos. Um deles, é que não ganhava em alguns casos, a aprovação Paulo Norberto Koerich, PL, quando batia de frente com o que ele pensava, tinha receios, tinha dúvidas ou resolvia consultar os seus antigos e “novos” próximos amigos dessa bruxaria.
Quem eram os membros daquele “comitê gestor”? Michael Jackson Schoenfelder Maiochi, o procurador geral Júlio Augusto de Souza Filho (também vindo de Blumenau por indicação de Mário Hildebrandt, PL), Ana Karina Schramm Matuchaski da Cunha e o chefe de Gabinete, o gasparense da gema, Pedro Inácio Bornhausen, PP, o partido que tinha candidato próprio contra Paulo Norberto Koerich, PL. Pedro foi para o governo bem antes do mais longevo vereador José Hilário Melato, PP, se tornar crítico do governo para fazer preço e agora ser governo até o osso.

Outra. Michael Jackson Schoenfelder Maiochi era o que estava à frente da revisão do Plano Diretor, essencial para o município, cheio de interesses por todos os lados e que o Ministério Público botou travas nas portas abertas da secretaria de Planejamento Territorial, Superintendência de Meio Ambiente e Desenvolvimento sustentável, bem como a usada como escape, a Defesa Civil. Mesmo sem conhecer a cidade, as pessoas e andar de GPS por ela, Maiochi era o interlocutor privilegiado do Paço com entidades, empresários, construtores, empreiteiros de terraplanagem, loteadores, Conselho de Desenvolvimento Urbano, Núcleo Imobiliário…
Michael Jackson Schoenfelder Maiochi é o pai marqueteiro perfomático das tais obras de R$300 milhões anunciadas em “segredo” de tolos para os vereadores numa reunião privada no gabinete de Paulo Norberto Koerich, PL. O mesmo Maiochi a transformou em R$370 milhões horas depois num encontro na Acig. Maiochi era também o que estava comandando o espetáculo, com Mário Hildebrandt, PL, a assinatura da recuperação da barranca do Rio Itajaí Açú para proteger a Rua Anfilóquio Nunes Pires de deslizamentos, no bairro Figueira. Enfim… Maiochi não era um ninguém. Tinha padrinhos em Blumenau e avalistas fortes no ambiente administrativo, político e empresarial. E depois essa turma toda acha que o problema é este espaço e eu. Eles vivem fazendo e dobrando aposta contra o sensato, o razoável e até a lei para salvar o status, negócios, poder e vinganças. Nem mais. Nem menos.
Demitido ou pediu para sair? Uma gravação da reunião feita pelo chefe de Gabinete, Pedro Inácio Bornhausen, PP, com o pessoal da secretaria de Planejamento Territorial, disse que o titular estava com problemas pessoais e pediu para sair. Mais tarde, quando o rolo era grande e incontrolável, a prefeitura soltou uma nota jurando que Michael Jackson Schoenfelder Maiochi que o tinha demitido. Se tivesse tido o cuidado, não teria admitido. Camila Beatriz Tillmann, do mesmo grupo do PL de Maiochi ficou no lugar dele provisoriamente. Ela vem de Indaial e trazida por Maiochi. E está relacionada no grupo que construiu a quarta ponte de lá e que foi inaugurada as pressas para ser mote de campanha eleitoral e que quase deu cassação do eleito, Silvio César da Silva, PL, quando era candidato
Essa gente joga um jogo bruto. É como camaleão. É rival, mas nem tanto I. Nem sempre sigla partidária define o lado em que se está. Só dos bobos eleitores dessa gente. A Engeplan pega no pulo em Blumenau, por exemplo, esteve aqui na drenagem da Rua Frei Solano – que deu em CPI e botou no mesmo saco gente como Jean Alexandre dos Santos, PSD e José Hilário Melato, PP. Ela está na obra de recuperação da barranca do Rio Itajaí Açú, na Figueira, com verba da Defesa Civil e Proteção estadual.
Essa gente joga um jogo bruto. É como camaleão. É rival, mas nem tanto II. Mário Hildebrandt, PL, vive de bíblia na mão e se faz – e é, mas explora isto para identidade política – colono do interior do Alto Vale do Itajaí. As coisas vêm, de modo atravessado, desde o gasparense prefeito de lá, Renato de Mello Vianna, passa por João Paulo Karan Kleinübing, agora no PL. Hildebrandt foi vice de Napoleão Bernardes, quando no PSDB, hoje está no PSD. Herdou dois anos de mandato e aí fez carreira solo. O resultado está aparecendo agora.

Ontem, reclamando da repercussão de tudo o que acontecia em Blumenau e região, principalmente o manto de santo que lhe era retirado nas redes sociais, não pelos adversários naturais, pelo fogo amigo, o ex-prefeito de lá disse que nada do que estava sendo apurado o atingia diretamente. Falso. Ele era o prefeito. Era o que escolhia seus indicados de confiança e comissionados. Demagogicamente, usou a contratação emergencial do serviço de segurança para escolas como resposta ao evento do assassinato a uma creche no bairro da Velha. Não é exatamente a contratação emergencial que está em dúvida, mas os possíveis resultados repartidos.
Aqui em Gaspar, esta ladainha percorre os corredores da prefeitura. Ninguém ainda está colocando em dúvida a idoneidade de Paulo Norberto Koerich, PL. Mas, é impossível dissociar as dúvidas encontradas em seus assessores indicados por ele e ainda mais quando Paulo é portador de uma imagem pública de um investigador de primeira categoria. É essa gente que está acabando com esta então boa imagem dele. E é o próprio Paulo que está permitindo e se igualando aos políticos que viram e mexem fazem manchetes diariamente no noticiário regional, estadual e nacional por reiteradas dúvidas. É impossível que não se tenha profissionais e líderes para os cargos de confiança daqui. E o problema começa por aí.
As ações do Gaeco de Blumenau e da 14{ promotoria de Blumenau, liderada por Marcionei Mendes, apontaram que postos de gasolina, bem como pequenos comércios, lavavam os milhões desviados dos casos que estão sendo apurados por lá. Não vou entrar no mérito disso. Lavados, este dinheiro são aplicados por escritórios especializados em aplicações financeiras, tornam-se também terrenos, casas, loteamentos, salas apartamentos, veículos, viagens internacionais e nacionais, festanças…
As apurações que se fazem em Blumenau podem respingar em mais pessoas de lá que estão em Gaspar. Paulo Norberto Koerich, PL, está, mais uma vez, avisado. Sinceramente, está na hora dele voltar as origens e refundar autenticamente o governo dele. A coisa só não vai ser tão pior na urna, porque é um a eleição geral e Gaspar é conservadora e não vai dar votos para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Muda, Gaspar!
Para encerrar. O PL de Gaspar tem perigosamente donos ocultos. O candidato forasteiro a senador por Santa Catarina, na falta de votos pelo inexpressivo por décadas vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, PL, fez um tour pelo estado. Paulo Norberto Koerich, PL, posou, mais uma vez, para uma foto com ele com o ex-emebista roxo, Haroldo Roberto Medeiros, o Suca, presidente da Fundação Municipal de Esportes e Lazer. Já Egídio Maciel Ferrari, PL, o esperou o candidato no gabinete para esta foto.
Na passagem quase secreta por Gaspar, a líder do governo de Paulo Norberto Koerich na Câmara, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, organizou um almoço. Convidou todos os vereadores da “base” do governo. Depois desconvidou quase todos. Na cidade, só a foto dela com Carlos. Se Carlos já possui dificuldades de votos e gera polêmicas, mas, com cabos eleitorais que desprezam os demais cabos do espectro conservador do candidato ao Senado, não precisa de adversários piores. Carlos abrirá a agenda para fotos com os vereadores do PL. Tem gente, de partidos ditos da direita, mendigando, espaços. Avisada estava. Muda, Gaspar!
Registro. A Havan inaugura a sua mais nova mega loja amanhã no Centro Histórico de Blumenau. Para lembrar. Foi em Gaspar ao tempo do governo de Kleber Esdson Wan Dall, MDB, hoje no Podemos, que o empreendedor e homem de visão Luciano Hang, da vizinha Brusque, conheceu um revés que ele nunca viu até agora em outro local do Brasil. Sua mega loja daqui, ali no bairro do Bela Vista, novinha, ruiu e depois de gastar milhões em recuperação, teve que desmanchá-la. Nunca mais abriu nada por aqui.
Rever os discursos daquele dia de inauguração, diz muito sobre os nossos políticos e como zombam os que querem empreender aqui. Muda, Gaspar!
12 comentários em “APESAR DE TODAS AS ADVERTÊNCIAS, O FENÔMENO “GAECO” CHEGOU MAIS UMA VEZ COM FORÇA TOTAL EM GASPAR. VIROU ROTINA. ERA PARA PEGAR O PASSADO. O GOVERNO DE PAULO NORBERTO KOERICH, PL, MAL ORIENTADO E CONTANDO COM A SORTE, JOGOU UMA CASCA DE BANANA NO OUTRO LADO DA RUA. ATRAVESSOU-A, ESCORREGOU NELA E ESTÁ TENTANDO CULPAR A CASCA PELO ESCORREGÃO”
MAIS UM TRUQUE MONOCRÁTICO DE MORAES CONTRA A CONSTITUIÇÃO E O DEVIDO PROCESSO LEGAL
Rodrigo Chemim, ao combater o “especialista” da Globonews, é claro como o sol. Rodrigo é professor de Processo Penal no Mestrado em Direito na Universidade Positivo e na graduação no Unicuritiba. Doutor em Direito do Estado. Procurador de Justiça. Ele escreve no X
Com todo respeito ao Professor Gustavo Sampaio, parece-me que houve um equívoco na análise. Não se trata de decisão cautelar suspendendo a eficácia de lei em ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade. Trata-se, sim, de decisão monocrática, proferida em processo de execução penal de caso concreto, sem declarar a inconstitucionalidade da lei e, ainda assim, “suspendendo” sua aplicação apenas naquele caso individual. E essa distinção é decisiva.
A Constituição Federal não confere ao relator de um processo de execução penal um poder geral para suspender leis monocraticamente. Ao contrário, o art. 97 estabelece que somente pelo voto da maioria absoluta dos membros do tribunal, ou do respectivo órgão especial, os tribunais podem declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público.
A Lei 9.868/99 também não autoriza conclusão diversa. O art. 10, §3º, ao tratar da medida cautelar em ADI, afirma que o “tribunal” poderá suspender a eficácia da norma. Tribunal. Não relator. E, mais importante ainda, dentro de uma ação direta de inconstitucionalidade, não no curso de uma execução penal individual.
O ponto central, portanto, não é saber se o STF pode, em tese, suspender a eficácia de uma lei em controle concentrado. Pode, observados os requisitos constitucionais e legais. O problema é outro: saber se um ministro, sozinho, fora de uma ADI, em caso concreto de execução penal, pode deixar de aplicar uma lei sem declarar sua inconstitucionalidade e sem submeter a questão ao colegiado.
A meu ver, não pode e, por isso, a decisão é errada, até porque, quando se admite isso, cria-se uma categoria juridicamente estranha: uma espécie de suspensão monocrática, seletiva e incidental da lei, sem previsão constitucional clara e sem o procedimento próprio do controle de constitucionalidade. A lei continua formalmente válida para todos, mas deixa de valer naquele caso porque assim decidiu individualmente o relator. Se normalizarmos isso, a segurança jurídica deixa de depender da Constituição, da lei e dos procedimentos de controle, para depender da vontade decisória de quem julga. E, nesse cenário, a jurisdição constitucional deixa de funcionar como garantia democrática e passa a operar como instrumento de exceção.
De resto, a eventual retroatividade dos efeitos de uma futura declaração de inconstitucionalidade não é uma anomalia do sistema. Ela faz parte do próprio modelo brasileiro de controle de constitucionalidade, que convive historicamente com situações de revisão posterior de atos praticados sob a vigência de normas posteriormente invalidadas. O sistema processual possui mecanismos para lidar com isso. Assim, se o argumento de “situação incontornável de dano” fosse válido, ele deveria ser empregado na ADI, com ratificação colegiada imediata. Por onde se olhe não dá pra salvar juridicamente a decisão tomada pelo ministro.
A ESPERTEZA E A SOCIEDADE DE TROUXAS QUE SUSTENTAM OS ESPERTOS
O esclarecimento em dois parágrafos é de André Marsiglia, no X. Ele permeia a observação que todos os comentários de juristas e advogados que trabalham no ambiente constitucional produziram ou estão publicando desde ontem. Impressionante. É o devido processo legal sob o escrutínio de especialistas para a popúlação leiga e enganada por senhores do saber jurídico que deveriam estar acima de qualquer suspeita.
É impossível haver elasticidade, segundo comentários, arguições e esclarecimentos simples e rebuscados, que comporte outra interpretação ou hermenêutica de sofisticada argumentação técnico-jurídica de que ensacaram a lei e direitos fundamentais rpotegidos, vejam só, pela própria Constituição. Os pontos abordados são convergente e com rara unanimidade, a que não é burra e contraria o pensador das tragédias da nossa sociedade, Nelson Rodrigues.
O UOL publicou ontem que a lei da dosimetria foi suspensa. Está errado. Também ouvi um advogado afirmar que Moraes teria usado a ação do PSOL para suspender a lei. Está errado também.
Moraes não suspendeu a lei. Suspendeu a aplicação do benefício aos réus. A decisão é tão confusa que parte da imprensa e seus ‘consultores’ não conseguiram entendê-la”.
O que está “suspensa” ou Moraes se nega a cumprir é uma lei em vigor. Para isto, ele antes precisaria contestar a lei, modificá-la ou anulá-la por suposta constitucionalidade, fato que só será possível em Plenário. Como isto demora, e a porteira está aberta, ele a fechou na marra e sozinho.
FAZ PAPEL DE BOBO QUE CRÊ NA RETÓRICA ANTIRREELEIÇÃO DE FLÁVIO, por Josias de Souza, no portal UOL (Folha de S. Paulo)
Flávio Bolsonaro subiu no salto alto. De passagem por Santa Catarina, carbonizou a proposta de emenda constitucional apresentada por ele mesmo, prevendo o fim da reeleição. Declarou que, se chegar ao Planalto, seu mandato pode durar oito anos.
Discursando para uma plateia de empresários, o filho de Bolsonaro declarou: “O meu sonho, e o que eu vou realizar, é acabar o governo, seja daqui a quatro, daqui a cinco, daqui a oito anos, onde a gente vai poder bater o peito e falar: ‘Menos pessoas dependem de políticos para levar comida para dentro de casa e levar dignidade para as suas famílias’.”
Neste sábado, questionado sobre a afirmação feita na véspera, Flávio tentou se corrigir. Mas a emenda piorou o soneto, pois deixou evidente o desejo do candidato de esticar um mandato que ainda não obteve.
“Sou contra a reeleição”, disse Flávio Bolsonaro. “Mas acho quatro anos muito pouco para um mandato só. […] Vou trabalhar para que a PEC seja aprovada. Acredito que ela vai ser aprovada, mas convenhamos, quatro anos acho muito pouco para um mandato só, para tanta coisa que o Brasil precisa arrumar.”
Originalmente, a emenda sobre o fim da reeleição foi apresentada pelo filho de Bolsonaro para engambelar Tarcísio de Freitas. A ideia era sinalizar para o aliado que, trocando o sonho presidencial pela reeleição ao Governo de São Paulo, teria o apoio de Bolsonaro e seus devotos para concorrer ao Planalto em 2030.
Ficou entendido que faz papel de bobo quem acredita no conto da carochinha segundo o qual a família do “mito” preso passe a cultivar, de repente, uma noção qualquer de desapego pelo poder. O salto alto de Flávio Bolsonaro é o menor dos problemas. Alguma coisa subiu à cabeça do candidato. E não é nada que se pareça com bom senso.
Na sexta-feira, em entrevista à CNN, Flávio insinuou que o pai será uma espécie de eminência parda de sua eventual Presidência. “O Jair será sempre o meu norte, minha bússola, minha referência, a pessoa com quem eu me consulto. Se ele quiser exercer um cargo no meu governo, é óbvio que vai exercer.” A declaração contém duas assombrações: além de pressupor a anistia de Bolsonaro, carrega a admissão de que ele pode voltar a dar as cartas no Planalto
A AGU TESTA A PACIÊNCIA DO BRASIL, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Há muito tempo, os integrantes das carreiras jurídicas do serviço público deixaram de se enxergar como parte de uma estrutura maior submetida aos princípios republicanos para agirem como uma casta de intocáveis. Os doutos parecem convencidos de que toda vantagem possível, sobretudo pecuniária, lhes é devida. Para sustentá-la, basta uma fina demão de verniz técnico-normativo. O escândalo envolvendo a Advocacia-Geral da União (AGU) e seu Conselho Curador de Honorários Advocatícios (CCHA), publicado pelo Estadão, é a manifestação mais recente desse ethos extrativista que corrói a própria essência do que é servir ao País.
Como publicamos, o CCHA, entidade privada que administra os honorários de sucumbência pagos à advocacia pública federal, ampliou tanto o rol de benefícios como de beneficiários do auxílio-saúde pago aos membros da AGU e seus familiares. Pela nova regra, seriam passíveis de reembolso, pasme o leitor, despesas com academia e práticas esportivas, medicamentos não contínuos e até fertilização in vitro – e não só para os servidores, como também para seus cunhados, sogros, noras e genros, entre outros “parentes por afinidade”. No espírito “se colar, colou”, o CCHA só suspendeu a esbórnia diante do escândalo causado pela reportagem deste jornal.
A extravagância parte de um pecado original, qual seja, a compreensão distorcida segundo a qual os honorários de sucumbência – pagos pela parte contrária ao final de ações vencidas pela União – pertenceriam aos advogados públicos, não ao Tesouro. Isso é uma aberração conceitual. Os membros da AGU, a começar por seu chefe, Jorge Messias, não atuam como advogados privados remunerados pelo êxito em causas particulares. São servidores públicos, aprovados em concurso e remunerados pelos contribuintes para representar judicialmente a União. Não faz sentido que o dinheiro obtido em litígios envolvendo o interesse público seja apropriado por servidores que recebem excelentes salários justamente para exercer essa função.
Para piorar, ao mesmo tempo em que o CCHA tentava ampliar os penduricalhos da AGU, avançava na Câmara a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 17/2024, que visa a conceder autonomia administrativa e orçamentária à Advocacia Pública, tratada nos artigos 131 e 132 da Constituição. Se aprovada, a PEC garantirá repasses mensais em duodécimos à AGU e às Procuradorias-Gerais dos Estados (PGEs). Ademais, reduzirá drasticamente a capacidade de controle do Poder Executivo sobre esses órgãos. Mais bem dito: a AGU e as PGEs estariam livres das poucas amarras que ainda as mantêm sob algum controle da Presidência da República e dos governos estaduais.
A ofensiva para consolidar esse poder independente não parou por aí. A Câmara também aprovou a admissibilidade de um projeto de lei que autoriza os advogados públicos federais a exercer advocacia privada fora do expediente. É a institucionalização do “bico”. É difícil imaginar algo mais imoral do que membros da AGU, que já gozam de estabilidade, altos salários, honorários de sucumbência e penduricalhos diversos, terem a possibilidade de auferir renda adicional na iniciativa privada, o que seria uma usina de conflitos de interesses.
Este jornal não ignora que as carreiras jurídicas do serviço público, todas elas, são relevantíssimas para o tônus do Estado Democrático de Direito. Tampouco se discute aqui a importância de uma remuneração digna para os servidores, compatível com suas responsabilidades. O busílis é que essa contrapartida já existe – mas, ao que parece, é vista como insuficiente. O que a elite do funcionalismo parece almejar é uma condição de aristocracia burocrática praticamente imune ao teto constitucional e ao escrutínio público, decerto por se sentir amparada por uma suposta legalidade formal que mal disfarça a engenharia de benesses para a qual foi concebida.
A administração pública não pode operar sob o signo da esperteza. Há medidas que até podem passar por uma interpretação conveniente das normas, mas fracassam fragorosamente no teste da decência pessoal e da moralidade pública. E sem o freio moral, a autonomia reivindicada seguramente será convertida em instrumento para aprofundar privilégios incompatíveis com a mera ideia de República.
PÓS-CIRO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
Ciro Nogueira está – ou estava – entre os cinco políticos mais poderosos do Brasil. Presidente do PP, líder da (até ontem) cobiçadíssima federação União Progressista; e ex-ministro de Bolsonaro, responsável pelo apaziguamento das relações daquele governo com o Parlamento, conquista decorrente da formulação-execução do orçamento secreto, de que é um dos senhores. Com Davi Alcolumbre.
Você decidirá se se trata de coincidência ou causalidade. A Operação Compliance Zero, da PF, chegou ao Senado na semana seguinte à derrota infligida ao governo Lula por aquela Casa. De acordo com a versão mais influente no debate público, Alcolumbre e galera teriam vencido também o ministro André Mendonça, militante por Jorge Messias, relator do caso Master no STF e, pois, o que autorizou a ação contra Ciro. Evento que inaugura a chegada previsível da polícia – das investigações sobre o “elefante pintado de azul” de Daniel Vorcaro, que circulava invisivelmente pela Esplanada – ao Congresso.
Ciro, atacante de ponta, era – na política – o que Xandão, o bloqueador central, seria no STF. O amigão de Vorcaro. E amigos se reúnem, conforme lembra a mensagem do banqueiro à noiva: “Chegando Hugo e Ciro aqui para falarem com Alexandre”. Era 20 de março de 2025, mui aceleradas as gestões pela salvação do Master. Em agosto de 2024, já exposta a crise de liquidez do banco, o ponteiro Ciro apresentara a emenda que propunha aumentar o limite do valor de cobertura pelo FGC – de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Seria presente para a maneira como Vorcaro vendia o seu produto.
O senador teria recebido o texto, já pronto, da equipe do Master – e assim o apresentado. Não de graça. A PF investiga pagamento de propina, sob valores que alcançariam R$ 500 mil mensais. E também a aquisição, por meio do erguimento de fachadas, de cota societária em empresa, com “expressivo deságio” – um negócio, estimado em R$ 13 milhões, fechado por R$ 1 milhão.
O modo de pagamento da mesada é exemplar de como funcionava a máquina de movimentação-dissimulação de dinheiros na rede vorcárica, em cujas pontas haveria – sem qualquer relação entre si, necessariamente – sociedade em hotel, contratos de prestação de serviços advocatícios e lavagem de dinheiro para o crime organizado.
No caso de Ciro, constituída a “parceria BRGD/CNLF”. A BRGD, parte vorcárica, tinha o tio de Daniel como diretor – e remunerava “o pessoal que investiu na BRGD”, o investimento mencionado sendo aquele, a pechincha a R$ 1 milhão, forjado por Vorcaro. A CNLF, a porção de Ciro, tinha o seu irmão como administrador e seria a “destinatária formal dos fluxos financeiros oriundos da BRGD” e “instrumento de recepção, circulação e formalização aparente de recursos destinados ao senador”.
Barbas (ausentes) de Alcolumbre de molho, as investigações sobre o “elefante pintado de azul” de Vorcaro, que flanava pela Esplanada sem ser visto, chegaram ao Congresso e começarão a dar nomes aos ponteiros enredados na teia vorcárica. Faltarão os bloqueadores, duplo ou triplo o paredão.
Estados pobríssimos, sugadores permanentes de bilionárias verbas públicas federais de todos os tipos, povo amplamente dependente de benefícios sociais e os seus representantes políticos, ricos como poucos. Uma história repetida por séculos e nunca estancada por parte do Brasil que sustenta este modelo, o discurso e esta gente. Então são tão culpados quanto…
SENADO NÃO PODE SER OMISSO ANTE AS PROVAS CONTRA CIRO, editorial de O Globo
As provas colhidas pela Polícia Federal (PF) sobre as relações entre o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP), e Daniel Vorcaro, do Banco Master, são eloquentes. O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado não pode fechar os olhos às evidências. É imperativo conceder a Ciro amplo direito à defesa — na Justiça e no Conselho. Ele afirmou que não renunciará ao mandato e, em nota, classificou a operação da PF como “tentativa de manchar sua honra”. Mas o Parlamento tem o dever de agir em nome da preservação do decoro. Com base nos fatos disponíveis, sua cassação parece o desfecho provável. Por ora, ele deveria afastar-se ou ser afastado temporariamente do mandato para se concentrar na própria defesa, sem prejuízo de voltar ao Senado se for inocentado.
Até a operação da PF da última quinta-feira, sabia-se que o Master adotara estratégia de alto risco antes de ser liquidado pelo Banco Central (BC). Papéis com taxas de retorno muito acima das praticadas no mercado usavam, como mote para atrair compradores, a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), instituição privada dos bancos que protege até R$ 250 mil de cada investidor. Em agosto de 2024, Ciro apresentou emenda à Proposta de Emenda à Constituição sobre autonomia do BC propondo aumentar a garantia do FGC para R$ 1 milhão, de modo a tornar os papéis vendidos por Vorcaro mais atraentes. Àquela altura, o Master já estava em apuros. Também era público um requerimento de urgência assinado por deputados próximos a Ciro em setembro de 2025, para tramitação de projeto estipulando exoneração de diretores do BC pelo Congresso. Nessa época, a autoridade monetária resistia à pressão para aprovar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), envolta em suspeitas.
Agora se sabe que o texto da emenda para ampliar a garantia do FGC foi redigido pelo Master. “Saiu exatamente como mandei”, disse Vorcaro em mensagem na época. Outra descoberta ainda mais estarrecedora: de acordo com as investigações, Ciro recebia do Master mesada de R$ 300 mil, depois reajustada para R$ 500 mil. Usufruiu viagens pagas, bens de luxo e foi favorecido em transações sem nenhuma lógica econômica. Em mensagens, Felipe Vorcaro, primo e operador do dono do Master, pergunta se deve manter os pagamentos mensais da “parceria brgd-cnfl”. A empresa BRGD tem o pai de Felipe como diretor. A CNFL Empreendimentos Imobiliários tem como sócio Raimundo Nogueira, irmão de Ciro. A investigação da PF demonstra que Vorcaro também fornecia cartões de crédito ao senador, custeava hospedagens em hotéis luxuosos e permitia que ele fizesse uso de residência de alto padrão.
A amizade entre o banqueiro encrencado e o senador do PP era notória. Os fatos apurados pela PF sugerem algo bem mais grave: uma relação cuja base era aparentemente a troca de dinheiro por atuação legislativa, modalidade clássica de corrupção. Ao fim da investigação, a PF deverá decidir se indicia Ciro, e a Procuradoria-Geral da República se o denuncia. Ele terá oportunidade de se defender em todas as instâncias adequadas. Desde já, porém, a gravidade das evidências recomenda que se afaste ou seja afastado do cargo. Paralisia ou corporativismo podem ser fatais e comprometer todo o Parlamento com o escândalo que envolve um de seus expoentes.
A CARA DE UM É O FOCINHO DO OUTRO
Este artigo abaixo, foi escrito pelo Felipe Moura Brasil no dia 15 de janeiro para as contas das redes sociais dele, incluindo o X, de onde eu extraí para repostar aqui.
Primeiro. Quatro meses depois, quanto ele é atual e assertivo. Algum exercício de vidência? Não! Por que a política e os políticos no Brasil, são descaradamente, contra seus eleitores, o país, a mínima ética e as leis previsíveis nas armações ilimitadas com o dinheiro de todos nós.
Segundo. O artigo, parece tão similar ao que acontece em Blumenau e Gaspar. Ou seja, Brasília não é uma ilha, apenas espelha os exemplos que se escondem nos grotões. Se não fazemos a lição de casa, na nossa casa, não podemos reclamar da casa da mãe joana.
Leia, reflita e conclua você mesmo
O pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é aliado de Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro (PL) e principal ponte do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, com o mundo político. Embora a família do ex-presidente se diga antissistema, Flávio tem evitado publicações e declarações espontâneas sobre as fraudes do suposto banqueiro e suas fortes conexões em Brasília.
Em outubro de 2024, Vorcaro chamou Ciro Nogueira de “amigo” durante participação de ambos em painel de evento em Roma, na Itália, patrocinado pelo Master. Dois meses antes, em agosto, o senador do Piauí havia proposto a emenda Master, que tentou ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como queria Vorcaro.
Velho cacique do Centrão, Ciro Nogueira é um dos padrinhos das seguintes autoridades:
– Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB afastado do cargo porque sua gestão teria feito, segundo a Polícia Federal, repasses ilegais de recursos ao Master pela compra de carteiras falsas de crédito, o que seria acobertado por meio da aquisição do banco privado pelo público;
– Jhonatan de Jesus, relator do caso Master no Tribunal de Contas da União (TCU) que determinou inspeção in loco no Banco Central, ameaçando rever a liquidação do banco de Vorcaro, mas acabou contido pelos próprios colegas de Corte após a repercussão negativa de sua decisão. Ciro compareceu, inclusive, à posse de Jhonatan em 2023;
– Otto Lobo, agora indicado por Lula à presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da qual era diretor por indicação de Jair Bolsonaro relatada pelo próprio Ciro Nogueira no Senado em 2021, ocasião em que exaltou suas credenciais “excepcionais”. Em 2025, o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciou ao cargo após pressões políticas e, quando Otto Lobo assumiu a presidência interina, votou a favor do Master em dois casos, contrariando, inclusive, recomendação interna de procuradora contra novo voto presidencial;
– Kassio Nunes Marques, ministro (também piuaiense) do STF indicado por Jair Bolsonaro e para quem a defesa de Daniel Vorcaro pediu que a relatoria do caso Master fosse entregue na Corte. A relatoria acabou ficando com Dias Toffoli, que também blindou Ciro Nogueira contra denúncias da Lava Jato e que foi blindado pelo senador contra a CPI da Lava Toga. De modo similar, Toffoli paralisou investigações sobre Flávio, que também sabotou, em 2019, a CPI que investigaria o ministro do Supremo. Quando Kassio Nunes Marques foi indicado ao STF, Jair Bolsonaro abraçou Toffoli e entrou na casa dele para comemorar a composição que acabaria garantindo mais blindagem tanto a Flávio quanto a Ciro Nogueira, entre outros.
Em junho de 2024, aliás, Flávio Bolsonaro foi contratado como advogado por um ex-diretor que cobrava direitos trabalhistas de um banco de investimentos, em processo que corria no Supremo. Kassio Nunes Marques então mudou seu voto anterior dado no mesmo processo e, assim como Toffoli, concordou com o recurso do cliente de Flávio, formando maioria na Turma.
Um ano depois, em junho de 2025, em entrevista à Folha, Flávio elogiou Ciro Nogueira como potencial candidato a vice-presidente na eventual chapa com seu pai: “Acho que tem todas as credenciais para ser”, “o perfil do Ciro é um bom perfil: é nordestino, é de um partido grande e forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele, foi ministro do presidente Bolsonaro, então,, sem dúvida alguma, hoje é o nome que está colocado”.
Com o ex-presidente preso e o escândalo Master crescendo, porém, Ciro Nogueira preferiu submergir e, em janeiro de 2026, em entrevista ao Globo, descartou a presença na chapa de Flávio: “Desde já, digo que não quero ser vice e já comuniquei ao Bolsonaro que sou candidato ao Senado, no Piauí. Estou fora dessa.”
O avanço das investigações da PF também atingiu o cunhado do dono do Master, Fabiano Zettel, que foi o maior doador de campanha, entre pessoas físicas, de Jair Bolsonaro, com R$ 3 milhões, e do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), com R$ 2 milhões, em 2022, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O investigado só doou menos que diretórios dos partidos das próprias coligações.
O governo de Cláudio Castro, aliado dos Bolsonaro, também se viu no radar dos investigadores. O Rioprevidência, fundo de previdência do estado do Rio de Janeiro, responsável por aposentadorias e pensões, havia investido R$ 1,2 bilhão em letras financeiras do Banco Master, um tipo de investimento sem garantia do FGC, ou seja: o prejuízo poderá ser coberto pelos cofres públicos estaduais, com dinheiro do povo.
Agora, portanto, que as condutas de Toffoli e Alexandre de Moraes, bem como os contratos e sociedades de seus familiares, tornam o escândalo Master um prato cheio para críticos do STF e de todo o sistema que corrói a República com seus conchavos e escambos – incluindo o PT, ligado ao Master pelo Credcesta da Bahia –, aqueles que têm rabo-preso, como os Bolsonaro, mais uma vez se fazem de sonsos.
Sem oposição de verdade, o Brasil continuará com sua polarização de fachada.
Causa-me espécie que esses escândalos no Vale sejam perpetrados por personas terrivelmente evangélicas, conservadoras, praticantes da ladainha “Deus, Pátria, Família”. Para qualquer desavisado ou incauto, corrupção não existiria neste séquito, pois tratar-sei-ia de “predicado” exclusivo da pretensa esquerda. Assaz interessante.
Mesmo nas civilizações ditas pagãs, definição é dos cristãos, sempre houve ritos, cultos, medo, sacrifícios, glória, milagres, deuses e divindades… Esse negócio de ateísmo é coisa para intelectual se mal expressar na sua suposta superioridade aos crentes, que julga discriminatoriamente mais fraco do que ele. A religiosidade da Humanidade é usada tanto para coroar poderosos como para abençoar os fracos que vão sustentar o reino de um deus qualquer, incluindo com a morte. Impressionante.
No caso específico citado por você na observação, esta “invocação”, ou uso da Bíblia, da religião ou da seita, beira a um crime hediondo continuado, pelos políticos cristãos brasileiros (e locais). E os políticos fazem isso, como salvo conduto moral dos políticos, contraditoriamente para se salvarem das profundezas das sacanagens onde estão ou se meterão, conscientemente.
Quem usa a Bíblia para pedir votos deveria sofrer uma maldição do mesmo deus ou santo que invoca para seduzir o eleitor e eleitora. E de forma macabra, faz isto de caso pensado, malandra e marqueteiramente, porque no fundo, sabe que lhe falta o que empresta dos escritos sagrados.
Lembrei-me da verdadeira máquina de recitar versículos bíblicos, em uma gestão não tão passada assim…
O ECOSSISTEMA DA CORRUPÇÃO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
A deflagração da nova fase da Operação Compliance Zero, na manhã de ontem, expôs as vísceras de um ecossistema de corrupção que se instalou no coração da República para servir aos interesses de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A busca e apreensão realizada pela Polícia Federal (PF) em endereços do senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente de um dos maiores partidos políticos do País, revela até onde chegou o assalto ao Estado brasileiro promovido pelo banqueiro e os que a ele se associaram nessa orgia criminosa.
Os fatos atribuídos pela PF a Ciro Nogueira são devastadores, daqueles que levariam qualquer parlamentar com um mínimo de vergonha na cara a renunciar ao mandato imediatamente para cuidar de sua defesa. De acordo com as investigações, o senador teria traído seus eleitores e corrompido a representação federativa do Piauí para atuar como uma espécie de sicário de terno e gravata a mando de Vorcaro em Brasília.
Documentos apreendidos pelos investigadores indicam que o teor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada por Ciro Nogueira foi redigida, pasme o leitor, por funcionários do Banco Master. Vorcaro se jactou pessoalmente do feito: “saiu exatamente como mandei”, disse ele, em diálogo obtido pela PF. A PEC em questão pretendia elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura individual do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), medida que beneficiaria diretamente o modelo de negócios baseado em captação agressiva adotado pelo banco.
O rombo no FGC causado pela debacle do Banco Master já alcança cifras bilionárias. Imaginemos o que teria ocorrido caso a PEC explosiva patrocinada por Ciro Nogueira fosse adiante. O prejuízo teria chegado a um patamar tal que não seria desarrazoado antever um colapso da segurança de todo o sistema financeiro nacional. Vale dizer: o senador piauiense é suspeito de ter trabalhado não em favor do interesse público, mas para socializar eventuais prejuízos privados de uma instituição cuja situação patrimonial já despertava preocupações das autoridades monetárias há meses.
A gravidade das suspeitas que recaem sobre Ciro Nogueira aumenta quando se observam as contrapartidas que ele teria recebido descritas pela PF. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, ao autorizar as diligências, reproduziu indícios segundo os quais o senador teria recebido mesadas que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além da utilização de um imóvel de alto padrão, viagens internacionais de luxo e outras vantagens custeadas pelo banqueiro, como pagamento de faturas pessoais de cartão de crédito.
É impossível ignorar o profundo mau cheiro desse quadro de putrefação moral e institucional. Ciro Nogueira não é um arrivista qualquer no submundo do poder em Brasília. Trata-se de um ex-ministro de Estado, senador da República, presidente de um dos maiores partidos políticos do Brasil. Ademais, ocupa posição central nas articulações políticas no Congresso. É desse lugar de destaque que, segundo a PF, ele teria servido a Daniel Vorcaro em troca de muito dinheiro, inclusive como artífice de outra PEC com o objetivo de dar poder ao Congresso para destituir membros da diretoria do Banco Central (BC). Convém recordar que foi justamente o BC quem embargou a operação de compra do Banco Master pelo BRB, expondo a fragilidade da situação financeira da instituição de Vorcaro.
Dito isso, o aspecto mais perturbador dessa nova fase da investigação é a sensação de que Vorcaro teria comprado uma rede de influência nos mais altos escalões dos Três Poderes, cuja extensão não tem precedentes na história recente do País. As suspeitas recaem inclusive sobre alguns ministros do STF, o que dá a dimensão da gravidade. O conjunto dos fatos revelados pela PF e pela imprensa profissional mostra um ambiente institucional marcado pela promiscuidade entre interesses privados e servidores públicos.
A chegada da PF ao núcleo político desse esquema é um novo marco. E é pouco provável que o senador Ciro Nogueira seja o único envolvido.
Começou a briga pelos quatro por cento, ou então vai desembocar no surgimento da tal terceira via e que está difícil de sair do chão. Vamos, mais uma vez, escolher entre o desastre e debacle…
PF COLOCA MASTER PERTO DE FLÁVIO, por Raquel Landim, no jornal O Estado de S. Paulo
Políticos à esquerda e à direita ouvidos pela coluna acreditam que a Polícia Federal apenas começou a puxar o fio das relações entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e os partidos do Centrão.
Atingido ontem pela 5.ª fase da Operação Compliance Zero, o senador Ciro Nogueira (PPPI) é o parlamentar com maior proximidade com Vorcaro, mas está longe de ser o único.
Estão sendo aguardados com ansiedade em Brasília os próximos desdobramentos das investigações. O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça demonstrou que não tem qualquer comprometimento com grupos partidários ao autorizar a operação.
A ação contra Nogueira também cai como uma bomba na pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Torna mais difícil uma aliança do PL com a federação PP-União Brasil.
Perseguida pelos assessores mais pragmáticos do senador, a aliança era uma forma de garantir tempo de TV, Fundo Partidário e prefeitos fazendo campanha em todo o País. Agora, tornou-se tóxica.
O PT já resgatou das redes sociais um vídeo de Flávio citando Nogueira como possível vice. É uma forma de aumentar a rejeição do candidato. E a base bolsonarista fica cada vez mais revoltada com a proximidade de seu líder com políticos supostamente corruptos.
A situação fica ainda pior porque a ligação direta de Nogueira com Vorcaro ajuda a minimizar o impacto do escândalo do Banco Master para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o aproxima perigosamente do candidato da oposição.
Lula vinha pagando o preço nas pesquisas de intenção de voto por sua associação com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes. O Planalto e o STF caminharam de mãos dadas no inquérito do golpe e até em questões econômicas.
E o escritório da esposa de Moraes foi pego em um contrato muito mal explicado de R$ 129 milhões com o Master. Só que agora é Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, que foi flagrado recebendo viagens e mesada de R$ 300 mil de Vorcaro.
A situação é tão delicada para Flávio que o pré-candidato soltou nota extremamente cautelosa sobre a operação da PF em que nem sequer menciona Nogueira. Diz apenas que considera os fatos “graves”, que “devem ser apurados com rigor”, “respeitando o devido processo legal”.
As pesquisas já demonstram uma consolidação do voto e uma sociedade polarizada entre aqueles que desejam um quarto mandato de Lula e os que querem tirá-lo do poder. Para os analistas, a vitória está nas mãos de 4% a 5% de eleitores de centro, para os quais o envolvimento com Vorcaro pode pesar.