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GOVERNO, INTERMEDIÁRIOS E SUPOSTA OPOSIÇÃO TRABALHAM PARA SEPULTAR UMA “AMEAÇA” DE CPI. ERA PARA “ESCLARECER” AS DÚVIDAS NAS OBRAS DA BARRANCA DO RIO ITAJAÍ E A “IMPORTAÇÃO” DO PESSOAL DO PL DE BLUMENAU E INDAIAL PARA TOCAR A SECRETARIA DE PLANEJAMENTO TERRITORIAL DE GASPAR

A sessão desta terça-feira da Câmara de Gaspar que prometia ser quente, contrariando a expectativa, foi bem morna. O que estava com o fósforo na mão, vereador Giovano Borges, PSD, participou remotamente apenas para as votações; depois se retirou. O que está com o galão de gasolina para abastecer o fogaréu, sendo ele da suposta base aliada e o único alinhado com o vice escanteado Rodrigo Boeing Althoff, Republicanos, vereador Thimoti Thiago Deschamps,  União Brasil, ficou calado até pedir para sair mais cedo da sessão desta terça.

O único que tocou na ferida porque não estava presente nos debates da sessão da semana passada e jura que não está sabendo ou participando de algum acerto de bastidores, foi Dionísio Luiz Bertoldi, PT. “Nós avisamos o prefeito Paulo. E ele só se mexeu depois que saíram os vídeos em Blumenau. Antes ele nos chamou [vereadores que tocaram neste assunto em plenário na Câmara] de fofoqueiros e nos acusou de atrapalhar e tumultuar o seu governo“, disparou da tribuna nas duas vezes que foi a tribuna.

Por outro lado, a líder de governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, ao contrário da terça-feira passada, quando ensaiou algumas escaramuças de enfrentamento e comparações como por exemplo, a de relembrar as dúvidas do governo Kleber Edson Wan Dall (2017/24 com MDB, PP, PSD, PSDB e PDT), eleito no MDB e agora no Podemos para fazer campanha para Jorginho Mello, PL – governo do qual ela participava pelo PSD, não caiu na provocação – o que é algo meio difícil para ela -, conteve-se e optou por um obsequioso silêncio neste assunto.

CAMPANHA POR JORGINHO VOTAÇÕES CRUCIAIS NA CÂMARA

O que de fato está em jogo? O curso das campanhas eleitorais, o sepultamento das dúvidas do passado e do presente, bem como não criar embaraços para o governo de Paulo Norberto Koerich, PL e que ainda não decolou na expectativa no imaginário popular que ele próprio criou antes de ser eleito em outubro de 2024 com 52,98% dos votos válidos contra a continuidade de Kleber, o quarto mandato de Pedro Celso Zuchi, PT e dois entrantes da mesma direita onde nadou de braçadas abraçado pelos donos de sempre de Gaspar.

Paulo foi convencido pelos de Florianópolis, Blumenau, seus “bruxos” e os “donos da cidade” a abandonar à teimosia que vai se tornando uma marca dele. Então ele – e sua equipe – deve focar na aprovação da Reforma Administrativa para aumentar a remuneração dos servidores comissionados, criar mais vagas para se trazer gente desempregada no ambiente político e de fora – já que resiste ao emprego dos capazes do daqui – bem como no Projeto que quer deixar nos cofres da prefeitura um cheque em branco de R$100 milhões em empréstimos.

A ordem é evitar o menor ruído possível até dia quatro de outubro nos assuntos sob dúvidas e neste dois projetos que estão na Câmara, bem como por outro lado, explorar enquanto não surjam problemas, a troca de mãos do Hospital de Gaspar.

Se Paulo entrar em rota de colisão com parte barulhenta da Câmara, criar o benefício da dúvida e der munições para espaços com este blog que não é lido por ninguém e principalmente as redes sociais  – as quais se tornam mais audazes em tempos de campanhas eleitorais -, estes dois projetos que deram entrada na Câmara na semana passada – ficam comprometidos. Igualmente, à busca de votos por Jorginho. Ambos se somam à tipificação dos escândalos. Eles podem ficar fora de controle tanto para gente de Blumenau, Florianópolis, Gaspar, os donos permanente de Gaspar, incluindo os que suportaram o antigo e o novo governo daqui. E ninguém quer isso.

SINAIS DA PAZ PROVIÓRIA

O primeiro sinal de “negociação” aconteceu na terça-feira. Internamente anunciou-se na secretaria de Planejamento Territorial a saída de Aline Fonseca Pereira Bratfisch. Como é ACT, a sua exoneração, apedido, não havia sido publicada no Diário Oficial dos Municípios. Ela pode ser transferida internamente. Aline estava intimamente ligada aos questionamentos de supostos erros de superdimensionamentos e superfaturamento da recuperação da barranca da Rua Anfilóquio Nunes Pires, no bairro Figueira, e que vai ser paga pela Defesa Civil e Proteção do governo de Jorginho.

Paulo e o “novo” secretário de Planejamento Territorial, Pedro Inácio Bornhausen, PP [ do tempo de Kleber] vinha resistindo à pressão de demovê-la do cargo e função. Alegavam que isto seria rende à pressão política externa, especulações de quem não apresentava provas contra elas. E por isso, os documentos, registros e áudios começaram a desmontar esta tese do governo e de quem o avaliza.

Este assunto com as operações policiais são o pivô de tudo.

Este assunto da barranca do Rio, por exemplo, foi debochadamente respondido aos vereadores na Câmara em Audiência Especial há duas semanas.

E a forma como se deu este depoimento foi determinante para a exoneração da secretaria interina do Planejamento Territorial e titular da diretoria de projetos da secretaria, Camila Beatriz Tillmann, vinda de Indaial. Ela era o braço forte do ex-secretário Michael Jackson Schoenfelder Miochi, do grupo que serviu ao ex-prefeito de Blumenau, Mário Hildebrandt, PL.

Maiochi foi pego – devido a sua atuação na prefeitura de Blumenau e não em Gaspar, até agora – em operações da polícia especializada, Gaeco e Ministério Público de lá, cujas investigações de anos estão tentando esclarecer à dimensão do rolo por lá e que parcialmente já veio a público.

Como se vê, a líder de governo Paulo, a vereadora [ também policial como Paulo] Alyne tinha razão quando sugeriu que todos teriam problemas se uma CPI fosse aberta para esclarecer dúvidas, até porque os vereadores, inclusive os do PL, não estavam dispostos ao sacrifício de desgastar publicamente na inviabilização da CPI.

E a CPI instalada, dependendo de quem a conduzisse e como se vazariam informações e documentos dela, todos os políticos, nomeados, candidatos e poderosos perderiam. Agora, só vão perder, por falta de transparência, os eleitores e eleitoras, pagadores de pesados impostos que sustentam os políticos, a monumental máquina pública e suas dúvidas. Muda, Gaspar!

TRAPICHE

Não convidem para uma mesma mesa de café Pedro Inácio Bornhausen, PP, o secretário adjunto de Fazenda e Gestão Administrativa, André Moura Cunha e o presidente da Fundação Municipal de Esporte e Lazer, Haroldo Roberto Medeiros, o boleiro Suca, ex-MDB roxo.

No centro está a disputa da vaga de chefe de gabinete deixada por Pedro Inácio Bornhausen na chefia de gabinete. Haroldo Roberto Medeiros, PL, teve um piti e foi parar sem ar no Hospital.

O relator do Projeto de Lei que pede à Câmara o aval dela para que Gaspar contraia empréstimo de até R$100 milhões, Dionísio Luiz Bertoldi, PT, mandou um requerimento ao gabinete de Paulo Norberto Koerich, PL, pedindo no que vão ser usados esta montanha de dinheiro. “Eu não sou contra, mas em três páginas, nem uma linha sobre com que vão gastar”, se queixou.

Para Dionísio Luiz Bertoldi, PT, se o governo de Paulo Norberto Koerich, PL, com dinheiro em caixa de emendas que ele arrumou em Brasília e Florianópolis para diversas obras não consegue executá-las ou nem dar previsões, quanto mais com R$100 milhões. Dionisio diz que no fundo não falta dinheiro à prefeitura, mas competência. Credo!

O vereador campeão de votos Alexsandro Burnier saiu do PL, segundo ele, a pedido do governador Jorginho Mello, e foi para um tal de PRD para ser linha auxiliar como candidato a deputado Federal. Agora, o PRD e Solidariedade em Federação anunciam que possuem candidato a governador: Ralf Zimmer. Tudo pode mudar, mas…

A campanha em Gaspar vai ser uma zoeira. Há candidatos e paraquedistas demais. Mesmo que todos os eleitores votassem em um só candidato não elegeria nenhum federal, e talvez, um estadual. Isto está longe de acontecer. Somos por essência divididos. Maltratamos os eleitores e eleitoras. Tem um paraquedista que diz ser daqui, mas nem na sua cidade de verdade colocou a sede da sua campanha. Preferiu Rio do Sul.

Como são as trapalhadas do governo de Gaspar, se não for recados de vingança e que o enfraquece. Hoje Paulo Norberto Koerich, PL, recebeu a nova Junta Administrativa do Sindicato Rural, eleita esta semana. Nada contra. Pelo contrário.

A antiga diretoria, liderada por anos afio por Ivanilde Rampelotti mofou de tanto pedir para ser atendida por Paulo Norberto Koerich, PL, ou alternativamente, para ele ir na sede do sindicato para uma visita. Então. E dizem que não sabem onde erram. O Sindicato Rural é uma instituição e não pode ser confundida com picuinhas pessoais, ou desconhecimento da secretária de Agricultura e Aquicultura, mais uma trazida de bem longe daqui e que precisa de GPS para andar na cidade.

Os políticos e gestores sem espelhos – que seus próprios assessores arrancaram das salas de seus chefes – no tempo na inteligência artificial, e orientados por quem diz conhecer de “era digital” – é bom em fazer memes – querem banir do ambiente das repartições públicas o acesso de funcionários as redes sociais, sites e blogs.

Na verdade, quando descobrirem, que estão com a cabeça enfiada na areia com todo o corpo descoberto e à mostra, terão perdido o mandato nas urnas e parte da credibilidade que o fizeram vitoriosos em eleições passadas. E seus assessores, com estas ideias do tempo de Platão, no Mito da Caverna, sem os seus próprios criativos e inovadores empregos. Muda, Gaspar!

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18 comentários em “GOVERNO, INTERMEDIÁRIOS E SUPOSTA OPOSIÇÃO TRABALHAM PARA SEPULTAR UMA “AMEAÇA” DE CPI. ERA PARA “ESCLARECER” AS DÚVIDAS NAS OBRAS DA BARRANCA DO RIO ITAJAÍ E A “IMPORTAÇÃO” DO PESSOAL DO PL DE BLUMENAU E INDAIAL PARA TOCAR A SECRETARIA DE PLANEJAMENTO TERRITORIAL DE GASPAR”

  1. *PARA QUE OPOSIÇÃO*

    Até que enfim vieram os elogios ao ex-prefeito Kleber. No fim, reconheceram que, em apenas um ano e meio de mandato, ele não poderia ter promovido o desenvolvimento e crescimento para Gaspar. Se não atendeu todas as demandas, foi porque precisa criar ainda mais cargos, pois recebeu um cidade que cresceu e sem gente para exercer a função.

    Na minha visão, essa reforma administrativa acaba funcionando como uma cortina de fumaça, desviando o foco da discussão sobre a CPI.

    Curioso como, seguindo uma lógica que muitos atribuem ao bolsonarismo, quando a investigação envolve os adversários, a lei deve ser aplicada de forma imediata. Mas, quando envolve os aliados, tudo passa a ser tratado como fofoca ou perseguição.

    Se o ex-prefeito conseguiu administrar Gaspar com a estrutura de servidores que existia, qual é a justificativa para dizer que agora isso se tornou impossível?

    Se a resposta é que só será possível governar criando mais cargos, a mensagem que fica é uma de duas: ou a atual gestão é menos eficiente, ou a administração anterior era mais competente.

    Essa é uma comparação que a própria justificativa da prefeitura acaba provocando.

    Se apertar mais o poderoso delegado ele grita, chamem “O KLEBER EU NAO AGUENTO MAIS”.

    1. Menos. Menos. O governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB que está no Podemos para estar no mesmo palanque para reeleger Jorginho Mello, PL, foi um desastre, para onde quer que se olhe. O que é impressionante, que em alguns aspectos, o governo de Paulo Norberto Koerich, PL, consegue ainda ser pior do que o de Kleber. Falta equipe, falta identificação com a cidade e resultados, sobram e abundam dúvidas. Todas para debaixo do tapete pelos mesmos que armaram duas CPIs no governo de Kleber. E é isto, que no fundo você bem observa. Nada mais.

  2. O CERCO AMERICANO AO CAPITALISMO, por José de Souza Martins, Sociólogo, no jornal Valor Econômico

    Para entender as aberrações de conduta política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.

    Responsabilizá-los ainda é parte do jogo político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar seus erros, suas brechas, e ocupá-las.

    As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.

    As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.

    Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá. Isso não é coisa de agora. Em relação a nós, vem de longe.

    É preciso definir as temporalidades do crescente processo de ação americana em suas relações internacionais no sentido de monitorar e limitar economias do Terceiro Mundo e, no que nos interessa, cercear o desenvolvimento capitalista na América Latina e, em particular na Argentina, no México e no Brasil.

    O capitalismo se desenvolveu mais típica e caracteristicamente na Inglaterra, onde ocorreu a primeira revolução econômica capitalista. O Brasil nasceu, como país independente, patrocinado e financiado pela Inglaterra, que concebeu nossa independência e a financiou como parte do projeto inglês de potência econômica colonial. Esse plano está num documento de 1805 da Biblioteca Britânica, de Londres.

    Quando a crise do capitalismo abateu o capitalismo inglês, o eixo da economia internacional se deslocou para os EUA. Surgiu a “doutrina” da América Latina como quintal americano, agora ainda invocada pelo governo Trump. O chamado imperialismo surgiu geopoliticamente como um modo de impedir a expansão territorial do capitalismo, para concentrar na metrópole sua poderosa capacidade de produzir riquezas e distribuí-las parcimoniosamente por menos do que o apetecido pelos subdesenvolvidos.

    Antes mesmo de consolidar-se a transferência da hegemonia econômica da Inglaterra para os EUA, os americanos já temiam e estavam preocupados com o desenvolvimento da indústria no Brasil. Nos anos 1920, o Departamento de Comércio realizou na Argentina e no Brasil uma pesquisa sobre o desenvolvimento industrial nos dois países.

    Descobriu que ambos tinham um desenvolvimento industrial significativo, com capacidade ociosa para atender a demanda interna de produtos industrializados numa eventual crise que dificultasse a importação de bens de consumo. Nossa industrialização não nasceu da crise do café, como equivocadamente supôs Celso Furtado, que não examinou os documentos americanos para explicá-la.

    Os nossos engenheiros, mesmo os formados nas escolas militares, e nossa mão de obra qualificada, foram capazes de inventar peças e máquinas, começaram a substituir importações substituindo peças desgastadas de máquinas importadas por peças fabricadas aqui mesmo, artesanalmente, com a reciclagem de ferro-velho. Ou importação de matéria-prima.

    Mesmo a espionagem industrial entrou no jogo. Antônio Pereira Inácio, que seria sogro de José Ermírio de Moraes, expressão da burguesia nacional, fez isso em empresas americanas. Quando decidiu voltar ao Brasil e montar sua própria indústria, devolveu à empresa que espionara todos os salários recebidos.

    O exemplo que entre nós evidencia o quanto o capitalismo americano é anticapitalista é o da biografia de Roberto Cochrane Simonsen, industrial e político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos montaram o Plano Marshall para aplicar recursos de rápido desenvolvimento econômico nos países vencidos, especialmente na Europa.

    Roberto Simonsen foi aos EUA defender que o Plano Marshall fosse estendido à América Latina, que se transformaria numa potência econômica. Os americanos recusaram o apoio. Sem dizê-lo, não queriam que a América Latina se transformasse numa potência capitalista. Ficamos confinados nos limites bem definidos de um subcapitalismo, como o definiu Fernando Henrique Cardoso.

    O golpe de 1964 foi patrocinado pelo governo americano em nome da geopolítica da dominação econômica. Para não sermos o que tínhamos condições de ser.

  3. É recorrente lá, com menos experiência para estes casos, mas foi igual aqui, onde os mecanismos de alerta são tidos como a joia da cora.

    VENDAVAL MOSTROU DESPREPARO PARA SUPER EL NIÑO, editorial do jornal O Globo

    A julgar pela situação caótica instalada pelo vendaval de quarta-feira em municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo, as autoridades dos três níveis de governo não passaram no teste do Super El Niño. Segundo meteorologistas, as rajadas de mais de 100km/h estão relacionadas ao fenômeno climático de forte intensidade previsto para este ano. À população, foi mostra preocupante do que está por vir. Ao governo, serve de alerta.

    Chamam a atenção as falhas nos sistemas de informação. Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alertas severos a partir das 13h (para cidades do litoral) e das 13h30 (para a Região Metropolitana), cerca de meia hora antes do vendaval. No Rio, o aviso só começou a chegar às 16h41, quando os ventos já varriam o estado furiosamente. E nada de alerta severo, como aquele estridente que acordou milhões de brasileiros depois de uma invasão nos sistemas de disparo semanas atrás. O alerta de quarta-feira não dava a real dimensão do problema. Milhares de cariocas foram apanhados de surpresa nas praias. Ainda que meteorologistas digam que o fenômeno é raro no inverno e é difícil prevê-lo com antecedência, é de pouca utilidade um alerta que chega quando o cidadão já está em plena ventania.

    Diante do transtorno provocado pela força dos ventos — com queda de árvores, esquadrias, telhas e painéis de publicidade —, a resposta à população precisaria ter sido rápida. Na Região Metropolitana do Rio, imperou a confusão. Inúmeros bairros ficaram sem luz, serviços de trem e metrô foram interrompidos, sinais de trânsito pararam de funcionar, a circulação de veículos tornou-se caótica, sem agentes para desbloquear cruzamentos. Moradores ficaram presos em elevadores. Em áreas da Zona Sul, a luz voltou rapidamente, mostrando ser possível agir com celeridade. Mas outras regiões enfrentaram um longo apagão. Na manhã seguinte, ainda havia 500 mil sem luz no estado, contingente equivalente à população de Niterói (RJ).

    Claro que ventos repentinos excepcionais representam um desafio, e é razoável supor que qualquer metrópole do mundo enfrentaria problemas. Tampouco se pode afirmar que as seis mortes provocadas pela ventania (três no Rio e três em São Paulo) poderiam ter sido evitadas. Mas é tarefa do governo estabelecer procedimentos para minimizar efeitos danosos de vendavais e tempestades, além de oferecer respostas eficazes para contorná-los.

    Alegar severidade dos fenômenos climáticos é justo. Mas esse virou um álibi para justificar a deficiência das políticas públicas. É verdade que, por vezes, chove num único dia a média prevista para o mês. Diante de situações assim, danos são previsíveis. Mas conformar-se não é uma resposta razoável. A frequência de desastres em determinadas áreas deveria nortear ações de prevenção. Não há como evitar as rajadas, mas é possível acionar protocolos para remover árvores caídas, gerir o trânsito para facilitar o deslocamento e restabelecer rapidamente a energia.

    Meteorologistas estimam em mais de 80% a probabilidade de El Niño “muito forte”, especialmente entre outubro e dezembro. Tempestades arrasadoras são um dos efeitos esperados. Não é improvável haver novas surpresas climáticas nos próximos meses. Isso demanda das autoridades mais eficiência para deflagrar planos de contingência. Quanto mais bem preparadas estiverem, melhores respostas oferecerão aos cidadãos.

  4. FLÁVIO E MORAES TESTAM A JUSTIÇA ELEITORAL, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O avatar de Jair Bolsonaro criado por inteligência artificial (IA), exibido na convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, é um teste para a autoridade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em particular a de seu presidente, o ministro Nunes Marques. O TSE julgará o caso submetido a duas pressões distintas, mas igualmente nocivas à sua independência.

    De um lado, Flávio explora os limites da legislação eleitoral sobre “deep fakes” – vídeos gerados ou alterados por IA para simular, com extremo realismo, a aparência, a voz ou os gestos de pessoa viva ou morta, fazendo-a parecer dizer ou fazer algo que nunca disse ou fez. O objetivo parece ser o de pôr à prova a lealdade de Nunes Marques à família que o alçou à cúpula do Poder Judiciário. De outro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, ao cobrar resposta da defesa de Bolsonaro sobre o conhecimento prévio do tal vídeo, se intromete em matéria eleitoral que não lhe diz respeito, um movimento nada disfarçado para encabrestar Nunes Marques e antecipar um julgamento que, a rigor, cabe exclusivamente ao TSE.

    Entre um safanão e outro, a Justiça Eleitoral manter-se-á de pé apenas e tão somente se respeitar a lei. E a lei aplicada ao caso concreto é cristalina. O artigo 9-C da Resolução TSE n.º 23.732/2024 veda, “na propaganda eleitoral”, a divulgação de “conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados com potencial para causar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral”. O parágrafo 1.º do mesmo artigo proíbe expressamente o uso de “deep fakes” para “prejudicar ou para favorecer candidatura”, mesmo que haja autorização da pessoa retratada.

    Ora, a propaganda eleitoral só começa oficialmente no dia 16 de agosto. Logo, à luz da lei, a convenção do PL não foi um ato de propaganda eleitoral, e sim um evento partidário, voltado ao público interno. É uma sutileza decerto incômoda, pois dá azo a artimanhas. Usar IA para fabricar uma manifestação política de Bolsonaro – que, como todos sabem, está preso e com seus direitos políticos suspensos – para testar até onde a lei alcança é um cálculo típico de alguém como Flávio, que nasceu e cresceu vendo o pai desafiar as leis e as instituições republicanas. Mas incômodo não é ilegalidade. E cabe ao TSE, não ao STF, dizer se houve, ou não, transgressão da lei eleitoral.

    Eis o segundo teste. Moraes, na estranha posição de juiz de execução da pena de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, cobrou explicações sobre a eventual autorização do ex-presidente para o uso de sua imagem, sugerindo consequências que vão da inelegibilidade de Flávio ao retorno do ex-presidente para prisão em regime fechado. A pressa e o tom da cobrança de Moraes em seu despacho, dando alternativas peremptórias à defesa, foram às raias da antecipação de um julgamento que não lhe compete.

    O TSE é uma corte independente, com competência exclusiva sobre matéria eleitoral. O STF não é seu bedel nem tampouco superior hierárquico quando não há questão constitucional em disputa, como parece ser o caso de um vídeo exibido numa convenção partidária. Se Moraes se arvorou em juiz de execução penal, pois então que se circunscreva a esse papel. O que o ministro não pode fazer é usar a gestão da pena de Bolsonaro como subterfúgio para direcionar o julgamento de mérito de uma representação eleitoral ora em trâmite no TSE, sob a relatoria de seu colega Nunes Marques.

    Tanto pior porque não estamos diante de um episódio isolado, como já dissemos nesta página (ver editorial Ao Supremo o que é do Supremo, 28/6/2026). Em junho, ministros do STF já haviam sinalizado a Nunes Marques a intenção de derrubar sua decisão de restringir a divulgação de uma pesquisa eleitoral desfavorável a Flávio. O que se nota é um apetite crescente de parte do Supremo para funcionar, na eleição deste ano, como instância revisora de decisões do TSE sob a presidência de Nunes Marques que tratam de questões infraconstitucionais.

    Que a Justiça Eleitoral julgue o caso do avatar de Bolsonaro com a serenidade e o apego à lei que o ineditismo da matéria exige, sem se curvar à pressão de quem espera lealdade pessoal nem à de quem usurpa sua autonomia institucional.

  5. Aos poucos os importados de Blumenau trazidos pra Prefeitura de Gaspar estão sendo EXONERADOS, mas ainda têm alguns nomes como Ana Karina Schramm Matuchaki Cunha, Lucia Detzel, André de Moura da Cunha….

    Muito bem Sr. Prefeito vamos valorizar os profissionais da cidade.

    1. O problema não é importar de Blumenau, Indaial e do litoral gente que não tem nada a ver com a cidade.

      A primeira questão é a folha corrida. Pelo menos um foi embora daqui com tornozeleira eletrônica.

      A segunda, é a competência. Se tiver competência acima da média dos daqui, Gaspar e o o governo ganham. Mas, parece não ser este o caso. A competência, pelas declarações, investigações e documentos estava em outra coisa.

      A terceira, é o empreguismo partidário e ideológico. Basta estar filiado, ter relações com alguns poderosos ou com um grupo fechado de interesses pouco claros à sociedade.

      O quarto, é que algumas atividades (cargos ou funções) precisam ter identidade com a política, a cidade, os cidadãos e cidadãs moradores daqui. Ela lida com pessoas e a cultura da cidade. Não conhecê-las, ou ter que andar de GPS, ou com um assessor motorista para chegar a locais bem conhecidos por quem conhece minimamente a cidade, é algo assustador, sugerindo distopia funcional.

  6. Marcelo, na primeira eleição, foi o mais votado. No entanto, a soberba muitas vezes precede a queda. Acreditou que surfar na onda do momento o levaria ainda mais longe, mas as constantes trocas de partido acabaram gerando desgaste. Possuía um patrimônio eleitoral invejável e, aos poucos, viu esse capital político ser dilapidado.

    O mesmo pode ser observado no atual vice. Sem conseguir formar um grupo coeso, passou de uma oportunidade para outra, numa trajetória marcada por movimentos que muitos interpretam como oportunismo. Ambos construíram patrimônio financeiro, mas, politicamente, parecem estar desaparecendo do cenário.

    Agora, vejo sinais semelhantes se repetindo com aquele que foi o campeão de votos. Com um caminho aberto para se tornar protagonista de sua própria história, opta por deixar o partido que o projetou e buscar vantagens imediatas, seja por conveniência política ou financeira. Em vez de consolidar uma trajetória que poderia levá-lo à prefeitura, corre o risco de desperdiçar um capital político construído ao longo dos anos.

    O jogo das vaidades pode ser devastador. Para quem está dentro dele, muitas vezes cria-se uma bolha que impede a percepção da realidade e afasta lideranças daquilo que as tornou fortes junto ao eleitorado.

    Resta acompanhar os próximos movimentos. Caso o governador conquiste a reeleição, talvez haja espaço para que esse campeão de votos ocupe uma secretaria estadual. Caso contrário, poderá descobrir que o capital político, quando não é preservado, pode desaparecer muito mais rápido do que foi construído.

    1. Muito boa a observação comparativa entre os os personagens. Quanto ele o campeão de votos daqui e minguados no próximo outubro ocupar uma secretaria estadual no caso do atual governador vencer, beira o escárnio por quem fizer a escolha e pelo que produz de espetáculos de incoerência e oportunismo para se manter vivo na mídia da própria bolha. Se isto é verdade, a possibilidade de se dar uma secretaria a ele, pelo bem de Santa Catarina, pois por ele pode se medir a régua da escolha dos demais, Jorginho Mello, PL, deveria ser derrotado.

  7. TANTO FAZ, por William Waack, no jornal O Estado de S. Paulo

    Alguns dos principais partidos políticos no Brasil consagraram a abordagem “tanto faz” para as eleições presidenciais. Tanto faz, pois consideram que saem ganhando não importa o candidato. Não, não é mais o famoso “toma lá, dá cá”.

    Esse “vamos ganhar de qualquer jeito” não precisa aguardar o segundo turno. As maiores agremiações que declararam neutralidade – juntas, têm 40% da Câmara – só pensam em aumentar bancadas na Câmara e no Senado. E encontraram um jeito de evitar “queimar”, em campanha presidencial eventualmente perdedora, preciosos recursos dos fundos partidário e eleitoral.

    Diante da “alta polarização”, diz, por exemplo, Baleia Rossi, presidente do MDB, simplesmente o melhor é ficar neutro. E cada diretório regional apoia quem quiser. Até quem tem candidato próprio, como o PSD, se comporta assim. Dependendo do lugar, vai de Lula. Ou de Caiado, ou de Flávio – nessa estratégia, tanto faz.

    Esse é o estado da arte da geringonça ideológica brasileira. Resultado não só do fato de o Brasil não dispor de partidos que mereçam esse nome, algo exaustivamente ressaltado por cientistas políticos. É um fenômeno de longa data, mas ganhou proporções ainda maiores com a distorção na relação entre os Poderes.

    As emendas parlamentares fizeram o Legislativo avançar sobre prerrogativas do Executivo. Os problemas que isso causa para políticas públicas é assunto fartamente abordado, mas aqui o foco é outro. Se os caciques partidários acham que qualquer presidente é fraco, e muito poderoso o conjunto de parlamentares abastecidos com verbas polpudas, ainda por cima consolidando oligarquias, quem vai contrariá-los?

    Ora, o Supremo. O ministro Flávio Dino tem nas mãos um petardo nuclear, que é declarar a inconstitucionalidade das emendas impositivas. E está cuidando disso. Suas ações mais recentes incluíram ir à caça dos caciques partidários. Acaba agora de intimar os presidentes das duas Casas Legislativas e o da República a apresentar um “plano de responsabilidades” para destinação de emendas parlamentares. É o STF como guardião da governança?

    Esse enfrentamento tem o potencial de criar um cenário de desobediência civil – não, evidentemente, com os atuais presidentes das Casas Legislativas, envolvidos como alguns integrantes do STF também estão não só em alianças políticas de oportunidade, mas com os nomes citados no noticiário do escândalo Master.

    É difícil imaginar que a caneta do ministro faça as coisas voltarem ao “status quo ante”, pois os parlamentares consideram as emendas como um imutável direito adquirido, e por ele irão à luta. Tanto faz com quem?

  8. É DESCABIDO SIGILO DE CEM ANOS SOBRE VISITAS À VOCARO NA CADEIA, editorial no jornal O Globo

    Não faz sentido o sigilo de cem anos decretado sobre a lista de visitas recebidas na prisão por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enquanto esteve detido na Superintendência de Polícia Federal (PF) em Brasília. O pedido, feito pela coluna Ancelmo Gois, do GLOBO, via Lei de Acesso à Informação, foi negado pela PF. Depois de recurso da coluna Malu Gaspar, também do GLOBO, a mesma solicitação foi recusada pelo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva. O que pode haver de tão bombástico numa simples lista para justificar sigilo de um século?

    Os registros compreendem nome, CPF, data, horário e grau de parentesco dos visitantes. “Caracterizam-se como informações pessoais sensíveis à esfera privada tanto do visitante quanto do detento”, diz a PF em comunicado. “O tratamento de informações pessoais deve observar, de forma estrita, a proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais.” Lima e Silva alegou a necessidade de preservar informações “relacionadas à intimidade e à vida privada”. Mas o pedido para que fosse encaminhada a lista com tarjas protegendo dados sensíveis também foi negado pela PF.

    É louvável o zelo da PF e do ministério com a intimidade dos presos. Mas qualquer dado relacionado a Vorcaro hoje é de interesse público. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou informações sobre suas prisões, relações com o poder, mensagens pessoais e até o financiamento ao filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Tudo pode ser relevante. O cidadão tem o direito de saber quem visitou o banqueiro na cadeia. Até porque não há nenhum crime em ter visitado Vorcaro.

    A despeito de promessas de campanha, o atual governo continua a impor sigilos centenários. O mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que tanto criticou Bolsonaro pelos abusos lança mão do expediente. “Vou pegar o sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa. Afinal de contas, se é bom, não precisa esconder”, disse Lula em 2022. Uma vez no poder, o roteiro saiu diferente. O atual governo tem negado informações em patamares não muito diferentes do anterior.

    Não é prática apenas do Executivo. O Senado negou pedido da coluna Malu Gaspar para informar os registros de entrada de Vorcaro na Casa. Alegou seguir a Lei Geral de Proteção de Dados e um decreto sobre acesso a “informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra, e imagens detidas pelos órgãos e entidades”. No ano passado, o Senado já decretara sigilo de cem anos sobre entradas e saídas do lobista acusado de chefiar o esquema que lesou milhões de aposentados.

    Vorcaro é acusado de ter liderado uma das maiores fraudes bancárias da História do país. Milhares de investidores tiveram de ser socorridos. Fundos de Previdência de servidores terão de recorrer aos cofres públicos. As investigações mostram que ele pagava uma milícia particular para intimidar e ameaçar quem o contrariasse, em especial jornalistas. E quem o visitou não é de interesse público?

  9. EFETIVA, ATENTA E OBSERVADORA

    Herculano

    A história sempre se repete.

    O Circo de Gaspar: Mágica, Carguinhos e Silêncio Comprado

    Sob a gestão Paulo Koerich, o governo atua como um mágico habilidoso: cria distrações coloridas para que os incautos gasparenses não vejam o que realmente acontece no picadeiro.

    O papel mais patético, contudo, é o da “oposição”. Diante da chance de uma CPI, os vereadores entraram em pânico — não por indignação, mas pelo pavor de ter que trabalhar. Investigar dá trabalho, exige ler contratos e cortar a pausa do café.
    Mas a preguiça esconde o medo real. O “time importado” pelo governo carrega a sombra de operações do GAECO na vizinhança. Se a CPI vingar e forem puxar o fio das obras — como a Rua Itália, o Morro da Garuba e as controversas salas modulares —, o castelo desmorona.

    A desculpa perfeita já está pronta: “se investigar, as obras param”. A chantagem cola, e o silêncio vira virtude.

    Claro que ninguém vende a alma de graça. A moeda da paz na Câmara é a de sempre: cargos comissionados. E para o governo enrolado, isso é fácil de resolver: basta aprovar a cara Reforma Administrativa que já tramita na casa, loteando o cabide de empregos para manter todos de boca cheia e calada.

    Enquanto a plateia assiste ao truque de ilusionismo da prefeitura, os bastidores dividem o banquete. E o cidadão? Segue pagando a conta do espetáculo.

    É nós os efetivos, sempre soubemos que o espetáculo seria mais do mesmo… com o mesmo enredo e atores de conhecida capacidade performática.

    1. Obrigado pela leitura e interação

      Excelente. Claro. Você vê. A população percebe. Só os políticos, os mandatários, os candidatos, os representantes do povo não enxergam que estão tentando eles próprios tapar o sol com a peneira. Credo.

      E reclamam das urnas, das cobranças nas ruas e dos artigos e opiniões. ” Quando a esperteza é demais, ela come o dono”, alertava o ex-primeiro ministro do Brasil, o mineiro Tancredo de Almeida Neves.

  10. Esse André é mais um da turma de Blumenau, participou de toda administração do Mário Hildelbrand.
    Só falta o Paulo colocar ele de chefe de gabinete…

  11. E ainda, há quem digam que a divida do FMI foi 100% com reservas internacionais? Verdade ? Uma distinção importante: Dívida Externa vs. Dívida Interna
    Embora a dívida específica com o FMI tenha sido 100% zerada com reservas internacionais em dólares:

    A dívida pública total do país não acabou: O Brasil continuou emitindo títulos do Tesouro Nacional no mercado interno em reais para financiar suas operações e gerenciar a política monetária.

    Substituição de passivos: Na prática, o país trocou uma dívida externa em moeda forte (dólares/SDRs sujeita a condicionantes do FMI) por estabilidade e acúmulo de compromissos em moeda local (reais).

  12. A FORÇA DAS URNAS NÃO SUBSTITUI A CORAGEM DE LIDERAR, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08), graduado em Gestão Pública pela Udesc. Artigo, originalmente, publicado nas redes sociais do autor.

    O resultado das urnas foi inequívoco: a população entregou a esta gestão uma votação expressiva e um mandato indiscutível. Havia expectativa, capital político e, acima de tudo, um município rico em talentos, técnicos experientes e grandes cidadãos prontos para contribuir.

    Contudo, a história política é implacável: as urnas concedem o mandato, mas não a liderança.

    O grande erro desta administração começou na escolha do seu primeiro escalão. Mesmo cercado por quadros brilhantes na sociedade, o gestor preferiu a acomodação ao valor, montando uma equipe incapaz de corresponder à grandeza do desafio. O resultado é o trágico espetáculo do potencial desperdiçado: a falta de rumo no topo gerou desconfiança na base, ruído nos corredores e a incômoda sensação de um governo à deriva.

    É nesse cenário que a máxima histórica atribuída a Alexandre, o Grande, cobra seu preço:

    **”Não tenho medo de um exército de leões liderado por uma ovelha; tenho medo de um exército de ovelhas liderado por um leão.” **

    A cidade possui leões de sobra, cidadãos qualificados, vocacionados e dispostos a fazer a diferença. Mas de nada adianta o potencial do município se a liderança no executivo atua com hesitação, sem a coragem de cercar-se dos melhores e tomar as rédeas do próprio governo. A fraqueza do comando neutralizou a força da cidade.

    A votação expressiva do passado não salvará o governo do fracasso presente se a postura continuar sendo de recuo. É hora de o gestor decidir se usará a autoridade do seu cargo para montar um time à altura do município ou se continuará assistindo à erosão silenciosa da sua própria liderança.

    A legitimidade já foi dada pelo povo. Resta saber se haverá altivez para honrá-la.

  13. DIPLOMACIA CARCERÁRIA É UMA PRAGA, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo

    Em 2019, Alberto Fernández liderava as pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula, preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a aliada.

    Dom Pedro II visitava escritores e cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:

    — Palhaço.

    É a praga da diplomacia carcerária. Visitando o preso, alfineta-se o governo e baixa-se o nível da relação entre os dois países. Quem prende é o Judiciário e quem sofre a malcriação é o Executivo.

    Visitar político preso é uma interferência deliberada e indevida na política interna do outro país, seja Fernández visitando Lula, seja Lula visitando Cristina Kirchner. A diplomacia carcerária envenena as relações entre os países. Era isso que Milei queria e, de certa maneira, conseguiu.

    Milei não gosta de Lula, assim como os generais da ditadura brasileira não gostavam do caudilho argentino Juan Perón (1895-1974). Chegaram a impedir que regressasse à Argentina em 1964.

    O Itamaraty administra com grande competência as relações com a Argentina. Nos anos 1970, atravessou a crise de Itaipu sem maiores sobressaltos. Os argentinos não queriam a hidrelétrica, e o general Alejandro Lanusse fez uma suave malcriação durante sua visita ao Brasil em 1972. Dez anos depois, quando o general Leopoldo Galtieri invadiu as Malvinas, o chanceler Saraiva Guerreiro tirou as meias sem tirar os sapatos e não ofendeu os argentinos.

    As ditaduras dos dois países lubrificavam suas simpatias sequestrando cidadãos e entregando-os às tigradas que mandavam dos dois lados da fronteira.

    Com um século de dificuldades, presidentes argentinos têm um fraco por bodes expiatórios, seja Itaipu, sejam as Malvinas. Milei escolheu Lula. Seu insulto a Moraes foi o último recurso de quem queria criar um caso. Anunciou que vinha para a convenção de Flávio Bolsonaro, e ninguém lhe deu atenção. A visita ao ex-presidente preso (troco à visita de Lula a Cristina Kirchner) seria a última oportunidade para conseguir holofotes. Negada. Restava-lhe insultar Moraes numa catilinária contra Lula.

    Quando o governo argentino estranhou o brasileiro, seja com Itaipu, seja com tarifas, estavam em questão fatos concretos. Alavancado pela diplomacia carcerária, Milei conseguiu fabricar uma crise a partir de coisa nenhuma. Chegou a associar a ação de Brasília à derrota da seleção argentina para a espanhola.

    Este é o sonho de todos os governantes: atribuir a um governo uma derrota dentro das quatro linhas de um campo de futebol. Para ficar no estilo de Milei, Carlo Ancelotti poderia culpar a Argentina pela derrota diante da Noruega.

  14. ATAQUE AO CONSUMIDOR DE ENERGIA, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    A conta de luz do brasileiro já está entre as mais caras do mundo para um país de renda média. Ainda assim, o Congresso Nacional parece disposto a encarecê-la ainda mais. Um substitutivo apresentado de última hora ao projeto de lei 5.017 de 2019 reúne uma coleção de “jabutis” que pode elevar as tarifas em até R$ 1,5 trilhão nas próximas décadas.

    Trata-se de um dos mais graves ataques ao consumidor e à racionalidade da política energética.

    O problema não está apenas no conteúdo, mas também no método. Um projeto originalmente voltado à ampliação de descontos para irrigação transformou-se em um texto que altera sete leis e cria novas obrigações para o setor elétrico.

    O substitutivo surgiu fora da pauta, foi apresentado no fim do período legislativo, lido somente em resumo e aprovado simbolicamente por uma comissão esvaziada. Um rito dessa importância não pode impor custos que recairão sobre consumidores por décadas.

    O pacote ressuscita pressões de grupos de interesse. Inclui contratações compulsórias de termelétricas e pequenas hidrelétricas, amplia subsídios e altera a Lei da Eletrobras sem respaldo de estudos do Executivo, da Empresa de Pesquisa Energética ou do Operador Nacional do Sistema.

    A medida mais onerosa obriga a contratação de termelétricas a gás na amazônia, vinculadas a projetos estruturantes da região Norte, exige infraestrutura de produção e transporte do combustível e pode custar R$ 902,5 bilhões em 30 anos. Beneficiam-se investidores dessa cadeia produtiva, mas transfere-se integralmente a conta aos consumidores.

    Somadas às demais medidas, as despesas adicionais podem chegar a R$ 1,2 trilhão —ou R$ 1,5 trilhão, considerando outras alterações na Lei da Eletrobras. O impacto estimado é um aumento médio de cerca de 11% nas tarifas entre 2032 e 2035, incorporando R$ 50 bilhões aos custos anuais para as famílias e empresas.

    O despropósito contrasta com o diagnóstico do Tribunal de Contas da União. Entre 2001 e 2020, a tarifa dos consumidores regulados subiu 351%, muito acima da inflação de 230%. O TCU também apontou que a tarifa residencial está entre as mais altas do mundo para um país com renda per capita muito inferior à das economias desenvolvidas.

    Em vez de aproveitar a abundância de hidrelétricas, eólicas, solares e do gás do pré-sal para reduzir custos, o país insiste em subsídios cruzados e obrigações artificiais que encarecem o sistema e beneficiam lobistas.

    Ainda há tempo de barrar esse desatino. O projeto precisa passar pelo escrutínio das comissões técnicas e do plenário, com transparência e debate público.

    Não é aceitável que “jabutis” aprovados às pressas imponham aos cidadãos uma conta trilionária por décadas. A política energética deve atender ao interesse coletivo, e não transformar privilégios privados em custos permanentes para toda a sociedade.

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