Desculpem-me, mais uma vez. Vou quebrar à minha promessa de não escrever sobre este assunto antes do final das janelas de transferências e que termina hoje, dia quatro, à meia noite. É que ontem, sexta-feira, a do Calvário, do da Via Dolorosa, o da Via Crucis, pelo calendário da Justiça eleitoral, foi o último dia da janela partidária, ou seja, a troca de partidos, para quem quer ser candidato a alguma coisa em outubro deste ano. Repito: para quem deseja estar apto a ser candidato em outubro. Pode até não ser candidato, mas pelas regras do jogo, está. E o ex-prefeito de Gaspar 2016/24), Kleber Edson Wan Dall trocou o seu MDB onde estava desde 2000 pelo Podemos. Ou seja, está apto a ser candidato em outubro. sintomático.
No artigo de quinta-feira aqui, contrariando os prognósticos de muitos, principalmente os não leitores e leitoras que os poderosos de ontem e de hoje juram não tê-los, eu havia anunciado – por fontes e lógica – a provável saída de Kleber do MDB para acompanhar o movimento do seu padrinho político na igreja evangélica Assembleia de Deus, o deputado Federal por Blumenau, Ismael dos Santos (à esquerda na foto acima com Kleber). Ismael deixou o PSD e foi para o PL de Jorginho Melo. Bingo. Ontem, envergonhado, Kleber anunciou por nota a sua saída do MDB e anunciando a filiação, sem pompa alguma. Poucos argumentos, muitos agradecimentos e a protocolar lista curricular política.
O anúncio de Kleber foi feito ontem, à última hora, e foi logo registrado como intervenção e acréscimo no artigo A ÁGUA BATEU NO NARIZ. UM COELHO PÔS UM OVO GIGANTE TÃO RAPIDAMENTE NA PRAÇA DA PREFEITURA DE GASPAR E PAULO NORBERTO KOERICH, PL, SEM ENTREGAS, RESOLVEU SAIR DO CONFORTO E RESPONDER COM MARQUETAGEM USANDO VELHAS PROMESSAS QUE NÃO AINDA REALIZOU DEPOIS DE 15 MESES DE GOVERNO. Mas, este gesto uma pegadinha especial e nada ingênua que ressaltei ontem e detalho neste artigo especial de hoje.
O CANDIDATO

Esta troca, feita em cima do laço do calendário eleitoral, dá a Kleber a condição de ser candidato a deputado estadual. Pode não ir. Mas, se for, tudo se embola. Tudo fica tão igual ao que era e ao que não mudou, esperança ficticiamente criada para eleger Paulo Norberto Koerich, PL (foto ao lado). Com esta narrativa, Paulo derrotou, fragorosamente (52,98% dos votos válidos), a continuidade de Kleber com o vice Marcelo de Souza Brick, que para isso trocou o PSD pelo PP. Marcelo estuda e pode voltar ao PSD, onde tinha forte rejeição da cúpula partidária, em Florianópolis, para este retorno.
Kleber volta perigosamente ao noticiário, mas é uma carta na manga que a colocou. Por isso, ela tem preço e vai usá-la. Kleber mostra que está agindo nos bastidores e procurando proteções para quem supostamente o quer caçar e anulado. Ao menos, vai deixar envergonhado, desmascarado e numa sinuca de bico se todos terão que estar num mesmo palanque se autoelogiando, como se não houvesse mais passado. Kleber se torna um soldado e vai lutar na mesma trincheira e palanque de Paulo, que depois de 15 meses de governo, não conseguiu enquadrar Kleber como prometeu na campanha para poder vencê-la tão facilmente.
Pelo Sim, pelo não, Jorginho colocou os dois na mesma balaia e agora não se poderá mais medir o tamanho dos votos que Paulo terá nas próximas eleições. Tudo estará misturado e cada um contará vantagens para si e os outros. Entretanto, tudo é nebuloso e se complica mais. Se Kleber for candidato, estarão comprometidos os votos gasparenses prometidos a Mário Hildebrandt, PL, ex-prefeito de Blumenau e ex-secretário de Defesa Civil e Proteção de Jorginho, e que infestou a prefeitura de Gaspar com os seus que Egídio Maciel Ferrari, PL, outro delegado eleito e que pena para dizer a que veio por lá, bem como os votos para Ivan Naatz, PL, que se exibe por aí como sendo o queridinho de Paulo. Ivan, apesar de experimentado, parece não conhecer este tipo de missa rezada por aqui.
O ENTERRO DO MDB DE GASPAR
A ascensão de Kleber fazia parte de um plano de 30 anos de poder do MDB imaginado pelo seu ex-presidente Carlos Roberto Pereira. Durou oito. Os mesmo que o elegeram por dois mandatos se bandearam. O poder está há 50 anos na mãos dos mesmos, hereditariamente. quem não compreendeu que há um papel de prefeito em Gaspar?

Voltando ao caso do MDB gasparense. Este plano estava fadado ao desastre. E por quê?
Ele se espelhava no MDB de Blumenau que já nem tinha mais sequer vereador e apenas vivia da fama do passado de referência nacional. Ou seja, era certo de que tudo aqui não passava de um caminhar para o precipício. Bingo. Fui perseguido.
O ex-coordenador de campanha de Kleber, o ex-prefeito de fato ocupando oficialmente a secretaria de Fazenda e Gestão Administrativa na cara reforma que aprovou na Câmara, ou interinamente, como a secretaria da Saúde, hoje sequer está no MDB, ou em qualquer outro partido. Não tem mais interesse em Gaspar. Sumiu. Credo.
O MDB gasparense – o protagonista – foi definhando por suas lideranças exatamente por falta de votos e na barbeiragem que foram os governos de Bernardo Leonardo Spengler, Adilson Luiz Schmitt e Kleber Edson Wan Dall. Isto é história. Foi sendo, aos poucos, engolido pelo rival PP e agora está nas mãos do presidente da Câmara, Ciro André Quintino (foto ao lado). Ele próprio criando factoides para se viabilizar candidato a deputado Federal e ainda surfar a última onda para chegar perto da praia, mas sendo derrubado pela falta delas.
Como cabo eleitoral, a sua fonte de existência política nas “viagens semanais a Florianópolis por anos, Ciro está com os pés em duas canoas furadas: a primeira é do presidente do MDB, deputado Federal de Jaraguá do Sul e que se mudou para Itajaí, Carlos Chiodini. Ele tenta se viabilizar como vice-governador de João Rodrigues, PSD. E o outro pé, com o deputado estadual por Ibirama, Jerry Comper, MDB, que não saiu do partido, mas diz que apoiará Jorginho, e não João Rodrigues como fechou Chiodini.
Durma com um barulho desses. Por isso, ainda é cedo para comentários racionais e mais assertivos. Todavia, já é possível ensaiar o samba do crioulo doido. Os políticos não santos e querem gente como eu na coleira para a manipulação ao que penso, vejo e concluo. Basta ver o nó cego em que está metido Ciro. Se na composição final e para aumentar as chances de estar no segundo turno, João Rodrigues não escolher Chiodini como vice, Ciro terá que ensacar a sua candidatura suicida e retomar à função que escolheu de cabo eleitoral do deputado Federal. Jesus!
O BOLSONARISMO CRIOU TUDO ISSO EM SC

Primeiro, deve-se dizer que o experimentado político e que sempre surfou ondas (inclusive da esquerda como fiel escudeiro de Valdemar da Costa Neto, no PR e velho PL, que incorporou desde mensalão até o governo de Dilma Vana Rousseff, PT), Jorginho Melo, PL (foto ao lado), se estabeleceu numa bolha. Ele mesmo complicou o que poderia estar fácil, neste momento, para ele.
Além das pautas bolsonaristas, Jorginho precisava criar uma marca de governo. E pecou, clamorosamente. É percepção. Está nas pesquisas qualitativas. Já está precificado. Os marqueteiros que se virem. Além disso, Jorginho – como Paulo Norberto Koerich – se comunica muito mal em tempos de exposição em redes sociais. Não passa confiança como um gestor e inovador. Ele parece fazer questão de se parecer um velho político velho.
Segundo, e aí que se chega ao “nó gordio”: Jorginho administrou muito mal o complicado, reconheço, caso Carlos Bolsonaro, um carioca, que por décadas foi um obscuro vereador por lá e que resolveu ser senador da família – já há um com os votos dos catarinenses, o carioca Jorge Seif Júnior, PL -, atropelando as próprias lideranças bolsonaristas daqui. E por que errou? Porque as lideranças bolsonaristas catarinenses não são fáceis de engolirem pratos prontos – e o PL de Jorginho.
Outro erro tático de Jorginho foi o de gastar tempo em criar partidos periféricos para acomodações, como o Republicanos e o Podemos. Arrumou foi confusões naquilo que já estava como indigesto no PL bolsonarista, inclusive em Gaspar. O vice Rodrigo Boeing Althoff do PL foi dar no Republicanos que tinha as liderança do empresário Oberdan Barni, outro derrotado de outubro. Nada somou. Ao contrário. E Rodrigo, vai trabalhar para Jorginho, mas sem marcar território. Hoje Rodrigo e Paulo mal se falam.
O foco deveria ter sido o de gerenciar os gulosos, experimentados e matreiros de sempre como o MDB, PP e PSD. Foi com ele que Jorginho conviveu e cresceu na Assembleia Legislativa. Sabia o que lhe esperava. Então…
O resultado está aí: João Rodrigues com o seu PSD, com Chapecó como espelho e marca, com as bençãos de Jair Messias Bolsonaro, PL, pois o ex-presidente, envenenado, sabe que Jorginho mal conduziu o caso Carlos, com o PP de Esperidião Amim Helou Filho e com o espertalhão MDB que não se sabe bem de quem está nele e quem vai ficar ou trair pode ser um complicador para a reeleição de Jorginho. É cedo. E por quê?
É preciso ver como as melancias – do ditado popular e da designação dos traidores – se acomodam tanto na carroça de João como a de Jorginho, porque os vestidos de candidatos que tinham que pular fora como Ismael ou Kleber, já pularam. Eles não são traidores. São jogadores. De cara limpa. E alguns além da sorte, sabem como jogar, inclusive parados, como é o caso de Kleber. Diante deste novo quadro, Paulo, o que está a reboque, terá escolhas? Quais? Política é isso: oportunismo, oportunidades e incoerências. Às vezes, até, trabalho.
Em Gaspar, no campo conservador, as escolhas já estão sendo feitas. E as notícias não são boas. Contra Paulo e Kleber, lideranças, eleitoras e eleitores inconformados, traídos ou deixados pelo caminho vão de João. Resta saber qual a jogada, bem como o preço político de Ciro e do mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP, hoje os fiéis na balança de governabilidade de Paulo Norberto Koerich, PL. diante da fragilidade da bancada governista na Câmara.
Finalizando. Poderemos ter por aqui campanhas dos mudos. Se montarem palanques, os eleitores e eleitoras verão que todos os gatos são pardos e que o que sempre escrevi aqui mais cedo se concretizou ou mais tarde se reafirma. E isto incomoda, mas só porque se esclarece e se abre o necessário debate na aldeia conectada no atraso a Blumenau, Florianópolis e Brasília. E os poderosos de plantão não querem ver os meus leitores e leitoras que nem os tenho nenhum, esclarecidos. Mesmo assim, estou, mais uma vez, de alma lavada comigo mesmo. Muda, Gaspar!
10 comentários em “ERA IMPROVÁVEL OU APENAS O QUE ESTAVA DESENHADO NOS BASTIDORES VEIO MAIS CEDO À TONA? KLEBER ACABA DE VIR EM SOCORRO DE PAULO PARA REELEGER JORGINHO GOVERNADOR”
SEMANA SANTA. A NEGAÇÃO E A TRAIÇÃO
Jovem político carreirista que acaba de dar um golpe e que se desenhava há meses, está frustrado porque ainda não se tornou manchete aqui. Calma, a Semana Santa tem tudo a ver. Pedro negou Cristo por três vezes para se safar. E Judas, o traiu por 30 dinheiro, logo após se banquetear como um dos íntimos. É hora da ressureição.
Como ele se mostra conhecedor da Bíblia, relembro o Salmo 37, versículos 12 e 13.
Os ímpios tramam contra os justos
e rosnam contra eles;
O Senhor, porém, ri dos ímpios,
pois sabe que o dia deles está chegando.
Bom dia.
Precisamos ACELERAR isso 👀😁
Não se trata de direita ou esquerda, trata-se de direito, leis, isonomia, devido processo legal e Justiça injusta que ameaça desigualmente os iguais.
O QUE A HISTÓRIA DO EMPRESÁRIO CONDENADO A 14 ANOS POR PIX DE R$500,00 PODE NOS ENSINAR SOBRE O BRASIL?”, por Fernando Schüller, no jornal O Estado de S. Paulo
“500 reais, via Pix. Foi a ajuda do Alcides Hahn para a vaquinha do ônibus que levou um grupo de manifestantes para Brasília, dias antes do 8 de janeiro.
Hahn tem 71 anos e é um desses pequenos empresários “colonos”, que fizeram a força comunitária do interior de Santa Catarina. Alguém pode sugerir que ele “sabia de tudo”. Sabia que aquelas pessoas iriam ocupar a Esplanada, invadir os prédios, pintar aquela estátua com o batom vermelho e tudo mais. Mas dizer isso não passa de um patético cinismo.
O fato é que ele foi condenado a 14 anos de prisão. E só um País domesticado, que perdeu completamente o senso republicano, é incapaz de perceber o elemento absurdo em tudo isso.
Hahn, assim como outros pequenos empresários, condenados do mesmo jeito, não cometeu crime nenhum. Não foi a Brasília e nem tentou dar nenhum golpe. Ele é apenas parte de uma multidão amarrada por um conceito. O crime-conceito. O delito que não precisa de enquadramento objetivo. Apenas de “entendimento” bem-amarrado.
“Individualmente”, leio em uma matéria, “Hahn não cometeu delito”, mas fazia parte da “multidão”. A multidão criminosa, autora da “trama golpista”, o crime “multitudinário”.
A gordura escorre de cada uma dessas palavras e me faz lembrar da frase que um dia escutei de um velho professor: nada é mais difícil de refutar do que uma tese absurda.
Alcides não tem foro, deveria ser julgado na primeira instância, com direito a recursos? Irrelevante. Não teve a conduta individualizada? Irrelevante. Uma vez dado o conceito, mesmo um pequeno comerciante do interior e seu Pix de 500 reais ganham status de “associação criminosa armada”, um dos crimes pelo qual foi condenado. Simplesmente não há como refutar uma coisa dessas.
Tudo me fez lembrar do filósofo italiano Giorgio Agamben e sua tese sobre o “estado de exceção”. Muito do que se passa no Brasil refere-se a isto. A esta zona cinzenta entre o que é legal e o que é meramente político. Entre o que é “ilegal”, mas que por efeito de alguma razão de Estado, definida pelo próprio poder, se converte em “perfeitamente jurídico e constitucional”.
Um inquérito que nasce de modo “heterodoxo”, em 2019, e se decria, indefinidamente. O universo dos direitos individuais não mais delimitados pela regra escrita, mas oscilando, ao gosto do poder, sobre camadas opacas de “interpretações” e “entendimentos”.
O Sr. Hahn é apenas o exemplo bem-acabado de um tipo que criamos no País dos anos recentes: os brasileiros irrelevantes. Brasileiros sem pedigree, sem história, sem “retórica”. E por óbvio, sem poder algum. Pessoas que tem seus direitos claramente violados, mas que desaparecem em meio à guerra política e nossa mais completa falta de empatia.
Muitos enxergam seu drama como uma vitória da democracia. Meu velho professor tinha razão. É realmente difícil, se não impossível, refutar uma ideia como esta.”
LULA E O CONVENCIMENTO, por Elio Gaspari nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo
Em geral, quando um governo diz que tem um problema de comunicação, o problema está no governo, não na comunicação. Lula 3.0, no entanto, tem um problema de comunicação e ele se chama Lula. O presidente ocupa os espaços do governo com uma agenda repetitiva e arcaica.
Esse sistema malvado fritou o ministro Paulo Pimenta e mostrou a frigideira a Sidônio Palmeira, seu substituto.
Tome-se como exemplo a ida de Lula ao Ceará na terça-feira. No palanque, com um boné do ITA, Lula falou por 27 minutos, tratou de suas realizações na educação, louvou suas greves, o ministro Camilo Santana e a militância política. Maltratou a “elite brasileira”e “os banqueiros da Faria Lima”. Fora dele, tratou do mandato de oito anos dos senadores, da sucessão no governo daquele estado, chamou o ex-governador Ciro Gomes de “destemperado”.
Tudo bem, mas o que Lula foi fazer no Ceará? Ele inaugurou a primeira etapa do campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o ITA.
Trata-se de uma das principais iniciativas do Lula 3.0. O ITA, com seu campus de São José do Campos, é uma joia da coroa do ensino superior público. Fundado em 1950 pelo brigadeiro visionário Casimiro Montenegro, formou milhares de engenheiros e gerou um polo industrial onde reluz a Embraer. A criação do campus de Fortaleza é um poço de virtudes, revela investimento em tecnologia, na educação pública de qualidade e na valorização do Nordeste. Lula tratou do ITA perfunctoriamente. Seu tema era outro:
— Por que esse Lula fica colocando R$ 18 bilhões para filho de pobre ir à escola se podia estar no banco rendendo para a gente ficar mais rico? Governar um país e fazer uma ponte é fácil. Governar para 30% do país é fácil. O desafio é escolher entre a ponte e um prato de comida, entre a ponte e uma escola, entre a ponte e uma creche. O país precisa dos dois. Mas você precisa definir que o ser humano é prioritário — disse o mandatário.
Nada contra, o velho pode ser bom, mas não deixa de ser velho. O ITA e seu campus no Ceará mereciam mais que um boné, uma generalização repetitiva. O presidente Lula perdeu uma oportunidade de falar bem de seu governo mostrando o que a expansão do ITA significa para a educação, a tecnologia e o próprio mundo dos negócios.
Lula é um grande comunicador e confia nos seus improvisos. Disso resulta que suas falas ganham destaque, mesmo quando são repetitivas e anacrônicas.
Antes da ida de Lula ao Ceará,o chefe da Casa Civil, Rui Costa, havia dado um puxão de orelhas (a pedido do presidente) no ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira. Nas suas palavras:
— Acho que a gente tem que colocar como foco comparar e mostrar. O povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados, porque, repito, é a mudança da água para o vinho, de um deserto de governança para um governo que tem um líder que montou uma equipe para trabalhar e produzir esses resultados — afirmou.
Os eleitores não digerem estatísticas, e as falas do líder atropelam as realizações. Por algum motivo, os ministros evitam ocupar um espaço que pode ser dele. Falar dos oito anos de mandato dos senadores nada tem a ver com o campus do ITA. Isso num governo que tem um Ministério da Tecnologia e Inovação. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber o nome do titular. (É Luciana Santos.)
TRUMP E A IDADE DA PEDRA
Depois da batatada na qual disse que buscava uma “rendição incondicional” do Irã, Donald Trump fez mais uma. Anunciou que “vamos fazê-los voltar à Idade da Pedra, onde é o lugar deles.”
Trump apropria-se de expressões valorizadas pela História. “Rendição incondicional” era parte do ultimato dos Aliados contra a Alemanha e o Japão na Segunda Guerra Mundial. Prevaleceu.
Jogar um país na Idade da Pedra foi a ameaça do general americano Curtis LeMay (1906-1990). Em 1965, ao falar dos ataques americanos contra o Vietnã do Norte: “Vamos bombardeá-los levando-os de volta à Idade da Pedra”.
LeMay não comia mel, comia abelha e foi um grande chefe militar durante a Segunda Guerra. Só em 1965 os Estados Unidos jogaram 60 mil toneladas de bombas no Vietnã, e o país não foi para a Idade da Pedra. Deu-se o oposto, em 1975 os americanos foram-se embora, o Norte anexou o Vietnã do Sul e Saigon, sua capital. Chama-se hoje Ho Chi Minh, em homenagem ao chefe da insurreição.
Quando a receita desandou, LeMay negava que tivesse dito a frase.
TRUMP DELIRA
Em junho ou julho a Corte Suprema decidirá se foi legal a decisão de Donald Trump negando a nacionalidade americana aos filhos de imigrantes ilegais nascidos nos Estados Unidos.
Na semana passada, mostrando seu interesse no caso, fez uma inédita aparição no tribunal.
Pelo andar da carruagem, Trump será derrotado. Além dos argumentos conhecidos, o presidente americano escreveu que “os Estados Unidos são o único país do mundo IDIOTA (maiúsculas dele) a ponto de dar a cidadania a quem nasce em seu território.”
Falso. Dezenas de países, como o Brasil, seguem esse princípio.
Trump constrangeu a Corte, ela não pode dar razão a um litigante que não sabe o que defende.
FLÁVIO MOVE
Flávio Bolsonaro não é um candidato que joga parado. Ele se mexe, nos Estados Unidos, pregando para pessoas que pensam como ele.
Seu pai fazia campanha até em aeroporto.
VAGAS NO STF
Pelo calendário gregoriano, o presidente eleito em outubro teria duas vagas no Supremo Tribunal. A de Luiz Fux, em 2028, e a de Cármen Lúcia, em 2029.
Pelo movimento da maré eleitoral e pelas revelações trazidas pelo Banco Master, as vagas poderão ser quatro, somando-se as cadeiras de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Se o presidente Lula emplacar a reeleição, governará com sete dos 11 ministros indicados por ele.
Tramitam no Senado 97 projetos impedindo cada um deles ou os dois, e a bancada inimiga do Senado tende a crescer.
RECORDAR É VIVER
Daniel Vorcaro teme que ex-amigos avancem sobre o seu patrimônio no exterior.
Faz muito bem. Conta a lenda que em março de 1965, quando o empresário Mário Wallace Simonsen morreu em Paris, um amigo de toda a vida foi para o aeroporto, voou para Genebra e limpou sua conta bancária.
O empresário era um grande exportador de café e havia sido dono da empresa de transporte aéreo Panair e da TV Excelsior, ambas falecidas. Simonsen transitava com desembaraço no governo de João Goulart, deposto um ano antes.
FALTA DE SORTE
Quando disputava a Presidência contra candidatos tucanos, Lula foi bafejado pela sorte.
Em anos eleitorais, o governo teve que aumentar o preço dos combustíveis.
Agora essa maldição caiu no seu colo.
A FRAGILIDADE DE TRUMP, por Lourival Sant’Anna, no jornal O Estado de S. Paulo
A derrubada de um caça americano e a destituição do comandante do exército dos EUA introduzem novas fragilidades na condução da campanha no Golfo Pérsico, sobretudo quando Donald Trump demonstra não ter um plano para uma saída politicamente viável dessa guerra. Ele insiste na tese, materialmente falsa, de que obteve mudança de regime no Irã, de que o país está militarmente aniquilado e de que a reabertura do Estreito de Ormuz deve ser tarefa dos países que dependem da energia que transita por lá.
Se tudo isso fosse verdade, não haveria mais razão para o engajamento dos EUA. Trump ao mesmo tempo planeja escalar a guerra e empregar paraquedistas, marines e tropas terrestres, o que prova que seu governo não reúne condições políticas para declarar vitória e encerrar a campanha. Para coroar o impasse, a defesa antiaérea iraniana, que Trump declarou neutralizada, derrubou um caça F15E no sudoeste do país.
Trump ameaçou atacar a infraestrutura de energia e de dessalinização do Irã. Isso é crime de guerra. Há resistência interna nas forças armadas americanas a cumprir ordens como essa, pelas quais os militares podem responder futuramente perante a Justiça. O Pentágono anunciou a ida precoce para a reserva do general Randy George, comandante do exército. Nomeado em 2023 para o cargo, ele tipicamente ficaria até 2027. Os deputados republicanos Rich McCormick e Austin Scott, assim como o general da reserva Jack Keane, vieram a público defender George.
Outros dois generais, David Hodne, chefe do Comando de Transformação e Treinamento, e William Green Jr., chefe do Corpo de Capelães, também foram destituídos. Em dezembro, o almirante Alvin Holsey, chefe do Comando Sul, deu baixa após um ano no cargo, quando o mandato típico é de três anos. O Comando Sul executava os bombardeios de embarcações no Caribe, igualmente considerados crimes de guerra.
A destituição de comandantes é incomum nos EUA, ainda mais no meio de uma guerra. A crise política se agrava com a resistência, no Congresso, à proposta de US$ 1,5 trilhão de orçamento de defesa para o próximo ano fiscal, que começa em outubro – aumento de 40%. Isso no contexto de cortes para outras áreas e de eleições legislativas em novembro.
Pesquisa Ipsos/Reuters indica que apenas 12% dos americanos acham que a guerra terá impacto positivo e 86% estão preocupados com a segurança dos militares. Esse ambiente de fragilidade política, combinado com a personalidade impulsiva de Trump, pode levar a decisões ainda mais erráticas e impensadas.
SEM SEGURANÇA NÃO HÁ CRESCIMENTO, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Como detentor do monopólio da violência, o Estado existe, antes de tudo, para proteger a vida e o patrimônio dos cidadãos. Mas políticas de segurança pública extrapolam a dimensão individual. Ser seguro é fator determinante para que qualquer país prospere do ponto de vista econômico. Ignorar esse fato implica negligenciar um dos principais entraves ao desenvolvimento do Brasil.
Um estudo recente da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp), publicado pelo Valor, reforçou as evidências dessa relação. A pesquisa cruzou dados da Relação Anual de Informações Sociais de mais de 2 mil municípios de oito Estados, entre 2002 e 2019, comparando períodos anteriores e posteriores à implementação de políticas de segurança nas localidades analisadas e entre estas e cidades onde não foram adotadas tais medidas. Resultado: cidades mais seguras registraram aumento entre 7% e 10% tanto na oferta de empregos formais como na abertura de empresas.
Segundo o pesquisador Bruno Pantaleão, políticas públicas baseadas em gestão de dados, uso coordenado de informações criminais e focalização de recursos para reduzir os indicadores de violência levaram à melhora do ambiente de negócios. “Foram, provavelmente, as políticas de segurança pública mais bem-sucedidas nos últimos 30 anos” que levaram a esse resultado, afirmou ao referido jornal.
Não se trata de uma constatação difícil de entender. A violência, sobretudo nas grandes cidades do País, afeta o cotidiano dos cidadãos. Altera rotas. Restringe horários. Limita a circulação. Influencia decisões de compra. Esse clima de medo também perturba as empresas, que refreiam investimentos. Empreendedores hesitam em abrir negócios. Trabalhadores evitam regiões mais violentas. Mais bem dito: a sensação de insegurança corrói o dinamismo econômico de uma cidade, de um Estado, do País.
Os custos dessa realidade são expressivos e há tempos conhecidos. Numa entrevista ao Estadão em 2024, a executiva Maria Silvia Bastos Marques já alertava para o risco de o Brasil “cruzar o ponto de não retorno na violência” e deixar de ser atrativo para investidores. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2022, empresas instaladas aqui gastaram cerca de R$ 171 bilhões por ano com segurança privada e seguros, o equivalente a 1,7% do PIB daquele ano. A cifra é alarmante por si só, mas representa uma parte do problema. Há outras perdas menos mensuráveis, mas igualmente terríveis. Além da citada fuga de investimentos, há queda do comércio, desvalorização imobiliária e até processos de desindustrialização em áreas dominadas pelo crime organizado.
O economista Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, já observou neste jornal que imóveis em regiões inseguras podem valer até 30% menos do que propriedades equivalentes em locais mais protegidos. Mas não é apenas o patrimônio individual que se deteriora diante da falta de segurança pública. É o vigor econômico das cidades e, consequentemente, do País que se esvai.
Romper esse ciclo pernicioso exige políticas públicas eficazes e duradouras, baseadas em evidências, como sugere o estudo do FGV Eaesp. A própria experiência nacional mostra que avanços são possíveis quando a segurança pública é tratada com planejamento, inteligência e espírito público, não com ideologia ou retórica belicosa.
Esse tema tem importância capital em 2026. Recente pesquisa Datafolha revelou que o medo da violência é o segundo problema mais grave para os brasileiros, citado por 19% dos entrevistados, atrás apenas da saúde (21%). Num ano de eleições gerais, é imperativo que o debate público incorpore essa angústia dos cidadãos, com óbvias repercussões no ambiente de negócios.
Segurança pública não pode ser tratada apenas como questão de polícia. Trata-se também de política econômica. Um país que não provê segurança é fatalmente hostil ao empreendedorismo, ao investimento e à geração de emprego e renda. Isso tem de estar na agenda dos que almejam a Presidência da República.
Combater a violência é primordialmente salvar a vida de milhares de brasileiros. Mas é também criar condições para que o País prospere economicamente e os cidadãos vivam mais e melhor.
A pergunta é: o diretório do podemos de Gaspar (desconheço algum filiado, muito menos o presidente) irá dar ouvidos a Kleber? Ou “podemos” continuar com a roubalheira marca do governo passado?
Por enquanto, não há nada provado. E tudo caminha, para também nada se apurar. Depois do espetáculo para esconder à falta de resultados do presente, o que restar da poeira do passado irá para debaixo do tapete. Assim caminha a humanidade com os ensinamentos de Brasília…
POR QUE MORAES NÃO É INGESTIGADO? por Thaís Oyama, no jornal O Globo
“As ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas. O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece.” Foi com seu estilo costumeiro — muitos adjetivos, nenhum argumento e tom de quem não gostou de ser incomodado — que o ministro Moraes negou, por meio de sua assessoria, ter viajado com a mulher, Viviane Barci, ao menos oito vezes em jatinhos de empresas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A revelação, feita pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pelo Estadão, baseou-se no cruzamento de informações de três bancos de dados de aviação.
A negativa categórica diante de fatos gritantes, aliada à artimanha de negar o que ninguém disse — nesse caso, que ele voou na companhia de Vorcaro ou Zettel —, é um recurso que Moraes já usou quando confrontado com outras reportagens, publicadas pelo GLOBO: a que apontou que ele pressionara o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a apoiar a compra do Master pelo BRB e a que mostrou ter sido para o seu telefone que Vorcaro enviou seguidas mensagens horas antes de ser preso (“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”).
Moraes age como se a enunciação categórica de suas negativas, por virem de quem vêm, bastasse para encerrar qualquer controvérsia. Não basta. Pelo contrário. No Direito, a existência de indícios múltiplos e convergentes apontando numa direção — aqui, que o ministro ou sua família foram beneficiados com um contrato de R$ 130 milhões pelo ex-banqueiro, que por sua vez se beneficiou, ou tentou se beneficiar, da posição de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF)—, confrontados com a negação do envolvido, costuma reforçar, e não enfraquecer, a ideia de que é preciso investigar. Não é por meio da contraposição formal das versões que se chega à verdade? Então, por que Moraes não é investigado ainda?
Tecnicamente, a resposta curta é: porque Paulo Gonet, procurador-geral da República (PGR), até agora não quis. Há aí um componente estrutural. Gonet concentra, sozinho, um dos poderes mais absolutos da República. Nos casos que tramitam no STF, cabe a ele requerer diligências, impulsionar, travar ou enterrar uma apuração. A Polícia Federal pode, em tese, pedir diretamente ao tribunal a instauração de um inquérito, mas, aberta a investigação, a palavra decisiva sobre seu destino continua sendo do PGR. Basta, assim, a inércia de um único indivíduo para bloquear a abertura da ação penal — e não importa se ele deixa de agir por convicção jurídica ou por razões pessoais ligadas à proximidade com potenciais investigados.
O atual PGR foi sócio de Gilmar Mendes e mantém com Moraes uma relação de declarada amizade. Mas o problema, de arquitetura institucional, não se resume a sua figura. Fosse outro o nome, talvez o quadro não mudasse. Sem impedimento legal nem quarentena para ser reconduzido ao cargo, ou mesmo pleitear uma vaga no STF, o procurador-geral sempre terá bons motivos para não hostilizar ministros da Corte, cabos eleitorais poderosos em qualquer projeto do gênero. E há mais: na hipótese de, apesar de Gonet, uma investigação penal contra Moraes ser aberta, sobreviver e chegar a julgamento, ela seria levada a cabo pelo próprio STF — que, vale lembrar, nunca na sua História acolheu nem mesmo um pedido externo de impedimento ou suspeição de um de seus integrantes.
Fora da frente penal, resta a via do crime de responsabilidade no Senado — com os componentes políticos que ela implica. A direita já trabalha para transformar ministros do STF em plataforma política. Mas, mesmo fora desse campo, uma coisa parece certa: neste ano, dificilmente um candidato ao Senado atravessará a campanha sem responder à pergunta: será Moraes finalmente investigado?
COMPLIANCE ZERO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
O escritório Barci de Moraes disse, em nota, que “nenhum integrante jamais viajou em aviões de Daniel Vorcaro ou Fabiano Zettel”. Essa é construção defensiva que prospera nas fendas entre pessoas física e jurídica – porque sempre se poderá declarar que o jatinho era de empresa que tinha Vorcaro como sócio, cousa distante, com participação modesta etc.
Com essa impessoalidade como biombo, sempre se poderá declarar até desconhecimento sobre quais seriam os donos das empresas – caso em que tudo não passaria de coincidência. Ou de maledicência – “ilações” – de quem investiga as relações perigosas. Também sendo de uma empresa, de que Vorcaro seria sócio, ou de algum desses zetteis que lhe armavam fachada, a casa que Vorcaro usava e em que charutos foram fumados. Coisa nenhuma era de Vorcaro, o invisível onipresente, a própria estratégia para que ele estivesse em todo lugar e com todo mundo.
“O escritório Barci de Moraes afirma que contrata serviços de táxi aéreo, e que entre os que já foram contratados está o da empresa Prime Aviation.” Ninguém duvidará de que teria dinheiros para tanto, remunerado – apenas pelo Master – a R$ 3,6 milhões mensais. A Prime é empresa de compartilhamento de bens de luxo. É um negócio. Aluga seus aviões. Ok. E o Barci de Moraes os alugava – deixa isto claro – para deslocamento de seus advogados. Xandão não está entre os advogados do Barci de Moraes. E embarcou nesses voos. Algumas vezes sem a esposa, dona da banca. Uma vez, apontou este jornal, para se encontrar com Vorcaro no dia seguinte.
A Prime tinha Vorcaro como um dos sócios. No dia da sua primeira prisão, Vorcaro mandaria mensagem a Moraes perguntando se conseguira bloquear algo. (Mensagem respondida, desconhecida a resposta.) O escritório também informa que a contratação desses serviços “não envolve qualquer vínculo pessoal com proprietários de aeronaves (…)”.
A Prime não divulga dados sobre os usuários de suas aeronaves, “sejam cotistas e seus convidados, ou clientes de fretamento do serviço de táxi aéreo”. O Barci de Moraes, não sendo cotista da empresa (Vorcaro era), nem convidado de cotista, só poderia ser cliente. Xandão seria convidado de cliente. (Dias Toffoli também voou com a Prime; a dúvida sendo sobre se pagou – um ministro-empresário, ex-dono de hotel, teria meios – ou foi como “convidado”.)
O Barci de Moraes era cliente da Prime: “(…) todos os valores eram pagos compensando os honorários advocatícios nos termos do contrato” – caso em que teríamos os custos pelo aluguel dos aviões, a uma empresa (um CNPJ) de que Vorcaro seria sócio, abatidos do que o escritório recebia por serviços prestados a outra empresa (outro CNPJ) que tinha Vorcaro como sócio, o Banco Master.
O escritório Barci de Moraes, que decerto tem suas regras de compliance, foi contratado pelo Master para revisar e robustecer o manual de compliance do banco.