Venho de ambientes empresariais pioneiros de alta competição e resultados transformadores em Santa Catarina. Eram outros tempos, conceitos, dificuldades, superação e exigências, Já estamos vivemos novos, estranhos, inseguros e perigosos tempos não para indivíduos, mas para uma sociedade reconhecidamente vencedora no seu modelo contra o inconformismo.
É claro que não devemos descartar de que a arquitetura ambiental de empreender, investir e inovar – limites, legislação, transparência – dos tempos de hoje são bem diferentes, reconheço, nos conceitos, dificuldades, superação e exigências daqueles meus tempos.
Entretanto, a alma catarinense ainda é a mesma dos imigrantes originais europeus ou de migrantes gaúchos com o mesmo viés de imigração. Superados os velhos desafios se apresentam novos. Isto é uma essência cultural herdada dos que forjaram a acolhedora Santa Catarina, quase todos pobres, fugidos de guerras, catástrofes, doenças, fome, comunitários e agregados em torno de igrejas e templos, para recomeçar e até, serem reconhecidos, como foram e são.
Desistir não fazia parte do manual de sobrevivência daquela gente. Está escrito. Está amplamente documentado. É memória. É história que até já sofreu tentativas de desqualificação por vários vieses vistos aos tempos higiênicos de hoje. E ao fim, esses imigrantes, migrantes, desbravadores, empreendedores e pioneiros se tornaram referência naquilo que faziam, lideravam, improvisavam, sacrificavam-se, associavam-se, sonhavam, apostavam e se estabeleciam em exemplos.
O nosso sucesso até então, estava muito ligado ao conceito darwiniano sintetizado como “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças“, dito pelo professor Leon C. Megginson, docente de Administração da Louisiana State University, em 1963, apresentou uma paráfrase das ideias de Darwin estabelecida em “A Origem das Espécies“.
OS POLÍTICOS DAQUI E FORASTEIROS COM AVAL DOS DAQUI QUEREM DESTRUIR O NOSSO LEGADO
E os políticos, unicamente na ânsia de poder, populismo, celebridade não por conteúdos e ideias, mas por likes recebidos nas redes sociais, e disputa ideológica, aos poucos vão destruindo a nossa alma. Vou comparar dois tempos. Um é o pai do modelo de desenvolvimento regional equilibrado do ex-governador (1961/66), pecuarista e engenheiro de minas nascido em Lages, Celso Ramos (1987/96), PSD, Arena, PDS e PFL, filho de Vidal e irmão de Nereu, ex-presidente do Brasil.
O outro é a destruição desse modelo começou com florianopolitano – mas com vida política em Joinville – Pedro Ivo Campos, 1930/90. Eleito pelo MDB governou abreviado pela morte entre 1987/90. Mas, nada se comparou a Paulo Afonso Evangelista Vieira, nascido em 1958 em Teresina, Piauí, e que governou entre 1995/99. Guardadas as proporções daqueles tempos.
Jorginho Mello, PL, caminha na mesma direção para a reeleição. Ele não possui uma marca de governo e pior, sem uma bandeira para continuar no Centro Administrativo, tanto que está “fugindo” de debates e até mesmo de sabatinas. Ou seja, tem pouco a dizer, prestar contas e a defender depois de quatro anos de governo, sem contar a má comunicação que o acompanha e pouco se pode fazer para melhorá-la. Triste.
Jorginho, clamorosamente, falhou no diálogo, supostamente por questões pessoais, partidárias e ideológicas, com o governo Federal, o centralizador e que leva todos os cada vez mais altos impostos arrecadados aqui e nos devolve migalhas para o mínimo de suporte ao desenvolvimento, inovação e infraestrutura.
Na infraestrutura apesar da melhoria da malha rural e interiorana, Jorginho falhou essencialmente em encontrar saídas, acordos e visões para o gargalo de uma inaceitável e perigosa “litoralização” que trava tudo na BR-101.
Temos produção, temos portos modernos, mas perdemos a competitividade e estamos presos no gargalo da BR-101, para não falar na BR-280 (São Francisco do Sul), BR-282 (Oeste), BR-470 (Médio e Alto Vale até a Serra) e até a BR-116 (Serra e Planalto Norte) em alguns trechos críticos conhecidos de há muito. A “Via Mar”, é pura marquetagem de distração eleitoral, pois já devia estar sendo feita e nela, incluído, um ramal ferroviário no trecho.
CONTRA A MASSIVA EMPREGALIDADE DO MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS INVESTIDORES
E se somos um destino turístico litorâneo, parques e de eventos – cada vez mais frequentes e maiores -, é preciso caminhos para a mobilidade. Não os temos; estamos encalacrados na temporada e fora dela. Quem vai a eventos ou sai de férias – a maioria de outros estados e até estamos atraindo europeus – para enfrentar perrengues?
Se somos um destino de balneabilidade nas centenas de praias, elas continuam anos após anos, apresentando altos índices de poluição. Investimentos, metas e soluções, zero. Bem longe do marco do saneamento. A preocupação é a não divulgação deste quadro repetitivo, como se o problema pudesse desaparecer com este ato, ainda mais com as redes sociais abertas. A única coisa que se faz é insistir na estatal Casan. Ela está inchada, descapitalizada, desatualizada e é lerda. Ela não combina com o modelo catarinense de superar desafios.
Se o “El Niño”, virou um tormento no imaginário por quem já sofreu na pele e principalmente por que não sabe bem o que é isto, pela ausência preventiva e dúvidas criadas em investimento, contrata-se como garoto propaganda um influenciador digital do meio para promover o governo. É mais barato e ao mesmo tempo cabala votos para se tornar vítima mais tarde se o pior realmente chegar. Isto é irresponsável. Quem vai apostar e investir aqui sabendo disso?
Há 44 dias das eleições de quatro de outubro, estamos discutindo se somos de direita ou de esquerda, não exatamente defendendo que quer empreender, investir, inovar produzir resultados diferenciais para Santa Catarina, Brasil e na competição internacional, gerar mais empregos, mais impostos, e principalmente qualidade de vida.
Pior do que isso, estamos importando candidatos que nada tem a ver com a nossa saga, a nossa compreensão de vencer pelo trabalho e resultados herdados dos nossos antepassados, que vieram para cá forjar histórias, exemplos e sucessos. Estamos matando e enterrando o nosso modelo catarinense de produzir e competir.
Na política, pelos políticos que só querem o poder – e não dizem o porquê – estamos nos igualando aos piores do Brasil. Estamos nos se negando a teoria de Charles Darwin. Os políticos de hoje em Santa Catarina, como acontece nas regiões mais atrasadas do Brasil, se negam a fazer a adaptação à nova realidade de exigências para a sobrevivência competitiva. O modelo político catarinense de empreender e vencer precisa de políticos líderes e comprometidos com a alma Barriga-Verde.
TRAPICHE
O governo de Paulo Norberto Koerich, PL, precisa recuperar o seu faro de investigador policial de fama. Como pode, dentro do próprio grupo de poder de plantão, pode se espalhar que vereador da base mandou recados de chantagem. Para não “assinar” a CPI das dúvidas da obra de contenção da barranca do Rio Itajaí Açú, ali na Figueira, queria mais empregos na prefeitura. Credo.
Perguntar não ofende: afinal qual é o candidato a deputado estadual de Paulo Norberto Koerich, PL? Há em Gaspar quatro candidatos e três são do espectro de direita. Por outro lado, em insinua outros quatro de fora e que provavelmente receberá o seu voto. Um líder assume riscos e se estabelece em parcerias. A não ser que Paulo não esteja pensando em reeleição. A mesma situação está na escolha de um candidato a Federal.
Credo. Antes veio o desgastes e os acidentes quase diários. E olha que durante um ano e oito meses. Depois, a solução óbvia, que todos os gasparenses, com mínima noção da obviedade indicavam, pediam e sabiam. A prefeitura de Gaspar e a Ditran Paulo Norberto Koerich, resolveram reforçar a sinalização horizontam e colocar lombadas no trevo da Paraolli. E precisa de apanhar tanto no lombo com algo óbvio, simples e barato?
Transparência para inglês ver? Com atraso de um ano e oito meses governo de Gaspar anunciou a adesão à plataforma do tal EngeGov. Ela promete transparência no projeto, licitação, contratação, recursos, pagamentos e execução de obras que são feitas no município. Excelente. O o sumido vice-prefeito, o engenheiro multititulado Rodrigo Boeing Althoff, Republicanos, até reapareceu na solenidade e nas redes sociais fazendo vídeos.
Na mesma solenidade, gente do próprio governo de Paulo Norberto Koerich, inclusive que tem a obrigação de implantação e integração da plataforma, não escondeu de que não vai fazer o menor esforço para que isso aconteça de fato a favor do cidadão, cidadã, cidade e da transparência. Então, por enquanto, é propaganda diante de tantos questionamento e se até ameaça de CPI e que recentemente foi enterrada para nada se apurar. Incrível!
Então quer dizer que o vereador carioca de múltiplos mandatos vazios e que está alugando o eleitorado catarinense para se eleger Senador da família, Carlos Bolsonaro, PL, além de fugir de todos os debates e sabatinas – talvez não tenha nada a dizer e não se pode comprometer em defesa do Estado – diz que o melhor lugar do mundo para se estar é o bairro da Tijucas, no Rio de Janeiro? E os gasparenses doentiamente em defesa e na busca de votos para ele. Qual o compromisso dessa gente? E a parceira dessa viagem suicida ideológica, Caroline De Toni, PL, que se cuide… Muda, Gaspar!
6 comentários em “O MODELO CATARINENSE VENCEDOR HÁ DÉCADAS DE DESAFIAR E EMPREENDER PRECISA POLÍTICOS LÍDERES COMPROMETIDOS COM ALMA BARRIGA-VERDE. É PARA DAR SEGURANÇA E PERSPECTIVAS MÍNIMAS DE FUTURO AOS INVESTIDORES E EMPREENDEDORES DIANTE DAS MUDANÇAS NO AMBIENTE TENOLÓGICO, NEGOCIAL, GEOLPOLÍTICO E ESTRUTURAL”
O alerta foi dado!
“E a parceira dessa viagem suicida ideológica, Caroline De Toni, PL, que se cuide…”
Periga ficar sem mandato?
Bom. Pelo menos poderá vender tiaras de flores nos corredores do parasitário nacional!
Boa tarde.
O senhor observou o montante que custou a tal da plataforma para acompanhar as obras em Gaspar?
R$ 350.000,00 🥸
Outra questão que sacudiu as pulgas atrás da minha orelha foi a decisão do Ministro Dias Tóffoli sobre cobrança do IPTU.
Se existe uma lei que estabelece alíquota máxima de 0,5% sobre o valor venal do imóvel,
como a prefeitura de Gaspar nos COBRA de 1 a 2%?
No caso de Chapecó, a prefeitura foi obrigada a corrigir o ÍNDICE e RESSARCIR O EXTORQUIDO..
No nosso caso, como pagamos o DOBRO e até QUATRO VEZES a alíquota constitucional, no MÍNIMO, será que teremos DESCONTO DE 50% em 2026???
Dona Odete
Obrigado pela leitura, pois segundo os poderosos ninguém me lê e nem sou a andorinha que faz verão, bem como obrigado pela interação
Primeiro assunto. É caro, caríssimo, se o que relatei se tornar realidade: mais uma ferramenta inútil e de enganação como ensaiam alguns secretários, a começar pela área que mais deveria aplaudir, atualizá-la e se orgulhar: a secretaria de Fazenda e Gestão Administrativa. É casara, caríssima, se é mais uma marquetagem só para inglês ver e enganar a população.
Segundo. Este negócio do IPTU não é 0,5%, nem 1%, 2% ou 10%. É um cálculo complexo, cheio de manhas para se chegar a este percentual sobre o valor venal ou agora, virou moda, valor de mercado, arbitrado pela própria prefeitura e que se ela desapropriar não chegará a este valor. E esta complicação se chama Planta Genérica de Valores. Não vou muito longe no exemplo. Um apartamento de 90m2 num mesmo edifício, ou seja, com todas as mesmas características, pode variar o valor do IPTU se ele estiver num andar mais baixo ou mais alto ou se está na frente da rua ou nos fundos. Imagina-se as variáveis de casas completamente uma diferentes das outras, em bairros e ruas com características diferentes. É preciso entender do assunto.
DEBATE NO STF SOBRE DIPLOMA EM JORNALISMO É TENTATIVA DE DESVIAR FOCO DAS ARBITRARIEDADES, por Malu Gaspar, no jornal O Globo
O caso da matéria do blogueiro Luís Pablo sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares de Flávio Dino poderia não ter passado de um entrevero menor, sobre o qual talvez nem mesmo os maranhenses tomassem conhecimento. Mas a reação do ministro e de seus colegas do Supremo Tribunal Federal (STF) transformou o que poderia ter sido no máximo um processo criminal e a prisão de arapongas locais em assunto de alcance nacional, ao chamar a atenção sobre até onde os “supremos” estão dispostos a ir para se manter à margem da lei.
No último capítulo dessa minissérie de mau gosto, Dino e Alexandre de Moraes defenderam que se reveja o entendimento do próprio Supremo segundo o qual não é preciso ter diploma para exercer o jornalismo. Estabelecida durante a ditadura, a obrigatoriedade do diploma caiu em 2009 depois de um amplo debate que nem vale a pena reproduzir, porque Moraes e Dino não estão nem aí para esse assunto, como suas falas deixam evidente.
Moraes partiu de uma constatação pedestre — “a liberdade de imprensa não é licença para ofender, para praticar crimes” —, para dizer que “hoje nas redes sociais qualquer pessoa começa a ofender a honra de inúmeras pessoas e se escudar na liberdade de imprensa, e claramente nós não podemos normalizar isso”. Como professor de Direito, ele sabe que a lei atual já prevê os crimes de calúnia, injúria e difamação para todo cidadão, com ou sem diploma, que difunda mentiras e desinformação sobre qualquer um.
Dino inovou ao afirmar que a dispensa do diploma “constitui um complicador, na medida em que a extensão automática desse regime de garantias (como o sigilo da fonte) a qualquer blogueiro pode levar a que o PCC e o Comando Vermelho façam concurso para selecionar blogueiros. Teriam cada um 100 blogueiros supostamente protegidos”.
Há uma coleção de falácias embutidas nessa afirmação, mas por ora basta dizer que ter diploma nunca assegurou a ética de jornalista algum. Jornalistas com diploma também se vendem, e comprar profissionais diplomados nunca foi problema nem para PCC nem para Comando Vermelho, que têm à disposição um exército de advogados, além de delegados, juízes e deputados. Com alguns bilhões à disposição, daria para comprar até ministro do Supremo.
Não é difícil de ver que se busca desviar o foco do que realmente importa: as arbitrariedades cometidas por uma ala do Supremo para evitar o escrutínio público, seja pelo uso de um carro oficial ou por um contrato milionário com o autor da maior fraude financeira da História do país.
Daí decorre o segundo objetivo: legitimar a aberração que é o inquérito das fake news, criado há sete anos para criminalizar o jornalismo profissional e intimidar os críticos. Foi por controlar esse inquérito que Moraes assumiu o caso do blogueiro maranhense. E, mesmo depois de duas operações de busca e apreensão, até agora a Polícia Federal não conseguiu encontrar evidências de que ele tenha participado de perseguição ou monitoramento clandestino — crimes com que Moraes justificou a quebra do sigilo da fonte das matérias.
Diante da péssima repercussão desses últimos movimentos, colegas de STF vieram em socorro. Falando num evento em Brasília, o decano Gilmar Mendes escapuliu quando questionado sobre a quebra do sigilo da fonte (“é o fato de todo complexo, houve uma série de crimes, más práticas”), mas fez questão de dizer que defender o impeachment de ministros do Supremo é um “equívoco” e que, se alguém se eleger senador com essa bandeira, “terá imensas dificuldades de implementá-la”, “porque o todo institucional caminhará talvez num outro sentido”.
O presidente da Corte, Edson Fachin, aproveitou o lançamento de uma cartilha sobre remuneração de juízes e penduricalhos para reclamar do “populismo que opera pela erosão das instituições”. Disse que “o Judiciário está aberto à crítica, ao escrutínio público e à correção. Mas não podemos aceitar que a crítica legítima seja substituída por campanhas sistemáticas de descredibilização e menoscabo”.
Segundo ele, é preciso separar o joio do trigo — mas não agora: “Quando joio e trigo crescem juntos, os incautos perguntam se devem logo ser arrancadas as ervas daninhas. A resposta é negativa. Ao arrancar o joio antes da hora, corre-se o risco de arrancar também o trigo. É preciso aguardar a colheita para então separá-los”.
A intenção de Fachin é boa, mas, vinda de quem tenta há meses sem sucesso convencer os colegas a aprovar um mero código de ética, a fala soou como resignada capitulação. É como se as ervas daninhas tivessem crescido tanto que já não se consegue mais extirpá-las. Virou tudo uma coisa só.
Um esclarecimento: o que chama de blogueiro, para desqualificá-lo, é formado, possui diploma e registro profissional. A Justiça pega um sem expressão. Faz método e jurisprudência. Em seguida, por falta de reação, como está havendo tardiamento, vem as grandes empresas jornalísticas e seus medalhões. E aí será tarde para a sociedade que estará silenciada, acocorada, quando não presa como na ditadura militar sob as mais variadas acusações e refém de gente doente.
A BANALIZAÇÃO DA EXCEÇÃO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
É espantosa a tranquilidade com que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vêm defendendo a violação de princípios constitucionais elementares a pretexto de enfrentar ameaças extraordinárias. Há mais de sete anos, o STF mantém aberto um inquérito sigiloso, o das fake news, sob a justificativa de conter ameaças à democracia – seja lá o que isso signifique a esta altura. Na verdade, esse inquérito virou o instrumento de exceção por meio do qual seu relator, o ministro Alexandre de Moraes, pratica toda sorte de arbitrariedades, sob a aquiescência ou o obsequioso silêncio de seus pares e da Procuradoria-Geral da República.
Agora, segundo Moraes e seu colega Flávio Dino, o crime organizado também tem de ser tratado pelo STF como uma ameaça existencial, tal como a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro. De fato, como este jornal já reconheceu neste espaço diversas vezes, as grandes facções criminosas são, sim, um mal a ser combatido com todas as forças a serviço da ordem jurídica e da paz social. Mas não é esse o espírito que anima esta composição do STF. Sua ambição é mais mundana: concentrar um tal grau de poder à margem de qualquer escrutínio público, até mesmo do contraste com a própria Constituição.
Durante sessão da Primeira Turma, anteontem, Dino e Moraes sustentaram em jogral que o crime organizado estaria se valendo da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte para delinquir. Cheios da certeza dos justos, Suas Excelências deram até a receita para debelar esse mal: arrebentar a jurisprudência do STF e restabelecer a exigência de diploma para o exercício do jornalismo.
Espanta que a ministra Cármen Lúcia, que participou do julgamento que em 2009 aboliu essa excrescência da ditadura militar, não tenha pedido a palavra para advertir seus colegas calouros quanto ao despropósito da proposta. Para piorar, o decano Gilmar Mendes, relator daquele caso, alinhou-se aos revisionistas em uma entrevista.
O fim da exigência de diploma para jornalistas – que nada mais é do que um atestado acadêmico, não uma condição jurídica para o exercício da profissão – foi uma justa decisão do STF em prol da liberdade de expressão e do direito à informação. Se o debate de 17 anos atrás foi orientado pelo corporativismo de algumas entidades de classe, dispostas a fechar os jornalistas num clube privé, hoje é o espantalho do crime organizado quem pauta essa discussão bizarra no STF. Já a exigência do diploma para jornalistas segue tão inconstitucional quanto sempre foi.
O assunto, já pacificado, só foi desenterrado porque o STF patrocina há anos a banalização de um estado de exceção permanente ao manter aberto o inquérito das fake news. Em março, para citar apenas um exemplo entre a plêiade de desmandos do sr. Moraes, o ministro ordenou a quebra do sigilo telemático do jornalista Luís Pablo Almeida para chegar à fonte de uma reportagem na qual ele revelou que Dino e sua família usaram um carro do Tribunal de Justiça do Maranhão para seus deslocamentos privados em São Luís. A Polícia Federal afirmou ao STF que não encontrou qualquer indício de que o jornalista tenha cometido crime para realizar sua reportagem. Mas, ainda que houvesse, não se investiga uma suspeita de crime pisoteando garantias fundamentais consagradas pela Lei Maior.
É nesse contexto – vale dizer, Dino apanhado num suposto malfeito graças ao trabalho jornalístico – que se insere essa proposta extemporânea de se voltar a exigir diploma para jornalistas. Dino ainda tentou envernizar seu argumento com uma comparação estapafúrdia entre o jornalismo e a medicina. “Há um objetivo (do sigilo da fonte): acesso à informação, e não à desinformação”, disse o ministro. “E resguardado o sigilo da fonte exatamente em nome do direito à informação, quando necessário ao exercício profissional. Teoria funcional. Porque senão o médico teria liberdade para matar e alegaria sigilo médico.”
É constrangedor, mas este jornal se sente no dever de informar ao ministro que o sigilo da fonte protege a fonte, não exime o jornalista de responder por eventual crime que cometa. Dino recorre a um sofisma travestido de silogismo, e que no fundo só revela o cinismo que passou a grassar na mais alta instância judicial deste país.
MORAES E DINO AVANÇAM CONTRA A LIVRE INFORMAÇÃO, editorial do jornal Folha de S.Paulo
Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, parecem ter dobrado a aposta em maus hábitos e ideias.
Os dois magistrados, não se sabe se de forma espontânea ou combinada, encetaram um diálogo em que defenderam rediscutir a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão —algo que simplesmente não está na pauta do Supremo.
A confabulação foi clara reação às críticas, mais que justas, que Moraes sofreu pela decisão monocrática autorizando buscas e apreensões que fragilizaram a garantia constitucional do sigilo da fonte. O caso envolve Dino, que se abalou de forma desproporcional com uma reportagem sobre suposto mau uso de carro oficial no Maranhão.
Foi para proteger o colega de um alegado crime de perseguição que Moraes resolveu investir contra o princípio da liberdade de informação e de imprensa.
Agora, os dois juízes falaram em reintroduzir um controle estatal sobre quem pode ou não exercer a profissão de jornalista.
É uma atitude completamente inadequada nos métodos. Não cabe a ministros do STF utilizar sua função jurisdicional para difundir mensagens político-corporativistas. Ao célebre “juiz só fala nos autos”, deveríamos acrescentar “e sobre os autos”.
A posição da dupla também é equivocada no mérito. Não foi sem motivos que a corte, numa decisão histórica em 2009, derrubou a exigência de diploma e registro profissional para jornalistas. Oito dos nove ministros que participaram do julgamento entenderam que a norma era incompatível com a Constituição.
Além de recender a autoritarismo, ela violava princípios fundamentais como a liberdade de expressão e de informação e limitava o pluralismo comunicacional.
Ao contrário da medicina e da engenharia, o exercício do jornalismo não envolve saber e protocolos técnicos cuja inobservância coloque em risco a população.
Uma vez que o STF já declarou a exigência inconstitucional, desenvolver um raciocínio jurídico pelo qual ela magicamente se tornaria constitucional será escandaloso. Dois dos atuais ministros da corte, aliás, participaram do entendimento de 2009 —Gilmar Mendes, na condição de relator, e Cármen Lúcia, que apresentaram votos muito consistentes pela derrubada do diploma.
Outro erro grave é o pressuposto de que a certificação acadêmica asseguraria maior aderência às leis e melhor comportamento ético, o que não tem sustentação teórica nem empírica.
Basta observar o que acontece nos tribunais. Exceto pelo STF e pela Justiça Militar, todos os juízes precisam ter diploma de direito, e a grande maioria ainda passa pelo filtro adicional da aprovação em concurso.
Isso não impede que leiamos no noticiário com incômoda constância denúncias de venda de sentenças, conflitos evidentes de interesse ou mesmo envolvimento com corruptores notórios.