Para que serve este espaço? Para clarear o que os gestores e políticos escondem da cidade, cidadãos e cidadãs, seus eleitores ou não, mas pagadores de pesados impostos.
Esta reprodução gráfica acima decorre do artigo de quinta-feira “NO GOVERNO DE PAULO E RODRIGO A TRANSPARÊNCIA É NULA E A COMUNICAÇÃO SE NÃO É FRÁGIL E DESORGANIZADA, É FEITA PARA ENGANAR A CIDADE“. Surpreendido, o governo de Gaspar, que não fez a lição de casa por oito meses, mas ao menos trocou o recibo da vergonha.
Abaixo, um retrato de quem procurou este final de semana se informar no site da prefeitura de Gaspar sobre os números do Orçamento do município de Gaspar. Eles deveriam estar, por lei, disponíveis e facilitados no acesso ao cidadão e à cidadã. A comunicação da prefeitura está mais preocupada em bisbilhotar os outros; não consegue fazer a sua tarefa mínima e ao mesmo tempo olhar para o seu próprio umbigo. E sem argumentos, reclamam deste tipo de exposição dos que juraram que mudariam entre outros, este tipo de vício. Lamentavelmente, mais uma vez, estou de alma lavada.

Continuo sobre este assunto em outra oportunidade. Retomo ao título do artigo.
Vou repetir três coisas. Primeiro: era preciso – e de há muito – dar um cavalo de pau e colocar o Hospital de Gaspar num eixo de soluções para a população e o governo municipal, o que estava – e ainda está – sangrando nos seus cofres, sem resultados, sem transparência alguma e retornos efetivos para a sociedade, principalmente à mais vulnerável. Há décadas faço esta defesa enfática. E sob incompreensões dos que levam vantagens com a confusão e que me querem caldo sob desqualificação.
Segundo: sem transparência neste ato iniciado formalmente na semana passada, com muito espetáculo e a vinda do governador Jorginho Melo, PL, finalmente a Gaspar, onde praticamente só o grupo no poder de plantão participou – na sintomática falta de povo -, e onde esta essencial transparência é necessária, para a adesão da sociedade naquilo que deverá demorar, está se correndo um risco sério e elevado de desgaste e desastre. É o mesmo caso como se mostrou com o tempo, a “salvadora” intervenção feita no Hospital pelo PT de Pedro Celso Zuchi.
Terceiro: a população que procura o Hospital de Gaspar, diante das notícias e do espetáculo de suposta mudança de gestão ou dono dele, espera-se uma mudança de chave e radical imediata. Exemplos, mostram de que isto não vai acontecer do dia para a noite – quando normalmente afunilam os problemas -, mesmo que tudo der certo. E neste final de semana, por exemplo, não se notou nada diferente no Pronto Atendimento e no Hospital em si. Então, se não estiver claro o que está sendo feito jurídica, administrativa, contábil e tecnicamente, o que se trama ou se constrói na surdina, virá mais cedo do que se espera o que se esconde contra os que orquestraram tudo isto. Não é premonição. É repetição das fórmulas que deram erradas no Hospital e outras coisas tão iguais.
DESENCONTROS SÃO INCOMPATÍVEIS COM SOLUÇÕES
Escrito isto até aqui, está também claro de que a comunicação torta do governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, ao menos precisa ensaiar o jogral do que está fazendo e daquilo que quer ver conhecido, ou compreendido, pela cidade, cidadãos e cidadãs. E não será com discursos, entrevistas e reportagens encomendadas mal estruturadas e cheias de lacunas, como se todos fossem tolos.
Isto é uma vergonha em assunto tão sério e urgente para não só a cidade, mas para a própria gestão. Uma hora é dinheiro para desapropriação, outra hora dinheiro para o abatimento das dívidas, outra hora é o saneamento, gerenciamento administrativo e técnico do Hospital de Gaspar pelo Hospital Santo Antônio. Nada se encaixa, adequadamente.
Não vou longe. É só ler o Estatuto e o ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08), o advogado Aurélio Marcos de Souza – o que conhece este assunto, pois viu o Hospital na administração de Adilson Luiz Schmitt, sem partido, por decisão do Conselho, sem ter forças para reabri-lo. Aurélio já esclareceu aqui e nas redes sociais dele, mais de uma vez. Não precisa de nenhuma desapropriação. Tudo do Hospital de Gaspar, que é uma entidade filantrópica, pode ser transferido para outra entidade com finalidades filantrópicos assemelhadas, tão igual a Fundação e que toca o Santo Antônio, em Blumenau.
Esta novela do abatimento das dívidas do Hospital de Gaspar é outro assunto escandaloso.
Primeiro, a prefeitura e o Hospital não divulgam-nas. Estimam-nas em torno de R$40 milhões, assim em números redondos como “conta de padeiro” e não de uma contabilidade profissional e séria. Quem esteve lá dentro [do Hospital e da prefeitura] diz que pode chegar ao dobro disso. Mas, em quem afinal, se confiar nos discursos dos políticos sem documentos na mão para matar a cobra e mostrar a cabeça dela?
Supondo que, sejam mesmo R$40 milhões – que é bem menos do que a prefeitura coloca nele por ano (em 2024 foi R$45 milhões e estima mais de R$50 milhões se nada for feito e já estamos em setembro, o nono mês do ano), dizem que com R$20 milhões vindos do governo do estado, liquidam-na. Outra, como um financiamento próprio para infraestrutura e saneamento básico, o Finisa, da Caixa, vai e pode ser usado para abater dívidas do Hospital? Com quem combinaram tudo isso? Quem foi o negociador? E os processos de indenizações civis – que estão fora desta dívida com fornecedores – em quanto monta e com quem fica? E as trabalhistas?
Se o Hospital Santo Antônio, de Blumenau, vai assumir o de Gaspar, onde está o aval do Conselho da Fundação do Hospital de lá? E por que tendo condições de ampliar a sua ação em Blumenau, esta mesma Fundação de lá não quis gerenciar o Hospital Universitário da Furb, um ente municipal de lá que está contratando um terceiro? Credo!
Bom, ao menos o vereador Dionísio Luiz Bertoldi, PT, na sessão de terça-feira passada, deixou os eufóricos vereadores do governo de Paulo e Rodrigo batendo cabeças nas suas próprias incoerências. Veja o vídeo abaixo. Não é invenção minha. Estas dúvidas percorrem a cidade. O governo finge que não há este questionamento. Impressionante. E sou eu quem criou baboseiras?
E para esta terça-feira, Dionísio apresentará um requerimento, o 155, para tentar clarear parte disso tudo para os gasparenses. Isto se o o governo com ajuda do PP, deixar. E na Câmara de Blumenau, gente do próprio governo de Egídio Maciel Ferrari, PL, também quer saber até aonde o Hospital Santo Antônio está comprometendo a sua imagem e saúde financeira com a sua “associação” ao Hospital de Gaspar.
Ninguém – lá e aqui – é contra, mas faltam dados, clareza, saídas e garantias. E aí, gente séria é contra esta nebulosidade na transparência liderada por Paulo. Muda, Gaspar!
TRAPICHE

Um “novo” governo tão igual ao de Kleber Edson Wan Dall, MDB. Para não ver, ou temendo protestos contra o seu governo nas ruas da cidade, cancelava desfiles de escolares e entidades no Centro da cidade, alegando suposto futuro mau tempo climático. O mau tempo contra seu governo viu isso se estabelecer nas urnas em outubro do ano passado.
O governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos PL, repetiu a fórmula neste domingo, dia Sete de Setembro, aqui no Centro. A orientação técnica foi da Defesa Civil e tocada por um especializado, Rafael de Araújo Freitas, que pode se socorrer de vários serviços especializados, incluindo o vizinho AlertaBlu. A decisão, todavia, da secretaria de Educação e da Comissão organizadora.
Segundo a nota da prefeitura de Gaspar e distribuída já na sexta-feira, e que alegou ter feito isto em proteção e segurança das crianças, jovens e organizadores nas escolas, havia “previsão de chuva constante, a Prefeitura de Gaspar informa que o desfile cívico marcado para este domingo, dia 7 de setembro, está cancelado“.
Nada disso aconteceu – nem a garoa, foi constante, tanto que o Distrito do Belchior, foto acima, mais uma vez, fez o seu desfile apartado. E com a representação do vice Rodrigo Boeing Althoff, PL. Pomerode, Itajaí, bem como Blumenau, Brusque… O que a Defesa Civil de Gaspar enxergou que as outras não viram? Ilhota também não teve desfile de Sete de Setembro. Hum!
Enquanto comissionados viajam para pescar, o governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, depois de levarem uma bolada nas costas que durou seis meses com a indicação do engenheiro Vanderlei Schmidt para a secretaria de Obras e Serviços Urbanos e a ampliar esta bolada e desgastes com a interinidade de dois meses do chefe de gabinete, novo prefeito de fato, Pedro Inácio Bornhausen, PP, deu à conhecer a cidade a nova escolha.
É o engenheiro Leandro Rafael de Melo. Qual é a especialidade dele? Grandes obras de infraestrutura segundo o anúncio feito pela própria prefeitura à cidade. Então vamos lá? Qual, nem perguntarei quais, grandes obras de infraestrutura o governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, que é engenheiro, ambos do PL, prometeu fazer, se nem dinheiro em caixa e capacidade de endividamento possuem?
Leandro Rafael de Melo nem de Gaspar é, e é seu primeiro emprego público, coisa muito diferente da iniciativa privada sob agenda, gestão, supervisão de especialistas e obrigação a resultados para seus clientes, na maioria privados. O que une Leandro Rafael de Melo a Gaspar? Supervisionava as obras de pavimentação do segundo trecho da Vidal Flávio Dias para a Planaterra e principalmente, é afinado com o secretário de Planejamento Territorial, Michael Jackson Shoenfelder Maiochi, outro vindo de Blumenau.
Gaspar, acima de tudo, precisa de manutenção coordenado pela secretaria de Obras e Serviços Urbanos. É a conciliação da urgência, emergência e execução de pequenas obras aos mesmo tempo, livrando-as da burocracia, fator que engoliu a então reconhecida competência do ex-titular da pasta. Como se vê, o atual governo não consegue aprender com os seus próprios erros e experiências, que mais parecem a da “invenção da roda”.
Perguntar não ofende: para onde foram os patriotas de Gaspar pedir anistia ampla e irrestrita para Jair Messias Bolsonaro, PL? Blumenau ou Balneário Camboriú, onde estava o vestido de catarinense, o carioca Carlos Bolsonaro, PL, que vai ser candidato alienígena ao Senado, como se a direita ou o conservadorismo não tivessem catarinenses para disputar uma vaga de representação do estado?
Perguntar não ofende: petista de verde amarelo é ato de patriotismo? Credo. Sinceramente? Não combina. Pele de cordeiro é uma coisa. Camaleão é outra bem diferente. Esses marqueteiros estão, verdadeiramente, em que mundo onde tudo é on line, bolhas e falsidades? Será que em protesto, um bolsonarista vestiria vermelho para ficar parecido com o petismo para confundir e enganar os eleitores e eleitoras brasileiros? Benza-me, Deus!
O prefeito Egídio Maciel Ferrari, PL, de Blumenau, em vídeo nas suas redes sociais, ratificou o que eu escrevi aqui. A Policlínica Regional que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, PT, quer construir lá, com R$30 milhões do PAC, vai ser mantida, com no mínimo R$2 milhões por mês com recursos da prefeitura de Blumenau, para atender os outros municípios vizinhos. Os vereadores de Gaspar se habilitaram a receber este equipamento de Saúde, pedindo que o prefeito Paulo Norberto Koerich, PL, ofereça o terreno, que Blumenau, resiste doar para a construção da Policlínica Regional.
Perguntar aos vereadores donos desta ideia, como Giovano Borges, PSD, não ofende. Se em Gaspar, a prefeitura não dá conta de manter o Hospital sob a sua intervenção, vai criar mais uma alta despesa permanente na área de Saúde e para atender não só Gaspar, mas outros município, e neste caso, Blumenau, que será o maior demandador de serviço especializado de alta complexidade? Em tempo. Indaial fez idêntica proposta a de Gaspar.
Enfim, atrasado, o governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, e após resistir, negar e até ensaiarem escaramuças, vão discutir os rolos da secretaria de Agricultura e Aquicultura do passado que tentavam punir os produtores rurais no presente. O Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural se reúne hoje às sete horas da noite. Na pauta, e só por dez minutos, mesmo diante da complexidade. Não há indicação sobre um Refis específico.
Perguntar não ofende. Como está a denúncia da instalação provisória de um transformador na Arena Multiuso, que semana antes do edital já tinha ganhador conhecido e que fez a instalação? A chefia de gabinete do prefeito Paulo Norberto Koerich, PL, está lavando as mãos. A secretaria de Agricultura e Aquicultura, igualmente. Vai sobrar para o secretário de Desenvolvimento, Renda e Turismo, o empresário Nelson Mário Küstner. Avisado, ele estava.
Olhando as atas de Assembleias do Hospital de Gaspar, na Extraordinária de 15 de abril de 2014, descobre-se que o executivo empresarial Sérgio Roberto Waldrich, ex Ceval, Seara e Bunge, foi escolhido como presidente do Conselho do Hospital. Deveria tomar posse no dia 19 de abril, mas os presentes, concordaram que a posse se desse no dia 27 de maio daquele ano, pois Waldrich estava em viagem ao exterior.
O que aconteceu? O prefeito Pedro Celso Zuchi, PT, aproveitou este vácuo e decretou a intervenção no Hospital para apurar quem roubava a mixaria que mandava para fazer funcionar o Pronto Atendimento, obrigação da prefeitura em mantê-lo. O desfecho de tudo isso, a cidade inteira sabe por anos afio. Foram onze anos de piora e narrativas. Então, pedir transparência naquilo que se muda mais uma vez, é o mínimo que se quer para se ter um hospital saudável financeiramente e referência na esperança de cura e atendimento.
Perguntar não ofende: o que faz um gestor público prestar contas a entidades maçônicas e não exatamente ao povo, que o elegeu?
13 comentários em “NÉVOA PAIRA TEIMOSAMENTE SOBRE A “DESAPROPRIAÇÃO” E A ENTREGA DO HOSPITAL DE GASPAR AO HOSPITAL SANTO ANTÔNIO, DE BLUMENAU. FALTA TRANSPARÊNCIA EM TUDO. E AS REPORTAGENS DO FINAL DE SEMANA, COM PITADAS DE OFICIALIDADE, SÓ AMPLIARAM AS INCOERÊNCIAS E AS DÚVIDAS”
Dia do Médico-Veterinário!
Homenagem a todos os Colegas de Profissão.
“Médico-Veterinário, um profissional presente”
Campanha destaca papel dos Médicos-Veterinários no dia a dia da Sociedade.
No leite e na manteiga do café da manhã. No churrasco do fim de semana com amigos. No carinho com o pet de estimação. Na vacina que protege as famílias. No campo, garantindo a sanidade dos rebanhos. Na indústria e na inspeção, assegurando que os alimentos cheguem com qualidade e segurança à mesa. Em cada um desses momentos da rotina, existe um médico-veterinário presente. É essa presença cotidiana, muitas vezes invisível, mas indispensável, que o Sistema CFMV/CRMVs quer destacar na campanha pelo Dia do Médico-Veterinário, celebrado em 9 de setembro.
Com o slogan “Médico-Veterinário, um profissional presente”, a iniciativa valoriza a amplitude da atuação dos mais de 215 mil médicos-veterinários em atividade no país, profissionais que se dividem entre consultórios, laboratórios, indústrias, serviços de inspeção, universidades, órgãos públicos, fazendas e tantas outras áreas. Uma rede que conecta saúde, segurança e sustentabilidade em todos os momentos da vida.
Muito além dos pets
Embora muita gente ainda associe o médico-veterinário ao cuidado com cães e gatos, sua presença vai muito além da clínica de pequenos animais. Ele é o profissional que garante alimentos de origem animal seguros; que inspeciona frigoríficos, laticínios e entrepostos; que atua no controle de zoonoses, responsáveis por 60% das doenças infecciosas humanas; que contribui para pesquisas científicas e produção de vacinas; e que trabalha lado a lado com agricultores e pecuaristas para manter a sanidade dos rebanhos.
Essa presença foi decisiva para que o Brasil conquistasse o status de país livre de febre aftosa sem vacinação, por exemplo, resultado que fortalece a agropecuária nacional e sustenta nossa posição de destaque no comércio mundial de alimentos. Segundo estudo do CNA/CEPEA, o agronegócio representa cerca de 24% do PIB brasileiro, e o trabalho dos médicos-veterinários é um dos pilares dessa força econômica.
Ela também se revela em momentos de extrema vulnerabilidade. Nas recentes enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, médicos-veterinários atuaram no resgate e tratamento de milhares de animais, ajudando a salvar vidas e a reconstruir laços afetivos de famílias que perderam tudo. Em desastres como esse, a sociedade percebe, de forma ainda mais clara, o valor de ter um profissional sempre presente.
Presença também na formação
Ao destacar essa presença múltipla, a campanha também chama atenção para um desafio que segue na agenda do Sistema CFMV/CRMVs: a defesa do ensino 100% presencial na Medicina Veterinária. Afinal, uma profissão que exige sensibilidade, prática clínica, vivência no campo, experiência em laboratórios e contato direto com animais e pessoas não pode ser aprendida apenas por uma tela de computador. A formação precisa ser tão presente quanto o próprio médico-veterinário é na vida da sociedade.
“Queremos que cada brasileiro perceba que, onde a vida acontece, existe um médico-veterinário presente. Seja no alimento seguro que chega à mesa, na inspeção de uma indústria, no campo que sustenta nossa economia, no resgate de animais em desastres ou na sala de aula que forma novos profissionais, esse trabalho está em todos os lugares. Por isso, defendemos com firmeza a formação presencial: porque só vivendo a prática é possível aprender a cuidar da vida. E cuidar da vida é estar sempre presente”, afirma Ana Elisa Almeida, presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).
BOLSONARISMO DE RESULTADOS, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
Tarcísio de Freitas, pragmático tocador de obras, mostrou do que é capaz. Que fará de tudo para ser o candidato da direita em 2026. Quer muito. E alcançou o ponto de não retorno por essa querença.
Topa qualquer coisa. Esse é o destaque da manifestação de domingo. Auge de jornada que começara, menos de semana antes, com o governador de São Paulo declarando não confiar na Justiça – e se comprometendo, como primeiro ato, a indultar Bolsonaro, caso fosse presidente.
Tarcísio, um prático, acelerou. Não está – né, Ciro Nogueira? – sozinho. Tinha uma missão, meta combinada, obra a entregar – e a entregou. Maior ou menor o grau de encenação teatral, maior ou menor a crença na viabilidade da anistia, mexeu-se. Cumpriu etapas na “expectativa Malafaia”. Falou o nome de Alexandre de Moraes, associou-o à ditadura etc. Ganhou estrelinha no caderno.
Que ele não acredite haver, com isso, saciado o bolsonarismo raiz, do qual terá – no máximo – levado uma trégua. E que você não o tenha, por isso, na conta de tipo diferente… A peleja, mais ou menos fria, não se dá entre comedidos.
O cronista considera extravagante a discussão sobre se Tarcísio seria um moderado. Foi ministro de Bolsonaro até 2022, palco de que sairia porque escolhido-promovido para concorrer ao segundo cargo mais importante em disputa. É bolsonarista, caráter sob o qual moderação será somente recurso estratégico.
Ante a prisão domiciliar de Jair e depois de visitá-lo, o moderado tático botou o bloco na rua. Mexeu-se e fez mexer. Liberdade para o inelegível! Liberdade com inelegibilidade – esse é o programa do grupo que encarna. Tarcísio, que estava em posição passiva, esperando pela bênção do padrinho, começou esta semana como líder de um projeto de superação do ex-chefe.
Sem constrangimento, fez pregação de Bolsonaro, defendeu a elegibilidade de Bolsonaro e se projetou para, ausente Bolsonaro, ser o seu herdeiro eleitoral. Trabalha pela ausência de Bolsonaro.
Todos trabalham com a ausência de Bolsonaro. Estamos no pós-Bolsonaro. No pós-Bolsonaro eleitoral. O bolsonarismo que confronta Moraes publicamente está também em confronto interno indiscreto. Briga por controle. Por quem encabeçará o bolsonarismo sem Bolsonaro.
Contenda que, presentes ou não os corpos, subiu no carro de som e em decorrência da qual se orientaram os discursos: o bolsonarismo sem Bolsonaro de Tarcísio, o bolsonarismo de resultados, versus o bolsonarismo sem Bolsonaro de Eduardo, o bolsonarismo puro-sangue. Todos cientes de que Jair não concorrerá em 26; todos bradando por que ele esteja nas urnas; todos se organizando a partir da sua inelegibilidade.
Essa é a grande conquista estabelecida pelo movimento do governador. Bolsonaro ainda nem condenado e a agenda da anistia – logo, a própria direita brasileira – ajeitando o corpo em função de eleição; em função de Tarcísio de Freitas, o pauteiro, candidato sem precisar se anunciar.
Este texto é a opinião de um jornal reconhecidamente liberal conservador. Então, por ele, pode-se medir o tamanho do erro.
TARCÍSIO CRUZOU O RUBICÃO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
É difícil medir o impacto de um discurso na trajetória de um político no Brasil. Aqui, um cenário que parece consolidado hoje pode ser outro diametralmente oposto amanhã. Que dirá em pouco mais de um ano. Mas há momentos em que a palavra proferida torna-se tão eloquente por sua clareza que a eventual intenção de desdizê-la é muito difícil, se não impossível. Foi o que ocorreu no Sete de Setembro, na Av. Paulista. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, topou sujar sua imagem de moderado em troca de uma incerta bênção do réu Jair Bolsonaro à sua aventada candidatura à Presidência no ano que vem. Ao desferir ataques tão virulentos contra o Supremo Tribunal Federal (STF), e em particular o ministro Alexandre de Moraes, Tarcísio cruzou o Rubicão.
Em cima do carro de som, diante de uma plateia orgulhosa por desfraldar uma enorme bandeira dos EUA em plena data nacional brasileira, Tarcísio ecoou o infame discurso que Bolsonaro proferira naqueles mesmos dia e local quatro anos antes, quando o então presidente chamou Moraes de “canalha” e declarou que não cumpriria mais suas decisões. Com mais modos que seu padrinho boquirroto, Tarcísio fez o mesmo, dizendo que “ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes”, acusando o STF de perseguir seu padrinho político e defendendo uma anistia “ampla e irrestrita” para os golpistas. A coroar esse discurso afinado para soar como música aos ouvidos de Bolsonaro, o governador paulista teve a audácia de dizer que não se pode mais “aceitar que nenhum ditador diga o que temos de fazer”, referindo-se, por óbvio, a Moraes.
Não foi um arroubo isolado. Dias antes, Tarcísio já havia dito que “não confia” na Justiça, um evidente ataque à institucionalidade democrática. O governador parece ignorar o fato de que, se há uma ação penal em curso contra Bolsonaro, por mais que alguns aspectos do processo possam ser criticados, é porque, antes, houve uma escalada golpista liderada pelo ex-presidente.
Bolsonaro não estaria sendo processado se tivesse conclamado seus seguidores acampados em frente aos quartéis a voltarem para casa; se não tivesse duvidado sistematicamente do processo eleitoral, sugerindo que sua derrota só poderia decorrer de fraude; se tivesse aceitado o resultado da eleição e passado a faixa a seu sucessor, Lula da Silva; e se não tivesse tentado envolver chefes militares numa trama de ruptura da ordem democrática “dentro das quatro linhas” da Constituição. E mais: caso se comportasse com um mínimo de respeito pelas regras democráticas, Bolsonaro não só não estaria preso e inelegível, como seria favorito na eleição presidencial de 2026. E ninguém estaria falando da “tirania” de Alexandre de Moraes.
Ao inverter a ordem lógica dos fatores, Tarcísio põe em xeque sua capacidade de dialogar com o Supremo, com os partidos que integram o centro político, com o setor produtivo nacional e, principalmente, com os eleitores moderados – justamente os que têm decidido as eleições presidenciais no País há pelo menos 30 anos.
A moderação, nesse sentido, era o capital político mais valioso de Tarcísio por seu potencial de reunir as forças de oposição ao lulopetismo – seja dos moderados, seja dos próprios bolsonaristas, que jamais deixarão de votar no candidato capaz de derrotar Lula. Mas, desde o domingo passado, o governador provavelmente terá de fazer um esforço redobrado para convencer parte considerável do eleitorado – supondo que queira fazê-lo – de que não disse o que disse em português cristalino.
Não era inevitável que fosse assim. O governador poderia ter alegado algum impedimento médico, como fez em outra ocasião, e faltado ao evento golpista da Av. Paulista. Uma vez que teve a imprudência de comparecer, poderia ter feito um discurso anódino, defendendo o que chama de “pacificação”, mas sem endossar as teses estapafúrdias de Bolsonaro nem muito menos atacar de forma antirrepublicana o STF. Ao optar pela via incendiária, Tarcísio deu a dimensão de sua aposta: humilhar-se para conquistar o coração do “mito” a qualquer preço.
Em política, até a reputação mais enxovalhada pode ser restaurada. Mas Tarcísio terá de se esforçar muito para se dizer democrata depois de seu discurso na Av. Paulista.
É URGENTE PRIVATIZAR OS CORREIOS, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Submetidos a uma gestão ideológica, perdulária e desconectada dos desafios impostos pela tecnologia e pelo sistema concorrencial, os Correios apresentam um ritmo de degradação estarrecedor.
No primeiro semestre de 2025, o prejuízo chegou a R$ 4,4 bilhões, um salto em relação ao rombo observado em todo o ano de 2024 (R$ 2,6 bilhões).
Em comparação com o mesmo período do ano passado, a receita caiu 9,5%, a R$ 8,9 bilhões. Os custos administrativos subiram de R$ 1,2 bilhão para R$ 3,4 bilhões, e as despesas com precatórios dispararam para R$ 1,6 bilhão, alta de quase 500%.
O quadro, que revela inchaço burocrático e investimentos mal planejados, já motivou a aprovação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado e fez com que o presidente da estatal, Fabiano Silva dos Santos, pedisse demissão em julho — mas sua saída não foi formalizada porque o governo não tem um substituto.
Não convence a tentativa de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, de atribuir o prejuízo aos custos de manutenção do serviço postal universal, como entregas em áreas remotas. Ele argumentou que a quebra de monopólio deixou os concorrentes com a melhor fatia do mercado.
Caberia lembrar que o modelo de privatização elaborado pelo BNDES em 2021 previa o desmembramento das atividades em entregas de maior porte e logística complexa, de um lado, e serviços postais, de outro.
Estes últimos continuariam pública e passariam por nova concessão, com manutenção da universalidade, veto ao fechamento de agências em áreas remotas e tarifas acessíveis reguladas pelo Estado. O modelo propunha parcerias privadas para injetar eficiência, sem abandonar o compromisso social e os rincões.
A ideia, baseada em experiências internacionais bem-sucedidas, era maximizar o valor da franquia dos Correios para o contribuinte e evitar a morte lenta (ou rápida, no caso da gestão petista) de uma estrutura calcificada. Mas Luiz Inácio Lula da Silva descartou qualquer nova privatização, antes mesmo de tomar posse, e agora colhe fracassos.
Urge retomar o processo de privatização da companhia. Com deterioração acelerada, adiar a venda só agravará as perdas, exigindo mais aportes públicos.
Uma gestão privada, sob regulação forte, pode modernizar operações, reduzir custos e manter o serviço universal. Espera-se que o Congresso Nacional assuma a responsabilidade de salvar os Correios, caso o governo insista em recusar o caminho da sensatez
Boa tarde, os custos da Policlínica Regional não deveriam ser rateados, entre os Municípios a que utilizam , para seus moradores.
Esta regra não está clara, até o momento. E se há, também não está esclarecido como isso se dará e quem não comparecer no rateio, como será penalizado ou excluído. Natural, seria, o município líder de umna região metropolitana, a maior demandadora dos serviços liderar este processo de aceitação e gestão. Mas…
E se o processo fosse invertido?
Os municípios interessados construiram a policlínica e o governo federal assumisse os demais eternos investimentos?
Está aí, um caminho. Mas, para quem quer ser a solução. O
Está aí um caminho. Mas, para quem quer ser a solução. Nesta discussão, todavia, esta não é a questão primeira
Parece-me que a questão primeira é o palanque para o maldito sapo barbudo na Região!
O PRESIDENTE DO CONGRESSO INTERNO, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08) e graduado em Gestão Pública pela Udesc. Este artigo, originalmente foi publicado nas redes sociais do autor.
Dentro de mim, há um congresso permanente, e ele está a um passo da sua versão mais completa. O Engenheiro, que por anos foi uma voz em formação, agora é um graduando que em breve assumirá seu posto definitivo à mesa. E eu, Aurelio, não sou apenas o edifício que os abriga; SOU O PRESIDENTE DESTE CONSELHO.
A pauta do dia é emblemática: “COMO REVITALIZAR O CENTRO DA CIDADE?”.
O congresso não é um lugar de consenso fácil, mas de atrito constante. Lá, o ADVOGADO levanta a voz e fala de leis, licitações e jurisprudência. Ele olha com desconfiança para o Engenheiro, que só enxerga planilhas, canteiros de obra e eficiência. “Você só pensa em construir! E a legalidade? A burocracia? Sem mim, seu projeto não passa do papel”, ele esbraveja.
Do outro lado da mesa, o ENGENHEIRO revira os olhos. Ele acha o Advogado um chato, um criador de obstáculos que atrasam o progresso. “Você só entende de papel! Meu trabalho é transformar ideias em realidade. Sem mim, sua lei é só um texto vazio que não constrói nada”, ele retruca.
Enquanto isso, em um canto, o EDUCADOR FÍSICO suspira. Ele vê os dois discutindo sobre estrutura e normas e pensa: “E as pessoas? Onde estão as praças, as áreas de lazer e a qualidade de vida nessa conversa?”. Ele acha que os dois são frios e distantes.
O ADMINISTRADOR PÚBLICO, outro ministro, tenta manter a ordem com planilhas de custos. Ele olha para o Educador Físico e o acha um idealista. “A gente precisa de dinheiro pra tudo isso! Sem uma boa gestão, seu parque não sai da conversa”, ele pondera, com a caneta na mão.
Foi então que uma voz ecoou da galeria — não de um ministro, mas de alguém de fora, que não vivia os cálculos, nem as leis, nem os orçamentos. Era o ARTISTA. Sua fala soou como um sussurro disruptivo: “E se usássemos cores vivas? E se criássemos um labirinto de jardins em vez de apenas bancos iguais aos de sempre?”.
O Engenheiro revira os olhos. “A cor não afeta a resistência dos materiais!”. O Advogado se exaspera. “Isso não está no escopo do edital de revitalização!”. O Administrador já calcula mentalmente o custo extra da tinta especial. Mas o Educador Físico sorri, sabendo que um espaço lúdico e belo convida mais a comunidade a usá-lo.
Ninguém se gosta de verdade. Todos se irritam, discordam e competem pela liderança. O Advogado não entende a mentalidade do Engenheiro. O Engenheiro não tem paciência para as formalidades do Advogado. O Educador Físico acha que todos os outros são insensíveis. O Administrador se sente sobrecarregado. E todos olham para o Artista como se ele fosse um alienígena — porque, de fato, ele não pertence àquele conselho.
No entanto, no momento da verdade, todos se admiram secretamente. O Advogado sabe que sua lei sobre saneamento só se torna uma obra real por causa do Engenheiro. O Engenheiro sabe que sua ponte só pode ser construída se o Advogado garantir o contrato e o Administrador liberar a verba. O Administrador sabe que a política que ele criou para a cidade só é eficaz se o Educador Físico atuar diretamente com a população. E todos, no fundo, desejam um pouco da coragem do Artista para ousar.
É dessa tensão criativa, desse conflito interno e dessa admiração mútua, que nascem as melhores soluções. Porque um projeto que é apenas tecnicamente viável, ou legalmente correto, ou socialmente justo, ou financeiramente sólido, ou bonito, não é suficiente. A força de verdade reside na capacidade de fazer com que todas essas vozes, mesmo que discordem, trabalhem em uma mesma direção.
E é aqui que eu, o Presidente, bato o martelo. Minha função não é silenciar nenhuma das vozes, mas ouvir o debate exaltado e sintetizar um veredito. Após ouvir todos, a decisão é minha: o projeto de revitalização terá a solidez do Engenheiro, a conformidade do Advogado, a viabilidade do Administrador, o foco humano do Educador Físico e — por que não? — um toque de cor e ludicidade inspirado pelo Artista.
E TALVEZ SEJA SIMBÓLICO QUE HOJE SEJA SEXTA-FEIRA. A sexta sempre pede síntese: depois de uma semana inteira de debates internos, chega o momento de juntar tudo, ouvir as vozes, respeitar as tensões e, enfim, decidir. Sexta é dia de balanço, dia de reflexão e, ao mesmo tempo, dia de abrir espaço para o descanso e para a ousadia de sonhar. É o instante de reconhecer que o congresso nunca fecha, mas precisa de pausas para respirar.
Este congresso permanente não é uma confusão a ser resolvida, mas um comitê de especialistas a ser gerido. Este sou eu, Aurélio Marcos de Souza, que dorme, acorda e faz suas refeições com estes. Um graduando em engenharia que ainda não carrega o título, mas que já carrega o peso da responsabilidade em cada cálculo e cada decisão. Em breve, serei um engenheiro, mas serei, sempre, muito mais do que isso: a soma tensa e criativa de todas as vozes que me habitam e que, juntas, não buscam apenas construir obras, mas construir um mundo um pouco mais funcional, justo, viável, humano e belo.
O congresso está em sessão. E a “pega” já começou.
ENTRE A ÓRBITA CHINESA E A EUROPEIA, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo
O presidente Donald Trump escreveu em sua rede social: Parece que perdemos a Índia e a Rússia para a China mais profunda e sombria. Que tenham um longo e próspero futuro juntos. A rede tem o pretensioso nome de Truth Social, mas pode ser tudo, menos a expressão da verdade, muito menos da coerência. Trump já havia escrito ali, na semana passada:
— Dou-me muito bem com Xi [o presidente chinês, Xi Jinping].
Um dia depois, registrou:
— Xi e Putin conspiram contra os Estados Unidos.
Entre uma “verdade” e outra, a poderosa força militar chinesa foi exibida em Pequim, no maior desfile de sua história, tendo o presidente russo como principal convidado de honra. Foi no ambiente dessa demonstração bélica que Xi apresentou sua “verdade”. Disse que o mundo está hoje entre a paz e a guerra, entre a prosperidade e a estagnação — sendo a China, claro, a guardiã da paz e a promotora do desenvolvimento econômico. Não precisou dizer que, nessa versão, os Estados Unidos representam o contrário.
Não foi esse o único movimento de expressão global aplicado por Xi na semana passada. Um dia antes do desfile, ele recebeu mais de 20 chefes de Estado numa reunião da Organização para a Cooperação de Xangai, grupo voltado para comércio e investimentos. Ali estava a presença inédita do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi — que posou para fotos em descontraídas conversas com Xi e Putin. O significado geopolítico é enorme: havia anos que China e Índia tinham não apenas desavenças diplomáticas, mas uma disputa de fronteiras no Himalaia, com escaramuças militares.
De outro lado, sucessivos governos americanos faziam movimentos de aproximação com a Índia, bem-sucedidos até há poucas semanas. Para os Estados Unidos, a Índia era um contrapeso à influência chinesa na Ásia. Trump detonou tudo isso e atirou Modi nos braços de Xi. Depois de receber o primeiro-ministro indiano na Casa Branca, aplicou tarifas de importação de 25% aos produtos da Índia. Ainda aumentou a tarifa para 50% — a taxa mais alta — argumentando que a Índia importa petróleo russo. De fato, importa, mas seguindo o teto de preço aplicado pela União Europeia e vendendo derivados a vários países europeus.
A Índia não é pouca coisa — uma economia de US$ 4 trilhões, em forte crescimento, e a maior democracia do mundo, embora Modi recorra com frequência a métodos arbitrários. E é uma potência nuclear.
Não foi apenas esse o presente que Trump deu a Xi. À mesma reunião da Organização para a Cooperação de Xangai compareceram chefes de Estado de países que se inclinavam ao Ocidente, como Egito, Vietnã e Turquia. De novo, por causa das tarifas. O Brasil também estava lá, representado pelo embaixador Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula. Ele ressaltou a já forte relação econômica entre Brasil e China e confirmou o início de um novo tipo de cooperação, na área militar.
A presença de Amorim confirmou o comentário recente de Lula, segundo o qual o Brasil está tranquilo nesse ambiente do tarifaço americano porque tem a China como principal parceiro comercial. Na verdade, é mais que comercial. A China tem aqui pesados investimentos em infraestrutura, assim como em toda a América Latina. Trata-se de uma política construída cuidadosamente ao longo de anos. Hoje, entre os latino-americanos, apenas três países têm os Estados Unidos como maior parceiro comercial: México, Colômbia e Equador — os três sofrendo sanções tarifárias e outras ameaças.
Enquanto os Estados Unidos punem e ameaçam antigos aliados, a China se oferece para recebê-los. O convite vale para o Brasil, que, entretanto, faria melhor se diversificasse e ampliasse seu leque de alianças econômicas e políticas. Daí a importância do inesperado avanço das negociações para a conclusão rápida do acordo Mercosul-União Europeia. É uma boa resposta ao trumpismo, sob todos os aspectos, e uma alternativa à órbita chinesa. A União Europeia é uma potência econômica — um PIB de US$ 20 trilhões — e uma potência democrática. Certamente, melhor companhia.
HÁ MÉTODO E PLANEJAMENTO NO CAOS DE TRUMP, editorial do jornal O Globo
O segundo mandato de Donald Trump é marcado por sucessivas intervenções da Casa Branca na máquina administrativa, com a demissão de quase 290 mil servidores federais (12% do funcionalismo), desafios a decisões judiciais e avanços do Executivo sobre braços independentes do setor público. Os dois casos mais recentes foram o anúncio da demissão de Lisa Cook, diretora do Federal Reserve (Fed), e de Susan Monarez, recém-nomeada para dirigir o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Ambas discordaram das diretrizes que Trump pretende impor às respectivas agências.
A forma impetuosa e caótica como ele tem voltado carga a diferentes alvos — da política tarifária aos ovos de galinha — tem deixado o país perplexo. Mas, como na loucura que Polônio via em Hamlet, há método nesse caos. De forma à primeira vista errática e desconexa, Trump tem executado à risca o plano traçado no Projeto 2025, documento formulado pela conservadora Fundação Heritage como base de seu programa eleitoral. Nos quatro anos em que ficou fora da Casa Branca, Trump alinhou o Partido Republicano a seu perfil radical, contando com a colaboração da Heritage. Para evitar perder votos independentes, em nenhum momento admitiu o elo, mas a influência do Projeto 2025 no governo ficou evidente na nomeação para postos estratégicos. A principal foi Russ Vought, chefe do Escritório de Administração e Orçamento (OMB), organismo crítico para o controle da máquina pública, subordinado à Presidência. Vought é autor de capítulo do Projeto 2025 sustentando que o Executivo pode acessar recursos das agências governamentais passando por cima do Congresso, em desafio à Constituição.
Outro colaborador do Projeto 2025 — no capítulo sobre inteligência — foi John Ratcliffe, nomeado diretor da CIA. Além disso, o conselheiro sênior do presidente para comércio e indústria, Peter Navarro, uma espécie de guru de Trump para o comércio internacional, é autor do trecho do Projeto 2025 que definiu as bases do tarifaço. A secretária de imprensa do presidente, Karoline Leavitt, aparece em vídeos gravados para explicar o Projeto 2025. O advogado Brendan Carr, responsável pelo capítulo com sugestões para a Comissão Federal de Comunicações (FCC), em janeiro assumiu o comando da própria FCC. Por fim, o economista Stephen Miran, nomeado por Trump para uma vaga na diretoria do Fed, embora não vinculado formalmente ao documento, é autor de um estudo justificando os desvarios da política econômica de Trump.
Num primeiro momento do governo, Elon Musk conduziu cortes de pessoal à frente do Departamento de Eficiência Governamental. Com o tempo se afastou de Trump, por concluir que as medidas do governo trarão mais déficit público e mais inflação. Trump deu de ombros e continuou a pôr em marcha o desmantelamento sistemático dos braços do Estado previsto no Projeto 2025. O objetivo implícito é controlar de modo quase absoluto todas as áreas da administração pública, destruindo o sistema de freios e contrapesos previsto na Constituição. Os riscos na prestação de serviços à população são evidentes — vão da saúde pública à independência do Judiciário. Mas o principal é a ameaça a cada dia mais real que Trump representa à estabilidade institucional e à democracia americana.