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LUMEM OU FIAT LUX? GASPAR CONHECEU ONTEM UM CURTO CIRCUITO. ERA ESPERADO. ELE PODE DESENCADEAR OUTROS VINDOS DO GOVERNO DE KLEBER, LÚ E MARCELO. TUDO ISSO PODE DEIXAR AINDA MAIS SEM BRILHO O ATUAL GOVERNO

GASPAR É MAIS UMA VEZ MANCHETE ESTADUAL. E PELO PIOR

Este texto foi revisado, alterado e acrescentado as 9h58min de 13.09.2025. Há duas semanas, empresários do setor do lixo eram presos. Já estão soltos. Mas, este não é o assunto de hoje, a não ser a ligação que tudo isso tem a ver com a prestação de serviços com as prefeituras catarinenses. Vamos ao artigo de hoje.

A Polícia Civil de Santa Catarina, a parte que é especializada em corrupção e a mando da Justiça Estadual, mas a pedido do Tribunal de Contas do Estado, esteve nesta quinta-feira em Gaspar para cumprir mandados de busca e apreensão de provas para instruir uma operação denominada de “Lumen” (unidade de medida de luz, resumindo para os leigos, a quantidade de luz emitida por uma lâmpada). Notícia velha. Ela está espalhada. Não vou repeti-la. Vou, como é minha obrigação, repercutir do ponto de vista da integridade. Veio tarde, muito tarde. E pode ser a primeira – ao menos deveria – de uma série.

Eu, pessoalmente, batizaria esta operação de “Fiat Lux”, ou seja, “faça-se a luz”, como está escrito em Genesis, sobre a criação do mundo, que estes de bíblia na mão e discursos fáceis em púlpitos, palanques e marquetagem do diabo nas redes sociais, multiplicadores de gambiarras, conhecem bem desse assunto como poucos.

É o que precisamos: luz, nada mais do que luz, a luz da transparência ao povo pagadores de pesados impostos ao qual os políticos e gestores públicos devem explicações. Não precisamos de luz (lâmpadas, neste caso e outros apetrechos) superfaturada. Um superfaturamento que veio com financiamento aprovado pela Câmara, a que não fiscaliza. Muito menos, não precisamos de qualquer vingança partidária, política ou ideológica, mas precisamos de prestações de contínua de contas do dinheiro de todos nós usado pelos políticos e gestores públicos, supostamente em seus discursos demagógicos, em favor da cidade, cidadãos e cidadãs.

LUMEN SUPERFATURADA

Estão no foco desta luz com lumen de alta intensidade, e tenta sair dela pelo silêncio, o governo (2017/24) de Kleber Edson Wan Dall, MDB (ex-presidente da Fecam, da Ammvi e que criou a Amve – Associação de Municípios do Vale Europeu), bem como seus vices e até secretário Obras e Serviços Urbanos, depois chefe de gabinete, o funcionário efetivo como agente de trânsito na Ditran, Luiz Carlos Spengler Filho, bem como Marcelo de Souza Brick (derrotado quando tentava ser prefeito no ano passado), ambos do PP.

O resto são operadores, bagrinhos, espertos, úteis e usados.

Entende-se, desde há muitos anos, a razão pela qual, essa gente organizada, depois de usufruir nas urnas – como aconteceu na eleição do atual governo – a ira contra a minha continuada postura crítica e independente. No poder, essa gente maquiada de santa, sempre bateu em mim, perseguiu e me processa para, ao mesmo tempo, vingar-se, me ver calado, constrangido, intimidado, humilhado, diminuído e punido pela Justiça. Nem mais, nem menos.

Entende-se porque sempre se dizem defensores da transparência, mas, de verdade, não a querem além do discurso fácil. Juram por aí que ninguém me lê. Entretanto, sobrevivo, sob fortes intempéries, a vários governos. Eles vão, contam vitórias enquanto eu continuo aqui como um elo de credibilidade da cidade, dos cidadãos e cidadãs. Estou de alma lavada mais uma vez.

Retomando.

Neste comentário, que mudei de ontem para hoje, não vou focar nas dúvidas que são exorbitantes e só são desse tamanho, penso, porque o sistema paralelo e à margem da lei foi testando por muito tempo com coisas menores e se mostrou que a vulnerabilidade do oficial compensava o risco. Então, o paralelo, protegido e longe de qualquer mecanismo de fiscalização da sociedade e das instituições caras nas suas estruturas que pagamos para isso, se tornou a tábua de operação do sistema paralelo que engoliu o oficial e o dinheiro do povo que passou por ele e foi para a mão e negócios de poucos. 

O RASTRO DO DINHEIRO

Vou focar no resultado. 

A Operação Lumen não tem este objetivo. Uma pena! Mas, ela devia seguir o dinheiro dessa gente envolvida, que não foi pouco, se considerarmos uma única licitação que simplesmente dobrou milionariamente de preços; de R$5,6 milhões passou para mais de R$10 milhões.

Essa gente, desde da arquitetura até a execução, com a benção política, ganhou dinheiro sujo e não o jogou fora, presume-se. Lavou-o. Por anos afio, transformou em coisas lícitas como aplicações (as tais fintechs descobertas há dias na função de lavanderias, mesas de aplicações…), imóveis aqui e fora de Santa Catarina, veículos, viagens, sociedade em empreendimentos para si e os seus etc e tal, e por laranjas.

Então. Não será surpresa se seguir o rastro do dinheiro se chegará a gente que ainda está no governo atual. 

Basta lembrar que parte do MDB está nele e principalmente o PP, mantém o comando do governo do PL e União Brasil, devido a dois erros básicos cometidos. Um na campanha, ao excluir de forma maquiavélica do ex-prefeito Adilson Luiz Schmitt, então no PL – por ser um crítico do sistema – da corrida a vereador e que poderia dar a maioria folgada ao atual governo na Câmara, e a outra, a de eleger o campeão de votos Alexsandro Burnier, PL, como presidente da Câmara. Resultado de tudo isso, o atual governo, já no primeiro ano, ficou em minoria de dois ao invés de um voto para matérias cruciais.

Ontem, surpreendido e pressionado pelas dúvidas, Paulo Norberto Koerich, PL, saiu com uma nota de viva voz nas redes sociais. 

TRANSPARÊNCIA OPACA

Paulo disse que reforçava o compromisso dele com a prestação de contas, transparência e responsabilidade com o dinheiro público. Lamento. A prestação de contas não sistemática e à falta  transparência são tão iguais ao do governo passado que está sob uma operação chamada Lumen. A área de comunicação, preocupada com arapongagem e envolvida em fofocas internas, do atual governo, é desastrosa na estratégia à atualidade.

Não vou longe. 

As partes sensíveis, por jogo e até vingança, quando questionadas ao governo por caminhos oficiais, são levadas com a barriga na resposta, mesmo a que que enrola. É só ver como se atrasam os requerimentos de explicação na Ouvidoria (e invoco os que o ex-prefeito Adilson pediu), bem como os dos vereadores. Ainda semana passada, houve quem anunciasse estar prestes a pedir as respostas por mandado de segurança. 

E não precisamos ir mais adiante sobre o tema transparência: basta olhar o site da prefeitura e os meus múltiplos comentários dos últimos dias sobre este assunto, bem como, o baile de incoerências sobre a compra, não compra, pagamento de fornecedores, empréstimos e a ida da gestão do Hospital de Gaspar para o Hospital Santo Antônio, de Blumenau. Afinal, de que transparência Paulo está falando?

E para finalizar, neste assunto sobre à falta de transparência do governo anterior, que teima em se perpetuar no atual, está, na verdade e claramente, em quem atua por detrás de tudo isso. As pessoas centrais no governo e principalmente nos bastidores são as mesmas. 

O chefe de gabinete, e vestido de prefeito de fato (há outros nos bastidores que até indicam parentes para cargos chaves na prefeitura), Pedro Inácio Bornhausen, PP, foi por muito tempo também, chefe de gabinete de Kleber Edson Wan Dall, MDB. Temas, como a enrolação da obrigatória revisão do Plano Diretor, como determina o Estatuto das Cidades, percorrem os mesmos caminhos das gambiarras do passado. Desta vez, levaram-na para longe daqui, em Timbó. Querem que o CIMVI – Consórcio Intermunicipal do Vale do Itajaí – opere o milagre, enquanto isso, os fiscais da secretaria de Planejamento Territorial e da Superintendência de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, vão colecionando fotos dos interessados com o prefeito e seus assessores.

Para encurtar e encerrar. Um gabinete de prefeito não é sala de delegacia. Paulo está obrigado a trocar de mobiliário e até mesmo de companhias. Se não fizer, ficará exposto aos lumens. Fiat Lux.  Muda, Gaspar!

TRAPICHE

A transparência para os tolos que acreditam nela. Um dos orgulhos da Administração de Kleber Edson Wan Dall, MDB, era a tal licitação eletrônica, com qualquer um, podendo participar dela em tempo real. Pois é. A contratação das lâmpadas de LED e outros materiais se deu, estranhamente, de forma presencial. E foi transmitida.

Estes materiais que se justificam para as novas área de lazer que o governo anterior fez, que se reclama por toda a cidade, veio de financiamento aprovado na Câmara. Quando se ensaiava o pedido de mais explicações, o governo acionava seu esquema de comunicação, para apontar os vereadores que estavam atrás de explicações. O governo argumentava que eles estavam atrapalhando os cidadãos e cidadã, os quais, supostamente, ficariam no escuro. E ficaram, pelo jeito. Pois a Câmara falhou no seu papel fiscalizar o que foi contratado.

Um contador, leitor do blog, ou seja, um daqueles que os políticos e gestores públicos no poder de plantão de Gaspar juram que eu não tenho – mas que me ajuda a entender muitas coisas – , que pede para não se identificar com medo de perseguições não só dos envolvidos, mas do atual governo – veio até este espaço para explicar à arte manjada de se “criar” uma empresa especializada em participar de licitações fraudulentas. A curitibana Primelux foi fundada em 22.06.2020. Possui 41 CNAEs (Classificação Nacional de Atividades Econômicas). 

A principal CNAEs é “Comércio atacadista de Material Elétrico (46.73-7-00). A última é “Outras atividades de serviços prestados principalmente as empresas não especificadas anteriormente” [os outros 40 CNAEs], ou seja, pode de tudo e está apto a qualquer licitação. Mas, entre as CNAEs especificadas pela fornecedora de lâmpadas, em licitação supostamente dirigidas, está a “construção de edifícios”. Uau!

A licitação por registo de preço, pregão presencial 92/2022 em Gaspar, no processo administrativo 168/2022, aconteceu as 9h30min do dia 29.08.2022. Ele pode ser acessado no site da prefeitura. O secretário de Obras e Serviços Urbanos era o ex-vice-prefeito de Kleber Edson Wan Dall, MDB, no primeiro mandato e então presidente do PP, Luiz Carlos Spengler Filho.

Como a denúncia chegou ao Tribunal de Contas? Um concorrente, que entende do riscado Lumen, se achou prejudicado. E a diferença era tão gritante que não havia escapatório. Falharam sucessivamente o sistema de compras, a controladoria da prefeitura, as secretarias envolvidas – Fazenda e Gestão Administrativa, Secretaria de Obras e Serviços Urbanos – e a câmara. O interessante é que o Ministério Público local nem foi acionado, aliás ele está sendo demandado em outros casos, por Florianópolis. O presidente da empresa vencedora se chama Alexandre Gonçalves dos Santos. E um sócio dele, quando a polícia dele bateu a porta dele ontem no Paraná, nem sabia que tinha CNPJ no seu nome. Credo.

Ontem, houve troca de farpas e aproximação públicas entre o Paulo Norberto Koerich, PL, e o excomungado politicamente pela turma dele, via pressão do ex-todo poderoso MDB de onde é o ex-prefeito Adilson Luiz Schmitt, sem partido, originário e que se desfiliou por conta dessa pressão aceita por Paulo, do PL de Gaspar. Os tempos incertos fazem coisas. Paulo, surpreendido, não quer mais surpresas.

Outro desfiliado do PL, o ex-procurador geral ao tempo de Adilson Luiz Schmitt (2005/2009), Aurélio Marcos de Souza, graduado em Gestão Pública, lembrou que ele sofreu pressões por conta da “língua sem controles” de Adilson. Mas, nunca fui procurado no mandato do Adilson ou de por coisas de outro prefeito anterior na prefeitura, por dúvidas no manejo do dinheiro público. Só para lembrar: Bernardo Leonardo Spengler, MDB (1997/99), foi o único que não terminou o mandato. Muda, Gaspar!

Este assunto da Polícia vir a Gaspar na quinta e virar manchete estadual – antes da imprensa local – para pegar provas contra a administração de Kleber Edson Wan Dall, MDB, Luiz Carlos Spengler Filho e Marcelo de Souza Brick, ambos do PP, ampliou uma cortina de fumaça sobre o mal explicado, e bota mal explicado, compra e venda do Hospital de Gaspar. Tem gente agradecendo. A espada saiu da cabeça de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos PL. E enfraqueceu a oposição que ensaiava pedir esclarecimentos. Ou seja, mais uma vez a cidade, os cidadãos e cidadãs estão perdendo na transparência e soluções de seus graves problemas.

E para pensar neste final de semana. O que é feito do transformador da Arena Multiuso? Da comida servida lá em tempos de Expofeira? E das estacas para sustentar prédios públicos que não se sabe se todas foram enfiadas conforme o projeto pediu e alijou concorrentes? Coisas da rotina do Brasil!

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7 comentários em “LUMEM OU FIAT LUX? GASPAR CONHECEU ONTEM UM CURTO CIRCUITO. ERA ESPERADO. ELE PODE DESENCADEAR OUTROS VINDOS DO GOVERNO DE KLEBER, LÚ E MARCELO. TUDO ISSO PODE DEIXAR AINDA MAIS SEM BRILHO O ATUAL GOVERNO”

  1. Pingback: "CARA FEIA É FOME". A "OPERAÇÃO LUMEN" EXPÕE O ERRO TÁTICO DO GOVERNO PAULO E RODRIGO. ELA ABRE ESPAÇO ÀS DÚVIDAS E ATÉ À SENSAÇÃO DE PROTEÇÃO DOS TEMPOS DE KLEBER, LÚ E MARCELO - Olhando a Maré

  2. Este texto é cuidadoso, cheio de pegadinhas e finamente irônico, que pode beirar a incompreensão do leitor e leitora menos familiarizados com o direito, o devido processo legal e a mínima alfabetização. Mas, é e não poderia ser por causa dessas particularidades, por quem assina, um excelente texto.

    O que não está bem claro é a razão pela qual o ministro Luiz Fux divergiu no seu voto para a elite do suposto golpe, mas, assinou que centenas de bagrinhos do mesmo suposto golpe mereceram o açoite na quantidade de mofo nas prisões e naquilo que desqualificou como premissas para a elite dom mesmo suposto golpe.

    Luiz Fux está obrigado a revisar tudo o que fez contra os bagrinhos. Coerência jurídica.

    O ministro Cristiano Zanin está obrigado a se vestir de advogado de Luiz Inácio Lula da Silva, seu cliente, e anular o processo do suposto golpe, exatamente por falhas clamorosas no devido processo legal, os mesmos, ou parecidos e tiraram seu cliente da cadeia para ser presidente e ter tinta para nomeá-lo ministro do Supremo. É o direito contaminado pelo clima político de um momento. Nada mais.

    O DIREITO DO CLIMA POLÍTICO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo

    As preliminares importam – não sejam maldosos – e as questões de Luiz Fux merecem atenção máxima. Merecem reflexão séria, ainda que depois o juiz tenha, no mérito, votado para condenar, por tentativa de abolição do estado democrático de direito, o candidato a vice e o ajudante de ordens do presidente – e não o cabeça da chapa e chefe.

    Voto legítimo, de início tratado como “prova cabal” de que não estaríamos numa ditadura. Isso até que a divergência avançasse para algo além do dissenso permitido, quando a religião do ministro passou a servir de razão para xingá-lo. Não há notícia ainda de que, à luz da língua xandônica, esse discurso de ódio tenha configurado ataque ao STF e à própria democracia, e ensejado, conforme a censura do bem, a derrubada de postagens ou o bloqueio de contas.

    O cronista se desculpa pela digressão excessiva, provocada pela especulação sobre os perigos dos precedentes – o gênio que não voltará à lâmpada.

    Se não houve organização criminosa, assim sustentou Fux, não poderia haver liderança – donde teríamos, com todos longamente enfurnados no Alvorada, o caso do sujeito, dono do palácio, que não viu a traição passar, também impressa, diante de si. Por excesso de exposição aos fatos, a impossibilidade de os dominar. É uma hipótese.

    Fux é Fux. Defendeu, contra o Xandão fonte do direito, a legalidade estrita. Os fatos devem se encaixar à lei penal como luva à mão. Rigor que não aplicaria ao validar a “tibieza” da delação eterna de Mauro Cid. “O colaborador esteve sempre acompanhado de advogado.”

    Fux é Fux é Fux é Fux. Não obstante, as preliminares que propôs merecem preocupação, se temos memória sobre o texto enfim vencedor no julgamento da Lava Jato. A “tese Zanin”, investida em denunciar o vício de competência do juízo, produziria a nulidade – a inexistência – da corrupção no Brasil.

    “Tese Zanin” – de Cristiano Zanin, então advogado de Lula e ora um dos quatro votos pela condenação de geral, mestre em lawfare que, ante as alegações de cerceamento ao direito de defesa pelo chamado data dumping, sugeriu que os réus se virassem para contratar profissionais de informática capazes de auxiliálos no exame dos terabytes.

    Zanin é Zanin; o que não impediu – nem deveria – que sua tese baixasse precedente e produzisse efeitos que ainda se desdobram. Fux advertiu. O Supremo mudou a regra sobre sua competência depois do cometimento dos crimes pelos golpistas e – dirá o maledicente – em função do objetivo de julgá-los.

    Seria a tal brecha, identificada pelos analistas, no voto divergente. O risco – projetado no futuro, sob a memória ainda quente. O gancho para que, da mesma forma que reabilitados ontem os corruptos, reabilitados amanhã sejam os golpistas. A história ensina. Porque o mar vira. Porque um dia os ventos políticos mudarão, mudado também – e admitimos isso com espantosa naturalidade – o clima político na Corte Constitucional. E pronto.

  3. Impressionante, como extrema direita é na imprensa tradicional brasileira, sinal de conservador e até liberal. Rótulo, difamatório, que raramente é empregado para a esquerda. E isso passa por filtros internos nas redações, sujeitas a manual de redação. Que estão, pelo visto, contaminados. E esta contaminação desacredita o próprio veículo de comunicação, num país, claramente de maioria conservadora ou liberal, como demonstram pesquisas e os próprios votos das urnas. Quem afinal é extremista? O que mata, assassina, ou quem prega o diálogo mesmo diante de clara divergência?

    TRAGÉDIA À DIREITA E À ESQUERDA, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    Um dos princípios fundamentais das democracias modernas é a liberdade de expressão. Por meio do debate público, busca-se a convivência civilizada de opiniões divergentes e conciliações em prol da solução de problemas.

    Nesse sentido, a escalada da violência política no berço mundial da democracia é aterradora. Desde 2017, figuras dos partidos Democrata e Republicano —como o presidente dos EUA, Donald Trump— foram alvos de agressões ou atentados, sem contar a invasão ao Capitólio em 2021, incitada pelo próprio Trump.

    Na quarta (10), o influenciador de extrema direita Charlie Kirk foi assassinado com um tiro no pescoço durante um debate na na universidade de Utah. O crime calou uma voz do debate público, acirrando ainda mais a polarização ideológica que divide o país.

    Kirk, um conservador de 31 anos, defendia causas caras ao trumpismo, como o acesso a armas, a extinção do direito ao aborto e a crítica ao que a direita chama de “ideologia de gênero”. Muitos de seus opositores apontavam que seus discursos eram racistas, machistas, homofóbicos e autoritários

    Em 2012, foi cofundador da Turning Point USA, uma organização sem fins lucrativos que busca divulgar o pensamento conservador no ensino superior. Como método, Kirk valia-se da retórica e da exposição franca de suas ideias em discussões abertas travadas em universidades —situação na qual acabou morto.

    Mesmo que haja discordâncias em relação a suas opiniões, muitas delas de fato radicais e reacionárias, a Primeira Emenda da Constituição garantia tanto a sua liberdade para expressá-las como a de seus oponentes para criticá-las. Nada justifica o ato brutal que lhe ceifou a vida.

    Na quinta (11), Tyler Robinson, suspeito de cometer o crime, foi preso. Segundo autoridades, foram encontradas munições com inscrições relacionadas ao movimento anti-fascista. A investigação ainda está em andamento.

    As consequências do assassinato de Kirk são temerárias num cenário político radicalizado à direita e à esquerda e com um presidente que estimula extremismos e despreza instituições.

    Na quinta (11), Trump disse que há “um grupo de lunáticos da esquerda radical soltos por aí” e que iria “resolver esse problema”. Moto contínuo, seus apoiadores falam em “vingança” e “guerra civil”.

    Este deveria ser um momento de ponderação sobre os riscos à democracia americana causados pela intransigência e a violência política, mas o presidente prefere inflamar ainda mais os ânimos.

  4. MAIS ENSINO MÉDIO INTEGRAL, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    Levantamento da ONG Todos pela Educação, divulgado na segunda (8), mostra que o número de matrículas no ensino médio integral das redes estaduais subiu 242%, entre 2016 a 2024, de 393 mil para 1,3 milhão —alcançando 21,7% dos alunos que cursavam essa etapa do ensino no ano passado.

    A quantidade de escolas de ensino médio que ofertam o modelo também aumentou, de 1.673 para 7.153, o que representava 35,3% das unidades em 2024.

    O Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014 estipulou que, até 2024, o ensino de tempo integral deveria estar presente em no mínimo 50% das escolas públicas do país, de forma a atender pelo menos 25% dos estudantes da educação básica —não há meta específica para o ensino médio.

    Mesmo que as taxas indicadas pelo levantamento na última etapa da educação básica estejam abaixo dos objetivos listados no PNE, trata-se de evolução muito bem-vinda, dados os benefícios do ensino integral para a aprendizagem verificados em pesquisas e experiências internacionais.

    O modelo amplia a carga horária de 20 horas semanais (4 por dia) para uma superior a 35 horas semanais (7 diárias), com adaptação do currículo a interesses e aptidões dos alunos, o que contribui para a redução da evasão escolar, alta no ensino médio.

    Segundo estudo de 2024, que monitorou a trajetória de mais de 1 milhão de estudantes do ensino médio em ambas as modalidades, entre 2017 a 2022 (excluindo os anos da pandemia), os jovens do modelo integral alcançaram maior participação no Enem, melhores notas, mais matrículas no ensino superior e até mais vagas de trabalho.

    Na pesquisa da Todos pela Educação, só 9 estados estão acima da média nacional em matrículas (21,7%) e 6 deles estão no Nordeste. Pernambuco lidera (71%), seguido por Piauí (58%) e Ceará (53%). Estados mais ricos como Minas Gerais (15%) e Rio (14%) estão abaixo da média —que é superada por dois pontos percentuais em São Paulo (24%).

    Em relação à taxa de escolas que ofertam o modelo, dá-se o mesmo, com os cinco primeiro lugares ocupados por Ceará (74%), Piauí (71%), Pernambuco (69%), Paraíba (63%) e Bahia (54%). Já São Paulo tem 45%, e Acre, Roraima, Distrito Federal e Santa Catarina dividem a última posição com apenas 7%.

    Governos estaduais precisam perseverar na ampliação do ensino integral, que, como mostram os números, depende mais de uma gestão eficiente do dinheiro público do que da quantidade de recursos disponíveis.

  5. VIOLÊNCIA CONTRA ATIVISTA POLÍTICO É INADIMISSÍVEL, editorial do jornal O Globo

    O tiro covarde que matou na quarta-feira o americano Charlie Kirk, ativista de 31 anos que fundou a organização conservadora voltada ao público jovem Turning Point USA, é o episódio mais recente de uma onda de violência política que tem crescido na esteira da polarização ideológica. Kirk viajava os Estados Unidos visitando universidades para promover debates abertos com estudantes do campo oposto. Partidário de Donald Trump desde a primeira hora, era conhecido como provocador e não economizava palavras para atacar seus adversários. Mas, por mais que suas ideias pudessem ser criticáveis, toda a sua ação política se limitava às palavras e ao debate. Era o que fazia na Utah Valley University quando foi alvejado. Seu assassinato deve servir de alerta — e não apenas aos Estados Unidos.

    Desde 2021, a parcela de universitários americanos que afirmam apoiar a violência em certas circunstâncias para impedir adversários de falar subiu de já inaceitáveis 24% para 34%, de acordo com pesquisa da organização Fire, defensora da liberdade de expressão na academia. No livro “Partidarismo radical americano”, referência no estudo da violência política no país, os pesquisadores Nathan Kalmoe e Lilliana Mason constatam “radicalismo crescente na política americana”.

    O histórico recente demonstra os riscos da intolerância. Nos últimos anos, os Estados Unidos têm testemunhado atentados em série, tanto contra alvos conservadores quanto progressistas. Em janeiro de 2021, a turba trumpista invadiu o Capitólio tentando reverter o resultado da eleição de Joe Biden. No ano seguinte, a casa da deputada democrata Nancy Pelosi na Califórnia foi invadida e seu marido ferido. Desde o ano passado, Trump escapou de um tiro e de outra tentativa de ataque, um homem ateou fogo na casa do governador democrata da Pensilvânia, e uma deputada estadual democrata de Minnesota e seu marido foram mortos.

    O Brasil não escapa da violência associada à polarização. No fatídico 8 de janeiro de 2023, bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília, também tentando reverter a derrota de Jair Bolsonaro. Na campanha eleitoral de 2018, o próprio Bolsonaro foi vítima de atentado. Também por aqui, as universidades têm sido palco de conflitos e tentativas de silenciar vozes discordantes, à direita e à esquerda. Na última terça-feira, o advogado de um ex-assessor de Bolsonaro e um vereador do Novo foram expulsos por alunos da UFPR, onde participariam de debate sobre o Supremo Tribunal Federal. Na semana passada, um grupo de extremistas que se identificavam como conservadores causou tumulto no campus da USP e agrediu estudantes de esquerda. Para um em cada dez brasileiros, revela pesquisa inédita da ONG More in Common conduzida pela Quaest, a violência é considerada “totalmente justificável” em certas situações.

    O assassinato de Kirk mostra até que ponto podem chegar os intolerantes incapazes de conviver em ambiente democrático. No caso específico do Brasil, o risco deve ser tratado com a mais alta seriedade. Especialmente no atual momento histórico, lideranças políticas devem tomar cuidado para não incentivar atos violentos. Censurar qualquer um pelas ideias que defende já é inaceitável. Assassiná-lo é um atentado contra as bases da civilização humana. Nenhuma ideologia justifica qualquer agressão.

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