Bom dia. A “Operação Lumen “, que o Tribunal de Contas do Estado instruiu a Polícia especializada em corrupção de Santa Catarina a agir contra a compra milionária e superfaturada – e bota superfaturada nisso – de lâmpadas de LED, para iluminar ruas, mas, principalmente, para “iluminar” áreas de lazer em Gaspar ao tempo do governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB, quando já era par do seu vice Marcelo de Souza Brick, PP, transação assinada pelo ex-vice prefeito, funcionário efetivo na Ditran, Luiz Carlos Spengler Filho, PP, como secretário de Obras e Serviços Urbanos, mostrou o quanto está perdido, irritado e sem discurso Paulo Norberto Koerich e como tudo isso adverte e respinga no vice Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL.
Não vou repetir o que já escrevi sexta-feira em LUMEM OU FIAT LUX? GASPAR CONHECEU ONTEM UM CURTO CIRCUITO. ERA ESPERADO. ELE PODE DESENCADEAR OUTROS VINDOS DO GOVERNO DE KLEBER, LÚ E MARCELO. TUDO ISSO PODE DEIXAR AINDA MAIS SEM BRILHO O ATUAL GOVERNO.
Vou clarear o que teima em se esconder, não exatamente para proteger os envolvidos, e sim para a oportunidade perdida por quase nove meses pelo atual governo de Paulo e Rodrigo e o que, por isso, deixa-o muito perto do problema e que a princípio, não teria nada a ver com ele. Então é preciso colocar lupa e conferir.
O primeiro sinal disso, foi como o policial, investigador, delegado, secretário de segurança de Santa Catarina, ou seja, com larga experiência nessa área, Paulo como prefeito teve pateticamente que vir, emergencialmente, depois de surpreendido pela operação, da forte repercussão estadual e às dúvidas que à própria população, parte dela, sua eleitora, lançou-se nas redes sociais, mas principalmente no escurinho dos aplicativos de mensagens. Paulo se viu obrigado a dizer que o governo dele não tem nada a ver o que acontecia, anunciava-se sem censura e se descobria. Credo.
Mas, esta desconexão entre os dois governo [Kleber e Paulo] não estava na cara? Trôpega área de comunicação. Paulo, de forma leve, solto, com ares de autoridade e satisfação, deveria ter dito naquele vídeo mal feito, com todas as letras que, como prometeu na campanha, sem perseguição, com a colaboração da polícia, ministério público, tribunal de contas e outros órgãos, estava virando a chave e abrindo um cofres cheios de segredos e que viria mais. Perdeu a chance. mais, uma vez.
Quem mesmo orienta Paulo neste assunto? E com cara amarga, uma marca de Paulo no contato público e interno, sem dizer exatamente como contribuiu para este esclarecimento que fazia o Tribunal de Contas e a Polícia em nossa cidade, muito menos sinalizou de como está comprometido com outros similares que rondam o imaginário da cidade e que alimentou o seu discurso panfletário de campanha. Ou seja, ele não pode alegar desconhecimento.
O que significou este cenário acontecido aqui na semana passada? Que Paulo – até aqui – falhou no próprio discurso palanqueiro de campanha em estimular e buscar os malfeitores e dar transparência disso aos gasparense, trazendo-os para si.
A vitória dele – e de Rodrigo – com 52,98% (contra a continuidade da administração de Kleber com Marcelo e um ex-prefeito de três mandatos) tinha muito desse ingrediente: a “limpeza” e a transparência.
UMA CPI CORTINA DE FUMAÇA
Quando a “casa” de Paulo e Rodrigo começou a cair?
Na composição da mesa diretora da Câmara e que deu a Alexsandro Burnier, PL, a presidência dela. Esta manobra, mal calculada, deixou o atual governo mais fragilizado. Deixou-o dependente de votos de partidos (MDB, PP e PSD) que se não tiveram culpa direta pelo resultados, mas, politicamente, trabalharam para proteger, pela tal “Bancada do Amém”, um governo sob notória dúvidas e liderado por oito anos por Kleber, que aos poucos vai sendo desnudado pelas instituições de fiscalização e inquirição.
E para complicar, inventaram uma CPI
Logo ela foi entendida – mesmo que isso não tenha sido a intenção -como uma cortina de fumaça e até, uma proteção velada ao que deveria ser exposto sem dó e piedade para não apenas cumprir a promessa de campanha vencedora de Paulo e Rodrigo e da ansiedade dos seus eleitores e eleitoras, fartamente demonstrada em votos nas urnas.
A CPI do capim seco – a que apura a exorbitante cobrança de áreas não roçadas. É que tudo isso já estava apurado, documentado e provado no inquérito policial especializado vindo de Blumenau.
Esta CPI presidida pelo vereador Ciro André Quintino, MDB, e relatado por Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, também policial, está, simplesmente, num copia e cola, repetindo o serviço já feito. Está perdendo tempo. Ele deveria ser ocupado com algo novo que deveria estar sendo apurado, tomando tempo e dinheiro na Câmara de Gaspar.
E o problema de comunicação não é só na prefeitura de Gaspar. É na Câmara. A cidade não sabe exatamente o que se faz na CPI do capim seco se faz. E por quê? Porque nada de novo se apurou. Mais, muito menos conseguiu pinçar fatos novos, contradições e ações dos envolvidos. É preciso ser parede da Câmara ou estar nos corredores dela. Cruzes.

Caminhando para o encerramento.
A “Operação Lumen” do TCE SC e Polícia Civil, mostrou que a cidade está cheia de problemas e dúvidas do governo Kleber, Luiz Carlos e Marcelo.
Que tal olhar as dezenas de parques públicos inventados, muitos deles já destruídos pela fragilidade ou sem manutenção para onde foram a iluminação superfaturada? Que tal olhar todos os tipos de construções e obras – quase sempre com os mesmos ganhadores? Que tal olhar a compra milionárias de floreiras – que agora vão virar simples vasos nas escolas municipais? Que tal olhar os tais “bueiros inteligentes” que mofam em almoxarifados municipais improvisados? Que tal olhar compras de materiais como areia que não se sabe onde foi parar, bem como um pente fino na contratação de horas de máquinas e de caminhões? Que tal desnudar como se usou o dinheiro do Fundo da Infância e Adolescência para “fabricar” a fábrica de informática no ginásio vereador Gilberto Francisco Sabel? E aquela lombada da passagem do Pasto do Jacaré onde se enterrou quase R$12 milhões e prestes a expirar o prazo de garantia de cinco anos de responsabilidade da empreiteira? Num vídeo recente, o vereador Alexsandro – bem diferente da campanha eleitoral – admitiu ser um caso perdido. A “arrumação” dela, pelo jeito, vai parar na conta da prefeitura sustentada pelos pesados impostos dos gasparenses.
Como se viu pela lista acima, que é longa, mas não é apenas uma parte, o governo de Paulo e Rodrigo falha naquilo que prometeu esclarecer a cidade. E diz não entender à razão das cobranças. E ainda faz cara feia a quem cobra, critica e expõe fragilidade e incoerências. Incrível.
Em tempos de comunicação em tempo real, de aplicativos frenéticos, não adiante o prefeito Paulo vir de cara fechada, dar explicações que não se explicam nada, mas o complicam.
Faltou ação. Faltou cumprir o discurso. Faltou dizer que vai tomar á rédea deste assunto para seus cidadãos e cidadãs. É piada, a reafirmação dele que fará um governo transparente. É obrigação como agente político. O caso do Hospital, que compra e vende, não se sabe como e com quem, é um exemplo que leva o governante para o descrédito. E não adianta culpar bagrinhos na prefeitura. Falha o seu entorno interno. Falha a comunicação que faz só o que ele quer, sem ou com a orientação de seus bruxos. Falha o seu entorno externo, que é o mesmo que vivia no gabinete do antigo governo pedindo favores. Muda, Gaspar!
TRAPICHE

Depois da “Operação Lumen”, que saiu por cima da carne seca, foi o ex-prefeito Adilson Luiz Schmitt (2005/08), foto ao lado numa entrevista sobre este assunto, eleito no MDB, excomungado por causa da sua língua solta e, principalmente, não atender os esquemas dos donos da cidade e seu partido. Ele tentou voltar ao cenário político no ano passado pelo PL, o esquema o detonou. E saiu do partido quando já tinha lançado oficialmente a candidatura a vereador.
Quem lavou a alma também neste episódio, foi o ex-procurador geral do município ao tempo de Adilson Luiz Schmitt, Aurélio Marcos de Souza, sem partido, mas que também desfiliou do PL recentemente por sentir cheiro de enxofre e traição. “Nunca tive problemas deste tipo [Operação Lumen] quando no governo e depois dele até agora, decorrente do governo em que servi“.
Nas redes sociais, uma troca frenética sobre Adilson Luiz Schmitt, um médico veterinário, e o tempo dele na prefeitura. “O único que mexeu no vespeiro foi você amigão, e saísse como louco da história. No mais, a politicagem da cidade jamais vai mudar. A cidade com as mesmas caras a vida toda. Aqui nada vai mudar por décadas, enquanto os ‘tradicionais’ movimentos se resumem a estes modelos de gestão”, escreve um observador na postagem de Adilson.
Este é o retrato de como pensa a média do eleitor e eleitora de Gaspar que apostou numa mudança com Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL. Este é o tamanho da compreensão e decepção que os atuais mandatários, os que mandam neles dentro e fora da prefeitura não conseguem enxergar o mal que estão fazendo contra os próprios interesses deles cada vez mais olhados com lupa diante da mudança que não chegou. E nem há sinais dela. Para ser tudo uma continuidade.
A resposta sintética de Adilson Luiz Schmitt ao seu admirador nesta rede social é uma realidade como uma longa noite de pesadelo que não termina mais. “Lutei contra o sistema nervoso que comanda [a cidade] há várias décadas. Para entender, vamos retomar a eleições de 1982, quando concorreram Dariozinho Beduschi e Ursinus Schmitz pelo MDB, contra Tarcísio Deschamps e Cuca [Luiz Carlos) Spengler, pelo PPB. Saíram vencedores Tarcísio e Cuca… Desde então estes pseudo coronéis sempre circularam e tentaram tirar proveitos… “
E o ex-prefeito Adilson Luiz Schmitt, para os que viveram àquela época se contorcem para continuar ou armar novas vinganças, e os mais novos, entendem melhor como ele foi engolido, até por culpa dele próprio, quando ele repete: “Quando chegamos em 2005, começamos a combater este sistema. Resultado? Não tivemos êxito na reeleição. Agora, estamos em 2025 e as mesmas figuras carimbadas e conhecidas já começaram aparecer nos registros. Torço para que Gaspar dê seu grito dê seu grito de libertação. Pois depois de 40 anos, é inaceitável o memo roteiro”
O PP é o que manda no governo do PL e do União Brasil de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL. E o prefeito de fato deste “novo” governo é o chefe de gabinete, Pedro Inácio Bornhausen, PP, que foi em parte do primeiro mandato do governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB, também chefe de gabinete.
Há um forte círculo vindo dos governos passados, inclusive que permeou o governo do PT de Pedro Celso Zuchi e que influencia [e o defende com intervenções e contestações em postagens e entrevistas] o atual governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, PL. Vai do mundo empresarial, político e de amigos dos poderosos com mandatos. Entre os novos, mais ligados ao atual governo, está Nilton Cesar Serafim, especialista em informática, empresário do ramo de seguros e atual presidente reeleito do Bela Vista Country Club.
A então não é mais novidade? O governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB, e Marcelo de Souza Brick, PP, lá em junho de 2023 firmaram um convênio com o Hospital Santo Antônio para “aprimorar à eficiência, a qualidade e a segurança dos serviços prestados pelo Hospital de Gaspar. Afinal, o que foi feito disso? O que deu errado? Pois de lá para cá, até a nova novela de “casamento” anunciada há três semanas, nada do que se anunciou nestes dois anos aconteceu em favor da cidade, dos cidadãos, cidadãs e do Hospital de Gaspar.
Então quer dizer que, em um domingo a tarde, de tempo nublado, o caminhão pipa, contratado, ou seja, custa dinheiro extra, foi usado para limpar o trecho asfaltado da Rua José Schmitt Sobrinho, no Distrito do Belchior? Muda, Gaspar!
4 comentários em ““CARA FEIA É FOME”. A “OPERAÇÃO LUMEN” EXPÕE O ERRO TÁTICO DO GOVERNO PAULO E RODRIGO. ELA ABRE ESPAÇO ÀS DÚVIDAS E ATÉ À SENSAÇÃO DE PROTEÇÃO DOS TEMPOS DE KLEBER, LÚ E MARCELO”
TRAIÇÃO LIGHT, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
O mundo real se impõe e faz acelerar. O julgamento dos golpistas acuou o bolsonarismo puro-sangue, decretou o fim de 2025 e projetou no porvir a perspectiva de um novo esquema de poder. A rapaziada saliva ante a chance de partilhar a esplanada – de controlar a corda e a caçamba – com Jair encostado, seja preso ou indultado. A perspectiva de trair com respeito.
Estamos no pós-Bolsonaro, em função do que todos os agentes políticos e econômicos se orientam; até os Bolsonaro, ora empurrados à condição de reagentes. (Condição sine qua non para o exercício do imponderável, da qual poderá ascender uma dissidência desafiante como a encarnada por Pablo Marçal.)
O que está em desenvolvimento agora – até onde se pode controlar – é a forma da superação eleitoral a Jair Bolsonaro; o modo como a traição light se manifestará-materializará; a maneira com que o bolsonarismo de oportunidades e resultados representado por Tarcísio de Freitas bailará o isolamento carcerário do expresidente para o objetivo de isolá-lo politicamente.
A conta da campanha por anistia – mesmo pela “anistia light” – é cara e não fecha, senão sob teatro. A farsa está em cena, no ato das condolências; do tango pós-condenação – de irrestrito mesmo, no mundo real, somente o compromisso pela inelegibilidade ampla e geral do líder golpista. A turma – os sócios do governador de São Paulo no projeto de superação bolsonarista de Bolsonaro sem os Bolsonaro – domina a matemática. (A superação bolsonarista de Bolsonaro com os Bolsonaro é tocada por Eduardo.)
Essa galera – Ciro Nogueira, Marcos Pereira, Antônio Rueda, Gilberto Kassab e até Valdemar Costa Neto – calcula. A reabilitação de Bolsonaro – uma anistia que lhe reconstituísse a elegibilidade – serviria ao projeto político de pouquíssimos e viria com arestas supremas tremendas. É agenda custosa, de mobilização desgastante, em defesa de parceiro imprevisível; que, na hipótese improvável em que alcançada, daria – devolveria – poder a grupo pequeno e fechado.
À grei e a não muitos de fora da empresa familiar que o mito constituiu dentro do Estado, universo a ser mais restrito que aquele aquinhoado entre 2019 e 22, dado o grau corrente de desconfiança que alimenta a mentalidade conspirativa do bolsonarismo eduardista. Seria bom para tipos como Sóstenes Cavalcante e outros zuccos do baixo parlamento bolsonarista, que tendem à irrelevância sem que a direita se organize em função dos Bolsonaro.
As migalhas conflituosas que sobrariam aos donos dos grandes partidos não valem o investimento; e eles sabem que a maioria dos deputados e senadores bolsonaristas não tardaria a embarcar na nau da objetividade. Chama-se instinto de sobrevivência. Para os patronos de Tarcísio de Freitas, os senhores do chamado Centrão, o futuro parece muito promissor – estável e mais lucrativo – sem Jair e os Bolsonaro.
A imprensa brasileira, mesmo as que se dizem plural e terem um “Manual de Redação”, para qualificar e uniformizar a adjetivação, estão confundindo, intencionalmente, gente com pensamento conservador e liberal, como sendo de “extrema direita”, ou até, “ultra-direita”, como mancheteou o jornal Folha de S. Paulo à manifestação de ingleses em Londres neste final de semana contra a imigração e a degradação de segurança. O termo “extrema” não pode ser empregado para quem diverge e faz isto tentando o diálogo, mas quem mata, exatamente por divergir e não ter capacidade de combater no diálogo.
CHARLES KIRK VIVE, por Joel Pinheiro da Fonseca, no jornal Folha de S. Paulo
É de se imaginar que, dentre aqueles que se creem defensores da democracia, seria consenso que assassinar adversários políticos é um ato reprovável. Aparentemente, não é. E isso ficou claro com as reações ao assassinato do ativista americano de direita Charlie Kirk.
Não foram poucas as celebrações e mesmo as defesas do atirador. As posições de Kirk eram tão horríveis, e sua veiculação tão violenta contra diversos grupos, que a bala que o matou era quase uma legítima defesa das minorias oprimidas.
Em um ponto concordo: muitas das opiniões de Kirk eram detestáveis. Tampouco havia nele qualquer heroísmo em nome da liberdade, dado que seu discurso ajudou a eleger o governo Trump, que tanto faz para degradar a democracia e as liberdades individuais americanas. Dito isso, a única arma de Kirk era justamente aquela que a democracia não só permite como deixaria de ser democrática se proibisse: a palavra.
A palavra, ao contrário da bala, respeita a humanidade do interlocutor, tratando-o como um ser racional. Ela pode sim ofender, influenciar ou mesmo ferir —e a lei está aí para julgar esses casos—, mas nunca o faz sozinha. Ela requer a disposição e a participação de quem a ouve para ter seu efeito. Um pescoço perfurado, não.
Ela não retira a possibilidade da resposta, do contraponto e, portanto, da persuasão em direção contrária. A democracia resiste apenas na medida em que apostamos na possibilidade da palavra para persuadir e, assim, resolver conflitos que, caso contrário, nos levariam às balas. A violência política, além da violação do direito básico à vida, corrói também as bases do nosso sistema político.
Nenhum lado escala sua retórica sozinho. Na direita, aumenta a demonização a toda a esquerda, o que também contribui para o clima de violência. Mais preocupante ainda é o uso que o governo Trump pode dar ao caso para aumentar ainda mais o uso político de sua polícia imigratória, que já ganha ares de força paramilitar. Essa perspectiva, por sua vez, fortalece as vozes de esquerda que justificam a violência contra a direita que as ameaça, num ciclo vicioso.
O culto à violência justiceira por parte de nossa esquerda não é apenas um desvio ético. É também um profundo erro estratégico. Kirk incomodava não apenas por suas crenças. Incomodava porque era um comunicador eficaz, seja em propagar essas crenças ou em mobilizar aqueles que já eram conservadores. Graças ao trabalho dele, milhões de jovens se moveram para a direita, nas universidades e nas redes sociais. E qual o efeito de sua morte? Potencializar ainda mais essa mensagem, agora que Charlie Kirk vive como símbolo e mártir, e suas ideias podem se revestir do manto de perseguidas.
Falta aos progressistas um discurso que faça frente ao avanço conservador. É essa falta que alimenta a tentação da violência. Mas suponha que a sociedade tome o caminho da violência. Agora, em vez de discursos, pegaremos todos em armas para resolver de uma vez por todas a eterna discussão que é a democracia. De que lado ficariam as polícias? O Exército? As igrejas? A maioria da população? Os devaneios revolucionários da esquerda só duram enquanto durar a liberdade que Charlie Kirk sabia usar tão bem e que parte dela gostaria de suprimir na bala.
ENTRE A POLÍTICA E A ECONOMIA, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo
O dólar caiu, e o real se valorizou na última sexta-feira, primeiro dia útil depois da condenação de Bolsonaro. Foi um movimento expressivo. O dólar fechou a R$ 5,35, nível mais baixo desde junho de 2024. Na semana do julgamento, a moeda americana acumulou queda de 1,10%, algo que não se via faz tempo.
Se a cotação do dólar é um indicador do nível de estresse no mercado, então parece que vai tudo bem por aqui. E não apenas no mercado financeiro. Todos costumam olhar a taxa de câmbio por um viés bem definido: dólar caro assusta — e como! —, dólar barato alivia. Isso mesmo que não haja viagem marcada para o exterior.
Sabemos que, em política econômica, a coisa não é bem assim. A liderança da indústria brasileira também está sempre de olho no dólar, mas com viés invertido. Para ela, o ruim é justamente o dólar barato, porque facilita as importações, assim aumenta a competição com o produto nacional. As agências de turismo internacional, ao contrário, se preocupam quando o dólar fica caro.
Como dizem os próprios economistas, não é trivial entender os movimentos da atividade econômica e, especialmente, do mercado financeiro. Não se pode dizer que a queda da moeda americana na semana do julgamento foi sinal de calmaria no mercado, na sociedade e na política. Mesmo porque o dólar caiu em relação às moedas de todos os principais países emergentes. Sabem onde caiu mais? Na Rússia, metida numa guerra e alvo de sanções econômicas. O real foi a segunda moeda mais valorizada, atrás apenas do rublo.
Mas a Bolsa brasileira (B3) caiu na sexta-feira, interrompendo um movimento consistente de alta. Aqui, analistas arriscaram uma explicação, digamos, política. Haveria no mercado temor de danos à economia brasileira por conta de eventuais sanções de Trump. Nessa linha, ficamos assim: o real valorizou-se porque não vieram as sanções americanas; a Bolsa caiu porque as sanções ainda podem vir. A especulação fica ao gosto do freguês.
O que temos de mais concreto ou menos especulativo? Nesta semana, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deverá iniciar o ciclo de redução da taxa básica de juros. Diretores do Fed sinalizaram nessa direção. E isso, juros menores lá, enfraquece o dólar. Investidores internacionais saem à cata de juros mais altos nos países emergentes, valorizando as moedas locais. Faz sentido. A desvalorização do dólar é global, e isso favorece as exportações americanas. Mas, para que a tendência internacional se realize por aqui, é preciso haver um ambiente favorável ou, pelo menos, neutro.
Como estamos? A inflação está em queda e também as expectativas. O crescimento se segura na casa dos 2%. Não é bom. Embora em queda, a inflação corrente roda pouco acima dos 5%. Continua, assim, superando o teto da meta. O nível de crescimento é inferior à expansão do PIB do ano passado, de 3,4%. Há clara desaceleração. Piorou, portanto. Mas não aconteceu o desastre. Lembram-se? O dólar virou o ano a R$ 6,20, em meio a péssimas expectativas. E a B3 estava 20% abaixo do nível atual. As perdas provocadas pelo tarifaço têm sido controladas, embora empresas de alguns setores tenham sofrido prejuízos expressivos. Os exportadores buscam novos parceiros.
Em resumo, o Brasil vai levando. O problema econômico mais grave continua no cenário. O governo gasta mais do que arrecada e precisa tomar dinheiro emprestado para fechar as contas. A dívida segue em perigosa trajetória de alta. Mas há aqui certo conformismo. A sensação de que o governo Lula vai levar assim, ficando qualquer expectativa de reformas para a próxima gestão. Por isso, o medíocre de hoje parece bom. É o que temos.
Na política e na sociedade, o julgamento foi um feito histórico. Chamou a atenção do mundo todo. Para o presidente Trump, foi um mau exemplo: quer dizer que golpistas podem ser apanhados? Daí o temor de que venham novas sanções econômicas. Não estamos livres disso, nem da polarização interna, que já aparece na disputa em torno da anistia. Vai ver, a política é mais difícil que a economia.
O HEROI VINGADOR QUE SABE DEMAIS, por Demétrio Magnoli, no jornal O Globo
Atônitos desde a derrota de Kamala Harris, os democratas acreditam que acharam uma bússola. O norte, imaginam, chama-se Jeffrey Epstein. Divulgando uma página do “livro de aniversário” dos arquivos judiciais do caso Epstein, um documento de 2003, sonham lancetar o coração político de Trump.
A página contém um diálogo ficcional entre Trump e Epstein, pleno de subentendidos sexuais e emoldurado pelos contornos de um corpo feminino. A assinatura parece ser Trump, algo que ele nega. Trata-se de mais uma prova da amizade pretérita entre os dois, fato de domínio público, mas não constitui evidência de envolvimento nas aventuras criminosas do financista pedófilo. Por que, então, os democratas sentem o cheiro do sangue?
Epstein criou uma rede de tráfico sexual de menores na Flórida e em Nova York. Circulava nas rodas da elite, entre figuras como Bill Clinton, o príncipe Andrew e o próprio Trump. Morreu na prisão em 2019, aos 66, em circunstâncias misteriosas. Sem o QAnon e o Maga, seria apenas uma história policial.
QAnon, corrente de redes sociais dedicada a investigar uma suposta conspiração mundial da elite pedófila, fixou-se no caso Epstein. Para os aderentes febris, era a face visível de um mundo subterrâneo com líderes políticos e empresários que, em meio a rituais satânicos de abusos de crianças, consagram-se à dominação global. São óbvios os paralelismos com os Protocolos dos Sábios do Sião, a célebre falsificação antissemita.
O QAnon introduziu-se na esfera da política durante a campanha presidencial de 2016, quando parte de seus adeptos aderiu ao Maga, o movimento Make America Great Again, de Trump. Alguns deles, como Marjorie Taylor Greene, chegaram ao Congresso e tornaram-se destacadas lideranças trumpistas. A narrativa conspiratória ganhou, então, uma nova camada, pela identificação de Trump como agente especial convocado pelos militares para a missão secreta de exterminar a elite pedófila.
Na estrutura lógica das teorias da conspiração, há um lugar reservado ao Herói. A amizade de Trump com Epstein foi traduzida como estratagema de infiltração. Trump cartografaria a organização da elite pedófila, a fim de aplicar-lhe o golpe letal.
A morte de Epstein, seguida pelos lockdowns da pandemia, assinalou o ápice da imbricação do QAnon com o Maga. Trump não aderiu à teoria conspiratória, mas, habilmente, ofereceu estímulos aos crentes. A invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, contou com a participação de soldados rasos do QAnon persuadidos de que, finalmente, chegara o momento da redenção.
Na campanha de 2024, Trump apelou diretamente à narrativa da conspiração. Ele e seu vice, JD Vance, acusaram os democratas pelo sigilo judicial imposto aos arquivos do caso Epstein, prometendo divulgá-los por completo. Hoje, diante da violação da promessa, são os democratas que exigem a publicidade dos documentos, disseminando a suspeita de cumplicidade do presidente com os crimes do financista. A esperança é apropriar-se da lógica conspiratória, voltando-a contra Trump.
A manobra dá resultados. No Maga, alguns acusam o presidente de aliar-se ao “Estado profundo”, enquanto outros desesperam-se com sua aparente impotência ante a poderosa elite global. Acossado, Trump alega, variadamente, que os arquivos nada contêm ou que foram falsificados por um conluio entre Obama, Hillary Clinton e Biden.
Xeque-mate? Suspeito que não. Na arquitetura mental das narrativas conspiratórias, a teoria ajusta-se constantemente às circunstâncias, acomodando sucessivas frustrações. Ao final, o Herói sempre escapa ileso, pois sabe mais: conhece o que não somos capazes de conjecturar. Ele acalenta um plano sigiloso, de longo curso, que trará a redenção. Se não age agora, tem motivos tão perfeitos quanto insondáveis.
A insistência no tema de Epstein revela, paradoxalmente, a crise da oposição nos Estados Unidos. O presidente perde popularidade devido à inflação, à guerra tarifária, à truculência contra imigrantes, aos insucessos externos. Mas, sem rumo desde a falência catastrófica de seus discursos identitários, os democratas desviam o combate à arena conspiratória, que pertence a Trump. Não é por aí.