Excepcionalmente, escrevo neste domingo dia cinco de outubro. E há razões para isso. É uma reflexão, apenas. Mas, necessária.
No domingo dia seis de outubro de 2024, portanto, um ano a ser completado amanhã, segunda-feira, Paulo Norberto Koerich (à direita, acima) e Rodrigo Boeing Althoff (à esquerda, acima), ambos do PL, eram eleitos prefeitos com o discurso na mudança, da transparência e de colocar, finalmente, Gaspar, no mapa do progresso do Vale Europeu.
A cidade estava em êxtase e diante dessa perspectiva que não via há década, deu os 52,98% válidos aos que faziam um tipo de discurso. Afinal, o mote de campanha era “Gaspar em boas mãos“. Ou seja, reconhecia-se, de forma clara, de que Gaspar não estava em boas mãos; de que era preciso mudar o jeito de tratá-la e governá-la.
Hoje isso, exatamente um ano depois, parece ser uma ofensa, ou uma jogada milimetricamente mentida aos gasparenses, os que ainda procuram as tais boas mãos. Fez-se um mote marqueteiro, mais uma vez, apenas para os ouvidos dos cansados e esperançosos, e que pela quantidade de votos recebidos nas urnas, era uma inquestionável maioria desejosa de mudanças. As verdadeiras.
Naquele seis de outubro, as máquinas eleitorais e de fama de dois outros prefeitos [Pedro Celso Zuchi, PT de três mandatos e de Kleber Edson Wan Dall, MDB, de dois mandatos e que queria continuar com o seu vice Marcelo de Souza Brick, PP] foram derrotados e humilhados.
Dois outros entrantes [Oberdan Barni, Republicanos e Ednei de Souza, Novo], que também prometiam renovação e mudanças, nem conseguiram votos para se elegerem sequer vereadores se assim concorressem. Os grandes partidos como PT, PP, MDB e PSD foram, em tese, “varridos” das urnas, mas não das artimanhas do poder pelos bastidores como se pode constatar um ano depois daquele seis de outubro.
Passado um ano, então, sabe-se que o discurso do candidato vencedor [Paulo e Rodrigo] era encenação e falso. Foi uma disfarçada continuidade, com os mesmos, velhos atores daqui e alguns desempregados importados de Blumenau, numa armação aproveitando-se da onda bolsonarista e conservadora, que emprenha as hostes do MDB, PP e PSD. Nem mais, nem menos. De cara descobriu-se não se tinha equipe e estratégia de governo e poder. A transição foi desastrosa. Inventou-se uma herança maldita que aos poucos foi sendo desmentida. Não que ela não existia ou exista. É que quem ganhou nas urnas, não ocupou o espaço e perdeu os argumentos, se é que tinha algum. Aliou-se aos que condenava. Se autodestruiu, mesmo que não tenha percebido, como alega. Simples, assim. Agora, junta os cacos e culpa quem o desnuda, ou lhe cobra o que prometeu. Nem mais, nem menos.
Gaspar está parada. Não há transparência mínima e tudo com acobertamento do Ministério Público. É só olhar o site da prefeitura. Vergonha. Comunicação zero e feita de curiosos nas redes sociais. Nada é estratégico e com foco. É Gutenberg digital. Impressionante. O site da prefeitura consegue expor os números mínimos e obrigatórios por lei – com nove meses para regularizar tudo isso – da atual administração aos pagadores de pesados impostos. O que se pede de informações por canais oficiais, é arrastado e propositadamente incompleto, ou corrompido. Na Câmara, um único vereador vive a ameaçar com mandados de segurança em prazos já dilatados.
AS BOAS MÃOS
Plano Diretor, desatualizado e continua sendo emendando como no passado quando a cidade estava supostamente em mãos ruins. Saneamento, zero e sem perspectivas. Há temor claro de que possa até faltar água tratada neste verão. Meio Ambiente sendo pressionado e desmoralizado para regularizar as gambiarras criadas pelos que estavam no poder visível no passado e continuam a dar as cartas no presente. Saúde um caos. A solução dada ao falido Hospital de Gaspar não de explica e quando assim tenta, não se sustenta econômica e juridicamente.
Nenhuma obra estruturante está projetada ou sendo executada [não vale, a Vidal Flávio Dias, que é do governo anterior]. A mobilidade urbana está um caos e cada vez piora. O transporte coletivo, idem. O fomento à agricultura sem foco ou qualquer política de execução. Para uma cidade dormitório e de empregos de baixo salários, faltam moradias populares. A lista é longa e enfadonha da mesmice que se prometeu desnudar, mudar ou criar soluções. As milionárias floreiras das ruas centrais foram parar nas escolas. Os bueiros inteligentes continuam estocados. A CPI do capim seco deu fôlego aos supostos culpados naquilo que a polícia especializada já tinha bem apurado. A lombada do pasto do Jacaré continua sem solução e a conta virá para os gasparense e não para quem fez ou não fiscalizou aquilo. E assim vai. Afinal, estamos em boas mãos. A melhor obra pronta até agora, depois de dez meses de governo, “foi a manutenção de uma pinguela lingando dois grande bairros“. Sob pressão, e porque se vira, quem vai se escapando é a educação.
O senso de vingança dos governos anteriores, ampliou-se no atual. Incrível. E a pergunta que não quer calar é: você votaria hoje em Paulo e Rodrigo sabendo que ele possui um grupo de amigos bruxos que, nos bastidores, manda e desmanda no governo como poucos , como era nos governos anteriores onde em campanha, prometeu mudar tudo isto?
Você votaria em Paulo, que tratou de se divorciar do vice Rodrigo [é verdade que vice não governa, fica de prontidão] e se aliou aos de décadas do velho MDB e o PP, razão do atraso da cidade e que voltaram a mandar da prefeitura, a partir da fragilidade política que o PL de Paulo criou na Câmara com a eleição de Alexsandro Burnier, PL? Parece até proposital, pois estava na cara que com esta eleição, o governo se desfazia de proteção e de votos.
Uma pesquisa foi feita por estes dias. E antes e durante ela, se anunciou muito pelas redes sociais de que ela estava na praça. Ou seja, está contaminada. E ela vai se tornar propaganda para calar a verdade que se quer ver escondida. E mesmo assim, você acreditaria nela depois de quase dez meses de paralisia governamental? Os bruxos de Paulo, e os fanáticos bolsonaristas que o cercam acham que valem a pena correr este risco.
Estar em boas mãos não significa estarem elas livres de dúvidas, pois isto é, a princípio, inclusive moral, uma condição primária de todo gestor público. Estar em boas mãos, é ter mente aberta, é a capacidade de liderar, construir equipes e com elas produzir resultados diferenciais. Então…
Neste quesito, essencial, o da mudança e criar uma nova cara para o jeito de governar, como fez Francisco Hostins, PDC (1989/92), já falecido, nos dois primeiros anos que deixou uma equipe de profissionais e técnicos reorganizarem a cidade, Paulo e Rodrigo não avançaram. E pior. Paulo – que jovem participou daquele governo como chefe de gabinete, por indicação técnica – parece que não aprendeu nada. Está criando e colocando chifres em cabeça de cavalo ao invés de encilhá-lo e galopá-lo com as boas mãos para responder aos 52,98% votos válidos que recebeu no dia seis de outubro do ano passado. Muda, Gaspar!
TRAPICHE

Um retrato I. A Ampe de Gaspar e Ilhota comemorou os 40 anos. Quem faltou? O secretário de Desenvolvimento Econômico, Renda e Turismo, o empresário Nelson Mário Küstner, que já foi dirigente dela. Inventou-se muitas desculpas. Nenhuma delas, batia com o que se falava no evento.
Um retrato II. O grupo Cascaneia fez um evento para abrir a temporada da sua cascata. Não tenho nada contra a iniciativa. E por que? Na verdade, faltou, mais uma vez, boas mãos para uma iniciativa governamental. Há várias cascatas no circuito do Distrito do Belchior [Belchiores, Carolina e Arraial]. Afinal, esta é uma marca de Gaspar.
Um retrato III. No outro lado da cidade, no Gasparinho e Alto Gasparinho, não por iniciativa governamental, mas particular, todos se ajudam e tem outra cabeça. A Vila D’Italia se fortalece porque envolve gente com muita bala na agulha e quem é pequeno, mas que no somatório é essencial para uma marca e o negócio de todos.
Um retrato IV. Esta ausência do poder público e especialmente da secretaria de Desenvolvimento Econômico, Renda e Turismo no fomento de nichos de negócios de turismo, de pequenos empreendimentos e integrá-los ao roteiro do tal Vale Europeu, levou a se criar a Associação de Moradores do Bairro Arraial D’Ouro. Mauro Queiroz é o presidente que já está “vendendo” o potencial daquela região que se tornou um roteiro regional e nacional e ciclo turismo.
Um retrato V. A recolha de lixo em Gaspar está um lixo. A culpa é da empresa? Certamente. Mas, quem a fiscaliza tanto para o governo como para os gasparense que pagam pela coleta? O Samae. Então…
Um retrato VI. Mal se asfaltou um bom trecho do Gasparinho e já tascaram lombadas físicas, as quais, segundo o Código de Trânsito, deveriam estar precedidas de estudos. Já aqui no bairro Sete de Setembro, mais um acidente grave no confuso e perigo trevo da Parolli, sem qualquer lombada redutora de velocidade.
Um retrato VII. É elogiável a iniciativa da secretaria de Obras e Serviços Urbanos de dar semanalmente publicidade a programação de manutenção da cidade. Além da transparência, coloca-se em metas e fica sujeita a cobranças das comunidades. Simples e objetivo. Não dói. E deveria ser imitada por outras.
Um retrato VIII. Qual a razão da publicação do mapa de Gaspar neste espaço? Para orientar os estrangeiros importados pelos de “boas mãos” que trabalham na prefeitura de Gaspar quais são oficialmente os bairros de Gaspar. E os políticos daqui, que os inventam em seus discursos nominações que não existem. Muda, Gaspar!
16 comentários em “GASPAR, REALMENTE, ESTÁ EM BOAS MÃOS? DEPENDE O QUE SE ENTENDE POR ISSO? DE BOAS INTENÇÕES, COMO REVELA UM DITADO POPULAR, O INFERNO ESTÁ CHEIO. JÁ BOAS MÃOS DIZ RESPEITO ÀS HABILIDADES”
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Dúvida sincera, o que deu o caso dos guardinhas da Detran de Gaspar? Prefeitura vai esperar aparecer mais umas brigas pelas ruas pra tomar medidas ou já estão implantando planos de ações e treinamentos? Todo dia tem viatura parada em cima das calçadas, fazendo manobras proibidas, “guardinhas” dormindo dentro das viaturas ligadas com ar condicionado pra não suarem e o trânsito continua um caos. Depois reclamam quando a população se revolta.
Estão esperando pela tal Reforma Administrativa para fazer a polícia de Gaspar, como solução de todos os problemas. Inclusive dos cidadãos inconformados com a inércia administrativa
Os Bolsonaros não são direita, centro ou conservadores, são simplesmente bolsonaros. Eles vivem da confusão, vingança, bravatas e do oportunismo. Dois deles, estão em Santa Catarina: o estranho [e quase mudo] vereador Jair Renan Bolsonaro, PL, em Balneário Camboriú. Ele quer ser deputado Federal a partir do ano que vem, para diminuir ainda mais, uma das representações catarinenses mais fracas conhecidas até aqui das legislaturas barriga-verde na Câmara. E o que falar do vereador carioca Carlos Bolsonaro, PL? Ele quer ser senador, não pelo seu Rio de Janeiro. Mas a partir da catarinense São José, numa trama da cúpula bolsonarista e do PL nacional e catarinense, vejam só, para anular de vez a representação de Santa Catarina no Congresso Nacional e consolidar desta forma, a representação dos bolsonaros, não exatamente a dos bolsonaristas, sempre usados de buchas de canhão, como os que estão presos com penas altíssimas e acusados de suposto golpe de estado. Credo. Santa Catarina já foi exemplo até ser tomada por trapalhões e políticos sem escrúpulos
A DIREITA BRASILEIRA, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
O senador Ciro Nogueira, pretendido porta-voz de Jair Bolsonaro, deu uma entrevista – e pronto. Buummmm! O que disse ao Globo, somado às reações imediatas que provocou, mapeia um vestiário rachado. Implodido, para ser exato. O rei está nu; pelados, os príncipes; desiludidos, os donatários. (Enquanto isso, Lula conversou com Trump – e sem que os monopolistas da Casa Branca soubessem.) Exposta a desorganização da direita neste pós-Bolsonaro. Cada um (filhos, inclusive) com o seu projeto pessoal de superação a Bolsonaro – todos sabedores do que seria “o melhor” para Jair e sempre “em defesa” de Jair, o grau de seu encostamento a depender do aliado.
Ciro – sem votos para se reeleger no Piauí – quer ser vice de Tarcísio de Freitas; e a superação a Bolsonaro que propõe já nem mais finge considerar a hipótese de que Jair esteja nas urnas em 2026. Haveria somente duas possibilidades “viáveis”: Tarcísio ou Ratinho Júnior. “Nós precisamos de um candidato que unifique a direita e o centro” – respondeu o senador quando questionado sobre uma candidatura de Eduardo Bolsonaro à Presidência. Não será o deputado; cuja viabilidade dependeria de vencer “um caminho bem longo”. Ciro – subentendido fica – sabe que tampouco Eduardo estará elegível, já jurado por Xandão.
Desorganização – para qualificar o que está em curso – é elogio. Está em curso uma guerra. Jair com poder – e com perspectiva de poder – continha a turma. Sem Jair, o inelegível, há tiros para todos os lados. Disputa pelo controle de espólio eleitoral; com mais candidatos a liderar a direita do que a desafiar Lula competitivamente. Não haverá pacificação ali.
Em outras palavras: o cavalo selado com que sonha Tarcísio, prontinho para montaria segura, não passará, mesmo que reúna o Centrão – que Ciro chama de “centro-direita” – e tenha o apoio de Bolsonaro. Terá a oposição da dissidência que Eduardo expressa; e teria de enfrentar a campanha – campanha dura, contra o incumbente – cavalgando no pelo ainda o ataque desmobilizador, em rede, do bolsonarismo eduardista.
Não que Eduardo tenha votos e liderança significativos. Ele detém os meios para minar o percurso de Tarcísio, “direita permitida”, “novo PSDB”, até aquele momento distante em que, afinal contra Lula, teria a chance de colher, por falta de outra opção, os votos antilulopetistas. Seria uma corrida massacrante, na ladeira, até alcançar esse lugar.
A ladeira, em síntese… Ciro, que é Tarcísio, classifica Eduardo como a representação da “extrema direita”, a desunião encarnada. E essa “extrema direita” – que se intitula representante do “sentimento antiestablishment”, do “sentimento do movimento nacional-populista”, do “sentimento do homem comum” – considera que a “centro-direita” de Ciro, que é Tarcísio, “quer “Bolsonaro refém” e “conchavo com o STF”. Assim vai, com a anistia por bandeira única, a direita brasileira. Tem que ter disposição.
A direita vai perder pro Lula novamente e depois querem ainda colocar a culpa em quem não aceita essa palhaçada. Essa falsa direita infestada de centrão gritando aos quatro cantos Deus, patria e familia como um mantra pra enganar os que sonham com dias melhores tentam se perpetuar no poder. Precisamos nos livrar dessa corja que está a anos sugando o povo através da política ou vamos continuar mais 4 anos nesse lamento.
A direita teria que responder com resultados e ações inovadoras, reformadoras e menos discursos de vítimas e ideológicos. As pessoas não são burras e ainda mais com redes sociais abertas. Estão cansadas de desculpas, discursinhos e mutirões, para esconder que nada mudou e tudo está misturadinho, na falta de transparência e liderança. Até o presente é o passado sem repaginação em Gaspar.
A DIREITA SEQUESTRADA POR EDUARDO BOLSONARO, por Joel Pinheiro da Fonseca, no jornal Folha de S. Paulo
O mais recente ator político a pular fora do barco do bolsonarismo é Trump. Ou ao menos é isso que sua conversa com Lula indicou. Sempre é possível que ele esteja preparando alguma armadilha, ou que no futuro mude de ideia, mas por enquanto Bolsonaro desapareceu de suas falas e, no lugar dele, está a disposição a discutir interesses econômicos de Brasil e EUA. Tudo caminha para Lula solucionar o problema nacional que Eduardo Bolsonaro criou. Não é a melhor ótica para a oposição.
Lideranças do PL e o próprio Eduardo continuam insistindo que seu plano de dobrar as autoridades brasileiras com sanções americanas vai às mil maravilhas, mas a essa altura só os fanáticos mais cegos ainda não perceberam que o navio já naufragou. Mesmo supondo que os pró-anistia consigam aprová-la no Congresso, o STF já declarou que dali não passa.
E, no entanto, parte da direita continua refém de Eduardo Bolsonaro. Em vez de aceitar o “projeto da dosimetria”, continuam exigindo a anistia ampla, geral e irrestrita. Ao agir assim, mostram não se importar com as penas excessivas dadas aos invasores de 8/1.
Um ponto positivo desse projeto seria tirar do regime fechado os mais de cem invasores, idiotas-úteis do bolsonarismo que, sim, se prestaram a uma tentativa injustificada (e alucinada) de provocar uma intervenção militar, mas que não mereciam pena maior do que assassinos e estupradores. Os deputados ainda conseguiriam reduzir em 1 ou 2 anos o tempo que Bolsonaro passaria em regime fechado.
Não aceitam o que poderiam ter e, em nome da demanda impossível, sequestram o debate público e impedem a direita de se focar no que importa: não Bolsonaro, e sim o Brasil.
Não faltam problemas no governo Lula que a oposição poderá explorar. Por exemplo, a incapacidade de equilibrar as contas públicas. Mesmo com o marco fiscal aprovado em 2023, o endividamento do Estado brasileiro segue crescendo. E não é só pela conta de juros —o último freio para a disparada da inflação; o resultado primário verdadeiro (que não desconsidera as exceções ao marco fiscal) segue deficitário em cerca de R$ 70 bilhões, mesmo com a alta na arrecadação. A conta desse desarranjo começa a ser sentida.
As estatais tiveram recorde de déficit este ano, somando R$ 5,6 bilhões até agosto. O governo jura que a maioria dessas estatais está fazendo grandes investimentos que trarão retorno. Será?
Apesar da queda continuada de homicídios desde 2018, o Brasil só soluciona cerca de 36% dos casos, como divulgado em pesquisa do Instituto Sou da Paz. O crime organizado domina partes do território nacional e comete assassinatos planejados com total desfaçatez.
O clima político vem em ondas. No início do ano, Lula estava nas cordas; agora, com a ajudinha de Bolsonaro, parece invencível. Esta onda também passará e novas virão até outubro de 26. Para ser competitiva, a direita terá que superar a pauta fracassada de um deputado que abandonou seu país em nome de seu pai. Uma escolha que faz sentido para um filho, mas que não tem o menor cabimento como o único assunto de todo um lado do espectro político brasileiro.
Bolsonaro não será candidato em 2026. Cabe à direita agir de acordo com a realidade incontornável.
A HORA DOS ADULTOS NA SALA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
A conversa telefônica travada ontem entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump foi um passo significativo para recolocar a relação Brasil-EUA nos trilhos. Há vários elementos positivos, a começar pelo fato de que o telefonema partiu de Trump, que até pouco tempo atrás parecia infenso à ideia de qualquer contato com o Brasil e com Lula. Além disso, ambos descreveram a conversa como “amistosa”, resultando em troca de telefones diretos e o aceno a um encontro presencial em breve, talvez ainda neste mês, na cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), na Malásia. Melhor ainda: segundo o Palácio do Planalto, a conversa focou em interesses comerciais, não em rusgas políticas.
Quando um telefonema banal entre os presidentes dos EUA e do Brasil, países que cultivam dois séculos de excelente relação, se torna notícia alvissareira, tem-se ideia do quão intoxicada estava a agenda bilateral. Por um lado, Lula cultivou cuidadosamente a imagem de líder antiamericano, alinhando-se a países e teses hostis aos EUA; por outro, Trump agrediu o Brasil com tarifas exorbitantes e sanções estapafúrdias sob o falso argumento, oferecido a ele por conselheiros instruídos por bolsonaristas, de que o ex-presidente Jair Bolsonaro é vítima de perseguição política.
O resultado foi a degradação das relações e a paralisia dos canais de alto nível. O telefonema de ontem indica que ambas as partes entenderam que abusaram do simbolismo à custa dos interesses de suas nações.
O mérito pertence menos à já folclórica “química” entre ambos e mais à diplomacia profissional e ao setor privado. Negociadores experientes – e empresários de ambos os lados preocupados com preços, cadeias de suprimento e empregos – fizeram o que a política não fazia: substituíram slogans por dados, neutralizaram sabotadores e restabeleceram fluxos de informações confiáveis. Ao romper o monopólio de versões convenientes a facções, criaram espaço para o que importa: solucionar problemas.
Há oportunidades à vista. O Brasil dispõe de reservas de minerais críticos; os EUA buscam reduzir dependências estratégicas. A pauta sobre a regulação de plataformas digitais exige diálogo – e não ultimatos. Cooperação em segurança alimentar ou energética e até missões de estabilização regional podem produzir ganhos recíprocos. Essa agenda não requer alinhamento automático com Washington, e sim previsibilidade, regras e disposição de negociar trocas que gerem empregos e investimentos de parte a parte.
Convém, claro, temperar o otimismo. Trump continua um político de temperamento volátil, que pega de surpresa até seus mais próximos assessores quando improvisa. Lula, por seu lado, investe pesado na transformação da agressão americana em ativo eleitoral, com as bravatas patrioteiras de praxe. É claro que nada disso ajuda a diplomacia, razão pela qual, da parte do Brasil, o Itamaraty terá de blindar o canal recém-aberto contra recaídas performáticas, e o Planalto deve resistir à tentação de transformar cada gesto técnico em comício.
É preciso ainda reconhecer um custo de aprendizado. A retórica antiamericana do governo petista e o empobrecimento dos canais de diálogo com Washington só facilitaram a vida de quem lucrava politicamente com a crise, caso do clã Bolsonaro. O telefonema não apaga esses erros, mas oferece a chance de corrigi-los. Pragmatismo, e não catecismos ideológicos, deve guiar os próximos passos: equipes técnicas com autonomia, metas mensuráveis, cronogramas e a humildade de operar por etapas – começando por listas de exceções tarifárias e arranjos setoriais que aliviem pressões sem violar cláusulas de soberania.
É imprudente arriscar futurologia. Nada impede que um tuíte desastrado, uma tirada marqueteira ou um vazamento oportunista reconduzam a relação ao labirinto das suspeitas. Ainda assim, a conversa de ontem importa. Ela sinaliza que, diante de custos econômicos visíveis e de resultados políticos pífios, prevaleceu por um instante a lógica do interesse mútuo. É assim que deveria ter sido desde o início – e assim deve ser daqui em diante.
O ESPETÁCULO DA DESILUSÃO: UM ANO DA URNA, NOVE MESES DO PALCO VAZIO, por Adilson Luiz Schmitt, médico veterinário, ex-prefeito de Gaspar (2005/09), eleito pelo MDB em chapa com o PP até então o maior rival do MDB, com passagens pelo PSB, PPS, DEM e PL. Está sem partido. Artigo, originalmente, publicado nas redes sociais do autor.
Exatamente “365 dias” nos separam daquele dia 6 de outubro de 2024, quando depositamos nossa esperança nas urnas e elegemos os atores para o grande espetáculo municipal. O ingresso, carimbado com a data da escolha democrática, tinha validade para 4 anos. A promessa em cartaz era grandiosa: UM SHOW DE DESENVOLVIMENTO, PUJANÇA E A RECOLOCAÇÃO DA CIDADE NO LUGAR DE DESTAQUE QUE MERECE, COM RUAS IMPECÁVEIS, INFRAESTRUTURA ROBUSTA E SANEAMENTO BÁSICO UNIVERSAL.
A plateia, eu incluso, como um eleitor entusiasta e homem do fazer, não do discurso, aplaudiu de pé. Ansiava por novas atrações que substituíssem o velho repertório, cansativo e sem graça, que há décadas nos era apresentado.
Agora, passados 9 meses desde que o espetáculo de fato começou, em 1º de janeiro de 2025, a realidade é desoladora. As cortinas se abriram, mas o palco continua vazio. O que se ouve da plateia não são aplausos, “mas um coro crescente de murmúrios e insatisfação”.
A frustração é ainda maior porque, apesar de novos personagens ocuparem o picadeiro, os truques e as atrações são os mesmos de sempre. O ROTEIRO NÃO FOI RENOVADO.
O desenvolvimento e a pujança? Permanecem confinados aos slides das campanhas. A promessa de recolocar a cidade no mapa? Não saiu dos palanques eleitorais. As ruas, que deveriam ser um legado de progresso, continuam esburacadas, desafiando a paciência e os veículos dos cidadãos. E o saneamento, base da dignidade humana, segue sendo uma miragem distante. Nada de concreto foi feito.
Um eleitor que é do fazer, e não do mero querer ser, enxerga com clareza: a plateia pode ter memória curta, mas não é tola. A LUA DE MEL ACABOU. O público começa a se levantar de suas poltronas, exigindo mais do que palavras bonitas e velhos truques de ilusão que não se materializam em ações. O relógio político, implacável, não para.
Faltam pouco mais de três anos para a próxima grande produção, prevista para 1º de outubro de 2028. E se os atores atuais não saírem dos scripts vazios e começarem a entregar o espetáculo de progresso que prometeram, a plateia, desta vez, poderá simplesmente optar por não comprar um novo ingresso.
Observação Final: A Única Catarse do Dia
Neste 6 de outubro de 2026, a única catarse que nos resta é acompanhar “a morte de Odete Roitman no horário nobre”. Pelo menos na ficção da novela VALE TUDO, a vilã que personifica a ambição sem escrúpulos e o “vale-tudo” pelo poder recebe seu merecido desfecho. O ciclo da personagem má, como bem ensaia a dramaturgia, chega ao fim, e quem a interpreta, a talentosa Débora Bloch, pode, enfim, deixar o picadeiro e seguir para casa, talvez até para umas merecidas férias.
Já na vida real, cabe a nós, eleitores, aprender com o enredo: se os atuais ocupantes do palco municipal não souberam cumprir o roteiro a que se propuseram, “a plateia tem o direito de, pelo voto, dar-lhes férias permanentes. E não escalá-los para nenhuma outra obra”.
Na vida real, no entanto, o espetáculo de ilusões e promessas vazias que elegemos não tem roteiro com desfecho tão claro. Enquanto aguardamos obras e atitudes concretas, nos apegamos à esperança de que, “ao menos na ficção”, a justiça ainda que passageira e fictícia prevaleça.
Enquanto isso, o calendário nos lembra: restam 1.091 dias até a próxima oportunidade de escolha, no primeiro domingo de outubro de 2028. A data, propositalmente no Mês das Crianças, é um convite à reflexão: VAMOS CONTINUAR ACREDITANDO EM CONTOS DE FADA ELEITORAIS OU, FINALMENTE, AMADURECEREMOS E COBRAREMOS A SERIEDADE QUE O NOSSO VOTO MERECE?
A contagem regressiva para a próxima chance já começou. Que o próximo espetáculo seja digno do preço do nosso ingresso.
Este é sentimento de muitos eleitores e eleitoras após um ano!
Fica o alerta, pois daqui a doze meses um novo pleito ocorrerá, para escolher os novos representantes: Deputados Estaduais, Deputados Federais, Senadores, Governador de SC e o Presidente da República.
E a única arma que teremos é o voto!
Matutando bem. . .
Potencial turístico, felizmente nossa querida Gaspar o tem!
Mas. . .o conteúdo de “Retrato I” explica e justifica o conteúdo de “Retrato II e III”.
Já imaginaram um evento público inaugurando a abertura oficial da temporada das cascatas?
O ALTO CUSTO DA REPRESENTAÇÃO POLÍTICA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
A Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso aprovou um Fundo Eleitoral de R$ 4,96 bilhões para 2026, ano de eleições gerais no País. O valor pode ser espantoso, mas não surpreendente. Afinal, sempre que o assunto é o financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais, deputados e senadores dos mais distintos matizes ideológicos se unem na desfaçatez e encontram rápida convergência para preservar seus interesses corporativos.
A ladainha é sempre a mesma: “A democracia tem um custo”. Os defensores do modelo público de financiamento das legendas e das campanhas repetem esse argumento ad nauseam com ares de truísmo moral. Ora, de fato, em qualquer país, a democracia impõe custos. O problema aqui está em saber se a dinheirama dos contribuintes que é deslocada arbitrariamente de áreas vitais a seus interesses – como saúde, educação e segurança pública – para as legendas tem se revertido em ganhos reais para a sociedade. A resposta é obviamente negativa.
A qualidade do “produto” que os cidadãos recebem em troca do vultoso investimento público na atividade partidária é indigente. O Congresso não se cansa de mostrar que está divorciado das angústias mais prementes da população. Em vez de se dedicar à formulação de políticas públicas capazes de melhorar a vida concreta dos brasileiros, dedica-se a ampliar seu poder sobre o Orçamento da União, por meio de emendas suspeitíssimas, e a engendrar mecanismos de autoproteção contra investigações criminais por eventuais desvios desses recursos, entre outros crimes. A famigerada PEC da Bandidagem, aprovada na Câmara, só foi enterrada no Senado porque a sociedade ergueu sua voz contra a sem-vergonhice nas ruas. Mas, mesmo derrotada, a proposta segue viva como um símbolo eloquente dessa profunda desconexão entre representantes e representados da qual o Fundo Eleitoral bilionário é mais uma expressão.
Se é público o financiamento das campanhas eleitorais desde a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, corretamente, proibiu as doações de empresas, em 2015, seria razoável esperar que isso se traduzisse em fortalecimento da democracia representativa. Mas não foi o que aconteceu. O modelo apenas garantiu conforto financeiro às lideranças partidárias, que, a um só tempo, deixaram de bater à porta de grandes empreiteiros e não precisam convencer os eleitores a sustentá-las. Sem a premência de lutar por seus meios de sobrevivência, os partidos políticos tornaram-se máquinas burocráticas autocentradas que se alimentam de recursos públicos líquidos e certos, desobrigados de pôr a mão na consciência e entender por que, afinal, as doações privadas de cidadãos comuns são tratadas como utopia no Brasil.
Juridicamente, os partidos políticos são entidades privadas. Como tais, devem ser bancadas por doações voluntárias de cidadãos que compartilham de seus valores e projetos. Essa lógica elementar foi distorcida. Obriga-se todo contribuinte a financiar agremiações às quais não apenas não se filiou, mas muitas vezes se opõe. Nada mais perverso para uma democracia representativa do que forçar um cidadão a sustentar com seus impostos forças políticas das quais discorda, quando não repudia.
A democracia, esse regime tão custoso, dirão, não se resume à realização de eleições regulares – vive permanentemente de sua legitimidade. Quando os cidadãos percebem que suas vidas, seus problemas cotidianos e seus anseios para o Brasil não estão refletidos na política institucional, a confiança na democracia como único meio civilizado para a concertação dos interesses sociais se deteriora. E esse divórcio entre Congresso e sociedade alimenta o descrédito nas instituições que, no limite, abre espaço para aventuras autoritárias.
Não se trata aqui de defender o retorno das doações de empresas, que de fato distorciam o processo político ao equiparar pessoas jurídicas a cidadãos. Mas os parlamentares precisam pôr a mão na consciência – acreditando-se, é claro, que tenham uma. Se a democracia tem custo, o preço que a sociedade tem pagado é demasiado alto para a baixa qualidade de sua representação política.
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes,
mortos e bichas avançam os sinais vermelhos,
e muitas vezes,
somos uns boçais “..
Caetano Veloso.
O ESPELHO QUEBRADO: A DOR DA TRAIÇÃO DO VOTO, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral de Gaspar (2005/09), graduado em Gestão Pública pela Udesc. Este artigo, originalmente, foi publicado nas redes sociais do autor.
Eu estou aqui hoje para falar sobre a nossa frustração. É uma dor silenciosa que todos nós, eleitores, carregamos. É a sensação amarga de termos sido enganados por um espetáculo de ilusão que chamamos de política.
Para que vocês entendam o tamanho da farsa, eu peço que lembrem da ““MONGA, A MULHER-GORILA”””. Lembro de ir ao parque, criança, com aquele misto de medo e fascínio. A atração era perfeita: o mestre de cerimônias falava grosso, as luzes baixavam, e a mulher “delicada” se transformava. Sabíamos que era um truque de espelhos, mas ríamos e saíamos dali com a adrenalina no corpo. Era divertido porque era mentira e sabíamos disso.
O que a classe política faz conosco é o mesmo show, mas com uma crueldade inaceitável: eles usam o mesmo truque para roubar a nossa esperança.
Eles chegam até nós como as “damas e cavalheiros” do nosso futuro. Nos olham nos olhos na TV, apertam nossas mãos nos comícios e prometem o paraíso na Terra. Nós, na nossa ingenuidade e desejo de acreditar, entregamos a eles a moeda mais valiosa que temos: o nosso voto e, mais importante, a nossa confiança.
– É aí que o truque se torna uma traição.
Mal as cortinas da eleição se fecham, mal o palanque é desmontado, e a transformação acontece. E não é uma transformação para a força ou a sabedoria. É uma mutação para o PATÉTICO e o MESQUINHO. O espelho se estilhaça e, em vez de um líder, vemos uma “MONGA” no pior sentido da palavra: aquela figura SONSA, DISSIMULADA, PREGUIÇOSA.
Sentimos na pele o custo de sermos confrontados com a BESTA DA INDOLÊNCIA. A inação é a nossa miséria diária! Vemos a crise, a falta de segurança, a saúde precária, mas o nosso eleito se move em uma lentidão ridícula, preocupado apenas em servir aos próprios interesses ou aos de seus iguais. O discurso que parecia firme se esvai em desculpas vazias. A promessa de força se dissolve na covardia institucional.
A frustração é essa SENSAÇÃO DE TER SIDO FEITO DE IDIOTA. Eles nos venderam o mito do gigante ético, mas nos entregaram a miséria do parasita.
E o que mais nos indigna é que, no parque, podíamos ir embora. Mas deste circo político, nós somos o público cativo. Somos forçados a viver na mediocridade da jaula que eles construíram para si e para nós.
Basta! Estamos exaustos de ser apenas uma plateia. Exigimos que o show da ilusão acabe. Queremos líderes que tenham a coragem de “QUEBRAR ESSES ESPELHOS DE FARSA” e nos mostrar uma face real: uma face de COMPROMISSO E DE TRABALHO DURO, e não mais essa performance barata e ultrajante da Mulher-Gorila.
A nossa indignação é a única força capaz de exigir que o próximo espetáculo seja, pela primeira vez, a verdadeira transformação que a nossa nação merece.
UMA RETÓRICA DE BRAVATAS, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo
De sua trincheira nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro ameaçou: “Sem anistia, não haverá eleição de 2026.”
Falso, sem a anistia desejada pelos Bolsonaros, haverá eleição em 2026, e se porventura eles vierem a ser responsabilizados por suas palavras, dirão que tudo não passou de simples bravatas.
Os Bolsonaros introduziram dois elementos tóxicos na política brasileira. Um é uma sorte de conflito intrafamiliar sem propósitos. Ganha um fim de semana em Budapeste quem souber porque Michelle não gosta de Jair Renan e é detestada por Carluxo. Flávio diz que Eduardo é maluco, e Eduardo acha que Flávio é manso demais. Para quê? Para nada.
O segundo ingrediente é a bravataria. O patriarca Jair combateu vacinas, disse que o medo da Covid era coisa de maricas, ameaçou com Apocalipses e em diversas ocasiões referiu-se ao “meu Exército”. Sempre para nada. Ainda no século passado, quando ele era apenas um mau capitão, Jair pulava de bravata em bravata, como a dos explosivos da adutora do Guandu, apresentada num desenho infantil.
As explosões dos Bolsonaros, como os planos da grei, ameaçam com o fim do mundo e, quando são chamados às falas, protegem-se, dizendo-se bravateiros. O melhor exemplo disso esteve no Plano Punhal Verde Amarelo. Enquanto era impresso no escurinho do Planalto pelo general Mário Fernandes, faria e aconteceria. Chamado a explicar-se, o general saiu de fininho, falando em simples reflexão.
Quando Eduardo Bolsonaro diz que “sem anistia não haverá eleição de 2026”, ecoa uma frase atribuída ao general Braga Netto, para quem não haveria eleição sem voto impresso. (Ele negou a autoria do comentário.) De qualquer forma, houve eleição sem voto impresso, Bolsonaro e Braga Netto foram derrotados, Lula está no Planalto e a dupla em prisões. Bolsonaro numa cana domiciliar, e o general num quartel. O país ganhou uma serenidade institucional que lhe foi negada durante o mandato do ex-capitão.
O estilo bravateiro é tóxico por ser de todo inútil. Serve para nada, além de dar alguns minutos de fama aos interessados.
Os Bolsonaros não conseguiram impor uma agenda radical quando estavam no governo. Nada conseguirão agora que estão fora dele, obrigados a temer a caneta do ministro Alexandre de Moraes. É um estilo vencido, como o dos chapéus e das polainas.
O deputado Eduardo Bolsonaro sabe que se o Congresso aprovar algum tipo de anistia, ela não trará grande alívio ao ex-presidente. Beneficiará primeiro os lambaris do 8 de Janeiro, condenados a penas extravagantes, como a de 14 anos para o bobalhão que sentou-se na cadeira de Alexandre de Moraes. (Ela estava na rua, não no prédio do Supremo Tribunal Federal.)
A TRAGÉDIA DE MCNAMARA
Chegou às livrarias americanas “McNamara at War” (A Guerra de McNamara), dos jornalistas William e Philip Taubman. É a história de Robert McNamara (1916 – 2009), o professor de Harvard que reergueu a Ford Motor, revolucionou as Forças Armadas americanas e atolou uma carreira brilhante nas selvas do Vietnã.
McNamara foi o secretário da Defesa dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson, até que deixou o cargo e, com o tempo, tornou-se um crítico da guerra: “Foi um erro, um grande erro”.
“A Guerra de McNamara” expõe a tragédia pessoal do poderoso secretário da Defesa, um devorador de estatísticas, “computador com pernas”. Por trás do tecnocrata frio e deslumbrado com o poder, havia um puritano angustiado, descrente da vitória militar que propalavam, responsável pela morte de dezenas de milhares de jovens americanos e milhões de vietnamitas, para nada. A Guerra do Vietnã durou 20 anos e acabou-se em 1975, com a retirada das tropas americanas e o colapso do regime de Saigon. Desde 1965 McNamara e os principais assessores do presidente Lyndon Johnson sabiam que os Estados Unidos não poderiam ganhar aquela guerra, mas fingiam que a vitória militar estava ao alcance dos generais.
Os irmãos Taubman traçaram um completo perfil do tecnocrata imerso nos jogos do poder palaciano. Ele mostrou-se um exímio dançarino e flertava com a viúva do presidente John Kennedy, assassinado em 1963.
Quando a guerra tornou-se impopular, McNamara sofreu com a oposição dos filhos e, aos poucos, deslizou para uma discreta oposição. Foi dele a ideia de compilar informações capazes de explicar como os Estados Unidos meteram-se em semelhante enrascada. Esses documentos tornaram-se conhecidos como os Pentagon Papers.
Trocando a crise em miúdos, os governos americanos convenceram-se de que se o Vietnã do Sul caísse, o sudeste da Ásia cairia junto. Era a teoria do dominó, uma tolice, como se viu.
CONRADO DISSE TUDO
O professor Conrado Hübner Machado disse tudo ao tratar do caso do promotor aposentado Jairo de Luca, que recusou um penduricalho de R$ 1,3 milhão:
“Jairo talvez tenha praticado o maior gesto individual antigrilagem magistocrática da história brasileira. Simboliza grito de alguém que conseguiu transformar desconforto de consciência em gesto concreto. Não é para qualquer um.”
TARCÍSIO CANDIDATO
Um veterano observador da cena política de São Paulo e conhecido do governador Tarcísio de Freitas resolveu criar um candidatômetro. Ele oferecerá registros periódicos de qual poderá ser sua candidatura preferida.
Na semana passada, com a aprovação do refresco do Imposto de Renda para quem ganha até 5 salários mínimos, ele era candidato à reeleição para o governo de São Paulo.
HUGO MOTTA
Uma senhora atenta aos figurinos nacionais confessou-se surpresa com a estampa do presidente da Câmara, Hugo Motta, de 36 anos.
“O rapaz deu um trato no cabelo e ficou parecido com galãs de filmes mudos. Tipo Rodolfo Valentino.”
MANGUINHOS, ONTEM E HOJE
A desdita da refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, lança alguma luz sobre a natureza de parte do empresariado nacional.
Ao tempo em que os bichos falavam, a maior acionista de Manguinhos era a família Peixoto de Castro, com sua loteria, mansões e os cavalos do haras Mondesir. Passados 75 anos, a refinaria, que exibiria a competitividade de uma parte do empresariado do Rio, deslizou para o submundo da sonegação y otras cositas más.
CPI DO INSS
Se a CPI das fraudes do INSS encostar nas novas modalidades de financiamento dos sindicatos o aparelho governista terá dificuldade para se explicar durante o ano eleitoral de 2026.
O RECADO DE PUTIN PARA OS EUROPEUS, por Lourival Sant’Anna, no jornal O Estado de S. Paulo
A guerra híbrida da Rússia contra a Otan entrou em novo capítulo, com invasões do espaço aéreo europeu e voos de reconhecimento sobre bases militares e outras instalações estratégicas. Com essas ações, Vladimir Putin procura elevar a sensação de insegurança dos europeus para inibir a ajuda à Ucrânia.
Drones voaram em formação para tomar medidas sobre um estaleiro da Thyssenkrupp que fabrica embarcações militares na cidade alemã de Kiel. Episódios semelhantes ocorreram sobre uma base da Alemanha em Sanitz e o Comando da Marinha alemã em Rostock.
Os equipamentos não tripulados sobrevoaram também uma usina termoelétrica em Kiel, o Canal Marítimo do Norte do Báltico, uma via de navegação crítica para a Europa, um hospital universitário, a refinaria de Heide, que fornece querosene de aviação para o aeroporto de Hamburgo, e o Parlamento estadual de Schleswig-Holstein.
O Estado do norte da Alemanha faz divisa com a Dinamarca, que também tem registrado sobrevoos em sua infraestrutura crítica. Copenhague foi sede na quarta-feira de uma cúpula europeia para mobilizar ajuda para a Ucrânia. Noruega, Polônia, Romênia e Lituânia também foram invadidas por drones. Caças holandeses e poloneses interceptaram os drones na Polônia, com ajuda de um avião de reconhecimento Awacs italiano, no primeiro confronto direto entre a Otan e a Rússia. Três caças russos com os transponders desligados permaneceram por 12 minutos no espaço aéreo da Eslovênia. Aviões da Otan se aproximaram e eles se retiraram.
O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, disse que a Rússia está usando sua “frota sombra” no Mar Báltico para lançar e controlar os drones nesses países. Essa frota é composta por cargueiros usados para driblar as sanções contra a importação do petróleo russo.
O ministro dinamarquês da Defesa, Troels Lund Poulsen, classificou os incidentes de “ataque híbrido” e disse que a Dinamarca considera acionar o Artigo 4 da Otan. A Polônia já acionou o artigo, que leva a consultas sobre se a soberania de um membro está sob ameaça.
A aliança declarou que “a Rússia não deveria ter dúvidas de que a Otan e aliados empregarão todos os meios militares e não militares para se defender”.
Como argumentei na coluna do dia 14, Putin não tem condições de entrar em confronto direto com a Otan. Seu objetivo é provocar na opinião pública europeia a sensação de que seus governos devem guardar as armas para se defender da Rússia em vez de enviá-las para a Ucrânia. Drones são uma forma barata e eficaz de atingir esse objetivo.