O Brasil, definitivamente, perdeu o rumo. Não há aumento de imposto que de conta no sustento dessa esbórnia. Há quem tenha saudade do tempo em que se dizia, “rouba, mas faz”. Já hoje em dia… (by Herculano)
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ANOTAÇÕES DE MIGUEL TEIXEIRA CCCCXVII
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55 comentários em “ANOTAÇÕES DE MIGUEL TEIXEIRA CCCCXVII”
Recorrentemente,
esbanJANJAndo aLULAdamente,
como sempre!
“Dívida bruta sobe para 79% do PIB e supera R$ 10 trilhões”
– Endividamento aumentou 7,3 pontos percentuais no 3º mandato do governo Lula (PT), segundo o BC.
(Hamilton Ferrari, Poder360, 30/12/25)
A DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral) subiu de 78,4% do PIB (Produto Interno Bruto) em outubro para 79,0% em novembro. Em valores, o estoque atingiu R$ 10 trilhões. O BC (Banco Central) divulgou o relatório de estatísticas fiscais nesta 3ª feira (30.dez.2025). Eis a íntegra do documento (*).
A dívida bruta aumentou 7,3 pontos percentuais no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A mediana das projeções dos agentes financeiros indica que a relação dívida-PIB terminará 2025 aos 79,5%.
. . .
+em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/divida-bruta-sobe-para-79-do-pib-e-supera-r-10-trilhoes/
(*) https://static.poder360.com.br/2025/12/setor-publico-consolidado-30dez2025.pdf
“Que tipo de vice-presidente os brasileiros querem”
– Não se encaixam no perfil Geraldo Alckmin, Ciro Nogueira ou qualquer outra liderança do Centrão.
(Redação Crusoé, 30/12/25)
Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado nesta terça-feira, 30, apontou o perfil que os eleitores brasileiros querem para os candidatos a vice-presidente da República nas eleições em 2026.
Enquanto o PSB aposta na permanência de Geraldo Alckmin (foto) como vice de Lula na chapa que disputará a reeleição no ano que vem, 24,4% dos entrevistados disseram querer que o vice “seja uma mulher, para trazer um olhar feminino ao governo”.
Outros 22,3% afirmaram desejar um vice que “seja um representante do setor produtivo/agronegócio, para focar na economia”.
Para 13,2%, o vice deve ser “um político experiente do Nordeste, para representar melhor o país”. Pelo menos 12,2% disseram querer que o vice “seja alguém de total confiança/família de Jair Bolsonaro” e 9,9% querem que “seja alguém ligado à religião e defesa da família (perfil conservador/evangélico)”.
Cerca de 9,1% dos entrevistados disseram que o perfil do vice é “indiferente/tanto faz”, ante 8,8% não opinaram.
O vice da oposição
O instituto também questionou qual deveria ser o perfil do candidato a vice da oposição.
Para vencer o presidente Lula, 43,2% dos entrevistados consideram que o candidato a presidente da oposição deve escolher um vice que “priorize a economia, sendo um empresário ou técnico, sem ligação forte com política ideológica”.
Outros 19,1% querem que o vice da oposição “traga votos de quem não é de direita, sendo um político mais moderado e de centro, mesmo que isso desagrade parte da base bolsonaristas” e 12,8% querem que o vice da oposição “garanta os votos da direita, sendo um conservador fiel a Bolsonaro, mesmo que isso afaste eleitores de centro”.
Não sabem ou não opinaram são 25%.
A pesquisa
Para o levantamento, o Instituto Paraná Pesquisas ouviu 2.038 eleitores em 163 municípios de todo o país entre 18 e 22 de dezembro.
A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.
*****************************************
*** A relação Paraná Pesquisas e PL ***
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O Instituto Paraná Pesquisas recebeu 2,7 milhões de reais do PL, partido de Jair Bolsonaro, no período de pré-campanha eleitoral de 2022, conforme registrou a Folha de S.Paulo.
Entre janeiro e julho daquele ano, foram 20 transferências bancárias. A maior parcela foi de 787,5 mil reais em janeiro.
(Fonte: https://crusoe.com.br/diario/que-tipo-de-vice-presidente-os-brasileiros-querem/)
*** Os asteriscos envolvendo o subtítulo, são por conta do Matutildo!
(*) Portanto, dinheiro público!
“Paraná Pesquisas recebeu R$ 2,7 milhões de partido de Bolsonaro na pré-campanha”
– PL usou dinheiro do Fundo Partidário (*) para pagamentos; instituto ainda tem contrato de R$ 1,6 mi com o governo.
(Marcelo Rocha, FSP, 19/19/25)
O Instituto Paraná Pesquisas recebeu no período de pré-campanha eleitoral R$ 2,7 milhões do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro. De acordo com balanço financeiro junto ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a legenda usou dinheiro do fundo partidário para realizar os pagamentos.
Foram 20 transferências bancárias entre janeiro e julho. As maiores parcelas foram de R$ 787,5 mil, em janeiro, e de R$ 525 mil, em fevereiro. Enquanto levantamentos de intenção de voto de outros institutos apontam vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial, as sondagens do Paraná Pesquisas têm indicado empate técnico entre o petista e seu principal adversário, o atual presidente.
A Folha revelou que a empresa assinou, em março, contrato de R$ 1,6 milhão com o governo federal pelo prazo de um ano, com o objetivo de realizar coleta de dados sobre políticas públicas.
Em nota, o instituto disse que “trabalha para diversos partidos políticos, não só para o PL”, e que “todas as pesquisas são realizadas e entregues de acordo com contratos firmados com os partidos contratantes”. “O instituto tem feito várias rodadas estaduais de pesquisa nos 26 estados e no Distrito Federal.”
Em nome do Paraná Pesquisas foram identificados no TSE até o último domingo (18) 63 levantamentos de intenção de voto à Presidência realizados desde janeiro, sejam de abrangência nacional ou estadual.
Em nenhuma delas o PL aparece como contratante. Questionado sobre que serviços foram eventualmente prestados pela empresa, o partido comandado por Valdemar Costa Neto não quis se manifestar.
Parte significativa das sondagens foi patrocinada pelo próprio instituto. Das 63 registradas, o Paraná Pesquisas declarou ao TSE ter custeado 26 —41% do total. A Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) é crítica do autofinanciamento, por entender que a prática pode esconder irregularidades, como caixa dois. A entidade enviou ao TSE e ao MPF (Ministério Público Federal) informações sobre o assunto.
No email encaminhado à Folha por ocasião da reportagem sobre o contrato firmado com o Executivo, Murilo Hidalgo, um dos sócios do Paraná Pesquisas, afirmou que o financiamento de pesquisas próprias “não é algo exclusivo do instituto” e que outras companhias também o fazem.
Entre os contratantes recentes da empresa, segundo os registros na corte eleitoral, há políticos como Cabo Daciolo, candidato do PDT ao Senado, que solicitou um cenário para a Presidência no Rio de Janeiro.
A União Brasil, que tem Soraya Thronicke como postulante ao Planalto, foi outra legenda a contratar a empresa, desta vez para levantar o desempenho dos presidenciáveis no Paraná. Grupos de comunicação e instituições financeiras privadas, como corretoras de valores, também encomendaram sondagens.
O empate técnico entre Lula e Bolsonaro se repete nas sondagens do Paraná Pesquisas, com algumas pequenas variações, desde maio. No levantamento mais recente, cuja margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, o petista apareceu com 39,6%, ante 36,5% de Bolsonaro.
A próxima rodada da empresa paranaense está prevista para ser divulgada nesta terça-feira (20).
Institutos como Datafolha, Ipec e Quaest apontaram liderança de Lula no período. O Datafolha pertence ao Grupo Folha e atua com pesquisa eleitoral e levantamentos estatísticos para o mercado. Não faz sondagens eleitorais para governos ou políticos.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/09/parana-pesquisas-recebeu-r-27-milhoes-de-partido-de-bolsonaro-na-pre-campanha.shtml)
PeTezuela: umas mãos roubam todas e a toga enxuga algumas!
“Jacarta ultrapassa Tóquio como cidade mais populosa do mundo, diz ONU”
– Organização atualizou ranking após mudar metodologia para avaliar grandes conurbações.
– Estima-se agora que a capital indonésia tenha quase 42 milhões de residentes, superando a maior cidade do Japão.
(Diana Mariska e A. Anantha Lakshmi, FSP, 29/12/25)
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No mês passado, a ONU atualizou sua lista das maiores cidades do mundo após mudar sua metodologia para avaliar grandes conurbações. Ela foi além da contagem oficial indonésia de 11 milhões de habitantes em Jacarta, incluindo em seus cálculos uma área urbana muito maior que abrange cidades-satélite como Bogor. . .
. . .
Como resultado, estima-se agora que Jacarta tenha quase 42 milhões de residentes, ultrapassando a grande Tóquio como a maior cidade do mundo, segundo a ONU.
. . .
A metodologia alterada da ONU elevou Jacarta ao topo da lista, da posição número 30 em 2018. Também fez de Dhaka, a capital de Bangladesh, a segunda maior cidade do mundo, com 36,6 milhões de pessoas. Cidades da Ásia dominam a lista.
. . .
+em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/12/jacarta-ultrapassa-toquio-como-maior-cidade-do-mundo-diz-onu.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsfolha
São Paulo, a cidades mais populosa das Américas, ocupa o 13º lugar com 19 milhões de habitantes!
+em: https://www.nexojornal.com.br/grafico/2025/11/27/cidade-mais-populosa-do-mundo-lista-ranking-onu
“Os deuses estão loucos”
– Os “deuses” do Olimpo jurídico manobram para que ninguém, ou nenhuma instituição, possa limitar seus poderes.
(Por Merval Pereira, O Globo, 30/12/25)
A maior prova de que a acareação marcada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli sobre o caso Master estava tecnicamente errada e era injustificada foi o presidente do banco, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília Paulo Henrique Costa, o pretenso comprador, terem sido convocados para um interrogatório que não estava previsto. Continuamos assistindo a um simulacro processual, pois, antes mesmo dos depoimentos oficiais dos envolvidos, pressupõe-se que haverá contradições, justificando a acareação.
Todo o atropelo do processo, desde o momento em que foi transferido ao STF sem razão de ser, dá a impressão à sociedade de que querem acobertar alguma coisa. Não é a primeira vez que o dono de um banco liquidado pelo Banco Central (BC) reclama, alegando prejuízos provocados pela ação saneadora da instituição fiscalizadora do sistema financeiro nacional. A diferença hoje é que o Supremo entrou na briga, aparentemente a favor de Vorcaro, embora o BC tenha se livrado da subordinação aos demais Poderes e seja autônomo legalmente.
Mesmo tendo sido indicado pelo presidente Lula, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, vem sendo criticado pela esquerda devido à manutenção dos juros altos e, agora, pela liquidação do Banco Master. Para os amigos de Vorcaro, o envolvimento dos ministros Alexandre Moraes e Dias Toffoli em denúncias envolvendo o Master deve-se a uma manobra da direita para desacreditar os dois, considerados os principais líderes do STF na defesa da democracia por ocasião da tentativa de golpe bolsonarista.
A polarização política impede que os fatos se sobreponham à fantasia ideológica. É um estranho caso de esquerdistas defendendo um banqueiro ladrão, enquanto os direitistas querem vê-lo atrás das grades. Criticar Moraes, apesar do contrato exorbitante de sua mulher com o Master, por pressões a favor de Vorcaro; ou Dias Toffoli, pela ingerência no processo de liquidação sem que o STF tenha a ver com a questão, de exclusiva responsabilidade do BC, é automaticamente apoiar a direita em sua tentativa de desmoralizar o Supremo. As atitudes no mínimo estranhas dos ministros, que dão as costas aos mais comezinhos cuidados com potenciais conflitos de interesses, como se estivessem acima do comum dos mortais, não entram nas análises dos simpatizantes.
O mesmo sentimento de invulnerabilidade parece tomar conta de alguns ministros, que se consideram responsáveis pela salvação da democracia brasileira e, portanto, merecedores de ser reverenciados por todos, mesmo quando exorbitam seus poderes. O mesmo sentimento que a História registra em líderes políticos ou militares que consideram saber o que é certo para suas populações e tornam-se ditadores.
Há um ditado atribuído a Sófocles: os deuses, quando querem punir os humanos, primeiro os enlouquecem com o poder. Oscar Wilde parafraseou a ideia dizendo que, quando os deuses desejam punir os humanos, atendem a seus desejos — e isso geralmente os leva à ruína. Um bom exemplo no caso atual é a Operação Lava-Jato. Os procuradores e o então juiz Sergio Moro ganharam tanto poder e apoio popular que atravessaram a divisória entre o lícito e o ilegal. Os ministros do Supremo, depois de anos os apoiando, passaram a demonizá-los, e a sorte virou. Foi a vez de os deuses enlouquecerem os ministros do STF, que se dedicam hoje a anular todos os processos da Lava-Jato, mesmo os crimes confessados, com dinheiro devolvido e tudo.
O empenho pessoal de alguns ministros, entre eles Gilmar Mendes e Toffoli, em fazer terra arrasada das investigações leva seus adversários a considerar que o objetivo não era conter os eventuais excessos de Curitiba, mas livrar os criminosos de colarinho branco. O problema com os nossos “deuses” do Olimpo jurídico é que eles manobram para que ninguém, ou nenhuma instituição, possa limitar seus poderes. Foi assim na criação do Conselho Nacional de Justiça, que não tem jurisdição sobre o Supremo, e é assim hoje com o código de conduta que o presidente Edson Fachin tenta criar contra a maioria silenciosa do Supremo.
(Fonte: https://oglobo.globo.com/blogs/merval-pereira/coluna/2025/12/os-deuses-estao-loucos.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha)
“EUA mergulham na ‘economia K’, entenda o que isso significa e por que é uma armadilha”
– Termo que se tornou popular na pandemia ressurge com ricos cada vez mais ricos e pobres cortando despesas.
(Por The New York Times — Nova York, O Globo, 30/12/25)
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“Os EUA enfrentam uma “economia K”, onde a disparidade econômica se acentua, com ricos gastando mais e pobres cortando despesas. O termo, difundido na pandemia, exemplifica desigualdade: enquanto ricos elevam gastos em festas, baixa renda busca descontos ou financia compras. A Moody’s aponta que os 10% mais ricos são responsáveis por quase metade dos gastos. As desigualdades persistem, evidenciando uma recuperação econômica desigual e preocupante.” (Irineu)
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+em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/12/30/eua-mergulham-na-economia-k-entenda-o-que-isso-significa-e-por-que-e-uma-armadilha.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha
Nesse rítmo, não teremos “TV maió pra assisti a copa”!
“Busca por substituto de Lewandowski e divisão de ministério ampliam desafios de Lula na segurança”
– Ministro expôs ao presidente o seu desejo de sair do cargo em uma conversa no último dia 23 no salão de autoridades do Aeroporto de Congonhas.
(Por Sérgio Roxo — Brasília, O Globo, 30/12/25)
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“A possível saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública impõe desafios a Lula, que busca um substituto e considera dividir a pasta, criando um Ministério exclusivo para Segurança Pública. A decisão é crucial, especialmente por seu impacto político e na luta contra o crime organizado. Nomes como Vinicius de Carvalho e Rodrigo Pacheco são cogitados, mas enfrentam resistências internas e do Congresso.” (Irineu)
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+em: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/30/busca-por-substituto-de-lewandowski-e-divisao-de-ministerio-ampliam-desafios-de-lula-na-seguranca.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha
Há um adágio marujo que reza: “Os ratos são os primeiros a abandonar o navio”!
“Alzheimer, diabetes, perda de peso: saiba quais são as 10 novidades da medicina previstas para 2026”
– Avanços de estudos e aprovações de novos medicamentos prometem ampliar alternativas contra doenças de alto impacto populacional no ano que vem.
(Por Bernardo Yoneshigue — Rio de Janeiro, O Globo, 30/12/25)
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“Avanços médicos previstos para 2026 prometem transformar o tratamento de doenças como Alzheimer, obesidade e diabetes. Destaques incluem pílulas para perda de peso, novos remédios para Alzheimer, terapia com células-tronco para diabetes tipo 1 e vacinas de RNA mensageiro para câncer. Além disso, o Brasil planeja lançar vacinas contra dengue e Covid, enquanto um novo medicamento para malária resistente surge no horizonte.” (Irineu)
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+em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/12/30/alzheimer-diabetes-perda-de-peso-saiba-quais-sao-as-10-novidades-da-medicina-previstas-para-2026.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha
Será que a ciência encontrará antídoto para a corrupção, essa epidemia que assolou a PeTezuela?
“‘Redoma de calor’: entenda os fenômenos climáticos que anteciparam o auge do verão no Sudeste do Brasil”
– Altas temperaturas vêm sendo intensificadas pelo excesso de umidade, que retém a radiação solar e deixa o tempo abafado, associado a um bloqueio atmosférico com ar seco sobre a região.
(Por Lucas Altino e Filipe Vidon — Rio e São Paulo, O Globo, 30/12/25)
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O Sudeste do Brasil enfrenta uma “redoma de calor” devido a uma combinação de fenômenos climáticos. Um bloqueio atmosférico, associado a ar seco e umidade elevada, intensificou as altas temperaturas típicas do verão. O Inmet emitiu alertas de ondas de calor para vários estados. A previsão é de que o clima se normalize, com calor e pancadas de chuva, mas mudanças climáticas podem intensificar eventos extremos.” (Irineu)
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+em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/12/30/redoma-de-calor-entenda-os-fenomenos-climaticos-que-anteciparam-o-auge-do-verao-no-sudeste-do-brasil.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha
Como já dizia, incansavelmente, o saudoso Joelmir Beting: “A natureza não se defende. Se vinga!”
“PF colhe depoimentos de diretor do BC, dono do Master e ex-presidente do BRB e vai decidir sobre acareação”
– Ailton de Aquino Santos, Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa serão ouvidos nesta terça-feira a partir das 14h. Os envolvidos podem participar por videoconferência.
(Por Daniel Gullino — Brasília, O Globo, 30/12/25)
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“A Polícia Federal ouvirá depoimentos de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e Ailton de Aquino Santos, diretor do Banco Central, sobre supostas fraudes bancárias. O ministro Dias Toffoli, do STF, determinou a possível (*) acareação, mas a decisão final cabe à PF. A investigação envolve a tentativa de venda do Master ao BRB e suspeitas de fraudes no valor de R$ 12 bilhões.” (Irineu)
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+em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/12/30/pf-colhe-depoimentos-de-diretor-do-bc-dono-do-master-e-ex-presidente-do-brb-e-vai-decidir-sobre-acareacao.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha
(*) Teria didi tótó, supremo advogado de notórios corruPTos, recuado?
Folha 105 (052)
“Delfim Netto questionou neoliberalismo na virada do século”
– ‘Para esse modelo, a igualdade é de menor importância’, disse economista.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
Delfim Netto (1) questionou o neoliberalismo (2), dominante na virada do século. Em 2000, o economista que havia sido ministro durante a ditadura militar (3) publicou na Folha uma reflexão sobre os limites do capitalismo: “O sistema capitalista deixa de ser funcional quando não há um relativo equilíbrio entre a liberdade, a igualdade e a eficiência produtiva”.
O texto partia de uma constatação histórica sobre as utopias, de Thomas More (4) a Karl Marx (5). Para Delfim, estava claro que “a eliminação da propriedade privada leva à ausência do mercado e à completa sujeição do indivíduo ao Estado”. O dilema central era outro: “Como construir instituições que produzam relativa igualdade sem comprometer a eficiência produtiva e a liberdade dos cidadãos?”.
Sua resposta era pragmática. “O processo democrático de resolver os conflitos (as urnas), combinado com o processo econômico que busca certa racionalidade (o mercado), parece constituir um mecanismo adaptativo eficiente”, escreveu. Essa combinação permitia acomodar “três valores não inteiramente compatíveis: liberdade, igualdade e eficácia produtiva”.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (6), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Democracia e Capitalismo (19/7/2000)
Quase todas as utopias (algumas muito pouco democráticas) fazem restrições à acumulação de riquezas. De Thomas More a Karl Marx, elas enxergaram na propriedade privada a origem da desigualdade.
O que hoje parece claro é que —de acordo com a crítica tão antiga quanto a ideia— a eliminação da propriedade privada leva à ausência do mercado e à completa sujeição do indivíduo ao Estado. A experiência soviética e de todos os seus satélites é exemplar a esse respeito.
A questão é: como construir instituições que produzam relativa igualdade sem comprometer a eficiência produtiva e a liberdade dos cidadãos? A história mostra que os regimes de economia centralizada tendem a sacrificar a eficiência produtiva e a liberdade em favor da igualdade econômica. Os regimes de economia descentralizada tendem a sacrificar a igualdade econômica em favor da eficiência e da liberdade.
A relação entre a desigualdade econômica e o crescimento é complexa. Temos três variáveis (desigualdade, crescimento e liberdade política) determinadas simultaneamente e que devem manter-se em relativo equilíbrio.
O problema da igualdade talvez seja o único ponto de sustância que hoje separa a “esquerda” da “direita”, se é que essa classificação ainda faz algum sentido, pois, dependendo do ponto de vista, é claro que os homens são iguais e desiguais ao mesmo tempo.
O processo democrático de resolver os conflitos (as urnas), combinado com o processo econômico que busca certa racionalidade (o mercado), parece constituir um mecanismo adaptativo eficiente para coordenar as três variáveis. É por isso que essa combinação tem condições de sobreviver: pode ir compondo uma sociedade que vai acomodando, pragmaticamente, três valores não inteiramente compatíveis: liberdade, igualdade e eficácia produtiva.
O estudo da história mostra uma intrigante correlação entre a liberdade política, a liberdade econômica e o desenvolvimento material. A relação não parece ser de simples causalidade, mas de possibilidade. Cada vez que os indivíduos, nos seus múltiplos papéis (de consumidor, de trabalhador, de inventor, de empresário), viveram num mundo em que a ordem política, religiosa ou militar não tinham valor exclusivo e na qual a sociedade civil não era submetida à completa tutela de um Estado autoritário, eles tenderam a encontrar formas organizacionais que privilegiavam a busca da eficácia produtiva e a pesquisa de inovações tecnológicas que caracterizam o capitalismo.
Uma coisa parece certa: o sistema capitalista deixa de ser funcional quando não há um relativo equilíbrio entre a liberdade, a igualdade e a eficiência produtiva. É isso que coloca em dúvida a sobrevivência da política neoliberal, porque, para ela, a igualdade é de menor importância. O problema é que a busca da igualdade é uma constante na história do homem.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/delfim-netto-questionou-neoliberalismo-na-virada-do-seculo.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/08/morre-o-economista-delfim-netto-aos-96-anos.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/03/como-sao-lindos-os-neoliberais-mas-tudo-e-muito-mais.shtml
(3) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/ditadura-militar/
(4) https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1710201025.htm
(5) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/karl-marx/
(6) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
“Resumão, O Globo” (I)
(Por Gabriel Cariello, 29/12/25)
Plano de recuperação dos Correios prevê fechamento de mil agências e demissão de 15 mil
O plano de recuperação dos Correios apresentado nesta segunda-feira pela diretoria da estatal prevê medidas de corte de gastos para equilibrar a situação financeira da estatal. Entre as medidas anunciadas, está o fechamento de mil agências deficitárias, e a demissão de 15 mil funcionários até 2027 (*).
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/12/29/plano-de-recuperacao-dos-correios-preve-fechamento-de-mil-agencias-e-demissao-de-15-mil-funcionarios-veja-pontos.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (II)
(Por Gabriel Cariello, 29/12/25)
Banco Central apresenta ao TCU informações sobre processo de liquidação do Banco Master
O Banco Central (BC) apresentou nesta segunda-feira ao Tribunal de Contas da União (TCU) esclarecimentos sobre o processo de liquidação do Banco Master. O protocolo das informações atendeu a uma determinação do ministro Jhonatan de Jesus (*). Os documentos serão analisados primeiro pela unidade técnica do TCU, e depois serão encaminhados ao relator. O processo está sob sigilo, também por determinação de Jhonatan.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/12/29/banco-central-apresenta-ao-tcu-informacoes-sobre-processo-de-liquidacao-do-banco-master.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (III)
(Por Gabriel Cariello, 29/12/25)
Inmet amplia alerta de calor extremo para Rio, SP e Minas; altas temperaturas seguem até terça
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) ampliou, nesta segunda-feira, o aviso de “calor de grande perigo” para as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Segundo o órgão, as altas temperaturas permanecem até terça nos estados de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso do Sul (*). Após dias de calor intenso e tempo seco, provocados pela atuação de um bloqueio atmosférico, as instabilidades voltam a ganhar força e passam a se espalhar com mais facilidade pelo país no início de 2026.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/blogs/clima-extremo/post/2025/12/inmet-amplia-alerta-de-calor-de-grande-perigo-para-rio-sp-e-minas-altas-temperaturas-seguem-ate-terca.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (IV)
(Por Gabriel Cariello, 29/12/25)
Polícia do Paraguai encontra tornozeleira de Silvinei Vasques em rodoviária na fronteira com o Brasil
A polícia paraguaia encontrou a tornozeleira eletrônica que era usada pelo ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques (*) em uma rodoviária na Cidade do Leste, cidade do Paraguai que fica na fronteira com o Brasil. O equipamento foi rompido pelo ex-chefe da PRF antes de tentar fugir com um passaporte falso na semana passada. A tornozeleira será encaminhada para a Polícia Federal para a realização de perícia.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/29/policia-do-paraguai-encontra-tornozeleira-de-silvinei-vasques-em-rodoviaria-de-cidade-do-leste-na-fronteira-com-o-brasil.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (V)
(Por Gabriel Cariello, 29/12/25)
Ex-embaixador dos EUA diz que Trump descartou Bolsonaro após vê-lo como ‘perdedor’
O recuo dos Estados Unidos em medidas duras adotadas contra o Brasil, como a imposição de tarifas comerciais e a inclusão de autoridades do Judiciário brasileiro na lista de sanções da Lei Magnitsky, teve menos a ver com ganhos diplomáticos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e mais com o perfil imprevisível de Donald Trump e sua mudança de percepção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A avaliação é do ex-embaixador americano John Feeley, um dos principais especialistas em América Latina do Departamento de Estado nas últimas décadas. À BBC News Brasil, Feeley afirmou que Trump abandonou Bolsonaro assim que o ex-presidente brasileiro deixou de ser politicamente útil (*).
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/29/ex-embaixador-dos-eua-diz-que-trump-descartou-bolsonaro-apos-ve-lo-como-perdedor.ghtml
. . .”A entrada em vigor da reforma fiscal em 2026 é apresentada como solução histórica para o caos tributário brasileiro. No entanto, o texto aprovado e sua regulamentação indicam que a simplificação não virá acompanhada de redução do peso do Estado, pelo contrário. A reforma reorganiza tributos, mas não enfrenta o problema central: o nível excessivo de gastos públicos.”. . .
“O horizonte incerto de 2026”
(Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade, Coluna Visto, lido e ouvido, Blog do Ari Cunha, CB, 28/1225)
O ano de 2025 encerra-se no Brasil não como um período de consolidação, mas como um ponto de inflexão. Longe do discurso oficial de estabilidade e reconstrução, os fatos revelam um país institucionalmente tensionado, economicamente pressionado e socialmente anestesiado por políticas de curto prazo. O Brasil que entra em 2026 não é o retrato otimista apresentado em palanques e peças publicitárias, mas uma nação que convive com crescimento baixo, endividamento crescente, desconfiança institucional e um Estado cada vez mais caro e menos eficiente. Embora indicadores pontuais tenham sido usados para sustentar a narrativa de recuperação econômica em 2025, a análise fria dos dados mostra um quadro bem mais modesto.
O crescimento do PIB permaneceu anêmico, sustentado, majoritariamente, por consumo financiado, gastos públicos e programas de transferência de renda, não por aumento consistente de produtividade, investimento privado ou inovação. A taxa básica de juros manteve-se em patamar elevado durante praticamente todo o ano, reflexo direto da desconfiança do mercado em relação à política fiscal. O discurso de responsabilidade não se traduziu em prática: despesas obrigatórias continuaram a crescer, novas renúncias e subsídios foram criados e o arcabouço fiscal mostrou-se incapaz de impor disciplina real ao gasto público. O resultado foi previsível: dívida pública em trajetória ascendente; Inflação resistente, especialmente em serviços; crédito mais caro e restrito para famílias e empresas; investimento privado contido, sobretudo fora dos setores favorecidos pelo Estado. Para o cidadão comum, o impacto foi direto: custo de vida alto, endividamento recorde das famílias e perda gradual de poder de compra, mascarada por auxílios que não corrigem distorções estruturais.
A entrada em vigor da reforma fiscal em 2026 é apresentada como solução histórica para o caos tributário brasileiro. No entanto, o texto aprovado e sua regulamentação indicam que a simplificação não virá acompanhada de redução do peso do Estado, pelo contrário. A reforma reorganiza tributos, mas não enfrenta o problema central: o nível excessivo de gastos públicos. Ao contrário, o desenho do novo sistema cria condições para elevação silenciosa da carga tributária, sobretudo sobre consumo e serviços, exatamente onde estão as classes média e trabalhadora. Empresas menores, prestadores de serviços e profissionais liberais tendem a ser os mais afetados, enquanto setores com maior capacidade de lobby preservam benefícios.
A promessa de neutralidade arrecadatória carece de credibilidade diante da realidade fiscal do país. Em 2026, o cidadão sentirá os efeitos de forma concreta dos preços ajustados ao novo modelo, dos repasses de custos ao consumidor final, do aumento da complexidade na fase de transição e da maior dependência de arrecadação para sustentar o gasto público crescente. Um dos dados mais reveladores de 2025 é o número de brasileiros dependentes, direta ou indiretamente, de programas assistenciais. Longe de ser apenas uma política de proteção social, o modelo atual consolidou um sistema de dependência permanente, sem contrapartidas efetivas de qualificação, produtividade ou emancipação econômica. O Estado ampliou sua presença como provedor, mas não como indutor de autonomia. O resultado é um país com baixa mobilidade social, mercado de trabalho informal persistente, estímulos distorcidos à produtividade e o uso político da assistência social.
Em 2026, esse modelo torna-se ainda mais delicado, pois coincide com ano eleitoral, aumentando o risco de expansão de gastos sem lastro fiscal e com objetivos claramente eleitorais. A CPMI do INSS, que poderia representar um divisor de águas no combate a fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas, caminha para um desfecho frustrante. Após meses de trabalhos, o que se viu foi a diluição de responsabilidades, a postergação de decisões e a tentativa clara de encerrar o tema sem enfrentar os verdadeiros beneficiários do esquema. Fraudes sistemáticas, descontos indevidos, conivência de instituições financeiras e falhas graves de fiscalização vieram à tona, mas sem consequências proporcionais à gravidade dos fatos. A tendência para 2026 é que o relatório final resulte em recomendações genéricas, sem responsabilização criminal efetiva ou reformas estruturais profundas.
Para milhões de brasileiros, a mensagem é clara: o Estado falhou em proteger quem mais depende dele e não demonstrou disposição real de corrigir o sistema. O colapso do Banco Master foi mais do que um escândalo financeiro: foi um alerta sobre a fragilidade da supervisão bancária e a politização das instituições de controle. Operações temerárias, emissão de títulos sem lastro e falhas graves de fiscalização expuseram um sistema que reage tardiamente e protege-se corporativamente. A liquidação extrajudicial, os atrasos no ressarcimento de credores e o empurra-empurra entre Banco Central, Judiciário e órgãos de controle corroeram a confiança no sistema financeiro e regulatório. Em 2026, os efeitos persistem do passado recente com a judicialização prolongada, a insegurança para investidores, os questionamentos sobre a independência real dos reguladores e o desgaste institucional profundo. O episódio reforça a percepção de que, no Brasil, a punição é exceção, não regra, especialmente quando interesses políticos e financeiros se entrelaçam.
Politicamente, 2025 aprofundou a polarização e enfraqueceu a confiança nas instituições. O discurso de “nós contra eles” não apenas permaneceu, como foi incorporado à lógica de governabilidade. O Congresso opera sob chantagem orçamentária, o Judiciário assume protagonismo excessivo, e o Executivo governa por narrativas. A consequência é um ambiente de instabilidade crônica, no qual decisões estratégicas são adiadas, reformas estruturais evitadas e o debate público empobrecido. Em 2026, ano eleitoral, esse cenário tende a se agravar. A disputa não será por projetos de país, mas por controle de narrativas, máquinas estatais e alianças circunstanciais. O cidadão, mais uma vez, assiste como espectador de um jogo que não resolve seus problemas concretos.
O Brasil que entra em 2026 não colhe os frutos de um ciclo virtuoso, mas paga o preço de escolhas políticas baseadas em curto prazo, expansão do Estado e negligência fiscal. A reforma tributária não resolve o gasto excessivo. O assistencialismo não gera autonomia. As investigações não produzem justiça. E as instituições mostram sinais claros de desgaste. O desafio do cidadão brasileiro em 2026 será sobreviver economicamente, manter senso crítico e exigir responsabilidade, num ambiente onde promessas abundam, mas resultados concretos escasseiam. Mais do que esperança, o momento exige lucidez. Mais do que discursos, exige fatos. E mais do que alinhamentos ideológicos, exige verdade.
A frase que foi pronunciada:
“As leis são teias de aranha por onde passam as moscas grandes e as pequenas ficam presas.” (Honoré de Balzac)
(Fonte: https://blogs.correiobraziliense.com.br/aricunha/o-horizonte-incerto-de-2026/)
“Careca do INSS: mensagem revela “orientação” a atual assessor de Lula”
– Careca do INSS fez lobby no Ministério da Saúde ao lado de amiga de Lulinha alvo da Polícia Federal.
(Tácio Lorran e Manuel Marçal, Metrópoles, 29/12/25)
Uma mensagem recebida por Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e, em seguida, encaminhada a um interlocutor revela novos indícios da atuação do lobista no Ministério da Saúde. Os registros da conversa estão em posse da Polícia Federa (PF).
Em 6 de novembro de 2024, o Careca do INSS encaminha uma mensagem a um contato dele. “Berger já está com aquela orientação em mãos”, diz o texto repassado pelo lobista. Berger é o apelido de Swedenberger Barbosa (foto em destaque), então secretário-executivo do Ministério da Saúde e atual chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do gabinete pessoal do presidente Lula.
O Careca do INSS tentou fechar um acordo, por meio da sua empresa World Cannabis, com o Ministério da Saúde para o fornecimento, sem licitação, de medicamentos à base de canabidiol para o Sistema Único de Saúde (SUS). Nessa empreitada, contou com a ajuda formal da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT).
Dados obtidos pela coluna por meio de Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que o Careca do INSS visitou a secretaria-executiva do Ministério da Saúde, sob a gestão de Swedenberger Barbosa, pelo menos cinco vezes ao longo dos últimos dois anos. A primeira agenda ocorreu em março de 2024; e a última, em fevereiro deste ano.
Registros de portaria do Ministério da Saúde mostram ainda que o lobista e Roberta Luchsinger estiveram juntos na sede da pasta para falar sobre cannabis com Berger.
Por meio de nota, Swedenberger Barbosa, afirmou que as reuniões constaram na agenda pública e que se trataram de visitas institucionais. “A agenda ocorreu em conformidade com as atribuições da sua função à época, sem que tenha havido qualquer tipo de ‘orientação’ para a sua realização”, explicou a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República.
O ex-número 2 do Ministério da Saúde destacou ainda que não houve interesse da pasta em adquirir qualquer produto ou serviço da World Cann. “O encontro não teve nenhum desdobramento, o que evidencia sua condução técnica e afasta a tese de qualquer tipo de influência política”.
Swedenberger Barbosa deixou o Ministério da Saúde em março deste ano, após Alexandre Padilha (PT) assumir o comando da pasta no lugar de Nísia Trindade, em meio a mais uma etapa da reforma ministerial encampada pelo presidente Lula.
Outra mensagem em posse da Polícia Federal mostra como o Careca do INSS tinha contatos nos bastidores com pessoas influentes em Brasília. Conforme mostrou a coluna ainda em janeiro deste ano, quando Padilha era apenas cotado para assumir o Ministério da Saúde, Antonio Carlos Camilo Antunes cravou que o petista assumiria a pasta.
No texto enviado pelo WhatsApp a um interlocutor, o empresário informa sobre a mudança no comando da pasta e acrescenta: “Nossos projetos foram assumidos pelo novo ministro.. Ficou melhor… [sic]”. No mesmo texto, o Careca o INSS afirma que Berger seria o novo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que não se concretizou.
Em nota à coluna, o Ministério da Saúde ressaltou que Padilha foi anunciado como titular da Saúde em 25 de fevereiro e que qualquer afirmação antes disso é mera especulação. “O produto mencionado [cannabis medicinal] sequer está incorporado ao SUS, nenhuma compra foi realizada e não existe qualquer processo dentro do Ministério da Saúde para a sua inclusão ou oferta.”
As conversas de Roberta Luchsinger com o Careca do INSS
Alvo da PF na nova fase da Operação Sem Desconto, Roberta Luchsinger enviou mensagens ao Careca do INSS, para ele emitir um comunicado desvinculando-se da DuoSystem. O motivo era a preocupação com repórteres do Metrópoles que apuravam o assunto. Ela também mandou mensagem recomendado que o lobista jogasse fora o telefone celular.
A intenção dela seria destruir provas que pudessem incriminá-los. “Antonio, some com esses telefones. Joga fora”, escreveu-lhe Roberta Luchsinger em 29 de abril deste ano. Não bastou: a PF prendeu o lobista, alguns meses depois, em 12 de setembro de 2025.
Segundo a PF, Roberta recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS. Em uma dessas transferências, ele explicou que o dinheiro era para “o filho do rapaz”, possivelmente referindo-se a Lulinha.
O presidente Lula, por sua vez, ao ser questionado sobre o assunto, declarou à imprensa: “Se tiver filho meu metido nisso, será investigado”.
Ao prestar depoimento para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS em setembro deste ano, Antonio Camilo Antunes admitiu que teve negócios com Roberta Luchsinger, mas a consultoria, segundo disse, “não prosperou”.
O que diz Swedenberger Barbosa sobre a “orientação” citada por Careca do INSS
Por meio de nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República informou:
“Mesmo sem tido acesso à suposta troca de mensagens citada na reportagem, Swedenberger Barbosa esclarece que recebeu representantes das empresas World Cann e Duosistem, para visita institucional devidamente registrada em sua agenda pública, em janeiro de 2025, quando ocupava o cargo de secretário executivo do Ministério da Saúde. A agenda ocorreu em conformidade com as atribuições da sua função à época, sem que tenha havido qualquer tipo de “orientação” para a sua realização. Como não houve interesse do ministério em adquirir qualquer produto ou serviço dessas empresas, o encontro não teve nenhum desdobramento, o que evidencia sua condução técnica e afasta a tese de qualquer tipo de influência política”.
(Fonte: https://www.metropoles.com/colunas/tacio-lorran/careca-do-inss-mensagem-revela-orientacao-a-atual-assessor-de-lula)
Tudo dominado!
“PGR diz que contrato de esposa de Moraes com Master não configura “ilicitude”
– Paulo Gonet determinou o arquivamento de pedido de investigação sobre conduta do ministro Alexandre de Moraes no caso Master.
(Gabriella Furquim, Metrópoles, 29-/12/25)
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, determinou o arquivamento de um pedido de investigação sobre a possível atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no caso do Banco Master.
Uma das justificativas para a apuração era o contrato firmado entre a instituição financeira e o escritório comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Ao arquivar o pedido, Gonet afirmou que, sobre o contrato, “não se vislumbra, a priori, qualquer ilicitude que justifique a intervenção desta instância”.
Gonet também destacou que “refoge ao escopo de atuação e à competência da Suprema Corte a ingerência em negócios jurídicos firmados entre particulares, especialmente quando resguardados pela autonomia intrínseca à atividade liberal da advocacia”.
Por fim, ao determinar o arquivamento do pedido apresentado pelo advogado Enio Martins Murad, Gonet afirmou que “o noticiário citado [no pedido de investigação] não ostenta densidade suficiente para mobilizar o aparato da Procuradoria-Geral da República”.
O contrato do escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master totalizava R$ 129 milhões. O montante seria pago em 36 meses, a partir do início de 2024, ou seja, o banco pagaria, por mês, R$ 3,6 milhões ao escritório Barci de Moraes Advogados.
(Fonte: https://www.metropoles.com/colunas/dinheiro-e-negocios/pgr-diz-que-contrato-de-esposa-de-moraes-com-master-nao-configura-ilicitude)
Alguém tinha alguma dúvida que não iria dar em nada?
Síntese: esbanJANJAndo aLULAdamente, como sempre!
“Contas do governo federal têm déficit de R$ 20,2 bilhões em novembro”
– No acumulado de janeiro a novembro deste ano, o resultado do governo registrou um déficit primário de 83,8 bilhões de reais.
(Guilherme Resck, O Antagonista, 29/12/25)
O governo federal apresentou um déficit primário de 20,2 bilhões de reais em novembro de 2025, ante um déficit de 4,5 bilhões de reais no mesmo mês do ano anterior (em termos nominais), segundo dados divulgados nesta segunda-feira, 29, pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) (*).
O déficit primário ocorre quando as receitas do governo são menores que suas despesas, excluindo o pagamento de juros e amortização da dívida pública.
Segundo a STN, o déficit do mês passado ficou acima da mediana das expectativas da pesquisa Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda, que apontava para um resultado negativo de 12,7 bilhões de reais.
“O resultado conjunto do Tesouro Nacional e do Banco Central foi superavitário em 1,1 bilhão de reais, enquanto a Previdência Social (RGPS) apresentou um déficit de 21,3 bilhões de reais. Comparado a novembro de 2024, o resultado primário decorreu da combinação de um decréscimo real de 4,8% da receita líquida (-8,4 bilhões de reais) e de um crescimento de 4% das despesas totais (+7,1 bilhões de reais)”, prossegue o comunicado.
Ainda de acordo com a STN, a diminuição da receita líquida no mês passado refletiu, principalmente, uma redução de 52,5% das Receitas Não Administradas (-16,7 bilhões de reais), por causa da queda nos recebimentos de Dividendos e Participações (-6,9 bilhões de reais), Concessões e Permissões (4,7 bilhões de reais) e Demais (-5,7 bilhões de reais).
“No caso das participações societárias, houve, em novembro de 2024, o ingresso de 6,1 bilhões de reais provenientes do BNDES (a preços de novembro de 2025), sem contrapartida em novembro de 2025. A redução em concessões decorreu do recebimento, em novembro de 2024, de recursos referentes às outorgas de usinas hidrelétricas no âmbito do processo de desestatização da COPEL, no montante de 4,3 bilhões de reais (a preços de novembro de 2025), sem contrapartida em 2025”, explica a secretaria.
“Em sentido oposto, as Receitas Administradas pela Receita Federal e a Arrecadação Líquida para o Regime Geral da Previdência Social mantiveram crescimento na margem. Os recolhimentos administrados pela Receita Federal cresceram 5,2%, liderados pela arrecadação líquida do IRPJ (+
2,4 bilhões de reais), do IRRF-Rendimentos do Trabalho (+1,3 bilhão de reais), além do IOF (+2,6 bilhões de reais) e da Cofins (+1,8 bilhão de reais)”.
O comunicado ressalta que o aumento real nas despesas primárias em novembro de 2025 concentrou-se nas despesas Discricionárias do Poder Executivo (+3,9 bilhões de reais), majoritariamente em ações da função Saúde (3,2 bilhões de reais), e nos pagamentos de Benefícios Previdenciários (+3 bilhões de reais), explicado pelo aumento da quantidade de beneficiários e pelos reajustes reais do salário-mínimo.
No acumulado de janeiro a novembro deste ano, o resultado do governo federal registrou um déficit primário de 83,8 bilhões de reais, ante um déficit de 67 bilhões no mesmo período de 2024 (em termos nominais).
“O resultado conjugou um superávit de 244,5 bilhões de reais do Tesouro Nacional e do Banco Central e um déficit de 328,3 bilhões de reais na Previdência Social (RGPS). Em termos reais, a receita líquida cresceu 2,9% (+60,2 bilhões de reais), enquanto a despesa avançou 3,4% (+71,9 bilhões de reais)”, acrescenta a STN.
(Fonte: https://oantagonista.com.br/economia/contas-do-governo-federal-tem-deficit-de-r-202-bilhoes-em-novembro/)
(*) https://www.tesourotransparente.gov.br/publicacoes/boletim-resultado-do-tesouro-nacional-rtn/2025/11
Folha 105 (051)
“Milton Santos disse ver um ‘apartheid à brasileira'”
– ‘O assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega’, escreveu o geógrafo.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
O geógrafo Milton Santos (1) escreveu que a curiosidade sobre “como é ser negro (2) em outros lugares” muitas vezes vinha como fuga. “Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é?”, disse em coluna publicada na Folha, em 2000.
Segundo o geógrafo, a própria vida o tinha levado a viver em “quatro continentes” e que cada vivência foi diferente. No Brasil havia uma história longa em que “o trabalho do negro” foi “essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes”, o que ajudou a moldar “uma ética conservadora e desigualitária”.
Ele também apontou como o debate se desviava. “Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos”, criticou, ao dizer que o enfrentamento virava “uma situação escorregadia”.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (3), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Ser negro no Brasil hoje (7/5/2000)
Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar se isso é diferente de ser negro no Brasil.
As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador.
Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas.
Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e que não é igualitária.
Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos —paradoxalmente contra as vítimas.
Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e mesmo não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.
500 anos de culpa
Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa.
Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República [Fernando Henrique Cardoso] considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira.
Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente.
Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais, e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional?
Que outras reflexões podem ser feitas, quando se aproxima o aniversário da abolição da escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?
Hipocrisia permanente
No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro.
Esse equívoco pode ser resumido no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo.
Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário.
Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é?
Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições.
Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há sempre o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.
Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania.
A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.
Costuma-se dizer que uma diferença entre os EUA e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor.
Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar.
No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático.
Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro —imagem fácil— e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva.
Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.
Olhar enviesado
Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em “faits-divers”, em lugar de aprofundar as análises.
A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago.
E há também a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver “subido na vida”.
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios.
A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/milton-santos-disse-ver-um-apartheid-a-brasileira.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/colunas/itamar-vieira-junior/2021/06/milton-santos-morto-ha-20-anos-nos-convida-a-construir-uma-outra-globalizacao.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/11/brasil-vive-apropriacao-continuada-de-poder-com-empecilho-para-negros-na-politica-diz-ativista.shtml
(3) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
“Master: Acareação de Toffoli ajuda plano da defesa para desmontar investigação de fraude”
– Ministro marcou acareação para confrontar versões que ainda nem foram apresentadas e colocou BC no mesmo patamar de investigados.
(Por Malu Gaspar — Brasília, O Globo, 29/12/25)
Depois de conseguir o envio da investigação sobre o Master para o Supremo Tribunal Federal e a decretação de sigilo absoluto no caso, a próxima etapa da estratégia de defesa do banco já está em andamento. O objetivo é minar a credibilidade do Banco Central e desmontar o trabalho que levou à liquidação do Master para revertê-la e, no limite, quem sabe até receber algum tipo de ressarcimento.
O plano já foi desenhado pelos advogados do Master nas manifestações feitas tanto ao próprio Supremo como ao Tribunal de Contas da União, no processo em que o ministro Jhonatan de Jesus pediu esclarecimentos ao BC sobre a “decisão extrema” de liquidar o banco de Vorcaro.
Para que o estratagema dê certo, porém, é preciso criar fatos para justificar uma decisão de Toffoli contra os diretores e técnicos do BC. O histórico do ministro autoriza supor que ele tem chance de prosperar.
Desde que embarcou no jatinho de um amigo empresário junto com o advogado de um dos investigados no caso para ir a Lima assistir a final da Libertadores, Toffoli vem seguindo à risca o script da defesa.
Nos últimos dias, ele já negou tanto o pedido da Procuradoria-Geral da República como o do próprio BC para suspender a acareação entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino.
Disse, ainda, que Aquino não é investigado.
Mas colocou os três em pé de igualdade em um procedimento que em tese deveria servir para confrontar versões, mas que se configura esdrúxulo, uma vez que não existe ainda versão alguma, já que ninguém prestou depoimento ainda.
Decisão unânime
Supondo que Toffoli esteja de fato interessado em saber como o Banco Central atuou nesse caso, seria conveniente tentar entender pelo menos como se chegou à decisão de liquidar o Master.
Primeira informação útil: a liquidação foi decidida com a aprovação unânime da diretoria colegiada do BC, incluindo o voto sim do presidente, Gabriel Galipolo, que em princípio não precisava se manifestar, já que os outros oito diretores eram a favor. A responsabilidade, portanto, é de toda a cúpula da autarquia.
E ainda: de todos, quem mais resistiu à ideia da liquidação foi o próprio Ailton Aquino, da fiscalização. Internamente no BC e no sistema financeiro, Aquino era visto como um aliado do Master.
Registros do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), sustentado por recursos dos próprios bancos, mostram que houve 38 comunicados oficiais sobre os riscos de liquidez, furos no balanço do Master e outras questões que deveriam levar a uma ação mais contundente do órgão regulatório.
Quase todos os alertas eram dirigidos à área de Aquino, e muitos foram feitos em reuniões presenciais. Duas pessoas que participaram desses encontros me relataram que a atitude do diretor era sempre a de minimizar os problemas – que foram só se agravando ao longo do tempo.
A discussão em torno de uma atitude mais drástica em relação ao Master, como intervir ou liquidar, só começou a ganhar corpo a partir de março de 2025, quando o BRB anunciou que compraria 58% do banco de Daniel Volrcaro mas o deixaria comandando a instituição. Era na prática um mero salvamento, já que a venda não garantiria o controle para o BRB.
Foi no processo de análise dessa operação que outra diretoria, a de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, encontrou as fraudes nos contratos de crédito consignado que avalizaram o repasse de R$ 12, 2 bilhões do BRB para o Master pela venda da carteira, antes mesmo da fusão dos dois bancos.
A partir daí deu-se um racha interno, com a área de Renato Gomes propondo intervir no Master e a de Aquino tentando encontrar uma solução que permitisse ao banco seguir operando. Portanto, o integrante do BC que mais conhece as fraudes e seu mecanismo não é Aquino, e sim Gomes, que até já terminou o mandato.
Os depoimentos ainda não foram marcados, mas há uma tensão entre os técnicos do BC sobre a possibilidade de serem chamados a depor, por temerem sofrer algum tipo de intimidação.
Conforme já publicamos, esses mesmos técnicos informaram aos investigadores do Ministério Público e da Polícia Federal que nunca tinham sofrido tanta pressão política em favor de um único banco como no caso do Master.
Enquanto esse embate interno se dava, em julho de 2025, ocorreu uma reunião em que o ministro do STF Alexandre de Moraes pediu a Galipolo pelo Master. Moraes, cuja mulher tem um contrato de prestação de serviços jurídicos de R$ 130 milhões com o banco, disse gostar de Vorcaro e recorreu a um argumento muito usado à época – o de que o banqueiro vinha sendo perseguido pelos grandes que não queriam concorrência. Ao ser informado por Galípolo de que o BC havia descoberto as fraudes, Moraes recuou e disse que tudo precisava ser investigado.
Desde então, o Master também parou de fazer os depósitos compulsórios para o caixa do BC determinados por lei, além de pedir ao FGC a abertura de linhas de créditos – dois indícios flagrantes de problemas de liquidez.
Dois dias antes de a liquidação ser decretada e Vorcaro ser preso, o dono do Master pediu para antecipar uma reunião com Aquino para dizer que tinha encontrado compradores para seu banco, um consórcio entre a financeira Fictor e um fundo árabe que ele nunca soube qual era.
Depois da prisão na área de embarque do aeroporto de Guarulhos, o registro da reunião foi usado pela defesa de Vorcaro para argumentar que ele tinha avisado ao BC que viajaria para Dubai e que portanto não poderia estar fugindo. O ofício com o registro, assinado por Aquino, foi fundamental para que Vorcaro fosse tirado da cadeia e enviado à prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Se queria mesmo entender como foi feito o trabalho dos técnicos da autarquia, Toffoli deveria ter convocado ao menos os dois diretores – e não apenas o mais próximo de Vorcaro. Diante desse quadro, os representantes legais do BC acusaram o risco de “armadilhas processuais” e pediram o cancelamento da acareação.
A quem pergunta, nos bastidores, o ministro tem tentado convencer de que que não vai aliviar a situação do Master. Até agora, porém, o que se viu foi o contrário. Parece que Toffoli está mais interessado nessa acareação do que na vitória do Palmeiras em Lima. Seu time, aliás, perdeu o título para o Flamengo. Mas o de Vorcaro só tem tido vitórias.
(Fonte: https://oglobo.globo.com/blogs/malu-gaspar/post/2025/12/acareacao-de-toffoli-ajuda-plano-da-defesa-do-master-para-desmontar-investigacao-de-fraude.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariamanha)
A ovelha cuidando dos lobos? Coitada!
“Lula fecha 2025 reprovado por 50,9% e avaliado ruim/péssimo por 42,8%”
– Presidente petista tem aprovação de apenas 45,6% dos eleitores ouvidos em pesquisa nacional.
(Davi Soares, Diário do Poder, 29/12/25)
O presidente Lula (PT) fechará o ano de 2025 com uma reprovação de 50,9% de seu governo entre eleitores de todo o Brasil. Além disso, 42,8% dos brasileiros que apreciarão o projeto de reeleição do petista avaliam a administração de Lula como ruim (8%) e péssima (34,8%). A conclusão está nos números da pesquisa do instituto Paraná Pesquisas, divulgados nesta segunda-feira (29).
Lula iniciará o ano eleitoral de 2026 com uma aprovação de apenas 45,6% de seu governo entre os eleitores ouvidos na última pesquisa nacional deste fim de ano. A avaliação regular de seu governo foi de 23,1%. E 32,7% avaliam a administração petista como ótima (12,9%) e boa (19,8%).
A Paraná Pesquisas ouviu 2038 eleitores em 163 municípios de 26 Estados e no Distrito Federal. Uma amostra representativa do Brasil que atinge um grau de confiança de 95,0% para uma margem estimada de erro de 2,2 pontos percentuais para os resultados gerais.
Veja os números em:
https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/lula-fecha-2025-reprovado-por-509-e-avaliado-ruim-pessimo-por-428
“Um amante de gatos”
Especialista em factóides, Jânio Quadros visitou certa vez o diplomata Guimarães Rosa. Instalado na sala do célebre autor de “Grande Sertão: Veredas”.
Jânio notou que havia uma grande quantidade de gatos:
– Por que tantos gatos? Em geral as pessoas preferem cachorros…
Guimarães Rosa respondeu sem hesitações:
– Porque os gatos são muitos mais fiéis ao dono. Já os cachorros se parecem com certos diplomatas, abanam a cauda para qualquer autoridade.
(Poder sem pudor, Coluna CH, DP, 29/12/25)
“Na CPMI do INSS, escândalo STF/Master rivaliza com esquemas Lulinha e o Careca”
(Cláudio Humberto, Coluna CH, DP, 29/12/25)
A CPMI do roubo bilionário aos aposentados e pensionistas deve retomar as atividades, logo após o recesso, priorizando a investigação do envolvimento de Fábio Luís, o “Lulinha”, filho de Lula (PT), no escândalo. Será páreo duro com as investigas que estão previstas com revelações suspeitas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o banqueiro Daniel Vorcaro e seu Banco Master, acusado de lesar milhares de investidores e com explicações sobre empréstimos consignados.
Perdeu a paciência
A cúpula da CPMI prevê abandonar o “pudor institucional” após decisões de Toffoli e o contrato milionário da esposa de Moraes com o Master.
Roubo recorde
O relator da CPMI já revelou a estimativa de que foram roubados dos idosos, em consignados não autorizados, mais de R$90 bilhões.
Veto vai render
A CPMI quebrou sigilos do banco Master, para investigar consignados, mas o ministro Dias Toffoli proibiu acesso da comissão aos documentos.
Mensalão na mira
A CPMI também investiga a revelação de que Lulinha recebia mensalão de R$300 mil de Antonio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
(Fonte: https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/na-cpmi-do-inss-escandalo-stf-master-rivaliza-com-esquemas-lulinha-e-o-careca)
Folha 105 (050)
“Celso Pinto defendeu debate técnico sobre o salário mínimo”
– ‘Esse tipo de discussão não dá voto’, escreveu o colunista.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
O jornalista Celso Pinto (1) tentou tirar o tema do salário mínimo (2) do palanque. Ele escreveu que, por trás da “demagogia política oportunista”, havia dois problemas concretos, “um problema social e um problema fiscal”, e que era possível “rechear a discussão com dados objetivos”.
A coluna publicada na Folha, em 2000, trouxe à cena uma fala do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo. Numa conversa com economistas e jornalistas, em São Paulo, Amadeo (3) afirmou que o aumento do mínimo tinha efeito social relevante e lembrou que, em 1995, quando o reajuste ficou “bem acima da inflação”, “a pobreza despencou”.
Segundo ele, o canal mais forte não era, necessariamente, o mercado de trabalho, mas a Previdência (4). “Um dos canais mais importantes” era o impacto sobre “os 12 milhões de aposentados que ganham um salário mínimo”, o que fazia o benefício funcionar, na prática, como uma espécie de renda mínima.
O ponto de atrito, escreveu Pinto, era que a Previdência também se tornava a conta fiscal mais pressionada. Ele citou o Orçamento da União daquele ano, que já previa alta de 5,66% nas despesas da Previdência por conta do reajuste, e afirmou que qualquer discussão fiscal precisava começar acima desse patamar.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (5), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
O mínimo, sem demagogia (20/2/2000)
O que está por trás da demagogia política oportunista, na discussão do salário mínimo, é um problema social e um problema fiscal. Nos dois casos, é possível rechear a discussão com dados objetivos.
Não é possível, por exemplo, negar que um aumento do mínimo tem um impacto social importante. O primeiro a reconhecer isso é o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo. Numa conversa com economistas de bancos e alguns jornalistas, sexta-feira, em São Paulo, ele deixou isso cristalino.
Em 95, lembrou, quando houve um aumento do salário mínimo bem acima da inflação, “a pobreza despencou”. Não tanto pelo impacto do mínimo mais alto no mercado de trabalho, como muitos imaginam, mas pelo seu impacto sobre a Previdência Social.
“Um dos canais mais importantes pelo qual o salário mínimo maior reduz a pobreza é seu impacto sobre os 12 milhões de aposentados que ganham um salário mínimo”, observou. Ele não disse, mas poderia ter dito, que o salário mínimo da aposentadoria funciona largamente como uma espécie de programa de renda mínima nas áreas mais pobres do Brasil.
O problema é que a Previdência é exatamente a conta fiscal que mais sofreria com um aumento do salário mínimo. Também nesse caso, contudo, existem números.
Antes de mais nada, é preciso levar em conta que o Orçamento da União deste ano (ainda não aprovado pelo Congresso) já prevê um aumento de exatos 5,66% nas despesas da Previdência, por conta de um aumento no salário mínimo. Quer dizer, se o aumento do mínimo for esse, não trará qualquer problema fiscal, pois o Orçamento, com ele, já é superavitário. Qualquer discussão sobre o impacto fiscal do aumento do salário mínimo deve começar com um índice superior a 5,66% para fazer sentido.
Apenas como um exercício, tome-se como parâmetro a bandeira oportunista do PFL de um salário mínimo de US$ 100. Aliás, é curioso imaginar o efeito prático de o PFL ou a governadora pefelista do Maranhão usarem o dólar como parâmetro para o mínimo, num regime de câmbio flutuante. Suponhamos que, em primeiro de maio, o dólar esteja a R$ 1,75 e seja fixado em R$ 175,00 o mínimo no Maranhão. Se, em julho, o dólar subir para R$ 2,00, haveria greve geral justa pela sua elevação para R$ 200,00? E se cair para R$ 1,60, o governo cobraria a diferença?
A cotação do dólar, sexta-feira, estava em R$ 1,77. Se o mínimo fosse fixado em US$ 100, a esta cotação, ficaria em R$ 177,00, ou 30% acima do valor atual de R$ 136,00. Qual seria o impacto fiscal?
José Guilherme Reis, do Planejamento, diz que cada 1% de aumento do mínimo representaria um gasto adicional de R$ 117 milhões neste ano, na Previdência, se ele fosse aplicado apenas aos benefícios atrelados ao mínimo (e que teriam maior impacto positivo sobre a pobreza). Se o benefício fosse ampliado para todos, o custo seria de R$ 304 milhões. Em 12 meses, o custo, na primeira hipótese, seria de R$ 191 milhões e, na segunda, de R$ 540 milhões.
O governo já vem diferenciando o aumento da Previdência para favorecer os que têm ganhos atrelados ao mínimo. Poderia, portanto, limitar o alcance do benefício.
O impacto fiscal não seria de todos os 30%, porque um aumento de até 5,66% já está absorvido no Orçamento da União. Seria, portanto, de 23% a mais, ou R$ 2,7 bilhões neste ano.
Fazendo outro exercício hipotético, suponhamos que a inflação, medida pelo IPCA, fique em 7% nos 12 meses encerrados em abril. Suponhamos, ainda, que o governo resolva dar um aumento de 14% para a Previdência, o dobro da inflação passada. Neste caso, o mínimo iria para R$ 155,00, ou 7,9% além do programado, com um impacto fiscal de R$ 924 milhões este ano.
É claro que não seria possível acrescentar R$ 924 milhões, ou muito menos R$ 2,7 bilhões nos gastos, sem prever novas receitas ou cortar outros gastos. É, de todo modo, um problema menor do que, por exemplo, o da conta-petróleo: o salto nos preços internacionais pode fazer virar pó a previsão do Orçamento de que esta conta geraria R$ 3,5 bilhões de receita este ano.
Amadeo não disse que o governo planeja aumentar o mínimo além da inflação. Ao contrário, advertiu que, para os mais pobres, talvez seja mais importante respeitar a restrição fiscal, hoje, segurando a inflação, do que trocá-la por um mínimo mais alto, se ele for fiscalmente irresponsável. Sugeriu que haveria espaço, sim, para um aumento mais significativo do mínimo no setor privado, sem qualquer impacto negativo.
O fato, contudo, é que, dado o impacto do mínimo sobre a pobreza e o caráter de programa social de boa parte dos gastos da Previdência, não haveria porque não discutir seu reajuste como alavanca social, desde que fosse compensado seu impacto fiscal negativo. O problema é que esse tipo de discussão não dá voto.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/celso-pinto-defendeu-debate-tecnico-sobre-o-salario-minimo.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/morre-o-jornalista-celso-pinto-criador-do-jornal-valor-economico.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/salario-minimo/
(3) https://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u23648.shtml
(4) https://www1.folha.uol.com.br/mercado/previdencia/
(5) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
“Pergunta em Brasília”
(Coluna CH, DP, 28/12/25)
No fogo amigo da Esplanada, tem amigo oculto ou inimigo declarado?
“Resposta na lata”
(Matutildo, aqui e agora)
Depende de quem indaga e de quem responde!
Na lata (não a de lixo, é claro)
(*) Uczai: “uc$ando e abuc$ando”!
“Câmara Airlines: Deputados federais fizeram 388 viagens em ‘missão oficial’ este ano”
(Cláudio Humberto, Coluna CH, DP, 28/12/25)
Justificativa para bem-bom custeado pelo pagador de impostos, deputados desfrutaram de 388 onerosas “missões oficiais” ao longo deste ano, a maioria em belíssimos lugares no exterior, como Estados Unidos e Europa. No topo, dois governistas: o comunista Orlando Silva (SP) e o petista Pedro Uczai (SC), com nove viagens cada um. Orlando acumula destinos como Lisboa (Portugal), Londres (Inglaterra), Bruxelas (Bélgica), Hanói (Vietnã) e maravilhas nacionais, no litoral do Nordeste.
Tacada de R$20 mil
Entre junho e julho, quando passou bons dias em missão na Europa, o comunista (**) nos custou R$8,8 mil em passagens e R$12,1 mil em diárias.
Cuba-libre
Das nove viagens, o petista (*) dedicou oito em rolês pelo Brasil. A exceção foi no fim de janeiro, quando passou três dias em Havana (Cuba).
Embromação paga
Em Cuba, Uczai (*) participou do seminário “Construindo a Nova Ordem Mundial Internacional”. Passagens de R$2,8 mil e R$9,3 mil em diárias.
Pândega de excelências
A farra das “missões” não faz distinção partidária ou de espectro político. Foram 199 os deputados que desfrutaram da benesse este ano.
(Fonte: https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/camara-airlines-deputados-federais-fizeram-388-viagens-em-missao-oficial-este-ano)
(**) Como diz o adágio: “CUmunistchinha adora uma boquinha”! Né, “tapioquinha”!
“STF nunca esteve tão fraco”
– É paradoxal: no momento de maior protagonismo político, Supremo passa também pela maior fragilidade institucional de sua história.
(Rodolfo Borges, O Antagonista, 28/12/25)
É paradoxal: no momento de maior protagonismo político, quando define o destino da nação e até o rumo de políticas públicas, o Supremo Tribunal Federal (STF) passa também pelo seu momento de maior fragilidade institucional, numa crise moral que extrapola as fronteiras do Brasil (1).
Após cair nas graças do país durante o julgamento do mensalão, quando se estabeleceu como oponente implacável da corrupção, o STF passou os últimos anos desmontando a Operação Lava Jato e jogando no lixo toda a reputação construída pelas condenações de lideranças petistas.
O envolvimento com a política só aumentou nesse período. Em parte por conta do desafio imposto por Jair Bolsonaro, que levou às primeiras condenações do país por tentativa de golpe de Estado.
Mão pesada
Liderada por Alexandre de Moraes, a reação do STF foi interpretada como exagerada, contudo, principalmente em relação aos vândalos do 8 de janeiro de 2023. Ficou a impressão de que os condenados pelo vandalismo foram usados (2) para condenar quem tramou contra a República.
Moraes perdeu a mão em vários momentos de sua reação, com destaque para o bloqueio da rede social X durante a eleição municipal de 2024, mas as decisões heterodoxas do ministro e do tribunal datam desde antes da manifestação de ímpetos golpistas.
Esse processo começou com a instauração, por ofício, do eterno inquérito das fake news, em 2019, quando o STF se considerou atacado pelas críticas públicas. Desde então, os ministros nunca mais baixaram a guarda, e foram degradando o tribunal progressivamente.
As chegadas de Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, e Flávio Dino, ex-ministro de Lula, intensificaram o caráter político do Supremo, que passou os últimos três anos escorando o fraco governo do petista (3) em meio a sucessivas derrotas no Congresso Nacional.
Código de conduta
A situação já era ruim o bastante, mas ganhou contornos pornográficos com o caso do Banco Master, defendido pela esposa de um dos ministros por um contrato de 129 milhões de reais.
Apenas a militância de esquerda antibolsonaro (4) se contentou com as curtas explicações de Moraes sobre as informações de que ele teria pressionado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em favor do Master, que tentava ser vendido para o BRB para escapar da quebra inevitável.
Para piorar, o ministro Dias Toffoli, que viajou em jatinho com um advogado envolvido no caso do banco, atua de forma bastante questionável (5) como relator do caso Master, que foi parar no STF de forma sinuosa e corre, agora, em sigilo absoluto.
A acareação marcada por Toffoli para iniciar o processo foi interpretada como tentativa de intimidação do Banco Central, que não autorizou a venda do Master para o BRB, um negócio envolto em muitas suspeitas de ingerência política.
Toda essa bagunça levou o presidente do STF, Edson Fachin, a sugerir a adoção de um código de conduta, que limitaria, por exemplo, a participação de ministros do tribunal em eventos patrocinados por empresas que têm interesses no Supremo.
Ilegítimo
Alguns colegas de Fachin resmungam anonimamente (6) contra a adoção do código, mas ministros aposentados e presidentes de outros tribunais superiores endossaram a medida.
“A proposta do ministro Edson Fachin atende a um imperativo republicano. É hora de apoiá-la. A República o exige!”, disse o aposentado Celso de Mello (7) em longo artigo.
Professor de direito processual penal da USP, Gustavo Badaró resumiu em seu perfil no Instagram (8) por que o STF precisa tomar alguma atitude para proteger a instituição, sob o risco de desmoralizá-la e, consequentemente, inviabilizá-la completamente:
“Tão importante quanto o juiz ser imparcial é o juiz parecer ser imparcial. Se a sociedade não acredita que a justiça foi feita, porque não se garantiu um julgamento por juiz ou tribunal imparcial, o resultado de tal processo será ilegítimo e prejudicial ao Poder Judiciário. A sociedade sentirá estar diante de uma sentença injusta, Independentemente do seu conteúdo. No julgamento do Caso Delcourt vs. Bélgica, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos proclamou: ‘Justice must not only be done; it must also be seen to be done’!” (*)
(Fonte: https://oantagonista.com.br/analise/stf-nunca-esteve-tao-fraco/)
(1) https://oantagonista.com.br/mundo/toffoli-e-moraes-repercutem-na-suica/
(2) https://oantagonista.com.br/analise/massa-de-manobra-reciclada/
(3) https://oantagonista.com.br/analise/rebocados-pelo-stf/
(4) https://oantagonista.com.br/analise/esquerda-maluca-abraca-moraes/
(5) https://oantagonista.com.br/brasil/codigo-nao-preve-acareacao-entre-o-investigador-e-o-investigado/
(6) https://oantagonista.com.br/brasil/os-resmungos-anonimos-dos-ministros-do-stf/
(7) https://oantagonista.com.br/brasil/um-recado-do-aposentado-celso-de-mello-aos-ministros-do-stf/
(8) https://www.instagram.com/p/DSsjaM0jp3A/
(*) “A justiça não deve apenas ser feita; ela deve ser vista como feita”
Folha 105 (049)
“Pasquale deu dicas de gramática com canção de Caetano Veloso”
– ‘O preconceito contra a letra de música popular está definitivamente superado’, escreveu.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
Pasquale Cipro Neto (1) usou uma canção de Caetano Veloso (2) para falar de gramática sem cara de manual. Ele partiu de “Língua”, que já havia entrado em prova de vestibular, e transformou os versos em discussão sobre o que a língua portuguesa (3) tem de particular.
A coluna foi publicada na Folha em 1999, e lembrou que, na Unesp (4), o texto de Caetano foi associado ao poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac (5). Para chegar ao título “Inculta & Bela”, Pasquale citou o começo parnasiano do poema: “Última flor do Lácio, inculta e bela/ És a um tempo esplendor e sepultura…”.
Daí, ele passou a conduzir o leitor diretamente. “Descobriu de onde vem o nome desta coluna?”, perguntou, antes de prometer que “um belo dia” tentaria explicar Bilac. Por ora, preferiu “discutir um pouco do de Caetano”.
A letra entrou em cena com o verso inteiro: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. Pasquale listou sentidos possíveis desse “roçar”: a língua do Brasil abrindo caminho na de Camões (6), mas também as duas línguas se encostando e “misturando suas pernas”.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (7), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
“Gosto de ser e de estar” (2/12/1999)
A letra de “Língua”, escrita por Caetano Veloso em 1984, já foi incluída na prova de português de alguns vestibulares, entre eles o da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Nesse exame, o texto de Caetano foi associado ao poema “Língua Portuguesa”, escrito por Olavo Bilac em 1914. De estrutura parnasiana, o poema de Bilac começa assim: “Última flor do Lácio, inculta e bela/ És a um tempo esplendor e sepultura…”. Descobriu de onde vem o nome desta coluna? Prometo um belo dia tentar explicar o texto de Bilac.
Por enquanto, vamos discutir um pouco do de Caetano, que começa assim: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Gosto de ser e de estar e quero me dedicar a criar confusões de prosódias e uma profusão de paródias que encurtem dores e furtem cores como camaleões”. Entre os vários sentidos de “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”, está o de que a língua do Brasil (“a minha língua”) abre seu caminho (“roçar”) na de Camões. Também está o de que as duas línguas se roçam, misturam suas pernas.
Em seguida, a letra de “Língua” diz: “Gosto de ser e de estar”. O que é isso? Lembra-se de Eduardo Portella (ministro da Educação do governo Geisel, se não me engano)? Um belo dia, Portella disse: “Eu não sou ministro; estou ministro”. Pois é, em inglês, “ser” é “to be” e “estar” também é “to be”. “Eu não sou” e “Eu não estou” se traduzem por “I am not”. Como seria a frase do ministro Portella em inglês? Certamente seria preciso acrescentar alguma expressão adverbial para diferenciar a idéia de estado constante (ser ministro) da de estado momentâneo (estar ministro). Entendeu por que Caetano diz “Gosto de ser e de estar”? O poeta simplesmente diz que gosta do que a língua portuguesa tem de seu, de particular.
Os vestibulares estão em pleno andamento, e é bom saber que o preconceito contra a letra de música popular está definitivamente superado. Seja na prova de língua, seja no tema da redação, Fuvest, Unesp, Unicamp, PUC e várias das universidades federais e estaduais usam e abusam das letras dos nossos bons poetas musicais. Caetano é um dos que mais aparecem. É isso.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/pasquale-deu-dicas-de-gramatica-com-cancao-de-caetano-veloso.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/
(2) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/caetano-veloso/
(3) https://arte.folha.uol.com.br/especiais/2018/o-tamanho-da-lingua/#/
(4) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/unesp/
(5) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/12/nos-100-anos-de-morte-do-autor-jornalismo-de-olavo-bilac-merece-ser-mais-lido.shtml
(6) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2024/06/como-camoes-se-tornou-o-maior-nome-da-lingua-portuguesa.shtml
(7) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Folha 105 (048)
“Arnaldo Jabor disse que o Brasil estava chato em 1999”
– ‘É terrível este silêncio histórico. Crise? Não. Chamemos de quê?’, escreveu o cineasta.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
Arnaldo Jabor (1) abriu sua coluna com uma queixa direta: “Meu Deus, como o Brasil está chato!”. Ele disse que o país sempre foi “louco” e “esculhambado”, com “ratos roubando” e “pacto de elites”, mas que a chatice era novidade.
Na coluna, publicada na Folha, em 1999, tratou o momento como um esvaziamento do drama nacional. Jabor (2) lembrou o “frisson do impeachment” (3) e a “montanha-russa da inflação” (4) e escreveu que, mesmo quando era “terrível”, o Brasil ainda tinha “zest”, “wit”, “pep”. Agora, para ele, tudo tinha virado “um brejinho de águas mornas”.
A sensação de tédio apareceu em forma de perguntas e exemplos miúdos. “Será que o ACM vai conseguir implantar a Ford? (5)”, ele listou, ao lado de um repertório de “suspenses” que chamou de “ridículos”, com direito a “pé no saco”. A saudade, ali, não era de crise, mas de movimento: “Que saudade das esperanças loucas, dos gestos impensados…”.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (6), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Nunca o Brasil esteve tão chato… (13/7/1999)
Meu Deus, como o Brasil está chato! Não acontece mais nada. Porque o país -justiça seja feita- nunca foi “chato”. Foi louco, sim; foi esculhambado, sim, com os eternos ratos roubando, sim, sempre foi um pacto de elites imperturbáveis sendo criticadas por um populismo imbecil e oportunista, sim, sempre foi. Mas, “chato”, isso não.
Nossas crises que tinham o charme de minuetos à beira do abismo, nossos dramas que chocavam a inteligência eram, contudo, excitantes. Lembrem-se do frisson do impeachment, lembrem-se da montanha-russa da inflação. Era terrível. Mas, tinha “zest”, “wit”, “pep”.
Agora, tudo virou um brejinho de águas mornas. Nossos suspenses são ridículos. Será que o ACM vai conseguir implantar a Ford? Quem disca melhor, a Ana Paula Arósio ou a Luana? E Temer já está numa boa com ACM? Conseguirá Jader Barbalho proteger o PMDB? Meu Deus, que tédio, que leseira, que maçada, que fastio, que estopada, que “pé no saco”!…
Que saudade das esperanças loucas, dos gestos impensados… Tudo anda em círculo vicioso, minhocas mordendo o próprio rabo ao som do pagode e das “bundas-tchan”, sob as risadas de “Caras”.
É verdade que, antes, éramos animados pela grande ilusão estatal que nos dava combustível para utopias deslavadas, mas que criava subprodutos culturais.
Quanta coisa saiu da loucura de JK, desde o aeroporto de ETs que é Brasília até a crença ingênua em um “primeiro mundo” instantâneo e mágico. Até mesmo as derrotas “revolucionárias” tinham o gosto amargo e viril das batalhas perdidas, “vitórias” masoquistas pelo avesso… Em janeiro deste ano, parecia que a roda-gigante da história iria esmagar a Rússia e o Brasil. Pois mexeram no câmbio, nada aconteceu e tudo parou.
Não estamos em crise. Estamos em quê? Em caos? Em lama? Em banho-maria? Onde estamos? É terrível este silêncio histórico. Crise? Não. Chamemos de quê? Chá de cadeira, semicúpio, banho de cuia?
Diante do impasse da “globalização”, nome atual do imperialismo, o presidente brinca de roda, em “cimeiras”, ganhando presentinhos, recebendo Ratinhos, mísseis, falando de “globalismo simétrico”, Santo Deus… Que “saco”, que “aluguel”…
A “destranscendentalização” (uff…) da vida -mercado em vez de sonhos- acelera os países ricos e cria um frisson consumista para eles. Para nós, sem poder, sobra apenas a raspagem de todas as “auras”, a morte de todas as fantasias.
Aqui, as coisas parecem acontecer e acabam de repente, surgem e morrem como as rosas, “no espaço de uma manhã”. As CPIs, os precatórios, os escândalos, as ameaças, tudo fenece no meio. Só se realizam os acontecimentos que interessam às oligarquias e aos americanos.
O episódio da Ford foi exemplar. Começou com a sabujice de Britto, que deu mais do que devia, e cresceu com o veto correto de Olívio Dutra, que, no entanto, veio com sobretons de machismo petista. A Ford, “puta velha” de mercado, reagiu, agarrada em ACM: “Ah, é? Pois agora vai ser o dobro do preço…”.
Quando acontecerá alguma coisa profunda, renovadora? Entre o fracasso do Estado-Nação e o globalismo malandro, ficamos no meio, otários, paralisados. Enquanto o turbo-capitalismo dá aos EUA a maior prosperidade do milênio, nós ficamos parados, com celularzinho na mão, bonezinho do “Chicago Bulls”, tenizinho “Reebok”, feito uns babacas.
O que está acontecendo é um impedimento aos acontecimentos. O que está acontecendo é um “não-acontecer” proposital. Os Três Poderes competem em corporativismo, anulando as “reformas”, deformadas e mortas, como esqueletos de peixes. O governo gasta seu mandato administrando trapalhadas políticas evitáveis.
A viciosa circularidade tucana é responsável por isso: o “bom senso” que esconde o medo, a mentalidade falsamente “processual” que esconde a preguiça. Tudo isso está provocando uma “castração silenciosa” da nação, em vez da tal “revolução silenciosa” que viria.
A cara de tédio “itamarateca” de Sérgio Amaral foi substituída pela cara de tédio de Lamazière. E a sociedade continua ignorada em matéria de comunicação, única coisa que teria importado para mudar estruturas. E, cada vez mais, o povo cai no conto dos populistas espertos, dos dinossauros renascidos com slogans fáceis de entender.
Em quatro anos e meio de governo, não se emplacou medida social-democrata alguma, nada contrário aos interesses de aliados liberais. Nada. A nossa expectativa lamentável é esperar que o presidente mude de personalidade. Em vez de uma esperança histórica, temos um suspense psicológico. Conseguirá ele fazer ao menos um ministério? Nada pior, num presidencialismo ibérico, que um chefe sem peito.
Além de Belíndia, estamos virando uma Suíça mixada com Índia, chata e faminta: “Suicíndia”. A personalidade de FH está se abatendo sobre o ritmo do país todo.
Nossa única esperança de acontecimentos é uma boa crise internacional que vai nos pegar, claro, como sempre, despreparados, já que, claro, como sempre, não fizemos nem faremos ajuste fiscal porra nenhuma.
Achávamos que FH ia desconstruir um Estado patrimonialista, mas o pacto pelo atraso vence, como sempre. Íamos cair num abismo e acabamos afogados numa poça d’água.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/arnaldo-jabor-disse-que-o-brasil-estava-chato-em-1999.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/02/morre-arnaldo-jabor-jornalista-e-cineasta-do-cinema-novo-aos-81-anos.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/02/arnaldo-jabor-era-definitivamente-um-jornalista-de-televisao.shtml
(3) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/fernando-collor/
(4) https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/06/lancado-ha-quase-30-anos-plano-real-acabou-com-inflacao-de-quase-5000-ao-ano.shtml
(5) https://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi17069914.htm
(6) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Pois é, se fosse vivo, hoje Jabor teria pinçado esta coluna para dizer que a chatisse foi apenas um ponto fora da curva
“Corrosão do STF fortalece teses autoritárias”
– Não. O Brasil não está nos estágios finais de um golpe de Estado. Mas flerta perigosamente com o começo do caminho.
(Ricardo Kertzman, O Antagonista, 27/12/25)
O Brasil não está à beira ou caminhando para um golpe clássico. Não há nem haverá tanques nas ruas ou, novamente, ameaça formal às eleições. O risco é outro. Mais discreto, mais brasileiro. E isso nasce quando as instituições que deveriam ser guardiãs da constitucionalidade passam a agir como se não devessem explicações. Quando a exceção, às vezes necessária, vira método. E quando o Judiciário, sobretudo a mais alta instância, começa a se enxergar menos como limite do poder e mais como um poder soberano em si.
Esse não é um fenômeno inédito na história nacional. A Constituição de 1946 (1), por exemplo, foi sendo esvaziada ao longo da década de 1950 por estados de sítio sucessivos, decisões excepcionais reiteradas e pela tolerância judicial a abusos do Executivo. Quando o golpe de 1964 (2) veio, ele não encontrou um sistema institucional robusto e vigilante, e sim um país acostumado a atalhos, exceções e acomodações. O autoritarismo foi sendo gestado na normalização do anormal, exatamente como quer essa estúpida Lei da Dosimetria (3).
O caso do Banco Master não sai dos holofotes e não é à toa. É dos mais ilustrativos porque reúne tudo de errado num único episódio. Dias Toffoli puxa a investigação para o Supremo com base na mera menção a um parlamentar. A partir daí, o processo passa a tramitar sob sigilo extremo, exceto a quem o próprio ministro escolhe. O STF deixa de ser instância julgadora e assume protagonismo direto na condução do caso: interfere no ritmo, convoca acareações ilegais e claramente viciadas e tenta reorganizar o jogo a seu feitio.
Presença insustentável
Paralelamente, surgem fatos que, em qualquer democracia minimamente madura, seriam tratados como problema institucional grave: a viagem em jatinho (4) ao lado de advogado ligado à defesa de investigado; a explicação protocolar (5) de um ministro sobre sua gestão pessoal a autoridades ligadas ao caso; contratos advocatícios milionários e oportunistas com parentes de magistrados; a ausência de qualquer gesto de autocontenção (6). Pode até não haver crime nesses fatos. Mas o dano não é penal. É político. É simbólico. É corrosivo. É real.
O ministro Alexandre de Moraes aparece nesse contexto não como mais uma exceção, mas como a expressão de um modelo que vem se consolidando. Um magistrado que investiga, decide, pune, estabelece parâmetros do debate público e delimita o que é aceitável, ou não, no campo político, já era suficientemente inadequado. Mas a questão envolvendo sua esposa e seu contato direto com Gabriel Galipolo, presidente do Banco Central (7), transformou-o em um ministro suspeito e corrosivo à imagem da Justiça como um todo.
Atenção: isso não é uma acusação formal ou mesmo criminal. É mera constatação fática e estrutural. Democracias não funcionam quando ministros do Supremo concentram funções incompatíveis e atuam de forma suspeita. Funcionam quando dispersam poder, criam fricção e aceitam limites. O STF brasileiro, porém, caminha na direção oposta. E Gilmar Mendes – sempre ele! – fecha o triângulo do mal ao tentar impedir ou reduzir drasticamente a possibilidade de impeachment de ministros (8) da Suprema Corte.
O passado ensina
Ainda que a tentativa “gilmariana” tenha sido parcialmente revertida, a lógica e a intenção ficaram expostas. E coisas assim, uma vez reveladas ao respeitável público, não voltam para a gaveta. Esse tipo de ambiente não produz credibilidade e estabilidade. Ao contrário. Produz cansaço, ressentimento. E produz o cenário ideal para o surgimento de um autocrata tirano, como venho alertando, há anos, em textos quase desesperados (9) nos veículos em que tenho a oportunidade de escrever ou de falar.
E não apenas o autocrata tosco, histriônico, mambembe como Jair Bolsonaro. Pois a “classe” também aprende, refina métodos e troca o figurino. Um outro aspirante a ditador, que se apresente como “corretivo”, que prometa “reorganizar as instituições”, “colocar limites”, sempre em nome da democracia, claro, como fazem os próprios capas-pretas supremos, provavelmente, irá surgir. Sempre com apoio popular. E sempre explorando o desgaste acumulado (10) de quem deveria ter se contido antes.
Como lembrei recentemente, o Brasil já viveu algo parecido. Em 1990, Fernando Collor (11) assumiu a Presidência em meio ao desespero da hiperinflação. A população estava perdida, angustiada, disposta a aceitar qualquer solução que viesse com linguagem técnica e promessa de ordem. O Plano Collor confiscou a poupança e as aplicações financeiras dos brasileiros. O Estado bloqueou, por decreto, o dinheiro de milhões de pessoas. Aquilo não foi apenas um erro econômico. Foi uma violência institucional gigantesca.
Recordar é viver
As pessoas perderam economias de uma vida inteira. Muitas entraram em depressão profunda e morreram. Empresas quebraram. A confiança no sistema foi destruída. Mas o ponto central: nem o Congresso nem o Supremo se insurgiram de forma efetiva. Houve desconforto, debates, indignação difusa. Mas o essencial passou. Criou-se o precedente de que, em situação “excepcional”, o Estado pode tudo. Com apoio popular, então, é que pode mesmo. Aí mora o grande perigo! A população estava cansada e desesperada.
Vale lembrar outro fato histórico e que corrobora o meu temor: o Supremo não foi fechado durante o regime militar. Continuou funcionando. Julgou. Referendou os infames atos institucionais. Conviveu com as cassações, as suspensões de direitos e exceções permanentes. O autoritarismo brasileiro não precisou destruir o Judiciário. Bastou contê-lo, pressioná-lo e, quando conveniente, utilizá-lo. Democracias não morrem apenas quando os tribunais são fechados. Morrem quando os tribunais passam a conviver com o inaceitável.
É assim que autocracias modernas se constroem: não pela ruptura explícita, mas pelo acúmulo de precedentes tolerados, pelo silêncio institucional e pela fadiga social. A Hungria, de Viktor Orbán, seguiu esse roteiro. Mudanças constitucionais sucessivas, enfraquecimento do Tribunal Constitucional, captura gradual dos freios institucionais. Tudo feito por lei, com maioria parlamentar, sob o argumento de “reformas necessárias”. O Judiciário não foi fechado. Foi domesticado. E o povo, obviamente, aplaudiu.
É no mundo, estúpido
Na Polônia, o governo do PiS alterou regras de nomeação e disciplina de juízes, provocando uma crise institucional profunda com a União Europeia (12). O Tribunal de Justiça da UE declarou que o Tribunal Constitucional polonês não atende aos requisitos de independência e imparcialidade. Mais uma vez, não houve golpe clássico. Houve engenharia autoritária legal. Pergunte se a população polonesa apoiou ou se insurgiu contra as novas regras? Na boa, é assustadora a cegueira histórica da nossa elite política.
A Turquia oferece o mesmo. Após a tentativa de golpe de 2016, o governo Erdogan promoveu expurgos em massa no Judiciário, aprovou emendas constitucionais que concentraram poder no Executivo e reduziram drasticamente os contrapesos institucionais. Tudo sob o discurso da defesa da ordem e da estabilidade. E nem mesmo as democracias mais consolidadas estão imunes. Vejam o que ocorre, atualmente, nos Estados Unidos sob Donald Trump. O laranjão aloprado está passando o trator sore tudo e todos.
Não. O Brasil não está nos estágios finais de um golpe de Estado. Mas flerta perigosamente com o começo do caminho. Quando o STF acumula funções incompatíveis, se fecha em sigilo, reage mal à crítica e ensaia mecanismos de blindagem, ele não fortalece a democracia. Pior. Enfraquece a confiança no sistema. E confiança perdida não se recompõe com notas técnicas vazias, votos longos ou solenidades com magistrados chorando (13). Muito menos com familiares de ministros enriquecendo de forma desproporcional.
(Fonte: https://oantagonista.com.br/analise/corrosao-do-stf-fortalece-teses-autoritarias/)
(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Constitui%C3%A7%C3%A3o_brasileira_de_1946
(2) https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_no_Brasil_em_1964
(3) https://www.youtube.com/watch?v=y2HTEF7kpwo
(4) https://oantagonista.com.br/brasil/toffoli-foi-ao-peru-em-jatinho-com-advogado-do-caso-master/
(5) https://oantagonista.com.br/brasil/moraes-divulga-segunda-nota-sobre-caso-master/
(6) https://oantagonista.com.br/analise/moraes-toffoli-e-um-master-peru-de-natal/
(7) https://www.bcb.gov.br/
(8) https://oantagonista.com.br/analise/seria-gilmar-um-pequeno-tirano-soberano-ministra-carmen/
(9) https://oantagonista.com.br/analise/cazuza-ja-dizia-transformam-o-pais-inteiro-num-pueiro-pois-assim-se-ganha-mais-dinheiro/
(10) https://oantagonista.com.br/analise/o-brasil-por-um-fio-em-um-mundo-a-beira-do-abismo/
(11) https://oantagonista.com.br/analise/caso-collor-roube-muito-passe-15-anos-impune-seja-condenado-e-va-para-casa/
(12) https://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Europeia
(13) https://oantagonista.com.br/brasil/toffoli-chora-em-sessao-do-stf-so-nos-temos-a-dimensao/
A PaTifaria grassa!
“Brasília assiste a movimento sem precedentes na história institucional brasileira: o Supremo Tribunal Federal (STF) sinaliza que pode interferir em decisão técnica do Banco Central e anular a liquidação do Banco Master, suspeito de irregularidades graves, demonstrando o poder de influência do banqueiro Daniel Vorcaro. Atos recentes do ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF, e ações do Tribunal de Contas da União (TCU) põem em xeque a autonomia do BC como regulador bancário.”
. . .
“O Ministério da Cultura liberou captação de R$5,1 milhões para a escola de samba Acadêmicos de Niterói, do Rio de Janeiro, bancar desfile para o carnaval de 2026 que promete homenagear o presidente Lula. O enredo é dedicado “à trajetória pessoal e política do Presidente da República”, destaca ofício da oposição que cobra explicações da ministra Margareth Menezes, titular da pasta que liberou o caminhão de dinheiro.”
. . .
+em: https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/stf-sinaliza-decisao-sem-precedentes-de-anular-liquidacao-do-banco-master
Não foi por acaso que tiraram o maior ladrão da cadeia e o colocaram na Presidência da República!
“Por que se aposta na Mega da Virada? Sobre o delicioso exercício da ilusão”
(Julián Fuks, Colunista de Ecoa/UOL, 27/12/25)
Em sucessivos encontros, pelas casas dos amigos, tenho ouvido sobre o ávido sonho do primeiro bilhão. Não que venha frequentando casas abastadas demais, não é isso. É só que a Mega-Sena chegou neste fim de ano ao montante desorbitado de um bilhão de reais, valor inalcançável pela imaginação humana, e alguns milhões de pessoas reais têm se entregado ao inocente empenho de fantasiá-lo em suas contas. À volúpia das ceias soma-se então a volúpia dos bolões: amigos unindo esforços e tostões para sustentar por alguns dias essa pequena ilusão.
Numa das casas a conversa foi além do cálculo estatístico, sempre embrutecedor, e da controvertida escolha dos números. Alguém propôs que cada um falasse o que faria em caso de vitória, que destino daria ao tão altissonante valor, e então a conversa se fez bem mais íntima e sutil, mais branda e reveladora. Não se ouviram grandes ambições, como seria de se esperar, a luxúria de fazendas, carros, mansões, de toda a tacanha extravagância que o dinheiro tem o hábito de comprar. Ouviram-se, em vez disso, os desejos reais que as ambições ocultam, a vida alternativa que cada um concebe para si no dia em que o dinheiro já não for uma preocupação.
Se eu ganhar o bilhão quero aprender a tocar clarinete, disse o mais lírico dos amigos, querido por todos. É um homem sábio e bom, como já se fez anacrônico ser, um homem que dedica cada um dos seus dias às causas justas, sempre preocupado com as urgências do país e tomando parte nas soluções. Mas guarda também uma veia artística que o trabalho excessivo importuna. Por isso aposta na loteria: quer ser um bilionário para poder brincar enfim de ser músico. Quando alguém ressalva que as aulas de clarinete não andam tão caras assim, ele insiste: caro é o tempo que precisa comprar para comparecer às aulas de clarinete, cara é a permissão que exige de si próprio.
O segundo a tomar a palavra disse que, se ganhasse, sumiria, cairia no mundo de tal maneira que seria como se desaparecesse. Acreditei piamente na sinceridade do sentimento, mas soube de partida que mentia, não para nós, mas para si mesmo. Esse amigo conheço bem, admiro por seu trabalho incessante e seu incessante carinho pelos próximos. Conheço seu vício de constar, de participar de tudo, tudo testemunhar, tudo analisar com olhar agudo, tudo revelar com palavra ferina. Mesmo quando se retira, por um ou dois dias, é nítido seu desejo de retornar, de se restituir à pobre concretude que ele narra como ninguém, de rever o mundo de que ele acha que quer fugir. A ausência absoluta com que sonha é só a forma que sua mente encontra de descansar, de esquecer por um instante seu desejo tão absoluto de realidade.
O terceiro preferiu um caminho mais surpreendente, mais banal, disse que se ganhasse faria enfim seu transplante capilar. É claro que o comentário não passava de uma piada, e suscitou o riso razoável, mas ainda assim não deixou de significar. O que espanta em seu caso é que ele não é só um homem agradável e eficiente no que faz. É também um homem bonito, cujo estilo tem sido há tempos o dos cabelos curtos, rentes ao escalpo. Por isso não se entende a vasta cabeleira que deseja agora, a cabeleira de um bilhão de reais. Talvez seja, como nos outros casos, a própria negação de sua identidade e de sua história.
Eu ouvia tudo com curiosidade, sem saber como me somar ao diálogo, às vezes assumindo em voz alta minhas contrariedades, às vezes guardando-as numa intimidade recôndita. Falei, embora não coubesse falar, da exorbitante improbabilidade, expliquei por que não gastaria meus escassos trocados num sonho impossível, se mais fácil era que morrêssemos todos atingidos naquele instante por um raio, mesmo na noite de céu imaculado. Mas depois confessei que não era por isso que não jogava, que na verdade sentia o contrário do que eles sentiam, sofria com a ideia de perder minha vida atual com a ocorrência trágica de uma vitória na Mega-Sena. Terrível ter que abandonar minha casa, meu trabalho, meu vício literário. Poderia continuar a escrever, é claro, mas que leitor se interessaria pelas observações triviais de um cronista bilionário?
O que não pude dizer ali foi o que só entendi mais tarde. Que nenhum deles desejava de fato ganhar na loteria, que o que lhes agradava de verdade era imaginar. Conceber para si uma vida outra, inexistente, e por um momento se entregar a ela como se fosse real. Pedir que a especificassem era já um problema, pois ao ser dita aquela outra vida perdia realidade, tornava-se como os sonhos que se sabem sonhados. O que interessa na aposta bilionária, só agora acho que consigo decifrar, não é a remotíssima chance de que ela se concretize no instante da virada, mas tudo o que se vive antes de tal revelação. É o delicioso exercício de uma ilusão, pelo qual as pessoas estão dispostas a pagar, ao menos uma pequena fração do enorme tanto que a vida já lhes dá.
(Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2025/12/27/mega-da-virada-exercicio-da-ilusao.htm)
E você, Matutildo. O que faria com a bolada?
– Ora, pagaria alguns credores!
E o resto?
– Bom. o resto que espere eu ganhar a próxima!
Folha 105 (047)
“Ed Motta brindou antes de encerrar sua coluna sobre vinhos”
– O tempo para escrever se tornou ‘raro como tomar um Bordeaux maduro a preço honesto’, disse o cantor.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
Ed Motta (1) se despediu de sua coluna como quem chega ao fim de uma boa garrafa de vinho (2). Em “Meu último gole; adeus”, ele descreveu três estágios de abrir um vinho (3): a dúvida misturada ao encantamento, o “beijo na boca” e, por fim, a melancolia do “último gole”, quando o rótulo vira motivo para pensar.
Publicado na Folha, em 1999, o texto marcou o fim de “Dicas do Ed”, onde o cantor falava de vinhos “para leigos”, com indicações por faixa de preço e sugestões de harmonização (4).
Na despedida, ele escreveu que a experiência lhe deu “tanto prazer”, mas que seu tempo vago estava “raro como tomar um Bordeaux maduro a preço honesto”.
Também retomou a linha que afirmou ter seguido desde o início: fugir do “deslumbramento exibicionista” e sustentar “pé no chão”, com uma visão “da classe média para baixo”. Foi aí que ironizou o vinho “ideal para se tomar à beira de uma piscina” e puxou o leitor para outra cena: um Frascati “em frente à TV no fim-de-semana”
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (5), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Meu último gole; adeus (18/6/1999)
A ânsia de abrir um vinho tem três estágios: um misto de dúvida e encantamento com o que vamos beber; o “beijo na boca”, surpresa e paixão; e, por fim, uma certa melancolia, quando damos “O Último Gole” (poderia ser título de um filme noir com Edward G.Robinson) e olhamos para o rótulo -e daí se filosofa que o prazer e a saudade se misturam muito rápido numa garrafa de vinho.
Pegando esse mote, despeço-me desta coluna que me deu “Tanto Prazer”. O meu tempo vago hoje está raro como tomar um Bordeaux maduro a preço honesto.
C’est la vie. O que tentei desde o início foi trazer algo que fugisse do deslumbramento exibicionista e politicamente incorreto (sic).
Outro detalhe que espero que minha coluna tenha transmitido é o “pé no chão”, uma visão vinda da classe média para baixo e que não pode dizer pérolas como: “Esse vinho branco é simples, porém é o ideal para se tomar à beira de uma piscina…”. A imagem é que, tratando-se de vinho, todos têm uma piscina em casa, o que inibe a pessoa que pode se iniciar e se deliciar com um Frascati em frente à TV no fim-de-semana.
Outra pérola que li recentemente foi que o guia de bolso do Hugh Johnson era elegante para paletós e bolsas femininas. Ora essa, ele cabe numa calça jeans também, e o fato é que o público que não vem da burguesia é cada vez mais crescente no universo do vinho.
O “universo TFP” que revistas como a Wine Spectator cultuam tem sido vinculado ao vinho, mas hoje felizmente nos deparamos com um sommelier que veio do interior do Ceará analisando um grande Barolo com destreza, ou um suburbano como eu falando sobre vinho.
Outro elemento que sempre evitei foi a tal das notas. Junto com o boom do vinho muita gente se vê cega com as tais notas do crítico de vinhos norte-americano Robert Parker. É cafona demais esse papo de tal vinho “Roberto” deu 90 ou 96 ou 98,5.
Voltando a minha despedida, eu não pretendo deixar de escrever, apenas não posso ter o compromisso de uma coluna fixa no momento, e devo confessar que já sinto o “banzo” do adeus. O “Último Gole” já estreou e eu já sei que vou chorar a rodo. Saúde!
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/ed-motta-brindou-antes-de-encerrar-sua-coluna-sobre-vinhos.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/ed-motta/
(2) https://www1.folha.uol.com.br/comida/2025/08/confrarias-para-provar-vinhos-raros-vao-de-festa-no-ape-a-restaurantes-estrelados.shtml
(3) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/vinho/
(4) https://www1.folha.uol.com.br/blogs/tinto-ou-branco/
(5) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Feliz Natal!!!
Folha 105 (046)
“Marilene Felinto escreveu sobre o taxista que votou em Celso Pitta”
– ‘Fiz isso porque ele era negro’, disse o motorista à jornalista
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
A jornalista e escritora Marilene Felinto (1) reencontrou no supermercado um ex-vizinho e decidiu perguntar o que guardou por dois anos. Ele era “a única família negra da rua” e dirigia um táxi (2) cheio de adesivos do então prefeito Celso Pitta (3).
A aproximação, ela conta em texto publicado na Folha em 1999, aconteceu naquele “estranho momento nublado” em que alguém tenta se fazer entender. Ao perguntar por que ele havia votado em Pitta e o que achava da CPI da propina (4), ela percebeu um recuo quase invisível—e o cuidado imediato dele: “Mas isso daí não vai me complicar não?”
A resposta veio sem rodeio e virou título da coluna: “Votei nele porque ele era negro”. O taxista disse que quis “dar esse voto ao cara” porque, para ele, “uma pessoa negra aqui, você sabe que não tem chance”, e assumiu que a escolha também era um gesto de confiança.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (5), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
‘Votei nele porque ele era negro’, diz taxista (13/4/1999)
Encontrei meu ex-vizinho negro no supermercado. Nunca tinha falado de fato com ele antes, a não ser por algumas trocas de “bom dia”, enquanto fomos vizinhos. Era a primeira vez que o via depois que me mudei. Ele sempre me chamava a atenção por ter uma característica física notável (que não posso revelar para não correr o risco de identificá-lo) e porque a sua era a única família negra da rua.
É taxista. Dois anos atrás, nas eleições para prefeito de São Paulo, já me tentava a idéia de perguntar a ele porque ostentava em seu táxi adesivos com o nome de Celso Pitta. Se era por malufismo ou por se tratar de um candidato negro. Na época, interpretei como sentimento de orgulho racial sua propaganda. No supermercado, não resisti à curiosidade. Fui, falei. Perguntei se lembrava de mim, que tínhamos sido vizinhos etc. Lembrava.
“Pois é. Vou ser sincera com você. Te parei para perguntar uma coisa. Escrevo para um jornal e pensei até em falar com você há dois anos, na época da eleição para prefeito…”
Estranho momento nublado esse de se fazer entender por outra pessoa. Achei que ele recuara fisicamente, um recuo imperceptível, como quem se preparasse para se defender.
“Eu queria saber por que você votou no Pitta e o que você acha dessa CPI da propina e do governo de Pitta.”
Ele abriu um pouco a cara, deu um meio-sorriso entre constrangido e surpreso.
“Mas isso daí não vai me complicar não?”
Garanti-lhe que não ia. Então ele respondeu:
“Bom, eu, para ser honesto, votei nele porque ele era negro. Uma pessoa negra aqui, você sabe que não tem chance. Eu quis dar esse voto ao cara.”
“Você é malufista? Taxista tem fama de ser malufista.”
“Eu já votei no Maluf também, mas eu voto na pessoa. Já votei na Erundina. Comigo, me importa a pessoa, o que ela é. Agora, que o Pitta fez m…, fez. Ele tinha que dar o exemplo e não deu. Eu acho. Uma pessoa negra aqui, você tem que mostrar que é melhor do que os outros. Porque você, sendo negro, você chama a atenção. Agora mesmo teve esse general aí do Exército eu acho, que foi promovido pelo Fernando Henrique. Apareceu em tudo quanto é jornal só porque o cara é negro. Se fizer cagada, vai aparecer mais do que um branco, um turco. Vê Maluf, Maluf é turco e ninguém nunca tirou ele do lance. Está gagá de fazer m…, mas ninguém consegue tirar.”
“Mas você sabia que o Pitta era ligado ao Maluf…”
“Sabia, mas achei que um negro ia dar respeito. Você não vê o nome de Pelé metido em rolo, vê? Então. Esses caras todos aí, esses vereadores, eu sei que é tudo ladrão. Maluf, é tudo uma coisa só. Taxista sabe de muita coisa também. Só que ninguém abria. Agora abriram e está aí a sujeira. Eu não me arrependo. Fiz o que minha consciência mandou. Agora, se o cara é uma fria, se o cara envergonha a raça, a culpa não é minha. Eu dei voto de confiança, tinha uma esperança.”
“Você vai continuar votando na pessoa?”
“Só sei votar assim. Quem sabe um dia algum presta.”
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/marilene-felinto-escreveu-sobre-o-taxista-que-votou-em-celso-pitta.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/06/marilene-felinto-se-rebela-com-maestria-e-beleza-em-corsaria.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/02/uso-de-carros-por-aplicativo-e-taxi-aumenta-137-na-grande-sp.shtml
(3) https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2211200921.htm
(4) https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff09049903.htm
(5) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Pra não dizerem que não teclei sobre “havaianas”!
https://www.youtube.com/watch?v=BqQ2RPKljEc
Governo quer 200 cargos para entupir nova agência
(Cláudio Humberto, Coluna CH, DP, 23/12/25)
No último dia de efetivo funcionamento do Legislativo, o governo Lula mandou ao Congresso pedido para colocar na conta do pagador de impostos a criação de mais um cabidão com mais de duas centenas de cargos, com fartos postos em comissão e funções de confiança, claro. O pedido é assinado pelos ministros Ricardo Lewandowski (Justiça e Segurança Pública) e Esther Dweck (Gestão e Inovação). As boquinhas são para preencher a Agência Nacional de Proteção de Dados.
Peso de ouro
Só 26 comissionados e cargos de confiança terão impacto de R$2,13 milhões a contar deste ano e mais R$5,11 milhões dois anos seguintes.
Glow up
A novíssima agência era uma “autoridade nacional”, que vivia sob guarda-chuva do ministério de Ricardo Lewandowski.
Invenção de moda
Para bombar a agência, os ministros querem a criar a carreira de “Especialista em Regulação de Proteção de Dados”, com 200 cargos.
Eles juram
Apesar do exército de aspones, os ministros garantem que a criação das boquinhas, além de não aumentar os gastos, ainda gera economia…
(Fonte: https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/governo-quer-200-cargos-para-entupir-nova-agencia)
‘Defendo tolerância zero com álcool’, diz a médica Ludhmila Hajjar sobre o forte impacto dos hábitos de vida no coração
– Em entrevista ao GLOBO, a cardiologista fala também sobre a criação do primeiro hospital inteligente do Brasil, das novas taxas do colesterol e pressão arterial e o hábito de vida que mais impacta no coração.
(Por Adriana Dias Lopes — São Paulo, O Globo, 23/12/25)
. . .
“A cardiologista Ludhmila Hajjar defende a tolerância zero ao álcool devido aos riscos à saúde, incluindo doenças cardíacas e câncer. Ela destaca a importância da atividade física e de uma dieta mediterrânea para a saúde do coração. Hajjar lidera a criação do primeiro hospital inteligente do Brasil, que visa otimizar o atendimento com tecnologia avançada. Ela critica a obrigatoriedade de provas para novos médicos, apontando falhas na formação acadêmica.” (Irineu)
. . .
+em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/12/23/defendo-tolerancia-zero-com-alcool-diz-a-medica-ludhmila-hajjar-sobre-o-forte-impacto-dos-habitos-de-vida-no-coracao.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (I)
(Por Gabriel Cariello, 23/12/25)
Moraes e Galípolo dizem que reuniões eram sobre a Lei Magnitsky
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmaram nesta terça-feira terem se encontrado (*), como revelado pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, e disseram que a conversa foi para tratar dos efeitos da Lei Magnitsky. O ministro, no entanto, não mencionou em nota ter tratado do caso do Banco Master, que foi liquidado pelo BC diante de suspeitas de fraudes nem o contrato da instituição financeira com sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/23/moraes-confirma-encontro-com-galipolo-e-diz-que-objetivo-era-tratar-da-lei-magnitsky.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (II)
(Por Gabriel Cariello, 23/12/25)
Arquivos de Epstein citam Trump em voos particulares
Documentos indicam que o presidente americano, Donald Trump, aparece como passageiro em pelo menos oito voos do jato particular do financista Jeffrey Epstein (*) entre 1993 e 1996. Trump criticou a divulgação do material, determinada pelo congresso americano, e afirmou que ela pode prejudicar pessoas que “conheceram inocentemente” Epstein, que morreu em 2019 em uma cela enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/12/23/arquivos-de-epstein-citam-trump-em-voos-particulares-presidente-critica-divulgacao-e-justica-dos-eua-fala-em-alegacoes-falsas.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (III)
(Por Gabriel Cariello, 23/12/25)
Motta diz a Dino que R$ 1,9 bi em emendas foi demanda do governo
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), procurou o ministro Flávio Dino, do STF, para explicar a inclusão de um dispositivo no projeto do governo que reduz em 10% as renúncias fiscais e permite a revalidação de cerca de R$ 1,9 bilhão em restos a pagar de emendas parlamentares. O trecho, revelado pelo GLOBO e suspenso pelo próprio Dino, teria sido demanda da Casa Civil (*), com o argumento de destravar obras públicas.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/12/23/motta-diz-a-dino-que-jabuti-de-r-19-bi-em-emendas-foi-levado-ao-congresso-como-demanda-atribuida-ao-governo.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (IV)
(Por Gabriel Cariello, 23/12/25)
Lula diz que tarifaço dos EUA teve impacto ‘irrelevante’ no Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o tarifaço do governo americano às importações de produtos brasileiros teve impacto “irrelevante”. (*)Em um evento no Palácio do Planalto, Lula disse: “Quando muita gente imaginava que eu e o Trump iríamos entrar em guerra, nós terminamos virando amigos”.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/12/23/lula-diz-que-tarifaco-dos-eua-teve-impacto-irrelevante-no-brasil-e-que-ele-e-trump-ficaram-amigos.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
“Resumão, O Globo” (V)
(Por Gabriel Cariello, 23/12/25)
Mulher grávida é morta na Rocinha; caso é tratado como feminicídio
Uma mulher foi assassinada na comunidade da Rocinha, na Zona Sul do Rio, na manhã desta terça-feira. Segundo informações do Corpo de Bombeiros, a vítima, Géssica Oliveira de Souza, estava grávida de cinco meses (*). Ela ainda foi socorrida para o Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, mas chegou morta à unidade de saúde. O companheiro da vítima, principal suspeito do crime, é procurado pela Polícia Militar.
(TRPCE)
(*) https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/12/23/mulher-gravida-e-morta-a-facada-na-rocinha.ghtml?utm_source=edg_newsletter_geral&utm_medium=newsletter&utm_campaign=newsdiariatarde
Folha 105 (045)
“Ariano Suassuna levou sua coluna na Folha como uma grande missão”
“‘Fechei os olhos, aceitei o convite e vou em frente’, disse o escritor em artigo de 1999”
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história do jornal.
Ariano Suassuna (1) estreou sua coluna na Folha com receio. “Somente agora, aos 71 anos de idade”, ele escreve, assume pela primeira vez a “pesada responsabilidade de assinar uma coluna num jornal importante como este”.
Na coluna, publicada em 1999, ele lembra que já teve outras vidas no jornal: na década de 1950, fez crítica literária (2) na Folha da Manhã e crítica teatral (3) no Diário de Pernambuco, no Recife. Depois, nos anos 1970, passou a publicar artigos que também tocavam “o assunto político”, alguns deles, inclusive, na Folha.
O incômodo, porém, não é de currículo. Ele diz que não escreve “sem preocupações” e que, apesar de tentar se convencer de que aquilo era “apenas mais um trabalho”, persiste uma velha certeza: a “convicção exaltada” de que o trabalho do escritor tem “alguma coisa de missão”.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (4), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
A “missão” (2/2/1999)
Durante algum tempo escrevi regularmente para jornais. Na década de 50, publiquei crítica literária na “Folha da Manhã” e crítica teatral no “Diário de Pernambuco”, ambos do Recife. Na de 70, passei a publicar artigos que, entre outras coisas, abordavam o assunto político. Alguns deles foram publicados pela Folha; mas o órgão que os divulgava semanalmente era aquele mesmo “Diário de Pernambuco” do qual, 20 anos antes, eu fora crítico e colunista de teatro.
Então, é somente agora, aos 71 anos de idade, que assumo, pela primeira vez, a pesada responsabilidade de assinar uma coluna num jornal importante como este.
Não posso dizer que o faço sem preocupações. Apesar de todas as tentativas para me tranquilizar, para me convencer de que este é apenas mais um trabalho que encaro profissionalmente como escritor, lá bem dentro de mim, permanece uma sensação que me acompanha desde a juventude: a convicção exaltada de que o trabalho dos escritores tem alguma coisa de missão.
Ora, li há algum tempo o livro “Duas Meninas”, obra escrita por um crítico agudo e inteligente, Roberto Schwarz, e na qual existem expressões irônicas, dirigidas exatamente contra os escritores que se julgam encarregados de uma “missão”. Provavelmente Schwarz está certo; talvez o melhor, mesmo, fosse eu tomar outro rumo e deixar essas preocupações com o Brasil para gente mais lúcida do que eu. Principalmente se nos lembrarmos de que todos nós, artistas -pintores, dançarinos, músicos, escritores-, somos dissidentes e sectários, cada um de nós desviado, a seu modo, do pensamento comum, da visão comum, do comportamento comum e, também, por isso, quase sempre em desacordo com a maioria.
Como consequência (e talvez até como corretivo que meu subconsciente segrega contra aquela opinião pretensiosa sobre a “missão” do escritor), outra convicção também me acompanha há muito tempo: a de que a arte e a literatura só interessam verdadeiramente àqueles que entendem o dialeto da tribo, aos integrantes da seita heterodoxa à qual pertencemos, e que, como se fosse pouco, ainda abriga em seu âmbito (multiplicadas, diferentes, opostas, às vezes até inimigas) inumeráveis subseitas e heresias, cada uma delas às vezes integrada somente por um fiel -“o profeta” extraviado e solitário que a codificou.
De qualquer modo, fechei os olhos, aceitei o convite e vou em frente, como se ainda fosse aquele rapaz que, aos 20 anos, escrevia como se a sorte do meu país dependesse de meus poemas, de minhas peças, de meus ensaios, de meus romances. A frase irônica de Roberto Schwarz foi escrita no contexto de uma comparação entre Machado de Assis e Euclides da Cunha. Então, que ele me perdoe; ainda hoje, aos 71 anos, gosto mais de Euclides da Cunha, com todos os seus defeitos (que reconheço), do que de Machado de Assis, com todas as suas qualidades (que também reconheço). E como, por outro lado, não pretendo ser mestre de ninguém, pode ser que, neste presente escuro que estamos vivendo, até mesmo as dúvidas que me dilaceram possam vir a ser úteis pelo menos como matéria de reflexão. Se assim for, nem que seja somente a meus próprios olhos, minha presença aqui estará justificada.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/ariano-suassuna-levou-sua-coluna-na-folha-como-uma-grande-missao.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2024/07/difusao-de-legado-com-jovens-marca-os-dez-anos-da-morte-de-ariano-suassuna.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/livros/
(3) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/artescenicas/
(4) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Folha 105 (044)
“Juca Kfouri revelou que Nike escolhia adversários da seleção brasileira”
– ‘A CBF cedeu parte de seu control ao assinar contrato’, escreveu em 1999.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
Juca Kfouri (1) conseguiu o documento que mudaria a forma como o Brasil passaria a enxergar sua seleção (2). Em janeiro de 1999, o colunista revelou na Folha os termos do contrato entre Nike (3) e CBF (4), assinado em 1996, e mostrou que a parceria não era só patrocínio: era ingerência sobre o futebol.
A coluna expôs cláusulas constrangedoras. A Nike teria poder para escolher o adversário do Brasil em 50 amistosos ao longo de dez anos, enquanto a CBF ficaria com poder real apenas sobre as datas. Nos jogos organizados pela empresa, oito titulares eram obrigatórios e, para piorar, a CBF não recebia “um centavo” e ainda pagava as diárias de jogadores e comissão técnica.
A prometida nova sede “bancada” pela Nike também aparecia distorcida: a empresa só se comprometia a “ajudar no projeto”, mas garantia um escritório e uma loja na saída do futuro museu, posicionada para obrigar visitantes a atravessá-la.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Contrato dá à Nike poder sobre a CBF (31/1/1999)
A Confederação Brasileira de Futebol cedeu parte de seu controle sobre a seleção brasileira ao assinar contrato com a Nike em 1996.
Pelo instrumento, a principal equipe de futebol do mundo não pode mais escolher seus adversários apenas de acordo com o planejamento da comissão técnica.
A Folha obteve uma cópia em português do maior contrato de patrocínio da história do esporte brasileiro.
Pelo item 8.4 do acordo, a Nike vai escolher o adversário do Brasil em 50 amistosos ao longo dos dez anos de parceria. A CBF só tem poder real sobre a data dos jogos, não sobre os oponentes.
Esse é apenas um dos pontos do contrato de dez anos entre a entidade dirigente do futebol no país e a maior empresa de material esportivo do mundo, que vai vigorar até o final de 2006, ano em que o Brasil pretende organizar pela segunda vez uma Copa do Mundo.
Segundo o mesmo item, a seleção terá que fazer em 1999 pelo menos cinco amistosos organizados pela patrocinadora, pois no ano passado realizou apenas três (Alemanha, Athletic Bilbao e Equador).
Está determinado ainda que nos jogos organizados pela Nike terão de estar presentes oito titulares.
Ou seja, nos amistosos “técnicos”, (diferentemente dos da Nike, que são “promocionais”), em que poderá escolher o adversário da seleção, o técnico Wanderley Luxemburgo não deverá ter em campo seus principais jogadores.
Segundo regulamentação da Fifa, as seleções só podem requisitar atletas que atuam no exterior em cinco amistosos por ano.
Além disso, como a seleção principal, pelo contrato, terá de atuar nesses jogos, a preparação da seleção pré-olímpica corre o risco de ser comprometida.
Mais: nos amistosos da Nike, a CBF não recebe um centavo e ainda tem de pagar as diárias dos jogadores e da comissão técnica.
Mas a maior ingerência da empresa está nos jogos que ela não organiza. Pelo contrato, a CBF concorda em não disputar amistosos na Europa, nos EUA, no Japão e na Coréia do Sul caso a Nike “pretenda marcar” no respectivo local um de seus amistosos daquele ano.
Por exemplo, a seleção teria que deixar de enfrentar a Alemanha em fevereiro caso a Nike planejasse um amistoso contra esse país no final daquele ano.
Diferentemente do que alardeou seu presidente, Ricardo Teixeira, ao anunciar a assinatura do contrato no final de 1996, a CBF não irá receber US$ 220 milhões pelos dez anos de parceria. O total é de US$ 170 milhões mais o fornecimento de material esportivo e o pagamento de parte das despesas com transporte e hospedagem.
Desses US$ 170 milhões, US$ 10 milhões foram para a Umbro, cujo contrato com a CBF foi rompido para a entrada da Nike.
Para se chegar aos US$ 220 milhões citados por Teixeira, é preciso adicionar US$ 43 milhões que só serão pagos à CBF se ela renovar o contrato. E esse valor nem ao menos serve como luva para a renovação. É, isso sim, um valor mínimo que a entidade receberia por mais quatro anos de parceria.
Outro ponto que não existe no contrato é o de que a Nike bancaria a construção da nova sede da CBF, como Teixeira sempre anunciou.
A sede e até mesmo sua localização, na Barra da Tijuca, estão previstas, mas a única obrigação da empresa é “ajudar no projeto”. Em contrapartida, os direitos dela vão de um escritório no interior na sede até uma loja na saída do futuro museu da CBF, colocada de tal maneira que os visitantes sejam obrigados a atravessá-la.
Um dos pontos obscuros do acordo Nike-CBF é o quanto recebe a empresa de marketing esportivo Traffic, qualificada como “titular de certas marcas registradas e outros direitos de propriedade pertencentes à CBF”.
O texto especifica apenas que isso é assunto entre a CBF e a Traffic, cujo dono oficial é J. Hawilla e cujo sócio oculto, segundo o vice de futebol do Vasco, Eurico Miranda, seria o próprio Teixeira.
Outras cláusulas do contrato deixam a CBF com pouco poder para buscar novos patrocinadores.
Se por acaso quiser arrumar um substituto para a Coca-Cola, terá de dar preferência para a Nike e, se essa recusar, terá de apresentar o novo parceiro no mínimo um ano antes do final do contrato com o patrocinador.
Se um dia quishttps://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/juca-kfouri-revelou-que-nike-escolhia-adversarios-da-selecao-brasileira.shtmler se livrar da Nike, vai ser muito mais difícil. Primeiro, só pode começar a procurar um novo parceiro se a Nike recusar seu pedido mínimo. Segundo, isso só pode acontecer no último ano de contrato.
Por último, a CBF não pode assinar com nenhum outro fornecedor por um valor que a Nike esteja disposta a pagar, mesmo que espere o final do contrato.
Colaboraram Marcelo Damato e Roberto Dias
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/juca-kfouri-revelou-que-nike-escolhia-adversarios-da-selecao-brasileira.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/
(2) http://futebol/
(3) http://nike/
(4) http://cbf/
(5) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Folha 105 (()43)
“Alberto Dines denunciou o esgotamento do jornalismo brasileiro”
– ‘A isenção é uma farsa’, escreveu o crítico de mídia em 1998.
– Artigo faz parte de seção que republica colunas de grande repercussão da história da Folha.
Alberto Dines (1) estava cansado das solicitações de estudantes (2) de jornalismo e decidiu responder a todos de uma vez. Em novembro de 1998, o crítico de mídia publicou na Folha um diagnóstico devastador: “O modelo de jornalismo praticado no Brasil está esgotado”.
O texto surgiu da perplexidade que Dines (3) observava nos futuros jornalistas (4). Eles chegavam “abismados, perturbados” com o que viam na mídia, o idealismo sendo “triturado pela realidade”. Para poupar-se de novas entrevistas acadêmicas, decidiu antecipar por escrito o que certamente perguntariam.
A crítica era impiedosa. O jornalismo brasileiro havia se tornado “um gigantesco faz-de-conta”, onde profissionais imaginavam-se livres e empresas fingiam imparcialidade. “A isenção é uma farsa, mera distribuição de barbaridades em todas as direções”, escreveu, sempre pontuando com a ressalva irônica: “Com as honrosas e raras exceções”.
Dines identificou a “tabloidização” da grande imprensa mundial após a morte da princesa Diana — o próprio apelido Lady Di era uma contração para caber em títulos garrafais. No Brasil, as redações haviam se tornado bunkers onde se escrevia para outros jornalistas. “O leitor que se dane.”
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão (6), que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Por um jornalismo humanista (21/11/1998)
Crianças adoidadas -festas e férias-, universitários excitados -notas, diploma, carreira. Prazo fatal para as pesquisas de fim de semestre, trabalhos em grupo (em geral, tocados apenas por um), monografias finais. Zuenir Ventura, há dois anos, no “Jornal do Brasil”, numa gostosa crônica, chamou a atenção para a avalanche das solicitações de entrevista que recebia de estudantes de jornalismo, alguns nem sabiam grafar seu nome, ansiosos para preencher os requisitos formais.
Sofro esse assédio, a tática de defesa consiste em exigir um mínimo de esforço -que anotem as respostas, porque a maioria prefere que o entrevistado faça o trabalho do entrevistador. Se, por acaso, animam-se a um encontro pessoal, dou um jeito de tirar das mãos do futuro repórter as perguntas que trouxe por escrito. Modesta contribuição para desenvolver a capacidade de perguntar. Ou a vontade de saber.
Por razões alheias à minha vontade, os pedidos aumentaram de repente. Noto, porém, uma atitude diferente nos futuros colegas. Abismados, perplexos, perturbados. Fico condoído em ver o idealismo (ou a ambição, talvez a combinação dos dois) triturado pela realidade do que lêem, ouvem ou assistem na mídia. Assim como a parte mais sensível do público, estes que vão lidar com o público começam a divisar algo que não está nos textos.
Para abortar novas solicitações, demandas acadêmicas e questionamentos existenciais dos jornalistas em gestação antecipo por escrito o que certamente vão perguntar.
O modelo de jornalismo praticado no Brasil está esgotado. Autoinfectou-se, carece de antídotos autógenos. É um gigantesco faz-de-conta, armação joco-séria (como as tragicomédias de Antônio José da Silva no século 18). Profissionais imaginam-se livres, empresas jornalísticas fingem imparcialidade. Arrogância, onipotência e, às vezes, perversidade escondem-se atrás de um pretenso senso de justiça que não resiste a qualquer avaliação mais profunda. Com as honrosas e raras exceções.
A isenção é uma farsa, mera distribuição de barbaridades em todas as direções. O linchamento dá-se com uma foto inocente e uma legenda pretensamente objetiva. A goela escancarada de um âncora ou o falsete de outro são as provas irrefutáveis de uma infração sequer investigada. “Comunicadores” nas rádios pinçam duas linhas nos jornais da manhã e, com elas, montam catilinárias para alimentar o dia inteiro.
As redações são “bunkers”, escreve-se para aqueles que escrevem. O leitor que se dane. O sistema mediático, viga mestra do processo democrático, converteu-se num pêndulo de clonagem e canibalismo, no qual todos se copiam e todos se digladiam. A concorrência não busca a pluralidade, a diversidade ou a qualidade, mas a anulação desta pela reiteração. Com as honrosas e raras exceções.
Logo depois da morte da princesa Diana Spencer mencionei a tabloidização da grande imprensa mundial. A prova estava no próprio apelido, Lady Di, contração do nome da infeliz para caber num título garrafal do jornal de pequeno formato. A grande imprensa hoje está visivelmente impregnada pelo baixo jornalismo. Com as honrosas e raras exceções.
O divulgador da primeira fofoca na Internet sobre o caso Monica Lewinsky foi claro: “sou repórter, não sou jornalista”. Estabeleceu-se, nesta virada do século, uma linha divisória que vai marcar todos os debates sobre o futuro de um serviço público que já foi chamado de Quarto Poder. Colocou-se a preciosa arte da reportagem -busca permanente da verdade- nos porões de um negócio que confunde credibilidade com credulidade. Com as honrosas e raras exceções.
Quando em 1994 as parabólicas captaram uma conversa informal entre um repórter e o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, soltaram-se os mastins da mídia para estraçalhar a honorabilidade de um homem público que confessou aquilo que os jornais praticam ostensivamente: quando cai a circulação, inventam-se promoções (“o ruim a gente esconde…”). Ricupero foi salvo do justiçamento sumário da mídia por seu confessor, que pediu um crédito de confiança no ser humano.
Quatro anos depois, almas ensandecidas, estamos diante de um paraíso niilista: ninguém presta -de Lula a FHC. Paulo Mercadante traiu o PT porque deu as fitas ao adversário político. André Lara Resende prevaricou em favor de amigos que, afinal, não ganharam. Seu avô materno, Israel Pinheiro, vilipendiado ao longo de uma viciosa campanha de difamação orquestrada por Carlos Lacerda, era um homem de bem. Esse o seu mal.
A descrença fulcral na humanidade está na raiz de todos os espasmos despóticos e “saneadores”. O fascismo não é um partido político, é uma psicopatologia, deformidade moral. Se ninguém presta, os “eleitos” podem tudo. A Inquisição foi estabelecida porque a igreja não acreditava na capacidade do ser humano de eleger: converteu escolha em heresia. O protofascismo austríaco do fim do século passado duvidava das instituições e dos valores que haviam contribuído para os avanços da sociedade: cultura, liberdade, leis, partidos.
As grandes falsificações da história foram maquinações dos fascistas, porque nessa paranóia justiceira não há lugar para escrúpulos ou limites, o que se pretende é obliterar o senso de justiça: o “Affaire Dreyfus” (1894) foi montado em cima de um “telegrama azul” produzido por um agente duplo a serviço da direita militar francesa. Os “Protocolos dos Sábios de Sion” com os planos de uma pretensa dominação mundial judaica apareceram na Rússia czarista (cerca de 1902), bode expiatório para abafar a rebelião. O incêndio do Reichstag (fevereiro de 1933) foi uma provocação anticomunista dos recém-empossados nazistas. O Plano Cohen, armado pelos militares integralistas brasileiros, tentou impedir as eleições e foi pretexto para o Estado Novo (1937). A “Carta Brandi” (1955) foi um falso escândalo articulado pelo mesmo Lacerda para melar as eleições de 1955 e prejudicar a chapa JK-Jango. Em todos esses episódios a imprensa foi protagonista. Salvo as honrosas e raras exceções.
O salutar ceticismo filosófico converteu-se em perigosa certeza jornalística: todas as suspeitas são fundadas, todos os suspeitos, culpados. Impera a ambiguidade. Ninguém presta, todos na vala comum, humanidade sem crédito. Simulacro de justiça -sem ritos, prazos, normas.
Visão de mundo a partir do lodaçal, ótica da sarjeta. A última profissão romântica confunde-se com a mais antiga profissão do mundo. Instituição financeiramente quebrada, tenta uma nesga de poder. Paga muito a poucos, ungidos para celebrar suas preferências e produzir lixo. Com as honrosas e raras exceções.
Descobrir as tais exceções, jovens amigos, acreditar nas distinções, combater as generalizações e o nivelamento por baixo é o desafio de um jornalismo humanista.
(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/folha-105-anos/2025/12/alberto-dines-denunciou-o-esgotamento-do-jornalismo-brasileiro.shtml)
(1) https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/09/alberto-dines-foi-pioneiro-da-critica-de-imprensa.shtml
(2) https://www1.folha.uol.com.br/educacao/educacao/estudantes/
(3) https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/morre-aos-86-anos-o-jornalista-alberto-dines.shtml
(4) https://www1.folha.uol.com.br/blogs/novo-em-folha/
(5) https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/08/homenagens-a-princesa-diana-25-anos-apos-sua-morte-marcam-legado-de-carisma.shtml
(6) https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/105-colunas-de-grande-repercussao/
Matutando sobre a charge. . .
E o pior. . .
A luz que vemos no fim do túnel, é o de uma locomotiva desgovernada vindo em nossa direção!
PeTezuela, “rumu au équiça com TV maió”!