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“UMA VIDA NÃO QUESTIONADA NÃO MERECE SER VIVIDA”. “MUITOS ODEIAM A TIRANIA APENAS PARA QUE POSSA ESTABELECER AS SUAS”

Hoje emprestei para o título do meu artigo, duas frases sínteses do pensamento do filósofo e matemático grego Platão (428/328 a.C), o inspirado por Sócrates e inspirador de Aristóteles. São de simples compreensão e adequado ao momento político ou de perseguição aos críticos, apesar delas terem sido pronunciadas há mais de dois milênios e meio, segundo os relatos históricos confiáveis. Mais do que isso: elas servem para reflexão aqui na nossa aldeia.

Depois do encerramento da CPI do Capim Seco, na Câmara de Gaspar, os vereadores que participaram dela, e principalmente a relatora, a também policial Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, saíram correndo nas redes sociais para explicar à cidade de que eles [vereadores da CPI] não prendem e não julgam ninguém, como também não possuem o poder de obrigar os implicados a devolverem os supostos assustadores R$20 milhões (sem correções e calculados pelos membros da CPI) usurpados em medições enganosas, tudo para suportar pagamentos que totalizaram R$25 milhões. Só R$5 milhões seriam de trabalhos realmente realizados.

Não vou ser repetitivo, até porque sempre escrevi e diante de tantas dúvidas que estão aí na cara de todos, que escolheram um palco onde já havia apurações policiais bem consistentes, pela polícia de Blumenau especializada em corrupção. Além disso, gastaram tempo e mais dinheiro na Câmara para chegar ao mesmo ponto já levantado pela polícia de Blumenau. Agora, com números.

E pior: diante da falta de novidades, e principalmente de resultados práticos, não conseguiram o espetáculo que previam para eles na divulgação da conclusão da CPI, exatamente na semana em que a cidade conhecia a pretensão do governo em comprar mais um terreno que não sabe para que servirá. Voltando. E quem os salvou do marasmo e decepção no tempo extra, foi o ex-controlador geral do município, Ernesto Hostin, o que estava ficando com o pincel na mão, em meio a tantas espertezas dos envolvidos para se livrarem das manchas que este assunto cabuloso lhes trouxeram. Isto é passado. Mas, também há passado melhor por aqui neste tipo de assunto.

O PASSADO JÁ NOS DEU EXEMPLO MELHOR

Gaspar já deu exemplos bem diverso aos que se enrolam hoje em dia. Aliás, infelizmente, as enrolações não são diferentes da maior parte do Brasil. É só olhar para Brasília e o Congresso Nacional nas suas CPIs que ganham manchetes, mas não produzem resultados concretos de verdade para a sociedade e mudanças no comportamento de políticos, gestores públicos e empresários envolvidos nos escândalos.

Continuando naquilo que os políticos já fizeram com eficácia a favor de seus eleitores, eleitoras e à cidade.

E foi quando a suposta direita ou conservadores, incomodados, relembro aos mais jovens e principalmente aos de memória propositadamente curta, resolveram tirar as dúvidas a limpo em nome da sociedade, contra um governo que lhes tirou em eleição limpa, mas surpreendente em 2000, o sono, o conforto, a mesmice e poder [ dos conservadores]: o de Pedro Celso Zuchi, PT (2001/04). Pegos, o PT e Zuchi fizeram o óbvio e a lição de casa. Por isso, voltaram mais duas vezes (2009/16).

Os da direita e conservadores, no poder de ontem, não fizeram o mínimo que se esperava deles pela pregação que fazem. E o resultado está estampado em três CPIs recentes. Duas enterradas e uma fantasmagórica, mesmo diante de tantas evidências. E aos poucos, que diz que mudaria tudo isso, também conservador, vai deixando tudo no passado.

“UMA VIDA NÃO QUESTIONADA NÃO MERECE SER VIVIDA”

Apesar da intenção e interpretação de Platão neste caso ser específica, os políticos de Gaspar – sem o espetáculo das redes sociais e dos aplicativos de mensagens – praticamente inexistentes na época com a força e influência de hoje – já deram exemplos de um lado e de outro, em benefício da sociedade gasparense.

Corria o ano de 2003, e na Câmara produziu, o que se pode ler ainda hoje nos seus arquivos, o requerimento 15/2003 endereçado ao prefeito Zuchi, assinado pelos vereadores Joel Júlio da Costa e Orlando Bernardes (já falecido), ambos do então PSDB:

“…se digne remeter a esta Cassa de Leis, dentro dos prazos legais e regimentais, cópia dos comprovantes de quitação/depósito bancário relativos à devolução de recursos ao cofre público, por parte do Sr. Secretário Soly Waltrick Antunes Filho, em virtude de irregularidades apontadas na aquisição de tubos para a canalização de esgotos da Rua Águas Negras, conforme relatório conclusivo da Comissão constituída para analisar os fatos”.

Resumindo, o poderoso secretário de Zuchi, orientado e sem causar polêmica, devolveu o que se achou irregular, independente dele ter culpa ou não no processo, seja por erro sem dolo, seja por omissão, seja por falta de prudência à exigência burocrata da lei, seja por falta de fiscalização. Afinal, ele era o secretário e respondia pelos atos da sua pasta. Ponto final. E também não quis que a demanda da efetiva oposição, espirrasse no chefe e líder político, Zuchi e no próprio PT, que tinha na época, a partir de Blumenau, um enclave forte na região, com reais repercussões nacionais.

A CPI da drenagem da Rua Frei Solano no governo Kleber Edson Wan Dall, MDB, com o secretário de Obras e Serviços Urbanos, Jean Alexandre dos Santos, naquele tempo no MDB e hoje no PSD, e o presidente do Samae, o mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP, envolvidos, contou dezenas de tubos a menos e outras tantas coisitas técnicas duvidosas, incluindo a forma de licitação. 

Como tudo já estava enterrado pelo barro ao tempo da CPI e o governo com maioria nela, mesmo tendo como presidente o petista Dionísio Luiz Bertoldi – por estar nesta condição por ser presidente sem o voto para fazer a diferença, a CPI fez barba, cabelo, bigode e sovaco. E tudo ficou por isso mesmo. E o relatório da CPI botou tudo para debaixo do tapete dos políticos.

Sobre a armada CPI dos áudios editados com conversas cabulosas dos secretários Jean e o todo poderoso de Kleber no segundo mandato, Jorge Luiz Prucino Pereira, PSDB (foto ao lado), e que não deu em nada, não gastarei tempo aqui e hoje.

Porque se aquela CPI dos áudios cabulosos tivesse ido adiante e pretendesse esclarecer de fato o que estava sob dúvidas naquelas conversas – e não a que se escolheu para enterrá-la -, esta do Capim Seco nem existiria. Todos já estariam devidamente enquadrados sob todos os aspectos e no próprio governo de Kleber. Talvez nem chegassem a ser protagonistas e coadjuvantes das eleições de outubro passado.

Mais. Se fosse ao tempo em que os políticos agiam para tornar tudo mais claro e no seu devido lugar como aconteceu em 2003, a CPI do Capim Seco teria gasto melhor o dinheiro dos gasparenses, seguindo o rastro dinheiro e pedido a cada envolvido, no seu tamanho de responsabilização concreta, a devolução do equivalente ao tal “cofre público”, como se fez ao tempo do PT com Soly e Zuchi.

“MUITOS ODEIAM A TIRANIA APENAS PARA QUE POSSAM ESTABELECER AS SUAS”

Por fim, pergunto pela enésima vez: qual a razão do policial investigador afamado que galgou todos os cargos e funções de relevância na Polícia Civil de Santa Catarina, incluindo ao equivalente de secretário estadual de Segurança (no governo de Carlos Moisés da Silva, eleito pelo PSL, perseguido pelos bolsonaristas – como acontece agora no “affair” Carlos Bolsonaro e Ana Caroline Campagnolo -, abrigado no Republicanos e agora sem partido), Paulo Norberto Koerich, PL, estar tão exposto neste tipo de assunto?

Exemplifico, sem tocar em coisa cabeluda como a do Hospital, que continua um saco sem fundo do dinheiro público, com um atendimento deficiente à população, principalmente a mais vulnerável, e não se sabe quem, verdadeiramente, manda nele, se foi feita a venda, desapropriação etc e tal.

Rola há meses (o caso foi em 15 de maio deste ano), um desgaste sobre a instalação, por aluguel temporário, de um transformador para suportar um evento tradicionalista na Arena Multiuso Francisco Hostins, cinco dias antes da efetiva licitação do aluguel e declaração do vencedor que já tinha instalado lá o transformador nas exatas especificações do edital. 

Está claro que houve erros. Está claro que foram cartas marcadas. Se não foi, faltam explicações, convencimento. Não importa se o valor deste ato é baixo ou alto. A concorrência foi desleal. O processo está maculado.

No fundo está se experimentando, escondendo e enfrentando às evidências naquilo – que começou com coisas pequena – mas que virou marca do governo de Kleber, Luiz Carlos Spengler Filho e Marcelo de Souza Brick, ambos do PP, como mostraram as três CPIs. O que importa, no ambiente público, é a clareza e o exemplo de quem pede clareza e exemplo aos outros no palanque, entrevistas e postagens e por isso, prometeu colocar tudo às claras se fosse eleito. E foi.

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Renda e Turismo, Nelson Mário Küstner, mesmo sendo um empresário íntegro, é o responsável por esta lambança. Alertado, era o responsável por corrigi-la. Teve tempo. E ponto final. Preferiu lutar contra as evidências. Não importa que tenha sido envolvido por erros de seus subordinados, ou levado na lábia pelas armações ou improvisos da chefia de gabinete, o prefeito de fato, Pedro Inácio Bornhausen, PP. 

O secretário teve seis meses para limpar a lambança para não chegar à humilhante ida dele na semana passada às explicações inconsistentes à Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização, presidida por José Hilário Melato, PP,  e a pedido de Giovano Borges, PSD. E Nelson sangrou. Na verdade quem sangrou foi o governo de Paulo Norberto Koerich, PL. Zuchi, PT, não deixou que isso acontecesse.

Não se trata de situação ou oposição e que praticamente ainda não existe contra o governo de Paulo, a não ser o persistente e incrível fogo amigo no primeiro escalão, dentro do gabinete e na própria Câmara. O vereador Giovano, está no papel dele e está tomando para si uma vantagem que só o próprio governo de Paulo deixou criá-la, por pura teimosia e ensaios de vinganças. A Comissão da Câmara, também está no papel dela, mesmo que se acuse que possa ser um jogo para se levar vantagens nas trocas. Pois, diante desta queixa, é de se perguntar: quem mesmo deixou este jogo rolar e virar num placar contra?

Quem não entendeu direito o jogo político, até agora, um ano depois de ter ganhou as eleições, inclusive na habilidade política – quando mal escolheu um dos seus para ser o presidente da Câmara, Alexsandro Burnier, PL, só por ter sido campeão de votos -, o seu papel de liderança muito menos de que é agora um governo exposto a questionamentos, explicações e até criticas infundadas, é Paulo Norberto Koerich, PL. Ninguém mais.

Paulo, sua bancada, assessorado principalmente seus bruxos externos que o desgastam em apostas estúpidas de vinganças, com toda a sua experiência investigativa, policial e agora se dizendo por conta das funções que ocupou na sua trajetória, um experiente gestor, também teve seis meses para abortar tudo isso e ter um gesto de grandeza a favor do seu governo, na proteção da sua imagem e do seu secretariado. Fez, mais uma vez, uma aposta errada, pela imposição e não pelos espaços de negociação em ambiente político onde ela – a negociação, a boa – é prevalente.

Parece que a tirania apenas trocou de lado. Aprendizado com os erros dos outros, por enquanto, zero. Faltam  três anos para entender tudo isso e corrigir a rota. Muda, Gaspar!

TRAPICHE

Um jogo manjado. Quando um governo começa a ser questionado nos resultados e possíveis erros, ele arma cortinas de fumaças como CPIs para envolver e conter adversários ou imediatas ações populistas para desviar a atenção pública. Paulo Norberto Koerich, PL, saiu ontem, domingo a noite, para repreender os moradores de rua de Gaspar – uma cidade dormitório neste aspecto também – numa ação conjunta da polícia e da secretaria de Assistência Social.

Fez certo. Mas, Paulo Norberto Koerich, PL, está há onze meses no poder. Teve tempo de sobra para resolver ou mitigar este problema social grave, não só aqui. Se o problema aumentou em Gaspar, é porque o seu governo falhou de alguma forma. E o espetáculo para se espalhar nas redes sociais acontece depois da falta de repercussão da CPI do Capim Seco, do continuado saco sem fundo do Hospital de Gaspar que prometeu resolver, dos questionamentos que sofre seu secretário de Desenvolvimento Econômico, Renda e Turismo, da compra de um terreno sem destinação enquanto alega-se falta de dinheiro no caixa da prefeitura… Só não entende, quem não quer. Quem mesmo orienta essa gente?

Não vou repetir o que escrevi na sexta-feira passada aqui sobre o “affair” dos Bolsonaros, bolsonaristas e direitistas catarinenses e brasileiros, amplamente divididos, sobre a imposição de se ter vereador carioca Carlos Bolsonaro, PL, candidato a senador por Santa Catarina. Reposto a imagem e o texto do jornalista Anderson Silva, da NSC Total.

O carioca Jorge Seif Júnior, PL, o defensor ferrenho da candidatura de Carlos Bolsonaro, PL, por Santa Catarina, já é cota e indicação do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, PL. Das três cadeiras, corre-se o risco de todas serem, a priori, para a defesa da família Bolsonaro e não exatamente dos interesses Barriga-Verde. E ai de quem tenha opinião diferente dentro do próprio seio conservador. A família deixou isso bem claro. Os ferrenhos bolsonaristas de todo o país, também. Em Gaspar, todos em silêncio. Credo.

O Dia de Finados passou. E no túmulo quase abandonado no cemitério Santa Terezinha da “Dona Mimi” (Maria Cândida Hoeschel), empresária e a maior doadora (por não ter herdeiros) de terras da sua família no Centro para a prefeitura de Gaspar fazer caixa em tempo idos, nem uma flor. A lembrança desta personagem da história gasparense, nunca lembrada nos bancos escolares, coube a conta do Instagram chamada “Ilhota”, do professor Pedro Abreu.

Ao falar sobre o assunto, a conta publicou inclusive o mapa das terras da família Hoeschel em 1864. Era praticamente todo o Centro de Gaspar. Interessante.

A “União Progressista”, a federação partidária formalizada desde abril e enrolada para se efetivar, à medida que se aproxima o jogo político eleitoral de 2026, parece estar se concretizando. A federação que vai “unir” o Partido Progressista e o União Brasil. Ela pode ser até maior que o PL, dependendo do tamanho da debandada que esta “união” de interesses políticos conservadores e de centro terá nos estados e municípios.

Gaspar está entre eles. O vereador Thimoti Thiago Deschamps, União Brasil, fiel ao vice-prefeito Rodrigo Boeing Althoff que acabou de deixar o PL para se filiar, em Florianópolis, no puxadinho do PL catarinense chamado de Republicanos, terá que fazer escolhas. E não serão fáceis.

Uma delas é a de se unir à liderança de José Hilário Melato, PP, e a que usa a saúde pública como espaço político, Mara Lúcia Xavier da Costa dos Santos, PP. Ambos estão se acertando com o governo de Paulo Norberto Koerich, PL. E Rodrigo Boeing Althoff, Republicanos, prudentemente, está se distanciando. Mas, como em política, tudo é possível…

A outra opção de Thimoti Thiago Deschamps, União Brasil, é a de ir para o Republicanos, aproveitando que a legislação permitir de mudar de partido quando se forma uma Federação, e se vestir com mais independência perante o atual governo de Paulo Norberto Koerich, PL. Assim, não terá que subordinar ao PP de José Hilário Melato e correr o risco de ficar isolado.

Aliás o PP, no estado, que está encalacrado a partir do caso do “affair” do PL, que está rifando a candidatura de reeleição Esperidião Amim Helou Filho ao Senado pela imposição de Jair Messias Bolsonaro, PL, que quer o filho, o vereador carioca, Carlos Bolsonaro, PL, candidato por aqui.

O que isso representa nesta tal “União Progressista” em Santa Catarina? Mais incertezas. Por que? Esperidião Amim Helou Filho não é nenhum neófito, muito menos, um apegado à ideologias extremas, mesmo tendo nascido na política na Arena e como prefeito biônico de Florianópolis, do Governo Militar.

É que Esperidião Amim Helou Filho, PP, soube nestes dias, sem meias palavras, diante de tantas discussões, que mesmo estando na chapa do PL com Jorginho Melo, com este “affair” público entre bolsonaristas na defesa da candidatura do vereador carioca, Carlos Bolsonaro, PL, de que ele já está abandonado pelos bolsonaristas catarinenses. 

E o PP de Esperidião Amim Helou Filho e o União Brasil que se unem nesta “União Progressista”, em Santa Catarina estariam melhor na foto se estivessem ao lado do PSD de João Rodrigues. Mesmo na derrota. Em final de carreira política, ao menos, Esperidião – que já experimentou improváveis derrotas -, nesta, cairia de pé. Teria ao menos uma causa para registrar no seu currículo conservador: a representação da identidade de Santa Catarina, mesmo sendo amigo e defensor de Jair Messias Bolsonaro, PL (foto ao lado) e que não nasceu hoje por interesses eleitoreiros. E ficaria na história.

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11 comentários em ““UMA VIDA NÃO QUESTIONADA NÃO MERECE SER VIVIDA”. “MUITOS ODEIAM A TIRANIA APENAS PARA QUE POSSA ESTABELECER AS SUAS””

  1. Herculano

    a história do terreno da Escola é mais cabeluda…
    quem negociou o terreno? quem assina o decreto sem colocar o valor?
    por que a Secetaria antecipou os pagamentos?

    será que vão dar a cabeça da secretaria para salvar a pele do prefeito?

    Os vereadores teriam coragem de chamar o empresario figurão que vendeu terreno para dar explicaçao?

    1. Tudo tão estranho, ou tudo tão igual e repetido. Antes da secretária teve quem analisou os documentos, quem controla a boca do caixa e parece que mais uma vez o cenário é o mesmo. É fogo amigo. É amigos dos amigos de ontem e que permanecem hoje dentro e principalmente fora do governo. E o pagé está dançando a chuva da velha tribo

  2. O MARCO DE HUGO MOTA, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo

    Hugo Motta encarna aquele tipo ao mesmo tempo fraco politicamente – um presidente da Câmara cujos movimentos dependem de Arthur Lira e Ciro Nogueira – e formalmente poderoso, em função do cargo que ocupa. Deriva dessa condição precária, forjadora de um inconfiável, a surpreendente escolha de Guilherme Derrite para relator do projeto de lei conhecido como Antifacção.

    Lembre-se de que Derrite regressava ao Parlamento – era este o texto até a última sexta – para relatar o projeto oposicionista que teria por objeto a Lei Antiterrorismo e faria a disputa política com o governista. Sobreveio a reviravolta. Pouquíssimo depois de indicado à relatoria da proposta originalmente do governo, já tinha o relatório pronto. Alguém não foi pego de surpresa.

    Motta, à cata artificial da própria relevância, não é confiável. Está sempre em busca de protagonismo – de identidade, de existência mesmo – para a sua gestão, o que produz instabilidade. O político fraco que usa o poder circunstancial para baixar um marco pessoal, agora – ao sabor da moda da vez – o “novo marco legal do combate ao crime organizado no Brasil”. O reativo Motta também quer surfar a onda da segurança pública.

    Ficará com a espuma – novamente. Encaixotado, engolindo água, o governo Lula – que tem toda a razão para aborrecimento. Foi traído. Traído nos seguintes termos: concebeu um projeto por meio do qual (com atraso) pretendia ter lugar (incerto) no debate que será o mais importante em 2026; esperava um relator do Centrão-Centrão, como fora Lira para a isenção do Imposto de Renda; afinal levando o secretário de Segurança Pública de Tarcísio de Freitas.

    Noutras palavras: Lula, candidato à reeleição, terá por relator de seu projeto-aposta para tema decisivo o próprio representante daquele a lhe ser o provável desafiante, Tarcísio. Essa é a obra de Motta, que Derrite compreendeu ao estado da arte, conforme evidenciam as constituições estratégicas de seus discurso – pacífico, conciliador – e relatório; que não classifica as organizações criminosas como terroristas, antes dedicado a propor “tratamento penal equiparado quanto à gravidade e às consequências jurídicas” para atos praticados por PCC, CV, etc.

    A equiparação via pena, que “não redefine a natureza jurídica de um fenômeno, mas amplia o alcance de uma norma punitiva já existente para abranger condutas que geram o mesmo tipo de lesão ao bem jurídico protegido”. O governo Lula não apenas traído, ameaçado de perder a autoria-propriedade do que criou. Também encurralado ante uma armadilha. Ou poderá votar contra um projeto que propôs, que tem a base preservada, e que foi esvaziado da preocupação de que franqueasse condições para intervenções estrangeiras no território brasileiro?

    A primeira reação do governo à arapuca foi apontar que o relatório de Derrite levantaria barreiras à atuação da Polícia Federal e seria um presente ao crime organizado. O jogo está jogado.

  3. O LÉXICO AUTORITÁRIO DO PT, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O governo petista, como é de conhecimento geral, não se conforma com a autonomia do Banco Central (BC). Trata o atual presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, como se fosse funcionário do governo (ou bate-pau do partido, o que dá no mesmo), que ali estaria para cumprir uma missão: baixar os juros na marra, mesmo que não haja condições objetivas para isso. Como a taxa não caiu – e, a julgar pelos recentes comunicados da autoridade monetária, não cairá tão cedo –, os petistas começam a hostilizar Galípolo publicamente.

    Em entrevista ao Estadão, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, foi direta: “Quando o Galípolo entrou, a gente teve condescendência”, disse a ministra. Traduzindo: a manutenção dos juros na estratosfera pelo BC mesmo sob a direção de Galípolo, colocado ali em janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi de início tolerada pelo governo porque, segundo a versão petista da época, era resultado ainda das decisões do BC na presidência de Roberto Campos Neto – que Lula tratou como o principal inimigo do Brasil.

    Passado quase um ano da gestão de Galípolo, porém, a “condescendência” acabou. Para a ministra Gleisi, os dirigentes do BC têm sido “mais realistas que o rei”. E ela avisou que o governo continuará a pressionar pela queda dos juros porque “não pode deixar só o mercado pressionar” para “subir a taxa”.

    O léxico petista é autoexplicativo. Na visão autoritária do PT, Galípolo está no BC para fazer o que o partido julga ser correto, sem qualquer autonomia, seja a determinada pela lei, seja a ditada pelo bom senso. Pode contar no máximo com a “condescendência” temporária dos caciques do partido. Sabendo que ano que vem é ano de eleição, Galípolo certamente saberá o que é ser alvo da intolerância petista.

    Nesse sentido, roga-se que o jovem presidente do BC mantenha-se firme na sua determinação de conduzir a política monetária conforme os melhores parâmetros econômicos, e não segundo os humores de seu padrinho Lula.

    Mas Galípolo terá trabalho. Na entrevista ao Estadão, a ministra Gleisi argumentou que um punhado de indicadores econômicos momentaneamente positivos são suficientes para determinar o corte na taxa. Falou em geração de emprego, PIB positivo e o que chamou de “inflação sob controle” – o que não coaduna com uma taxa acumulada de 5,17%, nos 12 meses encerrados em setembro, muito acima da meta de 3%.

    O IPCA está 2,17 pontos porcentuais acima do centro da meta, alvo da política monetária do BC. Mas para o governo petista o centro da meta é uma abstração. A ministra Gleisi, seguindo o padrão do governo, comentou que a “meta de 3% também é bem apertada”. Ora, essa meta é determinada pelo próprio governo no Conselho Monetário Nacional.

    Um dos principais fatores de pressão inflacionária – e que, consequentemente, provoca alta dos juros – é o descontrole fiscal do governo Lula. Se o governo fizesse sua parte, os juros já teriam caído. Mas os petistas, como sabemos, são muito condescendentes com a inflação.

    1. Credo. O mal de sempre. Quando no poder, as pessoas se tornam cegas, mudas e surdas às evidências. A sua observação corre solta por meses em toda Gaspar, além de parte de Blumenau – de onde vem uma massa generosa do primeiro escalão, Ilhota (por afinidades) e Balneário Camboriú onde alguns de ontem e hoje se reúnem para inverter a tábua das marés.

      Tem mais gente neste bololô.

      O pior dele, está fora do governo. Há fogueiras amigas (e de vaidades) por todos os lados. Fez bem, o empresário Nelson Mário Küstner sair delas, mesmo com queimaduras. Deveria agora, como fez Ernesto Hostin, o ex-controlador geral de ex-prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB, com Marcelo de Souza Brick, PP, dar os nomes de quem o levou ao erro e a sangrar dentro do governo de Paulo Norberto Koerich, PL.

        1. E tem mais. Tudo do fogo amigo e das armações ilimitadas do novo parceiro, o PP – o que verdadeiramente manda na barrosa, e não é de hoje.

  4. NÃO É CULPA DO BANCO CENTRAL, por Carlos Alberto Sardenberger, no jornal O Globo

    Não, o Banco Central não é o culpado pelos juros altos. A culpa está no Ministério da Fazenda, responsável pelo descontrole das contas públicas, que resultam numa expansão insustentável da dívida. Mas o ministro Fernando Haddad segue os projetos do presidente Lula.

    Sobram números para demonstrar esse desequilíbrio. Mas nada é mais eloquente que esta situação: o governo terá déficit expressivo neste ano, algo em torno de R$ 80 bilhões. E poderá declarar de peito aberto que cumpriu a meta legal de déficit zero.

    O truque começa na flexibilização da meta. É zero, mas, sabem como é, isso de orçamento é coisa complicada de acertar, de modo que o arcabouço aceita uma margem de tolerância. O resultado pode ser um déficit equivalente a 0,25% do PIB (algo como R$ 31 bilhões) ou um superávit de mesmo tamanho. No governo, ninguém jamais pensou em buscar a meta de superávit. Seria, dizem, deixar o dinheiro sobrar quando há tantos gastos importantes a fazer.

    Vamos aqui dar um ok provisório. De fato, há muitas carências a atender com o gasto público. Mesmo assim, um governo já muito endividado, como é este, deveria, por prudência, mirar no resultado zero, deixando a margem de tolerância para a ocorrência de eventos inesperados. Nas circunstâncias atuais, se o governo gastasse apenas o que arrecada, já estaria muito bom. Mesmo porque a receita tem aumentado expressivamente.

    Mas não basta. A Fazenda diz que precisa ter como alvo o déficit máximo tolerável. Caso contrário, teria de cortar muitas despesas, o que o presidente não tolera. Forma-se no Tribunal de Contas da União uma tese de que o governo tem de mirar o déficit zero, e não a margem de tolerância. Mas isso, se vier a valer, será só no próximo ano. As engrenagens do Executivo não são propriamente apressadas. Fica assim, portanto: o governo buscará na execução do Orçamento deste ano um déficit de R$ 31 bilhões (0,25% do PIB), que será igual a zero na forma da lei e na lógica do arcabouço fiscal.

    Entretanto as contas da própria Fazenda mostram que o déficit real ficará próximo dos R$ 80 bilhões. O truque é dobrado. Além da margem de tolerância, a lei e o arcabouço declaram que determinadas despesas não entram na conta. São despesas diversas, desde o pagamento de precatórios até gastos emergenciais e não tão emergenciais, como a compra de equipamentos militares. É isso mesmo: gasta-se o dinheiro, mas não se considera na contabilidade oficial e legal.

    E então, senhoras e senhores, nenhuma carta escondida nessa mão, nada na outra, e um déficit de R$ 80 bilhões aparece como R$ 31 bilhões, que é igual a zero — uma proeza.

    Desgraçadamente, porém, a realidade é um tanto diferente: o dinheiro não contabilizado sai dos cofres do governo, é gasto efetivo. E, assim, a despesa fica acima da receita. Vai daí, o governo precisa tomar dinheiro emprestado para cobrir os gastos correntes e para pagar juros da dívida já feita. Em outras palavras, aumenta a dívida pública.

    Quando começou o governo Lula 3, a dívida bruta era equivalente a 71,7% do PIB. Em agosto último, já era de 77,5%. E subindo. No lançamento do arcabouço, o Ministério da Fazenda projetava que essa dívida bruta chegaria a 77% do PIB só no fim de 2026, e isso no pior cenário. Como esse número já foi superado neste ano, as novas projeções preveem que a dívida chegará a 83% do PIB no fim do governo, em dezembro de 2026.

    Como calcula o economista Alexandre Schwartsman, os gastos federais da atual gestão subiram R$ 280 bilhões. Mesmo com o aumento seguido de impostos, não há como cobrir isso tudo. Não há dúvida de que muitos gastos são necessários e justos. Mas não tem mesmo nada para cortar?

    Um governo muito endividado tem de pagar juros cada vez mais altos para tomar empréstimos. Essa é causa primária dos juros altos. Não é culpa Banco Central. O que se precisa é de reformas para um ajuste nas contas públicas. Sei que é fácil falar, difícil fazer. Mas continua necessário, se queremos um país equilibrado e em crescimento

  5. A BUROCRACIA COMO NEGÓCIO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    Em 25 dos 27 Estados brasileiros, o ofício mais bem pago não é o de empresário, médico ou jogador de futebol. É o de tabelião – nos outros dois, é o de juiz ou procurador. Como radiografou uma reportagem do Estadão, uma casta de delegatários investidos de “fé pública” subverte há séculos uma função estatal em “mina de ouro vitalícia”. Ganha-se mais autenticando assinaturas do que dirigindo empresas ou salvando vidas. É o retrato do patrimonialismo: a burocracia como negócio.

    O cartel cartorial é uma anomalia que sobreviveu à República, à industrialização e à revolução digital. Enquanto países modernos digitalizaram seus registros e integraram cadastros, o Brasil cultiva uma distopia de balcões, carimbos e taxas. Criados para dar segurança jurídica, os cartórios consolidaram um ecossistema de privilégios blindado pelas corporações de juízes e procuradores, que levam parte do butim. Um microcosmo do clientelismo, onde a função é pública, e os lucros, privados.

    Em média, os tabeliães faturam R$ 156 mil mensais, e alguns mais de meio milhão. A receita anual dos cartórios – mais de R$ 30 bilhões – supera o orçamento somado de programas como o Farmácia Popular, o Mais Médicos e a merenda de todas as crianças da rede pública. Um enclave rentista sem concorrência cimentado por lei – verdadeiros feudos de arrecadação.

    O mantra da “segurança jurídica” dá verniz a um Leviatã notarial que sobrevive de rituais anacrônicos. Em pleno século 21, o cidadão ainda precisa reconhecer firma, autenticar cópias e peregrinar de guichê em guichê para provar que é quem diz ser – eternamente cativo de uma burocracia bizantina que transforma o tempo em tributo e condena o País a ser um dos mais lerdos e caros do planeta para abrir empresas, registrar propriedades e executar contratos.

    A distorção é, a um tempo, moral e econômica. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a burocracia cartorial encarece a casa própria em até 12% – uma taxa informal sobre o direito de morar. As taxas formais variam grotescamente – o protesto de uma dívida pode custar R$ 69 no Ceará e R$ 4 mil no Piauí. Essa máquina de produzir desigualdades e asfixiar a produtividade não é acidente: é produto do lobby do carimbo e do balcão que bloqueia toda tentativa de simplificação, padronização ou transparência.

    O contraste internacional é humilhante. Na Suécia, registros civis e fiscais são totalmente digitais e gratuitos. Portugal privatizou o notariado, mas fixou tarifas e limitou ganhos. Na França, os notários são oficiais nomeados pelo Estado, com tabela nacional e controle público. Até a Estônia permite abrir empresas em minutos, com total rastreabilidade digital. Já o Brasil conserva capitanias hereditárias sustentadas por selos, carimbos e taxas do século 19.

    Não se trata de destruir a fé pública, mas de modernizá-la. O País precisa de um novo pacto cartorial, guiado por eficiência, transparência e concorrência. Isso implica consumar a digitalização dos registros públicos; fixar um teto remuneratório vinculado ao serviço público; padronizar e publicar os emolumentos sob autoridade independente; e permitir concorrência territorial e fé pública compartilhada com instituições certificadas, como já ocorre em Portugal. E, sobretudo, quebrar a simbiose entre burocracia, Justiça e política que perpetua essa reserva de mercado oligárquica.

    Nenhum país que aspire à modernidade pode tolerar um despotismo capilarizado que transforma o ato de registrar uma escritura em privilégio de casta. A digitalização e a competição não ameaçam a segurança jurídica – apenas retiram dos carimbos o monopólio da confiança. É hora de devolver ao cidadão o tempo e o dinheiro sequestrados por uma elite extrativista.

    Desburocratizar os cartórios é mais do que uma reforma administrativa: é um gesto civilizacional. É libertar o Brasil do cativeiro do papel, dos labirintos de formulários e dos rituais de submissão ao balcão. Nenhuma democracia decente transforma o selo público em fortuna privada. A República começa quando a assinatura deixa de ser negócio – e volta a ser um ato de fé na lei, não no tabelião.

  6. AS PORTAS SE FECHAM PARA OS BRASILEIROS, por Stephen Kanitz, extraído das redes sociais do autor

    Quem tem muito dinheiro já foi embora. Quem ficou, ficará — para sempre.

    Os últimos a saírem ainda conseguiram um visto italiano, português, americano.

    Os que zombaram da política, que votaram “no que fala pouco”, agora vão entender o preço da omissão.

    No Brasil do futuro — que já começou — você somente obedecerá. Obedecerá calado.

    Pagará impostos cada vez mais pesados, aceitará uma saúde pública em colapso, verá seus filhos estudarem em escolas sucateadas. E ainda agradecerá, pois reclamar será crime.

    Desde o fim do regime militar, único período de crescimento sustentado, nossa renda per capita foi cortada pela metade. Dado escondido pelo IBGE, abafado pela imprensa.

    Caímos do 40º onde hoje está a Grécia, para o 81º lugar no ranking global de renda.

    Sim, caímos — e acreditamos todo este tempo estar subindo. Foram 40 anos de doutrinação.

    Nossos jornalistas, intelectuais e professores venceram: conseguiram fazer o país regredir em nome de justiça social — uma justiça que só distribui miséria.

    Como ex-professor universitário, afirmo: nunca ouvi na USP uma conversa séria sobre crescimento. Só sobre distribuição.

    Nunca discutimos eficiência. Só aumento de gastos.

    Nunca produtividade. Só aumento de salários do funcionalismo.

    Agora, quando o Brasil se tornar verdadeiramente inviável, Flórida e Portugal não estarão com os braços abertos para nos receber. Estarão com os portões trancados. E com razão.

    A esperança de que Tarcísio, Caiado, ou Ratinho, poderão mudar tudo isso sozinhos, é uma ingenuidade atroz.

    Como se trocar o piloto mudasse o avião em queda.

    A verdade é amarga: 1,5 milhão de brasileiros irresponsáveis, somados aos 12 milhões que anularam o voto, colocaram no poder um condenado em três instâncias. Mesmo que a primeira instância fosse falha, a segunda e a terceira confirmaram e isso ainda não foi contestado.

    Prepare-se. O Brasil caminha para mais 50 anos de estagnação, comandado por políticos e economistas que vivem do que você produz, sem entregar nada em troca.

    Mas ainda há tempo para reagir. Comece se educando, politicamente e economicamente.

    Exija reformas, desmascare as mentiras, confronte o discurso único.

    Ensine seus filhos a pensar — e não a repetir slogans.

    Denuncie o populismo, o aparelhamento, a corrupção sistêmica. Vote com coragem, com lucidez, com memória.

    O futuro do Brasil não será diferente enquanto os brasileiros forem os mesmos. Mude. Agora.

    Ou se conforme em assistir o país definhar — por sua culpa.

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