Esta semana, os meios de comunicação de Santa Catarina foram inundados, como se fosse coisa nova, com resultado de um agravo julgado em 25 de fevereiro pelo Superior Tribunal de Justiça. Ele proíbe os prefeitos – e governantes, por extensão interpretativa – “utilizar perfis pessoais em redes sociais para divulgar ações da administração pública. Segundo a Corte, essa prática configura promoção pessoal indevida e pode levar à condenação por improbidade administrativa”.
É que os ministérios públicos estaduais, em cadeia, como se pode olhar nas pesquisas nos buscadores de assuntos, estão reforçando esta recomendação. Recomendam, depois vão atrás das punições, usando o julgado e o alerta que deram. E esta semana foi a vez do Ministério Público Estadual de Santa Catarina em várias regiões do estado. Há locais em que o MP atua mais ativamente, em outras não.
Esta notícia, a princípio, pode ser uma oportunidade perdida e ruim ao mesmo tempo para os prefeitos que usavam e abusavam desse expediente e ferramentas digitais, como ex-prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB, e seu ex-vice, Marcelo de Souza Brick, PP, jovens e familiarizados com a comunicação verbal fácil e convincente. Pareciam mais comunicadores e atores do que gestores da cidade. E mesmo assim, levaram uma sova nas urnas.
Retomando.
UMA NOTÍCIA RUIM OU BOA?
Mas, esta notícia advertência, penso é uma benção para Paulo Norberto Koerich, PL, por vários aspectos.
A área de comunicação dele, num mundo plugado digitalmente 24 horas por sete dias, nunca funcionou estrategicamente a favor do governo dele, tanto que em quatro meses já tinha trocado de titular. E mesmo assim, nada mudou. Ela não é autônoma. E faz o que os curiosos querem.
Até a poucos dias, mesmo nove meses depois da posse, o plano de governo disponível no site oficial da prefeitura para os gasparenses era o da gestão de Kleber. Suprema barbeiragem, humilhação e retrato irretocável de dispersão desta área e do governo em si, onde o Plano de governo ser apenas uma peça sem valor.
Esta notícia é também uma benção. É que Paulo não possui qualquer intimidade com a comunicação dos anos 25 do século 21; ele não é espontâneo, espirituoso e empático. A autopromoção, neste caso, na maioria das vezes, mal construída, ou mal comunicada trabalha contra ele próprio.
E a equipe de governo dele – não só a de comunicação – não enxerga pontos de oportunidade diferenciais, não o protege e quando Paulo grava os “teasers” para as redes sociais dele – e as oficiais da prefeitura – parece sempre de mau humor, estar fazendo a fala a contragosto, ou dando a entender que o seu público tem que lhe engolir, sem ser um Zagalo. Um desastre. Se foi treinado, não está apto.
Caminhando para concluir.
Isto não é um defeito. Trata-se de habilidade. Eu mesmo, tenho noção que teria o mesmo problema e devido a isso, não me arriscaria – já fiz vários demos e me avaliei como de baixa performance, sem perspectivas de melhoria – a fazer um blog falado. Não é a minha praia. Vim de outra área.
Ora se eu mesmo percebi que não tenho jeito para a coisa, uma “equipe profissional” de comunicação, contratada não só para ajudar, mas, principalmente, proteger, o novo gestor e o novo político Paulo não consegue enxergar que Paulo não possui esta mínima habilidade para ser um comunicador dele próprio e da gestão dele? A “equipe profissional” está com medo para dizer isso a ele claramente? Ou é adversária e o coloca exposto e trabalha do contra o time e os resultados que precisa trombetear e ampliá-los?
O que é definitivo? Se Paulo não tem a habilidade, perfeitamente compreensível, a “equipe profissional” de comunicação precisa encontrar formas, e há múltiplas, para substituí-lo com muito para eficiência e resultado para o time e à cidade. Impressionante.
Precisou vir a recomendação do MP, devido à decisão do STJ, para salvar Paulo de uma obrigação marqueteira que ele próprio não é o melhor garoto propaganda? Credo. Muda, Gaspar!
TRAPICHE

Na outra ponta, está o exagero do uso, sem freios, das redes sociais. E o exemplo vem do vereador tik tok, pop star, vaidoso, que se irrita facilmente ao ser confrontado ou rotulado, o campeão de votos (3.429 votos ou 9,43% dos válidos) presidente da Câmara de Gaspar, Alexsandro Burnier, PL.
Esta semana, o que se ensaiava há meses -e que antecipei no ano passado e fui duramente criticado -, explodiu expressamente e sem meias palavras na tribuna da Câmara via o vereador Giovano Borges, PSD (foto ao lado), que já foi presidente da Câmara. Ambos são do Bela Vista e eles têm diferenças antigas. Alexsandro Burnier, PL, já foi cabo eleitoral de Giovano. Mas, esta não foi a questão de fundo, entretanto, alimenta tudo isso. Até porque isso apareceu.
“Vou dar um conselho para você Alex [Alexsandro]. Passe a ser presidente. Não fez nada até agora [nove meses]. Nada. Diga-me o que fez. Pior presidente dos últimos anos. Fraco. Levou uma surra dos conselheiros tutelares estes dias. Vereador Melato [o mais longevo deles e presidente da Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização, José Hilário] deu uma mijada esses dias na sala da Comissão. Tem cheiro de xixi ainda. Não tem pulso. tem que ter alguém que faça gestão da Câmara…“
Surpreendido com a sarrafada, Alexsandro Burnier, PL, veio em seguida e preferiu não polemizar. Até, porque ele sabe que Giovano Borges, PSD, foi portavoz de uma maioria que não teve coragem de fazer o que Giovano fez, mas já tinha enviado vários recados, desprezados ou não entendido por Alexsandro.
Alexandro Burnier, PL, é cria e retrato do governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Altohff, ambos do PL. Não tinha experiência. Tinha votos. Tem um padrinho, o deputado Ivan Naatz, PL. Pela vaidade e erro político foi eleito presidente da Câmara, inclusive com mo voto de Giovano, PL. Resultado: o governo ficou fraco, com dois votos a memos, mais dependente da suposta oposição, que trama e faz preço. E a Câmara ficou sem líder, inteligência, pulso e fraca aos interesses do governo.

Não se sabe se Alexsandro Burnier, PL, é presidente, se é vereador, é líder do governo (na foto ao lado pinçado de uma publicação sua quando classificava as floreiras do Pasto do Jacaré inúteis). Joga em todas e falha em quase todas. Presidente de uma Câmara não é apenas um título de vaidade, ainda mais para um jovem sem experiência na política, que enxerga fantasma em todos os cantos e arma vinganças, inclusive contra a imprensa. É uma função com ritual próprio. Exige cautela e assessoramento. Alexsandro lembra muito o fenômeno deputado estadual campeão de votos, Ricardo Alba, PSL, de Blumenau, e que pelos 62.762 votos queria ser presidente da Assembleia. Não foi. Foi engolido, inclusive pela direita a que serviu. E hoje, pelo jeito, nem votos para vereador possui mais.
Voltando. Alexsandro Burnier, PL, foi campeão de votos usando bem as redes sociais a seu favor como caçador de mau uso do dinheiro público em Gaspar. Prometeu desnudar e buscar punições. Eleito, o máximo que conseguiu, foi criar a CPI do capim seco, que vaga por aí, sem apontar nada além do que a polícia especializada em corrupção de Blumenau já apurou.
Pior. Não conseguiu enxergar nada nos livros comprados ao fechar do ano passado, não distribuídos e mal armazenados para fechar Orçamento na Educação ao tempo do governo anterior, a montagem irregular da tal “fábrica” de informática no ginásio vereador Gilberto Sabel, não foi atrás da reparação da ligação do Pasto do Jacaré que em poucas semanas perde a garantia da construtora e a responsabilidade da cara empresa de fiscalização. Pior viu a polícia chegar a Gaspar em algo que não estava no seu radar de paladino e está aplaudindo o desperdício de colocar as floreiras do “Pasto do Jacaré” nas escolas, isto sem falar que os tais bueiros inteligentes continuam estocados, mesmo gastos neles R$milhões de dinheiro bom que falta à cidade. Muda, Gaspar.
Ontem saiu a lista dos 12 advogados habilitados à escolha no Quinto Constitucional para um deles ser nomeado pelo governador Jorginho Melo, PL, desembargador do Tribunal de Justiça. A surpresa é de que o deputado estadual Ivan Naatz, PL, apareceu na rabeira. Agora, começa a campanha para estar entre os seis da lista que vai ao governador.
Então quer dizer que Indaial ganhou a corrida para a implantação da Policlínica Regional e que foi rejeitada por Blumenau, alegando falta de terreno? Gaspar – pelos vereadores – tinha se habilitado, mas o antigo terreno da Furb, no bairro Sete de Setembro com o Poço Grande, como havia antecipado, é muito contramão para algo regional.
A direita está se deteriorando e se desmanchando na imagem que vendia como a salvadora da pátria diante de uma esquerda que só saber aumentar impostos e sublocou o aparelho estatal para facilitar roubos de todos os tipos, inclusive contra idosos doentes, pobres e analfabetos. A tampa do caixão não está exatamente nesta “anistia” que se prega, e que no fundo apenas servirá, pelo que se desenrola, para salvar os tubarões e deixar os bagrinhos presos por longos anos num aquário de água contaminada.
Esta “PEC da Blindagem” inventada pelo PL e amplamente acolhida pelo Centrão, é a PEC que vai levar para o centro do poder bandidos reais do narcotráfico e crime organizado e lá vão ficar intocáveis, sugando e aterrorizando a sociedade. E o problema são os adversários políticos. E a bandidagem, organizada, com Justiça paralela, que mata policiais, que assalta com ajuda e brechas do aparelho estatal, os bilhões e bilhões de reais nos cofres para onde mandamos os cada vez mais pesados impostos on line, monitorados por inteligência artificial, está agradecendo a “blindagem” com ou sem PEC. Meu Deus!
Os eleitores e eleitoras desavisados ou organizados por este esquema paralelo, estarão, por outro lado, sujeitos à lei normal. Se unidos, esses parlamentares não piorarão tudo, inclusive comprometendo a democracia para servir aos seus interesses escusos. Se temos problemas com o judiciário e especialmente o STF, a dialética ainda é o melhor caminho para buscar soluções conciliatórias à sociedade, contra os privilégios, vinganças e bandidos de todos os tipos.
Para encerrar esta sexta-feira. E se tudo isso fosse pouco, Santa Catarina virou laboratório para salvar a família Bolsonaro do cadafalso que ela próprio se meteu: um quer ser deputado Federal nem sabendo se expressar como vereador alienígena. O outro está se auto importando, com apoio das lideranças catarinenses, para ser mais um senador sem nada a ver com a nossa história.
E para piorar a imagem dos radicais da direita, a líder do PL na Câmara, Caroline De Toni, cedeu a liderança, na cara dura, para Eduardo Bolsonaro, PL-SP, não ser casado por ausência ao trabalho, continuar dos Estados Unidos infernizando o futuro do Brasil e dos brasileiros, os que dependem de empregos e investem aqui em busca de um país mais justo para todos.
Isto vai ter um preço nas urnas de outubro do ano que vem se não houver um freio de mão nesses exageros. Inclusive em Gaspar.
12 comentários em “HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM. CHACRINHA DIZIA: “QUEM NÃO SE COMUNICA, SE TRUMBICA”. TEM GENTE QUE NÃO É ORIENTADO, NÃO SE COMUNICA, E QUANDO FAZ ISSO, FAZ SEM CONVENCIMENTO, EXPONTANEIDADE, AUTENTICIDADE, AUTORIDADE E COM CHEIRO DE AUTORITARISMO”
AVISO
Aos que reclamavam pela volta dos meus artigos inéditos e aos que comemoravam a ausência deles, estou de volta.
EM CRISE, JORNALISMO PRECISA DE HUMILDADE, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Neste Dia Mundial do Jornalismo, é incontornável refletir sobre a interdependência entre a imprensa e a democracia. Nenhuma sociedade livre pode prescindir de informação independente, produzida com rigor, transparência e responsabilidade. Onde não há jornalismo, florescem a propaganda, a manipulação e o silêncio – e, com eles, o autoritarismo.
O jornalismo profissional sempre foi alvo preferencial dos que aspiram ao poder sem limites. Populistas de direita fazem da imprensa um inimigo a ser desmoralizado e, se possível, silenciado: Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Narendra Modi – todos recorrem à tática de acusar a imprensa de fabricar fake news para justificar suas próprias falsificações. Mas não é só a direita populista que ameaça a liberdade jornalística. Regimes autocráticos de esquerda, como os do Partido Comunista Chinês ou de Nicolás Maduro, na Venezuela, perseguem jornais independentes com ferocidade cada vez maior. O PT, por sua vez, inventou o “Partido da Imprensa Golpista”, espécie de conluio maligno dos jornais para derrubar os virtuosos governos petistas, e Lula da Silva nunca renunciou ao sonho do “controle social da mídia”, agora reciclado para a “regulação das redes digitais”.
Se os inimigos da imprensa são evidentes, não menos grave é a crise endógena que corrói sua integridade. O descrédito generalizado da mídia não se deve apenas à desinformação fabricada por demagogos e redes sociais; decorre também de escolhas viciosas dentro das próprias redações. A hegemonia progressista no jornalismo profissional erodiu a confiança de vastos segmentos da sociedade, que passaram a enxergar a imprensa não como guardiã dos fatos, mas como porta-voz de uma ortodoxia ideológica. A noção de “clareza moral” degenerou, com frequência, em moralismo militante. A busca de cliques levou a sacrificar imparcialidade em favor de narrativas engajadas ou sensacionalistas.
O problema não se restringe à esquerda. O jornalismo conservador também produziu seus desvios, que beiram o negacionismo e a fraude. O caso da Fox News, obrigada a pagar quase US$ 800 milhões por difamar uma empresa de urnas eletrônicas após a eleição americana de 2020, mostrou até onde pode levar o casamento tóxico entre desinformação, audiência e lucro. A direita radical descobriu que transformar paranoia em produto midiático rende cliques e votos, ainda que ao custo de envenenar a democracia – ou justamente por isso.
Assim, a imprensa se vê sitiada por fora e, em grande medida, corrompida por dentro: de um lado, populistas que querem calá-la; de outro, jornalistas que, em nome de causas ou da audiência, traíram seu compromisso com objetividade e rigor. O resultado é a perda da confiança pública – exatamente o que autoritários de toda cor desejam.
A saída não está em nostalgia nem em acomodação, mas em renovação. É preciso recobrar os valores fundacionais do ofício: objetividade entendida como método disciplinado de verificação; imparcialidade como lealdade aos fatos, e não a partidos; integridade ética contra a tentação de se tornar trincheira política. Mais do que nunca, o jornalismo precisa de humildade – para reconhecer erros, corrigi-los rapidamente e cultivar proximidade com o público sem se deixar capturar por ele.
Num tempo de desinformação industrial, redes sociais viciadas em escândalos e inteligência artificial capaz de fabricar realidades falsas em segundos, o jornalismo profissional é um bem coletivo mais precioso, não menos. Só ele pode oferecer à democracia uma base factual comum, sem a qual o debate público se dissolve em gritos inconciliáveis. É um trabalho árduo, mas indispensável: acender luzes onde o poder quer sombras, dar voz ao que o autoritarismo quer calar, separar a verdade da propaganda, oferecer verdades incômodas onde o público quer afagos.
Sem imprensa livre, a democracia se atrofia. Sem democracia, a imprensa é asfixiada. Por isso, neste Dia Mundial do Jornalismo, o chamado é duplo: que os governantes cessem seus ataques covardes contra os repórteres, e que os jornalistas resgatem o sentido maior de sua profissão. Só assim a liberdade de todos poderá ser preservada.
SOB FACHIN, SUPREMO PRECISA BUSCAR A AUTOCONTENÇÃO, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Não é coincidência que o Supremo Tribunal Federal esteja prestes a mudar de presidente pouco depois de concluir o julgamento que condenou, de forma inédita na história do país, um ex-presidente da República e aliados militares por tentativa de golpe de Estado.
Foi perceptível o esforço da corte em dar celeridade ao processo, de forma a encerrá-lo ainda sob o comando do ministro Luís Roberto Barroso e evitar o prolongamento de tensões políticas até o ano eleitoral de 2026. Espera-se que, com a chegada de Edson Fachin à presidência do STF na segunda-feira (29), o pior de um ciclo difícil e tumultuado tenha sido deixado para trás.
Desde a vitória de Jair Bolsonaro (PL) na disputa pelo Planalto em 2018, as instituições republicanas do país sofreram as pressões mais agudas em quatro décadas de redemocratização. O Judiciário, com destaque também para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), soube enfrentar o assédio subversivo com altivez e teve papel fundamental na preservação do Estado de Direito.
Esse enfrentamento concentrou as atenções de quatro presidentes do Supremo no período —antes de Barroso, Dias Toffoli, Luiz Fux e Rosa Weber, pela ordem, cada qual com dois anos de mandato— e não se deu sem heterodoxias e excessos por parte de magistrados. Espera-se que agora seja trilhado o caminho de volta à normalidade.
Não é que as turbulências tenham se dissipado por inteiro, vide as movimentações do bolsonarismo por anistia e o tarifaço aplicado por Donald Trump contra o Brasil. Mas não há mais motivos para manter medidas que deveriam ser excepcionais.
Entre elas estão, em especial, os intermináveis e opacos inquéritos a cargo do ministro Alexandre de Moraes —como o das milícias digitais, aberto em 2021 e destinado a vigorar em 2026. Neles se acumulam investigações sem objetivo claramente definido, decisões de inclinação censória e arbitrariedades como ordens monocráticas sigilosas.
Além de tomar para si tarefas que em circunstâncias regulares caberiam à Procuradoria-Geral da República (PGR), o Supremo também invadiu nos últimos anos competências do Legislativo, como quando se arvorou a modificar o Marco Civil da Internet prejudicando a liberdade de expressão e a segurança jurídica.
É fato relevante que Fachin tenha sido um dos três votos vencidos nesse julgamento, tendo se manifestado a favor da preservação das normas democraticamente debatidas e em vigor há mais de uma década.
Também é alvissareiro o perfil discreto do novo presidente do Supremo e sua preocupação, manifestada por meio de poucas e cuidadosas observações, em separar os embates políticos das decisões jurídicas.
É claro que a normalização de procedimentos não depende apenas dele, mas é missão que deveria ser assumida pela corte pelo bem de sua credibilidade.
NÃO HÁ CENSURA NO BRASIL? por Fernando Schüler, no jornal O Estado de São Paulo
Muitos cidadãos foram agredidos, em seus direitos, e isto jamais deveria acontecer em nossa democracia. “No Brasil não existe censura”, disse o ministro Barroso, esta semana, na abertura de uma sessão do STF. A declaração me surpreendeu.
Tenho apreço pelo ministro, de modo que dou uma resposta popperiana: listo dez casos de censura, no Brasil dos últimos anos. Se eles não existirem, está tudo bem. Mas se eles forem reais, quem sabe vale refletir sobre o que vem se passando, afinal, em nossa democracia.
O primeiro é o ato inaugural. Muita gente acha que os inquéritos surgiram para salvar a democracia, mas não. Foi para censurar uma revista, em 2019. Depois vem o caso do PCO. Um tuíte que quase ninguém leu, um “ataque” ao STF, quem sabe em nome da justiça soviética, e o minúsculo partido comunista foi apagado. O terceiro é o professor Marcos Cintra. Tuíte elegante sobre o resultado de algumas urnas. Nenhum “ódio”. Apenas o direito de questionar alguma coisa, na internet. O próximo é o deputado Homero Marchese. Divulgou um protesto, em Nova York. Estava no Paraná. Mas foi a pique. Censurado durante meses, recorreu. Sua indenização foi anulada e, o juiz que a concedeu, investigado. Curioso caso em uma democracia onde “não existe censura”.
Depois vem a turma do WhatsApp. Grupo privado, papo-furado. Um sujeito diz que prefere uma ditadura à eleição de um candidato. Bobagem, não crime. Os demais, nada. Um deles, Luciano Hang. Dois anos de censura por dizer coisa nenhuma, no WhatsApp. A lista segue com o Monark. Primeiro, censurado por achar que mesmo um partido nazista deveria ter direito à expressão. Princípio elementar da Primeira Emenda Americana. Crime? Foi censurado ainda uma segunda vez por críticas ao STF. Ameaça nenhuma, apenas uma opinião ácida. Dessas a que estão sujeitos os que ocupam funções públicas.
Censurar um documentário sobre o atentado a Bolsonaro, sem conhecer o conteúdo? Caso clássico, e algo ridículo, de censura prévia. Indiciar um deputado, Marcel Van Hatten, por uma denúncia de abuso de poder, na tribuna da Câmara? Um deputado não pode fazer uma denúncia, no Parlamento, se julgar relevante? E as plataformas digitais obrigadas a apagar sua visão sobre o “PL das Fake News”? E uma autoridade, numa manhã de Brasília, dando ordens para “desmonetizar” revistas? E depois de ouvir que “não tem nada”, que há apenas “matérias jornalísticas”, mandar que se “use a criatividade” para incriminar veículos de comunicação?
Desde que o mundo é mundo, liberdade de expressão é para ideias desagradáveis e controversas. Ideias que “odiamos”, como lembrou Oliver Holmes. Liberdade só para ideias aceitáveis ao poder é democracia café com leite. Ou para as tantas formas do iliberalismo atual. Quero crer que o ministro concorde com isso. Muitos cidadãos foram agredidos, em seus direitos, e isto jamais deveria acontecer em nossa democracia. Oxalá o tempo e a sabedoria nos ajudem a corrigir essas coisas.
Quem tem cartas de qualidade na mão, manda no jogo. O Brasil, sem cartas por conta de administrações populistas desastrosas de Lula, Dilma e Bolsonaro, pede truco em puro blefe
A VANTAGEM DA CHINA SOBRE OS EUA, por Lourival Sant’Anna, no jornal O Estado de S. Paulo
A China assumiu posição de força nas negociações comerciais com os EUA. A principal ferramenta de pressão americana, os chips, está sendo neutralizada. Os chineses suspenderam a importação de soja. A venda de minerais estratégicos continua sujeita a licenças. A única concessão é a venda do Tik Tok.
Depois de conversar pelo telefone com Xi Jinping, na sexta-feira, Donald Trump festejou, em um post: “Fizemos progresso em muitas questões importantes, incluindo comércio, fentanil, a necessidade de pôr fim à guerra entre Rússia e Ucrânia e a aprovação do acordo do Tik Tok”.
Trump acrescentou que “aguarda o encontro na Apec”, referindo-se à cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, marcada para 31 de outubro, na cidade sul-coreana de Gyeongju; que irá a Pequim no início do ano que vem, e Xi também deve visitá-lo.
Os chineses foram muito mais contidos em sua descrição da conversa, relegada a um comunicado da chancelaria. A nota não menciona encontros futuros. Reafirma que a venda do Tik Tok é decisão de sua dona, ByteDance, e adverte os EUA que evitem medidas comerciais unilaterais.
Enquanto não fecha um acordo comercial, a China retira as cartas das mãos de Trump. Pela primeira vez, desde 1999, os chineses não compraram soja americana. No ano passado, os EUA responderam por um quinto das importações de soja da China, no valor de mais de US$ 12 bilhões, mais da metade das exportações de soja americana.
Na terça-feira, a Administração do Ciberespaço da China proibiu grandes empresas de tecnologia, incluindo a ByteDance e a Alibaba, de comprar os chips RTX Pro 6000D, feitos sob medida pela americana Nvidia para o mercado chinês.
Washington proibiu em abril a venda de chips sofisticados à China em retaliação contra a suspensão das licenças de exportações de minerais estratégicos chineses para os EUA, adotada em resposta à elevação das tarifas por Trump.
A desenvolvedora chinesa de inteligência artificial Deep Seek anunciou, horas antes da conversa telefônica, ter gastado apenas US$ 294 mil no treinamento de seu modelo R1, em artigo na Nature revisado por especialistas. Sam Altman, CEO da gigante americana OpenAI, disse em 2023 que o treinamento de seus modelos fundacionais custou muito mais de US$ 100 milhões.
A China está reduzindo sua dependência de chips americanos. Os EUA continuam dependendo da venda de soja e da importação de minérios estratégicos da China.
COM EDUARDOBOLSONARO LÍDER, PL VIRA PARTIDO LESA PÁTRIA, editorial do jornal Folha de S. Paulo
O PL, maior partido de oposição na Câmara dos Deputados, decidiu se converter em nanico moral ao articular uma manobra infame destinada a salvar o mandato de Eduardo Bolsonaro, conspurcado pelo número excessivo de faltas registradas pelo congressista.
Deputado federal eleito pelo PL de São Paulo, Eduardo está desde o dia 20 de março nos Estados Unidos, onde vive com o dinheiro do contribuinte. Seu sonho americano em nada se liga à missão parlamentar; ao contrário, o filho 03 de Jair Bolsonaro (PL) se dedica tão-somente a arquitetar maneiras de prejudicar o Brasil.
Lá estava ele quando Donald Trump, presidente dos EUA, decretou taxação de 50% sobre parte das exportações brasileiras. Lá estava ele quando se mobilizaram sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras autoridades nacionais.
E, por inacreditável que possa parecer, lá estava ele quando a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, aventou a possibilidade de os EUA utilizarem seu poderio militar contra o Brasil.
Todos esses episódios suscitam consternação em pessoas de boa índole, mas não em Eduardo. O parlamentar, claramente um inimigo de seu país, celebrou cada um desses gestos como uma vitória pessoal, demonstrando sua falta de escrúpulos.
E para que tudo isso? Na vã tentativa de livrar o pai da cadeia. Para uma cabeça autoritária como a de Eduardo, não existem leis nem instituições; há apenas ameaça e chantagem, linguagens com as quais ele pretendia —e pretende— forçar o Supremo a ignorar os atos golpistas.
Pouco importa que a truculência tenha sido ineficaz, haja vista a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão. As ações de Eduardo não podem ser esquecidas —muito menos pela Câmara, em cujo nome ele ainda atua, embora tenha computado mais faltas do que seria admissível.
Suas ausências reiteradas desde março ensejariam a perda do mandato —e é justamente para evitar esse desfecho que o PL, em uma jogada prenhe de hipocrisia, resolveu indicar Eduardo para o cargo de líder da minoria.
Segundo um entendimento de 2015, consta que, ocupando esse posto, o deputado estaria dispensado de marcar presença nas sessões. Trata-se, por óbvio, de um escárnio. Eduardo seria, assumidamente, um líder laranja, já que a verdadeira função caberia a Caroline de Toni (PL-SC).
É inaceitável que esse acinte siga adiante. Os demais deputados, e sobretudo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não podem lavar as mãos e cruzar os braços. É necessário que tomem as devidas providências, sob pena de serem ainda mais desmoralizados.
Quanto a Eduardo e seus correligionários, estes parecem imunes a argumentos lógicos e democráticos. Talvez cientes de que não há mais volta do caminho que escolheram, parecem aceitar de bom grado a transformação do PL no “partido lesa-pátria”.
OS SALVADORES DA GASPAR QUE PATINAVA ESTÃO PERDENDO O OURO DOS ANÉIS, MAIS CEDO DO QUE SE PREVIA. AS MÁSCARAS BRILHANTES ESTÃO CAINDO
O artigo acima e publicado nesta sexta-feira HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM. CHACRINHA DIZIA: “QUEM NÃO SE COMUNICA, SE TRUMBICA”. TEM GENTE QUE NÃO É ORIENTADO, NÃO SE COMUNICA, E QUANDO FAZ ISSO, FAZ SEM CONVENCIMENTO, EXPONTANEIDADE, AUTENTICIDADE, AUTORIDADE E COM CHEIRO DE AUTORITARISMO deu a dica. Há muito tempo, outros vinham sinalizando a mesma coisa. Todos, devidamente ignorados, desdenhados e rechaçados. É do jogo jogado.
Ontem, sexta-feira, depois deste artigo, que mais parece ser uma canção de ninar se comparado ao teor explosivo dos vídeos que circularam depois, feito por gente que entende do riscado e na linguagem tik tok do momento, bem compreensível à galera mais ignorante e que não chega lá, quando consegue ler meus textões, viu o presidente da Câmara, Alexsandro Burnier, PL, numa “sessão real” e incompatível com o decoro. Não é coisa antiga e montada. É dos dias de hoje. Impressionante.
Em política, avisos não devem ser ignorados. É como a onda de retorno na beira da praia. Ela, quase sempre está ali no mar e sinalizada por experientes Salva Vidas. Os atentos às regras, os conscientes e os frequentadores da área – mesmo que não houvesse a sinalização -, preferem evitá-la [onda de retorno]. E Alexsandro resolveu enfrentá-la. Resultado? Caiu, mais uma vez, a máscara que o político tik toker teima em segurar, como naqueles bailes venezianos.
Em outro vídeo, perigosamente, é exposto, o que a cidade inteira está sabendo dos amigos de Paulo Noberto Koerich, PL. Eles invisivelmente – e não escondem isso de ninguém – mandam e desmandam no governo, armam, e enviam recados aos que alertam ou desnudam esta perigosa, inconveniente ou incompatível relação, aliada à inércia e falta de resultados coletivos do próprio governo que defendem com unhas e dentes por interesses de poder ou de negócios. Para quem tinha a fama de investigador, policial e delegado implacável ser igualado publicamente – e tão cedo – ao que sempre disse não concordar e por isso, esperançosamente foi eleito, é o início de uma perigosa comparação humilhante que precisa ser reavaliada urgentemente.
Enquanto isso, parte do corpo administrativo e de confiança do próprio Paulo, sofre com o desamparo e armadilhas que não se desarmam, tão iguais ao passado que jurou combatê-las. Ele está sendo levado ao cadafalso. E explico à razão disso.
Há mais vídeos no forno. E não adianta ir atrás de quem os fez. Por quê? Aberta a porteira, acontecem duas coisas: a primeira é a passagem da boiada; a segunda, é a imagem da porteira aberta e os bois passando por ela, que alimenta a se abrir novas porteiras para ver os donos dos bois, inertes, ficarem doidos e não saberem quem mesmo teve a ousadia de abrir a porteira do brete.
Para concluir. O que está se querendo provar – e esta comunicação torta -, bem como os amigos externos e o governo de fato liderado por Pedro Inácio Bornhausen, PP, não se deu conta ou dobrou a aposta no esticamento desnecessário e perigoso da corda? Que o atual governo é tão igual ou pior do que o derrotado nas urnas em outubro do ano passado. O ouro do anel já se foi e faz tempo. Está-se na fase de se perder os anéis. Se não se aprumar, vai se perder com muita dor os dedos, as… E aberta a porteira, a força da boiada não permite mais fechá-la, mesmo que se use a força bruta de contenção. Muda, Gaspar!
Ler este artigo, um dos mais claros até agora, faz bem para quem quer entender o jogo jogado entre os que jogam o Brasil para lá e para cá. E neste jogo, os brasileiros são passageiros, mas acham que são parte essencial dele.
MAIS OU MENOS PRESO, SEMPRE INELEGÍVEL, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
Mais uma semana – esta que se encerra – de desenvolvimento da traição light a Jair Bolsonaro. Com Valdemar, com Tarcísio – com o chamado Centrão todo, aquele patrocinador do bolsonarismo de oportunidades e resultados, investindo no pós-Bolsonaro eleitoral.
A superação a Bolsonaro por meio de anistia que não anistia. Paulinho da Força, o pacificador de Hugo Motta, feito expressão de um “pacto republicano” – com o Supremo, com o governo Lula – anunciado-abençoado por Michel Temer e Aécio Neves. A anistia que anistia não seria do Paulinho da Dosimetria: revisão de penas e prisão domiciliar a Bolsonaro. E lamba. Cláusula pétrea do texto: a inelegibilidade do ex-presidente. Esse é o combinado. O plano. Falta combinar com os russos.
O combinado é produto da confiança em que o mito tenha se tornado prescindível; elemento que atrapalharia o trânsito dos comércios para além do outrora admitido-contornado. Não é mais plataforma fundamental. A turma calcula que pode tomar o risco de avançar – prosperar, vencer – sem Jair e prole. Haveria alternativa melhor. Ninguém morrerá pela anistia “ampla, geral e irrestrita”. (Nem pela “light”.) É desgastante, de custo muito alto, e com taxa de retorno baixíssima.
Ninguém – ninguém com partido, com poder de verdade – quer Bolsonaro elegível. Seria ruim para os negócios. Não que não queiram, se for possível, a liberdade do ex-presidente. Tampouco que não trabalhem por ela. Trabalham com a energia dos que a sabem improvável. Com a energia dos que afinal colheriam – fazer o quê? – a solução “prisão domiciliar”. Tentaram… Traição light. Isto constante em todas as possibilidades viáveis de acordo: Bolsonaro fora das urnas. Em prisão domiciliar, com sorte, e – com ou sem sorte – inelegível. É disso que se fala quando se fala em pacificação.
O tal Centrão está em 26, com Jair passivo; e o futuro do passivo Jair, se com mais sorte ainda, estará em 27. Ciro Nogueira já disse: “A única pessoa que não pode perder essa eleição é o Bolsonaro, e ele não vai arriscar”. Valdemar Costa Neto, dono do PL e patrão de Bolsonaro, declarou: “Nós vamos ter que chegar ao poder o ano que vem, conseguir maioria no Senado e na Câmara. Nós vamos mudar esse quadro”. Vão mudar esse quadro – a partir de 27, se vencedores no voto. Uma aposta. (Falta combinar com o eleitor.) Bolsonaro a reboque.
Encostado, mais ou menos preso. Inelegível. À espera – dependente – do indulto de Tarcísio.
Esse é o projeto, faltando ainda combinar com os eduardos. Convém não subestimar o imponderável e outros rubios. Há muitos enredos que conseguimos controlar em grande medida – tanto mais quanto maior a competência do controlador. Talvez Bolsonaro aceite o acordão. Talvez já o tenha aceitado. Será surpresa se o bolsonarismo eduardista, que arma dissidência e explora o antiestablishment, aceitar arranjo que o degredaria.
LULA EXAGERA NOS GASTOS E O PAÍS PAGA CONTA PESADA EM JUROS, editorial do jornal Folha de S. Paulo
As recentes decisões do Federal Reserve (Fed) e do Banco Central sobre as taxas de juros evidenciam trajetórias distintas nas políticas monetárias de Estados Unidos e Brasil, com implicações para a economia global e doméstica.
Enquanto o Fed anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica, para a faixa de 4% a 4,25% ao ano, além de indicar reduções adicionais até o nível de 3% nos próximos meses, o Copom manteve a Selic em 15%, com um tom cauteloso frente a pressões inflacionárias persistentes.
A retomada do ciclo de afrouxamento monetário nos EUA é motivada pelo enfraquecimento do mercado de trabalho e por evidências de desaceleração perigosa na atividade.
Há riscos para a inflação em função das tarifas impostas por Donald Trump, que podem elevar preços para o consumidor, mas a visão da autoridade monetária é que o choque será temporário.
No Brasil, a manutenção dos juros em nível escorchante veio acompanhada por mensagem dura que descarta cortes no curto prazo, em função de incertezas externas e domésticas, notadamente quanto às contas públicas em desordem, resiliência na atividade econômica e desancoragem das expectativas de inflação.
De fato, as projeções do setor privado, embora tenham recuado nos últimos meses, ainda se situam em 4,8% e 4,3%, respectivamente, para 2025 e 2026, muito acima da meta de 3%.
A melhora recente foi facilitada por fatores como a redução nos preços de alimentos e pela apreciação do real, que barateou importados. No entanto, os preços de serviços, sensíveis à demanda interna e ao mercado de trabalho aquecido, seguem pressionados.
A divergência dos rumos monetários ampliará ainda mais o diferencial de juros entre Brasil e EUA, atualmente em 10,75% ao ano, atraindo fluxos de capital para o país. Esse movimento favorece a apreciação do real, que já ronda os R$ 5,30, num ganho próximo a 16% desde o início do ano. A valorização é bem-vinda, pois diminui pressões inflacionárias e facilita o trabalho do BC.
O outro lado da moeda é que os juros estão elevadíssimos porque o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esquentou a economia com gastos insustentáveis. Para conter a carestia, o BC tem de exagerar na dose, a ponto de o país comprometer R$ 1 trilhão com pagamento de juros neste ano, concentrando a renda e elevando a dívida pública.
Na soma geral, porém, a conjuntura atual aponta para o início do ciclo de cortes graduais na taxa básica de juros a partir do primeiro trimestre, para 12,5% ao final do ano que vem, segundo estimativas de analistas.
O principal risco para o Brasil é o governo novamente embarcar num vale-tudo eleitoral, com aumento descontrolado das despesas públicas. Esse cenário poderia reacender pressões inflacionárias e forçar o BC a manter juros elevados por mais tempo, com enormes custos para o país.
Então, Indaial ficou mesmo com o “mico preto” na mão?
O CRIME ORGANIZADO E O NARCO ESTADO, por Celso Ming, no jornal O Estado de S. Paulo
As organizações do narcotráfico vão tomando o estado brasileiro. Infiltram-se nas instituições de segurança pública, nas prefeituras e nos governos estaduais, nas administrações federais, no Poder Judiciário e, depois que a Câmara dos Deputados aprovou a chamada PEC da Blindagem, passam indícios de que se avançam no Poder Legislativo.
Estudo recente apresentado em junho no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou a existência de 72 facções criminosas ligadas ao narcotráfico.
Crimes de execução sumária, como a do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, ocorrida há dias; as revelações crescentes de tomada de redes de postos de combustíveis e das companhias de ônibus urbanos; a multiplicação de ocorrências com transações ilegais que incluem tráfico de gente, de drogas, de ouro, pedras preciosas e armas; os flagrantes de lavagem de dinheiro; e as chantagens sobre altos funcionários públicos, principalmente sobre fiscais das receitas públicas — mostram que o Brasil está virando um narcoestado.
Quando o exercício do monopólio da violência vaza das instituições democráticas para esses mega bandos criminosos, a sociedade fica ameaçada de despedaçamento, o que os sociólogos chamam de anomia social. Todos sabemos o que já aconteceu com a Colômbia (Cartel de Medellin), no México (Cartel de Sinaloa) e na Venezuela (Cartel de los Soles), países tomados pela ação dos narcotraficantes.
Há no Brasil 1,5 mil instituições encarregadas da segurança pública. Mas operam em áreas restritas, sem nenhuma coordenação nacional. Parece certo que boa parte delas já foi tomada pelo crime organizado.
O grande financiador desses sistemas é a produção e a distribuição ilegal de drogas pesadas.
Quanto mais proibidos esses narcóticos, maior seu preço de mercado e maior ainda é o faturamento dessas facções.
O que precisa ser examinado é se não seria a hora de determinar a progressiva liberação do mercado das drogas para eliminar no ovo essas organizações e livrar o estado do câncer maior, providência que não dispensaria tratamento e assistência às vítimas físicas, aos drogados que hoje enchem as ruas.
Um exemplo histórico está aí para demonstrar que a saída é essa. A Lei Seca que perdurou nos Estados Unidos entre 1920 e 1933, que proibiu a fabricação, distribuição e venda de bebidas alcoólicas, foi revogada pela 18º Emenda à Constituição não só porque não evitou a disseminação do alcoolismo mas, principalmente, porque proporcionou a criação de máfias, generalizou a corrupção, o contrabando e a criminalidade organizada cujo maior símbolo foi Al Capone.
Outras formas de apropriação do poder do estado apareceram por lá, mas não com a força destrutiva proporcionada pela proibição da distribuição das bebidas. O fim da lei seca não aumentou o consumo de álcool mas livrou os Estados Unidos do crescente poder paralelo que contaminou o estado e inoculou o câncer na democracia. Não é o caso de aprender com esse exemplo?
STF NÃO PODE ESMORECER NO CONTROLE DAS EMENDAS, editorial do jornal O Globo
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino faz bem em não se intimidar com a pressão do Congresso e em levar adiante os processos despertados pelos abusos flagrantes com recursos de emendas parlamentares. Na véspera da aprovação pela Câmara da PEC da Blindagem, Dino suspendeu repasses a nove de dez municípios que receberam R$ 725 milhões e foram auditados pela Controladoria-Geral da União (CGU). No dia seguinte à aprovação da PEC, deu prazo para Procuradoria-Geral da República (PGR) e Advocacia-Geral da União (AGU) se manifestarem nas três ações sobre emendas, que em breve pretende levar a plenário.
A auditoria da CGU nas nove cidades cujos repasses foram suspensos dá uma ideia do mecanismo perverso que rege esse universo opaco — e de por que os parlamentares tanto insistem em se blindar das investigações. Ao todo, 25 congressistas foram apontados como responsáveis por transferências diretas ao caixa dos dez municípios, por meio da modalidade que não exige plano de trabalho nem acompanhamento, conhecida como “emenda Pix”. Depois da intervenção de Dino, a CGU deslindou vários episódios suspeitos, encaminhados à PF para investigação.
Um deles, revelou reportagem do GLOBO, tem como protagonistas o ex-deputado Jhonatan de Jesus e seu pai, o senador Mecias de Jesus (ambos do Republicanos-RR). Jhonatan destinou R$ 3,8 milhões à Prefeitura de Iracema (RR) entre 2020 e 2021. De acordo com a auditoria, as obras previstas não saíram do papel. Uma unidade móvel odontológica foi comprada, diz a CGU, por preço 37% superior ao valor de mercado e, na hora da inspeção, não tinha luvas, máscaras ou indícios de uso. Jhonathan e o pai enviaram R$ 5,2 milhões a outra cidade roraimense, São Luiz do Anauá. Uma das vans destinadas a profissionais de saúde, comprada com o dinheiro das emendas, foi usada em transporte para eventos religiosos. Ambulâncias foram entregues sem portas adequadas, e obras estavam paralisadas. Mecias diz apoiar a fiscalização e atribui a responsabilidade pelo apurado à gestão dos municípios.
Histórias do tipo se repetem Brasil afora. Em Carapicuíba (SP), os auditores foram incapazes de confirmar o destino de R$ 7,7 milhões num repasse de R$ 8 milhões. Em Macapá (AP), os auditores suspeitam de licitação fraudada. Em São João do Meriti (RJ), foram encontrados indícios de R$ 2,6 milhões em superfaturamento. Em Sena Madureira (AC), a Prefeitura foi incapaz de comprovar a entrega do combustível que diz ter comprado com R$ 1,8 milhão. No Rio de Janeiro, a auditoria apontou superfaturamento de R$ 202 mil na compra de portas acústicas para teatros (a Prefeitura e os envolvidos negam irregularidades).
Os recursos distribuídos por meio das emendas têm crescido vertiginosamente, com pouca ou nenhuma transparência. Em 2010, equivaliam a R$ 7,9 bilhões. Neste ano somam R$ 50,4 bilhões. Não há país onde parlamentares controlem quase 25% dos gastos não obrigatórios do governo. Já é lamentável o desperdício intrínseco à distribuição de tanto dinheiro por critérios paroquiais, em vez de políticas embasadas. O mínimo a exigir, como faz Dino, são regras de transparência e rastreabilidade. As medidas aprovadas pelo Congresso foram insuficientes para sanar as deficiências. O STF deve apoiar Dino na iniciativa para maior controle. Não pode esmorecer.