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TIC. TAC. A AUTORIZAÇÃO DA CÂMARA PARA A PREFEITURA CONTRAIR NOVO EMPRÉSTIMO DE R$40 MILHÕES NA CAIXA DIZ UMA COISA NO PAPEL E OUTRA EM SEGREDOS E DISCURSOS. QUAL É A RAZÃO DA CONTINUADA FALTA DE TRANSPARÊNCIA DO GOVERNO DE PAULO E RODRIGO COM OS GASPARENSES?

Como eu havia antecipado na segunda-feira em TIC. TAC. ARROGÂNCIA E FALTA DE TRANSPARÊNCIA ALIMENTAM MAIS UM PREMATURO DESGASTE DO “NOVO GOVERNO” DE PAULO E RODRIGO COM A CÂMARA E A CIDADE. E PIORA TUDO, DIANTE DAS JURAS NA CAMPANHA, DE QUE VENCENDO, MUDARIA ESTA ANTIGA ROTINA, o projeto 59/2025 que pedia a autorização da Câmara de Gaspar para contrair mais R$40 milhões de empréstimos no programa Finisa, da Caixa Econômica Federal, seria aprovado por ampla maioria, ou por unanimidade.

E foi por unanimidade, inclusive com o voto de Dionísio Luiz Bertoldi, PT, o que levantou a bandeira de questionamentos.

Estou calejado e conheço bem como funciona este mundo político do faz de conta, ainda mais em Gaspar. Eu também votaria a favor, se vereador fosse, como já tinha escrito. Antes é preciso dar corda para se enforcar e não salvar a vida de quem quer usar a corda para esta finalidade.

Pedir autorização é uma coisa, usar de forma errada ou diferente ao autorizado, é outra. E para estes questionamentos políticos, técnicos e de punição aos gestores, temos a Câmara, o Tribunal de Contas, o Ministério Público… Cômico, por outro lado, foi ver e ouvir as explicações do vereador Alexsandro Burnier, PL. 

Ele não vota neste tipo de matéria por ser presidente da Câmara. E da tribuna, esclareceu as razões pelas quais votou contra em semelhantes matérias na legislação passada e se tivesse que votar nesta, à plateia, disse que votaria a favor. Nada como um dia após o outro.

A TRANSPARÊNCIA TRANSLÚCIDA

No discurso, Alexsandro, alegou para a votação, que não votou, o que ele classificou de transparência do governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL. 

Pois é tudo o que não se tem nesta matéria até agora é transparência. E o melhor que os vereadores fizeram foi o de dar corda e esperar de onde sairá a mágica dessa cartola que o governo de Paulo, Rodrigo e seus bruxos vindos de Blumenau ou do governo Kleber Edson Wan Dall, MDB, apresentou à cidade, cidadãos e cidadãs.

Ora, o empréstimo, como o nome do programa bem diz, o dinheiro dele é para infraestrutura e saneamento, o básico, aquele que enterra canos, coleta e se trata esgotos. A líder do governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, que coincidentemente foi a relatora do PL 59/2025, em nenhum momento da sua fala na tribuna mencionou que tais recursos ou parte deles – houve quem falasse em “cerca de R$20 milhões” seriam para livrar o Hospital de Gaspar da penúria. 

Os demais vereadores – sejam da base do governo ou fora dela -, seguiram na mesma linha e pauta. Entretanto, é algo que não está nas justificativas do Projeto de Lei, não está no escopo desse tipo de empréstimo da Caixa, e não está também no relatório da relatora.

Ah, mas Paulo chamou todos os veadores ao seu gabinete e para quem foi, explicou isso: o dinheiro do empréstimo seria usado para “comprar o patrimônio do Hospital para dá-lo ao governo do estado”, como foi no nó que fez em Jorginho Melo, a prefeita de Balneário Camboriú, Juliana von Borstel, PSD, com o Ruth Cardoso.

O que  era segredo daquela conversa sigilosa em gabinete da prefeitura, virou rastilho de pólvora nos aplicativos de mensagens pela cidade. E algo semelhante foi levado e “detalhado” para convencimento aos vereadores na Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização, a que estica e presidida pelo mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP.

Mas, a pergunta que não quer calar é: porque isso não estava nas justificativas do prefeito do PL 59/2025, no relatório da relatora e nos discursos dos vereadores, mesmo aqueles que se dizem de oposição?

A PREFEITURA DE GASPAR VAI COMPRAR O IMÓVEL DO HOSPITAL?

A outra pergunta que não quer calar é: terreno na área central, o prédio onde está o Hospital de Gaspar, sua infraestrutura e equipamentos só valem R$20 milhões? Quem avaliou isto? E a dívida da entidade filantrópica Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro com o governo Federal, com os fornecedores e as múltiplas indenizações dele por erros médicos quanto soma e quem vai ficar com isso? 

Tem mais. No caso de Balneário Camboriú, a transação tinha um padrinho oculto muito forte do clã Pavan: Júlio Garcia, PSD, presidente da Assembleia e de quem Jorginho é dependente. E no caso de Gaspar quem é este padrinho sobrenatural, já que os relacionamentos políticos de Paulo e Rodrigo são limitadíssimos, se comparado ao caso de Balneário Camboriú? Uma sociedade secreta com conversas sigilosas vai quebrar este tipo de inércia e de quem chegou agora na fila política?

Como se vê, os políticos de Gaspar trabalham com algo que vai além da realidade e depois culpam – e até este espaço que não é lido por ninguém, segundo eles próprios – os outros pelos seus auto-desastres que inviabilizam resultados e reconhecimento.

CAPACIDADE DE ENDIVIDAMENTO NO LIMITE

Caminhando para finalizar, um dado interessante foi trazido à tona pelo vereador Melato quando ele foi à tribuna defender com entusiasmo à aprovação da autorização para a prefeitura acessar o empréstimo de R$40 milhões. O Orçamento de Gaspar para este ano é de R$510 milhões. Entretanto, nem toda a receita pode ser considerada como líquida (coisas e termos contábeis que os leigos não sabem e passam longe, incluindo muitos dos vereadores) para calcular a capacidade do endividamento de Gaspar.

Segundo Melato, nos sete primeiros meses a receita corrente líquida de Gaspar foi de R$278 milhões, um número que não pode ser confirmado, porque no Portal Transparência, mesmo para um habilidoso hacker, é difícil achá-lo, quando deveria estar disponível a um clique de qualquer cidadão e cidadã, ainda mais considerando que já temos um Observatório Social. 

O que significa estes R$278 milhões? Que só 2,5% dele é possível destiná-lo a investimentos, ou seja, é menos do que R$1 milhões. Merreca. Vai ficar parada. E por isso, Gaspar quer mais R$40 milhões. E nesta capacidade de endividamento, entra os empréstimos já contraídos e que diminui a possibilidade de pedir mais se a receita líquida não aumentar.

E por que estes números selam destinos? É que a receita corrente líquida também diz que pode ter quanto autorizações para empréstimos autorizada pela Câmara, mesmo tendo projetos bons e aprovados que há limites para tomá-los.

É a mesma que acontece com você quando vai ao banco pedir um “papagaio”. Eles olham a sua folha de pagamento, as garantias, os avais e o que você já emprestou no banco, outros lugares, cartão de crédito, Serasa nas lojas e ao final dizem que você já “tomou o limite” para lhe negar o empréstimo. 

É por isso, que o ex-prefeito Kleber tinha montanhas de empréstimos autorizados pela Câmara e não pode pegá-los todos o que estava autorizado. Nem Paulo poderá, porque o endividamento gerado por Kleber e outros governos, reduz à capacidade do atual de acessar empréstimos.

Agora, explica como um programa de empréstimos para Infraestrutura e Saneamento, pode salvar um Hospital sem levantar a lebre de que está se usando recursos para uma finalidade diversa à original do Programa? Muda, Gaspar!

TRAPICHE

O fedor do lixo I. Quem é leitor ou leitora deste espaço não deveria estar surpreendido com a prisão dos sócios e gestores da Saays Soluções Ambientais, sucessora da Say Muller e que no fundo, nasceu como uma empresa de limpeza de bens públicos, incluindo o cemitério, de lembrança torta, Arnaldo Muller. Arnaldo, por vias tortas, está bem longe de tudo isso, e até mesmo da família. Não é a primeira vez que o pessoal da Saays é preso. Há uma condenação de 2019.

O fedor do lixo II. Este assunto é antigo, complexo e até certo ponto dolorido. Entre o aprendizado, idas e vindas aqui, a Say se enturmou para além de Gaspar e pelo jeito, perdeu o rumo. E faz tempo. Na marquetagem da blindagem até trocou de nome. Os meus leitores e leitoras sempre souberam que além da recolha e transporte, este assunto sempre foi envolto pelo próprio fedor do lixo recolhido. E há quem na família ainda queira falar em lixo zero. Credo!

O fedor do lixo III. Tudo nasceu quando o eleito para o segundo mandato de então, Pedro Celso Zuchi, PT, encasquetou com a empresa que recolhia o lixo em Gaspar ao tempo do seu antecessor, Adilson Luiz Schmidt, sem partido, que perdera a corrida da reeleição em 2009. Zuchi, com Dionísio Luiz Bertoldi, PT, no Samae, decidiu que era hora de ter uma “nova” empresa para, emergencialmente, fazer o serviço. E com caminhões alugados, sob desinformações e dúvidas, nascia da noite para o dia a Say Muller. Foto acima.

O fedor do lixo IV. Não vou me alongar, até porque a cidade inteira sabe em detalhes de tudo isso. Ontem, os aplicativos de mensagens substituíram a imprensa. Então não vou repetir o que já escrevi, o que penso e o que rodou ontem, mais uma vez. Ah! A Saays está fazendo o serviço, mais uma vez em Gaspar. Perdeu a concorrência para a Racli. Na Justiça a desclassificou.

O fedor do lixo V. Quando a notícia dos órgãos de fiscalização e inquirição apareceu na terça-feira bem cedinho de que prefeitos estavam sendo revistados e empresários presos em várias cidades catarinenses, incluindo Gaspar, a rádio peão – via os aplicativos de mensagens – entrou em êxtase. Miravam – e nominavam – uma série de personagens. Todos passavam bem longe aos quais se revelaram mais tarde o centro do furacão, que na área de comentários do artigo de segunda-feira eu já tinha desvendado. E diante do que reportei, quase todos, “brocharam”.

O fedor do lixo VI. O que mostra “brochamento”? Que uma parte da cidade está sedenta por vingança. A outra, está inconformada e está atrás de judas, bem como da cortina de fumaça ao que segreda, ou não é capaz transformar em soluções como prometeu em campanha do ano passado. E a CPI do Capim Seco? Não conseguiu ainda transformar o que foi apurado pela polícia especializada em corrupção, em novas “descobertas” e espetáculo para os gasparenses. Desgastes.

Um leitor – desses que eu não tenho, segundo os poderosos de ontem e de hoje -, servidor municipal, escreve-me para me atualizar. “Ouvidoria [da prefeitura de Gaspar] existe para pôr em xeque o trabalho dos efetivos. Denúncias sem provas documentais (só verbais/diz-que-me-disse/achismos/talvez. Situações nebulosas”

Agora eu: se isto é  verdade, e é, pois conheço o meu leitor, é melhor fechar a Ouvidoria municipal e economizar salários, estruturas e vergonha pública. Se por um lado ela age assim, imprudentemente, por outro, ela não cumpre o papel dela, que é ouvir a comunidade, o cidadão, a cidadã e em nome deste canal, com o governo de plantão, dar uma satisfação aos insatisfeitos ou curiosos. Veja o que aconteceu com os pedidos de informações feitos há quase dois anos pelo ex-prefeito Adilson Schmitt, sem partido. Eram perguntas simples da secretaria de Agricultura e Aquicultura.

O mesmo leitor, provando que está antenado nos assuntos abordados aqui, dá outros pitacos. Para ele, “a Comunicação [da prefeitura] tem pessoas com gabarito profissional bem sortido. Está apanhando para enviar informações adequadas a população. O Conselho Tutelar [de Gaspar] está pegando fogo e de novo“, segundo ele.

E a lista dele não para aí. “A Ditran [a que cuida do trânsito] parece uma nau sem [rumo, timoneiro e porto]. Sobre o Hospital em perpétuo socorro, em toda a sessão da Câmara, [há] uma versão diferente dos valores alocados [lá pela prefeitura]”.

E a Câmara, segundo este meu leitor? “Agora vai. Tem Pai Tomé com assento na Casa. Só orando. Mas, dará certo. Temos tempo. Ou seja, segundo ele, Gaxpá não é para amador”. E eu encerro. Se um exemplar servidor está nesse desespero, qual mesmo é a razão dos eleitos estarem cegos, surdos a tudo isso e desencontradamente, falando o que não liga nada para a voz dos servidores e do povo? Credo!

A campanha em Gaspar já começou. Ivens Duarte, do Novo, bolsonarista, vestido a candidato a deputado no ano que vem, saiu da muda e foi à rede social pedir aos vereadores que adiassem a votação da autorização para o governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, contrair R$40 milhões de empréstimos. Ele como quase toda a cidade, quer mais explicações. O resultado já lhes escrevi acima.

Parece que murchou a vinda da Policlínica Regional anunciada para Blumenau e quase perdida por falta de terreno. Aliás, O bafo da sociedade organizada de lá, fez o PL, a base de Egídio Maciel Ferrari e a Câmara bater em retirada da ideia de enterrar a CPI da BRK, que aditivou um pela quinta vez o contrato e mandou a conta alta para os residentes de lá.

E não é só isso. Cada vez fica mais claro como aqui, que João Paulo Kleinubing, União Brasil; Napoleão Bernardes, PSD, Mário Hildebrandt, PL e Egídio Maciel Ferrari, PL, são todas farinhas do mesmo saco neste e outros assuntos. Aqui, Paulo Norberto Koerich, PL, já é visto, em tão pouco tempo, como a continuidade de Kleber Edson Wan Dall, MDB, via o PP, o laço que amarra ambos.

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14 comentários em “TIC. TAC. A AUTORIZAÇÃO DA CÂMARA PARA A PREFEITURA CONTRAIR NOVO EMPRÉSTIMO DE R$40 MILHÕES NA CAIXA DIZ UMA COISA NO PAPEL E OUTRA EM SEGREDOS E DISCURSOS. QUAL É A RAZÃO DA CONTINUADA FALTA DE TRANSPARÊNCIA DO GOVERNO DE PAULO E RODRIGO COM OS GASPARENSES?”

  1. A TENSÃO DE AGOSTO VIRÁ EM SETEMBRO, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo

    Agosto começará em setembro, com o julgamento de Jair Bolsonaro e do estado-maior da trama golpista de 2022/23. Correndo por fora, poderá vir o início dos trabalhos da CPI da roubalheira dos aposentados.

    A divulgação, pela Polícia Federal, de diálogos e documentos dos Bolsonaro apimentou o caso, trazendo para o debate a trama que influenciou o comportamento do governo de Donald Trump. No dia 9 de julho, ele exigiu que o processo contra o ex-presidente fosse extinto “IMEDIATAMENTE” (ênfase dele). Foram palavras ao vento, desmoralizadas pela revelação dos diálogos do deputado Eduardo Bolsonaro com seu pai.

    A diplomacia destrambelhada de Trump e de Marco Rubio, seu secretário de Estado, entrou num beco com poucas saídas. A tese segundo a qual o Brasil desrespeita os direitos humanos de seus cidadãos, não fica em pé, mesmo para advogados americanos. O deputado Jim McGovern, autor da Lei Magnitsky, usada para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, classificou o gesto de “vergonhoso”.

    Depois de uma condenação de Bolsonaro, uma eventual persistência de Trump carregará um peso adicional. O Brasil nunca teve um contencioso de tão baixa qualidade com os Estados Unidos, capaz de contaminar outros itens da agenda da Casa Branca.

    Falando em nome do governo americano (sem mandato para isso), Bolsonaro disse a Silas Malafaia: “Se não começar votando a anistia não tem negociação sobre tarifa.” Referia-se à própria anistia. Seu filho, acampado em Washington, era mais cauteloso, temendo que uma “anistia light”, deixasse o pai de fora e desarticulasse suas armações.

    Quem acompanha essa crise tem um palpite. Depois da condenação de Bolsonaro e seu estado-maior golpista, o Congresso poderá aprovar a “anistia light” temida pelo deputado.

    TARCÍSIO EXAGERA

    Tratando da divulgação, pela Polícia Federal, das conversas de Eduardo Bolsonaro com seu pai, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas reclamou, perguntando “onde o Brasil vai parar” com esse tipo de conduta (da PF).

    Errou o alvo. Deveria ter perguntado a que ponto se chegou com um deputado tratando de assuntos de Estado com linguagem de gafieira com um ex-presidente da República.

    Tarcísio precisa calcular até onde levará sua gratidão a Bolsonaro.

    A ASTÚCIA DE BRAGA NETTO

    O general Walter Braga Netto chegou à quarta estrela e ocupou o Ministério da Defesa. Com tamanho desempenho, seria o caso de pensar que soubesse cuidar da sua segurança.

    No dia 9 de fevereiro de 2024, quando Alexandre de Moraes havia proibido que os dois se comunicassem. O general da reserva mandou a seguinte mensagem a Bolsonaro:

    “Estou com este número pré-pago para qualquer emergência. Não tem zap.”

    Esperto, Braga Netto desconsiderou a possibilidade da apreensão do celular de Bolsonaro.

    Ex-interventor na segurança do Rio de Janeiro, o general não aprendeu nada.

    OS BOLSONAROS AJUDARAM A ANISTIA

    Com sua tese da “anistia light”, Eduardo Bolsonaro pôs uma cereja no bolo de quem articula uma anistia para a infantaria do 8 de Janeiro, deixando de fora o ex-presidente e seu estado-maior golpista.

    O FIM DO PSDB

    Eduardo Riedel, governador de Mato Grosso do Sul, deixou o PSDB e se aninhou no PP.

    O partido de Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro e Mário Covas, exauriu-se. Acabou-se muito mais pelas suas virtudes do que pelos defeitos. No seu esplendor, teve 1,3 milhão de filiados e sete governadores, inclusive os de São Paulo e Minas Gerais.

    Quando for escrita a história deste período, vai-se descobrir que ele foi uma fracassada tentativa de exercício do poder pelos social-democratas. O que vinha a ser esse poder, não se sabe direito. Sabe-se contudo, que o ocaso dos tucanos coincide com uma polarização pobre, pedestre e primitiva.

    RECORDAR É VIVER

    Os Bolsonaro falam ao telefone como se estivessem num palanque. Pretendem praticar uma nova forma de política. Tudo bem, mas deveriam seguir os conselhos de dois grandes políticos da segunda metade do século XX, Tancredo Neves (1910-1985) e Petrônio Portella (1925-1980). D. Eugênio Sales (1920-2012), arcebispo do Rio de Janeiro, ia mais longe.

    Tancredo explicava: “Não falo nada relevante ao telefone porque fui ministro da Justiça.

    Petrônio ia mais longe, falava. Mas quem entrasse na linha nada entendia. Coisa mais ou menos assim:

    “Falei com nosso amigo e ele concordou. Vamos nos encontrar na casa dele e vou levar aquele papel que você me deu.”

    D. Eugênio falava para o grampo. Se alguém o procurava para interceder por um irmão preso, pedia que lhe telefonasse mais tarde repetindo o pleito. Depois de ouvi-lo, o cardeal dizia:

    “Não se preocupe, o general Reynaldo (Reynaldo Mello de Almeida, comandante da guarnição do Rio de 1974 a 1976) é um bom cristão e nada deverá acontecer ao seu irmão. De qualquer forma mantenha-me informado.”

    D. Eugênio assegurava que esse método era eficaz.

    DIPLOMACIA TÓXICA

    Na segunda-feira, o Departamento de Estado americano divulgou uma nota dizendo que “Alexandre de Moraes é tóxico para todas as empresas legítimas e indivíduos que buscam acesso aos Estados Unidos e seus mercados”.

    Dois dias depois a Polícia Federal divulgou parte das maquinações de Eduardo Bolsonaro em Washington.

    Quem se meteu com gente tóxica foi a Casa Branca, arrastando o Departamento de Estado.

    A diplomacia americana já foi comandada por cavalheiros como Dean Acheson (1949-1953).

    A BLINDAGEM PETISTA

    Os companheiros palacianos resolveram blindar o governo nos trabalhos na CPI que vai apurar a roubalheira praticada contra os aposentados do INSS. Num primeiro lance, escolheriam o presidente e o relator da comissão. Pfff. A oposição fez seu serviço e ocupou as duas cadeiras.

    Diante da derrota, os companheiros insistiram na tática da blindagem.

    Essa onipotência já acabou com Dilma Rousseff deposta e Lula encarcerado.

    A TRILHA DO DINHEIRO

    O deputado Alfredo Gaspar, que ficou com a relatoria da CPI, disse ao repórter Raphael Di Cunto que “seguirá a trilha do dinheiro” (coisa de bilhões de reais): “Esse pessoal não ia conseguir desviar recursos sem apoio político.”

    Depois que a reforma trabalhista de 2017 acabou com o imposto sindical, as entidades de classe perderam sua principal fonte de receita. Estima-se que o buraco tenha chegado a R$ 3 bilhões anuais.

    Os sindicatos buscaram outras fontes de receita. Uma delas foi a criação de uma contribuição sindical, que remuneraria a guilda por serviços prestados à categoria. Há sindicatos que prestam serviços e há outros que não fazem coisa alguma. Outra fonte, perseguida por alguns sindicatos (não todos), foi a contribuição dos aposentados.

  2. BOLSONARISMO CONTRA A ECONOMIA, por Vinicius Torres Freire, no jornal Folha de S. Paulo

    O bolsonarismo faz qualquer negócio. Agora, começa a dar tiros na estabilidade de bancos. Elites políticas e econômicas continuam a colaborar no projeto da arquitetura da destruição, agora também econômica. É colaboracionismo.

    A ideia de que a propaganda criminosa e os crimes dos Bolsonaro seriam farsa na prática insignificante sobreviveu mesmo depois de Jair Bolsonaro ter ocupado a cadeira de presidente. Ainda em 2022, os crimes que cometeu durante o mandato eram considerados ficção esquerdista pelos adeptos convictos e tolerados por aqueles que faziam o cálculo supostamente pragmático de que se tratava do preço para manter Luiz Inácio Lula da Silva longe do poder.

    Para os “pragmáticos”, o bolsonarismo continua farsesco e de inépcia idiota. Suas consequências, pois, seriam negligenciáveis, no que lhes interessa. Em última análise, seria controlável por acordão de elites políticas e econômicas, como aqueles que se faziam pelo menos desde 2016.

    As investigações das tentativas de golpe de 2022-23 pouco modificaram tais ideias. Para parte dos adeptos da tolerância, tal crença foi transformada no plano “bolsonarismo sem Bolsonaro”: usar os votos dele para eleger um líder do “bolsonarismo moderado”.

    O bolsonarismo é uma espécie de movimento revolucionário movido pelas redes, uma insurreição permanente. Suas lideranças se alimentam desse movimento e precisam mantê-lo vivo. O que elites econômicas e políticas acham que vai sair daí?

    A conspiração dos Bolsonaro com Donald Trump prejudica milhares de empresas. Muitos dos frequentadores da casa de tolerância dos Bolsonaro ainda dizem que Lula e seu esquerdismo “Sul Global” seriam os responsáveis pelo prejuízo. É o mesmo padrão de negacionismo ou cumplicidade que se vê desde fins de 2017.

    Agora, bolsonaristas espalham boatos sobre bancos, sugerem que correntistas esvaziem suas contas. Em tempos antigos, uma corrida (saques em massa) quebrava bancos. Fundos garantidores e bancos centrais em muito atenuaram esse risco de evaporação de haveres de correntistas e de convulsão econômica. Mas o risco de tumulto permanece.

    É exagero, diz o adepto da ideia do bolsonarismo como farsa. Alguns esperam ganhar com a degradação institucional, outros nem a enxergam, mesmo quando a água suja começa a bater nas costas.

    Considere-se um trecho de uma resolução de 2023 do Parlamento Europeu sobre a Hungria, que apodrece sob a autocracia admirada pelo bolsonarismo. Há “consternação” com os “relatos sobre métodos de intimidação, como visitas da polícia secreta aos escritórios de algumas empresas, e outras formas de pressão utilizadas por certos indivíduos que se sabe estarem ligados ao círculo próximo ou ao gabinete do primeiro-ministro, com o objetivo de colocar sob o seu controle setores da indústria húngara considerados ‘estratégicos’”.

    De volta ao poder, o bolsonarismo pode criar máfias econômicas (Rússia), expropriar e destruir (Venezuela), desapropriar por coação (Hungria). Vejam o exemplo de Trump, a extorquir empresas. Foi a direita alucinada (Collor) que deu calote na dívida pública.

    O bolsonarismo é defesa de ditadura, tortura, genocídio indígena, ameaça de estupro. É o morticínio da epidemia, promessas públicas e tentativas de golpe, conluio contra exportadores e, agora, crimes contra o sistema financeiro. Quem não for parte da solução, é parte do problema. Ou fantasia lucrar com o problema.

  3. Preste a atenção às narrativas dos poderosos que atrasam o Brasil, os seus estados e municípios. Este texto abaixo é um exemplo disso. Um tem visão para o coletivo. O outro tem visão para si, mas apenas olhando o seu palanque

    A TARCÍSIO O QUE É DE TARCÍSIO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O leilão para a construção do Túnel Santos-Guarujá nem mesmo foi realizado e as obras tampouco têm ainda data para começar, mas a disputa pela paternidade do projeto atiça os spin doctors do lulopetismo, sempre empenhados em atribuir a Lula da Silva a criação do universo.

    Após décadas de planos frustrados de uma ligação entre duas das principais cidades da Baixada Santista, ora por um túnel, ora por uma ponte, decidiu-se pela construção de uma via submersa, que, se sair do papel, não será por esforço do presidente Lula da Silva, como tentam fazer crer o Palácio do Planalto e a sua propaganda na TV aberta com a disseminação da narrativa de que se trata de uma obra do “governo do Brasil”.

    O governo petista pouco mérito terá no eventual êxito desse projeto. Recorde-se que foi na condição de ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro que o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, traçou um plano de desestatização do Porto de Santos com a construção do túnel como contrapartida. A concessionária que ganhasse a operação do terminal portuário teria a missão de entregar uma ligação submersa capaz de beneficiar milhares de pessoas que enfrentam a fila da balsa ou têm de contornar 40 quilômetros para transitar de uma cidade a outra. Com a volta do estatista Lula da Silva à Presidência, a proposta naturalmente foi sepultada.

    Tarcísio assumiu o Palácio dos Bandeirantes e passou a liderar o projeto do túnel, agora como governador, qualificando o empreendimento no Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo (PPI-SP). Com isso, a obra, enfim, deverá ir a leilão neste terceiro trimestre e será executada por meio de uma parceria público-privada (PPP), com investimentos de R$ 6,8 bilhões. Por óbvio, o governo federal foi procurado para viabilizar o projeto, porque a área é da União. Ficou acertado que os dois governos dividirão R$ 5,4 bilhões dos custos, enquanto o restante será bancado pelo setor privado, que terá a concessão por 30 anos.

    Como se vê, houve perseverança do governador, e todo esse empenho de Tarcísio levou o lulopetismo ao ataque. O golpe abaixo da cintura veio com um vídeo institucional sobre o túnel, produzido pela Secretaria de Comunicação Social (Secom), do ministro-marqueteiro Sidônio Palmeira, que simplesmente ignorou Tarcísio.

    Claro que tudo isso não surpreende vindo do PT, tampouco o fato de que aliados de Lula da Silva tenham dito que o presidente poderia realizar a obra sozinho. Se poderia, é o caso de perguntar por que os petistas que presidiram o País por 16 anos até agora não o fizeram. E, a bem da verdade, os diversos governos tucanos em São Paulo também não foram capazes de construí-lo. Hoje, para os paulistas, o que importa é que um problema logístico da Baixada poderá ser, enfim, resolvido. Bom seria se os entes federados sempre trabalhassem em prol do interesse público, e não eleitoral. E, apesar do dinheiro federal, justiça seja feita: caso o túnel se torne uma realidade, terá sido por insistência de Tarcísio, gostem os petistas ou não.

  4. A SOLUÇÃO TARCÍSIO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo

    Tarcísio de Freitas é ou não moderado? É ou não a projeção – traiçoeira – de um bolsonarismo sem Bolsonaro? A evolução dessas questões informa sobre o futuro inevitável – o do pós-Jair. O pérfido sujeito, a depender do freguês, será extremista dissimulado ou suave oportunista.

    O que essa inquietação comunica é incontornável: Tarcísio como ameaça viável aos esquemas de poder hoje polarizados, ao mesmo tempo esperança para o dito Centrão. Ele seria competitivo – é o que comunicam os seus adversários, aí incluída a empresa familiar dos Bolsonaro.

    A esquerda está mobilizada para convencer que a apregoada brandura de Tarcísio, o técnico com trânsito, seria uma farsa – um extremista cujo comedimento seria fachada para se distinguir do padrinho. Essa compreensão deriva de anomalia já estabelecida na linguagem política: a de que não haveria direita no Brasil. Sairíamos da centro-esquerda diretamente à extrema-direita.

    Ocorre que há direita aqui – e esse é o problema, tanto para a esquerda, cultora-difusora do mito da direita exclusivamente extremista, quanto para a direita bolsonarista, segundo a qual não haveria opção sem os Bolsonaro.

    Há. É o que nos informa o conjunto de mensagens de Eduardo a Jair, conforme seleção da Polícia Federal. Nem o mais maledicente cronista dirá que o relatório da PF seja tarcisista. Outra coisa será observar que a leitura do documento noticia a implosão do caçula do mito, sua inviabilidade eleitoral, sua solidão política, ele ali desesperado para ser o candidato de papai ingrato, e acaba por ser positiva para a ideia duvidosa de independência do governador de São Paulo.

    Tarcísio, segundo Eduardo, é o incômodo; um dos elementos contra o qual organiza o lobby junto à Casa Branca. Escreveu o 03: “Precisamos segurar isso (‘a narrativa de Tarcísio’) para nos mantermos vivos aqui (nos EUA)”. Ou se correria o risco de “a solução Tarcísio” convencer os americanos de que há alternativa no Brasil – e os ianques então largariam a mão da família, relaxada a carga pela liberdade de Bolsonaro.

    Eduardo não quer que Tarcísio seja palatável a Trump – um dos motivos por que blinda a comunicação com o governo americano. Porque “uma solução Tarcísio passa longe de resolver o problema”. A prosperidade de Tarcísio equivaleria à “anistia light”, aquela com Jair no limbo. Tarcísio seria saída eleitoral – rei morto, rei posto. Vida que segue. E eleição, sendo triunfo da normalidade, é agenda secundária para o bolsonarismo.

    Não que o porvir de Tarcísio seja tranquilo. Ele é, entre os presidenciáveis à direita, o único com dever de lealdade ao padrinho; o que precisaria da bênção formal, dentro dos prazos, do “amigo”; aquele que teria mais dificuldade em se desincompatibilizar de Bolsonaro para se desincompatibilizar do governo de São Paulo. Ele talvez tenha Jair – e nunca se saberá como. Terá seguramente contra si a cria.

    Ratinho Jr. aquece no banco.

  5. Olha só o cheque em branco que esta gente cara, que nos atrapalha, que se diz nossos representantes, está armando para eles próprios. Todos nós não somos iguais perante a lei? Por que eles, serão diferentes?

    PEC DA BLINDAGEM NÃO TEM O MENOR CABIMENTO, editorial do jornal O Globo

    Não é exatamente uma surpresa que haja deputados ávidos por se livrar de processos na Justiça. Mas é um erro o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), querer acelerar a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das Prerrogativas, mais conhecida como PEC da Blindagem. O objetivo da medida é apenas tornar os parlamentares na prática imunes a decisões judiciais. Nos últimos dias, Motta entregou a relatoria da PEC ao deputado Lafayette de Andrada (Republicanos-MG) e deu sinais de que poderá pôr em votação a urgência da pauta na próxima semana.

    A PEC é repleta de equívocos. Além de exigir aval do Congresso até para que os parlamentares sejam investigados, estabelece que deputados e senadores não poderão ser suspensos ou afastados por determinação da Justiça. Autoriza prisão em flagrante apenas no caso de crimes hediondos ou inafiançáveis e, mesmo nesses casos, determina que fiquem sob custódia das Casas Legislativas até que o plenário decida sobre a prisão. Estipula que congressistas não podem ser responsabilizados civil nem penalmente por opiniões, palavras e votos — já há leis que protegem a atividade parlamentar. E exige que qualquer decisão com impacto no mandato, como prisão domiciliar, só terá efeito após confirmação pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). Na prática, a PEC transforma parlamentares em intocáveis.

    Não bastasse o conteúdo nefasto, o contexto torna a situação ainda mais absurda. A PEC da Blindagem repousava nas gavetas do Congresso desde 2021 por falta de consenso. Só ganhou impulso em razão da chantagem lamentável dos oposicionistas que promoveram o motim de mais de 30 horas paralisando os plenários da Câmara e do Senado em protesto contra a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para desobstruir os trabalhos, os amotinados exigiram a tramitação da pauta. De pouco adianta o relator alegar que o texto não será o mesmo apresentado em 2021. O propósito é idêntico. Acelerar a tramitação significa capitulação diante de um grupo que tentou impor sua vontade à força. Abre-se precedente perigoso.

    Embora o motim tenha a digital da oposição, a PEC da Blindagem reúne apoio ecumênico no Congresso. Parlamentares ouvidos pelo GLOBO dizem que a pauta conta com forte apelo interno, independentemente de orientação ideológica. Na hora de salvar a própria pele, os parlamentares não encontram dificuldade para formar consenso, ainda que em detrimento da sociedade.

    O Brasil tem um vasto rol de prioridades a tratar. Entre elas certamente não está a blindagem de deputados contra decisões judiciais. É um acinte que eles coloquem seus próprios interesses acima das demandas mais urgentes da população. Com potencial para deteriorar ainda mais as relações já tensas entre Legislativo e Judiciário, a PEC da Blindagem não pode prosperar no Congresso. Primeiro, porque sua tramitação repentina é fruto de uma barganha que deveria envergonhar seus defensores. Segundo, porque o projeto é descabido, ao tentar blindar cidadãos que não estão acima da lei. Terceiro, porque não é do interesse da sociedade brasileira. Se os parlamentares desejam se precaver do alcance da Justiça, a melhor blindagem é agir dentro da lei

  6. MENSAGENS DESMORALIZAM BOLSONARO, MOSTRAM O PODER DE MALAFAIA E REFORÇAM O DILEMA DE TARCÍSIO, por Fábio Zanini, no jornal Folha de S,
    Paulo

    Os diálogos de Jair Bolsonaro com o filho Eduardo e o pastor Silas Malafaia revelados pela Polícia Federal dificilmente terão grande impacto no julgamento do ex-presidente pela trama golpista no Supremo Tribunal Federal, uma vez que ali há muito tempo a sensação é de jogo jogado, com uma pesada condenação.

    Nesse sentido, uma eventual prisão preventiva do ex-presidente em regime fechado apenas anteciparia uma consequência previsível.

    O verdadeiro efeito da exposição das conversas é outro, e não menos importante para Bolsonaro: a sua desmoralização política e pessoal.

    A leitura das mensagens é uma experiência que pode ser feita à luz freudiana de uma relação turbulenta entre pai e filho ou pela do controle psicológico exercido por um líder religioso sobre uma figura acuada. Em nenhuma das situações, Bolsonaro se sai bem.

    O personagem durão e contestador do sistema sofre profundos arranhões em sua imagem. A frase “VTNC seu ingrato do caralho” de um explosivo Eduardo tem tudo para se tornar mais uma a grudar no ex-presidente como um dia foram “dei uma fraquejada” ou “e daí?, eu não sou coveiro”.

    Malafaia, por sua vez, surge como um ator muito mais relevante do que se imaginava na estratégia do ataque ao Supremo, no que é uma das grandes revelações das mensagens. Fica claro que o pastor é muito mais do que um mero organizador de atos na avenida Paulista.

    “As conversas indicam que Silas Malafaia atua diretamente na definição das ações planejadas pelo grupo investigado que tem por finalidade coagir autoridades judiciais da Suprema Corte (STF)”, resume o relatório.

    Não por acaso, ele tem choques com Eduardo, como se os dois disputassem o espólio do líder em seu ocaso político.

    É o pastor que insiste na tese de vincular de maneira mais direta o tarifaço de Donald Trump à anistia para Bolsonaro. “‘Tem que juntar a taxa com a questão da anistia. Ou juntar liberdade, justiça e anistia e a queda da taxa”, diz em uma das mensagens ao ex-presidente.

    A preocupação é também com a forma. Fazendo as vezes de dublê de marqueteiro, pede a Bolsonaro que se manifeste não por texto, mas sempre por vídeo, pois é “só o que viraliza”. Dá ainda frequentes esporros no ex-presidente, em seu habitual estilo ácido, e não é contestado (ao menos nas mensagens reveladas).

    A desmoralização de Bolsonaro se completa com a ênfase muito maior que é dada à anistia para si próprio, em detrimento do perdão para os presos do 8 de janeiro, tratados quase como uma nota de rodapé. E prossegue com o extraordinário documento em que ele pede asilo ao presidente da Argentina, Javier Milei, contrariando inúmeras declarações que deu de que jamais fugiria do país.

    Tudo somado, Bolsonaro emerge como uma figura diminuída, com o projeto de se martirizar perante a opinião pública severamente abalado. Há impactos evidentes para o futuro daquilo que ainda se convenciona chamar de bolsonarismo.

    Bolsonaro parece alguém que perde grande parte da condição política de influenciar a eleição de 2026, como já demonstram os governadores de centro-direita que colocam a cabeça para fora à revelia dele.

    Os holofotes se voltam mais uma vez para Tarcísio de Freitas, alvo da fúria de Eduardo Bolsonaro e, ocasionalmente, de Malafaia também.

    As agressivas mensagens do deputado federal direcionadas contra ele não permitem mais disfarçar o profundo racha ideológico da direita.

    O governador de São Paulo, a partir de agora, terá de mais uma vez exercitar seus dotes de equilibrista para fazer acenos ao centro sem perder a chancela do ex-presidente, caso queira realmente se arriscar numa candidatura presidencial.

    A tarefa, no entanto, ficou mais complicada, pois é difícil imaginar um Jair preso e enfraquecido dando a bênção à candidatura de Tarcísio contra a vontade do filho exilado.

    Importam menos, nesse caso, os encontros do governador com a Faria Lima, os evangélicos ou os cantores bregas. Diante de tamanha confusão, o porto seguro da candidatura à reeleição se torna bastante tentador para o ocupante do Palácio dos Bandeirantes.

  7. Vingança, baixaria e patriotismos às avessas. A família Bolsonaro é a legítima representante da ralé política brasileira atual. E pensar que já foram poder e querem retomar à base da chantagem, truculência e pior, sacrificando os próprios eleitores e eleitoras à incertezas, desempregos e até miséria. Credo

    MENSAGENS EXPÕE CRUEZA E FARSA DOS BOLSONAROS, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    Seria emprestar demasiada nobreza à opereta do clã Bolsonaro equipará-la à tragédia do rei Lear. A peça de Shakespeare trata de intrigas, traições, hipocrisia e ingratidão na relação entre um pai no outono do poder e suas filhas herdeiras.

    Esses temas transparecem das mensagens recuperadas pela Polícia Federal do celular do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), divulgadas na quarta-feira (20), mas em registro de briga de bar portuário, não no dos célebres torneios de diálogos do bardo inglês.

    O patriarca Jair vislumbra o cárcere e tem uma herança a transmitir sob a forma da bênção a um candidato ao Planalto. Eduardo, o filho fujão, teme que a preferência do progenitor migre para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e trama para embotar esse desfecho.

    Incita o governo Donald Trump a sabotar a economia brasileira. Se as duas filhas mais velhas de Lear bajulam o pai, Eduardo insulta o seu: “VTNC, seu ingrato do c.”. Alvejar o governador é seu objetivo: “Tarcísio nunca te ajudou em nada no STF. Sempre esteve de braço cruzado vendo vc se f. e se aquecendo para 2026”.

    Pela hipocrisia traiçoeira, na peça seiscentista, e pela truculência rústica, no dramalhão brasileiro, o resultado é igual —o pai se lasca. As maquinações de Eduardo pioram a situação judicial de Jair. Caíram as chances de penas menores, de cumprimento domiciliar ou de perdão presidencial.

    Como se não bastasse a acusação de tentativa de golpe, Jair Bolsonaro terá agora, graças à descortesia estrepitosa de Eduardo, de lidar com uma outra, a de ter tentado coagir autoridades incumbidas do processo associando-se a um governo estrangeiro.

    A inépcia do filho poderá custar ao pai mais tempo na cadeia, e não faltou nessa urdidura nem quem, como autêntico bobo da corte, lhe advertisse disso: “Esse seu filho Eduardo é um babaca”, disse o pastor Silas Malafaia, agora também investigado.

    Se as primogênitas de Lear ao menos experimentaram o gosto do poder conquistado pela traição, o destino de Eduardo tende a ser outro. Ao ostracismo autoimposto devem se somar sanções judiciais e políticas que o impedirão não apenas de disputar eleições, mas também de usufruir da liberdade caso resolva retornar.

    Boas tragédias possuem a capacidade de induzir no espectador reflexões sobre a confecção complexa e contraditória do tecido humano. Não há nada disso na história das trocas de cotoveladas na família Bolsonaro.

    Seu valor didático é escancarar a farsa armada por pessoas desqualificadas para disfarçar seus objetivos mesquinhos. Os Bolsonaros só estão interessados em poder e sobrevivência. Se tiverem de atropelar a nação, o pai ou o filho para isso, irão em frente. É tolice deixar-se conduzir pela ilusão de radicalismo que fabricam.

    A exposição crua dos seus métodos e objetivos terá prestado um serviço útil se ajudar eleitores e forças políticas a tomarem distância dessa família tóxica.

  8. ESTAVA NA CARA QUE ERA ENGANAÇÃO. DUROU MUITO

    Os áudios e mensagens pegas pela Polícia Federal, e propositalmente expostas de ontem para hoje nas conversas de Jair Messias Bolsonaro, PL, nada é mais revelador do que a mentira para o povo e a miséria do lema [que não é dele, diga-se] “Deus. Pátria. Família. E liberdade”

    Deus é em síntese, segundo as leituras bíblicas, o perdão e o amor revelado por seu filho Jesus Cristo. Eduardo Bolsonaro, PL, nas conversas de próprio punho e voz se revela como o diabo.

    Pátria, é tudo o que não tem interesse Eduardo Bolsonaro quando trama nos Estados Unidos, com governo estrangeiros, contra aquilo que diz ser sua intenção de salvá-la.

    Família, se existe, ela é flagrantemente desrespeitada, hostilizada e diminuída no respeito mútuo no núcleo mais sensível dela entre um pai e um filho.

    E sobre Liberdade, ela é condicional apenas para os seus, mesmo que muitos ou quase todos os brasileiros sejam sacrificados para o clã.

    A máscara caiu, completamente. E muito antes do que se imaginava. Bastava ver o passado de todos.

    Os conservadores, os da direita e liberais caíram no pior conto do vigário. Os catarinenses estão entrando num beco sem saída. Antes agora – com chances para saídas alternativas -, do que no ano que vem.

  9. A DIREITA EM MARCHA, por Willian Waack, no jornal O Estado de S. Paulo

    O grande jantar em Brasília na última terça feira talvez acabe valendo como a data formal para uma “largada” dos grupos de centro e centro-direita para as eleições de 2026. Afinal, quem podia ser considerado presidenciável por esse largo espectro compareceu (menos alguém com sobrenome Bolsonaro), além dos caciques de pelo menos seis partidos.

    Daí para se falar de uma estratégia comum é hoje apenas desejo. Ficou explicitada a existência de pelo menos duas grandes linhas de ação, mutuamente excludentes. Ou esse grande espectro vai para o embate com Lula carregando apenas um nome “de união”, ou vai cada grupo de centro-direita com seu nome e tentaremos ser unidos e felizes num segundo turno.

    O que está por detrás dessa questão é muito negativo do ponto de vista dessas forças políticas que, apoiadas em convincentes dados empíricos, entendem que uma confortável maioria nacional do eleitorado é de centro-direita. O fato é que não há nesse amplo espectro nada remotamente parecido a uma “direção central”, “instância única de coordenação” ou como se queira chamar a pessoa ou grupo capaz de dar sentido e direção ao projeto de derrotar o atual governo.

    No ajuntamento de nomes e siglas nesse jantar estavam tanto os que professam lealdade canina ao clã Bolsonaro como os que tratam Jair Bolsonaro como bandido. O que parece tornar essa “convivência” provável é um fato a respeito do qual os governadores presidenciáveis (que julgam não poder prescindir do beneplácito do clã) não falam em “on”: está diminuindo sensivelmente a capacidade do ex-presidente de ditar rumos e coroar sucessor.

    Isto tem ligação direta com o grande fato inédito na política brasileira, que é o componente internacional da crise doméstica. Como era muito fácil de se prever, a conduta do bolsonarismo raiz de buscar em Trump a ajuda decisiva para livrar seu líder da cadeia dividiu a direita, prejudicou seus candidatos, deu a Lula ares de “estadista”, forneceu um inimigo externo e não livrará Bolsonaro da condenação.

    Pela primeira vez paira sobre uma grande eleição relevante acontecimento externo, que é a gravíssima e inédita crise com os Estados Unidos. Ela expôs um Brasil pequeno, vulnerável, isolado, anestesiado pela ideia de que o mundo lá fora não nos afeta, confortável com a noção de que nossa condição de superpotência na produção de alimentos garantiria uma existência sem sobressaltos.

    O que vai exigir do que se convencionou chamar de “centro-direita” algo mais do que simplesmente pregar no governo a culpa pelo tarifaço, por exemplo. É fácil criticar o Lula 3 pela ausência de um “projeto” (além de ficar no poder), mas qual seria o de “direita” para um país que não conseguiu até aqui resposta para o desafio representado por Trump?

    Ser o melhor amigo dele?

  10. ESTAVA ESCRITO

    Estava escrito – entre nove de dez – que as ações imperiais, chantagistas e de vingança de Donald Trump contra a economia e a vida dos brasileiros, mas a favor do clã Bolsonaro, iria enfraquecer a ideia dos Bolsonaro continuarem no poder. Bingo. As pesquisas que estão sendo divulgadas mostram que Luiz Inácio Lula da Silva, PT está saindo do poço em que se mergulhava e mais do que isso, já aparece como viável a sua reeleição.

    Se foi assim no Canadá e outros países onde o chantagista presidente dos EUA se meteu a dar ordens e humilhar as nações, por que não seria aqui?

  11. PF AVALIA QUE “MÁSCARA” DOS BOLSONARO CAIU E ISSO VAI PESAR NO JULGAMENTO, por Raquel Landim, no UOL (Folha de S. Paulo)

    As novas trocas de mensagens entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, não fazem parte do julgamento do ex-presidente, que começa no dia 2 de setembro, mas devem ter um peso simbólico importante.

    A avaliação de investigadores da Polícia Federal envolvidos no caso e ouvidos pela coluna é que a “máscara dos Bolsonaro caiu”. Ficou evidente que a família segue com o mesmo “modus operandi cínico” da trama golpista.

    “A máscara caiu. Ficou muito claro quem eles são”, disse uma fonte.

    Em 8 de janeiro, Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos e sua defesa alega que ele não tinha ciência da invasão da Praça dos Três Poderes e da tentativa de golpe de Estado que ocorria em Brasília. Já a Procuradoria-Geral da República (PGR) tenta demonstrar o contrário.

    Agora, da mesma forma, Eduardo alega que seu objetivo em Washington é o “restabelecimento das liberdades individuais” e a “obtenção de anistia aos bolsonaristas no Congresso”, enquanto as trocas de mensagens demonstram a tentativa de conseguir que o governo Trump interfira no processo contra seu pai no Supremo Tribunal Federal (STF).

    Nesta quarta-feira (20), a PF indiciou Jair e Eduardo Bolsonaro por tentativa de obstruir a ação penal do golpe. Para os investigadores, a comunicação entre os dois aponta que “operaram em benefício próprio e contra os interesses do país”. Após o lobby de Eduardo, o presidente norte-americano Donald Trump adotou o “tarifaço” contra os produtos brasileiros e sanções contra o ministro Alexandre de Moraes.

    O caso, no entanto, vai resultar em uma nova ação penal e pode gerar mais condenações se a PGR acatar os argumentos da PF e oferecer denúncia. O crime de coação no curso do processo é passível de pena de prisão de 1 a 4 anos.

  12. A TIRANIA DAS LIMINARES NO SUPREMO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    Lá se vão três dias desde que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino manipulou uma decisão sobre os desastres de Mariana e Brumadinho (MG) para tentar blindar seu colega Alexandre de Moraes dos efeitos de sanções econômicas impostas pelos EUA, precipitando o pânico no sistema financeiro. Mais uma vez, um único magistrado fabricou regras de alto impacto político e econômico, sem debate colegiado, deixando a sociedade e os agentes públicos num limbo jurisdicional. Não se trata de episódio isolado, mas de um vício sistêmico que corrói a legitimidade da Corte: o monocratismo e o abastardamento da colegialidade.

    O Supremo tornou rotineiro o que deveria ser absolutamente excepcional. Em 2023, nada menos que 83% de suas decisões foram individuais. Isso prostitui a lógica de um tribunal constitucional, cuja autoridade se funda na pluralidade de vozes e na força persuasiva de deliberações colegiadas. Quando um togado decide sozinho sobre temas que envolvem bilhões de reais, a elegibilidade de candidatos ou a liberdade de ex-presidentes, não há democracia nem segurança jurídica que resistam.

    Exemplos são abundantes. O inquérito das fake news, conduzido por Moraes, concentrou em suas mãos poderes de investigação, acusação e julgamento, atropelando garantias processuais e alimentando recriminações de arbitrariedade. Em 2014, Luiz Fux concedeu, por liminar, auxílio-moradia a todos os juízes e procuradores, e só a revogou em 2018, após um acordo de aumento salarial – um caso claro de chantagem corporativa. Há anos Dias Toffoli vem anulando condenações da Lava Jato, em choque com decisões colegiadas anteriores e em benefício de criminosos confessos. Cada uma dessas decisões simboliza o desvio: de guardiões da Constituição, ministros se convertem em protagonistas dotados de um poder pessoal sem contrapesos.

    A previsibilidade jurídica – condição para investimentos, contratos e confiança institucional – evapora quando um só ministro pode, por anos, suspender leis ou decretos sem prazo de revisão. Pior: quando finalmente chegam ao plenário, tais decisões quase sempre são confirmadas, não pela força dos argumentos, mas pelo constrangimento de reverter efeitos já consolidados. Em 2023, Ricardo Lewandowski suspendeu trechos da Lei das Estatais, abrindo caminho para nomeações políticas em empresas públicas pelo governo (do qual hoje é ministro). Em uma decisão teratológica, o colegiado reabilitou meses depois os dispositivos, mas manteve as nomeações a pretexto, ora vejam, da “segurança jurídica”. Assim, questões de magnitude nacional acabam, na prática, decididas por um único indivíduo.

    Alexandre de Moraes anda se jactando de que não perdeu nenhum dos mais de 700 recursos contra suas ordens nos inquéritos e julgamentos das tramas golpistas. Mas isso soa menos como demonstração de autoridade e mais como sintoma de perversão estrutural. Se um tribunal jamais corrige decisões individuais que se prolongam no tempo, é porque a colegialidade foi esvaziada e substituída por uma homologação automática.

    Decisões monocráticas deveriam restringir-se a hipóteses de urgência extrema, imediatamente submetidas ao plenário. Não se trata de enfraquecer a Corte, mas de fortalecê-la. Sua autoridade deriva do colegiado, não da vontade individual de cada ministro. É no debate entre 11 magistrados, e não na vontade de um só, que se forja a legitimidade democrática de suas sentenças.

    Persistir nessa rota é arriscar a credibilidade do tribunal. Pesquisas registram a queda vertiginosa da confiança popular, e não por sua defesa do Estado de Direito, mas pelos abusos cometidos a pretexto dela. Ao insistir no monocratismo, o STF torna-se alvo fácil – e frequentemente legítimo – para políticos que o acusam de ativismo e autoritarismo.

    A democracia brasileira não precisa de vigilantes iluminados, mas de juízes que cumpram a lei com modéstia institucional. O Supremo não pode continuar a ser, ao mesmo tempo, tribunal e palco de performances pessoais. Se não recuperar a centralidade da colegialidade, arrisca-se a perder aquilo que sem o qual nenhum Poder republicano sobrevive: o respeito e a confiança da sociedade.

  13. DEMOCRACIA AMERICANA FAZ PRESEPADA, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo

    O secretário do Tesouro dos Estados Unidos posou ao lado de Eduardo Bolsonaro no dia em que deveria ter mantido uma reunião virtual com o ministro Fernando Haddad. Não foi uma simples descortesia, foi uma presepada. Scott Bessent ocupa uma cadeira onde estiveram titãs das finanças americanas. Não há registro de episódios semelhantes.

    Deve-se mandar ao arquivo qualquer ideia de negociação pública com o governo Donald Trump. Seu Salão Oval e seus ministros tornaram-se radioativos. O melhor a fazer é seguir o exemplo da China: poucas palavras e muita conversa reservada.

    No caso do Brasil, Trump conseguiu um inimigo ideal. Lula fala dele dia sim, dia não. Ministros maravilhavam-se com a ideia de conduzir negociações até que Bessent fritou Haddad. Com o gosto trumpista pelo teatro, tiveram o reforço de Eduardo Bolsonaro, oferecendo-se para fotos e para o papel de irradiador de ameaças.

    Os estrategistas de Lula deveriam estudar o que aconteceu entre o dia 9 de julho, quando foram anunciadas as sanções, e o dia 30, quando o suco de laranja entrou na lista de exceções. Alguém conhecia um caminho das pedras. Esse era fácil, outros serão intransponíveis.

    Quando o Departamento de Estado usa a cassação de vistos como arma de política externa, transforma-se numa lojinha da Disney. Mais: sinaliza a falta de instrumentos para pressionar brasileiros. Começaram cassando o visto de ministros do Supremo. Um mês depois, cassaram o visto de técnicos do Ministério da Saúde. Pelo andar da carruagem, Marco Rubio ameaçará suspender o visto de quem comprar carros elétricos chineses.

    O trumpismo baixou o nível de seus interlocutores brasileiros. Em 1964, quem pedia a Washington que garantisse combustível para os dias da revolta era o empresário Alberto Byington Jr., com sólidas relações no andar de cima de Washington.

    Hoje, o capitão do time é Eduardo Bolsonaro, que sabe usar seu trânsito. Sua fotografia ao lado de Bessent qualifica-o, ao mesmo tempo que desqualifica o secretário do Tesouro caso ele não seja capaz de escrever 20 linhas sobre o parceiro da foto.

    As sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes serviram para fazer barulho, mas não desviarão em “um milímetro” sua conduta no julgamento de Jair Bolsonaro, cujo final está previsto para o dia 12 de setembro.

    No início de julho, Trump exigiu que o processo contra Bolsonaro seja suspenso “IMEDIATAMENTE” (ênfase dele). De lá para cá, o governo americano suspendeu vistos e impôs sanções adicionais a Moraes, mas a única novidade foi a colocação de Bolsonaro num regime de silenciosa prisão domiciliar. Trump e seus porta-vozes parecem disputar o noticiário do dia seguinte.

    Moraes, com seu passado de promotor e secretário de Segurança, gosta de lembrar que um valentão pode fazer escarcéu ao ser preso numa quinta-feira, mas no domingo estará na cela, sentado na cama, chorando.

    Trump pode ter acreditado que suas sanções contra o Brasil favoreceriam o futuro político dos Bolsonaros. Passado mais de um mês de tensões, parece ter acontecido o contrário. Lula ganhou musculatura, e os Bolsonaros firmaram-se no próprio nicho.

  14. NO SHOW QUEM BRILHA É PUTIN, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O duplo espetáculo diplomático encenado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, nos últimos dias – primeiro no Alasca, com o autocrata russo, Vladimir Putin, depois em Washington, com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, e sete líderes europeus – não resultou na tragédia que se temia. Não houve imposição de uma paz envenenada em que Kiev fosse forçada a ceder territórios em troca de garantias frágeis. Tampouco se repetiu a humilhação de Zelenski no Salão Oval há pouco tempo. Emergiram até alguns sinais positivos: Trump mencionou pela primeira vez a possibilidade de participação americana em garantias de segurança para a Ucrânia, e a presença dos líderes europeus demonstrou um razoável grau de unidade transatlântica. Mas qualquer esperança de progresso substantivo evapora sob a pressão dos fatos: a guerra prossegue, os bombardeios russos se intensificaram justamente durante as conversas, e a distância entre as posições permanece abissal.

    As reuniões revelaram mais sobre estilo do que sobre substância. Trump exibiu sua habitual diplomacia performática: encontros coreografados, declarações grandiloquentes, promessas vagas. A ameaça inicial de impor um cessar-fogo se liquefez após o aperto de mão com Putin em Anchorage. Em Washington, as conversas giraram em torno de mapas e hipóteses de “troca de terras”, um eufemismo para concessões territoriais que Kiev rejeita por princípio. Trump acenou com garantias de proteção à Ucrânia, mas sem definir mecanismos concretos, deixando no ar se os EUA realmente se arriscariam na defesa dos ucranianos contra um novo ataque russo.

    A Europa, por sua vez, correu a Washington menos para buscar a paz do que para escoltar Zelenski. Receava que Trump, seduzido por Putin, tentasse empurrar um acordo unilateral, sacrificando a integridade ucraniana em troca de uma solução rápida. Essa manobra foi evitada. Os líderes europeus falaram com uma só voz, defenderam Zelenski de pressões assimétricas e extraíram de Trump uma adesão, ainda que retórica, à ideia de segurança coletiva. Foi um gesto político relevante, mas insuficiente para moldar o rumo da guerra.

    Putin, no entanto, saiu fortalecido no plano simbólico. Apareceu lado a lado com o presidente dos EUA em território norte-americano, projetando-se como igual. Extraiu de Trump vetos à devolução da Crimeia e ao ingresso da Ucrânia na Otan, e ainda ditou a pauta: sua proposta de “troca de terras” dominou as conversas, deslocando o centro de gravidade do debate. E, enquanto negociava, intensificava os ataques sobre cidades ucranianas, demonstrando que sua lógica é a da chantagem armada. A insistência em promessas de que nunca mais invadiria a Ucrânia soa cínica, dada sua longa trajetória de violações.

    No fundo, o impasse é claro. Kiev não aceita abrir mão de território soberano. Moscou não aceita um acordo que envolva tropas ocidentais em solo ucraniano. E Washington, sob Trump, oscila entre ameaças vagas e lisonjas sinceras a Putin, oferecendo apenas promessas maleáveis de apoio europeu com “coordenação” americana. A paz, assim, segue tão distante quanto antes.

    Há, porém, consequências duradouras. A diplomacia de Trump reforça a percepção de que os EUA já não são um fiador confiável da ordem europeia. Para muitos governos, a lição é inequívoca: a segurança do continente dependerá cada vez mais da própria Europa. Essa constatação já se reflete em compromissos de aumento de gastos militares, novos arranjos de defesa e uma incipiente disposição de formar uma força multinacional para a Ucrânia – ainda que envolta em dúvidas sobre escala, viabilidade e custo político.

    Trump prometeu que sua diplomacia pessoal traria resultados rápidos. Por ora, entregou apenas espetáculo. Putin reafirmou sua crueldade com bombas sobre civis, e a Europa mostrou disciplina, mas nenhuma estratégia clara. Se há uma conclusão desses encontros, é a de que conversas sem substância não aproximam a paz: apenas compram tempo para que Moscou prolongue a guerra.

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