Foi significativa – e prudente ao mesmo tempo -, as manifestações feitas longe daqui pelas autoridades políticas do “novo” governo gasparense de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, pró-anistia dos Bolsonaros e contra os prováveis abusos processuais e jurisdicionais do STF, especialmente do ministro Alexandre de Morais no trato do fato em si e contra os ingênuos participantes, usados ou mobilizados por razões de fé, patriotismo e fanatismo, no quebra-quebra de oito de janeiro do ano passado contra os prédios do Congresso, Palácio do Planalto e Supremo.
Um que sentou na cadeira de Morais e gravou vantagens dessa desordem e ingenuidade para irradiar no seu minuto de glória nas redes sociais, acaba de pegar 17 anos de cadeia. Ele não invadiu prédio nenhum público naquele dia, como escreveu no domingo, Elio Gaspari, no jornal O Globo. A cadeira já estava do lado externo do Supremo. E exemplos como este abundam. Alimentam questionamentos, fantasias e ódio. A Vaza Toga está mostrando que está com defeito piorado tudo isso, sem comparado ao que levou a dar água a Lava Jato.
Voltando ao desagravo deste agosto feito por meia dúzia de bolsonaristas gasparenses, mas só feito nas vizinhanças daqui.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO É MELHOR SÓ QUANDO SERVE ÀS PRÓPRIAS CAUSAS
Foi um ato disfarçado e travestido pela suposta “liberdade de expressão”, que os daqui fizeram no dia três de agosto em Blumenau e Balneário Camboriú. Só ele foi pela “liberdade de expressão” de cabresto própria dos fanáticos no poder de plantão. Eu sei o que é isso. Mas, este não é o ponto deste artigo.
Foi significativo, também, por outro lado, o silêncio da turma de Rodrigo, do União Brasil e o pessoal de muda para o Republicanos, no ajeitamento da campanha do ano que vem. Eles, não foram visto de verde e amarelo, em palanques e mal apareceram nas redes sociais. Aliás, a campanha é logo ali. E aí está o nó que se aperta cada vez mais contra quem disse que era portador da mudança não apenas no resultado da gestão municipal, mas de comportamentos, incluindo a transparência.
Por quê foi significativo tudo isso?
Primeiro porque mostra o quanto se deteriorou, e em tão pouco tempo, os 52,98% dos votos válidos e outubro do ano passado dos vencedores daqui. Segundo, porque diante da deterioração, o medo de liderar e fracassar, ou então, de verdade, à falta de liderança dos que juraram que mudariam ao que estava engasgado na garganta, cabeça e na esperança dos gasparenses depois de tantos erros dos governos passados, resolveram partir e se diluir em manifestações de Blumenau e Balneário Camboriú. Lavaram as mãos.
Ficava feio para as lideranças bolsonaristas de Florianópolis e Brasília, bem como aos fanáticos desta parte da direita onde nem todos são bolsonaristas, estar ausente da boca do trombone das redes sociais naquele dia no tal bordão “Fora Xandão. Fora Lula. Fora PT”.
Ficaria mais feio, ter convocado aqui uma manifestação, mesmo que numa salinha de qualquer lugar e lá não se ver quase ninguém, além dos que estão direta ou indiretamente pendurados na barrosa, falando para eles próprios, aplaudindo-se e gritando palavras de ordem para serem usadas nas redes sociais como um acontecimento extraordinário. Corriam o sério risco de cobranças daquilo que se espera há meses.
E por quê o PL, o União Brasil, Paulo, Rodrigo e seus vereadores não lideraram o grito a favor dos Bolsonaros aqui em Gaspar?
Simples. Porque o governo não possui resultados para a cidade, os cidadãos, as cidadãs e assim animar às suas causas. Pior: começa a pingar, reiteradamente, questionamentos, chistes, paródias e até enfrentamentos – como o que relatei no artigo de sábado passado quando o médico veterinário Renato Beduschi, de frente, chamou Paulo à chincha (para usar o termo de uma cidade pilhadas de tradições gaúchas – sobre o que se passa na área de domínio do Dr. Renato em Gaspar, a agropecuária, quando foi ao tempo de Francisco Hostins, PDC (1989/92) e Paulo o chefe de gabinete, o secretário titular desta pasta, depois de uma experiência bem sucedida em Blumenau.
A BOLHA DA COMISERAÇÃO ESTÁ SE ROMPENDO

Depois dos disfarces do espetáculo do mutirão do início do governo de Paulo e Rodrigo, está se rompendo, pelo tempo, diante da espera e da falta de perspectivas, a bolha e o prazo de comiseração dadas pelos eleitores aos eleitos. Normalmente ela é de seis meses para que tudo seja ajeitado e ganha a cara do “novo” governo. Estamos chegando oito. E quase nada. E num governo, até agora, praticamente, sem oposição, com uma imprensa mui amiga, que já está sendo ela incomodada pelas redes sociais, na tal “liberdade de expressão” do povo.
Paulo, Rodrigo e os seus, desde que surpreendidos por uma enquete da conta do Instagram Gaspar Mil Graus – e comentários abertos – e correram para se explicar o que não fizeram nos seis primeiros meses de governo, já sabem que a batata deles está assando. O jeito, então, foi o de não correr riscos no dia três deste agosto – mês do desgosto e do cachorro louco. Rumaram para longe daqui. E lá fizeram os discursos chavões e repetidos de norte a sul sobre coisas distantes das prioridades e necessidades gasparenses.
Eu exagero, mais uma vez, como me culpam e me pedem para me calar, enquanto levantam as vozes deles em palanques por “liberdade de expressão” dos seus que estão sendo calados, reconheço, também, injustamente?
Neste final de semana (lá no final do artigo), apareceu um vídeo de jovens, moradores do bairro Lagoa, com um bolo pelo oitavo mês do improviso de uma passagem do ribeirão local. Parte da Estrada Geral da Lagoa foi levada pela enxurrada.
O assunto rola na Defesa Civil que ofereceu todas as saídas ao governo. A burocracia, tanto da secretaria de Obras e Serviços Urbanos, que levou seis meses para “descobrir” o que se sabia antes da posse não funcionaria com Vanderlei Schmidt, bem como a da secretaria de Planejamento Territorial – que está começando a fazer mágicas -, não levaram a cabo à realização da obra.
Se por um lado a burocracia complica até a vida de quem funciona, como a Defesa Civil de Gaspar, do outro, a Comunicação do governo de `Paulo e Rodrigo – já trocada de titularidade em tão pouco tempo – é e continua uma lástima. Ela não é estratégica, e neste caso, como se vê, nem operacional. Por desinformação, ação e interação, deixou a comunidade criar a versão da insatisfação. E pegou. Os da área de comunicação estão mais preocupados em combater a liberdade de expressão do povo, bem como se alimentar com fofocas internas e arapongagem para se justificar perante ao gabinete a que serve. Credo!
Resta então chacota e explicações a posteriori, que não colam, porque o estrago é real, já está feito e corre por todos os cantos da cidade. Quando o governo de Paulo, Rodrigo, PL, União Brasil de Gaspar vai entender isso? Chega de culpar o governo anterior. O atual ganhou de lavada nas urnas exatamente para mudar, fazer, entregar, dar transparência e não, para reclamar ou se igualar no pior que seus eleitores e eleitoras queriam banido.
Nas redes sociais, morador de lá perguntou se o vice Rodrigo morava na Lagoa. Ele entrou no baile, dando razão ao morador. Assegurar uma solução, com prazos? Nada, nadinha, de nada. E aí é complicado. Não se trata de fissuras. Há fraturas.
Se não vêm soluções para a comunidade, o jeito é correr do pau e subir em palanques dos da bolha ideológica, com assuntos ideológicos, longe daqui. Tudo com discursos fáceis e clichês aos que não lidam com as carências do dia-a-dia dos gasparenses que o “novo” governo não resolve e também não consegue se explicar, por falta de comunicação estratégica. Muda, Gaspar!
TRAPICHE
O que é TIC-TAC que tenho repetido na abertura dos títulos dos meus últimos artigos? É uma onomatopeia para se referir ao barulho dos ponteiros de um relógio (os antigos e não digitais).
Este som característico nos lembra e indica que o tempo está passado e neste caso específico, perdendo-se em resultados para a cidade e o próprio “novo” governo. “O tempo passa, o tempo voa; só a poupança Bamerindus continua numa boa”.
A Lei Magnitsky foi criada para punir essencialmente que é perseguido por denunciar corrupção de governos, lavagem de dinheiro e por extensão, no mundo moderno tráfico de todos os tipos como armas e drogas. Perguntar e refletir não ofende. Se esta Lei os Estados Unidos a usam para punir o ministro Alexandre de Morais em caso que está fora do padrão e intenção da Lei, qual a razão para estarem longe dela, os que enterraram a Lava Jato, muitas vezes em divergências processuais saneáveis e em outras, monocráticas?
Abaixo, republico o editorial do jornal O Estado de S. Paulo, um jornal de 150 anos, conservador e liberal: “as consequências do autoritarismo do ‘bem'”. Estamos vivendo tempos estranhos. Defendemos uma tal democracia e nela a contraditório, desde que ele se encaixe não a pluralidade, mas ao nosso particular interesse ou ideologia. A divergência é tida como uma subversão.
No dia 22 de fevereiro de 2007, o então prefeito Adilson Luiz Schmidt, MDB, licenciado, por telefone e de Florianópolis, deu uma entrevista ao falecido comunicador Júlio Carlos Schramm, da rádio Sentinela do Vale, que o excluiu do partido, tornou o resto do seu mandato um inferno e colocou a elite mandatária da cidade toda contra ele. Até hoje, esta ferida não está curada. Nunca mais conseguiu se inserir diretamente numa disputa eleitoral. Os “donos” da cidade e o velho MDB não deixam.
Hoje, o ex-filiado ao PL, rifado na sua pretensão de ser um simples candidato a vereador, Adilson Luiz Schmitt, deu uma entrevista ao repórter Paulo Flores e ao proprietário da Rádio 89 FM, Joel Reinert, sobre os seus questionamentos de fomento aos pecuaristas e agricultores pela secretaria de Agricultura e Aquicultura de Gaspar. Foi levado à entrevista exatamente pela desinformação, que ele julga, estar sendo espalhada de forma proposital pelo governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, para prejudicá-lo. Esta entrevista, não é polêmica como a de 2007. Apenas enfrenta e esclarece. E mostra o Adilson de sempre. Muda, Gaspar!
6 comentários em “TIC. TAC. DEPOIS DE QUASE OITO MESES, GOVERNO DE PAULO E RODRIGO ANTECIPA SINAIS PELA CIDADE DE QUE ESTÁ SE QUEBRANDO O ENCANTO ENTRE OS SEUS SOBRE A PROMETIDA E ESPERADA MUDANÇA”
SEQUESTROS, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
A oposição bolsonarista – a que sequestrou as Mesas Diretoras do Parlamento – vem com muita energia, cheia de vontade, para esta nova semana no Congresso. O líder do PL deu o tom da disposição nas redes sociais: “Ninguém pode parar quem carrega a verdade debaixo do braço”.
O cronista, embora jamais a levasse no sovaco, não sabe quem carrega a verdade. Sabe que “quem carrega a verdade” – quem acredita carregar a verdade – abre várias oportunidades. Oportunistas amadores – os da anistia para Bolsonaro – oferecendo oportunidades a oportunistas profissionais. O cronista sabe que “ninguém pode parar” a turma de Arthur Lira quando fareja uma chance.
Vem aí, com muita energia, inclusive a do líder do PL, a blitz pela aprovação do pacote da impunidade parlamentar. A isto serviu a onda revolucionária bolsonarista levantada contra o sistema corporativista: a que o sistema a surfasse “corporativistamente”.
O bolsonarismo bucha servindo, mais uma vez, de escada, agora para que a turma barbarizadora das emendas parlamentares escape – não de Alexandre de Moraes – de Flávio Dino; sobretudo de Dino. Essa é, como se diz, a agenda, que o bolsonarismo valente besuntou com o verniz antiestablishment.
Nisto consiste o acordo firmado entre o consórcio PL-Novo e a galera liderada por Lira: não apenas pela mudança no foro por prerrogativa de função, tirando o STF da frente; também pela exigência de que investigações contra deputados e senadores dependam da autorização deles mesmos, deputados e senadores.
Esse foi o acordo pactuado em troca da devolução do Congresso – acordo em que a pauta da anistia, a pauta dos carregadores da verdade, entrou como discussão a ser retomada. Papear não custa.
O tema estava parado; doravante será enrolado.
A JUSTIÇA PARALELA DEMORAES. Merece atenção a denúncia de que Alexandre de Moraes teria montado e supervisionado um sistema de justiça paralelo – instância com trânsito entre STF e TSE – destinado a decidir quais presos no 8 de Janeiro permaneceriam na cadeia.
O critério arbitrário gerador da certidão informal seria aquilo que as pessoas detidas tivessem publicado ou republicado nas redes, algo de escopo amplo, que contemplaria críticas-questionamentos ao resultado da eleição de 2022 e manifestações contrárias a Lula ou a favor de Bolsonaro. Classificações – organizadas sem mandato legal – jamais compartilhadas com as defesas ou analisadas pelo Ministério Público.
A reportagem – com base em novo vazamento de diálogos entre assessores do ministro – é de David Ágape e Eli Vieira e foi publicada no Public, de Michael Shellenberger.
Retirada a espuma dos vieses políticos, o que se denuncia na matéria é gravíssimo. Que, sob tribunais superiores, se teria constituído, com fundamento em varreduras de opinião, uma espécie de lista negra a ser fiel oculto na balança para que, em audiência de custódia, um indivíduo ficasse na prisão.
LULA APOSTA NO SECTARISMO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Coluna do Estadão informou há poucos dias que o presidente Lula da Silva desistiu de vez de tentar se aproximar dos evangélicos, haja vista a firme desaprovação de seu governo nesse segmento da sociedade. Sabe-se que em política tudo pode mudar, mas a noticiada decisão do presidente revela, se mantida, mais do que um cálculo eleitoral: expõe uma concepção estreita do que seja governar e um lamentável desprezo pelos anseios dos 26,9% da população brasileira que professam a fé evangélica, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Lula parece ter concluído que reverter um patamar de desaprovação acima dos 50%, segundo o Datafolha, é virtualmente impossível. Logo, seguindo-se a lógica mesquinha do petista, não há razão para gastar energia tentando melhorar a imagem do governo entre os evangélicos se esses ingratos serão incapazes de lhe retribuir com votos em 2026. Ao tomar essa decisão, Lula não apenas abdica de estabelecer um diálogo republicano com o segmento religioso, como ainda confirma um padrão que o acompanha desde a sua primeira passagem pelo Palácio do Planalto.
Da parte de Lula, nunca houve uma visão dos evangélicos como cidadãos que merecem a atenção genuína do chefe de Estado e de governo, independentemente de sua utilidade eleitoral. Sempre que se aproximou dessa parcela da sociedade, Lula o fez por conveniência de ocasião. E sempre que entendeu que não obteria os dividendos eleitorais que esperava, recuou. Em seus mandatos anteriores, o diálogo estabelecido com lideranças evangélicas tivera como norte não a escuta atenciosa dos anseios de, aproximadamente, 48 milhões de brasileiros, mas a captação de votos. Trata-se de uma visão reducionista, que toma “os evangélicos” como um bloco monolítico, frequentemente associado a “atraso”, “reacionarismo” ou “golpismo” – se não por Lula, seguramente pelos devotos do demiurgo, muitos com acesso privilegiado a seus ouvidos.
A desistência em tratar com os evangélicos também reforça um outro aspecto relevante para a compreensão desse movimento: a notória inapetência política de Lula neste terceiro mandato. O presidente se mostra pouco disposto a receber parlamentares, a conversar com movimentos sociais como outrora ou a buscar convergências com setores resistentes ao seu “projeto”, digamos assim, para o Brasil. Em vez de governar para todos, Lula se comporta cada vez mais como líder de facções, limitando sua atenção às bases que já o apoiam. Tal atitude não apenas reduz a eficácia de seu governo, como mina a própria ideia de uma Presidência republicana, o que implica ouvir e representar a totalidade dos brasileiros – inclusive, e sobretudo, os que divergem de Lula.
A opção por se distanciar dos evangélicos também parece se inserir num contexto mais amplo de reorientação estratégica do PT para o que se pode chamar de “era pós-Lula”, cada vez mais próxima. Com a perspectiva realista de voltar à oposição em algum momento no futuro próximo, o PT parece preparar o terreno para reocupar um espaço no qual sempre nadou de braçada. A experiência mostra que o partido, quando na oposição, optou pela divisão e pelo conforto da crítica, por vezes raivosa, à responsabilidade em relação ao País. Se com o PT na Presidência já se observa essa atitude, fora do poder será tanto mais fácil dividir a sociedade entre “ricos” e “pobres”, “progressistas” e “reacionários” ou “democratas” e “golpistas”. E os evangélicos, que nunca foram o público-alvo do partido, certamente não figurarão num desses polos que o PT considera virtuosos.
Se Lula julga que não há retorno possível na relação com os evangélicos, o problema talvez não seja a suposta intransigência de parte do segmento religioso em reconhecer as maravilhas que o petista julga estar fazendo pelo Brasil. O problema é a incapacidade do presidente da República de estabelecer pontes para além de seus redutos eleitorais. A política, afinal, é a arte de construir consensos mínimos entre divergentes em prol da Nação. Logo, ao desistir dessa arte por não enxergar bônus eleitorais, Lula amesquinha um dos fundamentos da boa convivência democrática e aprofunda as divisões no País.
Onde encontro essa entrevista do Adilson de 2007?
Duas fontes oficiais: o arquivo da própria rádio e o pessoal do entrevistado
AS CONSEQUÊNCIAS DO AUTORITARISMO DO “BEM”, editorial do jornal O Esstado de S. Paulo
As manifestações convocadas por apoiadores de Jair Bolsonaro no dia 3 passado revelaram, mais uma vez, a notável resiliência do populismo reacionário no Brasil. Embora envolto em escândalos e acusado de liderar uma conspiração golpista, o ex-presidente segue mobilizando parcelas expressivas da opinião pública. Compreender a capacidade de Bolsonaro de convocar multidões, mesmo submetido a tornozeleira eletrônica e em meio a uma ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF), exige mais do que sarcasmo ou desprezo. Exige inteligência. Exige, sobretudo, que se investiguem as causas profundas da permanência desse movimento, que, a despeito de sua agenda antidemocrática, segue se retroalimentando de ressentimentos reais, abusos institucionais e frustrações legítimas.
A tragédia da república brasileira é que seus principais adversários se enxergam como encarnações do Bem. Em nome da civilização contra a barbárie, justificam-se arbitrariedades. Em nome da democracia, tolera-se a censura. Em nome da justiça social, contorna-se a lei. Em nome do combate ao autoritarismo, redobra-se o autoritarismo. É esse ciclo de descomedimento, intransigência e pretensão ao monopólio da moral que alimenta, do lado oposto, o mesmo espelho deformado. O Brasil segue refém de duas formas de radicalismo: uma grotesca, a outra presunçosa. Ambas se enxergam como o lado certo da História. Ambas agem como se estivessem acima da lei.
Jair Bolsonaro e seus filhos e aliados responderão, com razão, por tentativa de golpe de Estado e por mobilizar um governo estrangeiro contra instituições nacionais. Os indícios reunidos evidenciam que o clã Bolsonaro cruzou linhas vermelhas. Mas também é indisputável que o STF, notadamente por meio do ministro Alexandre de Moraes, cruzou inúmeras outras. O Supremo transformou-se em ator político de primeira ordem, instituiu inquéritos sem objeto definido, decretou prisões preventivas abusivas, censurou jornalistas e age com tamanha ambivalência hermenêutica que a interpretação de suas próprias decisões passou a depender do humor de seus ministros. O dedo do meio de Moraes no camarote de um estádio de futebol resume o ethos de um STF que confunde coragem com prepotência e mandou às favas a virtude da prudência.
Essa metamorfose da Corte em órgão de vanguarda, fiador do governo e promotor de causas identitárias não é indiferente à polarização política. Ela a inflama. Como também o faz a esquerda no poder, incapaz de aprender com os erros do passado. O PT, em especial, nunca fez a autocrítica exigida por sua responsabilidade nos escândalos que solaparam a credibilidade do sistema político. Sua resposta à oposição tem sido a de escorar-se no Supremo e apostar no discurso que opõe ricos e pobres. Sua visão de mundo permanece calcificada numa moral binária, que reduz adversários e dissidentes a “fascistas” e inviabiliza esforços de conciliação.
Parte considerável das elites intelectuais também perdeu o senso de proporção. A hegemonia progressista nas academias, redações e classe artística multiplica manifestações de escândalo moral contra críticos conservadores, mas é permissiva com os abusos cometidos por aliados. Cultiva uma retórica de superioridade moral que transita entre o iluminismo autoproclamado e o escracho público. Com isso, não apenas se aliena de amplas parcelas da população, como contribui para desmoralizar a indignação legítima, franqueando munição a quem sabe instrumentalizar ressentimentos.
Não se combate o populismo reacionário com populismo judicial ou messianismo progressista. Nenhum excesso de um lado justifica os do outro. A democracia exige o fim dos ciclos de vingança. Um novo pacto institucional, fundado na responsabilidade recíproca, na pluralidade e no respeito à lei, é condição para restaurar a confiança dos cidadãos na República. O combate ao golpismo deve ser firme, mas também exemplar. Não só na pena, mas na forma. Porque é a forma, no fim das contas, que distingue a justiça da revanche.
TRUMP CONTRA A GLOBALIZAÇÃO, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo
No dia em que entraram em vigor as tarifas globais, Donald Trump escreveu em sua rede social:
— Bilhões de dólares estão agora fluindo para os Estados Unidos.
Ele acredita que o país exportador de algum modo paga as tarifas. Repete essa tese, digamos, toda vez que anuncia uma nova taxa. Por exemplo:
— A Suíça vai ter de nos pagar 39%.
É bem o contrário. O nome da coisa é tarifa de importação, logo, e caminhando pelo óbvio, quem paga é o importador americano, que passará esse custo adicional ao consumidor local. O hambúrguer e o suco de laranja ficam mais caros.
Digamos que o importador absorva todo esse custo, tirando de sua margem de lucro. Mesmo assim, quem paga é o próprio importador americano. O fluxo de bilhões de dólares vai do bolso americano para os cofres do Tesouro americano, do setor privado para o governo. Tanto é assim que Trump não perde oportunidade de comemorar os dados sobre o aumento de receita das importações. É contraditório, mas quem diz que Trump se importa com isso? Na verdade, ele nem percebe a contradição — como têm dito os analistas com um mínimo de noção.
Comentei o assunto na CBN, e muitos ouvintes escreveram para perguntar se o objetivo não seria apenas esse, aumentar a arrecadação. Mas, se for isso, Trump está mentindo: quem paga o aumento de arrecadação são os próprios americanos, e não os estrangeiros exportadores, os pretensos exploradores.
Os Estados Unidos têm déficit comercial porque formam um país muito rico, que ainda assim gasta mais do que tem nos mercados mundiais. Trump costuma dizer que os Estados Unidos têm sido roubados pelos exportadores.
Roubados?
Imagine o seguinte: você vai ao shopping, torra uma grana e fica no vermelho no cartão de crédito. Faz sentido você dizer que foi roubado pelos lojistas? Simplesmente, você tornou-se devedor na praça e precisará financiar essa dívida de algum modo.
No caso dos Estados Unidos, como o país financia seu déficit global? Vendendo títulos do Tesouro e outros papéis aos superavitários. Funciona assim: a China vende seus produtos ao consumidor americano, embolsa os dólares e compra títulos do governo americano. E investe nos Estados Unidos. Em dólares, claro, a moeda internacional que todos compram e todos aceitam.
Trump tem a equivocada visão mercantilista e protecionista. A ideia é colocar tarifas elevadas e barreiras não tarifárias à importação, de modo a encarecer o produto externo e, portanto, estimular a produção nacional. O consumidor compra o carro nacional porque o importado é muito mais caro. Trata-se, portanto, de favorecer a indústria local. Esta oferece produtos de pior qualidade, mas tem mercado cativo. Trump tem razão nesse ponto. Muitos países, inclusive o Brasil, praticam essas políticas protecionistas. E ele quer que os americanos só comprem produtos fabricados nos Estados Unidos.
Vai na direção contrária à globalização, que espalhou a produção pelos diversos países, conforme sua competência e capacidade. Os Estados Unidos não são perdedores nessa história. Se países asiáticos são especialistas na produção de chips, os americanos dominam o projeto, o design, a tecnologia. O iPhone é projetado nos Estados Unidos e montado em partes, em diversos países. A Apple paga a esses fornecedores e, no final, fica com a maior parte do preço de venda ao consumidor do mundo todo.
Trump quer que a Apple fabrique nos Estados Unidos. A empresa, para agradar a Trump, diz que investirá nisso, promessa já feita outras vezes. Se tem engenheiro para projetar, não tem mão de obra capaz e suficiente para montar celulares nos Estados Unidos. Para formá-la, custará um dinheirão, os produtos ficarão mais caros para o consumidor americano e mundial. Vendas cairão no mundo todo.
Já aconteceu na História. Todos os países fazem um jogo de perdedor: protecionismo contra protecionismo. Fica tudo mais caro, o comércio global despenca. Quem sabe essas loucuras de Trump sirvam para mostrar aos demais países as vantagens do multilateralismo, do comércio aberto? Da globalização, numa palavra.