Era para ser um texto curto. Mas, extrapolei mais uma vez. Incorrigível, reconheço. Vamos lá. Ouço – por onde ando – e leio – naqueles que tenho contato e naeueles que interagem com a área de comentários do blog – observações quase diárias de que tenho parte de culpa no desastre chamado Paulo Norberto Koerich, PL, o qual eu mesmo, relato em muitos artigos aqui, nesse mar de faz-de-conta, expectativas e medo. Afinal, ninguém é perfeito. E não seria eu, o portador de tal ansiedade: a perfeição.
A aposta que fiz nele – como gestor de uma cidade e líder de um processo de mudanças -, não era porque um dia fui amigo dele – ou tinha, como outros, um acordo com ele -, mas porque, no meu imaginário, Paulo, de todos, depois do derretimento de Oberdan Barni, Republicanos – que agora é um aliado incondicional -, era, aparentemente, repito, aparentemente, o mais qualificado para virar a chave da mesmice do atraso, das coisas escondidas e das dúvidas que pairavam na cidade.
Afinal, Paulo carregava uma fama de uma carreira bem sucedida e por ela, teria, em tese, as mínimas condições para colocar o dedo nas nossas feridas. E foi assim que se vendeu. E é assim que é cobrado. E agora se incomoda com as observações, as críticas e cobranças, todas respeitosas e feitas para melhorar e pedir a entrega que prometeu em campanha aos gasparenses.
FALHOU NAS EXPECTATIVAS E NAS ENTREGAS
Resumindo e encurtando: errei. Mas, quem falhou não só contra a minha expectativa, mas principalmente a de 52,98% dos votos úteis e contra a continuidade de Kleber Edson Wan Dall, MDB – hoje está no Podemos e quase se braços dados com Paulo por Jorginho Mello, PL -, a volta de Pedro Celso Zuchi, PT, três vezes prefeito e outro entrante do mesmo núcleo conservador, foi Paulo. Só ele.
E pior: Paulo ainda dá sinais claros de que não reconhece estas falhas e faltas.
Há, por outro lado, reconhece-se, tempo de corrigi-las. A cada dia que passa, todavia, não bastará mais um cavalo-de-pau, e sim, claramente, um coice. Inclusive para passar menos vergonha na eleição deste outubro. Paulo está como na foto acima: passivo olhando um buraco entupido e não de agora, mas de antes de assumir o governo e que prometeu desentupir. E ele não entendeu que a crítica é a advertência, como está sendo o tal do “El Niño”.
Antes, Paulo tivesse ido para casa – como ensaiava com mimimis depois de ter assinado a ficha no PL e negado, por várias vezes isto, em público, bem como apalavrado com o governador Jorginho, na Casa da Agronômica. Em casa teria curtido a aposentadoria, os amigos de sempre, os charutos, os vinhos, o clube, os shows, as viagens, mas principalmente, mantida intacta a fama do imaginário popular que o consagrava como um investigador implacável, delegado de todas as instâncias até ser o equivalente a secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, no governo de Carlos Moisés da Silva, União Brasil, o bolsonarista que o bolsonarismo catarinense, na continuada sina, enterrou como traidor.
EVITOU O ROMPIMENTO DO PASSADO COM O PRESENTE PARA TER UM FUTURO
O que deveria ser um rompimento com o passado e os donos de Gaspar de sempre para consagrá-lo como o vetor da mudança, preferiu a armadilha – ainda acredito nisto – e se tornou refém do mesmo e de um perigoso embrulho que veio de Blumenau. Tudo parou. Escolheu mal seu secretariado, sob severas advertências. Não liderou. Não gerenciou. E está apostando em gente trazida por quem já se foi. Escudou-se na suposta herança maldita de Kleber, não foi atrás das dúvidas, da virada e de uma marca de governo.
Falsamente está com a bengala do Hospital. É cedo demais. Os postinhos que não funcionam para a maioria da população e entope da emergência do Hospital, a montanha de exame, Paulo não poderá terceirizá-las para outros municípios darem conta, como fez com o Hospital.
Retornando. Paulo acabou caindo numa cilada que o deixou sem chão exatamente naquilo que tinha de mais precioso: a fama de investigador e policial contra a corrupção.
Seu secretário de Planejamento Territorial, uma secretaria para lá de complicada e metida em dúvidas há anos, Michael Jackson Schoenfelder Maiochi, importado de Blumenau, aonde era conhecido pela alcunha de “dono de Blumenau” e líder das reuniões em Gaspar na tal “pedreira”, foi pego numa operação pelo Gaeco e Ministério Público contra a corrupção praticada em Blumenau por longos anos. E precisava disso?
SURPREENDIDO? HUM!
E Paulo, em sua própria defesa e que não colou na cidade inteira, disse que foi “surpreendido”, mesmo diante de tanta evidência que se tinha e se espalhava antes da tal Operação do Gaeco. Eu errei, sim. Mas, quem falhou não fui eu. Não estou transferindo culpas, tanto que nunca escondi o que ainda se tenta esconder sobre o que não anda e não muda em Gaspar e a favor dos mesmos de décadas. Estou na minha trincheira. Não dei refresco a pessoas. Tudo por Gaspar e os gasparenses. E pago caro por isso.
Por outro lado, há sinais claros de que ainda será surpreendido mais uma vez. Recentemente, Paulo ocupou a rede social para dizer que sua área de Comunicação o advertiu de que ele deveria aprender a se comunicar na linguagem dos jovens.
Errado. Ele não é jovem. E a Comunicação tik-tok que trocou três vezes em um ano, falha. Paulo deveria ser o Paulo da fama, resolvedor, solucionador. Ele deveria ser o líder inspirador dos jovens, exatamente pela capacidade transformadora. Esta é a verdadeira linguagem dos mais idosos aos mais jovens. Espelho.
E estes sinais pioram muito mais quando se descobre que Paulo e os seus, querem voluntários para toda a deficiência do poder público ou emergência que se apresenta na cidade, mas oriunda exatamente naquilo que é da responsabilidade do Executivo. Ou alguém se esqueceu do teatro das roçadas?
Agora virá o do “El Niño”. Quem não ouve a comunidade, não pode, ou não possui autoridade para pedir ajuda voluntária para si e o governo. Paulo, não está nem ouvindo os seus. E esta é a linguagem de verdade que rola na cidade. Então… Quem está nadando de braçadas, é o vice, Rodrigo Boeing Althoff, Republicanos, o alijado. Eu errei. Mas, não tenho tinta na caneta dada pelo povo pelos votos de expressiva parcela dos eleitores e eleitoras para virar a página do atraso, das dúvidas e da falta de transparência. Muda, Gaspar!
TRAPICHE

A internet é um arquivo imperdoável. A reprodução ao lado é um achado que diz muito sobre encontros e oportunidades perdidas, em Gaspar e para Gaspar e os gasparenses. Esta perda não são de hoje. É continuada. É uma longa tradição entre nós. Muito está relacionado ao nosso imediatismo. A outra, e para a falta de planejamento. E por último, achamos que que tudo é uma questão de sorte, milagres e relações inesperadas.
Esta publicação é de sete de julho de 2017. Ou seja, tem exatamente nove anos. Lê-la, é ficar estarrecido e brigar contra realidades e falta de verdadeira liderança local. É um salve-se quem puder. E ao mesmo tempo mostra um pouco de como e porquê todos estamos atrasados.
A Havan até ergueu a loja no bairro Bela Vista aqui, mas a Gaspar de Kleber Edson Wan Dall, MDB (hoje no Podemos), acabou com a imagem de audácia de Luciano Hang. Algo quase inédito. A Loja da Havan, finalmente, foi desmanchada e antes que ps escombros dela machucasse alguém.
E os personagens dessa história triste? Luciano contabilizou o prejuízo para lucrar em outro lugar, como Blumenau. Foi o único que recebeu o castigo (palmatória). A Stein desistiu de Gaspar. E os da pedreira se expandiram. formaram carteis, segundo revelaram investigadores especializados. E agora, estão dando explicações para as diversas operações em curso em Santa Catarina. Já o vereador Giovano Borges, PSD, pelo jeito, continua com o chapéu. Não é fácil tirá-lo para alguém do meio político em Gaspar e principalmente a um empreendedor de visão.
Narrativas perigosas I. A recuperação da Barragem Norte, em José Boiteaux, essencial para deixar o nível do Rio Itajaí Açú em dois metros a menos nas grandes enchentes em Indaial, Timbó, Blumenau e Gaspar, independente de se ter “El Niño” ou não. E estas obras entraram numa disputa de narrativas pré-eleitorais. Se não feitas e vierem as enchentes antes de quatro de outubro, os votos dos políticos também estarão afogados na mesma proporção dos estragos emocionais e materiais.
Narrativas perigosas II. O governador Jorginho Mello, PL, acuado, resolveu ele mesmo ir na barragem e tirar a limpo o diz-que-me-disse. Fez bem. Ele já sabe o que está pegando. Foi desrespeitado e desrespeitou também.
Narrativas perigosas III. Os povos originários, todos eles alimentados nas suas reinvindicações por movimentos da esquerda do atraso e que pedem os votos dos eleitores e eleitoras de Indaial, Timbó, Blumenau e Gaspar, não perderam a oportunidade para enfrentá-lo. Eles vivem em permanente chantagem diante da sabida vulnerabilidade dos que moram e produzem, arrecadando pesados impostos no Médio Vale do Itajaí, ou Europeu, para se produzir soluções e compensações como as da Barragem e os donos das terras indigínas.
Narrativas perigosas IV. Se o número de casas dobrou ao acordado, os acessos em tempos de cheias, continua comprometido. E sobre a barragem funcionar de verdade como prometem os políticos, ou não, a prova dos noves, infelizmente, teremos que esperar. Jorginho Melo, PL, irritado com as cobranças e manifestações, colocou em dúvida a existência do “El Niño”. Mas, na comunicação dele, está gastando montanhas de dinheiro. E até contratou um meteorologista de fama para a propaganda. Se não acredita, está jogando dinheiro bom dos catarinenses fora. E previsão não é precisão. Previsão é para prevenção.
Parte do nervosismo do mais longevo dos vereadores de Gaspar, José Hilário Melato, PP, contra parte do governo de Paulo Norberto Koerich, PL, a quem emprestou apoio de governabilidade, pode ter endereço. Como na Rua Antônio Weiggenannt. Nada como um dia após o outro. E depois deles, se descobre de quem coloca defeito em imóveis dos outros, tem os mesmos para acertar nos seus.
De Brusque vem a seguinte manchete: “drones sobrevoam Brusque por dez dias para mapear terreno e embasar projeto de esgoto“. Em Gaspar, a manchete é da precariedade. Esgoto se misturam a valas, ribeirões e contaminam o Rio Itajaí Açú. Já a drenagem pluvial, está entupida. E a culpa é a quantidade de chuvas.
Pouco se fala em público. Internamente na secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda, há disputas que travam e não conciliam interesses econômicos e prioridade para o setor turístico. Impressionante. O Conselho e iniciativas empresariais são colidentes ou para grupos de interesses. Não é à toa que cada um tenta se salvar a própria pele e não se contaminar pelo debate.
O MDB de Gaspar já não é mais o mesmo. Saiu das pomposas reuniões mensais na Sociedade Alvorada, aqui no Centro, para a Clube Tamandaré, na Lagoa.
Compare. O prefeito de Camboriú, Leonel Arcanjo Pavan, PSD, está entupindo as redes sociais, com obras e asfaltamento para ampliar a mobilidade urbana da cidade dormitório de Balneário Camboriú, onde a sua filha, Juliana Pavan Von Borstel, PSD, governa. Leonel jura que tudo é feito com recursos próprios. Já em Gaspar…
De um experimentado gestor público fazendo uma análise do governo de Paulo Norberto Koerich, PL. Na gestão pública ninguém planta e colhe resultados com tantos interinos, trocas de titulares e gente sem identificação com o dia-a-dia da cidade e seus cidadãos e cidadãs. Interessante ou óbvio?
Os políticos e gestores públicos usam os desastres para cometerem abuso contra parte da sociedade. Em Gaspar, um dos pontos essenciais e referenciais para socorrer os possíveis desabrigados pelos eventos climáticos severos, é o local de abrigo temporário das pessoas e guarda de móveis, utensílios e até animais.
No rol estão as escolas municipais. Entretanto, a prioridade, normalmente, é dada para as “comunidade” da Igreja Católica espalhadas pelos todos os cantos dos municípios e algumas sociedades, ou clubes particulares, estes sumindo aos poucos. Em Gaspar, até a Expo-feira foi cancelada para que o suposto R$1,7 milhão do Orçamento fosse redistribuído nas ações preventivas entre várias secretarias e a Defesa Civil. A relação de 28 abrigos está no aplicativo “Alerta Gaspar”.
O que não se sabe é quanto disso vai para estas entidades, que compulsoriamente, cedem seus locais para os abrigos temporários. Há casos relatados de prejuízos e depredação nesses locais de abrigos quando se usou no passado. Há casos em que a entidade, depois do poder público lavar as mãos na negociação, precisou fazer acordos e pagá-los, depois de meses, para eles saírem de lá.
Por que o poder público evita o uso de escolas, normalmente m ais bem equipadas com banheiros, chuveiros, cozinha e até mantimentos para refeições emergenciais? Exatamente, pela complicada saída de alguns e a depredação de outros ao bem público. E qual a razão para entidades particulares e comunitárias terem que arcar com tal prejuízo, se a obrigação é pública e há – ou deveria haver – Orçamento para isto tanto na Defesa Civil quanto na secretaria de Assistência Social, a que coordena este processo? Muda, Gaspar!
11 comentários em “UM TEXTO AUTO-EXPLICATIVO. TODOS FALHAM E ERRAM, INCLUSIVE EU. A MAIORIA BUSCA A REMISSÃO E O APERFEIÇOAMENTO. SÓ OS CEGOS, SURDOS E FRAGILIZADOS TEIMAM E CULPAM OS OUTROS POR SUAS PRÓPRIAS FALHAS E ERROS”
DEMOCRACIA OLIGÁRQUICA, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo
Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.
Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.
Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.
Fala Falcão: “Existe um mal-estar social que varia em intensidade e qualidade. Às vezes se transforma em violência social, rural e urbana. Insoluções da política estatal produzem violência que o Estado Democrático de Direito não consegue conter. Nem justificar. Nem esclarecer. Abrem espaço, por exemplo, para 120 mortos de uma só vez no Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Tudo com aparência de que foi ato estatal legal e democrático”. É desse caldo que deriva a força do crime.
Desde 1950 foram apresentadas 129 denúncias contra ministros do Supremo Tribunal, todas arquivadas. Enquanto isso, vários ministros tinham e têm parentes advogando nos tribunais superiores. Do outro lado do balcão, mais de cem réus da Lava-Jato foram resgatados por decisões do ministro Dias Toffoli. Ele teria deixado voluntariamente a relatoria do Caso Master, você acredita nisso?
Diz Falcão:
“Estaríamos na pré-oligarquia, numa monarquia judicial, onde autoridades dos três Poderes vestem-se, precipitadamente, com a toga dos imperadores, a desfilar na avenida e pedir o aplauso popular das arquibancadas para suas fantasias”.
O problema começou a adquirir suas feições atuais em 1891, quando Rui Barbosa importou o modelo americano de democracia. Não funcionou, virou parolagem. Como ensinou Raymundo Faoro: “Aqui se constroem instituições e depois inventam o povo”.
Os vícios oligárquicos estão nos três Poderes, e Falcão os põem na mesa. O deputado Chiquinho Brazão foi preso por ter sido acusado de mandar matar a vereadora Marielle Franco, mas a Câmara cassou-o porque faltou, e faltou porque preso estava. É o truque da “harmonia da discordância”.
Depois do Festival de Besteiras que assolava o país, Joaquim Falcão ensaia um Festival de Absurdos que a oligarquia patrocina.
A MODA DA RUA
No final do ano que vem, a New York Historical fará uma inusitada exposição de fotografias, a “Nós nos vestimos para Bill”. Bill foi William Cunningham (1929-2016). Ele entendia de moda e de fotografia. Num mundo em que modelos e fotógrafos circulavam em salões do andar de cima, ele vestiu uma jaqueta azul, subiu numa bicicleta com uma Nikon e passou a publicar uma coluna no New York Times, cujo título dizia tudo: “Na rua”.
Cunningham tornou-se um marco da cidade. Fotografava estilos, elegâncias e tendências enquanto caminhavam, esperavam um táxi ou esperavam que o sinal abrisse. Um dia fotografou a atriz Greta Garbo sem perceber quem era. Podiam ser pobres, ricas, jovens ou velhas.
Nos anos 60, Cunningham publicou a fotografia de uma anônima morena esguia caminhando numa rua da cidade. Era a brasileira Carmen Mayrink Veiga, figura cativa nas listas das dez mais elegantes de Pindorama.
Nada tinha de paparazzo. Entre suas amigas esteve Jacqueline Kennedy. Em 1963, ela mandou-lhe um Balenciaga vermelho e ele tingiu de preto. Ela usou no funeral do marido.
BRASIL-EUA
Com as relações do Brasil com os Estados Unidos atravessando uma turbulência medíocre, com personagens de segunda, chega a ser um bálsamo ir ao livro “A Monarquia e a República: aspectos das relações entre Brasil e Estados Unidos durante o Império”, do diplomata Marcelo Rafaelli. Foi editado pela Fundação Alexandre de Gusmão, cuja livraria eletrônica oferece tesouros gratuitos.
Rafaelli consultou quatro arquivos e bibliotecas brasileiras, dois americanos e mais dois ingleses. Foram milhares de despachos que retratam diplomatas profissionais defendendo os interesses de seus país, explicando e até mesmo enrolando-se (Dois ministros americanos mataram-se).
Tempos curiosos. Os Estados Unidos combatiam o contrabando de negros e vendiam barcos aos traficantes. O Brasil declarava-se neutro diante da Guerra da Secessão (1861-1965), mas dava boa vida aos rebeldes. Em 1864, um navio da União sequestrou um vapor rebelde na baía de Salvador (Como registrou o ministro americano James Webb em 1861 “os grandes proprietários de escravos que governam o país, cujas simpatias estão todas com nossos rebeldes”).
Em 1826, os americanos já tinham um olho gordo na Amazônia, mas D. Pedro II só abriu o rio à navegação 40 anos depois, num hábil exercício de enrolação na defesa da soberania nacional.
Os americanos tiveram no Rio muitos diplomatas encrenqueiros. O primeiro, Condy Raguet, já em 1826. O mais virulento foi Henry Wise, que chegou em 1844 e foi mandado embora por D. Pedro. Na Guerra Civil, ele chegou a general das tropas do Sul e perdeu suas terras.
Wise prenunciava os Estados Unidos do século XXI e em 1846 escreveu:
“A verdade, repito, é que este povo precisa de uma lição, e, se necessário, uma lição severa, para fazê-los respeitar os direitos e a liberdade pessoal dos estrangeiros residentes neste país.
Eles estão completamente mimados pela indulgência até agora (recebida), e em particular por aquela do Governo britânico.
(…) Numa palavra, deve-se fazer este povo respeitar-nos. Eles são ignorantes, insolentes e possuidores de um falso senso de dignidade”.
A percepção dos diplomatas americanos deixou a desejar. Em 1826, Raguet duvidava de nova nação, em 1889, o representante americano achava que, enquanto D. Pedro vivesse, o regime não sofreria sobressaltos, e em 1930, depois da eleição de Júlio Prestes, o embaixador tirou férias.
Marcelo Rafaelli concluiu com uma afirmação que vale para o Itamaraty, mas caducou para a Casa Branca e para uma banda teatral da política brasileira:
“A única monarquia duradoura do continente americano e aquela que se tornara uma das duas mais poderosas, ricas e influentes repúblicas do mundo (a outra sendo a França) tinham mantido, durante 65 anos, relações que — excetuados uns poucos casos de desentendimento, devidos mais a problemas de personalidade do que a divergências de fundo — foram marcados por cordialidade e mútuo respeito”.
A QUEM LULA MOSTROU O DEDO MÉDIO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Durante um anúncio sobre o Brasil Sorridente, programa federal que oferecerá próteses dentárias moldadas em 3D para os cidadãos mais carentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou o dedo médio a quem, no seu entender, desdenha da pobreza de seus concidadãos. “Nós vamos acabar com essa história de que o pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles. Nós gostamos de coisa boa”, disse Lula. O gesto, de uma vulgaridade típica do petista, mas imprópria para a mais alta autoridade da República, não seria digno desta nota não fosse pelo tanto que revela sobre o espírito do atual governo.
Supostamente dirigida à “elite”, a velha inimiga imaginária dos petistas, a obscenidade de Lula, a rigor, atingiu em cheio o brasileiro pagador de impostos – aquele que sustenta, com muito sacrifício, a máquina pública que o presidente insiste em instrumentalizar a seu favor às vésperas de mais uma eleição.
Mais obscena do que o gesto, contudo, é a desfaçatez com que Lula se colocou entre os pobres, como se fosse um deles. Ademais, deveria ser ocioso lembrar que o PT terá governado o Brasil por 18 dos últimos 24 anos. Portanto, é lícito perguntar: o que Lula fará num eventual quarto mandato para elevar a renda dos brasileiros que já não tenha feito, ou deixado de fazer, nesse longo período liderando o País? A resposta honesta é uma só: nada. O que resta é o discurso eleitoreiro que opõe “ricos contra pobres”, figura de retórica cara a lideranças populistas de todos os matizes – e que Lula manipula há tempos com o talento de um ator canastrão.
Ao afirmar que os mais abastados só bancam seus planos de saúde porque “pagam”, e que, na verdade, “quem paga somos nós, que deixamos de receber o dinheiro” – numa alusão às deduções do Imposto de Renda –, o presidente tenta transformar em hipocrisia o que, a bem da verdade, é um mecanismo tributário como outro qualquer. Além disso, Lula ignora o fato de que milhões de brasileiros pagam caro por planos de saúde porque não recebem como contrapartida a impostos escorchantes um sistema público de saúde que atenda às suas necessidades.
Todo esse falatório de Lula, deve-se reconhecer, é eficiente do ponto de vista eleitoral, sobretudo porque desvia o foco de um debate mais sério sobre a higidez das contas públicas. Eis o ponto fundamental: não existe política social mais eficaz do que o controle responsável do Orçamento da União. Como costumamos afirmar com mais frequência do que gostaríamos, responsabilidade fiscal não é um fetiche da Faria Lima, como Lula e seus aliados insistem em caricaturar. É condição indispensável para a queda da inflação, para a redução dos juros e para que o Estado recupere a capacidade de investir em educação, saúde, segurança e infraestrutura de qualidade – justamente as políticas públicas que têm condições de emancipar os brasileiros.
A desordem fiscal que Lula promove com gosto onera precisamente as camadas mais pobres da população, as mesmas que o presidente jura de pés juntos defender. É o pobre quem mais sofre com a inflação alta, com o crédito caro e com o câmbio instável. Isso não é questão de opinião, mas de matemática elementar.
Oferecer dentaduras aos cidadãos que não têm condições de pagar por elas é meritório do ponto de vista da saúde pública. Ninguém de bom senso há de negar isso. Mas é também a parte mais fácil, mais barata e mais vistosa, do ponto de vista eleitoral, de um governo que confunde seus interesses eleitorais imediatos com um projeto de país. Um genuíno estadista, ao contrário de um populista de horizontes limitados como Lula, criaria as condições estruturais para que o Brasil cresça de forma sustentada e, assim, liberte seus cidadãos da dependência de programas assistenciais, de modo a conquistar uma vida digna por seu próprio esforço.
Lula, porém, jamais teve real preocupação com o controle das contas públicas, e não será às vésperas de uma eleição que honrará seus cabelos brancos e passará a ser responsável. Mas que ao menos fosse honesto – isto é, que reconhecesse que o dedo médio, mostrado em nome dos pobres, foi dirigido a quem paga a conta de seus desatinos.
Esta proteção começa nas próprias instâncias superiores do Judiciário. Eles vivem dando Habeas Corpus monocráticos a bandidos facionados [e outros], em plantões, num claro acinte às instâncias inferiores, ao devido processo legal e às operações de investigações especializadas, todas com participação do Ministério Público e autorizadas pelos próprio judiciário. É aí que começa a exposição de juízes que seguem o que diz a lei penal e a processual.
É URGENTE PROTEGER JUÍZES QUE ATUAL CONTRA FACÇÕES, editorial de O Globo
É preocupante a situação dos juízes que atuam contra o crime organizado, exposta pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, ao participar da instalação de novas varas especializadas em organizações criminosas no Tribunal de Justiça de São Paulo. O Brasil, disse Fachin, tem hoje ao menos cem magistrados exercendo atividades consideradas de risco, sob temor de represálias. Desses, 79 contam com medidas protetivas, como escolta armada ou guarda-costas. As ameaças, segundo ele, se expressam principalmente por meio de ataques cibernéticos, exposição de dados pessoais e perseguição digital.
O alerta corrobora resultados de pesquisas sobre o tema. Levantamento da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) em 2023 mostrou que 50% dos juízes ouvidos relataram já ter sofrido ameaças à vida ou à integridade física. Apenas um quinto afirmou se sentir “totalmente seguro” para exercer suas atividades, ante 63% “parcialmente seguros” e 15% “totalmente inseguros”. O desembargador Edison Brandão, diretor de segurança de magistrados da AMB, disse ter passado quatro meses sob proteção depois de ameaçado por um réu ligado ao tráfico. “É terrível, pois a vida da pessoa acaba”, afirmou.
Mudanças recentes na legislação têm procurado suprir lacunas e aumentar a proteção de magistrados. Em outubro do ano passado, entrou em vigor lei do senador e ex-juiz Sergio Moro instituindo os crimes de obstrução e conspiração para obstruir ações contra o crime organizado e prevendo reforço na segurança de autoridades. O projeto tramitou em regime de urgência depois do assassinato do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes, executado a mando do PCC. Nos celulares de suspeitos presos, foram encontradas fotos de outras autoridades.
As ameaças a magistrados por máfias e cartéis de drogas são um problema que desafia outros países. Na Itália e no México, a necessidade de maior segurança levou à implementação de “juízes sem rosto” — a identidade e a imagem dos magistrados é mantida sob sigilo. Nos Estados Unidos, a segurança dessas autoridades também é motivo de preocupação. Em 2024, a Polícia Judiciária investigou 822 ameaças explícitas ou potenciais. Mais de 2.700 juízes e 30.300 procuradores e funcionários de tribunais recebem proteção.
Atuam no Brasil pelo menos 64 facções criminosas, 12 delas em mais de um estado, como mostrou reportagem do GLOBO. Tem sido um desafio para as autoridades investigar, julgar e prender seus líderes. Mesmo quando presos, eles continuam tocando seus negócios ilegais e ordenando execuções de dentro dos presídios. É fundamental proteger as autoridades ligadas ao combate a essas facções.
Nenhuma estratégia contra o crime organizado pode abrir mão de uma Justiça forte, imparcial e independente. O Estado deve empreender todos os esforços para que magistrados possam exercer suas atividades livres de intimidações, por meio de medidas protetivas ou expedientes como os “juízes sem rosto”. “É preciso evitar um efeito sistêmico sobre a independência judicial”, diz Fachin. Ele tem toda a razão.
Não, eu realmente não consigo me conformar, porque para mim isso não é normal. Expressões como “vai tomar no p***”, “vai à merda” ou “vai para aquele lugar” não deveriam fazer parte da postura de um governador ou de qualquer autoridade pública, principalmente quando dirigidas a uma mulher, a uma senhora, a uma avó.
Independentemente de apoio político, de pesquisas ou de uma possível vitória eleitoral no primeiro turno, existe algo que considero fundamental: respeito. Um cargo público exige responsabilidade, equilíbrio e capacidade de dialogar, mesmo diante de divergências.
Eu posso discordar de uma pessoa, de uma ideia ou de uma atitude, mas não aceito que a falta de respeito e a agressividade verbal sejam tratadas como algo normal ou justificável em quem ocupa uma função de liderança.
PRODÍGIOS CONGÊNITOS DO DIREITO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho, cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões. Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.
O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.
O contrato é de 2023. E não haveria mesmo motivo para que o ministro se considerasse suspeito em 2024, ante ação relativa à CBF. Preferiu determinar que fosse suspensa a decisão que destituíra do cargo o então presidente da entidade. Uma coisa é a sociedade comercial do empreendimento familiar com a CBF; outra, o fundador do empreendimento julgar matéria sobre o presidente da entidade com que o negócio da família tem sociedade.
Diga-se, de volta a Kevin, que ele, aos 25 anos, tem cuidados que faltam a parentes de outros ministros. Não atua no STF. Prioriza o TRF-1, onde Nunes Marques teve toga até 2020, e a Justiça do Piauí, Estado de origem da família. Será maledicência supor que o pai, juiz no Supremo, mantenha influência sobre tribunal sediado em Brasília, ou sobre o Judiciário da terra da qual ascendeu.
Registre-se que o STF autoriza que parentes de ministros advoguem no STF, inclusive para empresas com processos sob os cuidados do ministro parente, desde que o processo em que atuem não esteja sob os cuidados do ministro parente. Foi assim que Dias Toffoli pôde tomar providências sobre a J&F, ainda que sua esposa fosse advogada do grupo. Suspendeu-lhe multa de R$ 10,3 bilhões.
Exalte-se a força da inspiração de – o valor da convivência com – um Alexandre de Moraes como agente impulsionador de portentos do direito, ainda que sem vínculos sanguíneos. Não haverá quem feche contrato de R$ 130 milhões com alguém porque casada com o juiz capaz de tirar o Twitter do ar.
Com escritório fundado em 2024, pouco depois de aprovado na OAB, Kevin não tardaria a representar clientes do tamanho da Refit, para quem, em 2025, conseguiu – no TRF-1 – liminar suspendendo a interdição da refinaria. Tampouco demoraria a ingressar no ramo da prestação de consultoria a consultorias, graças ao quê, entre 2024 e 2025, recebeu cerca de R$ 282 mil da consultoria do pai de seu sócio, a Consult – que, no mesmo período, recebera R$ 6,6 milhões do Master e R$11,3 milhões da JBS.
Naquela altura, os donos da JBS – tendo como advogada, aliás, a esposa de Dias Toffoli – eram parte em disputa bilionária, no STF, pela propriedade da Eldorado Celulose. Relator: Nunes Marques.
UMA IRRESPONSÁVEL MEDIDA PROVISÓRIA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou em maio uma medida provisória que afrouxa as regras para a atuação profissional como mototaxista e motofretista. Numa canetada, o petista eliminou a idade mínima de 21 anos para o trabalho e o tempo mínimo de 2 anos de carteira nacional de habilitação. Mas não só isso: o presidente achou por bem dispensar os profissionais da realização de cursos e ainda acabou com a inspeção semestral dos veículos.
É daquelas boas intenções das quais o inferno está cheio: a justificativa é a de que a simplificação vai gerar trabalho e renda, sobretudo entre as camadas mais vulneráveis, parecendo pouco importar se isso pode custar a vida de brasileiros. Por isso, diante da escalada da violência no trânsito, da qual os motociclistas são as principais vítimas, respondendo por mais de 40% dos óbitos, a Medida Provisória (MP) 1.360 é mais do que uma irresponsabilidade de Lula. É uma perversidade.
O petista sabe, ou deveria saber, que, se todas essas exigências estavam definidas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e na Lei n.º 12.009, de 2009, que regulamenta as atividades de mototaxistas e motoboys, não era por mero capricho do legislador. Eram regras necessárias para garantir a segurança tanto dos profissionais como também dos usuários e passageiros que fazem uso desses serviços. Eram, na verdade, normas que definiam patamares mínimos de civilidade e que, se respeitadas ou violadas, podem definir os limites entre a vida e a morte.
Especialistas em trânsito ouvidos pela reportagem do Estadão criticaram a MP de Lula. Para o CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, Paulo Guimarães, faltaram debate público e embasamento técnico, algo que se torna dispensável quando o único objetivo é angariar votos numa eleição. Já o superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Luiz Carlos Néspoli, afirmou que um condutor de apenas 18 anos de idade não tem maturidade para exercer essas atividades profissionais, o que parece óbvio.
A violência do trânsito brasileiro assusta, particularmente aquela protagonizada por motos. É bastante comum ver os motociclistas desrespeitando os semáforos, as faixas de pedestres, as calçadas, as ciclovias e as ciclofaixas. Por isso, manda a prudência que justamente as regras para os motoqueiros sejam reforçadas, e não afrouxadas, como fez Lula.
Ademais, diz a Constituição que uma MP pode ser editada quando a matéria é relevante e urgente. E, hoje, a única urgência e relevância quando o assunto é trânsito deveria ser salvar vidas, não torná-las ainda mais vulneráveis. Por isso, o Congresso, que tem 120 dias para analisar a proposta, tem o dever de enterrar todas essas mudanças.
Lula editou uma MP que pode tornar o cenário urbano brasileiro ainda mais caótico e letal. É o que lhe resta: sem um discurso político para os trabalhadores de plataformas digitais, Lula apelou mais uma vez para a demagogia, assim como havia feito ao lançar recentemente uma linha de crédito para estimular a compra de motos por entregadores de aplicativos. Como se vê, a única matéria relevante e urgente para o petista é a sua reeleição.
TST E A LEI MARRA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
A Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) condenou a fabricante de colchões Ortobom ao pagamento de uma indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 300 mil. A infração da empresa, segundo a mais alta instância da Justiça do Trabalho, foi não ter promovido nenhuma mulher para ocupar seus 22 cargos de gerência e 2 de subgerência na unidade fabril de Arapongas, no norte do Paraná.
Ao ajuizar a ação civil pública, o Ministério Público do Trabalho (MPT) argumentou que houve discriminação de gênero e violação do princípio da igualdade. De recurso em recurso, o caso chegou a Brasília, onde o relator no TST, ministro Alberto Balazeiro, achou por bem não só manter a condenação, como também apresentar seus argumentos – criativos, por sinal.
É óbvio que a sociedade brasileira espera que as empresas, assim como os órgãos públicos, tenham mais mulheres em postos estratégicos. Para isso, além de mudanças culturais, existem leis como a de igualdade salarial e políticas públicas de valorização da força de trabalho feminina, como a proteção da maternidade. Mas não será à base da canetada do Judiciário que a sociedade será transformada.
Balazeiro foi bastante convincente, sendo seguido por unanimidade pelos colegas – todos homens. Ele destacou que “há a ausência completa de mulheres em posições gerenciais sem explicação objetiva plausível, em cenário no qual se esperaria diversidade compatível com a presença feminina na força de trabalho e com os deveres de igualdade material impostos pelo sistema jurídico”. Afirmou que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Arapongas é formada, em sua maioria, por mulheres (51,4%). E defendeu a aplicação da Resolução 492/23 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que inova ao instituir o julgamento com “perspectiva de gênero” – que exige que juízes, ao tomar suas decisões, reconheçam as desigualdades históricas e as relações de poder entre homens e mulheres.
Não se sabe quais são os diplomas legais que exigem das empresas uma “explicação objetiva plausível” sobre seus critérios de promoção, que autorizam a adoção de critérios demográficos como fundamentos jurídicos e que transformam resoluções de conselhos em leis. Nada disso encontra amparo em legislação que tenha sido discutida e aprovada no Congresso, tratando-se de uma intervenção indevida do Judiciário na iniciativa privada. São flagrantes as inconstitucionalidades, a começar pela violação do princípio da livre iniciativa, que, ao lado do valor social do trabalho, é um dos fundamentos da República.
Antes de cobrar das empresas privadas o fim da desigualdade entre homens e mulheres, sem que isso esteja amparado nas leis, o TST deveria observar o que acontece dentro do próprio tribunal, onde, dos 26 atuais ministros, apenas 7 são mulheres – e apenas uma delas presidiu a corte.
“PAPAGAIADA” E HIPOCRISIA ELEITORAL, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Em seus arroubos retóricos diários, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já mostrou mais de uma vez seu desdém pelas restrições legais a atos de campanha eleitoral fora dos prazos fixados.
Ainda no distante 2006, quando se preparava para buscar a reeleição pela primeira vez e era questionado por suas viagens em série pelo país, disse que um homem público faz campanha “da hora em que acorda à hora em que dorme, 365 dias por ano”.
Bem mais recentemente, na semana passada, qualificou de “papagaiada desgraçada” a norma que proíbe candidatos de comparecer a inaugurações de obras públicas nos três meses que precedem o pleito —vale dizer, o artigo 77 da lei 9.504, de 1997.
Não se pode negar que há base empírica no deboche de Lula, já calejado por seis disputas presidenciais e rumo à sétima —sem contar a de 2018, quando foi barrado por estar condenado e preso. Há, de fato, um tanto de detalhismo, paternalismo e irrealismo na legislação eleitoral brasileira, que, não por acaso, ora é driblada com desenvoltura, ora gera punições controversas.
Pelo sim, pelo não, o petista deixa as bravatas para os discursos e trata de se precaver nos atos de governo. Como noticiou a Folha, o Palácio do Planalto passou a monitorar com maior rigor as manifestações de autoridades e encarregou a Advocacia-Geral da União (AGU) de verificar o teor de postagens de ministros em redes sociais envolvendo o presidente.
Até anúncios e reportagens antigas foram retirados de páginas digitais de pastas e da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal de mídia que não é reconhecida pela audiência nem pela independência editorial.
Ao que parece, as nuances da legislação serão exploradas com frequência inaudita neste ano. Levantamentos preliminares indicam que o PT e o PL, de Flávio Bolsonaro, já entupiram o Tribunal Superior Eleitoral de representações no primeiro semestre.
A judicialização se faz acompanhar da hipocrisia. Afinal, pode-se questionar tanto a presença de Lula num desfile de escola de samba em sua homenagem, no mês de fevereiro, quanto a de Flávio em ato na avenida Paulista contra o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF), em 1º de março.
Os dois políticos têm pretensões óbvias, e todos os seus atos miram o mesmo objetivo —Lula, com a máquina federal na mão, pode mobilizar muito mais recursos e políticas públicas, como o pai de Flávio fez à farta em 2022. No entanto ainda são apenas pré-candidatos e não podem pedir votos abertamente. A propaganda eleitoral só começa oficialmente em 16 de agosto.
A lei pode ser revista em prol de mais flexibilidade e realismo, além de novas questões, como o uso da inteligência artificial para exaltar uns e caluniar outros. Isso não exime candidatos, pré-candidatos ou protocandidatos de agir com autocontenção e respeito à gestão pública, mesmo porque não se pode ludibriar o eleitor por tempo indeterminado.
Pré campanha e campanha da na mesma, rola solto tudo, a justiça nem sabe, tapa os olhos.
Quanto pedir desculpas em apoiar na época Paulo Roberto Koerich não é crime, e nem erro, não tem que pedir desculpas, a culpa foi de muitos acreditarem em um estelionado eleitoral com 52% dos votos.
Gaspar é uma aldeia, tem 70 mil habitantes onde 35 mil votam, é compreensível em acreditar que alguém poderia quebrar o sistema dos poderosos, fechando a questão Paulo Roberto Koerich é um engodo e povo gasparense errou e cometeu estelionato para a cidade, eleitoral.
A cidade está aos trapos com escandalos de corrupção dentro do governo com secretários vindo de Blumenau, é chover no molhado dizer que temos muito material humano qualificado na cidade e íntegros, a culpa é de quem? resposta é simples de quem nomeou……
Finalizando, gasparense tem que ter mais lógica e pragmatismo para eleger seus representantes, e muitos vão nas redes sociais e se acham de salvadores….. vixe..
ONDE FALTA CAIR A FICHA, por Willian Waack, no jornal O Estado de S. Paulo
No futebol a ficha para o Brasil caiu logo, pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa mediocridade.
Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.
Antes se associava corrupção (dos valores, das condutas, da moral, fora o roubo) aos “políticos”. Em todos os níveis no Executivo e, especialmente, no Legislativo. Hoje a percepção, nada subjetiva, é a de que o topo do Judiciário também não merece mais confiança.
É importante notar que, em conversas privadas, integrantes tanto do governo quanto de várias correntes de oposição convergem em dizer que “o Supremo, entregando dois ministros” (está subentendido que são os nomes envolvidos no escândalo Master), a coisa se resolve. Que coisa? A profunda dissolução da legitimidade das instituições? O destrutivo desequilíbrio na relação entre os Poderes? Como ganhar causas via parentes de integrantes de tribunais superiores?
A complexidade da situação que o País enfrenta se dá sobretudo por fatores que os agentes políticos já não controlam ou apenas em parte. Eles são demografia (impacta Previdência), estagnação na produtividade (impacta crescimento econômico), crime organizado (impacta não só autoridade do Estado) e vulnerabilidade externa (impacta defesa e potencializa choques geopolíticos).
Mas é um país beneficiado pela posição geográfica, pela extraordinária abundância de todo tipo de recursos, por um apreciável mercado interno, por capital humano que realizou a revolução da agricultura tropical e produziu excelentes resultados de inovação tecnológica na extração de petróleo e indústria aeronáutica, por exemplo. Por isso mesmo, paradoxalmente beneficiado por alguns aspectos da destruição da ordem internacional.
O debate público eleitoral, constrangido pela enfadonha polarização, não contempla nada disso – nem os dilemas nem as oportunidades. Ao contrário, não parece haver saída do confronto entre um governo desarticulado e com prazo de validade há muito vencido (sobretudo no campo das ideias) e um tipo de oposição comandada por um clã familiar de notável incompetência – para nem se falar de problemas morais.
Mas não caiu ainda a ficha de como é medíocre um tipo de populismo enfrentando o outro.
A FICÇÃO DA “PRÉ-CAMPANHA”, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Ao chamar de “papagaiada desgraçada” as restrições impostas pela legislação eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou expondo uma contradição que vai muito além de seu incômodo pessoal. O problema não é o defeso eleitoral, mas a ficção da chamada “pré-campanha”. A política brasileira já entrou em campanha há muito tempo. Só a legislação e os próprios atores políticos, quando lhes convêm, continuam sustentando essa ficção.
Não há mais nada de “pré” na disputa presidencial de 2026. Lula percorre o País anunciando obras e investimentos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) organiza viagens, mobiliza apoiadores e constrói seu palanque nacional. Partidos articulam alianças, testam discursos e ajustam estratégias. O noticiário acompanha diariamente pesquisas, movimentos eleitorais e cenários para outubro. Os tribunais já acumulam ações típicas de uma campanha em pleno andamento. Ainda assim, todos insistem em tratar seus protagonistas como “pré-candidatos”, como se a corrida eleitoral permanecesse apenas em fase de preparação.
As restrições previstas na legislação eleitoral continuam sendo indispensáveis. Democracias precisam impedir que governantes utilizem a máquina pública em benefício próprio. Precisam estabelecer uma fronteira clara entre Estado, governo e campanha, limitar o uso da publicidade institucional e evitar que quem ocupa o poder transforme a estrutura administrativa em vantagem eleitoral. O objetivo dessas normas permanece correto. O problema é que o conceito de pré-campanha deixou de corresponder à realidade política.
Os últimos dias demonstraram isso com clareza. Antes do início das restrições eleitorais, Lula participou de 19 agendas públicas em sete Estados, acelerou anúncios de investimentos, inaugurou um canteiro de obras e até um túnel ainda sem água. Em seguida, anunciou que, embora não pudesse mais inaugurar obras, continuaria visitando aquelas que ainda pretendia conhecer. “Nós temos agora o período de defeso. O defeso é para pesca. Você não pode pescar na época da desova. E agora a gente não pode inaugurar mais nada até as eleições”, queixou-se Lula. Mas não se deu por vencido: “Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas que ainda tenho de visitar”.
Não se trata de uma característica exclusiva do atual presidente. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) percorreu o País em motociatas e grandes eventos públicos muito antes da campanha oficial, suscitando exatamente o mesmo debate. Agora, na Paraíba, a Justiça Eleitoral determinou a retirada de vídeos de Wesley Safadão após o cantor fazer, durante um show do São João de Campina Grande, um gesto associado à pré-candidatura do senador Efraim Filho (PL-PB) ao governo do Estado. Em ambos os casos, a controvérsia não girou em torno de pedidos explícitos de voto, mas da tentativa de definir onde termina a manifestação política e onde começa a campanha.
Os números confirmam a distorção. Antes mesmo da abertura oficial da campanha, as equipes jurídicas de Lula e Flávio Bolsonaro já haviam levado ao Tribunal Superior Eleitoral mais de uma centena de representações. Ora, se a campanha ainda não começou segundo o calendário legal, como pode já ocupar tanto os tribunais, mobilizar partidos e dominar a agenda política nacional?
É preciso discutir de forma realista como impedir que quem exerce o poder utilize a máquina pública para perpetuá-lo. Essa é a fronteira que merece proteção rigorosa. É ela que assegura igualdade entre os concorrentes e preserva as instituições acima dos interesses eleitorais de ocasião.
Não faz sentido abandonar as regras. Faz sentido abandonar a ilusão de que elas ainda regulam a realidade. A democracia continuará precisando de limites rigorosos ao uso da máquina pública e de uma fronteira inequívoca entre Estado, governo e campanha. Mas insistir em tratar como “pré-campanha” um período em que todos já fazem campanha apenas transforma a legislação num exercício de faz de conta. O Brasil precisa de regras mais realistas, claras e eficazes.