Este artigo você, certamente, não irá ler, ver e ouvir na imprensa de Gaspar e regional. Mas, pode ganhar as redes sociais e deixar o poder de plantão outra vez mais “puto” com este espaço, em algo que ele gostaria que tudo estivesse escondido da cidade, cidadãos e cidadãs. E foi este fato, por ser ilustrativo e repetitivo, que me tirou da decisão de não mais escrever esta semana, recheada de atividades policiais na busca de provas de corrupção no relacionamento entre o público e o privado do governo passado.
O governo de Paulo Norberto Koerich, PL, é liderado por um afamado policial investigativo. Ele foi delegado local várias vezes, chefe de gabinete de um ex-promotor duro contra a corrupção que se tornou secretário de Justiça de Santa Catarina (Luiz Carlos de Carvalho, falecido num acidente aéreo). E em decorrência disso, Paulo foi delegado regional duas vezes, delegado geral de polícia civil do estado e também o equivalente ao cargo de secretário de Segurança (no governo de tenente coronel bombeiro militar, Carlos Moisés da Silva, eleito pelo antigo PSL e logo demonizado em ampla campanha de vingança pelos bolsonaristas radicais).
A PROTEÇÃO
Resumindo. Paulo não é nenhum neófito sobre aquilo que deve ser controlado para bem guardar o bem público e ao mesmo tempo, vejam só, lhe proteger na reputação e na fama que possui, construída por décadas de trabalho profissional.
Estranhamente, porém, Paulo, vira e mexe, está deixando criar goteiras na área de transparência e de controle da sua administração, a feita para ser transparente, promover o desenvolvimento e promover controles da máquina pública municipal . Ou Paulo está mal acompanhado, ou mal assessorado – e de gente que não serviu em Blumenau, mas veio para cá para ser cabo eleitoral de candidato de lá neste ano -, ou está mal orientado pelos “amigos” que estando fora da prefeitura, não vão responder formalmente por nada, ou Paulo está agindo se achando protegido e colocando-se acima do bem e do mal. O ex-prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB (na foto abaixo com o seu ex-secretário da Fazenda e Gestão Pública, Jorge Luiz Prucino Pereira, PSDB), e os seus também achavam isto. Agora, estão à espreita e desconfiados de que a proteção do corpo está mais fina.
Voltando.
Paulo, mais que qualquer outros – devido a experiência na área policial – que o rodeia na prefeitura de Gaspar, sabe o que esta teimosia ou má avaliação resulta contra os que não tomam as devidas precauções. Aliás, a operação policial, surpresa, nesta terça-feira, em Gaspar, foi mais um aviso embutido de preocupante advertência. A operação esteve muito perto, pertíssimo do seu entorno de influência empresarial que veio de outros governos e daquilo que está parasitário no governo de Paulo, como um sistema que domina a cidade, sejam qual o governo estiver de plantão na nossa cidade.
QUAL É O BABADO

Agora, descobre-se pelo Ministério Público da Comarca de Gaspar, por meio do promotor Augusto Zanelato Júnior, da quarta promotoria, que ele acionou mais uma vez a Justiça (a segunda Vara da Comarca). É para que no prazo de 60 dias (a contar de meados de janeiro) o Executivo (Paulo e sua Procuradoria) para que prove o cumprimento das obrigações e independência da Controladoria Interna. Ela foi alvo de questionamentos de cerceamento e mera decoração ao tempo de Kleber.
Havia uma obrigação e prazo para o cumprimento disso. O MPSC de Gaspar, desconfia de que na prática isto não aconteceu totalmente ao tempo de Paulo Norberto Koerich, PL. “Para que haja avaliação segura do adimplemento das obrigações pactuadas, é indispensável exigir do executado documentação específica e idônea, que demonstre as ações já implementadas e permita a aferição objetiva do cumprimento das cláusulas remanescentes“, ressaltou o MP no pedido que fez à Justiça para a prefeitura se explicar documentalmente e fatos reais.
Paulo tomou posse no dia primeiro de janeiro de 2025. Mas, só no dia três de novembro de 2025 (esta é a data que está no Portal da Transparência do Município de Gaspar e difere do que está informado pelo MP que a nomeação se deu pela Portaria RH nº 563, de 14 de outubro de 2025), ou seja, mesmo assim, quase um ano de governo da obrigação de preencher esta função, Paulo nomeou esta peça fundamental. O escolhido foi Rafael Sampaio Gomes como controlador interno. Qual é mesmo a diferença com o governo anterior que perdeu por exatamente estar marcado por erros, dúvidas e ineficiências? Credo!
O QUE O MP QUER?
O que chama a atenção na peça de apenas três laudas do promotor Augusto Zanelato Júnior? A possível função decorativa com desenhos formais, mais uma vez, do controlador interno, assim como foi com Ernesto Hostin (na foto se explicando na CPI do Capim Seco e mostrando como foi anulado ao tempo de Kleber, mesmo apontando os erros e supostas falcatruas). Apesar de amigo do ex-prefeito, quando quis exercer à autonomia obrigatória da sua função, foi escanteado, ignorado e humilhado. Deu no que deu, ou está se dando.
Isto ficou bem demonstrado, no depoimento chave de Ernesto na CPI do Capim Seco, utilizado ao máximo, neste aspecto, pelo pessoal do governo Paulo – e principalmente pela relatora da CPI, a vereadora Alyne Karla Serafim, PL – para desqualificar e botar dúvidas que se estabeleceram no exageros e audácia de Kleber, secretários, funcionários efetivos e comissionados, nas medições fraudulentas das roçadas em Gaspar. Até nisso, nenhum aprendizado pelo governo Paulo e sua bancada bolsonarista. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Mas, o próprio governo de Paulo, pelo jeito, gosta de se auto-inflingir de pimenta nos seus próprios olhos.
O que diz o MP nesta questão sobre a obrigação não apenas se ter um Controlados Interno, mas que ele efetivamente funcione a favor da cidade, cidadãos e cidadãs? “Não foram apresentados elementos demonstrando que a Controladoria passou a desempenhar, de forma estruturada, as atribuições de corregedoria, nem que elaborou e publicou o planejamento anual exigido, tampouco comprovações de participação formal nos processos de planejamento governamental”. Ulalá!
MAIS UMA VEZ UMA FUNÇÃO DECORATIVA?
Sempre escrevi, e há anos, de que o Orçamento de Gaspar é uma peça de ficção. Em tese, o promotor sinalizou de que estou com razão e o poder público, faz isso sem disfarces, porque não há aval de um controlador interno independente, que vejam só, que no organograma é ligado ao próprio gabinete prefeito e do seu vice, que nem pode mais abrir a boca na atual gestão.
Soma-se a isto, sucessivos erros e problemas nas áreas de licitação, fiscalização e contratação de obras. Eles estão atrasando o começo, a propaganda e à entrega de resultados do atual o governo para se dar bem e correr ao abraço com a comunidade. Incrível! Tudo está centralizado na Chefia de Gabinete, secretaria de Planejamento Territorial, secretaria de Fazenda e Gestão Administrativa e Procuradoria Geral e mesmo assim, os erros – e óbvios ou primários – se acumulam. E a controladoria interna em silêncio. Ou está, mais uma vez, silenciada ou não possui competência para agir?
A peça do promotor Rafael dá algumas dicas que se não estão acontecendo, mostra de que está falhando, minimamente, na operação e na comunicação – a outra parte nula do governo de Paulo e que mais uma vez dobrou a aposta na sua terceira escolha em 13 meses de governo.
UM RETRATO PREOCUPANTE MOSTRADO PELO MP
“A cláusula equivalente à função correicional pressupõe a atuação direta da Controladoria em sindicâncias e processos disciplinares, avaliando ritos, legalidade e disciplina funcional. Não há nos autos qualquer evidência de notas técnicas, pareceres, minutas, recomendações, relatórios ou outros instrumentos que indiquem que a Controladoria passou a exercer tais atribuições”. Credo!
Querem mais?
“Tampouco há ato normativo municipal que redefina o fluxo correicional para incorporar a atuação técnico-jurídica da Controladoria, o que é essencial ao cumprimento material da obrigação. Do mesmo modo, a cláusula referente ao planejamento institucional exige a elaboração e publicação de um planejamento anual da Unidade de Controle Interno, com identificação de metas, auditorias previstas, critérios de risco, cronograma de execução e resultados esperados“. Peloamodedeus. É o mínimo do básico.
Veja este desfecho e que lava a minha alma naquilo que escrevo há décadas e sou acusado de mentir, falsear ou exagerar.
“Também determina que a Controladoria participe diretamente do planejamento governamental, contribuindo com a elaboração e revisão do PPA, LDO e LOA, bem como com o monitoramento de metas e programas. Ausentes nos autos o plano anual, relatório de execução, documentos de participação em ciclos orçamentários ou quaisquer manifestações técnicas que demonstrem essa integração, não há como reconhecer o cumprimento da cláusula“.
“Assim, embora o Município tenha avançado em etapa essencial – notadamente a criação e provimento do cargo –, ainda subsiste um claro déficit de comprovação quanto às atividades correicionais e ao planejamento interno. Para que haja avaliação segura do adimplemento das obrigações pactuadas, é indispensável exigir do executado documentação específica e idônea, que demonstre as ações já implementadas e permita a aferição objetiva do cumprimento das cláusulas remanescentes“. Muda, Gaspar!
TRAPICHE

A líder de governo na Câmara, Alyne Karla Serafim, PL (foto ao lado), começou como terminou o ano passado. Na primeira sessão da Câmara deste ano agiu com o fígado e incoerentemente, voltou a culpar os produtores rurais de Gaspar por supostas dívidas deles na secretaria de Agricultura e Aquicultura, ao rebater as queixas e argumentações do vereador Dionísio Luiz Bertoldi, PT, identificado com esse pessoal do interior, por ser um deles.
Segundo a vereadora, os queixosos deviam ir para se lamentar das supostas dívidas na casa do ex-secretário de Agricultura e Aquicultura de Gaspar, o evangélico, ex-vereador, o empresário Cleverson Ferreira dos Santos, PP, o partido que sustenta a governabilidade do governo de Paulo Norberto Koerich e Alyne Karla Serafim Nicoletti, ambos do PL. Segundo ela, a batida da polícia na terça-feira na casa do ex-secretário pode ser a prova de que os agricultores foram enganados.
E onde estão as incoerências? A própria líder do governo admite que o buraco é mais embaixo, ou seja, os produtores rurais, a maioria ingênuos e mal instruídos, podem terem sido levados a erros por gente da própria secretaria. Então não são culpados. E há culpados que querem se livrar da culpa, pelo jeito. E aprefeitura está trilhando um caminho mais fácil, injusto, político e perigoso. Um Processo Administrativo Disciplinar esclareceria o envolvimento dos secretários, todos do PP, e dos servidores nesta trama e assim, livraria à maioria dos produtores de culpa e da obrigação de pagar. A prefeitura e a secretaria relutam a fazer isso. Qual mesmo é a razão disso?
E a outra parte? Cabe a prefeitura levar o caso a polícia – tanto o prefeito e a vereadora são policiais e entendem disso – para ser instaurada uma investigação. E apurada, levar o caso tanto à promotoria quanto à Justiça para pegar gente grande na prefeitura e secretaria. Simples assim. Mas, a prefeitura e a secretaria de agricultura e Aquicultura preferem atazanar os mais fracos: os produtores. Está chantageando-os com o possível não acesso a serviços, orientações técnicas e fomento, se eles não assinarem uma confissão de dívidas que eles não reconhecem. E nem a prefeitura, pois não aparece no cadastro de dívida ativa. E estão cobrando coisas antigas, exatamente quando para os rizicultores mais precisam se ajuda e estão amargando prejuízos altíssimos na colheita do arroz, devido a cotação baixa da saca. Impressionante.
Muitos alegam que já a pagaram ou permutaram, mas não documentaram esta paga, exatamente por orientação dos que estavam empregados politicamente na secretaria. Outros não reconhecem sequer suas assinatura nos documentos que foram lhes apresentados. Todos têm histórias e que precisam ser ouvidas, mas a prefeitura a a secretaria de Agricultura se negam a ouvi-los. Quase todos não possuem dívida ativa inscrita. Ou seja, oficialmente não devem nada. Mas, se assinarem os papelinhos que as secretaria está impondo, constituirão as dívidas… Não há santos, todavia. Há os grandes produtores, protegidos de sempre, que estão surfando na onda da confusão armada pela prefeitura para se verem livres do pagamento. E a prefeitura e a secretaria de Agricultura relutam em separar o joio do tribo. Então…
Sobre a “visita da polícia” na terça-feira, o governo de Paulo Norberto Koerich, PL, sabe, agora, que está perigosamente em companhia de quem pode estragar o seu currículo. Se não sabe, alguém precisa avisá-lo. Se foi avisado e continuar com a companhia estará sinalizando algo muito estranho para a cidade. Muda, Gaspar!
24 comentários em “EM GASPAR, A CONTROLADORIA INTERNA AINDA É UMA FAZ DE CONTA. É PARA ATENDER PRÓ-FORMA A LEI E SER, AO MESMO TEMPO, DESMORALIZADA PELOS PODEROSOS DE PLANTÃO. DESTA VEZ, AO MENOS, O MINISTÉRIO PÚBLICO ESTÁ DE OLHO NESTA CHICANA GOVERNAMENTAL HERDADA DE KLEBER E ENROLADA NO GOVERNO PAULO”
Pingback: O 'NOVO" GOVERNO DE GASPAR FOI ELEITO PARA MUDAR. SE NÃO FIZER ISSO, URGENTE E AGORA, O PICHE DO VELHO SISTEMA NÃO DESGRUDARÁ DELE COMO NÃO HAVERÁ SOLVENTE PARA LIVRÁ-LO DESTA MANCHA - Olhando a Maré
A epidemia silenciosa dos vereadores federais
Por RENATO CESAR – Jornalista
Há algo curioso — e revelador — no jeito como a política municipal vem se comportando nos últimos tempos. As câmaras continuam sendo câmaras, os microfones continuam fixos nas mesas, mas a plateia mudou. Hoje, ela cabe inteira dentro de um celular.
O vereador, figura essencialmente local, aquele eleito para olhar o buraco da rua, a lâmpada apagada, o posto de saúde lotado, descobriu um novo palco. Já não fala apenas para os colegas de plenário. Fala para a câmera. E quando a câmera entra em cena, o discurso muda de tom, de tamanho e, muitas vezes, de endereço.
Não é ilegal. Não é proibido. Mas é sintomático.
Há vereadores que parecem mais atentos ao que acontece em Brasília do que ao que acontece no próprio bairro que os elegeu. Comentam crises nacionais, travam batalhas ideológicas de alcance continental e disputam narrativas que rendem curtidas, cortes e compartilhamentos. O mandato vira conteúdo.
A política vira performance.
Representar dá trabalho. Performar dá visibilidade. E, no mundo atual, visibilidade virou moeda política.
Não se trata de esquerda ou direita, governo ou oposição. Trata-se de foco. Quando o discurso municipal se desloca demais para o debate nacional, algo fica para trás. Geralmente, o básico. Geralmente, o cotidiano.
Talvez o grande debate não seja o que esses vereadores dizem, mas para quem dizem. Se falam para o eleitor da rua ou para o algoritmo da rede. Se usam o mandato como instrumento de solução ou como vitrine permanente.
A política local sempre foi o primeiro degrau da democracia. O risco é ela se tornar apenas o primeiro cenário de um espetáculo contínuo.
E espetáculo, como sabemos, termina quando as luzes se apagam.
Já os problemas… esses ficam.
Excelente. Gaspar não foge à regra. Lembro que há dois anos, quando presidente, sob o argumento de que a gravação valia como ata, Ciro André Quintino, MDB, parou a sessão, para que o dispositivo de internet pudesse ser reativado e continuar a transmissão. Olhando o número de acessos, eles são baixos, mas o recortes impulsionados por cada um nas redes, estes, dependendo da habilidade e monetização, vai bem mais longe
Com relação ao texto divulgado pelo autor, no qual afirma: “Segundo a vereadora, os queixosos deviam ir se lamentar das supostas dívidas na casa do ex-secretário de Agricultura e Aquicultura de Gaspar, o evangélico, ex-vereador e empresário Cleverson Ferreira dos Santos”, cumpre esclarecer que tal afirmação não corresponde às palavras efetivamente proferidas.
As declarações exatas foram as seguintes:
“Outro vereador também aqui falando mais uma vez sobre a questão do refis agrícola. Se ele tem razão, por que a polícia bateu na casa de um ex-secretário da agricultura essa manhã? Fica aí mais uma dúvida a ser sanada.”
O teor integral da fala pode ser conferido no vídeo oficial disponível no seguinte endereço:
https://youtu.be/SnmdnF9q9hI
Correto. A vereadora e a metade de Gaspar sabem que o ex-secretário da Agricultura a que se referia era o ex-vereador Cleverson Ferreira dos Santos, PP. Mania estranha esta dos políticos de dar o tapa e esconder a mão. E se não nominar, apenas amplia as especulações para outros secretários da cota do PP, parceiro do atual governo e que mandava e desmandava por lá no governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB.
AUXÍLIO-PERÚ, FOLGA FICTÍCIA E DINHEIRO LIMPO SÃO PRIVILÉGIOS, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo
Há empresas privadas que pagam auxílio-moradia ou auxílio-mudança. Faz sentido. Aplica-se quando o funcionário é transferido de uma cidade para outra e tem custos para se instalar na nova residência. Por isso mesmo, é provisório, vale para dois, três meses. Auxílio-moradia permanente, só no serviço público.
Também há empresas que dão aos funcionários uma cesta de Natal ou um peru para as festas de fim de ano. No setor público paga-se em dinheiro o auxílio-peru. Por que em dinheiro e por que o nome é auxílio? Para aumentar o salário sem pagar mais imposto de renda. Para furar o teto salarial.
Nisso, o maior achado é o esquema de trabalho 3×1 — ou um dia de folga por três trabalhados, conforme projeto de lei aprovado a toque de caixa pelo Congresso Nacional. À primeira vista, parece um absurdo administrativo. Como uma repartição pode funcionar minimamente se o pessoal folga a cada três dias? Não só atrasaria o serviço, como causaria a maior confusão. Imaginem o dia em que o chefe vai trabalhar, mas seus funcionários resolveram tirar a folga na quinta, depois de três extenuantes jornadas seguidas. E, no outro dia, os funcionários aparecem, mas não os chefes.
Impossível funcionar assim, e não acontecerá mesmo. A jogada é outra. Trata-se de conceder um aumento salarial que não seja computado como salário. O funcionário não tira a folga e fica com um dia de crédito. Vai acumulando e, se for bem organizado, no fim do ano pode ganhar um extra de quase dois salários, um gordo 14º. Ou um extra a cada semestre. E aqui o truque final: como não se chama salário, mas indenização por folgas não gozadas, não entra no cálculo do imposto de renda. É dinheiro limpo, sem descontos.
E pode ultrapassar o teto do funcionalismo, hoje de R$ 46 mil, salário de um ministro do STF. Pois, para o teto, de acordo com a interpretação dos próprios interessados, não se contam auxílios nem indenizações. Assim se fecha a jogada. O servidor, o juiz, o promotor recebem R$ 200 mil num mês e só recolhem IR sobre R$ 46 mil.
Há uma dupla injustiça aí. Primeiro, dentro do funcionalismo. Pois essas vantagens só valem para a elite. O médico do SUS, a enfermeira, o policial na rua, o professor, o bagrinho — a imensa maioria fica com os salários mais baixos. O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) informa que apenas 1% dos servidores federais recebe acima do teto — os privilegiados. Há dúvidas sobre esse dado. O número certamente é muito maior quando se adicionam os funcionários estaduais e municipais. O custo passa dos R$ 20 bilhões por ano, conforme estimativas ainda imprecisas, dada a variedade na aplicação desses penduricalhos.
Mas fiquemos com a injustiça básica — do 1% que ganha os supersalários. Reproduz uma injustiça presente no conjunto da sociedade. Explico: entrou em vigor neste ano a lei que dá isenção de IR a quem ganha até R$ 5 mil por mês. Para compensar a perda de arrecadação, foi instituída uma alíquota adicional para os que ganham acima de R$ 50 mil por mês, ou R$ 600 mil por ano. Ao defender a medida, o governo sustentou que, nessa faixa de renda, está quem representam apenas 1% dos trabalhadores ou rentistas. Eis a segunda injustiça: no setor público, o 1% dos que ganham supersalários não paga o IR adicional; no setor privado, paga todo mundo que ganha mais de R$ 50 mil por mês.
O ministro Flávio Dino, do STF, mandou suspender todas as vantagens que não tenham sido aprovadas por lei. A decisão ainda passará pelo plenário do Supremo. Deve ser referendada. E daí? Não será difícil para Congresso, assembleias estaduais e câmaras de vereadores aprovarem as mesmas vantagens.
Parece que Brasília perdeu a noção de realidade. No meio do escândalo do Banco Master, que envolve autoridades dos três Poderes e de vários estados, o Congresso passa um trem da alegria para seus servidores e para os próprios parlamentares. Esperando que tudo passe depois do carnaval.
CACOETE POPULISTA, por Diego Schelp, no jornal O Estado de S. Paulo
O presidente Lula tem razão em querer conquistar os evangélicos para a sua tentativa de reeleição este ano. Essa heterogênea fatia da população não morre de amores pelo petista. Mesmo com todo o esforço de marketing e de articulação social dispensado nos últimos três anos de governo, a desaprovação da gestão de Lula entre os evangélicos, que já são um em cada quatro brasileiros com mais de 10 anos, só cresceu.
Mas o que significa “conquistar” esse público? Quando fala sobre o assunto, Lula dá a entender que acredita em uma estratégia de convencimento. Essa foi a mensagem contida em um trecho do seu discurso em uma festa do PT em Salvador (BA), neste sábado.
Ao conclamar a militância a ir até as periferias, ele disse que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e que é preciso conversar com eles sobre isso, em vez de ficar esperando que falem bem da gestão petista.
Lula gosta de simplificar as coisas, o que muitas vezes gera erros ou ruídos. Para começar, a não ser que o Ministério do Desenvolvimento disponha de números muito surpreendentes, ainda não divulgados, a afirmação de que nove em cada dez evangélicos estão em programas sociais não condiz com dados demográficos sobre renda desse grupo religioso.
Ainda que fosse verdade, é um cacoete populista acreditar que receber ajuda do Estado é um argumento infalível para garantir o voto de um cidadão. O PT não tem o monopólio dos programas sociais e quem os recebe costuma ter duas certezas: a primeira é que os benefícios tornaramse políticas de Estado (dificilmente serão encerrados por novos governos) e a segunda é não querer depender deles para sempre.
Por isso, enviar militantes para as periferias com a missão de atribuir a Lula o crédito pelos benefícios sociais não apenas pode ser inócuo para o esforço de convencimento do eleitorado evangélico, como não aborda o ponto central da rejeição ao presidente e ao PT: a percepção de valores incompatíveis.
Quando se fala em conquistar corações e mentes, trata-se de obter apoio emocional tanto quanto racional. Lula mira nas mentes evangélicas com arsenal pífio e parece não saber como alcançar seus corações.
Se o presidente não tem uma boa resposta para esse desafio eleitoral, não é por falta de pesquisas ou cartilhas feitas por seu próprio partido e organizações de esquerda com o intuito de orientar o “trabalho de base” na aproximação com os evangélicos. Uma abordagem equivocada – forçada ou eleitoreira demais – pode acabar tendo o efeito oposto. •
PT FINGE SER OPOSIÇÃO AO CULPAR BC POR ERROS DO GOVERNO, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Em ano de disputa eleitoral, o PT volta a se utilizar do artifício que tem sido uma de suas especialidades desde que chegou ao poder em 2002: posicionar-se como governo e oposição simultaneamente.
O partido ocupou o Palácio do Planalto por 16 dos últimos 23 anos, mas, quando interessa, tenta vender a ideia de que está na trincheira contra um poder alheio. Trata-se de culpar terceiros pelos problemas gerados por suas próprias escolhas.
A mais recente resolução do Diretório Nacional da sigla exemplifica essa postura.
O texto critica o Banco Central, acusado de atuar “contra o projeto eleito nas urnas”, de aprofundar a “financeirização” da economia e de restringir investimentos públicos. Exige redução imediata da taxa Selic, hoje em elevadíssimos 15% ao ano, e revisão da meta de inflação de 3%, para “compatibilizá-la com crescimento econômico e geração de empregos”.
A crença de que uma meta mais alta permitiria juros mais baixos é, no mínimo, pueril. Um objetivo frouxo tende a elevar as expectativas para o IPCA, exigindo política monetária talvez restritiva para conter preços. A medida, de todo modo, está ao alcance imediato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, também responsável pelas indicações da maioria dos diretores do BC.
A proposta do PT não passa de tolerar mais inflação —que pune sobretudo os mais pobres—em nome do crescimento econômico, ignorando o desastre produzido por essa estratégia sob a correligionária Dilma Rousseff.
A pressão sobre o BC não se limita à resolução. Embora o documento não peça explicitamente a revogação da autonomia da instituição, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), declarou que ela deve ser revista, tornando-se “relativa”, não absoluta.
Soma-se a isso o balão de ensaio sobre uma possível indicação de Guilherme Mello, secretário de Política Econômica da Fazenda, para a diretoria do BC.
Recomendado por seu chefe, Fernando Haddad, Mello tem conhecidas posições heterodoxas, e a mera menção a seu nome provocou reação negativa entre economistas e investidores, que veem risco de politização da autoridade monetária.
Os tão repudiados juros altos são motivados, principalmente, pelo expansionismo orçamentário do governo petista. O aumento persistente e temerário dos gastos públicos eleva a pressão sobre os preços e força o BC a manter a taxa de juros em patamar mais restritivo. Os próprios dirigentes da instituição escolhidos pelo Planalto o afirmam.
A suposta “financeirização”, um conceito vago, decorre dessa escolha: para rolar uma dívida em alta contínua, o Tesouro Nacional oferece remunerações elevadas, beneficiando os famigerados rentistas. É irônico que Lula e seu partido, por tantos anos no comando da economia, tenham se tornado os maiores amigos de quem pode viver de emprestar dinheiro ao governo.
O SABER NÃO SE DELEGA: UMA RESPOSTA À LÓGICA DO DESCARTE EDUCACIONAL, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08) e graduado em Gestão Pública, pela Udesc.
As recentes declarações do ex-jogador “Túlio Maravilha”, defendendo o descarte de vagas em universidades públicas sob o argumento de preservação de “valores” e prevenção de supostas “PRECARIZAÇÕES”, exigem uma resposta serena, porém tecnicamente fundamentada. Não por mera divergência ideológica, mas por respeito ao próprio sentido da educação como instrumento de construção humana, científica e social.
Minha vida foi forjada no esforço. Fui aluno do ensino público aqui em Gaspar/SC, enfrentei lacunas estruturais, e, quando adulto, financiei e “continuo financiando” minha própria formação em instituições privadas. Cada curso pago com o fruto do meu trabalho teve um objetivo claro: ampliar horizontes, construir autonomia intelectual e nunca limitar escolhas.
Como pai, preparei meus filhos para que tenham liberdade de optar, e não para que se tornem reféns de uma única alternativa educacional. Investi deliberadamente em uma formação de base sólida para que possam disputar, EM IGUALDADE DE CONDIÇÕES, as melhores universidades do país, especialmente as públicas de pesquisa. Não por impossibilidade de custear o ensino privado, mas por compreender que a excelência acadêmica e científica, no Brasil, encontra nas universidades públicas o seu principal núcleo estruturante. Não paguei ensino de qualidade para afastá-los da universidade pública. Preparei-os para que possam alcançá-la se assim desejarem.
Minha crítica central, contudo, é objetiva: valores familiares não são entregues pela universidade, são transmitidos dentro de casa. “A instituição de ensino superior não substitui a família, não molda caráter por delegação e tampouco deve ser responsabilizada por aquilo que é dever primário dos pais”. A universidade forma profissionais e pesquisadores; a família forma consciência, ética e identidade.
Transferir à universidade a responsabilidade de preservar valores familiares revela fragilidade na própria segurança formativa do lar. Valores sólidos não se perdem em ambientes de pluralidade; ao contrário, se fortalecem quando testados pela convivência com o diferente. Quem educa com convicção não teme o debate, a diversidade ou a autonomia intelectual.
A educação superior não pode ser tratada como um bem de consumo selecionado por conveniência logística ou por uma suposta proteção moral. Como sustenta Gary Becker (1993), ao desenvolver a TEORIA DO CAPITAL HUMANO, a educação é o investimento mais decisivo na formação de indivíduos produtivos, inovadores e socialmente úteis. Trata-se de um ativo estratégico para a sociedade e não de um serviço acessório.
A universidade pública brasileira, apesar de suas contradições, permanece sendo o principal espaço de produção científica e tecnológica do país. Estudos amplamente discutidos por Simon Schwartzman (2002) demonstram que a maior parte da pesquisa científica nacional é produzida no âmbito das universidades públicas. Não se trata apenas de ensino: trata-se de um ambiente de produção de conhecimento, inovação e desenvolvimento.
Sob a perspectiva sociológica, Boaventura de Sousa Santos (2010) define a universidade como uma verdadeira “ECOLOGIA DE SABERES”, onde diferentes experiências sociais e intelectuais se encontram e produzem inovação. É nesse ambiente plural que se constrói o profissional capaz de compreender a complexidade do mundo contemporâneo.
Enquanto discursos superficiais privilegiam conforto e isolamento, o mundo real exige prontidão. A economia do conhecimento demanda profissionais capazes de pensar criticamente, produzir ciência e resolver problemas complexos. A formação em universidades de pesquisa proporciona aquilo que Clark Kerr (2001) denominou de “MULTIVERSIDADE”, um espaço onde ensino, pesquisa e extensão se integram para formar lideranças e não apenas executores.
O estudante da universidade pública não apenas consome conhecimento; ele participa de sua produção. Esse processo gera autonomia intelectual, resiliência e capacidade de inovação. Como aponta Pierre Bourdieu (1989), o domínio do capital cultural e científico é determinante para a mobilidade social e para o exercício efetivo de posições de liderança.
Desencorajar o acesso à UNIVERSIDADE PÚBLICA em nome de “VALORES FAMILIARES” revela, portanto, um equívoco conceitual. Valores verdadeiros são aqueles que o “estudante leva consigo de casa” e que permanecem firmes independentemente do ambiente acadêmico. A universidade não deve ser escolhida por medo, mas por excelência.
Preparei meus filhos para que possam escolher o melhor caminho, e não para que dependam de uma única porta. A universidade pública, nesse contexto, não é imposição ideológica: é opção legítima de excelência acadêmica e científica. E valores sólidos, quando realmente existem, não se dissolvem em uma sala de aula, muito pelo contrario, estes valores se afirmam nela.
A universidade pública firma um pacto com o futuro. O profissional que ela entrega ao mercado foi testado pelo rigor científico, pela diversidade social e pela realidade concreta. Enquanto alguns optam pela lógica da conveniência, sigo acreditando que o conhecimento de ponta é a única herança verdadeiramente transformadora.
NÃO SE TRATA DE IDEOLOGIA. Trata-se de excelência.
NÃO SE TRATA DE PROTEÇÃO. Trata-se de formação.
NÃO SE TRATA DE MEDO. Trata-se de confiança no que se ensinou em casa.
NÃO SE TRATA DE DISCURSO. Trata-se de futuro.
Por fim, não deixa de ser curioso observar que alguém que construiu parte de sua trajetória pública explorando a própria imagem em revista voltada ao público masculino agora se apresente como guardião de valores educacionais e familiares. A CONTRADIÇÃO É PÚBLICA E FALA POR SI.
Valores não se terceirizam. Não se impõem por isolamento. Não se protegem por medo da universidade. Valores se ensinam no lar, se confirmam na vida e se fortalecem no confronto com o mundo real.
O saber não se delega. Constrói-se.
HÁ PALESTRAS E PALESTRA$, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo
Liderando a bancada do Supremo Tribunal Federal (STF) que se opõe à pactuação de um código de conduta pela Corte, o ministro Alexandre de Moraes argumentou que “como o magistrado só pode dar aulas e palestras, passaram a demonizar as palestras.” Será?
Em julho de 2023, o ministro viu-se envolvido num lastimável episódio no aeroporto de Roma quando foi insultado por bolsonaristas. Na versão inicial, Moraes vinha de uma palestra na renomada Universidade de Siena. Instituição milenar, sua faculdade de Direito lustraria a biografia do magistrado, mas o repórter Eduardo Oinegue mostrou que a coisa não era bem assim.
O Fórum Internacional de Direito, patrono do evento, pertencia à empresa UniAlfa, controladora de uma faculdade de Direito de Goiânia, todas integrantes do Grupo José Alves, dono de um laboratório onde produzia a ivermectina, prima da cloroquina.
O fórum onde Moraes falou reuniu-se antes na cidade espanhola de Valladolid. Dos 31 conferencistas arrolados pelos eventos, 20 eram brasileiros e 11 pertenciam aos quadros da UniAlfa.
Quem demonizou o quê? Em 2024, um ministro do Supremo recebia R$ 44 mil mensais. Era um bom dinheiro, acompanhado de uma invejável infraestrutura. Aquele ano foi o do esplendor das farofas de magistrados. Entre junho de 2023 e maio de 2024, os juízes estiveram presentes em ao menos 22 agendas internacionais. Quase todas no circuito Elizabeth Arden (Paris, Londres, Nova York e Roma.)
Quem demonizou as palestras foram os magistrados metidos em farofas demoníacas. Registre-se que os juízes não têm o monopólio dessas farofas, nem a anomalia é brasileira. O genial juiz Antonin Scalia, da Corte Suprema dos Estados Unidos, morreu em 2016 durante uma farofa. Em 2024 o ex-primeiro ministro inglês Tony Blair — farofeiro cosmopolita — participou de um evento em Londres. Pagou pela sua presença o falecido Banco Master.
É impossível criar-se uma métrica para o valor de palestras. Mesmo assim, para servidores ativos do Estado e até mesmo para jornalistas, é razoável acreditar que uma palestra vale, no máximo, a quarta parte dos vencimentos mensais do bem-aventurado. Afinal, ele cobrará a remuneração de uma semana por um ou dois dias de trabalho.
Pelo andar da carruagem, o código de conduta de Edson Fachin e Cármen Lúcia faz água. Quanto mais condutas condenáveis houver, maiores serão as dificuldades.
As palestras são a parte mais visível da erosão do Supremo, e não se consegue sequer que os magistrados informem quanto receberam ou de quem.
Se tão pouco é tão difícil, mexer com exuberantes parentelas seria tarefa de Hércules. Pode-se torcer pelo código, mas pode-se também acompanhar cada passo do seu funeral, ou da sua diluição.
HADDAD NA FRIGIDEIRA
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, corre o risco de ser frito numa frigideira especial, a do êxito. Tendo sido um ministro que passou limpo pelo cargo, querem empurrá-lo candidato numa eleição majoritária.
Disputou quatro eleições. Venceu a primeira como poste de Lula e levou a prefeitura de São Paulo. Perdeu a reeleição, foi para o sacrifício disputando a Presidência com Bolsonaro enquanto Lula estava na cadeia.
Disputou o governo de São Paulo contra o carioca Tarcísio de Freitas e foi batido.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e acredita em tudo o que o governo diz.
Lula contou que, a pedido do ex-ministro Guido Mantega, recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 deixando claro que qualquer solução para o Master deveria seguir os padrões técnicos do Banco Central.
Desse encontro participaram Lula, Mantega, Vorcaro e Gabriel Galípolo, então numa diretoria do Banco Central, mais outras duas testemunhas. Segundo o site Poder 360, Galípolo não contou esse encontro ao presidente do BC, Roberto Campos Neto.
A repórter Consuelo Dieguez revelou na revista Piauí que, em abril de 2025, o Banco Central pediu ao Fundo Garantidor de Crédito um empréstimo de R$ 11 bilhões para salvar o Banco Master. O FGC aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de R$ 11 bilhões, liberou R$ 5,7 bilhões.
Eremildo acredita em tudo isso, afinal, é um cretino.
MARCO BUZZI ESTÁ ENCRENCADO
O ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sempre foi mais conhecido por seu comportamento do que pela sua jurisprudência. Com a denúncia de que assediou a filha de um casal de hóspedes, de 18 anos, precisa de bons advogados.
LEITURA ÚTIL
Antes de embarcar para Washington valeria a pena que Lula lesse as conversas de seus antecessores com os presidentes americanos.
São parecidas, com o brasileiro apresentando algum tipo de pleito.
O ponto fora da curva foi o encontro do general Emílio Médici com Richard Nixon. Medici só lhe fez uma insinuação, embutindo um pedido, a promoção a general do coronel Arthur Moura.
Descendente de açorianos, o coronel Moura falava um português impecável e transitava com rara facilidade, do porão ao Alto Comando.
Nixon atendeu o pedido, em termos claros: “Isto é uma ordem e não quero ouvir conversas de burocratas”.
Moura foi a general, e ficou no Brasil até 1975. Mais tarde, trabalhou na empreiteira Mendes Júnior.
Um diplomata que serviu a esse tempo na embaixada contou: “O verdadeiro orientador político da embaixada era o general Moura. Eu participei de reuniões que ele praticamente presidia”.
Moura era um protegido do general Vernon Walters, a quem conheceu como tenente. Em 1971, Walters foi o intérprete da conversa de Médici com Nixon e dias depois escreveu ao amigo:
“Arthur, a tua estrela está garantida”.
PÁSSARO NO POST
Em 2013, quando Jeff Bezos comprou o diário Washington Post, sua entrada no negócio foi saudada como uma redenção.
Bastaram três anos para que o encanto se quebrasse.
O jornal anunciou que demitirá um terço de seus funcionários. Sua redação, que tem cerca de 800 jornalistas, mandará embora 300.
O Post esteve nas mãos de um banqueiro, cujo genro era considerado um gênio, até que começou a ter um comportamento errático e meteu uma bala na cabeça.
O Post ficou para a herdeira Katharine Graham (1917-2001), uma simples viúva rica.
Foi com ela que o Post viveu seus dias de glória, com o escândalo do Watergate. Kay Graham foi tudo isso e também a mais requisitada figura da vida social no serpentário de Washington.
Simbólico. Um país que se mobiliza e vai as ruas pela morte mal explicada – até agora, pois de quatro adolescentes e dois adultos malvados, parece que apenas um contribuiu efetivamente para o assassinato – do cão de rua e vira lata orelha, faz isso intencionalmente para que do outro lado se empobreça os brasileiros aos bilhões em favor de uma elite bem esclarecida e que gosta de usufruir o que a imensa maioria nem pode sonhar.
NOS TORNAMOS O PAÍS DO RETROCESSO? por Fernando Schüller, no jornal O Estado de S. Paulo
“O debate da semana foi sobre a escala 3 x 1 no Congresso. A coisa toda é simples: o funcionário trabalha três dias e folga um. Para que isso? Combater o stress, compensar a trabalheira toda. O ponto é que a folga pode ser convertida em dinheiro, e lá se foi o descanso. Na prática, há um enorme aumento no salário, que pode ultrapassar em muito o teto do funcionalismo. Como uma coisa dessas foi aprovada pelo Congresso? Simples: voto simbólico, discussão nenhuma. E sem ninguém saber direito de onde vai sair o dinheiro.
É um bom retrato do Brasil atual. Quem defendeu a ideia de que era “preciso aumentar impostos”, tem aqui sua resposta. Precisa sim, só que para fazer crescer mais um pouco os supersalários. Já temos o Parlamento mais caro do planeta em relação à renda média. E o país que mais gasta com penduricalhos.
O fato é que o Brasil se tornou o País do retrocesso. Ano passado, houve algum barulho em torno da reforma administrativa. O deputado Pedro Paulo fez um bom trabalho, e o presidente Hugo Motta chegou a anunciar aquilo como prioridade. Nada saiu do papel.
No tema da Previdência, o Congresso aprovou um recuo inexplicável. Reintroduziu a paridade e a integralidade para os agentes de saúde (coisa que havia sido extinta em 2003), além de permitir aposentadorias aos 50 anos.
É o mesmo com as estatais. De um superávit acima de R$ 6 bilhões em 2022, fomos a um déficit superior a R$ 5 bilhões ano passado. No meio do caminho, flexibilizamos a Lei das Estatais, além de engavetar solenemente o programa de desestatização.
Não penso que o retrocesso seja um “projeto”. É sua ausência. Produto de um País cuja prioridade é a entrega da gratuidade do dia, ao invés do enfrentamento dos temas complicados ligados ao aumento da produtividade.
Dias atrás, escutava um ministro do governo dizendo, orgulhoso, que temos hoje 25% da população nos programas de transferência de renda, e que o governo “sustentou” o consumo das famílias por estes anos. Vai aí a fórmula que move o País: despreocupação fiscal, aumento de impostos, dívida pública crescendo e distribuição de gratuidades aos mais pobres, fazendo crescer sua dependência ao Estado. Isso e o abandono do ímpeto reformista que nos legou a reforma trabalhista, o Marco do Saneamento, a autonomia do Banco Central.
A captura do Estado pelas corporações é apenas um sintoma. Em um País sem rumo, cada lobby bem estruturado busca sua fatia no bolo. O Brasil nunca decidiu se deseja ou não um “choque de capitalismo”, como Mário Covas sugeriu nas eleições de 1989. Covas era um político de esquerda. Um socialdemocrata. Estas questões são menos ideológicas e mais civilizatórias. O País moderno x arcaico. O foco nos interesses difusos ou o mando das corporações. Um debate existencial que o País terá de fazer neste ano decisivo de 2026.”
RACISMO COMO MÉTODO, por Lourival Sant’Anna, no jornal O Estado de S. Paulo
O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro.
A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial.
A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo.
Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas.
Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano.
Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?”
Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
ELEITORES ENDIVIDADOS, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
“Herança maldita”, bradava o comissariado petista em novembro de 2022, durante a transição entre os governos de Jair Bolsonaro e o novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. À época, a caciquia do partido falava em “economia destruída”, alertava que o povo estava “passando fome” e denunciava o avanço do endividamento das famílias. O crédito caro, o rotativo do cartão e o uso crescente do consignado e dos empréstimos pessoais eram apresentados pelo PT como prova de que a economia se tornara hostil aos brasileiros. A promessa implícita era inequívoca: com a volta de Lula ao Palácio do Planalto, a renda cresceria, o aperto diminuiria e a normalidade econômica seria restaurada.
Três anos depois, os dados desmentem essa expectativa. A renda, de fato, cresceu, mas o aperto não deu trégua. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar muito próximo do recorde histórico registrado em julho de 2022. Trata-se de um indicador abrangente, que inclui financiamentos imobiliários e de veículos, crédito consignado, empréstimos pessoais e cartão de crédito. Não é um desvio pontual, mas a consolidação de um quadro persistente de pressão sobre os orçamentos domésticos. E a evidência de que o triunfalismo lulopetista está longe de encontrar amparo na realidade.
O contraste com a narrativa oficial é evidente. O governo insiste em destacar indicadores positivos do mercado de trabalho, sobretudo a queda do desemprego e a recuperação da renda média. Esses avanços são reais, mas insuficientes para neutralizar o desconforto econômico percebido pela população. Dívidas elevadas, juros altos e crédito caro corroem o efeito prático da renda adicional e alimentam a sensação difusa de que a vida não está mais fácil.
As pesquisas de opinião captam esse descompasso. Levantamentos recentes, como os do Ideia e da Quaest, mostram que uma parcela expressiva dos brasileiros acredita que a economia piorou ou permaneceu estagnada, apesar do discurso autoelogioso do governo. A avaliação do desempenho econômico figura de forma recorrente entre os principais fatores de insatisfação. Custo de vida e insegurança financeira ancoram tais temores. Não por acaso, a aprovação do governo oscila em patamar mediano, distante do apoio que costuma sustentar projetos de reeleição.
Esse cenário expõe os limites da estratégia petista de terceirizar permanentemente a responsabilidade pelos problemas econômicos. Não é novidade. Entre 2002 e 2003, ao chegar à Presidência pela primeira vez, Lula também classificou como “herança maldita” a economia recebida de Fernando Henrique Cardoso – como se a gestão tucana, apesar de sucessivas crises internacionais, não tivesse pavimentado o caminho que permitiria o sucesso econômico do primeiro mandato petista.
Essa marotagem tem prazo de validade. Lula governa há tempo suficiente para que os resultados, positivos ou negativos, sejam atribuídos majoritariamente às escolhas de sua própria administração. Persistir na lógica da herança eterna soa cada vez menos convincente e mais como fuga de responsabilidade. Os números divulgados pelo Banco Central reiteram essa constatação.
O endividamento elevado vai além da estatística. Restringe o consumo, amplia a vulnerabilidade das famílias a choques econômicos e limita a eficácia de políticas baseadas quase exclusivamente em transferências de renda. Em ano pré-eleitoral, esse quadro se converte em risco político concreto para um presidente que aposta na memória afetiva de mandatos passados e na ideia de que sua presença no poder, por si só, melhora a vida do cidadão comum.
A economia tende a ser o eixo central da disputa de 2026 não por ideologia, mas por experiência concreta. O eleitor decide menos pelo discurso e mais pelo que sente no bolso. Se quiser evitar que a dívida das famílias se torne símbolo de frustração eleitoral, o Planalto precisará ir além da retórica e enfrentar o problema com seriedade. Até lá, os números do Banco Central seguirão lembrando que a economia real não se deixa moldar por slogans – e que a política da negação pode cobrar seu preço nas urnas.
Estamos apenas 8 meses do pleito eleitoral que vai decidir os próximos 4 anos do governo federal. Em pleno século 21 tudo será usado como propaganda política , contudo Lula / PT vai jogar fora, ou seja, vai para tapetão do STF para proibir os meios digitais a fazerem seu papel preocupado com fatos reais dos últimos acontecimentos, Escandalo INSS, Caso Máster, envolvimento do seu Filho Lulinha com INSS e a corrupção.
Procurei ajuda da inteligência artificial para algumas informações.
Infelizmente pelas análises, se Tarcísio dosse presidenciável teria 65% de chance a mais que Flávio Bolsonaro. Clã Bolsonaro é lulopetismo fazendo estragos em nome da democracia.
Se não fizermos criticas, estamos aceitando as condições atuais ou conformismo, já está ruim a cidade, se nós munícipes não fizermos nossa parte pelo menos com a cidade o que sera nos, seremos sempre reféns?
Contexto Político
O texto acusa o atual governo de falta de transparência em licitações, obras e controle orçamentário, com a Controladoria ligada ao gabinete do prefeito, e menciona operações policiais recentes próximas ao entorno governamental. Critica também a liderança na Câmara, vereadora Alyne Karla Serafim (PL), por incoerências em dívidas rurais na Agricultura, por final com relação redes socais
Inconsistências
A proposta afetaria todos os níveis de governo, inclusive opositores ao PT como Tarcísio de Freitas em SP, revelando oportunismo político em vez de preocupação democrática. O jornal alerta para flertes iliberais do PT com controle de discurso e cobra do TSE defesa da transparência e do dissenso irrestrito como pilares de uma democracia madura.
Eu não acusei ninguém, leitor. Eu apenas relatei uma realidade e uma preocupação do próprio Ministério Público.
A controladoria existe para controlar. Se ela não faz o papel dela, prevarica, omite e ganha sem exercer a função dela seja qual for o motivo dela
Ela é solidária e tão culpada quanto quem faz ou pratica o erro que ela deveria impedir, denunciar ao MP e ao TCE para são ser parte desse erro. Controladoria interna, a princípio é autônoma, e não um puxadinho do Executivo, ainda mais nas coisas erradas e que ela é para impedir em nome dos gasparenses. Simples assim.
Quanto a Alyne, também não a critiquei, apenas mostrei, que do jeito como ironicamente trata as vítimas do rolo da secretaria da Agricultura de Gaspar, parece estar acobertando um passado nebuloso que deveria estar sendo vasculhado, exposto e punido. Para este passado não pegar gente grande, o atual governo parece que está mais disposto a pegar os que foram enganados do que usufruíram e até ajudaram os atuais poderosos chegarem ao poder.
São pontos de vistas diferentes e incômodos que os novos poderosos devem explicações a sociedade. Muda, Gaspar”
Que mal faz uma crítica? Vivemos ainda numa democracia, fazer críticas é pertinente a todos nós.
Usei o termo crítica pois é saudável fazermos com isso com classe republicana.
FAZENDAS E FAZENDEIROS, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
O problema não será – não por principal – que ministros do Supremo sejam “fazendeiros”; que tenham posses e poupanças. A lei os autoriza a ter sociedade ou cotas em empresas, desde que não as dirijam. A questão está em que, fazendeiro ou não, ministro do Supremo viaje em jatinho de fazendeiro; de fazendeiro com interesses no Supremo. E, por favor, ao gosto de quem lê, substitua-se fazendeiro por qualquer outra atividade empresarial privada.
Seria interessante, a propósito, saber quais autoridades voaram nos aviões de Vorcaro. Há várias formas – com menos fumaça – de fumar charutos do banqueiro. Sempre haverá fumaça, havendo vontade de investigar. Há também várias maneiras de dirigir. Nem sempre necessária a mão no volante.
A questão está em que, fazendeiro ou não, ministro do Supremo frequente a casa-grande de fazendeiro com interesses no Supremo e que contratou o escritório da esposa do ministro do Supremo para lhe prestar serviços advocatícios. A lei permite. Eles, os ministros do Supremo, fizeram a lei: editaram afrouxaram o Código de Processo Civil para admitir que seus parentes possam defender empresas no tribunal sem que isso os impeça de julgar todos os casos dessas empresas no tribunal.
Flexibilizaram as regras para que ministro do Supremo possa anular dívida bilionária de empresa para a qual sua esposa advogava. Pode. Pôde. A lei autoriza, não atuando a senhora naquele processo.
A lei – repita-se – autoriza que juiz seja acionista ou cotista de empresa, ressalvado que não lhe poderá ser o gestor. O ministro do Supremo pode ser sócio de fazenda. Pode também ser casado – sem sociedade – com a dona da fazenda; fazenda cujas cabeças de gado se multiplicaram depois de ele se tornar ministro do Supremo.
Há várias formas de gerir.
Ministro – não o comandando – pode ser sócio de hotel. Seus irmãos podem ser sócios de hotel; sócios – no hotel – de fundos que operaram transfusão de liquidez para camuflar o esquema de pirâmide em que consistia um banco. A questão é se esse ministro pode julgar casos relativos a esse banco. Pode.
Ministro do Supremo pode dar palestras. Os ministros do Supremo decidiram que podem. O artigo 95 da Constituição diz que aos juízes é “vedado exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério”. Os juízes do Supremo decidiram que as palestras que dão mundo afora, lobbies adentro, estão contidas no exercício do magistério. Eles podem dar aulas. A lei permite. E eles, que se permitem, interpretaram a lei para que palestras patrocinadas por bancos – pelo Master – possam ser consideradas aulas. Pode. Podem.
Compreendidas sob o âmbito da docência, ficam validadas palestras obscuras que dão verniz acadêmico a eventos de fachada para o exercício de relações econômicas cruzadas. E você que os critica – cuja maledicência exige que juiz seja apenas juiz – é desinformado, burro ou safado.
A DEMOCRACIA CÍNICA DO PT, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O PT decidiu oferecer ao Brasil mais uma amostra de seu peculiar conceito de democracia. Em contribuição enviada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no âmbito do debate sobre as regras das eleições de 2026, o partido pediu a retirada da norma que autoriza o impulsionamento, nas redes sociais, de conteúdos críticos ao desempenho de governos durante a pré-campanha. Trata-se do período que antecede formalmente a campanha eleitoral, no qual ainda não é permitido pedir votos, mas em que partidos, pré-candidatos e a sociedade em geral debatem políticas públicas, avaliam gestões, apresentam diagnósticos e testam narrativas.
Em termos claros, o ideal petista de liberdade política admite debate, pluralismo e circulação de ideias – desde que, ora vejam, ninguém fale mal do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A proposta é reveladora. Não se trata de aperfeiçoar regras para garantir isonomia, transparência ou integridade do processo eleitoral, objetivos legítimos e necessários de qualquer democracia representativa. Trata-se, isso sim, de restringir o alcance de críticas políticas justamente quando o eleitor começa a confrontar promessas com resultados, comparar trajetórias administrativas e formar juízos sobre continuidades e alternativas de poder.
O argumento do PT sustenta-se na ideia de que o impulsionamento de críticas poderia desequilibrar a disputa e ferir a igualdade entre pré-candidatos. É uma inversão lógica notável. A própria jurisprudência eleitoral tem se esforçado para diferenciar crítica política legítima de propaganda antecipada, reconhecendo que o debate público não se confunde com pedido de voto. Ainda assim, quem ocupa o poder já dispõe, por definição, de vantagens estruturais consideráveis: visibilidade permanente, palanque institucional, acesso cotidiano aos meios de comunicação e capacidade de pautar o debate público com anúncios, programas e atos oficiais, além da recorrente confusão entre comunicação de governo e propaganda política. Blindar a gestão contra críticas impulsionadas é converter a assimetria natural do poder em privilégio político.
Mais grave ainda é o pressuposto heterônomo e dirigista embutido na proposta. Parte-se do princípio de que críticas a governos, quando amplificadas por meios digitais, seriam ilegítimas ou perigosas, como se o eleitor fosse incapaz de discernir argumentos, avaliar dados ou distinguir crítica política de desinformação deliberada. Eis aí o velho cacoete paternalista lulopetista, que desconfia da sociedade, relativiza a autonomia do cidadão e prefere substituí-la por um discricionarismo regulatório exercido a partir de tribunais, resoluções administrativas e órgãos de controle.
A excrescência torna-se ainda mais evidente quando se considera o alcance geral da regra pretendida. A vedação ao impulsionamento de críticas não atingiria apenas o governo federal, hoje comandado por Lula, mas também governos estaduais e municipais. O mesmo PT que pede proteção contra críticas à gestão federal poderia, em tese, ver-se impedido de impulsionar conteúdos críticos ao governo paulista de Tarcísio de Freitas ou a políticas públicas conduzidas por outros partidos. A lógica é inconsistente e oportunista, revelando mais um cálculo político circunstancial do que uma preocupação institucional.
Não é por acaso que esse impulso censor surge num momento em que o partido volta a flertar com concepções iliberais de regulação do discurso político. Sob o pretexto de combater abusos, “discursos de ódio” ou supostos desequilíbrios, o que se observa é a tentativa reiterada de estreitar o espaço do dissenso e de submeter o debate democrático a filtros definidos por quem está no poder ou por instituições pressionadas por ele.
O Brasil já pagou caro por soluções autoritárias travestidas de boas intenções. A democracia só se fortalece com mais transparência, mais confronto de ideias e mais confiança no eleitor. Cabe ao TSE resistir a propostas que transformam a legislação eleitoral em instrumento de proteção governamental ou convertam a Justiça Eleitoral em bedel do debate público.
Liberdade política com ressalvas, pluralismo com exceções e debate público vigiado não são atributos de uma democracia madura. São, no máximo, o retrato fiel da democracia eleitoral petista.
Só acho estranho a imprensa não divulgar os NOMES dos envolvidos na operação policial de segunda feira passada aqui na cidade..
Se fosse acusação de furto de uma galinha e os LARÁPIOS fossem o seu Zé e a dona Maria, sairiam FOTO, ENDEREÇO E CPF.
Sobre a mão pesada do Ministro Dino CONTRA o AUMENTO dos salários no congresso nacional (com letra minúscula mesmo),
SERÁ QUE NENHUMA UNHA DO MINISTRO ALCANÇARÁ O AUMENTO DAS DIÁRIAS DOS nobres representantes do POVO da Câmara de Vereadores de Gaspar?
A polícia, que fez a operação, não os divulgou ainda. Entretanto, no meu entender, isto é bem pior do que a divulgação em si com a oportunidade, dos envolvidos se explicarem. No escurinho dos aplicativos estes nomes e outros, que nem foram pegos ainda, mas estão no imaginário das pessoas em Gaspar, percorrem nervosamente as trocas de mensagens, acrescidas de estórias cabulosas e do capeta.
DEU A LOUCA NAS INSTITUIÇÕES, por Eliane Cantanhede, no jornal O Estado de S. Paulo
Deu a louca nas instituições e o ministro Flávio Dino, do Supremo, perdeu a paciência e decidiu dar um basta, suspendendo o que jamais deveria ter começado, se naturalizado e muito menos se tornado regra: o aumento de remuneração – portanto, de gastos – dissimulado como “indenização” e apelidado de “penduricalho”.
É indecente, ilegal, mas, em vez de ser proibido e contido, vem se multiplicando ao longo de anos, de décadas, sob o pretexto do que Dino ironizou na sua decisão: “isonomia”. Se a Câmara tem, o Senado também quer, o Executivo não fica atrás e o Judiciário não é bobo nem nada. Lembram do Stanislaw Ponte Preta? “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”
Depois de pegar à unha o combate às emendas parlamentares fora de controle, Dino suspende agora “o império dos penduricalhos” por 60 dias nos três Poderes e, além da esfera federal, inclui Estados e municípios, para tentar manter de pé a norma da Constituição que estabelece um teto de R$ 46,3 mil para o funcionalismo. A suspensão atinge os adicionais fora da lei (mas em prática), não os admitidos legalmente.
A decisão ocorre na primeira semana de trabalhos do ano do Judiciário e do Legislativo e dois dias após o Congresso abrir 2026 oferecendo um presente de grego à sociedade brasileira: um aumentaço e “gratificações” para servidores da Câmara e do Senado, que podem ganhar até R$ 77 mil por mês – muito além do teto constitucional – e um dia de folga a cada três trabalhados, sem contar sábados, domingos e feriados. É ou não uma pouca vergonha?
O Novo foi o único partido a votar 100% contra e a deputada Adriana Ventura (SP), professora da FGV, com tese de doutorado sobre Ética e Integridade, gritou no plenário para o presidente da Câmara, Hugo Motta: “Esse projeto acabou de subir, a gente nem consegue ler o que vai ser votado”. E tascou: “Eu gostaria que aqui voltasse a ser uma Casa da democracia. O Poder Legislativo não pode ser reduzido a nada”.
A crise vai além. O Executivo vira comitê de campanha de um presidente atrás do outro e o Judiciário, exposto neste momento pelo escândalo Master, tem um longo histórico de jatinhos, farras e gastos nada republicanos, que todo mundo conhece, mas ninguém faz nada.
São jatinhos, festas, a multiplicação de processos do Supremo e de tribunais superiores em mãos de mulheres e filhos e, pelo País afora, juízes e juízas juntam um penduricalho daqui, outro dali, e chegam a receber R$ 400 mil, R$ 600 mil, R$ 1 milhão, num único mês. Sem contar o vale-peru no Natal, o vale-academia… No fundo, um vale-tudo.
DINO AGE CONTRA SUPERSALÁRIOS, E CONGRESSO, A FAVOR, editorial do jornal Folha de S. Paulo
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou nesta quinta-feira (5) uma decisão há muito cobrada por todos os que prezam a moralidade administrativa e se preocupam com as contas públicas: ele determinou que seja suspenso o pagamento dos chamados penduricalhos no âmbito dos três Poderes da República.
Dino listou entre os exemplos dessas benesses verbas como gratificações por acúmulo de processos, férias e funções, o auxílio-locomoção, o auxílio-combustível, o auxílio-educação e os afrontosos auxílio-peru e auxílio-panetone, estes distribuídos a servidores no fim do ano.
Tais verbas têm em comum o drible que dão nas regras que deveriam respeitar. Embora sejam recorrentes e terminem penduradas como complemento aos salários, elas costumam ser enquadradas como indenizatórias e, portanto, extraordinárias.
Há ao menos duas obscenidades na manobra. A primeira é que o valor, em boa parte dos casos, fica livre do Imposto de Renda. A segunda, ainda mais grave, é que esses recursos acabam sendo desconsiderados para fins de teto constitucional (o limite máximo da remuneração do funcionalismo, hoje fixado em R$ 46.366,19).
Para piorar, muitos desses contracheques são turbinados com base em reles canetadas burocráticas, quase sempre referendadas pelo Judiciário —não surpreende, pois carreiras do sistema de Justiça são as mais agraciadas com supersalários.
Esses atos administrativos são o principal alvo da decisão de Dino. Ele fixou prazo de 60 dias para que todos os órgãos revisem as verbas pagas e suspendam as que não se amparem em lei.
Faz sentido que ele restrinja o alcance disciplinador da decisão; do contrário, estaria invadindo a seara legislativa. Mas já se pode intuir uma consequência negativa: políticos inescrupulosos discutirão projetos de lei para institucionalizar o abuso salarial.
Por coincidência, nesta mesma semana e quase na surdina, o Congresso Nacional aprovou projetos que reajustam salários do Legislativo e criam penduricalhos para servidores da Câmara e do Senado. O impacto das medidas, que ainda não foram sancionadas, é de pelo menos R$ 650 milhões por ano.
Alison Souza, presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindilegis), não se pejou de dizer à Folha: “Estamos mimetizando o Judiciário e o Ministério Público”.
Ou seja, os mesmos políticos que criticam o governo federal pela falta de zelo com as contas públicas agora cedem a interesses mesquinhos e, mirando os maus exemplos, ampliam o tamanho de um problema administrativo que se arrasta há muito tempo.
Agem, dessa forma, em sentido oposto ao verdadeiro interesse de um país com pouco dinheiro e muitas carências. O que se espera de deputados e senadores é que aprovem uma lei para reafirmar o teto constitucional, e não que ajudem a danificá-lo.