Eu tinha decidido não sair das minhas tarefas prioritárias deste final de semana, a família, até quando bateu em minha tela, a determinação do titular da quarta promotoria da Comarca de Gaspar, Victor Abras Siqueira, para acolher e iniciar um processo de investigação de uma Notícia de Fato, levada ao MP e à Câmara de Vereadores. Eu tinha decidido não sair das minhas tarefas prioritárias deste final de semana, a família, até ver que na imprensa local e regional nada se falou sobre este assunto e por questões que não cabem aqui repetir, tende se tornar mais um segredo, ou uma ampla e desgastante fofoca.
Ela relata, com documentação, fatos e tempo, um suposto irregular – no procedimento administrativo com favorecimento ao fornecedor – aluguel de um transformador de maior potência – em substituição ao fixo existente na Arena Multiuso Francisco Hostins – que nem da prefeitura é de fato, inclusive na posse mansa. Foi para suportar a demanda da realização do Rodeio Nacional do CTG Coração do Vale. Eu postei aqui esta denúncia que rolava nos bastidores, mas afirmei que aguardava à apuração pelas instituições que a receberam. Os autores, até reclamara da minha prudência. Como o MP já se manifestou, voltei, logo e extraordinariamente.
Na Câmara, igual denúncia deve ter ido parar em alguma gaveta. Normal.
COMO PODE UM INVESTIGADOR E DELEGADO SER SURPREENDIDO EM ALGO BÁSICO?
A política não é para amadores. É envolvente. Mas, também ensaca nas dúvidas os despreparados e ingênuos, os quais, mesmo advertidos e sabedores do passado, cercam-se e acreditam nos que viveram longamente da (não na) política. Em Gaspar, os donos do poder de plantão – e seus sucessores – e da cidade a possuem por mais de 50 anos – tempo que eu a acompanho mais de perto e sou perseguido por isso, não importando a sigla alugada partidária que esteja no poder.
Inicialmente não vou explorar este assunto pelo que está relatado na denúncia e que virou Notícia de Fato no Ministério Público, que aliás, decretou sigilo dela, penso, para facilitar as apurações e no fundo, proteger os implicados. Tanto que eles comemoraram.
O que se apura? Suposto favorecimento – pois não teria cumprido todas as exigências do edital – ao vencedor da licitação: Reinoldo Bornhausen Neto, sócio da Bornhausen Engenharia Elétrica Ltda, aparentado do chefe de campanha, chefe de gabinete e cumulativamente secretário de Obras e Serviços Urbanos, Pedro Inácio Bornhausen, PP do governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL.
Como escrevi, não vou trabalhar exatamente na denúncia. Vou trabalhar na ingenuidade ou no manjado método repetido.
A EMERGÊNCIA NÃO PODE SER PASSAPORTE DA DÚVIDA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Precisava de um transformador mais potente para a festa do Rodeio na Arena Multiuso? Precisava. Era uma emergência, porque, mesmo previsível e os que se empossaram em primeiro de janeiro não se prepararam para tal, como para outras necessidade e até urgências? Precisava.
Todavia, este quadro de relaxo não é um passaporte para se passar longe das formalidades licitatórias e da transparência que é algo proibido nesta, tanto quanto na administração passada e que foi rejeitada amplamente nas urnas. E mais: num município que diz a todo momento e para tudo e todos de que não possui dinheiro nem para a compra de esparadrapo se gastou muito mais.
O que aconteceu? Os bruxos do paço tiveram não só tempo para fazer algo supostamente errado – que está sob investigação -, como tiveram caixa para gastar dinheiro que dizem não ter nos cofres da prefeitura, tanto, como expliquei ontem, que a Comissão de Economia, Finança e Fiscalização da Câmara já convocou a secretária de Fazenda e Gestão Administrativa para esclarecer este assunto à ela e à cidade.
Voltando: pior, neste caso, tudo entre os mesmos no “novo” poder de plantão com ligação ao velho poder. Pedro Inácio Bornhausen, já foi chefe de gabinete de Kleber Edson Wan Dall, MDB, e Luiz Carlos Spengler Filho, PP.
Retomando para encerrar.
E ninguém diga que Paulo e Rodrigo foram tomados pela surpresas. Eles estavam avisados de que ESTÃO sendo engolidos pelo velho sistema. Ao menos este espaço sempre os advertiu e deu dicas. Mas, preferem desqualificar e praguejar a cada artigo publicado, e vejam só, num blog que não é lido por ninguém, segundo eles, a não ser por eu mesmo, o ególatra.
Foram eles – e principalmente Paulo – que escolheram o seu chefe de gabinete – agora diretamente envolvido nesta questão; que escolheram o ex- secretário de Obras e Serviços Urbanos, Vanderley Schmitt, que nem mais está lá na titularidade da pasta que é tocada interinamente por Pedro; que escolheram a secretária de Agricultura e Aquicultura, Karine Aline Mateus; que escolheram a supersecretária de Fazenda e Gestão Administrativa, Ana Karine Matucheski dos Santos, que com o seu conhecimento técnico de longos anos e que domina na área teve como barrar esta suposta ilicitude do processo licitatório, bem como o secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda, Nelson Mário Küstner, um dos donos da festa na Arena.
Concluindo.
Diante de dificuldades de prazo, não custava os do paço municipal negociarem com os organizadores privados da festa – de ampla e reconhecida rentabilidade – este aluguel emergencial transformador por outra ação compensatória do município livre de questionamento legal e se verem isentos das consequências dos perengues que estão passando?
Pode dar em nada? Pode. Mas, isto são desgastes precoces e uma humilhação a quem disse que no governo passado isto era uma anormalidade que precisava ser extirpada, tanto que fazem espetáculo com a CPI do Capim Seco naquilo que a Polícia já bem apurou. É uma humilhação porque o PL se disse livre desse tipo de questionamento. É uma humilhação porque Paulo é policial e como tal, reconhecido como um ex-investigador astuto e linha dura de sucesso. Mesmo, assim, parece que não está enxergando que está sendo ensacado pelos políticos que levaram Gaspar ao atraso por essas décadas todas. E mesmo assim, tudo isso não o inocenta.
A coisa pega não só pelo procedimento licitatório em si com suposto favorecimento e uma concorrência desleal contra outros fornecedores, mas pega feio se provada de que o dito transformador foi instalado lá na Arena antes da licitação ser efetivada de fato e ser publicada no Diário Oficial com o ganhador. Muda, Gaspar.
TRAPICHE
Minha leitora Odete Fantoni I. Hoje [ontem, quinta-feira] teve transmissão ao vivo da CPI do mato seco na Câmara de Vereadores de Gaspar, mas com uma NOVIDADE: RETIRARAM O ÍCONE DE COMENTÁRIOS da página oficial do Facebook. Quem será o AUTOR da IDEIA e PQ?lém de estarmos sendo ACHACADOS com metragens IRREGULARES por quase uma década, agora estamos sendo impossibilitados de COMENTAR as FALCATRUAS?
Minha leitora Odete Fantoni II. Será pq os nossos questionamentos contrariam a condução das “investigações “, deixando expostos os que deverão ser “inocentados”? E o funcionário IMEXIVEL pegou um habeas corpus preventivo, e não apresentou a sua versão sobre as acusações que recaem sobre a sua cabeça, a impressão que temos é que a CPI do mato seco é só um copia e cola da CPI do DESCONHEÇO..O ex-faz-tudo do guverno krebis e hoje vereador, Roni Muller, está gostando muito dessa CPI. Semana passada uma testemunha afirmou que o autor da DENÚNCIA das IRREGULARIDADES nas metragens das ROÇADAS havia sido ele, Roni
A minha resposta. Incompreensível como um candidato que jurou ser e dar transparência, consegue fazer provas contra ele mesmo, ao negar a participação popular. O que mostra isto? Que não tem mais controle das queixas por falta de resultados depois de sete meses no poder de plantão. Estão procurando fiscais do passado. Mas, os do presente, em outros setores, estão na mesma toada.
Completo. Ao não prestar contas dos seis meses por falta do que dizer, desrespeitar a comunidade que o elegeu, se submeter à falta de transparência, numa enquete despretensiosa na conta Gaspar Linda, o governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, se viram empurrados a explicações frágeis e enfadonhas. Aberta a porteira, está passando a boiada. E nela, começaram muito mais cedo do que se esperava, serem igualados aos que já tinham rótulos nada lisonjeiros. Impressionante. Muda, Gaspar!
16 comentários em “TIC TAC. ISTO ERA INIMAGINÁVEL QUANDO SE TROCOU DE MANDATÁRIO POR AMPLA MAIORIA EM OUTUBRO DO ANO PASSADO (52,98% ENTRE CINCO CANDIDATOS). EM MENOS DE SETE MESES O GOVERNO DE PAULO E RODRIGO FOI PARAR NO MINISTÉRIO PÚBLICO. O MP VAI APURAR SUPOSTAS DÚVIDAS EM ALUGUEL DE UM SIMPLES TRANSFORMADOR PARA FESTAS DE RIQUINHOS”
O QUE TRUMP QUER É ELEGER BOLSONARO, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo
Negociações diplomáticas, como as CPIs, sabe-se como começam, mas não se sabe como terminam. Donald Trump espalhou confusões pelo mundo, mas pelo menos no caso do Brasil foi de uma clareza ululante. Na sua primeira carta a Lula, de 9 de julho, ele escreveu, logo no primeiro parágrafo:
“A maneira como o Brasil tem tratado o ex-Presidente Bolsonaro, um Líder Altamente Respeitado em todo o Mundo durante seu Mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma desgraça internacional. Este julgamento não deveria estar acontecendo. É uma Caça às Bruxas que deve terminar IMEDIATAMENTE! (Ênfase dele.)”
De lá para cá surgiram novas agendas. Renegociaram-se tarifas (o que cair na rede é peixe), cassaram-se os vistos de oito ministros do Supremo e demonizou-se Alexandre de Moraes. Todas elas interessam a Trump, mas o que ele quer mesmo é eleger Jair Bolsonaro.
O filho do ex-presidente foi claro no mesmo dia:
“Apelamos para que as autoridades brasileiras evitem escalar o conflito e adotem uma saída institucional que restaure as liberdades. Cabe ao Congresso liderar esse processo, começando com uma anistia ampla, geral e irrestrita.”
Os Bolsonaro querem uma anistia. Ouvindo-se as falas no calor das sanções, fica a impressão de que o projeto está enterrado. Pode ser, mas o deputado Major Vitor Hugo apresentou-o no dia 24 de novembro de 2022, quando Donald Trump era apenas candidato à presidência dos Estados Unidos.
Quando as águas clarearem, a bancada bolsonarista terá um argumento em seu favor:
— Põe o projeto em votação, se ele for rejeitado, zero a zero e bola ao centro.
Sua rejeição atenderia ao bem de todos e a felicidade geral da Nação, mas se isso fosse pedra cantada, ele já teria ido a voto.
Repete-se à saciedade que não se pode anistiar delinquentes que ainda não foram sentenciados. Seria bom se fosse assim.
O presidente Juscelino Kubitschek tomou posse no dia 15 de janeiro de 1956. No dia 16 de fevereiro um grupo de oficiais da FAB seguiu para a Base Aérea de Jacareacanga. Os revoltosos dominaram algumas cidades e a rebelião durou 19 dias, os militares foram presos e, no dia 1º de março, JK mandou ao Congresso um projeto de lei que os anistiava. Ninguém havia sido sentenciado.
Os revoltosos de 1956 chegaram ao poder em 1964 e festejaram a cassação e o exílio de JK.
Trump impôs novas tarifas a dezenas de países, mas as sanções ao Brasil foram as mais pesadas. Ademais, ele só cassou vistos de juízes brasileiros e só demonizou o ministro Alexandre de Moraes. Com Pindorama o negócio dele é político.
TRUMP E O ANDAR DE CIMA
A pesquisa Genial/Quaest trouxe um dado inquietante. No andar de baixo (renda de até dois salários mínimos) as sanções são condenadas por 74% dos entrevistados. A favor, só 15%. Na faixa de renda com mais de cinco salários mínimos a condenação cai para 68%, dentro da margem de erro. Nesse segmento, a aprovação foi de 25%.
É possível que Trump só tenha recebido semelhante apoio naquilo que se poderia (indevidamente) chamar de andar de cima de Pindorama.
A ESTRELA DE ALCKMIN
Há um mês a cotação de Geraldo Alckmin estava em baixa nos arraiais petistas.
O desempenho do vice-presidente nas negociações possíveis com o governo de Donald Trump revitalizaram não só seu cacife, mas sobretudo seu estilo.
O governo de Lula 3.0 descobriu que serenidade é virtude, não defeito.
RECORDAR É VIVER
Os ministros do Supremo Tribunal Federal que tiveram seus vistos cassados, talvez não lembrem, mas estão em ilustre companhia.
Em 1971, sabe-se lá por quais meios, o Dops paulista registrava que um perigoso subversivo “desenvolve grande atividade a fim de visitar os Estados Unidos. Contudo, não lhe será concedido o visto de entrada.”
Em 1977, durante o governo de Jimmy Carter, um jovem assessor do presidente pediu que o nome do subversivo fosse retirado da lista de indesejáveis nos Estados Unidos. Foi atendido e pouco depois, Robert Pastor acompanhou Fernando Henrique Cardoso numa visita à Casa Branca. Pastor tinha tamanha intimidade com Carter que levava visitantes ao Salão Oval (vazio).
Em 1995, com visto e passaporte diplomático, o subversivo desceu em Nova York e ouviu queixas porque o governo Brasil havia sobretaxado em 70% as importações de automóveis americanos.
Tempos mudam, lá e cá
COP30
Todas as atenções estão voltadas para as sanções de Trump, mas o Planalto e o Itamaraty têm outra encrenca a caminho.
Desde que o Brasil aceitou sediar a COP30 em Belém, há mais de dois anos, sabia-se que a cidade não tinha infraestrutura nem rede hoteleira para receber um evento de tal porte, que demandaria hospedagem para mais de 30 mil pessoas.
Sucederam-se promessas e factoides. Primeiro foi o anúncio da dragagem do porto de Belém. Nada feito. Em janeiro passado sabia-se que os preços dos hotéis haviam disparado. Havia donos de boas casas pedindo R$ 2 milhões pelo aluguel. A Casa Civil mobilizou-se e criou uma sigla, Secop (Secretaria Executiva da COP30). Àquela altura estavam cobrando R$ 1 milhão aos noruegueses e planejando receber visitantes em contêineres refrigerados. Em maio, a seis meses do evento, faltavam 14 mil leitos.
Para cada advertência, produziram-se promessas, até que a repórter Kate Abnett revelou, de Bruxelas, que na terça-feira deu-se uma reunião no escritório da COP, convocada pelo Grupo de Negociadores Africanos. O presidente desse grupo, Richard Muyungi, confirmou que nela tratou-se da questão das hospedagens e que os organizadores ficaram de tirar as dúvidas num novo encontro, marcado para dia 11.
Muyungi, soltou uma frase inquietante:
“Estamos pressionando para que o Brasil forneça respostas melhores, em vez de nos dizer para limitar nossa delegação.”
Quem sugeriu aos africanos limitar suas delegações?
Por falar em COP30, cadê a Autoridade Climática prometida por Lula durante a campanha eleitoral, e reiterada durante sua visita a Manaus, em setembro de 2024?
CEREJA DO BOLO
Ou o governo reconhece que tem um problemaço com a COP30 ou presenteará a diplomacia troglodita do atual governo americano com um fracasso de manual.
Até agora o problema estava em tentar saber como os Estados Unidos se comportam na reunião. Agora, é necessário temer o tamanho da malcriação que virá de Washington.
RESSORT NA CASA BRANCA
Depois de transformar o Salão Oval da Casa Branca num cenário dourado e rococó, Donald Trump quer criar um salão de festas ao estilo Mar-a-Lago. Nada a ver com as mudanças de John Kennedy, que convidou a milionária Bunny Mellon para fazer o Jardim das Rosas. Casada com Paul Mellon, ela não tinha apenas um avião. Na sua fazenda da Virgínia havia um aeroporto.
Quando Trump deixar a Casa Branca, o prédio precisará de uma reforma.
Se a intromissão de Trump não melhorou na queda livre Lula- como aconteceu em outros países em que conservadores que lideravam pesquisas foram rifados após o apoio do presidente dos Estados Unidos -, a conclusão é que ao menos segurou. Poderia estar bem pior neste momento para Lula e o governo na corrida à reeleição. Bolsonaro também não obteve vantagens. Ou seja, nem um, nem outro. O Brasil procura ainda um outro caminho. Poderá faltar tempo.
CHANTAGEM DE TRUMP NÃO MELHORA SITUAÇÃO DE LULA, editorial do jornal Folha de S. Paulo
A crise desencadeada pela chantagem de Donald Trump contra o Brasil até agora não melhorou, a contrapelo do que alguns previam, a popularidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem as perspectivas de reeleição do presidente no pleito de outubro de 2026.
A bateria de perguntas realizadas pelo Datafolha com uma amostra representativa do eleitorado nacional, três semanas após Trump anunciar o tarifaço sobre as exportações brasileiras por razões políticas, revela um quadro complexo da reação à inusitada e gravosa agressão estrangeira.
Dos entrevistados, 57% repudiam a tentativa do governante dos EUA de interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado. Mas o que configura certa surpresa é uma parcela volumosa, de 36%, apoiar o chefe da Casa Branca na motivação declarada para a sanção econômica.
Outro indício da camada de gelo fino sobre a qual caminha a política brasileira é o fato de 45% concordarem que Bolsonaro é perseguido e injustiçado. Apoiam a medida de impedir a entrada do ministro Alexandre de Moraes nos EUA 47% dos consultados.
A manutenção da má avaliação de seu governo —40% continuam tachando-o de ruim ou péssimo— e as simulações de desempenho eleitoral sobre o pleito de outubro de 2026 completam o diagnóstico de que a situação política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não melhorou após o achaque do chefe da Casa Branca.
Neste último aspecto, ressalta a elevada rejeição a uma provável candidatura do presidente à reeleição, com 47% dos entrevistados declarando que não votariam no petista de jeito nenhum. Lula lidera com folga nos cenários de primeiro turno, mas nos de segundo turno a sua folga é mínima em algumas hipóteses.
Enquanto há tumulto para definir se haverá —e, nesse caso, de quem será— a candidatura única da oposição à direita, isso parece mudar pouco o fato de que o nome que lograr passar para o segundo turno, qualquer que seja ele, tende a ser competitivo.
Isso ocorre porque a população parece continuar tão dividida quanto se mostrou nas eleições presidenciais de 2022. Cerca de metade confia no presidente Lula, enquanto a outra metade o rejeita. É a típica situação em que movimentos tênues de eleitores centristas definem o vencedor.
Esse cenário já estava claro no início do mandato e recomendava que Lula fizesse um governo de conciliação com algumas pautas dos eleitores não petistas que circunstancialmente votaram nele naquela eleição. Mas temas como a prudência orçamentária e a modernização da economia foram desprezados na sua terceira passagem pela Presidência.
Agora a margem de manobra do presidente se estreitou a ponto de não conseguir tirar vantagem de um fato que seria potencialmente benéfico para ele. Fica a lição de que, quanto mais Lula marchar para a esquerda, menor ficará sua chance de reeleição.
À DIREITA, EL SALVADOR IMITA O CHAVISMO, editorial do jornal Folha da S. Paulo
O autoritarismo é uma tradição de governos populistas latino-americanos, independentemente da ideologia professada. Em El Salvador, por exemplo, a trajetória do direitista Nayib Bukele cada vez mais se aproxima à de Nicolás Maduro, na Venezuela, e à de Daniel Ortega, na Nicarágua.
A começar pela pretensão de manter-se no poder indefinidamente. Na quinta (31), a Assembleia Legislativa do país aprovou emendas constitucionais que permitirão ao presidente reeleições sem limites. Dos 60 congressistas, apenas os únicos três da oposição votaram contra.
A afronta à alternância de poder, mecanismo essencial das democracias liberais, teve início em 2021, no terceiro ano de seu mandato, quando a Corte Suprema removeu o impedimento à reeleição imediata para presidente —logo após Bukele substituir magistrados do tribunal, com aval de uma Assembleia governista.
A medida ora aprovada também amplia a duração da gestão de cinco para seis anos e elimina o segundo turno das disputas, além de antecipar o fim do mandato atual de Bukele para alinhar a eleição presidencial às legislativas e municipais —o que é visto como meio de fortalecer o Novas Ideias, partido do presidente.
A repressão a opositores, à imprensa e a organizações de direitos humanos desde a ascensão de Bukele ao poder, em 2019, igualmente reproduz o autoritarismo de Maduro e Ortega.
Sob a promessa de reduzir a violência do crime organizado, o populista governa há três anos sob um estado de exceção. A diminuição na taxa de homicídios foi acompanhada por prisões em massa realizadas ao arrepio do devido processo legal, sem contar denúncias de torturas e mortes de encarcerados.
Em paralelo, segundo a imprensa salvadorenha, Bukele teria firmado acordos sigilosos com o crime organizado para reduzir índices de assassinatos e roubos.
Certo é que o caudilho caiu nas graças de Donald Trump, ao oferecer suas penitenciárias a imigrantes deportados dos Estados Unidos. A boa vontade da Casa Branca com seu modus operandi talvez exponha o maior contraste entre o governo de El Salvador e os da Venezuela, Nicarágua e de Cuba.
Outra distância em relação a tais regimes estaria em sua aprovação por 85,2% da população, aferida por pesquisa do jornal La Prensa Gráfica —a ser lida com reserva, dado o grau de repressão vigente. O pendor autocrata de Bukele está exposto em fatos. Mas ainda assombra sua franqueza ao dizer que não se importa em “ser chamado de ditador”.
AS TARIFAS DE TRUMP MINAM ORDEM MUNDIAL, por Fareed Zakaria, traduzido para o jornal O Estado de S. Paulo
Em meio à enxurrada de ameaças tarifárias e acordos comerciais de última hora, os americanos estão perdendo de vista o que realmente importa: uma mudança radical nos assuntos mundiais. Os EUA, criadores e defensores da economia global aberta, estão impondo sua maior taxa média de tarifas em quase um século – e têm as tarifas mais altas entre as principais economias.
O governo de Donald Trump está revertendo 80 anos de políticas econômica e externa, que consistentemente pressionaram os países a remover restrições e impostos sobre o comércio. Os efeitos dessa revolução política não serão medidos pelos preços atuais das ações, mas sim pelo tipo de mundo que surgirá como resultado.
Ao anunciar os acordos, a Casa Branca tem se gabado de que Trump abriu os mercados estrangeiros para produtos americanos, como se estivesse forçando a abertura de economias que antes estavam fechadas.
Aqui estão os fatos: antes do segundo mandato de Trump, a tarifa média sobre produtos americanos na União Europeia era de 1,35%, segundo o centro de estudos europeu Bruegel, e a tarifa média americana sobre produtos da UE era de 1,47%. Até o Japão, visto como altamente protecionista, tinha uma tarifa média sobre produtos americanos em torno de 3% – a tarifa média americana sobre produtos japoneses é de cerca de 1,5%.
Vivíamos em um mundo de livre comércio, onde as tarifas eram tão pequenas que se tornavam irrelevantes. E sim, outros países impõem barreiras não tarifárias às importações, mas nós também.
Os mercados respiraram aliviados ao ver que as barreiras não são nem de longe tão altas quanto Trump havia proposto no “Dia da Libertação”. Condicionados a esperar tarifas astronômicas, os investidores ficaram satisfeitos ao descobrir que as taxas são simplesmente altíssimas. De qualquer forma, a economia americana é em grande parte doméstica; em 2024, as exportações valiam menos de 11% do PIB dos EUA.
SERVIÇOS. Além disso, a economia dos EUA é em grande parte composta por serviços, com 86% dos empregos americanos não agrícolas. Neste setor, o de crescimento mais rápido, os EUA tiveram um superávit comercial de quase US$ 300 bilhões em 2024. E escapa praticamente de qualquer tarifa porque, para Trump, serviços não contam.
Os líderes do trumpismo alardearam que o presidente está “vencendo a guerra comercial” contra UE, Japão e Coreia do Sul. É verdade que o ele reconheceu que os EUA têm uma vantagem especial contra esses países devido ao tamanho de seu mercado e à segurança que proporcionam como aliados. Então, ele usou essa realidade geopolítica para pressionar os amigos mais próximos e forçá-los a fazer concessões.
DERROTA. Mas encarar esses pequenos ganhos como vitórias americanas é uma interpretação equivocada da economia. Ninguém vence uma guerra comercial. Os EUA agora estão sobrecarregando seus próprios consumidores com custos tarifários repassados, ou seja, um imposto altamente regressivo que provavelmente atingirá mais duramente os pobres. Como é uma vitória para os EUA o fato de os americanos de baixa renda agora pagarem um pouco mais por alimentos e roupas em lojas como Costco e Walmart?
O efeito mais amplo dessas tarifas será mudar a estrutura básica da economia mundial. Durante décadas, os países vêm se afastando do envolvimento arbitrário e da interferência governamental nos mercados globais. Ao longo da história, os governos manipularam o comércio, produzindo distorções maciças e criando campeões nacionais politicamente mais poderosos do que economicamente eficientes.
Os EUA resistiram, demonstrando com seu sucesso que haviam escolhido um caminho melhor. As empresas de tecnologia americanas passaram a dominar o mundo, aprendendo e superando líderes de mercado, como a japonesa Sony e a holandesa Philips, nas décadas de 1980 e 1990, em grande parte devido a um mercado global extremamente competitivo.
MUDANÇA. O mundo em que estamos entrando é diferente. As empresas terão de investir tempo e inteligência para manipular as políticas do sistema. Elas enviarão mercadorias primeiro para países com tarifas baixas e depois para os EUA. Subfaturarão mercadorias (que são tarifadas) e superfaturarão diversas taxas de processamento (que não são). Aumentarão seus esforços de lobby. Executivos que costumavam protestar contra impostos e regulamentações agora comemoram os favores e punições do governo Trump.
Os EUA criaram um mundo comercial no qual os países tinham muito a ganhar se permanecessem pacíficos. Agora, os EUA, a força que criou este mundo pacífico e próspero, estão caminhando na direção oposta.
Este artigo mostra, como todos os poderosos de plantão são iguais e para isso invocam as suas boas intenções, o perigo de que se não agirem assim, terminarão as democracias. Respaldado por discursos e leis que regulam ou interpretam ao seu mode bem particular intimidam, atingem, calam e até matam os opositores ou quem diverge minimamente deles
MAGNITSKY ETERNA, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo
A este cronista está claro que, entre as características do uso pervertido da Lei Magnitsky contra o Brasil, destaca-se a permanência. Veio para ficar. O objetivo sendo menos a sanção materializada do que a sustentação de um estado de risco, por meio do qual se exerceria o controle. Há uma eleição no horizonte.
Aplicada a Moraes como alerta, para intimidar, a forma deturpada da lei será mantida como ameaça, espada sobre a cabeça do País, pronta para cortar a cada vez que um movimento for considerado hostil a este objeto vago, bem cambiante em que tudo caberá, chamado de “segurança nacional americana”.
Tudo caberá à instrumentalização. Do legítimo zelo pela atividade das empresas americanas e pelo direito individual de se manifestar, havidas as decisões censórias de Xandão contra as redes sociais, o jornalismo e os cidadãos, até uma questão absolutamente brasileira, o julgamento do golpista Bolsonaro. Tudo vai – pode ir – no balaio genérico do ataque aos “interesses dos EUA”. Há uma eleição no horizonte.
O modo desvirtuado com que ora se utiliza a Magnitsky expressa a constituição de Trump como a própria fonte do Direito. Temos visto esse filme. Em defesa da democracia, da liberdade de expressão – dos mais virtuosos pretextos. Valerá tudo contra o inimigo. Donde necessário dizer que a manipulação dessa lei tem por natureza a mesma anomaliavício sob a qual Moraes, também criador do Direito, gere seus inquéritos infinitos e onipresentes.
A gente sabe como esse tipo de processo, sempre bem-intencionado, se inicia. Nunca como termina. O gênio não volta mais à lâmpada. O uso desvirtuado da Magnitsky – para atender a interesses personalistas de Trump como se dos EUA – veio para coagir e controlar. Nave estacionada sobre o Brasil, como já estava a dos inquéritos xandônicos.
Está dito explicitamente:
Moraes seria ponto de partida, poupados os outros ministros, uma concessão, quase presente, chance a que revejam juízos sobre o julgamento do “perseguido”. Que não se pense que essa chantagem ficará restrita ao STF e em função de Bolsonaro. Recados ao Parlamento já foram disparados. Tudo pode ser abarcado. Jornalismo incluído.
O precedente está posto, instrumentalizada a justa preocupação com o autoritarismo de Xandão assim como ele, Xandão, instrumentalizou a justa preocupação com a empreitada golpista do bolsonarismo. Moraes experimenta o próprio veneno, ministrado pelos EUA, para a inevitável intoxicação do Brasil.
Ele e Trump procedem de maneira semelhante. Jamais serão solução. Moraes, que não tem voto nem mandato para nos colocar em guerra, não é vítima. Nem inocente, como evidencia a forma como foi preso Filipe Martins, mantido por meses em cárcere – talvez para que delatasse – mesmo sendo público que as razões da prisão eram falsas. Esse cara teve contra si uma pequena Magnitsky. Foi banido.
Xandão – o que encarna e produz – é um problema do Brasil. De que a República precisa cuidar.
CPI do capim seco!!!
Realmente, o momento é muito crítico. Novamente o Município esta estagnado, pior de tudo alguns que assinaram e não leram, outros nem sabiam do que tratava, outro afirma ” não vou responder “, tem aquele que afirma que mentiram pra ele e agora, como fica o montante de dinheiro 💰 do Contribuinte. Que sempre acaba pagando a conta e sendo o Pato da História!
Pois faltou, falta e ainda esta faltando vergonha na cara. Pois existem 5 letras: LIMPE ( L – legalidade/ I – impessoalidade/ M – moralidade/ P – publicidade/ E – eficiência), que devem ser o norte de uma Administração pública!
Esta CPI é apenas uma cortina de fumaça ao que se deve virar a página no presente. O que ela está fazendo espetáculo, a polícia especializada em corrupção já apurou e devia estar sendo instruída no judiciário. O pior é descobrir que troca-se a empresa, e o representante dela junto a prefeitura continua a mesma, inclusive no governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL. A mulher de César não basta ser, é preciso ter aparência de que não há a menor dúvida.
A resposta da CPI está dentro da Câmara, lá assessora o segundo vereador denunciante, quem era o braço direito do secretário de obras no primeiro mandato do Kleber… será que a CPI vai ouvir tal assessora???
Caro André
Está bem confuso. Quem é a assessora? Quem é o segundo denunciante? Quem é o ex-braço direito do secretário de Obras e Serviços Urbanos? Você está sugerindo armação? E se é isto, qual, a razão e o que se pretende com isso? Mas, o atual governo e os vereadores que ele elegeu não mudariam tode este quadro mal pintado?
Os escândalos do obras só vieram à tona pq o Jean de lá foi retirado e seus dois braços direitos ficaram assim como ele nunca aceitaram ter perdido o comando, um virou vereador e a outra assessora. Tudo passava pelo trio.
Os escândalos do Obras e Serviços Urbanos foram enterrados por Kleber Edson Wan Dall, MDB e Marcelo de Souza Brick, PP, porque todos tinham a perder. Se não houvesse conluio e medo, os áudios editados e propositadamente vazados como sinais de guerra e ameaças, teriam colocado fogo na cidade se fossem devidamente apurados. Eles, continuam na algibeira, contra quem se atrever a quebrar o pacto de silêncio. Ou eu estou errado, mais uma vez?
Caro Adilson
A corrupção na gestão não fica grande de uma hora para outra.
Os larápios vão testando. O caso do capim pode ter certeza foram testando de medição em medição… deu nisso.
A mesma coisa será neste governo…
Começaram testando na compra de um transformador…. Deu certo…. Tá todo mundo olhando p outro lado vamos passar a boiada e ver no que dá….
A lei não diz que pode roubar-me pouco ! Então o Sr sabe….
A menos q você seja delegado e prefeito…. Fraude em licitação. E crime…
É constatação de serviço sem empenho e com processo todo errado é fraude. Ou não é mais?
CPF EMPRESTADO, VERGONHA ASSINADA, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08), graduado em Gestão Pública pela Udesc. Originalmente, este artigo foi publicado nas redes sociais do autor
Voltei de férias nesta semana com a intenção de escrever sobre o Efeito Dunning-Kruger — aquele fenômeno curioso em que os mais ignorantes são justamente os mais certos de si, enquanto os mais competentes vivem atormentados pelas próprias dúvidas. Um tema perfeito para o cenário atual. Mas a pauta desviou.
Hoje me deparei com uma daquelas colunas que qualquer um pode acessar com dois cliques — mas que poucos têm coragem de dizer que leem. É como verdura: faz bem, mas muita gente finge que detesta. O texto falava em um “possível arranhão” na imagem de um político. Ah, sim… arranhão. Quem vive de imagem costuma tratar rachaduras como poeira e trincas como obra de arte moderna.
Mas vamos ao que realmente importa.
Logo depois, recebi um vídeo com a oitiva de testemunhas em uma CPI. No centro, um ex-diretor — desses que se apresentam como mestres do ofício, senhores do saber. Mas bastaram duas perguntas bem colocadas para ele desmontar. Disse, com a cara mais lavada do plenário, que ou não sabia o que acontecia em sua gestão, ou que seus subordinados mentiam ou eram incompetentes.
Só que a história não fecha. Os subordinados, ouvidos antes, afirmaram com todas as letras: era ele quem mandava, decidia, conduzia. Era o maestro. Agora, tenta posar de espectador perdido no meio da orquestra que ele mesmo regia.
Mas a crítica mais amarga não é nem para esse tipo de figurão — que já nasceu com o dedo apontando para os outros. É PARA OS BOBOS FUNCIONAIS!!!.
Sim, eles. A TROPA DE TOLOS DE CRACHÁ. Aqueles que acham que assinar documento que não leram é demonstração de confiança no chefe. QUE ACREDITAM QUE OBEDECER SEM QUESTIONAR É SINÔNIMO DE LEALDADE. Gente que não entende nem o que lê, mas se orgulha de ter “cargo”. São analfabetos funcionais com senso de hierarquia de quartel, mas sem a honra de um soldado.
Assinam o que mandam, aprovam o que não compreendem, e ainda batem no peito achando que “estão protegidos”. Estão é na fila — do inquérito, da sindicância e, quando muito azarados, do processo criminal. O CPF deles vira tapete na porta da próxima denúncia.
São os famosos BURROS ENGOMADINHOS, com pastinha debaixo do braço e vaidade no lugar do cérebro. Acham que são parte da engrenagem, quando são só GRAXA — aquela que o sistema usa, suja e depois joga fora.
Enquanto isso, os verdadeiros articuladores escapam com a cara limpa e a biografia intacta. Sabem como se proteger: não assinam nada, não aparecem nas atas, e quando aparece um problema… bom, foi o “BOBO” que assinou, não foi?
Então, fica o recado — não é conselho, é vacina contra burrice institucionalizada:
1- Nunca assine nada sozinho.
2- Peça a assinatura do chefe imediato. Do secretário. Do servidor de carreira.
Este último, por ser efetivo e ter nome a zelar, não costuma meter o dedo onde não cabe — e muito menos emprestar a assinatura para negócios tortos.
Porque, no fim do dia, quem empresta o CPF para agradar o chefe é o primeiro a ser esquecido quando o ventilador começa a girar. E justiça — quando vem — não pergunta se você era inocente. Pergunta se você assinou.
E aí, BOBO FUNCIONAL, vai assinar de novo????
DILMA CAIU POR UMA PEDALADA….
Caro Herculano
Pode ser apenas um erro formal .
Mas é fato que o Governo do PL está com uma mancha. Se o Prefeito não der a cabeça de alguém … Assume a responsabilidade pelo erro…
e pelo que esta na denuncia no MP, se esforcaram….. a empresa do Pedro Bornhausem até CND de debitos com a propria prefeitura não tinha.
Fica feio fazer barulho com capim seco, e estar todo enrolado em fraude de migalha…. parece uma familia que conhecemos que adora uma rachadinha…
Esclarecimento. Este texto foi atualizado com o original da autora. O até então era uma duplicação de Celso Ming.
ESPADA SOBRE A CABEÇA DO MUNDO, por Vera Magalhães, no jornal O Globo
São duas as principais razões da perseguição do governo dos Estados Unidos ao Brasil, em múltiplas frentes, e elas não se referem a nenhuma razão comercial relevante ou minimamente justificável, pois são apenas políticas. O país está sendo sancionado com um tarifaço de 50%, e a Lei Magnitsky está sendo desvirtuada para atingir Alexandre de Moraes porque o Judiciário brasileiro está processando e condenando aqueles que, como Donald Trump, tentaram dar um golpe de Estado.
A segunda razão é o fato de o próprio STF ter aprovado recentemente a responsabilização das big techs, quando reconheceu a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet.
Nesse contexto de uma perseguição puramente política, engendrada num conluio entre a família Bolsonaro e o governo Trump, o governo Lula age de forma correta ao não ter se apressado para negociar o tarifaço. A própria lista gigante de 694 exceções à taxação de 50% evidencia que as razões não são se contrapor a qualquer tipo de desequilíbrio nas relações comerciais dos dois países. Aliás, as razões comerciais simplesmente sumiram da justificativa da Casa Branca no comunicado em que concretiza a ameaça de taxar o Brasil.
Frustra a ideia que Trump tem de negociação –aquela em que ele faz uma chantagem e os países ou blocos correm para ceder a sua pressão– o fato de o governo Lula ter jogado parado. As exceções vieram “de graça”, sem necessidade do tal telefonema ou de ouvir desaforos do republicano. O adiamento de sete dias úteis anunciado nesta quarta-feira é a senha de que os Estados Unidos querem ser procurados para a tal “conversa”. Dado o tom de absoluto desrespeito e as medidas inaceitáveis e inéditas contra a soberania do governo e do Judiciário brasileiro, não parece haver termos razoáveis de negociação.
A resposta mais dura deverá vir do Supremo Tribunal Federal. Não só Alexandre de Moraes, mas a maioria dos ministros usará a sessão de volta dos trabalhos, na sexta-feira, para rechaçar as sanções estabelecidas contra o ministro e reiterar que a Corte seguirá julgando os processos com total independência
O QUE MAIS TRUMP PODE APRONTAR, por Celso Ming, no jornal O Estado de S. Paulo
Há enorme desproporção entre o tamanho da ameaça “extraordinária” do Brasil aos Estados Unidos, que o presidente Trump diz que existe, e as providências por ele tomadas para garantir esse futuro em risco.
Nas justificativas expostas para o pacote tarifário, Trump afirma que é um revide às “políticas práticas e ações recentes do governo brasileiro que constituem ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos”.
É quase como dizer que o Brasil prepara o lançamento de uma bomba sobre Washington. E, no entanto, por mais que se deplore, o tarifaço atenuado e o enquadramento do ministro do Supremo Alexandre de Moraes às sanções previstas na Lei Magnitsky, destinada a produzir a morte financeira de ditadores, terroristas e narcotraficantes, estão longe de eliminar as supostas insegurança e debilidade econômica dos domínios do Grande Khan.
Ninguém ainda espera demonstrações de lógica aristotélica dos textos divulgados pelo presidente Trump. Em carta anterior, ele afirmara que o tarifaço seria inevitável porque o Brasil mantém um enorme rombo nas suas relações comerciais com os Estados Unidos, o que é uma falsidade estatística. No entanto, convém ter claro que as premissas ao pacote assinado por Trump, ainda que capengas, podem estar preparando novas porretadas sobre o Brasil.
A provável condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo, prevista para final de agosto ou começo de setembro, pode ser usada como pretexto para novas represálias. O Brasil passou a ser alvo preferencial da maior potência econômica e política do mundo.
Essa ameaça não pode levar o governo Lula a provocar a jararaca com o pé descalço, como tem feito – por exemplo, quando enaltece a ditadura iraniana ou quando tenta lançar o Brics contra o dólar. Nem pode manter o País paralisado, como se nada pudesse ser feito.
Negociar o que pode ser negociado é um caminho necessário. Mas é pouco, porque só é eficaz quando reduz as perdas das empresas dos Estados Unidos. Também não basta assegurar algum nível de união nacional contra o perigo comum. É preciso preparar o Brasil para turbulências.
Isso implica fortalecer a economia com providências fiscais destinadas a derrubar os juros e a conter a expansão da dívida pública, o maior flanco vulnerável da economia nacional. Para isso, não é suficiente aumentar impostos; é preciso reduzir as despesas públicas, tarefa que ficou mais fácil quando o desemprego caiu a 5,8% da força de trabalho, o nível mais baixo desde 2012.
Além disso, é preciso diversificar os mercados, negociar novos acordos comerciais, abrir a economia e eliminar o excesso de protecionismo que tolhe o setor produtivo local.
Até há algumas semanas, o governo Lula entrou no modo eleições e nada, além disso, ocupou sua cabeça. O tarifaço do Trump e tudo o que veio junto passou a exigir mudanças nessa pauta política.