Atualizado e modificado às 9h26min deste 07.09.2026. É domingo, véspera do feriado de Sete de Setembro. O sol voltou, mas o temor de uma catástrofe continua nas previsões e imaginário das pessoas. Frio tardio e atípico. E você desinformado da sua cidade por quem tem esta obrigação institucional de esclarecê-lo e resolver as questões primárias da cidade.
A imprensa local está dedicada às cortinas de fumaças de interesses dos políticos locais e dos que mandam neles há décadas. Nela, só notícias sobre desgraça de pobres no trânsito, na polícia e no medo das chuvarada do “El Niño”. Enquanto isso, as redes sociais e principalmente os aplicativos de mensagens da aldeia – para além da confusa campanha eleitoral com as incríveis sacanagens vindas de Brasília contra o devido processo legal – bombam e desgastam, ainda mais, diante dos tropeços do governo de Paulo Norberto Koerich, PL.
Em primeiro lugar é preciso saber se Paulo é teimoso dentro de uma bolha de vinganças, ou se os bruxos que o rodeiam são os que estão usando-o e fritando-o, ainda mais, na sua já desgastada imagem de gestor de Gaspar, reduzindo-o à mera lembrança da fama que tinha como investigador astuto e delegado implacável, que chegou a trabalhar no Gaeco – Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado -, tornou-se delegado geral e até secretário de Segurança de Santa Catarina, no governo de Carlos Moisés da Silva, Republicanos.
É impressionante este tipo de repetição. É uma atrás da outra. Nenhuma contenção. E a Comunicação importada, ampliando tudo isto.
O CHEQUE EM BRANCO I
Volto à sessão da Câmara de terça-feira passada. Reveladora. Pastelão. O vereador Dionísio Luiz Bertoldi, PT, na qualidade de relator da matéria, pediu a quebra do “Regime de Urgência” do Projeto de Lei em que Paulo pede à Câmara, a autorização para contrair um empréstimo de R$100 milhões no Banco do Brasil, supostamente em condições melhores aos que já foram autorizados – em menor volume disponível – no governo de Kleber Edson Wan Dall, Podemos.
O requerimento da quebra do “Regime de Urgência”, depois de longa, confusa, errática dobra de aposta e “clara” falta de transparência do governo de Paulo, foi negado por oito votos a cinco – dos 13 possíveis. Detalhe e guarde ele para o TRAPICHE: o presidente Ciro André Quintino, MDB, que só vota no desempate, estranhamente votou com Dionísio. Estranho? Ele apenas ratificou assim, recados sem meias palavras ditas na tribuna minutos antes. Fígado. Jogo. E tudo diante do “novo” e “inocente” chefe de gabinete, André de Moura Cunha, transformado em garoto de recados pelos vereadores em plena sessão. Credo!
O que quer Dionísio? Que Paulo explique, não exatamente a ele Dionísio, mas aos vereadores, e pincipalmente aos gasparenses, o que Paulo vai fazer com os R$100 milhões quando autorizados a contrair o empréstimo.
Um requerimento de Dionísio pedindo estas explicações, com atraso, até foi respondido – e tudo passa pela atual chefia de gabinete, mas, principalmente, pela antiga chefia de gabinete, a de Pedro Inácio Bornhausen, PP. Eles enrolaram. É uma prática contra a Câmara. Não responderam estes itens específicos. É provocação. Continuada. E em nome do governo, vejam só, quem saiu em socorro de Paulo? O mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP. Então não é preciso ir mais adiante para explicar como tudo está armado e a razão pela qual Paulo resolveu, neste caso, e mais uma vez, afrontar o Legislativo. O PP se tornou seu guarda-costas. E tem um preço alto neste cabo de guerra. E o primeiro a entender de que estava ficando fragilizado e “dispensável”, foi outro matreiro, o presidente da Casa, Ciro André Quintino, MDB.
CHEQUE EM BRANCO II
Até Paulo, com os vereadores, fez a mesma coisa: enrolou. Numa reunião com eles, pediu para confiarem na palavra dele. Cinco disseram no voto que não. Estão escaldados tanto com Paulo como com Kleber que fez a mesma coisa. Kleber pediu voto de confiança, ganhou o cheque em branco – também sob protestos – para os empréstimos. Kleber, todavia, foi mais esperto. Ele tinha um programa chamado “Avança Gaspar” e até projetos, mas não os executou, ou fez isto, em fim de quase oito anos de governo para tentar emplacar o sucessor Marcelo de Souza Brick, PP. Era tarde. Não deu certo.
Pior. Kleber usou parte deste cheque em branco, em manobra interna e sigilosa, para comprar um terreno de R$14 milhões para salvar o caixa da Furb, e alongou esta dívida. Ela ao final, vai chegar a R$22 milhões aos gasparenses. O que era para ser um Centro Cívico (prédios para a prefeitura e Câmara) será uma pracinha à meia boca para estudantes e inventada por Paulo, quando deveria ter apurado as responsabilidades e desperdício disso tudo.
Mas, quando começa a desconfiança dos vereadores sobre Paulo neste caso da autorização do empréstimo de R$100 milhões? Quando o ex-secretário de Planejamento Territorial, o ex-“dono de Blumenau”, o presidente das reuniões da turma da pedreira feitas em Gaspar, o que está com tornozeleira eletrônica e teve mais uma vez a visita do Gaeco na semana passada lá na casona dele de Blumenau, Michael Jackson Schoenfelder Maiochi, fez uma reunião secreta com os vereadores anunciando obras de R$300 milhões. Logo depois a repetiu com os empresários na ACIG. Mas, desrespeitosamente aos vereadores. E o deboche foi ainda maior. Em questão de horas, os R$300 milhões viraram, na lábia, R$360 milhões. Projetos? Zero.
Até hoje, sobre esta montanha de obras, não se sabe de nada, a não ser do acontecido com o secretário, que Paulo, apesar de tê-lo entrevistado antes de nomea-lo por indicação do ex-prefeito de Blumenau, Mário Hildebtrandt, PL, jura que não sabia dos desvios passado Maiochi que a polícia e o Ministério Público estão enquadrando-o. Os vereadores de Gaspar estão escaldados. Inclusive os da base do governo, que ensaiaram um contido piti, a começar pela líder do governo, a também policial Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL. Ela – e agora Ciro – vê Melato pintando e bordando no governo de Paulo depois de ter sido um providencial e estratégico um crítico feroz de Paulo. Vendeu dificuldades para ter facilidades. Entenderam? Ou preciso desenhar?
A OPORTUNIDADE PERDIDA
Resumindo e encerrando. Paulo não possui planos e projetos, ou se os têm é algo que precisa esconder. E se não precisa esconder, está fazendo burrada, perdendo tempo, desgastando-se à toa e jogando fora, uma oportunidade de ouro de se recuperar da má imagem que grudou nele em tão pouco tempo – menos de dois anos – como gestor de Gaspar, tanto que não pode ser cabo eleitoral de Jorginho Mello, PL, por aqui.
O que se esconde, de verdade, estava nas entrelinhas dos discursos dos vereadores da base naquela sessão que levou quase meia hora na discussão desse requerimento do Dionísio: o inchamento da máquina do governo que vem sendo promovida por Paulo com aval da própria Câmara; e isto vai deixar a prefeitura sem caixa e lastro para investimentos próprios. É só conversar com a secretária de Fazenda e Gestão Administrativa, Ana Karina Schramm Matuchaski Cunha, outra vinda de Blumenau. O que ela mais sabe falar é que falta dinheiro, enquanto outra parte arrota uma receita de R$700 milhões para o ano que vem.
É a tal “esperteza que vai comer o próprio dono“, como alertava o ex-primeiro ministro do Brasil, Tancredo de Almeida Neves.
Paulo Norberto Koerich, PL, teve a chance, repito, de ouro, para calar a boca de Dionísio e os quatro votos que recebeu contra, incluindo o de Ciro, e de impedir este comentário. Ou seja, se Paulo não é o teimoso, está cercado de gente que o quer nas cordas, sempre para não ter vida própria na nova empreitada que aceitou a favor da sua cidade, Gaspar. E não sou eu que estou promovendo este desgaste no presente contra o seu passado de glória. Eu apenas estou olhando a maré.
Em tempos de campanha eleitoral e bocudos à solta. com múltiplos interesses no presente e nas armações futuras, era só Paulo dizer para que precisa dos R$100 milhões, mostrar os projetos, levá-los à comunidade e sair para o abraço. Pelo jeito, não quer – o que é ruim – ou não pode – o que é terrível. Quem mesmo o orienta Paulo? Gente travada? Gente sem horizonte? Ou gente malvada? O quadro abaixo e referente a esta votação da terça-feira passada dá, mais uma vez, pistas significativas da barbeiragem de Paulo e do pessoal que o cerca. Muda, Gaspar!

TRAPICHE
Orçamento fake I. Há mais de uma década está no Orçamento da Câmara de Gaspar uma gorda rubrica chamada de construção da sede própria. É fake. Já bati nela há anos seguidos e várias vezes. É um jogo de forças política antigas e contábil. E o presidente que tentou usar de fato esta rubrica para iniciar a construção do prédio próprio da Câmara, foi perseguido e banido da vida política de Gaspar. Lembram do médico, evangélico, paulista, vereador Silvio Cleffi, PSC e enterrado no PP? Tadinho. Não conhecia Gaspar. Não acreditou em mim.
Orçamento fake II. Será sempre mais fácil gastar até mais do que precisaria para construir um prédio novo, funcional e moderno nas gambiarras do atual alugado. Apostem. Há um histórico politico nisso tudo. O poder público vive de jogos de aluguel com os senhorios. Retomando. E foi um Projeto de Lei mexendo nesta rubrica votado na Câmara na sessão passada, o pivô de mais um mal-estar entre os vereadores. E que se expressou no voto do presidente Ciro André Quintino, MDB, em outro assunto, relatado acima.
Orçamento fake III. O Projeto de Lei em questão retirou R$1,2 milhão desta rubrica fake que trata da “construção da nova sede da Câmara” – nem terreno há mais para isso, pois o perderam pelo prazo concedido para o uso pelo poder público – foi para um tal “anula e suplementa”. São jogadas contábeis. Saiu da suposta construção para suportar novas despesas (R$1 milhão) e R$200 mil para divulgação da Câmara em veículos de comunicação.
Orçamento fake IV. A líder do governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, com fundadas razões, como o “defeso eleitoral”, implicou e votou contra. O outro voto contra, também justificado, mas por outras razões, foi o Roni Jean Muller, MDB. Entretanto, o presidente Ciro André Quintino, MDB, que é candidato, dono da verba, virou bicho por conta das implicações de Alyne que também não teve o seu pedido de explicações atendido por Ciro. E uma farra. Paulo Norberto Koerich, PL, faz com a Câmara e os vereadores. O presidente da Câmara, faz com seus pares, em algo que poderia ser contornado em simples conversa de corredor onde se esbarram.
Orçamento fake V. Se Ciro André Quintino, MDB, virou bicho, sem meias palavras, lavou a minha alma e aumentou a credibilidade deste espaço, que ele desdenha como poucos, há décadas. Na cara dura, o campeão de diárias da Câmara, mostrou um papelinho com pedidos dos vereadores para as mordomias, como o aumento de assessores nos gabinetes e que ele alinhado com o mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP, tramam e se alinham com o próprio Executivo na Reforma Administrativa que engavetaram até passar as eleições para ninguém perder votos até lá. E Ciro fez chantagem. Está gravado.
Orçamento fake VI. Resumindo. Esta rubrica milionária da construção da sede própria do legislativo gasparense, até pela segurança do senhorio, ou pela decência orçamentária da Câmara, deveria ser extinta e não mais servir de pêndulo de chantagens e interesses – políticos ou administrativos – da hora, ou do presidente de plantão da Câmara, ou de quem manda nele nos acertos das votações da mesa diretora e sua sucessão. Esta é a verdadeira hipocrisia que esconderam do debate. E se preparem. Vem aí o aumento do número de assessores, dos vereadores e da remuneração deles todos. O Vale Marmita será fichinha. Esperem a eleição de outubro passar.
Mal acompanhado I. O candidato a governador João Rodrigues, passou vergonha em Blumenau – registrei aqui – a depender do seu próprio partido, o PSD, caricato por lá, bem como o PP e o MDB, extintos, apesar de históricos e referência em Santa Catarina no passado. Em Gaspar não foi diferente a passagem de João Rodrigues, PSD.
Mal acompanhado II. João Rodrigues esteve aqui. Alguém ficou sabendo? O PSD, PP e MDB de Gaspar têm justificadas razões para escondê-lo e desmoralizá-lo. João está mal assessorado. Deve abrir o olho. Se ele ficar à beira da congestionada BR-101, ganha mais votos do que visitar cidades como Blumenau e Gaspar. A luta dele é para chegar no segundo turno. Só a partir de então, poderá ser outra história. Em nova fase, com senadores e deputados eleitos, os traíras estarão disponíveis como sempre.
El Niño I. Gaspar se safou do primeiro teste das pesadas chuvas da semana passada. E tem gente gozando com o pau dos outros. O técnico titular da Defesa Civil de Gaspar, terceiro sargento do Corpo Bombeiro Militar, Rafael de de Araújo Freitas. trabalhou firme no planejamento e prioridades para mitigar as fragilidades claras aos olhos de todos. Os políticos estão comemorando o que pouco fizeram por este resultado. Será que comemorarão quando a verdadeira catástrofe vier e for incontrolável?
El Niño II. Está cada vez mais claro que os investidores e empreenderes do ramo imobiliário em Gaspar armaram arapucas em seus empreendimentos contra os futuros donos de lotes. Rua estreita de acesso ao empreendimento está sendo alargada com dinheiro da prefeitura (ou seja, de todos) para acessar e valorizar o empreendimento; emendas parlamentares estão pavimentando ruas frontais de acesso a loteamentos particulares e agora, estão pressionando por canais extravasores de áreas historicamente alagáveis, como no bairro Figueira. Para um caso se faz propaganda pública. Para outro, se faz apelo, como obrigação do poder público. Falta é Ministério Público nesta gente.
Lagoa I. Finalmente, o Paulo Norberto Koerich, PL, deu as caras na comunidade da Lagoa. Ela viu parte da estrada com lama de asfalto eleitoral ruir diante de caminhões com peso permitido pela lei. Primeiro, Paulo deixou ou morador de lá, o vice-prefeito com quem está brigado, o engenheiro Rodrigo Boeing Althoff, Republicanos, criar-se como vingança por trás de tudo isso, silenciosamente, inclusive alimentando os vereadores, não identificados com a comunidade, candidatos a alguma coisa neste quatro de outubro.
Lagoa II. Segundo. O TAC – Termo de Ajustamento de Conduta – tem a parte uma empreiteira protagonista e interessada na solução do problema. E faz isso porque é da comunidade. E não é de hoje. Até porque se o caso for dar na Justiça, nada se resolve a curto prazo devido a fragilidade da massa asfáltica eleitoreira do passado sob solo instável, sem preparação alguma. Por isso, o TAC tem há também a parte da prefeitura. É esta parte que está faltando. A burocracia da prefeitura é o ponto central dos desgastes do governo e dos palanques oportunistas à empreiteira. E isto ficou claro durante o encontro de ambos com a comunidade.
Vocês, meus leitores e leitoras, que eu não os tenho, o Hospital Santo Antônio de Gaspar continua sendo a grande sangria do caixa da prefeitura de Gaspar. E isto se esconde da população e das prestações de contas – prometidas – que deveriam estar na praça. O Portal Transparência, por enquanto, sonega todos estes dados. Mais, uma vez, falta Ministério Público neste tipo de assunto sério e que lida com o futuro de todos nós.
E se criam cortinas de fumaças, a neste ambiente. O Hospital, mesmo diante da promessa de melhorias, não é a solução, se os postinhos de saúde não funcionam, perpetuam filas desde os atendimentos de simples consultas até as de laboratórios e exames de especialidades de obrigação da Policlínica. Inventaram na semana passada propaganda seis “novas” ambulâncias. Todas elas alugadas. Qual o problema? Não há motoristas para o uso delas como se deveria. Outra. Silenciosamente, Teresa da Trindade, pediu para sair deste ambiente que nunca melhora e sempre há culpados. Credo! Muda, Gaspar!
A coisa em Blumenau está desgringolando. Depois das operações que pegaram gente misturando coisas na área da merenda, da vigilância das escolas e nas obras, agora vem aí mais uma que pode ser chamada de “Gaiola Digital”. Gaspar que se prepare.
A limpeza dos ribeirões de Gaspar mostra como se desperdiça tempo e trabalho. As máquinas chegam em determinado local, as 9h, começam o trabalho as 10h, pois antes precisam examinar acesso, descarte e segurança. Às 11h param para almoçar no pátio da prefeitura, bem distante do local de trabalho, apesar do Vale Refeição, que economizam. Voltam as 14h. As 16h param para bater o ponto na prefeitura. Muda, Gaspar!
11 comentários em “TEIMOSIA DESGASTANTE. OU PAULO NORBERTO KOERICH, PL, NÃO SABE PARA QUE QUER UM CHEQUE EM BRANCO DE R$100 MILHÕES DA CÂMARA EM EMPRÉSTIMOS, OU PERDE UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE COMUNICAÇÃO EM PLENA CAMPANHA ELEITORAL, COMO PÉSSIMO CABO ELEITORAL PARA ALAVANCAR A PROPAGANDA DO SEU GOVERNO E AJUDAR O SEU PRÓPRIO PADRINHO POLÍTICO, JORGINHO MELLO, PL”
O SUPREMO ESTÁ UMA BAGUNÇA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para referendar a decisão do ministro André Mendonça de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. A medida foi uma reação a uma provocação igualmente grave: na semana passada, o ministro Alexandre de Moraes se valeu de um “relatório de inteligência” supostamente produzido pela PF – apócrifo e “sem valor probatório”, como advertia o próprio texto – para acusar Mendonça de graves crimes e desvios funcionais como relator do caso Master no STF. De que a instrumentalização de uma ala da PF por Moraes exigia pronta resposta, não resta dúvida. Que a resposta de Mendonça tenha sido correta, é outra história.
Juristas ouvidos pelo Estadão foram unânimes em apontar sérios problemas na decisão de Mendonça. Rubens Glezer, professor de Direito Constitucional da FGV-SP, notou o descompasso entre a incerteza quanto ao vínculo de Rodrigues e Almada com a produção do tal relatório usado por Moraes, ainda a ser investigado pela corregedoria da PF por ordem do próprio Mendonça, e a gravidade de seus peremptórios afastamentos.
Wálter Maierovitch foi além e classificou a destituição do diretor-geral da PF como medida “arbitrária”. Ademais, o ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo questionou se Mendonça, tendo se declarado vítima de “monitoramento sistemático” e “coleta dirigida” por agentes da PF, não estaria impedido de julgar uma questão de seu interesse pessoal. É verdade que não seria a primeira vez no STF. Para não voltarmos tanto no tempo, basta lembrar que Moraes fez o mesmo na semana passada ao usar o inquérito das fake news, do qual é relator plenipotenciário há mais de sete anos, para retaliar Mendonça após virem a público os sórdidos detalhes de sua potencialmente criminosa associação com Daniel Vorcaro.
É digna de nota, por fim, uma fragilidade processual apontada pelo criminalista Marcelo Crespo: o afastamento cautelar dos dois policiais foi determinado por Mendonça após o ministro ter sido provocado pelo Partido Novo, não por autoridade policial ou pelo Ministério Público, como determina o Código de Processo Penal. Por sua vez, a professora Ana Laura Barbosa, também da FGV-SP, não vê paralelo entre os precedentes citados por Mendonça na decisão – os afastamentos de Eduardo Cunha e de Ibaneis Rocha, respectivamente, da presidência da Câmara e do governo do Distrito Federal – e a situação de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.
É pesaroso constatar, mas o Supremo está uma bagunça, a ponto de ter criado para si uma “jurisprudência de crise”, como bem definiu o professor Glezer. Com espantosa naturalidade, a Corte vinha admitindo absurdos sempre que enxergava “ameaças à democracia” em cada esquina. Agora, é a vez de a heterodoxia servir aos interesses particulares de Suas Excelências, notadamente os de Moraes e Mendonça, ambos orientados pelo instinto de autopreservação. A heterodoxia, sabemos, virou norma na mais alta instância judicial do País. Mas a normalização de atalhos processuais não conta nem jamais contará com o endosso deste jornal, qualquer que seja o ministro que deles se valha.
Isso não equivale, absolutamente, a absolver a origem dessa bagunça que impera no STF, a exigir uma firmeza ainda não demonstrada por seu ministro presidente, Edson Fachin. A produção de um relatório fajuto contra Mendonça, por encomenda de Moraes, segue gravíssima. Mais ainda quando vista em contraste com o precedente aberto pelo próprio Moraes, que, em abril de 2020, suspendeu a posse de Alexandre Ramagem como diretor-geral da PF por entender que havia risco de “desvio de finalidade” na escolha do então presidente da República, Jair Bolsonaro. Seis anos depois, a ironia é que o defensor da impessoalidade da PF de outrora hoje é ministro suspeito de tê-la violado para se proteger do escrutínio público – e legal – de sua associação com o trambiqueiro Vorcaro.
O Estado Democrático de Direito não admite a existência de uma força policial disposta a servir a agendas particulares de autoridades ou a operar em nome de causas carentes de delimitação conceitual e fundamentação legal. Cabe a Fachin restabelecer a ordem e mostrar ao País que o STF não é a casa da mãe Joana.
FLÁVIO EXPLORA CRISE NO STF COM LEVIANDADE E CINISMO, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Agrava-se a cada dia a crise desencadeada no Supremo Tribunal Federal pelo escândalo do Banco Master, sem que se vislumbre saída capaz de restabelecer a normalidade e evitar traumas prolongados —e o afastamento liminar do diretor da Polícia Federal pelo ministro André Mendonça é apenas o episódio mais recente.
Deplorável e alarmante, tal cenário põe à prova a conduta dos candidatos a governar o país nos próximos anos. Deles se espera, antes da capacidade de diálogo político e institucional, a compreensão de que os valores republicanos e a solidez das instituições estão acima das querelas eleitorais. É tudo o que não demonstra Flávio Bolsonaro (PL).
Em comício no Dia da Independência, o senador fluminense não se contentou em fustigar o ministro Alexandre de Moraes, que esteve à frente do processo que condenou corretamente seu pai por tentativa de golpe de Estado e hoje está no centro do escândalo político-financeiro.
Com oportunismo rasteiro, buscou transformar a crise em peça de ataque ao rival na corrida ao Planalto e presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —”Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”, discursou. Trata-se de irresponsabilidade e cinismo.
Irresponsabilidade porque fulaniza de modo leviano uma questão gravíssima. O petista e o ministro se associaram, até indevidamente, em temas como a defesa da regulação de conteúdos na internet. Entretanto não se sabe de nenhuma providência tomada ou proposta pelo governo em favor das tramoias do Master.
Não é pouco diante da rede de influência nos três Poderes comprada pelo fraudador Daniel Vorcaro à esquerda, ao centro e à direita. Lula recebeu o então banqueiro fora da agenda, o que, embora impróprio, não se compara a desfrutar de favores ou contratos familiares milionários.
Cinismo porque é Flávio, dentre os postulantes à Presidência, quem mais deve explicações sobre as relações com Vorcaro. Foi ele o flagrado em mensagens amáveis e informais a cobrar os milhões do Master para financiar um filme laudatório ao pai, ex-presidente. É ele quem sonega o prometido detalhamento dos contratos para a obra, também na mira da Polícia Federal.
É desculpa esfarrapada alegar que se tratava de dinheiro privado. Àquela altura já eram notórias as relações promíscuas de Vorcaro e seu banco com políticos e as diversas instâncias da máquina pública. É preciso fingir idiotia para crer que ali se negociava um mero investimento na indústria cinematográfica americana.
Candidatos, como toda a sociedade, podem e devem criticar e questionar o STF e seus ministros. O momento exige, contudo, a postura do estadista que sabe separar o interesse nacional do varejo da busca de votos. Atiçar tensões em benefício próprio é estratégia bolsonarista surrada de afronta às instituições e fomento de tentações autoritárias.
PRECISAMOS FALAR SOBRE ALCOLUMBRE, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O senador Davi Alcolumbre (União-AP) não está à altura da presidência do Senado. Isso já era mais ou menos claro desde que ele se tornou presidente pela primeira vez, em 2019. Mas agora, no auge de uma crise institucional gravíssima no Supremo Tribunal Federal (STF), cuja atuação está sujeita justamente aos freios constitucionais do Senado, Alcolumbre se revela por inteiro como é: um político exclusivamente preocupado com seus interesses pessoais, e que maneja suas prerrogativas não em prol da República, mas para extrair delas vantagens pessoais e blindagem para si próprio e para os amigos.
Cabe ao Senado processar, julgar e, se necessário, afastar ministros do Supremo e o procurador-geral da República. É uma atribuição concebida para que um Poder da República possa servir de contrapeso a outro. Alcolumbre parece ter encontrado serventia mais paroquial para ele. O que deveria ser freio institucional virou moeda de poder.
Segundo informou o jornal O Globo, o ministro do STF Alexandre de Moraes, encalacrado no escândalo do Banco Master em razão de sua relação promíscua com o banqueiro Daniel Vorcaro, se reuniu com Alcolumbre por várias horas antes de partir para a ofensiva contra André Mendonça. Algum tempo depois, já no plenário, Alcolumbre foi cobrado sobre os pedidos de impeachment contra Moraes. Irritou-se.
Alcolumbre saiu em defesa de Alexandre de Moraes quando foi questionado pelo senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL). “Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”, disse o presidente do Senado, referindo-se ao pedido que Flávio Bolsonaro fez ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, em vez de prestar contas sobre o exercício de uma prerrogativa constitucional, respondeu com uma ameaça política.
Ora, não se trata apenas de proteger um amigo ou ainda de alfinetar um inimigo. Alcolumbre tem muito mais coisas em jogo nessa história do que o bom funcionamento das instituições. Alexandre de Moraes é aliado, e André Mendonça, desafeto. O caso Master, no centro da guerra que hoje dilacera o Supremo, também passa muito perto do senador. Foi Alcolumbre quem indicou o presidente da Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá que aplicou R$ 400 milhões em títulos do banco. O senador ainda esteve na faustosa degustação de charutos e uísque oferecida por Daniel Vorcaro em Londres, em 2024. Vorcaro relatou ter se encontrado com Alcolumbre inclusive na residência oficial do Senado, e esses encontros também ajudam a dimensionar a proximidade entre o banqueiro e o senador. Tudo isso ainda está pendente de explicações por parte do presidente do Senado.
Mendonça, por sua vez, está à frente das investigações do Master que avançaram sobre personagens próximos a Alcolumbre. Na maior crise moral vivida pelas instituições brasileiras em décadas, o sistema de autoproteção já está em pleno funcionamento. E o presidente do Senado parece agir para preservá-lo.
André Mendonça não virou desafeto de Alcolumbre por causa do Master. Os dois já carregam uma inimizade de cinco anos. Em 2021, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Alcolumbre reteve por mais de quatro meses a indicação de Mendonça ao Supremo, resistiu a marcar sua sabatina e trabalhou para derrotá-lo. Neste ano, a proximidade do advogado-geral da União, Jorge Messias, com Mendonça também pesou na guerra conduzida pelo presidente do Senado contra a indicação de Messias ao STF. Em ambos os casos, não atuou apenas como presidente da Casa, a quem cabe conduzir o rito. Interferiu diretamente na disputa e atuou nos bastidores para produzir o resultado que desejava, simplesmente porque queria emplacar os amigos Augusto Aras em vez de Mendonça e Rodrigo Pacheco em vez de Messias.
Alcolumbre tem uma concepção bastante peculiar de como o Senado deve conter eventuais abusos do Supremo. A prerrogativa constitucional parece servir conforme o ministro, o interesse e a ocasião. Ora, não é assim que se comporta o presidente de um Poder da República. Uma atuação como essa já seria deplorável mesmo se Alcolumbre fosse vereador de um dos 16 municípios do Amapá. Na presidência do Senado, é inaceitável.
NÃO Á EMPATE ENTRE MENDONÇA E MORAES, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo
Muitos analistas sugeriram que Alexandre de Moraes deveria renunciar ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) diante da revelação dos fortes indícios de relações impróprias com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Afastado, Moraes contrataria um bom advogado e se dedicaria a sua defesa. Seria, de fato, uma atitude republicana, levando em conta os interesses do país — dado o tamanho do caso — e preservando o próprio STF.
Se fizesse isso, Moraes se despiria da couraça que o protege — o poder do cargo — e perderia o foro privilegiado. Voltaria a ser um brasileiro comum, embora rico. Especulando: que condições deveriam estar presentes para que Moraes tomasse tal decisão? Duas: a convicção pessoal de que é inocente e a certeza de que teria um julgamento justo.
Tire o leitor suas próprias conclusões — mas Moraes não apenas permaneceu no cargo, como usou seus poderes para atacar, não para se defender. Atacou o ministro André Mendonça, que havia tornado público o relatório da Polícia Federal (PF) em que aparecem fortes indícios de que Moraes mantinha as tais relações impróprias com Vorcaro. Aliás, “relações impróprias” é a expressão mais leve que se pode aplicar ao caso. Pelos três grandes jornais brasileiros, muitos se referiram a Moraes como advogado, conselheiro ou funcionário do banqueiro que praticou a maior fraude financeira da História brasileira.
No documento em que pede investigação sobre a atuação de Mendonça, Moraes afirma ter encontrado fortes indícios de que seu colega cometeu crime de responsabilidade, improbidade administrativa e abuso de autoridade. Dá cadeia. Com base num relatório interno e apócrifo do PF, afirma que Mendonça extrapolou sua função de relator (do caso Master) para assumir o papel de investigador. Isso ocorreu, diz ele, porque Mendonça, de fato, determinou que a PF investigasse quem era o destinatário de 51 mensagens encontradas nos celulares de Vorcaro. Eram para um número de Moraes. Verificou-se ainda que o ministro respondera a Vorcaro, mas por um sistema que apaga as mensagens depois de lidas.
Temos aqui forma e conteúdo. No formal: Mendonça teria a autoridade legal para determinar a busca à PF? Para Moraes e para o procurador-geral da República, Paulo Gonet, a resposta é não. Consequência: todo o processo é nulo, deve ir para o lixo.
Muitos juristas opinaram sobre o caso. Alguns disseram que a atitude de Mendonça pode ter atropelado o devido processo legal. Outros afirmaram que o ministro relator tem a prerrogativa de mandar investigar. Aliás, no inquérito das fake news, Alexandre de Moraes fez isso diversas vezes — e logo determinando mandados de prisão, busca, apreensão e censura. Mendonça não fez nada parecido. Não pediu a apreensão para perícia dos celulares de Moraes, onde podem estar as respostas a Vorcaro. De todo modo, depois do formal, resta o conteúdo — não contestado nem por Moraes, nem por Gonet. E o conteúdo é devastador.
De maneira que ficamos assim: de um lado, Mendonça recomenda a investigação de Moraes, com base no relatório (oficial) da PF que apanhou as 51 conversas entre o ex-banqueiro e o ministro. Os crimes apontados são advocacia administrativa, corrupção, prevaricação e exploração de prestígio. Dá cadeia. De outro, Moraes pede a investigação de Mendonça, por vícios formais no processo.
O presidente do STF, Edson Fachin, chamou os dois processos para seu gabinete. E deu prazo de cinco dias úteis para que todos os envolvidos se manifestem. O pessoal do abafa, a longa fileira de autoridades que se beneficiaram do dinheiro de Vorcaro, já está em campo. A tese: um caso anula o outro, um empate. Assim, segue o argumento, ou os dois ministros estão inocentados ou os dois devem ser punidos.
Não poderia haver ofensa maior ao povo brasileiro. Não há empate. Um ministro aparece como interlocutor e consultor de um fraudador do sistema financeiro. Esse é o conteúdo. Outro ministro talvez tenha ido além de sua autoridade formal. Parece claro, mas já ofenderam o povo tantas vezes.
O poste mijando no cachorro. A cara, atrasada e ideológica Justiça do Trabalho, ignora, reiteradamente, as decisões do STF. E tudo fica por isso mesmo a favor da insegurança jurídica, desperdício de tempo e dinheiro dos empreendedores, empresários e investidores
A RECALCITRÂNCIA DO TST, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O Supremo Tribunal Federal (STF) virou uma espécie de balcão de reclamações contra as decisões da Justiça do Trabalho. E o Tribunal Superior do Trabalho (TST), a mais alta corte do ramo laboral do Poder Judiciário, é quem encabeça o ranking de queixas por descumprimento de precedentes – ou seja, decisões vinculantes – da Corte Constitucional do País.
De acordo com dados do painel estatístico Corte Aberta, do STF, o número de reclamações contra sentenças de instâncias inferiores bateu recorde em 2025. Foram apresentadas mais de 14 mil queixas, superando o montante de habeas corpus, talvez o mais importante remédio constitucional, haja vista que é o instrumento que busca garantir um dos mais sagrados direitos, o de ir e vir.
As reclamações contra as decisões da Justiça do Trabalho e do TST têm empurrado, ano a ano, esses números para cima. Em 2025, foram 5,8 mil queixas em Direito do Trabalho, sendo nada menos do que 1,5 mil contra sentenças do TST. Não à toa, o ramo assumiu a dianteira do ranking por três anos seguidos, sem dar sinais de arrefecimento.
Na prática, isso quer dizer que uma das partes em processos que tramitam em Varas do Trabalho, Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) e TST se sentiu tão lesada com uma decisão proferida que não lhe restou alternativa senão ir diretamente ao STF para que um direito seu fosse preservado ou restituído.
Não raro nesses processos são discutidos temas sensíveis já pacificados, como a terceirização irrestrita, ou ainda pendentes de julgamento no Supremo, como a pejotização e a uberização. E, como quase metade dos pedidos nas reclamações contra sentenças trabalhistas é julgada procedente, a recalcitrância da Justiça do Trabalho e, pior, do TST na violação de precedentes da Corte Constitucional e, por consequência, dos direitos dos jurisdicionados é bastante preocupante.
De um lado, os advogados, quase sempre de empresas, precisam acionar o Supremo para fazer valer para seus clientes o que já foi decidido pela própria Corte, mobilizando recursos para reivindicar algo que não deveria nem ser questionado em juízo. De outro, diante da afronta à sua autoridade, o STF precisa mobilizar sua máquina judiciária para decidir mais uma vez sobre algo que já foi decidido anteriormente pelo colegiado.
Os ministros do STF têm reclamado – com razão. Relator do processo que discute a pejotização, Gilmar Mendes escreveu numa de suas decisões que “a controvérsia sobre esses temas tem gerado um aumento expressivo do volume de processos que têm chegado ao STF”, em razão, em suas palavras, da “reiterada recusa da Justiça trabalhista em aplicar a orientação” da Suprema Corte.
Não é de hoje que a Justiça do Trabalho tem sido rebelde: as críticas e a resistência à reforma trabalhista de 2017 já davam sinais de que tempos difíceis estavam por vir. E nada disso é abonador para o Brasil, principalmente por abalar a segurança jurídica, degenerar o ambiente de negócios e prejudicar a geração de empregos. Todos perdem: os empresários, dinheiro, e o STF, tempo.
DOIS JUÍZES “HERÓIS”: TUDO QUE NÃO PRECISAMOS, por Diogo Schelp, no jornal O Estado de S. Paulo
A crise do Supremo Tribunal Federal é fruto de um mal: a existência de ministros que tudo podem e, como deuses intocáveis, acreditam estar acima das leis. Esses juízes supremos não surgiram do nada. Eles foram gerados pela carência da população brasileira por heróis e cresceram (em poder, em número, em ousadia nas decisões monocráticas) porque as instituições, entre as quais o próprio STF, falharam em contê-los.
Decepcionados com os políticos, os brasileiros passaram a olhar para certos juízes como salvadores imbuídos da missão de varrer a corrupção do País ou de fazer justiça social. A tentação de encontrar tais heróis nos tribunais se nutre do desejo de acreditar que só um homem forte, sem precisar prestar contas a ninguém, pode consertar as coisas e fazer “o que precisa ser feito”.
Essa falácia populista encantou tanto a direita quanto a esquerda. Pois nunca houve unanimidade na escolha dos heróis togados. Essa figura se materializou em Joaquim Barbosa, o ministro que relatou o processo do mensalão, julgado em 2012, e, posteriormente, em instâncias mais baixas, em Sergio Moro, o juiz da Lava Jato enaltecido em manifestações de rua.
No governo de Jair Bolsonaro, o processo de heroificação foi transferido para os magistrados que bateram de frente com o presidente em temas como a gestão da pandemia, o sistema eleitoral e o equilíbrio entre os poderes. Um ministro em especial foi alçado ao topo do panteão dos togados: Alexandre de Moraes, aclamado nas redes sociais como “guardião da democracia” ou “herói da República”, e incentivado pelo imperativo “vai, Xandão” a cada decisão – ainda que, por vezes, os meios utilizados por ele fossem duvidosos.
Muitos abusos foram cometidos pelo STF em nome da defesa da democracia, principalmente, no âmbito do inquérito das Fake News, aberto de ofício para, supostamente, proteger a corte. O mesmo inquérito que, na semana passada, Moraes tentou utilizar para se vingar do ministro André Mendonça, que escancarou suas relações potencialmente criminosas com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Eis que, como resultado desse embate, começou a construção de um novo ídolo togado, mas pelo lado oposto: o próprio Mendonça. Tudo o que o Brasil não precisava era de dois juízes “heróis” para energizar torcidas políticas adversárias no momento em que se deveria estar discutindo propostas de governo para o próximo mandato presidencial. Mas a situação está dada e a melhor alternativa é investigar até o fim. As máscaras dos heróis têm que cair.
GASPAR, R$ 100 MILHÕES E A ARTE DE CONFIAR
Incrível mesmo é ouvir certos argumentos na política.
No governo anterior, quando se falava em pedir dinheiro, vinha aquela velha retórica: um monte de explicações, justificativas, promessas, discursos emocionados… e, no final, muita coisa não saía do papel.
Mas agora é diferente.
O prefeito de Gaspar pede autorização para contrair R$ 100 milhões em empréstimos e, aparentemente, a população deve simplesmente confiar.
E o mais curioso é ouvir vereador da base dizer que seus próprios colegas não deveriam ficar pedindo tantas explicações, porque isso seria “excesso de desconfiança” em relação a um prefeito honesto.
Que maravilha!
Chegamos a um novo estágio da política:
quanto maior o empréstimo, menor a necessidade de explicação.
Talvez a próxima sessão da Câmara possa funcionar assim:
— Prefeito, para que são os R$ 100 milhões?
— Confia.
— E os juros?
— Confia.
— Qual será o destino do dinheiro?
— Você está desconfiando?
Pronto. Está resolvido!
Mas existe um pequeno detalhe inconveniente chamado dinheiro público.
Gaspar já possui compromissos financeiros assumidos anteriormente. O atual governo também já contratou ou obteve autorização para novas operações de crédito. E agora se discute mais uma operação de R$ 100 milhões.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:
“Gaspar pode pegar esse empréstimo?”
A pergunta realmente importante é:
“Gaspar terá capacidade para pagar tudo isso sem comprometer o futuro do município?”
Porque empréstimo não é dinheiro novo.
É dinheiro que entra hoje e que a população terá de pagar amanhã — com juros.
E não basta dizer que o município possui capacidade legal para se endividar.
É preciso mostrar a capacidade real de pagamento.
Quanto Gaspar deve atualmente?
Quanto ainda será pago dos empréstimos anteriores?
Quanto será pago de juros?
Quanto representarão as novas parcelas no orçamento municipal?
E, depois de assumir mais R$ 100 milhões, quanto espaço fiscal ainda sobrará caso amanhã aconteça uma emergência e o município precise novamente de recursos?
Porque existe uma ironia perigosa nessa história.
Podemos chegar ao ponto de a Prefeitura precisar de dinheiro para uma emergência, mas descobrir que boa parte da sua capacidade de endividamento já foi comprometida com empréstimos anteriores.
É como administrar uma casa dizendo:
“Não tem problema. O salário dá para pagar.”
Só que, quando chega o fim do mês, boa parte do salário já está comprometida com parcelas.
E ainda aparece alguém dizendo:
“Não precisa perguntar. É só confiar.”
Não.
Quando estamos falando de R$ 100 milhões, não é questão de desconfiar da honestidade do prefeito.
É questão de fiscalizar a matemática.
Se está tudo certo, qual é o problema em explicar?
Se o dinheiro será bem aplicado, mostre onde.
Se a dívida cabe no orçamento, mostre os números.
Se as parcelas não comprometerão serviços essenciais, demonstre.
Porque governar não é apenas conseguir dinheiro.
É conseguir pagar o dinheiro que foi conseguido.
Empréstimo pode, sim, ser uma ferramenta importante para realizar obras, melhorar a infraestrutura e promover desenvolvimento.
O problema não é necessariamente tomar empréstimo.
O problema é tomar empréstimo sem que a população tenha clareza sobre o tamanho da dívida, o custo financeiro e a capacidade futura de pagamento.
Por isso, antes de aprovar mais R$ 100 milhões, o mínimo que se espera dos vereadores é que façam aquilo para o qual foram eleitos:
perguntem, fiscalizem e cobrem transparência.
Isso não é oposição.
Não é perseguição.
Não é “excesso de desconfiança”.
É responsabilidade com o dinheiro público.
Porque o empréstimo pode ser aprovado hoje por alguns vereadores.
Mas as parcelas, os juros e a conta…
esses serão pagos pelos cidadãos de Gaspar.
E, se a pergunta for:
“Mas você não confia na honestidade do prefeito?”
Minha resposta é simples:
Confio que a honestidade merece transparência.
E R$ 100 milhões merecem, no mínimo, muitas perguntas. 😂
Excelente. Não se trata de desconfiança. É respeito. É o essencial ao dinheiro público: transparência naquilo que é de todos e para o bem da maioria.
👏👏👏🥂
A ENCRUZILHADA BRASILEIRA, por Fernando Schüller,
Os acontecimentos da semana levam a uma espécie de encruzilhada brasileira. A estratégia do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), já é conhecida há muito tempo. A cada vez que surge uma denúncia, uma ameaça, uma proposta de investigação, venha ela de onde vier, há um bloqueio. Quer dizer, a estratégia é sempre a mesma: a melhor defesa é o ataque.
Então você tem 52 mensagens do banqueiro fraudador Daniel Vorcaro dirigidas a uma conta chamada “Alexandre de Moraes Brasília”, entre elas revelando eventualmente que o ministro, ou pelo menos esta conta em nome do ministro, passava informações sigilosas sobre uma operação da Polícia Federal contra o próprio banqueiro, que de fato aconteceu um, dois, três dias depois, e que eventualmente orientava ou pedia informações sobre uma eventual fuga para o exterior por parte do banqueiro. Tudo isso, de uma gravidade muito difícil de exagerar, eu diria constrangedora para a República Brasileira. E é isso que está em questão.
Qual é o resultado no final desta semana? Quem acaba sendo alvo de um pedido de investigação no Supremo, utilizando o inquérito das fake news, é o próprio relator do processo, nesse caso, André Mendonça. Quer dizer, quem está tentando investigar e quem busca, eventualmente, que o tema vá ao plenário do Supremo.
Também é Mendonça quem busca um parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) — que não vem, porque pede a anulação de qualquer prova, de qualquer mensagem, de qualquer informação —, é o próprio ministro André Mendonça.
É uma inversão completa de valores na República. Isso aconteceu lá atrás quando o Eduardo Tagliaferro, que era um perito criminal, um peixe pequeno na verdade, fez denúncias graves e acabou ele próprio como réu. Não vai se espantar se esse processo terminar com o próprio ministro André Mendonça — que tenta investigar, que tenta dar transparência a esse processo, que tenta levar ao plenário um pedido de autorização para investigação — virando réu, o que seria uma brutal e mais uma inversão de valores na República brasileira.
NENHUM MINISTRO ESTÁ ACIMA DO SUPREMO, editorial do jornal Correio Braziliense
Nenhum homem está acima da instituição. Essa máxima, elementar numa democracia, tornou-se a questão central para o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise provocada pelo caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação criminal e expôs divergências entre ministros, Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) num grau de tensão que ameaça contaminar a credibilidade da própria Corte. O Supremo precisa, com urgência, reencontrar o caminho da estabilidade.
Não se trata de proteger seus integrantes nem de blindá-los, mas de preservar uma instituição que ocupa posição central no sistema democrático brasileiro. O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público. A regra deve valer para todos: fatos precisam ser investigados, responsabilidades individualizadas e direitos preservados. Não existem atalhos legítimos no Estado de Direito.
As investigações sobre o Master são especialmente delicadas porque alcançaram extensa rede de relações empresariais, jurídicas e políticas. Quando integrantes da mais alta Corte entram em confronto por decisões ligadas a uma investigação dessa dimensão, o problema imediatamente se torna institucional. Divergências jurídicas são naturais num tribunal colegiado. O que não é normal é a impressão de que decisões judiciais, investigações e medidas policiais possam ser movimentos numa disputa entre magistrados.
Existe o risco de transformar o Supremo simultaneamente em personagem, investigador, vítima e juiz de fatos que eventualmente alcancem seus integrantes ou pessoas próximas a eles. A resposta para esse problema não pode ser corporativa. Se existem suspeitas, devem ser investigadas segundo a lei. Se forem falsas, os atingidos têm direito à reparação. Se houver irregularidades, ninguém deve receber tratamento privilegiado em razão do cargo que ocupa.
O mesmo rigor vale para Daniel Vorcaro e eventuais colaboradores. Delação premiada não é sentença nem prova suficiente para condenação. As declarações precisam ser confirmadas por provas independentes. Da mesma forma, PF e Ministério Público precisam atuar com autonomia, sem submissão aos interesses dos investigados ou às disputas políticas e institucionais.
A crise também expõe um problema anterior ao Master: a excessiva personalização do Supremo. O STF passou muitas vezes a ser identificado pelos nomes dos ministros, e não pela força de sua jurisprudência. Essa inversão precisa acabar. O Supremo não pertence aos seus 11 integrantes. Cada ministro exerce temporariamente uma parcela do poder conferido pela Constituição à instituição. Ministros passam, a Corte permanece.
Defender o Supremo, portanto, não significa defender automaticamente qualquer ministro. Pode significar investigar seus integrantes, reconhecer impedimentos, corrigir decisões e impor limites. A transparência fortalece o tribunal, enquanto o corporativismo o enfraquece.
Nada será mais destrutivo para sua legitimidade do que consolidar a percepção de que existem dois padrões de Justiça: um para os cidadãos e outro para as cúpulas do Estado. O caso Master tornou-se um teste para o STF. O Congresso não pode usar a crise para intimidar ministros, mas a Corte também não pode responder às críticas legítimas refugiando-se numa fortaleza corporativa. A saída está na colegialidade, na transparência, no respeito às competências constitucionais e ao devido processo legal.
É preciso despersonalizar o conflito. Nenhum ministro é maior do que o Supremo, assim como o Supremo não está acima da Constituição. Sua autoridade será preservada se demonstrar que a regra fundamental da República vale para todos: ninguém está acima da lei.