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PARA QUE SERVE UMA OPOSIÇÃO? PARA FOMENTAR O DEBATE, DESACOMODAR, E PRINCIPALMENTE, DIMINUIR A CHANCE DO GOVERNANTE DE PLANTÃO SE TORNAR UM AUTORITÁRIO, SER PAR DE GRUPOS DE ESPERTOS E APROVEITADORES DO PODER. É PARA SE ERRAR MENOS CONTRA SEUS GOVERNADOS. EM GASPAR MESMO SENDO FRÁGIL, A OPOSIÇÃO É UM PROBLEMA A SER ELIMINADO PELOS NOVOS DONOS DO PODER

Hoje é leve. Esta semana, recebi de um leitor – que os poderosos de plantão daqui dizem que não os tenho neste blog -, votante e apoiador dos candidatos vencedores Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL, um recorte de um vídeo-entrevista de um famoso economista liberal. O economista visto com tucano – um tipo de político desaparecido do cenário brasileiro – ainda é referência nas suas ideias e opiniões públicas.

No vídeo, o entrevistado explicava – e isso já é história provada, nada de tese ou narrativa nisso – o porquê dos maiores perdedores da Segunda Grande Guerra Mundial, como a Alemanha e o Japão terem eles próprios se reinventados e se tornaram potências econômicas em tão pouco tempo depois de larga destruição física, sistemas e politicamente. Na mesma comparação, e por outro lado, os vencedores daquela Guerra, como a França e Inglaterra, também com danos, patinaram. 

Alemanha e Japão foram destruídos não só como estado. Alemanha virou escombros. O Japão se sucumbiu com as duas bombas atômicas dos Estados Unidos. Mas, a destruição foi muito maior e principalmente, profunda. Ela também destruiu seus carteis, lobbies e grupos de interesses encastelados sugando, manipulando e usando o Estado e o poder daquelas nações. 

A Inglaterra só conseguiu fazer isso de alguma maneira, mas muitas décadas depois, corajosamente e sob muita pressão contra, incluindo as ruas lideradas pelos sindicatos, com a primeira ministra Conservadora, Margareth Thatcher.

O QUE UMA COISA TEM A VER COM A OUTRA POR AQUI?

Ah, Herculano! Uma coisa não tem nada a ver com a nossa coisa, uma simplória aldeia. Tem, sim. Sempre teve. A humanidade repete ciclos das civilizações: surgimento, conquista, domínio decadência e desaparecimento. Por aqui, a serpente apenas trocou de pele no domínio.

Quando se votou em Paulo e Rodrigo era para mudar. Eles, juravam que tinha capacidade, coragem e iriam fazer isso.E juravam, na verdade, porque ouviam isso nas ruas e devolviam o que as ruas pediam e queriam ouvir. Simples, assim. Marquetagem da malandragem. Ninguém aguentava mais este meio século de mesmice do atraso e praticamente com os mesmos.

Pedro Celso Zuchi, PT, pode ter quebrado parcialmente encanto, pois era isso, que a cidade já naqueles tempos procurava depois da manobra de Francisco Hostins (1989/92), PDC, mas vindo do PP, ter entregado a rapadura pronta para o MDB. A manobra travestida de falsa descência custou caro.  Hostins não conseguiu mais voltar a ser prefeito, apesar de toda a fama que técnicos e profissionais – e não políticos -, construíram para ele. 

Entretanto, está provado: Zuchi apenas trocou de nomes. Com o tempo, para a sobrevivência política, continuidade no poder (mais dois mandatos) e deleite nele, os  donos da cidade de sempre foram ocupando seus espaços. Sem ir muito longe, o PP, por exemplo, o que manda no atual governo de Paulo e Rodrigo, deu quadros e até votos  na Câmara para o PT. Ou alguém esqueceu isto? 

O PP só não participou do governo incompleto de Bernardo Leonardo Spengler, MDB (1997/99) depois que esteve pela última vez solo no poder com Tarcísio Deschamps e Luiz Carlos Spengler (1983/88) deixando a cidade num espanto.

UMA SUCESSÃO DO MESMO SOB VÁRIOS RÓTULOS

O que está acontecendo com o governo de Paulo – nascido no PP – e Rodrigo, bem mais jovem e criado em ambientes mais progressistas como o PV e PDT? Voltamos aos anos 80. 

E logo agora na era digital, da internet, do on-line, dos aplicativos de mensagens e da Inteligência Artificial, em Gaspar, voltamos à Caverna descrita na alegoria do grego Platão (428/347 AC). Qual a razão? Falta comunicação, transparência, planos, liderança e resultados. 

E as queixas, que abundam por todos os cantos da cidade – incluindo as mais de 1.300 indicações num recorde incomum na Câmara de Vereadores para qualquer legislatura até aqui – não chegam ao gabinete do prefeito. E se chegam, são descartadas, ignoradas, embrulhadas ou douradas.

E como se dá isso? Há um governo paralelo de apoiadores e amigos a blindá-lo e tramar vinganças aos que se queixam, expõem ou cobram.

 “É o melhor governo que Gaspar já teve nos últimos 40 anos”, garantem estufando o peito, entre a arrogância e a ameaça. E se apertar, são os mesmos, principalmente do PP, que permearam o governo de oito anos de Kleber Edson Wan Dall, MDB, Luiz Carlos Spengler Filho e Marcelo de Souza Brick, estes dois do PP. Impressionante.

Estes que estufam o peito naquilo que sequer a propaganda oficial não consegue sensibilizar a cidade, cidadãos e cidadãs os modernos bobos da corte? Talvez!

No fundo, penso, é uma conspiração. E qual a razão disso? Como no vídeo que me passaram com uma intenção, mas é explicitamente para outra, Paulo e Rodrigo não cumpriram a promessa que fizeram para ter 52,98% dos votos válidos dos gasparenses contra uma administração que queria continuar e outra de três mandatos que queria voltar. 

Paulo, principalmente, pois ele é o prefeito, o que tem a caneta com a tinta, e Rodrigo, não desmontaram os cartéis, lobbies e grupos de interesses que rondam, ou estão encastelados sugando ou salvaguardando de seus interesses na prefeitura, ou simplesmente extasiados no poder em Gaspar. Nem mais, nem menos. 

Por isso, a cidade se atrasa ainda mais. Assiste as que estão ao seu redor avançar. Resta ao governo ao ser aceleradamente mal avaliado, queixar-se inconformado por seus bobos da corte, quando não ataca. 

O governo se acha mal compreendido e transfere todas as cobranças, como sendo maldades despropositadas de uma oposição que quase não existe por aqui, mas que, vejam só, precisa ser punida e calada. O que mudou, mesmo no atual governo até agora? Só quando houver uma oposição estruturada voltada não apenas para resultados políticos e eleitorais é que o atual governo sairá de um conforto que o engole como algo vencido. Muda, Gaspar!

TRAPICHE

Depois, de pôr a limpo o eterno feudo do PP na secretaria de Agricultura e Aquicultura e tirar do trono de conforto os atuais governantes, o médico veterinário, ex-prefeito de Gaspar (2005/2008) e ex-secretário desta pasta, Adilson Luiz Schmitt, sem partido, mas ex-PL e eleitor do atual governo, voltou à carga, diante reiterada e continuada falta de transparência do governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos do PL.

Ontem, terça-feira, na primeira hora, o ex-prefeito, como um mero cidadão gasparense, protocolou (foto ao lado com o Ouvidor) mais um requerimento – o anterior dele e que o atual governo se viu obrigado a responder e dar soluções aos agricultores gasparenses, tinha sido protocolado há quase dois anos no governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB. 

No requerimento desta terça-feira, Adilson Luiz Schmitt quer saber informações e ter acesso a documentos comprovatórios referentes aos gastos 20ª e 21ª (ou seja, dois anos) da Expofeira de Animais e do Evento Exposição Morfológica do Cavalo Crioulo. Os acontecimentos foram realizados entre os dias 20 e 23 de junho, na Arena Multiuso Francisco Hostins, sob conflitos e dúvidas.

Os questionamentos do documento protocolado nesta terça-feira envolvem mais uma vez a secretaria de Agricultura e Aquicultura. Junto com ela também estão a secretaria de Desenvolvimento, Renda e Turismo, a secretaria de Obras e Serviços Urbanos e o Samae de Gaspar. Não é pouca coisa. Ainda voltarei ao tema. 

O ex-prefeito invocou a lei federal do direito ao acesso a informação do contribuinte, bem como o artigo 82 da Lei Orgânica do Município de Gaspar. Sinceramente? Não era preciso se duas coisas funcionassem minimamente no atual governo e uma delas se prometeu como mote de campanha: atransparência. A segunda, é a comunicação que não é estratégia. Ela é voltada para o varejinho e sem filtros, como o caso do trabalhador sem EPI.

Para não esticar e ainda voltar neste assunto outro dia. 

O que não se entende é como gente comissionada e que gravita no gabinete do prefeito e das secretarias afetadas pelo questionamento Adilson Luiz Schmitt não teve o menor pudor em botar defeitos na iniciativa de um cidadão no seu direito  de pedir. Acha esta gente que os questionamentos são uma declaração de guerra. Credo! 

O que mesmo os servidores do povo, que lidam com o dinheiro do povo, que foram eleitos pelo povo querem esconder? Por que, reiteradamente, apelam para o constrangimento contra o povo que quer se esclarecido? Não era o caso de logo matar a cobra e mostrar a cabeça dela ao povo para que não restasse a menor dúvida? Depois reclamam que estão mal na foto. Muda, Gaspar.

Pronto. O Hospital de Gaspar entrou numa fila com gente de peso que vai passar na frente para ser “acolhido” pelo governo do estado como se espalha no escurinho pela cidade pelos que estão no poder de plantão e há oito meses estão botando nele uma fortuna, sem retorno para a sociedade na mesma proporção e qualidade.

Depois da estadualização do Hospital Ruth Cardoso de Balneário Camboriú numa jogada perfeita pela prefeita Juliana Pavan Von Borstel, PSD, envolvendo o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia, PSD, Joinville se movimenta para fazer o mesmo com o Hospital São José. Só para lembrar. Jorginho Melo, PL, está em campanha para reeleição. Joinville possui mais de 435 mil eleitores. Gaspar: pouco mais de 51 mil eleitores. Noves, fora…

Segunda-feira. No posto de Saúde do bairro Sete Setembro, um cidadão, passando mal, mas, não querendo dar na fila de espera do Pronto Atendimento do Hospital de Gaspar tentou ser atendido. Não havia médico. O máximo, foi olhado por uma enfermeira. Descobriu também, que entre os queixosos, não se distribuía insulina por falta de geladeira.

Entenderam como o caos no Hospital de Gaspar leva o caos para os postinhos e isto deixa o atual governo vulnerável perante a população exatamente na hora de maior necessidade e fragilidade? Quando o governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff,  ambos do PL, vão entender isto que trabalha contra ele próprio. E Quem toca a Saúde em Gaspar para Paulo e Rodrigo? Os mesmos do governo de Kleber Edson Wan Dall, MDB. Muda, Gaspar!

Já não são mais farpas de bastidores pelo poder na Câmara de Gaspar. O mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP, publicou na sua rede social, a foto de um vistoso pavão e com recado implícito a um novato que cria espaços além do seu cercado usando a própria Câmara. A torcida é grande para vê-los se depenando.

Mais um governo do PL vai se desmanchando diante da inércia. É o de Egídio Maciel Ferrari, de Blumenau. Gabinete de delegado não é igual a gabinete de prefeito.

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19 comentários em “PARA QUE SERVE UMA OPOSIÇÃO? PARA FOMENTAR O DEBATE, DESACOMODAR, E PRINCIPALMENTE, DIMINUIR A CHANCE DO GOVERNANTE DE PLANTÃO SE TORNAR UM AUTORITÁRIO, SER PAR DE GRUPOS DE ESPERTOS E APROVEITADORES DO PODER. É PARA SE ERRAR MENOS CONTRA SEUS GOVERNADOS. EM GASPAR MESMO SENDO FRÁGIL, A OPOSIÇÃO É UM PROBLEMA A SER ELIMINADO PELOS NOVOS DONOS DO PODER”

  1. A PARTICULARIDADE DAS TARIFAS NO BRASIL, por Lourival San’Anna, no jornal O Estado de S. Paulo

    A abertura de análise sobre retaliação contra as tarifas americanas não ajudará o Brasil a superar a crise com os EUA. Todo país tem direito à reciprocidade. Mas a experiência mostra que esse caminho não leva aos objetivos almejados.

    No dia 1.º de fevereiro, o governo Trump impôs tarifa de 10% sobre todos os produtos chineses. A resposta da China veio três dias depois, com 15% de tarifas sobre carvão, gás natural liquefeito, óleo e máquinas agrícolas dos EUA.

    Em 3 de março, Trump aplicou mais 10%. A China reagiu com tarifas de 10% a 15% sobre produtos agrícolas. Em 2 de abril, o “Dia da Libertação”, Trump elevou as tarifas em mais 34%, resultando em 54%, para todos os produtos chineses. Em resposta, a China impôs tarifas retaliatórias de 84% sobre produtos americanos em 9 de abril. Trump reagiu no mesmo dia, ampliando a alíquota para 125%. Não contente, no dia seguinte, anunciou tarifa de 145%.

    REPETIÇÃO. A dinâmica foi parecida com o Canadá, embora em menor escala. No dia 4 de março, Trump impôs tarifas de 25% sobre a maioria das importações canadenses e de 10% sobre produtos de energia, explicando que era para reduzir o déficit comercial e frear o tráfico de fentanil – praticamente inexistente naquela fronteira.

    O Canadá retaliou imediatamente, com 25% de tarifas sobre US$ 22 bilhões em produtos dos EUA, e uma segunda fase de mais US$ 91 bilhões a vigorar dentro de 21 dias. Além disso, Doug Ford, premiê de Ontário, província mais populosa do Canadá, elevou em 25% a tarifa sobre as exportações de eletricidade para os EUA. Trump ameaçou dobrar suas tarifas sobre aço e alumínio canadenses, de 25 %para 50 %.Ford recuou.

    Trump concedeu isenções para produtos incluídos no acordo de livre-comércio USMC, que representam 38% das exportações canadenses – num movimento similar à lista de isenções à tarifa de 50% sobre o Brasil, que beneficiou 44% das exportações brasileiras.

    Em 31 de julho, Trump elevou novamente a tarifa sobre produtos não cobertos pelo USMCA, de 25% para 35%.

    Canadá e China até hoje não concluíram acordo com os EUA. Reino Unido, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Vietnã e Filipinas não retaliaram, e concluíram. Há um ingrediente político nas sanções americanas contra o Brasil, ausente em relação a outros países. Isso eleva a dificuldade das negociações. Mas não é do interesse brasileiro introduzir outros ingredientes políticos. Ao contrário. O Brasil deveria acenar com reduções de suas barreiras comerciais.

  2. Estudo americano? Com tantos experts e estudiosos brasileiros da realidade brasileira, qual a razão de não se ter estudos sérios aqui ou ao menos com dados divulgados para debates, reflexõese soluções entre nós de algo que prospera e degrada a sociedade ao mesmo tempo que enfraquece o estado, o cobrador da derrama?. Medo ou convivência? Depois que sociólogos da esquerda do atraso se pronunciaram a favor da cultura do assalto… Leia e fique estarrecido

    DERROTAR FACÇÕES CRIMINOSAS EXIGE POLÍTICA NACIONAL, editorial do jornal O Globo

    Durante muito tempo se acreditou que o domínio de vastas extensões do território nacional por organizações criminosas fosse um problema restrito às comunidades e regiões conflagradas do Rio de Janeiro e uma ou outra cidade brasileira. Um estudo recente de pesquisadores das universidades de Chicago e do Wisconsin, publicado pela Cambridge University Press, desfaz esse mito. A pesquisa estima que aproximadamente 26% da população brasileira, entre 50,6 milhões e 61,6 milhões, está submetida às regras das facções do crime organizado — algo como uma Itália sob o jugo das máfias. De acordo com a análise, realizada com base em sondagens do Latinobarómetro, o Brasil é disparado o país com a maior presença de facções criminosas no continente (a segunda colocada é a Costa Rica, com 13% da população sujeita ao governo do crime).

    Há várias explicações para a persistência dessa realidade trágica. As organizações criminosas ocupam o espaço do Estado em várias dimensões. Não só no controle de serviços públicos, como fornecimento de gás, coleta de lixo, transporte ou sinal de telefonia e internet. Mas também pela imposição de leis e “tribunais” próprios, de um sistema de governança que anula a principal prerrogativa do Estado — o monopólio do uso legítimo da força.

    Paradoxalmente, quando consolidam poder, as facções acabam por reduzir a violência. Não é outro o motivo, dizem os pesquisadores, para haver conexão entre a queda das mortes violentas em São Paulo nos anos 2000 e a expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do país. A hegemonia da facção estabelece uma “paz” negociada com outros grupos, impõe maior silêncio às comunidades e facilita acordos espúrios com as autoridades policiais. Mata-se e rouba-se menos, para que os negócios ilegais transcorram sem atropelo. O fluminense Comando Vermelho (CV) usa os mesmos métodos. A pesquisa relata a expulsão, no Amazonas, de dois homens punidos pelo CV por bater em suas mulheres. Não interessam ao crime ocorrências que exijam a presença da polícia.

    A pesquisa também constata outro paradoxo: a associação entre o aumento da repressão pelo Estado e a ampliação dos domínios do crime. Na esteira de operações policiais sem critério nem planejamento, cujo objetivo é apenas demonstrar força e cujo resultado costumam ser tiroteios irresponsáveis que matam moradores, a população passa a aceitar a aparente tranquilidade do controle pelas facções, mesmo que falsa.

    A operação movida na semana passada contra o PCC aponta um caminho promissor para derrotar as facções. O estudo fornece ainda mais argumentos para que o poder público combata o crime organizado com base na cooperação entre diferentes esferas do governo, em investigações e inteligência, dando prioridade ao sufocamento das finanças das quadrilhas. É um trabalho que precisa ser executado com apoio de outros países, dada a expansão internacional do crime. A pesquisa mostra, por fim, por que é urgente e necessária a agenda legislativa que permita coordenação no combate ao crime. Em especial, a PEC da Segurança, que promove articulação entre governos federal e estaduais, e a nova Lei Antimáfia, que cria mecanismos para enfrentar uma criminalidade hoje mais organizada que o próprio Estado.

  3. IMAGINE AS CRIANÇAS, por Carlos Andreazza, no jornal O Globo

    A Economist já fez o foguete do Brasil decolar. A estátua do Cristo ganhava os céus como expressão de destino glorioso e inevitável. Numa época em que foguete não dava ré. Deu.

    O País – agora com o mito chifrudo – está novamente na capa da revista. Daria lição de maturidade democrática. O País – do orçamento secreto – daria lição de maturidade democrática. O do juiz empresário, do juiz líder de bancada, do juiz justiceiro – daria lição de maturidade democrática. Etc.

    Esse seria exercício infinito; e desnecessário. Bastará ler a reportagem para compreender que a Economist ignora o Brasil. O País – esmagado entre lulismo e bolsonarismo, e com liberdade defendida pelos métodos xandônicos – é retratado como “um exemplo para a recuperação de países afetados pela febre populista”. A febre populista brasileira dura mais de 20 anos e já contaminou as eleições de 2026.

    O objeto da matéria é o julgamento do golpista Jair Bolsonaro. Esse é o objeto explícito. Há o implícito: a situação institucional dos EUA, o Brasil superficial como escada a que a revista manifeste seu inconformismo por Trump ter podido se eleger presidente. A inelegibilidade de Bolsonaro, fetichizada, desejada para o outro, produz distorções como aquela segundo a qual os dois países pareceriam “estar trocando de lugar”.

    “Os EUA estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários.” Como se o que ocorre lá – a degradação americana – tornasse o Brasil menos corrupto, protecionista e autoritário. Os EUA se aproximam do Brasil, estruturalmente corrupto, protecionista e autoritário.

    Corrupto – e com o combate à corrupção submetido à repercussão geral das anulações de Dias Toffoli. Protecionista – as nossas empresas, incapazes de competir, tendo assegurados os seus direitos à improdutividade. E autoritário – o estado democrático de direito garantido pelo delegadão cuja mão firme se constituiu na fonte do Direito.

    “Paradoxalmente, uma tarefa fundamental é controlar o STF, apesar de seu papel como guardião da democracia brasileira.” O caso da existência de uma Corte que, sendo protetora da democracia, precisa ao mesmo tempo ser controlada. A Economist nega o que enuncia.

    “Às vezes, os próprios juízes iniciam processos, incluindo um inquérito sobre ameaças online, algumas delas contra o próprio tribunal – tornando-o vítima, promotor e juiz.” Mais: “Há amplo reconhecimento de que juízes não eleitos, com tanto poder, podem corroer a política, bem como salvá-la de golpes”. Podem, com tanto poder. Podem tudo. Podem até golpear a política salvando-a de golpes.

    Esse jogo de sorte – ou de azar – não perturba a revista porque, tendo marcado seu ponto sobre os EUA, está se lixando para o Brasil. O que a conclusão “apertem-o-cinto-o-piloto-sumiu” confirma: “Pelo menos temporariamente, o papel do adulto das Américas mudou para o sul do continente”. Ou seja: não há adultos. Ou: se o adulto é o Brasil, imagine as crianças.

  4. A CÉSAR O QUE NÃO É DE CÉSAR, por Vinicius Torres Freire, no jornal Folha de S. Paulo

    São importantes as operações policiais deflagradas contra o PCC. A infiltração da economia formal e do próprio poder público pelo crime organizado é um fenômeno que precisa ser combatido com urgência, já que, quanto mais avança, mais difícil se torna seu enfrentamento.

    É pena que a boa notícia institucional tenha sido maculada pelo que parece ser uma disputa eleitoreira entre Lula e Tarcísio de Freitas, que provavelmente se enfrentarão no pleito presidencial de 2026, pela paternidade das ações.

    Apesar de lamentável, o episódio ilustra bem um dos problemas da democracia. Na maioria das situações, o eleitor atua no escuro. Isso é óbvio quando os cidadãos escolhem alguém novo para um cargo. Os mais conscienciosos ainda procurarão se informar, analisando o passado e as ligações do postulante, mas a maioria não se dá ao trabalho, formando seu voto por outras vias.

    No caso de reeleições, o cidadão opera com uma carga maior de informações, já que teve a oportunidade de avaliar o desempenho do governante. É esse o motivo por que alguns cientistas políticos são contra o fim da reeleição. Nós eliminaríamos uma das poucas situações em que o eleitor não agiria às cegas.

    O problema é que não é tão fácil separar o que, numa administração, resulta de virtudes ou de vícios do governante e o que se deve a outros fatores. Essa é uma tarefa difícil até para cientistas montados em toneladas de dados. De um modo geral, o eleitorado acaba recompensando ou punindo o gestor por coisas que ele não fez ou sobre as quais tem parcela diminuta de responsabilidade.

    É bem esse o caso dessas operações anti-PCC. Elas foram conduzidas por órgãos como o Ministério Público paulista, PF e Receita Federal, que são compostos por servidores com carreira de Estado e que operam com grande autonomia. Em muitos casos, até para evitar vazamentos, só informam suas chefias políticas das operações vindouras na undécima hora.

    A democracia funciona não porque gere bons líderes, mas porque assegura transições pacíficas de poder.

  5. MEGAOPERAÇÃO MIRA PILARES QUE SUSTENTAM O PCC, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    Os números da operação deflagrada na quinta-feira (28) contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) evidenciam seu caráter superlativo. Uma força-tarefa com 1.400 agentes mirou mais de 350 alvos entre pessoas físicas e jurídicas em oito estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.

    Nomeada de Carbono Oculto, é a maior operação do país em cooperação institucional e escopo, segundo a Receita Federal. O foco está no setor financeiro da facção criminosa, em especial os recursos oriundos de sua penetração nos mercados de metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol.

    Mais de 1.000 estabelecimentos ligados ao PCC movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, de acordo com o fisco. A investigação aponta para a sofisticação no manejo de fundos de investimento e pequenas fintechs de aluguel, pouco ou nada reguladas, para dificultar o rastreamento do dinheiro.

    Revelam-se, ainda, zonas cinzentas entre recursos de atividades ilícitas e lícitas, dado que o grupo controla posições estratégicas nos setores financeiro e comercial —descobriram-se centenas de controlados pelo PCC vendendo combustíveis adulterados.

    A iniciativa ensina que operações respaldadas por anos de inteligência investigativa são capazes de produzir mais e melhores resultados contra essas organizações do que atuações teatrais baseadas na exibição, não raro abusiva, da força policial.

    Sem um único tiro, agentes estaduais e federais desnudaram uma parcela bilionária da economia do crime, por meio do conhecido mecanismo de rastreamento do dinheiro das facções.

    A presença do crime organizado na Faria Lima (avenida paulistana que concentra sedes de bancos e empresas) já vinha sendo notada pelo mercado financeiro.

    Em junho, a Folha entrevistou profissionais que lidam com o chamado “risco PCC” —a infiltração da facção nas atividades de investimento, a partir de brechas na regulação das fintechs.

    Foi-se o tempo em que organizações criminosas se ocupavam apenas de fraude, tráfico e contrabando. Nos últimos anos, tudo indica, elas buscaram diversificar seus negócios, atuando na cadeia de fornecimento de combustíveis, em garimpos na amazônia e até em licitação de transporte público —como apurou a Operação Fim da Linha, em abril de 2024, na capital paulista.

    Trata-se de uma expansão tentacular que afeta diversos setores e, por isso mesmo, demanda ações integradas entre Poderes e esferas de governo, com fiscalização efetiva e inteligência policial.

    A megaoperação ainda deve gerar novos desdobramentos, e o esforço para minar o PCC e outros grupos, como o Comando Vermelho (CV), precisa ser contínuo e no longo prazo, acompanhando as mudanças tecnológicas e nos mercados. Se o crime se moderniza, as forças que o combatem também precisam fazê-lo.

  6. A RUA COMO TERMÔMETRO: O QUE O POLÍTICO PRECISA OUVIR, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral do município de Gaspar (2005/08), graduado em Gestão Pública pela Udesc. Artigo originalmente publicado nas redes sociais do autor.

    Meus filhos me dizem que sou o melhor pai.

    Meus familiares me tratam como um grande irmão, tio, sobrinho.

    Meus clientes me veem como o melhor profissional.

    E meus amigos asseguram que sou o melhor amigo.

    Esses julgamentos me confortam, mas também me alertam: a proximidade tende a distorcer a realidade. Quem convive de perto mistura afeto, lealdade e interesse, e raramente enxerga de forma crítica. Confiar apenas nesses olhares é viver em uma bolha.

    E é justamente aqui que chamo a atenção dos políticos: seus assessores, aliados e amigos não são a rua. Eles dificilmente trarão más notícias. O nomeado não critica porque teme perder o cargo. O aliado silencia porque depende dos favores do poder. O familiar e o amigo, por amor ou gratidão, suavizam a crítica. E muitas vezes, é o próprio governante quem foge da verdade, por medo de ouvir que está no caminho errado.

    Max Weber já nos lembrava que o poder só se sustenta quando encontra legitimidade no olhar da sociedade. Norberto Bobbio advertia que a democracia exige transparência e mecanismos que revelem a opinião real do povo. Pierre Bourdieu, por sua vez, apontava que o poder simbólico cria ilusões que afastam o governante da realidade concreta.

    E a realidade concreta não está no gabinete. Está na rua. O governante que se fia apenas nos relatórios e discursos de seus próximos pode até se sentir forte, mas é a rua que dita a legitimidade de um governo. A história política mostra isso: Bush pai ignorou pesquisas que apontavam o peso da economia na vida do povo e perdeu a reeleição. Dilma Rousseff minimizou os sinais de queda de confiança popular e viu seu governo desmoronar.

    E Gaspar, assim como toda a região, não é diferente de outros lugares do mundo. Aqui também, o político que confia apenas nos aplausos dos próximos pode se enganar. É na rua, no olhar da população, que se encontra o retrato fiel da sua gestão.

    Por isso, a pesquisa séria é o verdadeiro termômetro de um governo. Não é luxo, não é detalhe, não é capricho de consultores: é a única ferramenta capaz de romper a bolha do poder e mostrar como o povo realmente enxerga a administração.

    Político, olhe para a rua. Aplaudem você dentro do gabinete, mas nas calçadas pode ecoar um silêncio pesado ou até vaias que seus assessores não têm coragem de contar. Quem governa para a bolha corre o risco de ser abandonado pelo povo.

    E lembre-se: a rua sempre fala — e fala mais alto que qualquer assessor.

  7. Ler este texto e o seguinte, mostra – e faz refletir – como os políticos nos usam – com o bilhões dos impostos dos brasileiros – descaradamente para se elegerem e eleitos servem a outros interesses que não exatamente ao do estado brasileiro que nos cobra pesados impostos, mas que os sonega, transferindo essa carga ainda mais para as nossas costas, os verdadeiros burros de carga.

    AS MÁFIAS E A BLINDAGEM, por Vera Magalhães, no jornal O Globo

    Poucas vezes a realidade assolou de forma tão definitiva um plano dos políticos para enfiar goela abaixo da sociedade um projeto inaceitável. A deflagração da Operação Carbono Oculto mandou para a lata do lixo a vergonhosa Proposta de Emenda à Constituição que visava a tornar os parlamentares cidadãos acima de qualquer investigação, ainda que sob suspeita. O que a ação conjunta da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério Público desnudou foi uma sofisticada engrenagem financeira, com óbvios sustentáculos na política e no próprio aparato estatal ainda por aprofundar, comprovando que não há mais ambiente a salvo do crime organizado.

    A coincidência entre a revelação da teia complexa de crimes — com um braço bilionário de movimentação de recursos ilícitos por meio de fintechs bem instaladas em endereços nobres — e a pressa com que deputados agiam para tocar adiante a PEC da Blindagem foi fatal. Jogou por terra a desfaçatez daqueles interessados em impunidade, que, até a véspera, enchiam a boca para evocar a Constituição de 1988 e a pomposa palavra “prerrogativas” para disfarçar os reais objetivos.

    Um exercício simples permite entender a relação óbvia entre a blindagem que se buscava e o tamanho da infiltração do crime na economia e na política. Uma vez aprovada a proposta, haveria praticamente um convite irrecusável para que as facções dispensassem intermediários e passassem a financiar diretamente campanhas eleitorais de seus dirigentes mais graduados, para que ganhassem uma camada de proteção contra investigações a mais enquanto desfilariam nos fofos carpetes do Congresso.

    O desgaste para a já depauperada imagem da Câmara não poderia ser maior. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), mais uma vez mostrou tibieza em sua liderança, ao deixar correr solta a articulação para uma proposta indecorosa sob o argumento frágil de “vontade da maioria”. Da mesma forma como surgiu das profundezas das gavetas, a proposta morreu, porque a ousadia quando é demais impede o intento.

    E Motta ficou, de novo, à deriva. Já são sete meses de incapacidade de mostrar pulso para domar bancadas indóceis, obcecadas por pautas de interesses paroquiais ou claramente contrários ao interesse público. Caberia a ele dar o norte dos trabalhos da Casa, em vez de ficar sempre preso ao cálculo de ficar bem com este ou aquele partido, alheio às necessidades do país.

    Ao mesmo tempo que feriu de morte a PEC, a Operação Carbono Oculto mostra a urgência de outra proposta, batizada ainda informalmente de Projeto de Lei Antimáfia. A trama desvendada ontem descreve como num dicionário o que vem a ser a atuação de uma organização mafiosa.

    O fato de a investigação só ter sido possível graças à coordenação entre múltiplos órgãos federais e estaduais reforça a necessidade de uma agência que atue junto à PF, à Receita, aos Ministérios Públicos Federal e estaduais e às polícias dos estados para permitir o estrangulamento financeiro e a persecução judicial eficaz dessas organizações criminosas e de seus líderes.

    Cabe ao Ministério da Justiça bancar as pressões e levar adiante a proposta na íntegra. Interesses corporativos não podem se sobrepor à evidência de que as organizações criminosas se sofisticaram e avançaram a tal ponto que os instrumentos convencionais não são suficientes para combatê-las de igual para igual. Criar novos mecanismos legais e de investigação, endurecer penas e estrangular financeiramente as facções mafiosas são tarefas urgentes.

    O sucesso da operação deve servir de piloto para a resposta mais definitiva. E o Congresso tem uma oportunidade de limpar sua barra e votar uma proposta que realmente interessa à sociedade como um todo.

  8. Sinal amarelo. Se não há contaminação, há lobbies do crime organizado sob vários disfarces no parlamento. Isto tem sido denunciado com mais frequência. Quem escolhe os membros parlamento seja os de Brasília, estados e municípios? Nós!

    A CONIVÊNCIA DO CONGRESSO SOBRE DEVEDOR CONTUMAZ ABRIU BRECHA PARA O CRIME ORGANIZADO, por Maria Cristina Fernandes, no jornal Valor Econômico

    Há oito anos, começaram a tramitar no Congresso os primeiros projetos para tipificação do devedor contumaz. Não são contribuintes inadimplentes ou sonegadores comuns. São contumazes. Quando autuados, passam a operar por outros CNPJs.

    Na ausência desta tipificação, o crime organizado se espraiou pela economia formal, principalmente no setor de combustíveis, valendo-se, além da sonegação contumaz, de mercadoria desviada, depósitos clandestinos, fraudes nas alfândegas, venda fictícia e empresas fantasmas. A operação Carbono Oculto deixou claro que o crime organizado se instalou na brecha aberta aos devedores contumazes que contou com a conivência do freio parlamentar.

    Ao longo desse período, ergueu-se uma muralha no Senado, que, sucessivamente, barrou cinco projetos, dois de ex-senadores, Ana Amélia (PP-RS) e Jean Paul Prates (RN-PT), e outros três dos senadores Veneziano Vital do Rego (MDB-PB), Efraim Filho (PP-PB) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

    O senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou, pelo menos, três emendas a esta tipificação introduzindo o Cade e as agências reguladoras, velhos feudos do Senado, como instâncias de arbitragem desta tipificação e preservando a competição de setores com “forte influência estatal”, uma alusão à Petrobras.

    Ao longo desta tramitação travada, as brechas se diversificaram. No Amapá, por exemplo, surgiu um corredor de importações que permitia ao combustível o pagamento de uma tarifa mínima no Estado antes de seguir para outros portos onde informavam que o imposto já havia sido recolhido. Quando o Confaz suspendeu a farra, o Amapá havia se transformado no maior importador de diesel russo do país.

    Por trás da tentativa de aprovar uma tipificação para o devedor contumaz está o Instituto do Combustível Legal, que reúne algumas das maiores empresas do setor. Foi o ICL também que forneceu, ao Ministério Público de São Paulo, ao Ministério da Justiça e à Receita Federal as informações que, há oito meses, subsidiaram o início da montagem das operações Carbono Oculto, Tank e Quasar.

    Nesta quinta, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comentou o avanço que a aprovação do projeto hoje relatado pelo senador Efraim Filho teria para coibir este crime. “O último texto que ele nos mandou contempla a Receita Federal. Isso seria de grande valia também, porque existe um expediente utilizado pelos criminosos, que é o de abrir e fechar o CNPJ. E você, com a tipificação do devedor contumaz, você vai poder impedir que esse esquema continue operando”, disse o ministro.

    Na operação Solidariedade Tributária, conduzida no início de agosto pela Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, continha uma embrião desta que foi deflagrada nesta quinta. Foram 169 autos de infração para cobrar o ICMS de duas distribuidoras de combustíveis. Há pelo menos outras seis que estão na mira da mesma operação. São distribuidoras de uma empresa no Rio que ainda não apareceu na operação Carbono Oculto. Dos 14 mandados de prisão, apenas seis foram cumpridos. A notícia de que uma operação estava em curso vazou, para o setor, 48 horas antes de sua deflagração.

    Um dos empresários foragidos é Mohamad Hussein Murad, da Copape. Entre os alvos, é um dos mais bem relacionados na política. Um dirigente partidário agiu como intermediário da venda de uma empresa montada em São Paulo pela Copape, com GLP desviado pelo PCC, para um empresário tradicional do setor.

    A realização de duas coletivas, uma em Brasília, capitaneada pelo Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e outra, em São Paulo, sob o comando do Procurador-Geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, chefe do MP-SP, que prestou informações sobre as operações Tank e Quasar, causou estranheza, mas houve colaboração entre os órgãos de investigação.

    O governo federal faturou a operação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou-a de “maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história”. O Ministério da Justiça, a Polícia Federal e a Receita foram acionadas a partir do MP-SP e do próprio ICL. A partir daí, criou um núcleo, de combate ao crime organizado, para este fim. O governador Tarcísio de Freitas fez coisa parecida quando faturou uma operação do MP-SP contra servidores da Fazenda paulista. É do jogo.

    A coletiva conduzida pelo chefe do MP-SP, em São Paulo, contou com a participação do diretor da Receita, Robson Barreirinhas, que, finalmente, deu o troco do recuo a que o Ministério da Fazenda foi obrigado a fazer no Pix no fim do ano passado. Segundo Barreirinhas, seu propósito era atualizar os meios de pagamento cujas movimentações devem ser informadas à Receita. Com isso, as Fintechs seriam incluídas nas mesmas regras dos bancos. A “fake news” do pix, liderada pelo deputado Nicholas Ferreira (PL-MG), acabou revogando a iniciativa que, agora, será retomada pela Fazenda, como anunciou Haddad.

  9. ASFIXIA FINANCEIRA É O MELHOR MÉTODO PARA COMBATER O PCC, editorial do jornal O Globo

    Foi exemplar a operação deflagrada nesta quinta-feira por uma força-tarefa incluindo Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo, com o objetivo de asfixiar financeiramente a facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, considerada a maior do tipo já realizada no país, visa a desmantelar redes usadas para lavar dinheiro do crime organizado. A operação mobilizou mais de 1.400 agentes em oito estados e mirou 350 alvos de busca e apreensão, alguns no centro financeiro paulistano, a Avenida Faria Lima.

    Os detalhes revelados pelas investigações são estarrecedores. Não só pelos volumes expressivos envolvidos, mas pela forma como o crime se infiltrou em instituições dos mais diversos setores da economia. A rede criminosa usava 1.500 postos de combustíveis e controlava 40 fundos de investimentos com patrimônio de R$ 30 bilhões. Tudo o que os postos recebiam — R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024 — era destinado ao PCC. Só os impostos sonegados são estimados em R$ 8,7 bilhões. O dinheiro era lavado e chegava ao sistema financeiro por meio de fintechs. Apenas uma delas, acusada de atuar como banco paralelo do PCC, movimentou R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024. Uma das investigadas tem ações negociadas na Bolsa de Valores B3.

    O elo entre fintechs e crime organizado já estava na mira das autoridades. Reportagem do GLOBO publicada no mês passado mostrou que algumas foram suspensas pela Justiça, acusadas de lavagem de dinheiro para PCC e Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas do país. Suspeita-se que R$ 28 bilhões do tráfico de drogas e de armas tenham sido movimentados nos últimos seis anos por meio dessas instituições. A participação das facções é investigada também no esquema que desviou mais de R$ 800 milhões de oito instituições financeiras que integram o sistema Pix.

    Os tentáculos da rede criminosa desbaratada pela força-tarefa são extensos. Segundo as investigações, os fundos de investimentos controlados pelo esquema compraram um terminal portuário, quatro usinas de cana-de-açúcar (outras duas estavam em aquisição), 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de cem imóveis. A organização negociava metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol. Os combustíveis vendidos eram adulterados.

    Facções criminosas atuam em todo o país e no exterior. As disputas sangrentas pelo controle de rotas do tráfico e pontos de venda de drogas costumam ter impacto nos índices de violência. Mas há muito elas deixaram de agir apenas no mercado ilegal, infiltrando-se em atividades da economia formal. Além de postos de gasolina e fintechs, o PCC mantém participação em imóveis, agências de automóveis, casas de apostas, igrejas, negócios ligados ao futebol e empresas de ônibus.

    Considerando o poder das facções e o alcance de suas atividades criminosas, a forma mais eficaz de combatê-las é pela asfixia financeira. Isso exige longas investigações, envolvendo cooperação e equipes especializadas, já que os esquemas usam artifícios para dificultar o rastreamento do dinheiro sujo. Mas não há outro caminho. A despeito de suspeitas de vazamento e disputas políticas, a operação contra o PCC mostra ser possível reduzir o poder das organizações criminosas mirando em suas finanças. Para combatê-las, o método mais eficaz é atacá-las com inteligência onde são mais vulneráveis.

  10. NO ESCURINHO DO SISTEMA, por Malu Gaspar, no jornal O Globo

    Fazer o que bem entende sem ser cobrado ou punido é o sonho de qualquer um. Mas, para deputados, senadores, governadores, prefeitos, presidente da República, juízes ou ministros do Supremo, é uma causa que ganha status de prioridade sempre que o ambiente político permite. No Brasil, desde que a Lava-Jato fez água, não passa um ano sem que brote no Congresso alguma iniciativa destinada a desmontar o aparato de fiscalização e controle do uso dos recursos públicos.

    Já tivemos a Emenda Constitucional que impedia a prisão de deputados por crimes que não fossem inafiançáveis, a que garantia a parlamentares acesso irrestrito aos inquéritos sobre eles mesmos, inclusive os protegidos por sigilo, além de um projeto que tornava crime chamar de ladrão políticos condenados por corrupção. Esses não passaram, mas outros viraram lei, como o que liberou advogados de ter de apresentar contratos formais para justificar o recebimento de recursos, ou a emenda que afrouxou a Lei de Improbidade Administrativa e dificultou a punição de autoridades por desvios de conduta.

    A ofensiva em curso, o pacote da blindagem, surgiu no gabinete do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), numa noite tumultuada. Um grupo de deputados invadira o plenário em protesto contra a prisão domiciliar de Bolsonaro e se recusava a devolver a cadeira do atual presidente, Hugo Motta (Republicanos-PB), a menos que se votasse a anistia aos presos do 8 de Janeiro. Revezavam-se na invasão, alternando ataques ao STF com críticas ao “sistema” — que, na narrativa da extrema direita, atua para tirar Bolsonaro do jogo eleitoral.

    Foi quando os líderes reunidos no gabinete de Lira perceberam a oportunidade de ressuscitar projetos que tentam emplacar há anos. O primeiro diz que só o próprio Congresso pode autorizar a abertura de investigação sobre parlamentares, até mesmo inquéritos policiais, e o segundo tira do STF o poder de julgá-los, mudando o foro dos processos para instâncias inferiores.

    O foco do Centrão é escapar de investigações sobre desvios de recursos de emendas. Mas o argumento apresentado no calor da hora foi que, só quando estiverem livres do Supremo, os deputados e senadores terão coragem de aprovar a anistia aos presos do 8 de Janeiro (o plano original serviria para libertar também Jair Bolsonaro). O líder do PL, Sóstenes Cavalcante, aceitou o acordo, de que Hugo Motta foi apenas informado.

    A primeira parte do plano, chamada de PEC das Prerrogativas, virou prioridade na pauta da Câmara ontem. A mudança de foro ainda não se sabe se vinga, mas não porque os parlamentares tenham desistido, e sim porque uma ala teme que ficar nas mãos de juízes de primeira instância possa lhes render ainda mais problemas.

    A consequência das mudanças é óbvia: um “liberou geral” para todo tipo de desmando, já que abrir inquéritos contra deputados e senadores ficará praticamente impossível. Também não será surpresa se o crime organizado despejar todo o dinheiro que puder na campanha de 2026 para colocar seus integrantes no Congresso.

    A extrema direita, que se diz pela democracia e enche a boca para acusar Lula de bandido, sabe disso, mas finge que não vê. Os deputados de esquerda — que, diante dos microfones, chamam o pacote de salvo-conduto para os golpistas, mas nos corredores admitem que podem ajudar a aprová-lo — também sabem.

    Para justificar o empenho pela aprovação dos projetos, Sóstenes repete aos quatro ventos que só tenta proteger os parlamentares das chantagens dos ministros do Supremo. Mas quem está chantageando quem, quando e por que, no entanto, ele não diz.

    A única forma de conter essa onda é submeter os parlamentares ao vexame da exposição dos conchavos e à pressão da opinião pública. Foi assim com as últimas tentativas de passar a boiada da impunidade, e é por isso que os dois projetos vêm sendo discutidos a portas fechadas e em segredo. No escurinho do sistema, fronteiras ideológicas deixam de existir, e as causas por que esses guerreiros da democracia dizem lutar simplesmente desaparecem.

  11. A SAIA JUSTA DOS PRECIDENCIAÁVEIS, por Willian Waack, no jornal O Estado de S. Paulo

    Possíveis candidatos de direita para enfrentar Lula ainda não encontraram uma linha clara para definir como seriam as relações com os Estados Unidos caso vençam as eleições. Em parte, caíram na armadilha de acreditar que a crise bilateral seria um problema de Trump com o STF e se resolveria numa vitória contra Lula.

    Nesse sentido, a crise ainda não produziu no Brasil personagens políticos vindos do espectro de direita com uma visão estratégica em relação aos Estados Unidos – desde décadas, ensinam os clássicos, um problema central para definir a própria “identidade” internacional brasileira. Não é simplesmente uma questão de quem está no poder lá ou aqui, seja de esquerda ou de direita. O Brasil revelado pela crise é uma potência decadente em relação ao que já foi no seu próprio entorno geográfico. De novo, não é por estar cercado de governos “amigos” ou “inimigos”. É por ter perdido capacidade de projeção de poder nos seus vários sentidos.

    Do ponto de vista da política doméstica, a mesma crise expôs um país estagnado do ponto de vista institucional por uma permanente situação de desequilíbrio entre os Poderes. Agravada por falta de lideranças com “projeto nacional” em suas várias configurações – até mesmo os estamentos militares têm como única preocupação hoje sobreviver à falta de orçamento para qualquer coisa.

    A lição principal da crise com os EUA até aqui é o fato de que a vulnerabilidade brasileira tornou o País um alvo fácil. E suas vantagens competitivas (na transição energética, por exemplo) estão subordinadas ao grande quadro geopolítico. Nessa situação, exibir a condição de superpotência na produção de alimentos não garantiu ao Brasil o que se poderia chamar de “posição de força” (tem sido o contrário).

    Trump tem exibido uma disposição brutal para frear quem considere adversário utilizando para isso preferencialmente a ferramenta das tarifas, mas acompanhadas de barreiras tecnológicas e financeiras. No jogo pesado geopolítico, não há nada que garanta um tratamento preferencial por parte dos Estados Unidos ao Brasil na eventualidade de um “governo amigo” de direita – é só olhar para o que aconteceu com a “amiga” Índia.

    Em outras palavras, até aqui os presidenciáveis de direita se arriscam a cometer em relação aos Estados Unidos o mesmo erro de Lula em relação aos autocratas e governos de esquerda pelos quais sempre nutriu grande admiração: o de que “amizades” entre países compensam ou mesmo atenuam “interesses”.

    Bolsonaro está deixando para eles uma saia-justa formidável, da qual não conseguiram até aqui se libertar. O interesse nacional cabe ao próprio País decidir, e não ao presidente americano.

  12. O PRAZO DE VALIDADE DO IMPERADOR NERO, por Celso Ming, no jornal O Estado de S. Paulo

    Aos 30 anos, o imperador Nero consultou o oráculo de Delfos sobre o seu futuro e ficou eufórico com a resposta que lhe passara a pitonisa, em nome de Apolo: “Só tens a temer os 73 anos”.

    Nero concluiu que tinha mais 43 anos para gozar a vida e, naturalmente, para cometer impunemente todas as atrocidades que lhe viessem à cabeça. E saiu festejando.

    Enquanto isso, em um recanto da longínqua Espanha, o general Galba treinava em segredo seu exército. Galba tinha, então, 73 anos. E não precisa ser dito aqui o que aconteceu depois.

    Quem contou esse episódio e, com ele, a esparrela em que se metem certos senhores do mundo quando interpretam as mensagens dos deuses, foi o historiador romano Suetônio (69 a 141 d.C.), em sua obra A Vida dos Doze Césares.

    Por um jeito meio torto, esse episódio levanta a pergunta sobre qual será o prazo de validade de outro imperador, o dos Estados Unidos, Donald Trump, e de sua política. Uma sibila qualquer o convenceu de que seria imortalizado com o Prêmio Nobel da Paz se conseguisse acabar com a Guerra da Ucrânia empregando uma mistura de conversas e de ameaças. Mas, na longínqua Rússia, o atual czar, Vladimir Putin, tem outras intenções. Seu objetivo é anexar, se não a Ucrânia inteira, pelo menos extensos territórios seus. Por irônica coincidência, Putin completa neste outubro seus 73 anos. Quer isto dizer que Trump deve temer pelo que Putin lhe vai aprontar?

    Mas este pode não ser o principal erro estratégico a ameaçar seu futuro. Outra pitonisa, Steve Bannon (ex- estrategista e conselheiro de Trump), meteu-lhe na cabeça que seria um presidente consagrado pela História se restabelecesse, com uma profusão de decretos, a antiga grandeza dos Estados Unidos.

    Seu grande equívoco é entender que o retorno da indústria e dos empregos aos velhos e bons tempos possa ser atingido com um tarifaço.

    As tarifas alfandegárias só podem ser aplicadas sobre produtos físicos, como bens industriais, minerais e agropecuários. Não podem ser aplicadas sobre serviços. E, no entanto, nada menos que 79% do PIB dos Estados Unidos é produzido pelo setor de serviços. A indústria pesa apenas 19% e a agricultura por pouco mais de 1,0%

    Por mais que sobretaxe mercadorias industrializadas, Trump não conseguirá obter o efeito desejado, especialmente se sua estratégia exigir, como vem exigindo, um desmonte de toda a arquitetura econômica e de valores construídos no passado. Mas, nessa ordem, as dúvidas são outras.

    No fim das contas, trata-se de saber qual será o limite de validade da política de reviravolta global imposta pelo presidente Donald Trump.

  13. Este texto, mostra, claramente, como estamos reféns e fanáticos de arquibancadas a dois vexames, mentiras e manipuladores populistas. Quando vamos acordar?

    O ÚLTIMO REFÚGIO DOS CANALHAS ESTÁ CHEIO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    Se o patriotismo “é o último refúgio dos canalhas”, como diz o escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784), então esse refúgio está lotado no Brasil. Lulopetistas e bolsonaristas andam se esmerando em transformar esse sentimento de pertencimento a uma comunidade nacional em arma política para fins eleitorais.

    Em reunião anteontem, o presidente Lula da Silva e seus ministros apareceram com um boné azul em que se lia “O Brasil é dos brasileiros”, um constrangedor contraponto governista aos bonés vermelhos Make America Great Again (“Torne a América grande novamente”), o movimento político nacionalista liderado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Ainda estamos a mais de um ano da eleição presidencial, mas já é possível antever que essa patacoada será o grande mote do lulopetismo na campanha.

    O patriotismo fajuto que Lula abraçou não tem qualquer relação com os reais interesses e necessidades da Pátria. Ao presidente e seus marqueteiros só interessa explorar eleitoralmente o elo afetivo dos brasileiros entre si e deles com o lugar em que nasceram ou escolheram viver, no momento em que o Brasil é agredido pelos EUA de Trump. No limite, Lula quer se confundir com a própria ideia de pátria, e não à toa, na reunião ministerial, a título de reafirmar sua disposição para defender o Brasil contra os EUA, leu um discurso de Getúlio Vargas, o autocrata que quis inventar uma identidade brasileira moldada conforme seus propósitos autoritários. Nesse discurso, Vargas denunciava “forças internacionais” que se uniram aos “eternos inimigos do povo humilde”, que “procurarão, atingindo minha pessoa e o meu governo, evitar a libertação nacional e prejudicar a organização do nosso povo”.

    Como se percebe, Lula se vê como Vargas, isto é, como a própria personificação do Brasil e de seu povo – donde se conclui, conforme essa retórica, que qualquer ataque a Lula equivale a crime de lesa-pátria cometido por traidores do Brasil. Não é à toa que o slogan do governo, apresentado na reunião, passará a ser “Do lado do povo brasileiro”, que substituirá o “União e reconstrução”. Em vez de união, o lulopetismo agora quer que se escolha um lado – o do “povo brasileiro”, obviamente encarnado em Lula.

    Enquanto isso, “patriotas” bolsonaristas, que há anos prejudicam o País, esmeram-se em criar uma crise sem precedentes no Brasil a título de livrar Jair Bolsonaro da cadeia. Nesse sentido, Bolsonaro, como Lula, também se considera a própria encarnação do Brasil, e mobilizar uma força estrangeira – o governo americano – para pressionar magistrados tidos como inimigos do ex-presidente seria, na verdade, um gesto para salvar o País e a democracia brasileira. O Leitmotiv golpista é, portanto, evidente.

    Nenhuma surpresa. O brado retumbante de Jair Bolsonaro – “Brasil acima de tudo” – é tão verdadeiro quanto uma nota de três reais. Dono de um próspero empreendimento familiar, dedicado a fazer dinheiro com rachadinhas e afins sob a proteção de mandatos políticos, Bolsonaro nunca se importou com partidos, com o decoro parlamentar, com a Constituição ou com o Brasil. Seu propósito sempre foi e continua a ser a exploração do ressentimento de eleitores insatisfeitos com a política para acumular patrimônio pessoal. Bolsonaro, que jamais respeitou a farda militar que um dia vestiu e que foi capaz de conspurcar seguidamente o 7 de Setembro, invoca o patriotismo não no sentido de inspirar união e orgulho, e sim com o objetivo de semear o antagonismo, do qual extrai votos e poder.

    Nessa guerra entre patriotas de fancaria, perdemos todos. De um lado, temos um entreguista que, com a expectativa de safar-se da cadeia, pôs-se a serviço de um governante estrangeiro que humilha o Brasil como quem dá um peteleco numa mosca. De outro, temos um contumaz oportunista, convencido de ter encontrado a fórmula para ganhar mais um mandato presidencial sem a necessidade de apresentar programas de governo e soluções efetivas para os reais problemas brasileiros. No meio dos dois estão os brasileiros que amam seu país e só querem um governo decente.

  14. Perguntar não ofende..

    Ofende Dr. Paulo koerich?

    O Sr. Está passando pano para História do Transformador?

    O Sr. Tem cauda presa com alguém?

  15. Carlos Eduardo Bornhausen

    Essa mania de achar que a oposição deveria ser extinta e esse discurso traiçoeiro de que todo aquele que pensa diferente de mim é burro ou está levando vantagem faz muito mal a politica e a sociedade. Pensamentos diferentes existem e nos fazem evoluir como sociedade. Se hoje a direita se queixa aos quatro cantos que não pode manifestar sua opinião sob pena de crimes diversos (mesmo que não tipificados no código civil) muitas vezes fazem o mesmo, com ou sem usar o poder de polícia inerente ao estado. Senão vejamos o que acontece em Gaspar:

    – Quando um “opositor” levanta uma bandeira que não gostamos e o perseguimos, estamos fazendo o mesmo.
    – Quando descobrimos que o nosso vizinho votou em candidato diferente do meu e falamos mal dele, estamos fazendo o mesmo.
    – Quando o empresário dono de um restaurante faz parte do partido que eu não gosto e eu o ataco por conta disso, estamos fazendo o mesmo.

    Seguindo esta linha de raciocínio, de que adianta eu me queixar de ser perseguido se quando eu tenho meios e motivos para fazer diferente eu faço exatamente o que fizeram comigo?

    Apesar da pouca experiência política que tenho, para mim ficou muito claro o modo operante do político tradicional. Ele só briga quando não consegue cargos pra toda a sua trupe. Se o caminho dos comissionados foi liberado, ele vira apoiador do “NOVO PROJETO DA CIDADE porque é isso que o povo precisa”. Os que não se vendem e não se dobram ao poder de plantão são tratados como inimigos públicos e nesse momento, ao invés do governo gastar tempo e recursos pra resolver os problemas da cidade, usam estes mesmos recursos e tempo para atacar, perseguir e difamar os que apontam as falhas. Assim repetimos esse ciclo vicioso que vai afastando as boas pessoas da política e deixando caminho aberto para todo aquele que quer se lambuzar do doce e melado dinheiro do pagador de impostos.

    1. Interessante. É bom saber que alguém em Gaspar pensa – e se expressa, principalmente – para além do seu próprio umbigo, pensando num todo da sociedade onde está inserido.

  16. LULA E TARCÍSIO PEDEM A BOLA, por Vera Magalhães, no jornal O Globo

    O momento do jogo político devolveu a posse de bola a Lula, mas a pergunta que nem seus ministros mais próximos arriscam responder é: ela dura até o apito de final da partida, na eleição?

    A recuperação, em certa medida ainda tímida, da popularidade dele se deu muito mais por circunstâncias externas que por sua capacidade de armar o jogo. Essa é uma das razões que impedem haver otimismo exagerado no governo com os números das pesquisas e os próximos lances da política.

    A outra variável que explica a sensata moderação no otimismo é a economia. Na reunião ministerial de ontem, marcada por recados duros e claros de Lula, o ministro Fernando Haddad fez uma exposição, já na parte fechada à imprensa, sobre o que espera o Brasil neste fim de ano e em 2026. Deixou clara a preocupação com o efeito dos juros altos por prazo prolongado sobre a atividade econômica.

    Por mais que o primeiro efeito político do tarifaço tenha sido reaproximar Lula de setores que estavam de mal com o governo e dar a parcelas do eleitorado a percepção de que ele agiu bem ao defender os interesses e a soberania nacionais, no médio e longo prazos as consequências para as exportações podem transformar a empatia em desgaste.

    A oposição, que vive seu pior momento desde o início de 2024, quando começaram os dissabores de Lula com o Congresso, conta com solavancos na economia para que ele volte a perder popularidade e, consequentemente, o fôlego eleitoral.

    O presidente deixou claro quem imagina ser seu adversário na urna eletrônica, ao citar nominalmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na reunião do primeiro escalão. Ele é um veterano da política, treinado em antecipar a direção do vento, mas nem precisou usar tanto seu instinto, uma vez que, nas últimas semanas, Tarcísio entrou em campo e pediu a bola — metafórica e literalmente, como na partida de futebol com prefeitos que disputou ontem no Pacaembu.

    Sua escalação definitiva ainda depende de Jair Bolsonaro, mais pela lealdade atávica de Tarcísio que pela necessidade de aval para que se viabilize. Os últimos levantamentos mostram que o golpismo continuado da família Bolsonaro vai transformando sua chancela em kryptonita, e não em aditivo para aqueles que buscam conquistar o voto do eleitor do espectro que vai da centro-direita à direta. Funciona integralmente, hoje, apenas para a extrema direita bolsonarista.

    Ao cobrar, na lata, dos ministros dos partidos do Centrão que decidam em que time jogarão, Lula poderá precipitar o movimento que caciques do União Progressista já começaram a fazer: abandonar o vestiário com a partida ainda em andamento.

    Antonio Rueda e Ciro Nogueira, presidentes respectivamente de União e PP, são hoje os maiores cabos eleitorais da candidatura de Tarcísio. Foram os responsáveis por costurar o tombo que o governo levou na composição da CPMI do INSS e estavam em jantar no domingo como avalistas junto a uma plateia de empresários impacientes, garantindo que o governador será candidato ao Planalto.

    O PEDÁGIO CARO DE TARCÍSIO

    Passado o julgamento de Bolsonaro, essas definições eleitorais tendem a ganhar ainda mais urgência e dramaticidade. Lula parece ter compreendido que tem de aproveitar o momento levemente favorável para levar adiante projetos que podem reforçar seu slogan “Brasil para os brasileiros”, em que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil se encaixa perfeitamente.

    O nó é que, para isso, terá de contar justamente com aqueles que, hoje, estendem o tapete vermelho para recepcionar seu principal oponente.

  17. GOVERNO VACILA, MÁFIAS AGRADECEM, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O governo Lula da Silva parece ter despertado da letargia no campo da segurança pública, ainda que por interesse eleitoral. Nos próximos dias, o Ministério da Justiça apresentará ao Congresso um projeto de lei que institui uma legislação antimáfia no Brasil. A iniciativa é bem-vinda e atende a uma necessidade premente: dotar o País de instrumentos legais eficazes para enfrentar organizações criminosas que, há muito, ultrapassaram a condição de meras facções locais para operar como verdadeiras máfias, dentro e fora do território nacional.

    O grande mérito do projeto, ao qual o Estadão teve acesso, é reconhecer a gravidade do problema. O Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras facções cresceram em poderio bélico e econômico e desenvolveram uma enorme capacidade de infiltração no Estado, chegando a dominar territórios e influenciar políticas públicas em várias regiões do País. Não há democracia que resista a esse ataque sem um aparato jurídico e uma coordenação nacional eficientes. Nesse sentido, o governo dá um passo na direção correta ao propor alterações relevantes no Código Penal, no Código de Processo Penal e na Lei n.º 12.850/2013, a Lei das Organizações Criminosas, entre outras.

    Contudo, o governo vacilou e desistiu de incluir no projeto de lei justamente aquilo que era sua espinha dorsal: a criação da Agência Nacional de Enfrentamento às Organizações Criminosas. Inspirada na Direção Investigativa Antimáfia da Itália – um modelo testado e aprovado –, a agência teria a missão de coordenar os esforços nacionais contra o crime organizado, hoje dispersos em disputas corporativas e conflitos de atribuições entre polícias, Ministério Público e órgãos técnicos.

    A exclusão da agência nacional, como revelou este jornal, é resultante do lobby da Polícia Federal (PF), receosa de perder poder, ora vejam, para o Ministério Público. O interesse corporativo mesquinho se sobrepôs à razão de Estado e ao interesse público. Consta que dentro do próprio Ministério da Justiça houve resistências à iniciativa. Uma lástima. Se policiais federais e burocratas de gabinete podem comemorar a reserva de seus nacos de poder, criminosos também têm razões para brindar: seguirão enfrentando forças públicas fragmentadas e, portanto, menos eficazes.

    O argumento da pasta para abandonar a criação da agência nacional seria risível, não fosse tão insultuoso à inteligência alheia: contenção de gastos e espera por uma reforma administrativa. Ora, jamais faltaram recursos públicos para outras ações governamentais infinitamente menos relevantes para a sociedade. Faltam, isso sim, prioridade política e brio republicano do presidente Lula da Silva para, ao fim e ao cabo, fazer valer o melhor interesse da Nação. Essa opção pelo corporativismo custará mais caro: manterá o Estado refém de sua maior vulnerabilidade no combate às máfias brasileiras, a ausência de coordenação centralizada.

    Não obstante, o projeto de lei que chega ao Congresso não é desprezível. Além de redefinir critérios para a caracterização das organizações criminosas e endurecer penas, o texto propõe novos instrumentos jurídicos, como uma modalidade de ação civil que facilitará a perda de bens em poder de criminosos. Se bem conduzido, pode tornar a vida das lideranças do PCC, do CV e de outros bandos bem mais difícil do que é hoje. Mas isso é insuficiente.

    Cabe agora ao Congresso suprir as lacunas do Executivo. O Legislativo deve resistir à tentação de transformar a proposta em palco de disputas partidárias e atuar com espírito público, enriquecendo o texto e recolocando em debate pontos essenciais, a começar pela criação de uma instância nacional de coordenação contra o crime organizado. A experiência internacional mostra que o enfrentamento às máfias exige ação centralizada e instituições blindadas à corrupção e cooptação, comprometidas com o interesse público. Sem isso, quem continuará ganhando essa guerra são os criminosos.

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