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OS SALVADORES DA GASPAR QUE PATINAVAM COMO GESTORES AGORA ESTÃO PERDENDO O SUPOSTO BRILHO DO OURO DOS ANÉIS, MAIS CEDO DO QUE SE PREVIA. AS MÁSCARAS BRILHANTES TAMBÉM ESTÃO CAINDO

No sábado, excepcionalmente e diante dos fatos novos, escrevi um texto com o título acima na área de comentários do artigo “HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM. CHACRINHA DIZIA: “QUEM NÃO SE COMUNICA, SE TRUMBICA”. TEM GENTE QUE NÃO É ORIENTADO, NÃO SE COMUNICA, E QUANDO FAZ ISSO, FAZ SEM CONVENCIMENTO, EXPONTANEIDADE, AUTENTICIDADE, AUTORIDADE E COM CHEIRO DE AUTORITARISMO”, deu a dica. 

Há muito tempo, outros artigos aqui vinham sinalizando a mesma coisa. Todos, devidamente ignorados, desdenhados e rechaçados. É do jogo jogado.

Estou reescrevendo o texto de sábado e tornando-o como sendo o artigo principal desta segunda-feira, o da ressaca, depois da direita, do conservadorismo e do liberalismo levarem neste domingo o primeiro aviso sério das ruas da esquerda do atraso, petismo e lulismo – que estavam envergonhadamente amuados. 

O aviso é de que o parlamento – não só em Brasília, mas por extensão nos estados e municípios – não pode ser abrigo para bandidos, escolhidos pelo povo numa democracia, como quer a tal Projeto de Emenda Constitucional chamado de PEC da Blindagem e ainda no pior dos mundo, pelo voto secretos dos deputados e senadores. Simples assim!

 Tudo isso, à beira de uma nova eleição. Ela se dará no encontro de outubro do ano que vem. Impressionante como, continuadamente, sem lideranças preparadas e fragmentadas, essa gente da direita insiste no voo sem um projeto claro de país, mas apenas de debate, perseguição, rótulos, chicana e quando no poder, sem realizações e mudanças. Trato disso no TRAPICHE.

Antes de continuar a reescrever o texto de sábado, porém, um esclarecimento – mais um – aos que insistem em criar a única verdade salvadora e de me rotular como um problema para os planos de poder ilimitado e à falta de transparência com quem lhes elegeu e lhes paga bem, devo lembrar Oliver Wendell Holmes Jr (1841-1935, ou seja, faz muito tempo). Ele foi um jurista, advogado, professor universitário, juiz da Suprema Corte e filósofo estadunidense. Segundo ele, “desde que o mundo é mundo, liberdade de expressão é para ideias desagradáveis e controversas. Ideias que ‘odiamos‘”.

A DANCINHA “ETÍLICA” DE ALEXSANDRO

Na sexta-feira, depois artigo publicado no blog, ele pareceu ser uma canção de ninar se comparado ao teor explosivo dos vídeos que circularam mais tarde. Ele foram feitos e editados por gente que entende do riscado e da linguagem tik tok do momento. Eles são curtos e bem compreensíveis à galera mais ignorante e que não chega lá, quando consegue ler meus textões. 

Um dos vídeos mostrou o presidente da Câmara, o vereador Alexsandro Burnier, PL, numa “sessão real” e incompatível com o decoro da função. Não é coisa antiga e montada. É dos dias de hoje. Nela, ele simula uma dancinha sensual e serve de misturador para suposta bebida alcoólica. É incrível. Isto aumenta a repercussão devido ao discurso carola Alexsandro, que ampliou os seus próprio vídeos ancorados na religião e na família, para substituir as denúncias que fazia contra o antigo governo para angariar votos para a sua reeleição e quando foi o campeão deles.

Alexsandro gravou um vídeo resposta choroso, dizendo-se que está sendo perseguido por uma suposta oposição e admitiu que virá mais, mas não consegue apontar “quem faz isso contra ele”. A única oposição visto no vídeo até agora, é ele próprio destruindo o seu próprio discurso moralista do bolsonarismo, do PL e da direita. Nos bastidores tenta descobrir quem fez tal material e para processar, ao invés de pedir desculpas a seus eleitores e eleitoras.

Se há alguém que ele devia olhar com cuidado foi quem o filmou naquela cena, incompatível não a um normal, mas a quem prega que isto é um “pecado”. Este é o “xis” da questão.

Em política, avisos não devem ser ignorados. É como a onda de retorno na beira da praia. Ela, quase sempre está ali no mar e sinalizada por experientes Salva Vidas. Os atentos às regras, os conscientes e os frequentadores da área – mesmo que não houvesse a sinalização -, preferem evitá-la [onda de retorno]. E Alexsandro resolveu enfrentá-la. Resultado? Caiu, mais uma vez, a máscara que o político tik toker teima em segurar, como naqueles bailes venezianos.

OS AMIGOS DO PREFEITO

Em outro vídeo, perigosamente, Paulo Norberto Koerich, PL, o delegado (na foto de abertura do blog olhando o vice Rodrigo Boeing Althoff, PL, assinando uma documentação do Hospital de Gaspar em evento público), o homem da lei, é exposto, naquilo que a cidade inteira está sabendo na influência dos seus amigos no governo dele. Como um antigo afamado e hábil investigador não deveria ignorar o que os moradores de Gaspar falam abertamente sobre este assunto.

Eles [os amigos, se a corresponsabilidade de estarem nomeados] invisivelmente – e não escondem isso de ninguém – mandam e desmandam no governo, armam, e enviam recados aos que alertam ou desnudam esta perigosa, inconveniente ou incompatível relação, aliada à inércia e à falta de resultados coletivos do próprio governo que defendem com unhas e dentes por interesses de poder ou de negócios. 

Para quem tinha a fama de investigador, policial e delegado implacável ser igualado publicamente – e tão cedo – ao que sempre disse não concordar e por isso, esperançosamente foi eleito, é o início de uma perigosa comparação humilhante que precisa ser reavaliada urgentemente. Este vídeo, bem didático, abriu a porteira. Passou um boi.

Enquanto isso, parte do corpo administrativo nomeado formalmente e de confiança do próprio Paulo, sofre com o desamparo e armadilhas que não se desarmam, tão iguais ao passado que jurou combatê-las. Ele está sendo levado ao cadafalso. E explico à razão disso.

Há mais vídeos no forno. E não adianta ir atrás de quem os fez. Por quê? Aberta a porteira, acontecem duas coisas: a primeira é a passagem da boiada; a segunda, é a imagem da porteira aberta e os bois passando por ela, imagem que encoraja outros a abrirem novas porteiras para ver os donos dos bois, inertes, ficarem doidos e não saberem quem teve a ousadia de abrir as porteiras dos bretes.

Para concluir. O que este primeiro vídeo está querendo provar? Cinco coisas: falta de transparência, falta liderança, falta de resultados, repetição do que se condenava e a má companhia. Nem mais, nem menos.

O vídeo de sexta-feira passada associando um deles a benefícios dessa aproximação mostrou que o atual governo é tão igual, ou pior do que o derrotado nas urnas em outubro do ano passado. Quem  diria que isto iria acontecer em nove meses de governo? 

O brilho do ouro do anel já se foi e faz tempo. Está-se na fase de se perder os anéis sem brilho. Se não se aprumar, vai se perder com muita dor os dedos, as… E aberta a porteira, a força da boiada não permite mais fechá-la, mesmo que se use a força bruta de contenção, coisa que o governo e seus bruxos arquitetam quando pegos com a mão na cumbuca. Explicar, mudar e se desculpar, nada. Muda, Gaspar!

TRAPICHE

Os Bolsonaros colocaram mais uma vez a direita – não a radical e o bolsonarismo que se confundem nela -, o conservadorismo e o liberalismo expostos e em xeque. Foram os Bolsonaros que com seus exageros (democracia sob controle), confusões (negacionismo), perseguições (Sérgio Moro e tantos outros) e promessas não cumpridas (econômicas e privatizações) que trouxeram ao poder a esquerda do atraso, o petismo e Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.

São os Bolsonaros que conspirando para ficarem livres e ainda continuarem empoderados nos erros que cometeram, que alimentaram à volta as ruas de forma encorpada neste domingo da esquerda do atraso, do petismo com possíveis lucros para a reeleição de Luiz Inácio da Silva, a um ano do referendo disso. Impressionante (a foto ao lado é da Avenida Paulista, em São Paulo.

Foram os Bolsonaros, bolsonaristas e enlameados do dito Centro Democrático (MDB, PP, União Brasil, Republicanos, PSD, PSDB, Podemos Cidadania…), que armaram a PEC da Blindagem como resposta a um julgamento cheio de vícios procedimentais no STF. Um erro não justifica o outro. A PEC da Blindagem é a PEC da Bandidagem. Por ela, nenhum parlamentar – e isso se espraiará por estados e municípios – eleito pelo povo, terá a lei do povo aplicada a ele se a corporação assim não quiser, e ainda mais, sob o silêncio criminoso do voto secreto que ressuscitaram.

A população não quer isso para seus representantes que já fazem gato e sapato contra o Brasil e os brasileiros no Congresso Nacional. A esquerda do atraso – se bem que 12 petistas votaram a favor da PEC da Blindagem – percebeu o erro da direita xucra e dos políticos expertos de todos tipos que vivem enrolados nas explicações de verbas e emendas mal alocadas e usadas pelo Brasil afora, principalmente nos grotões, mobilizou e foi às ruas. Retomou parte do espaço perdido e de há muito. E com uma boa causa, registre-se.

A direita, o conservadorismo e o liberalismo, que é maioria estatisticamente dos eleitores e eleitoras e pêndulo das eleições majoritárias nacionais está, claramente, sem liderança e discurso. Estão reféns dos Bolsonaros que vivem infernizando a vida dos querem um Brasil diferente de Lula e deles. Todos que se apresentam como alternativa aos Bolsonaros, são bombardeados, diminuídos e desclassificados por eles.

O que esperar de um clã que tem um deputado Federal ausente no Brasil conspirando contra o país, a economia, empregos e os brasileiros a partir dos Estados Unidos? O que esperar de um clã, que traz um deles de Brasília para ser vereador do nada em Balneário Camboriú e o quer agora deputado Federal em Brasília para salvaguardar os interesses do clã? O que esperar de um clã que quer eleger um filho vereador carioca como senador por Santa Catarina para fortalecer o poder do clã? A hora é de reflexão. Não só dos catarinenses e que pelas pesquisas de hoje vão atender os desejos do clã e não exatamente os interesses dos catarinenses.

Está batido o martelo. A cara reforma administrativa do governo de Paulo Norberto Koerich, PL, foi apresentada ao secretariado, está aprovada e vai ser encaminhada à Câmara. Dez meses depois da posse. E este lapso de tempo dá a noção da velocidade do atual governo. Não se espera questionamentos e dificuldades para aprová-la. Incluindo as mudanças de remunerações.

Vige! Olhando noticiários, blogs e redes sociais deste final de semana, a direita catarinense bolsonarista ficou exposta. O governador Jorginho Melo, PL, levou a culpa pelo fechamento técnico da ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, aos protestos de lá contra a PEC da Blindagem. A deputada Júlia Zanata, PL, descascou contra o prefeito do PL de Laguna. Em Gaspar, um vídeo colocou Paulo Norberto Koerich, PL, numa saia justa. E o viajante internacional (a terceira em nove meses) prefeito de Blumenau, também delegado, Egídio Maciel Ferrari, PL, virou figurinha fácil nos blogs estaduais. Aliás, em Munique, viu que o desfile da Oktoberfest de lá, há cavalos. E muitos. Aqui, só serão permitidos os da polícia montada. Credo!

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17 comentários em “OS SALVADORES DA GASPAR QUE PATINAVAM COMO GESTORES AGORA ESTÃO PERDENDO O SUPOSTO BRILHO DO OURO DOS ANÉIS, MAIS CEDO DO QUE SE PREVIA. AS MÁSCARAS BRILHANTES TAMBÉM ESTÃO CAINDO”

  1. Não é mais um projeto político, é uma doença que quer nos contaminar. Os Bolsonaros querem nos impor a Covid que eles inventaram para se tornarem temidos, eleitos, poderosos e manipuladores da nossa própria liberdade e autodeterminação , a que matou milhares e eles não a reconheceram até hoje, a doença e as mortes decorrentes dela.

    BOLSONARISMO EDUARDISTA, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo

    Eduardo Bolsonaro desenvolve o seu pós-Bolsonaro – pós-Jair, para não haver dúvida. Pós-pai. A superação político-eleitoral do pai. A constituição desse movimento está explícita. Eduardo propõe uma dissidência bolsonarista, que se organiza em função do monopólio (desafiado?) do acesso à Casa Branca e da imposição do que se tornaria a pauta única da direita brasileira: a anistia, tão difícil de alcançar quanto eficaz em interditar a ascensão de liderança que não da família.

    Não tem negócio. Jair Bolsonaro inelegível, incontornavelmente inelegível, todo mundo se organizando em função dessa inelegibilidade – e o bolsonarismo eduardista sustentando a agenda, a da anistia “ampla, geral e irrestrita”, que engessa a direita e lhe garante poder e centralidade sobre o espólio de Jair. Tem método.

    “Em 2026 será Bolsonaro” – escreveu Paulo Figueiredo, a inteligência influente que formula e pauta Eduardo. Em 2026 será Bolsonaro. Não necessariamente Jair – interpreta o cronista.

    O bolsonarismo eduardista considera Jair Bolsonaro um “refém”, donde impossibilitado de avaliar o cenário. Um frágil; manipulado, chantageado mesmo, para chancelar o “pacto republicano” em função de Tarcísio, encarnação da “direita permitida”. O ex-presidente seria um incapaz – é o que se comunica. Daí a proposta eduardista de superação a Jair em defesa de Jair – em proteção a Jair. O filho que, pelo pai, não obedecerá (mais) ao pai. Está dito. Todo mundo quer encostar Jair – um ex-presidente passivo, a reboque, seja do bolsonarismo eduardista, seja do bolsonarismo de oportunidades de Ciro Nogueira.

    Jair Bolsonaro seria refém sobretudo do bolsonarismo de oportunidades – assim denuncia o bolsonarismo eduardista. Refém de Valdemar e turma. O ex-presidente – este é o pressuposto – estaria sequestrado, homem doente, inepto para decidir. Inepto para liderar. Inepto para orientar. Qualquer pesquisa nas redes bolsonaristas ligadas a Eduardo empilhará qualificações dessa natureza para o velho Jair, o verdadeiro coagido, em cuja goela querem – os aliados traidores – enfiar o acordão.

    A opção Tarcísio por futuro de um Jair livre representaria jogada para “exterminar a direita” – direita aqui entendida sob o modo totalitário bolsonarista. Eduardo pretende ser candidato a presidente com ou sem o apoio do pai; e reagiu dessa maneira, em entrevista ao Metrópoles, à possibilidade de também ele não poder concorrer. Apoiaria Tarcísio? “Se eu estiver inelegível porque fui condenado pela minha atividade nos EUA, eu acho provável que os EUA não reconheçam a eleição do Brasil.”

    Eduardo nos informa diariamente que o bolsonarismo eduardista, mais do que não reconhecer Tarcísio, não reconhecerá a legitimidade da eleição, a Magnitsky estacionada sobre o Brasil. Eduardo estará inelegível. Mais do que projetar candidatura, projeta a inevitabilidade da dissidência, projetada também a impossibilidade de controlá-la.

  2. TCU EXPÕE FAZ DE CONTAS DAS METAS ORÇAMENTÁRIAS, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    O Tribunal de Contas da União acendeu um sinal amarelo —que pode virar vermelho— para o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

    Em decisão unânime de seu plenário, o TCU alertou que o Executivo federal deve mirar o centro da meta orçamentária, de déficit zero neste 2025, não o limite inferior de tolerância da norma fiscal, que permite um saldo negativo de até R$ 31 bilhões, sob pena de violar o artigo constitucional que exige a sustentabilidade da dívida pública.

    Esse entendimento não tem efeito imediato, mas pode forçar novos congelamentos orçamentários e expõe uma controvérsia jurídica. De um lado, o governo argumenta que o regramento legal obriga a execução de despesas aprovadas pelo Congresso Nacional, mas exigindo contingenciamentos para atingir o piso da banda.

    Do outro, o TCU rebate com a emenda constitucional 109, de 2021, e a Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000, que priorizam a estabilidade da dívida, interpretando a meta como um compromisso central, não uma margem flexível para manobras.

    Quaisquer que sejam as interpretações, e a administração petista indica que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF), é impossível mascarar o problema essencial: a fragilidade fiscal que ameaça a economia do país.

    Atualmente, de acordo com as projeções orçamentárias, o governo espera rombo de R$ 30,2 bilhões neste ano —e isso sem contabilizar grande parte do pagamento de precatórios. Para equilibrar a conta seriam necessários cortes de despesas, preferencialmente, e mais receita.

    O problema é grave porque nem o centro da meta garante a estabilidade da dívida pública, como manda a lei. Estimativas do Tesouro Nacional indicam que o passivo chegará a 80,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025 e 81,3% no próximo ano.

    Economistas apontam o risco de que a cifra atinja 90% em poucos anos sem ações para conter gastos obrigatórios, tornando o Brasil vulnerável a choques externos e juros elevados.

    A raiz do mal está na política perdulária da administração petista. O Palácio do Planalto rechaça ou despreza reformas estruturais, como a previdenciária e a administrativa, entre outras providências para cortar excessos, melhorar a focalização de programas sociais e elevar eficiência.

    A banda em torno da meta existe para absorver eventos imprevistos, não para justificar ineficiência cotidiana ou acomodar gastança populista. Na prática, tenta-se excluir dos limites não apenas imprevistos, como a cheia de 2024 no Rio Grande do Sul e o pacote de ajuda a empresas atingidas pelo tarifaço americano, mas também novos programas.

    O custo imediato para o país são os juros altos, que elevam o serviço da dívida a R$ 1 trilhão anual. Aceitar esse círculo vicioso é hipotecar o futuro pela conveniência do presente —que é ilusória ante o arrocho que onera famílias e contribuintes.

    Minha anotação: não está no texto, mas todas as exclusões que já foram aprovadas pelos farristas do Congresso Nacional, e a que estão para serem aprovadas, como a compensação do tarifaço, até momento somam R$73 bilhões de déficit público projetado só para este ano de 2025, segundo analistas, órgãos de controles e centro de pesquisas econômicos. Ou seja, além de mirar o mínimo da meta, há mais despesas que estão fora da meta e que obrigatoriamente, num país e contabilidade séria, a favor do equilíbrio das contas e da inflação, deveriam estar dentro da meta. Ah, mas o PT sempre foi assim, um gastão sem controle e driblando as regras a tal ponto de ter a ex-presidente Dilma Vana Rousseff cassada. Mas, aprendeu. Agora pede autorização do Congresso, como fez o também a irresponsável gestão de Jair Messias Bolsonaro, PL. E para isso, o negacionista usou a pandemia como desculpa esfarrapada para a farra, incluindo a postergação dos precatórios.

  3. Os burocratas sem noção e os políticos que gastam cada vez mais e precisam de mais impostos contra a sociedade para suas faltas de limites. Preferem o atraso, as carroças e cavernas. Não conseguem enxergar futuro, transformações e a luz. Impressionante. Mais impressionante é que são nossos representantes e votados por nós mesmos

    TECNOLOGIA E TAXAÇÃO DO DESEMPREGO, por Celso Ming, no jornal O Estado de S.Paulo

    Têm coisas que à primeira vista parecem recomendáveis e fazem sentido, mas que se mostram prejudiciais quando colocadas em prática. O consumo de álcool e tabaco é um desses casos. A taxação da tecnologia para conter o desemprego, outro.

    Em sua coluna desta quintafeira aqui no Estadão, o especialista em Economia do Trabalho, José Pastore, mostrou como a proposta de taxação de empresas que desempregam a partir do uso de tecnologia, para repassar recursos para requalificação dos profissionais traz mais problemas do que soluções.

    É ideia que, em princípio, parece justa. É defendida até por Bill Gates, um dos campeões mundiais da tecnologia digital.

    A partir das questões plantadas por Pastore, é preciso enveredar por outras. Têm empresas que adotam mais tecnologia e as que adotam menos. Como medir o efeito no desemprego e, em consequência disso, a dosimetria correta para a aplicação do imposto em cada caso?

    Empresas novas que já nascem tecnificadas e para isso não demitiram ninguém também teriam de ser taxadas? Exemplo gritante são as fintechs criadas sem bancários. Por não carregarem esse custo trabalhista, fazem concorrência desigual com a rede bancária convencional.

    Uma das maiores categorias trabalhistas do Brasil é a dos comerciários. O desemprego semeado no setor pelas novas empresas do e-commerce espalhase por centenas de milhares de lojas e casas de comércio. Não se concentra numa grande empresa. Seria o caso de taxar a Amazon, a Mercado Livre, a Magalu e tantas outras por essa revolução no mercado de trabalho? As malas de rodinhas acabaram com a profissão dos carregadores de bagagem nos aeroportos e rodoviárias. O carro elétrico vai pulverizar o mercado de frentistas dos povos de combustíveis. Os carteiros tendem a desaparecer porque ninguém mais escreve cartas nem manda telegramas. Os veículos autônomos conspiram contra o futuro dos taxistas, dos motoristas de ônibus e de caminhão. Quem contribuiria com impostos para compensar esses estragos? Se não tivesse mudado de vida, o presidente Lula teria sido demitido da empresa em que trabalhou porque não conseguiria pilotar um torno moderno, carregado de tecnologia embarcada.

    O professor Pastore observa que os países mais avançados em tecnologia são os que apontam os mais baixos índices de desemprego. Por que? Porque também contam com serviços de qualificação, requalificação e treinamento de pessoal.

    Desde o uso do fogo ou da invenção da roda, o ser humano tem de lidar com revoluções tecnológicas e com seu impacto sobre as ocupações.

    A solução, aponta Pastore, está nos programas de treinamento e de recapacitação de mão de obra. Em boa parte, as próprias empresas vêm tomando a iniciativa nessa área, até mesmo com a ajuda do Sesi e do Senac.

    Mas não basta isso. Neste ambiente de revolução tecnológica, é preciso dar mais atenção à política de estado para capacitação de mão de obra.

  4. A direita e o bolsonarismo, a que defende a família, a pátria e vive falando de Deus, estão assumindo, perigosamente, com provas, o rótulo de serem parceiros de bandidos ou de coisas mal explicadas, as quais estão sendo “gerenciadas” no Congresso Nacional. Leia este texto e se impressione se for capaz

    TRUMP ANTEVIU DECLÍNIO BOLSONARISTA, por Maria Cristina Fernandes, no jornal Econômico.

    A unanimidade com a qual a Comissão de Constituição e Justiça do Senado rejeitou a proposta de emenda constitucional da blindagem é o resultado mais concreto e acachapante das manifestações de domingo. Prevaleceu o argumento definitivo do relator Alessandro Vieira (MDB-SE) sobre a autorização de apenas uma investigação, entre quase 300 pedidos, nos 13 anos de vigência da blindagem. A mudança da Constituição, em 2001, permitiu que um terço dos parlamentares do Congresso Nacional, nas contas do relator, seja réu ou investigado. A folga com a qual a PEC foi aprovada na Câmara vem daí. Aquela com a qual foi rejeitada no Senado vem da rua.

    O Centrão sumiu da votação e os bolsonaristas que ousaram falar mostraram que, no terraplanismo que os sustentou, o mundo não dá voltas, capota. Contestado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o relator lembrou quando, em 2019, propôs o impeachment dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes por extrapolação de poder na instauração, de ofício, do inquérito das “fake news”, ou “do fim do mundo”, marco na pré-história da persecução penal do golpismo. Naquele momento, disse, o filho do então presidente Jair Bolsonaro o contestou. Não queria briga com o STF. Toffoli, então presidente da Corte, suspendera processo contra o senador, baseado em relatório do Coaf, que investigava rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio.

    A indignação que pautou os discursos de rejeição à PEC da blindagem no Senado é seletiva. A patota que a patrocinou tem outras frentes mais bem sucedidas no Congresso na blindagem do crime e de seus comparsas no Legislativo. Três meses atrás, a CPI das bets naquela Casa foi encerrada com rejeição do relatório que propunha indiciamentos e não se falou mais nisso. Há um mês, o governo apresentou na Câmara um projeto para responsabilizar bancos pelo recolhimento de impostos de casas de apostas inadimplentes com as quais façam operações. Foi um desdobramento do cerco da Receita e da Polícia Federal sobre a lavagem de dinheiro do crime organizado. O projeto não saiu do lugar.

    Também na Câmara, um projeto de regulação financeira que já ganhou até regime de urgência estancou depois que o banco Master, maior guarda-chuva da capital federal, saiu em busca de socorro. As emendas apresentadas ao longo de sua tramitação trazem as mesmas pegadas daquela patota que protege as bets. E não apenas.

    As ditas pegadas também estão nas emendas que tipificam o devedor contumaz. A operação “Carbono Oculto”, deflagrada há um mês, empurrou a aprovação no Senado, a toque de caixa, do projeto que tipifica o devedor contumaz, parado havia anos, sem as ditas emendas, porque ficou comprovado o abrigo oferecido por este modelo de negócios da sonegação para o crime organizado. Desde que chegou à Câmara, o projeto tampouco saiu do lugar.

    A patota que freia todos esses projetos na Câmara é a mesma que, depois de ter empurrado o presidente da Câmara a levar à frente a PEC da blindagem, agora está nua com a mão no bolso. Hugo Motta (Republicanos-PB) tem se esforçado, sem sucesso, para seguir o mesmo caminho do presidente do Senado, que, investido de um salvo conduto, encarnou o paladino da democracia e dos bons costumes parlamentares.

    Davi Alcolumbre (União-AP) afastou-se do seu bolsonarismo natal e abraçou o governo – e o Supremo. Até suas desavenças com o ministro Alexandre Silveira (PSD-MG), que tem estado às voltas com duas operações sucessivas da PF/CGU sobre licenças de mineração em Minas, parecem ter ficado em segundo plano.

    A confusão reinante na Câmara é tamanha que a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado acabou por aprovar um projeto de isenção do IR até R$ 5 mil, passando à frente daquele da Câmara. Numa ponta e noutra, além de dois adversários históricos, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o deputado Arthur Lira (PP-AL), está o desnorteamento das lideranças da Câmara que foram abalroadas pelas manifestações do domingo.

    A crise da aliança Centrão/bolsonarismo se reflete no desnorteamento do tabuleiro da sucessão. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro deu uma entrevista ao jornal inglês “The Telegraph” em que, pela primeira vez, reconhece a possibilidade de disputar “uma candidatura política”. Com o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) encrencado e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dependente de uma malfadada dobradinha com o Centrão, restou a Michelle, que já tinha sido descartada pelo PL, colocar seu pescoço pra fora.

    O governador Tarcísio de Freitas (SP), que chegou a ir para o corpo a corpo pelo combo anistia/blindagem, saiu de fininho nesta quarta ao dizer que a PEC revela uma “desconexão” com a sociedade. A patota da PEC insiste na sua candidatura presidencial como tábua de salvação, mas o governador dá sinais de que percebeu, um tanto tardiamente, que está furada a canoa em que pretendem lhe fazer embarcar.

    Não deve haver dúvida de que a oposição vai se reaglutinar para 2026 porque há base social e financeira para tanto, mas até Donald Trump já se deu conta que não vai ser fácil. Não está escrito na tabela periódica mas na biografia do “aprendiz”. Se tem algo que sobrevive é sua indisposição a carregar alça de caixão e cerrar fileira ao lado de perdedores.

  5. O vencedor por ele mesmo diante do espelho. Uma boa análise abaixo. A conclusão é um fundamento psicanalítico do político narciso

    TRUMP E O BRASIL, por Willian Waack, no jornal O Estado de S. Paulo

    Não se sabe se Donald Trump almeja “regime change” no Brasil ou só ajudar o amigo Jair Bolsonaro. Até agora, não conseguiu nenhum dos dois.

    Ao contrário. O que o relatório do Departamento de Estado americano crítica no “regime” brasileiro prossegue inalterado, mesmo depois da Magnitsky contra Alexandre de Moraes. E Bolsonaro está indo para a prisão.

    Pode ser que Trump, que tem infinita convicção sobre a própria genialidade, tenha confundido ambições (mudar o regime e ajudar Bolsonaro) com meios (tarifas e sanções) para alcançá-las. Ou seja, faltou estratégia. Além disso, profissionais da diplomacia nos Estados Unidos e no Brasil, brasileiros e estrangeiros, acham que Trump estava mal informado sobre o Brasil.

    A Casa Branca já tomou decisões grotescamente erradas (em função dos próprios objetivos) quando ficou cega por ideologia e confiou em apenas uma fonte – o caso recente mais famoso foi a avaliação política equivocada da situação interna no Iraque antes da invasão de 2003, sustentada em boa parte no que diziam políticos de oposição daquele regime. Que asseguraram ao então presidente que tudo ia ser muito fácil, bastava um empurrãozinho.

    O impulso agressivo dos Estados Unidos em relação ao Brasil está ancorado em fatores geopolíticos (competição com a China), mas exibe também o enorme peso dos ideólogos do MAGA, e sua campanha mundial pela “verdadeira direita”. Ocorre que a compreensão dos assessores de Trump sobre o funcionamento do “sistema” brasileiro vem de um setor do bolsonarismo, representado pelo filho Eduardo, cuja visão (para se dar um nome à coisa) é fortemente contestada dentro da própria corrente política.

    E, de forma bastante previsível, aconteceu o inverso do que garantia a tosca análise à qual a Casa Branca tem dado ouvidos. O “sistema” no Brasil se solidificou, em vez de se dissolver com medo do poder político, econômico, comercial e até mesmo militar dos Estados Unidos. Fora a confusão na qual foi jogado o espectro de centro-direita.

    Trump não está preso nem a uma coisa (uma estratégia articulada) nem a outra (a pureza ideológica da verdadeira direita). Daí a dificuldade de se prever o que pode sair da química recentemente descoberta com Lula, o chefe do regime brasileiro (que ele quer derrubar?). Aparentemente, nem seus secretários adivinham os próximos passos do presidente.

    Trump é um narcisista compulsivo preocupado exclusivamente com a própria imagem. Pode assumir posições diametralmente opostas em qualquer assunto, pois é ele que declara as próprias “vitórias”. Que, para ele, são os bons negócios.

  6. Impressionante como os governos (o central, estaduais e municipais) parasitas só pensam em aumentar impostos e renegam o controle dos gastos e foco em investimentos de produtividade governamental. Aumentar impostos, tem outra reação: desinvestimentos que geram impostos e crescimento da sonegação. Ninguém aguenta pagar mais impostos no Brasil, e pior do que isso não se ter o devido retorno do estado aos cidadãos e cidadãs

    HADDAD ENTRA NA CAMPANHA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O governo Lula da Silva bloqueou mais R$ 1,4 bilhão do Orçamento em setembro, elevando de R$ 10,7 bilhões para R$ 12,1 bilhões o total de gastos congelados no ano. Sem surpresas, os dispêndios com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos vulneráveis e a pessoas com deficiência, foram o principal motivo a justificar a necessidade de um novo bloqueio, apesar das ações do Executivo e do Judiciário para conter o ritmo de concessões do benefício.

    O avanço das despesas, como até as pedras sabem, é o maior problema das contas públicas. Por isso, o que surpreendeu, na divulgação do relatório bimestral do Orçamento, foi o discurso da equipe econômica, que assumiu um tom bem mais político do que o que vinha sendo adotado na área fiscal. Ao contrário do que se presumia, durante a entrevista coletiva, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, expressou mais preocupação com o comportamento das receitas do que com o dos gastos.

    Ao todo, a arrecadação projetada para o ano recuou R$ 1,9 bilhão, puxada pelas receitas com impostos e contribuições, que, pelas projeções, ficarão R$ 12 bilhões abaixo do que se esperava. Para Durigan, isso se deve à desaceleração da atividade econômica, consequência de uma política monetária “bastante restritiva”, cuja “dose do remédio” preocupa o governo como um todo.

    No dia seguinte, a Receita Federal divulgou que a arrecadação teve uma queda real de 1,5% em agosto ante o mesmo mês do ano anterior, a primeira nesse tipo de comparação desde novembro de 2023, ainda que a arrecadação no acumulado do ano tenha registrado um aumento real de 3,73% em relação ao mesmo período do ano passado.

    O dado de agosto não parece ser um ponto fora da curva. O chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita, Claudemir Malaquias, disse que a desaceleração da atividade econômica já pode ser observada em indicadores como produção industrial, consumo e vendas no varejo, ainda que, ao menos por enquanto, não tenha afetado nem os serviços nem a massa salarial.

    Embora incipientes, esses sinais bastaram para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, embarcasse de vez na estratégia política do governo. Após a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), Haddad disse não haver justificativa para os juros estarem em 15% ao ano. O ministro vinha evitando críticas mais duras à política monetária, mas a inflexão, neste momento, é até compreensível. Se uma economia mais fraca prejudica a arrecadação, ela sepulta os planos de um governo que tentará a reeleição.

    A investida também se deu no Congresso. Ao participar de audiência pública na Comissão de Agricultura da Câmara, Haddad fez mais do que defender a medida provisória que taxa títulos isentos, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), e aumenta a tributação sobre as bets. Disse que a rejeição da proposta poderá afetar o Plano Safra no ano que vem, afirmou que as operações da Receita Federal estão chegando aos “verdadeiros ladrões da Pátria” e classificou de “vagabundagem” o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro não ter corrigido a tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) durante seu governo.

    No fundo, o ministro bem sabe que o arcabouço não foi capaz de controlar as despesas, o que só reforçou sua busca obsessiva por novas receitas e lhe rendeu o apelido pejorativo de “Taxad”. Mas, por ora, Haddad quer mesmo é terceirizar responsabilidades para chegar até o fim de 2026 sem ter de assumir o ônus político de alterar as metas fiscais.

    Já está claro que, para isso, o governo não hesitará em recorrer a manobras como o pagamento de dividendos pelas estatais, o uso de fundos para financiar políticas públicas e a obtenção de recursos extraordinários por meio de leilões de petróleo e gás. Culpar governos anteriores, instar o Banco Central a reduzir as taxas de juros e jogar duro com o Congresso são parte desse teatro no qual discussões sobre a qualidade e a eficiência do gasto ficam sempre para depois.

  7. A DUPLA TRAIÇÃO DO BOLSONARISMO, por Joel Pinheiro da Fonseca, no jornal Folha de S. Paulo

    Bolsonaro se elegeu em 2018 num tsunami conservador e antissistema. Dentre outras bandeiras, trazia o amor à pátria contra a ordem globalista que violava a soberania nacional e a rejeição à velha política brasileira, vista como corrupta. Brasil acima de tudo e Sergio Moro ministro da Justiça. Parece que foi um milênio atrás.

    Em sua cruzada anti-institucional, Bolsonaro tentou minar a Justiça eleitoral. Atacou a democracia brasileira, mas foi vencido. Judiciário, Congresso, Forças Armadas, imprensa; todos tiveram seu papel em limitá-lo. Foi derrotado nas urnas que tanto tentou deslegitimar e depois investigado, julgado e condenado pela trama para negar esse resultado.

    A partir daí, o bolsonarismo ficou com uma pauta única: impedir o julgamento e a condenação de seu líder. Nada pode estar acima disso. Nem mesmo o Brasil.

    A partir do momento que a estratégia para livrar Bolsonaro da Justiça passou a ser provocar sanções americanas, qualquer verniz de defesa da soberania nacional foi abandonado. Não é à toa que, a partir desse momento, a bandeira americana tenha substituído a bandeira do Brasil na iconografia bolsonarista.

    Ocorre que tarifas, sanções Magnitsky e suspensão de vistos se mostraram incapazes de dobrar nosso Judiciário e Legislativo. Nem o Supremo abriu mão de julgar Bolsonaro, nem o Congresso abraçou a anistia ampla, geral e irrestrita. Seria necessário compor com o centrão para levar a pauta adiante.

    Aliar-se ao centrão não é novidade para Bolsonaro. Foi o que ele teve que fazer a partir de 2020 para garantir a sobrevivência de seu governo, no arranjo que deu origem ao chamado orçamento secreto. Desta vez, a aliança consistiu numa troca: o centrão apoia a anistia, o bolsonarismo apoia a PEC da Blindagem. E assim se enterrou qualquer ilusão de combate à corrupção, de nova política ou o que o valha. Longe, muito longe estão os dias de Sergio Moro ministro. Para salvar Bolsonaro, o bolsonarismo se tornou apoiador incondicional da agenda de defesa da impunidade.

    Deputados bolsonaristas encamparam a pauta e fizeram inclusive sua defesa pública. No discurso bolsonarista, a PEC era necessária para impedir a chantagem do Supremo contra deputados e senadores que ousam contrariá-lo. Faltou dizer que, se esse era realmente o objetivo, bastava defender o fim do foro privilegiado, que tiraria os parlamentares das mãos do Supremo, mas não os blindaria contra processos criminais. Claro que a justificativa era falsa. Era apenas uma tentativa discursiva de emprestar aos interesses do centrão o manto da luta antissistema de enfrentamento ao Supremo.

    Não funcionou. A opinião pública tratou de enterrar a PEC da Blindagem. Com ela, o PL da anistia —ou, ainda, da ideia mais modesta de reduzir penas— também se enfraqueceu. Não que isso importe para a bancada bolsonarista, que sonha com Bolsonaro livre e reeleito numa virada de mesa sob a égide de Trump. Neste delírio suicida enquanto parte para o tudo-ou-nada em defesa de seu líder máximo, o movimento que ele capitaneou sacrifica um a um todos os valores que o alçaram ao protagonismo da política nacional. Não seria hora de superá-lo?

  8. A ILUSÃO DA PAZ, por Carlos Andreazza, no jornal O Globo

    A reação do bolsonarismo eduardista ao acordão Valdemar-Temer pela anistia sem anistia – tudo em função do projeto Tarcísio presidente – era previsível e tem a agressividade derivada da leitura de que Jair Bolsonaro o aceitara. Faltava combinar com os russos…

    Os russos, que impuseram a “anistia ampla, geral e irrestrita” como bandeira única da direita brasileira e que colhem a toxicidade da associação à PEC da Blindagem, consideram que o ex-presidente é vítima de chantagens ministradas por “até seus aliados mais próximos”. Traição light.

    Paulinho da Dosimetria, outrora da Força, foi designado, indicado por Hugo Motta (cujo tutor é Ciro Nogueira, um dos “aliados mais próximos” de Jair), para materializar a superação a Bolsonaro – aos Bolsonaro: uma proposta, que teria aval do Supremo, para redução de penas, que beneficiaria marginalmente o ex-presidente, e que o manteria inelegível. A proposta se pode negociar, a revisão das punições para cada tipo penal; a inelegibilidade, não.

    O programa encostaria Jair – mais ou menos preso – e o reduziria à condição de torcedor passivo pelo sucesso eleitoral do governador de São Paulo. Eduardo Bolsonaro chama esse trato de “indecoroso e infame”. Não aceitará arranjo que, em troca de uma expectativa de indulto, degredaria a família até 2027; e isso no caso de o “pacto republicano” conseguir eleger Tarcísio de Freitas. Faltaria ainda combinar com o eleitor.

    O “pacto republicano” de Michel Temer – com o tal Centrão, com o STF (esse agente político) e até com o governo Lula – faria de Tarcísio, que se pretende como o candidato de Bolsonaro, ao mesmo tempo o candidato-desafiante do sistema. Conta difícil de fechar.

    Questionado pela Folha sobre se Eduardo Bolsonaro apoiaria um candidato indicado pelo pai, Valdemar Costa Neto disse que sim – “ele tem que obedecer” – e avançou, sobre a hipótese de o deputado sair do PL e concorrer à Presidência: “Não acredito que brigue com o pai dele… Vai ajudar a matar o pai de vez?”

    Matar de vez – isso pressupõe processo em andamento adiantado. A vida de Bolsonaro, segundo Valdemar, a depender de o bolsonarismo eduardista se submeter ao acordão. Não vai rolar, ora sancionada com a Lei Magnitsky a mulher de Alexandre de Moraes. Não há pacificação possível.

    Eduardo também está no pós-Bolsonaro – encarnaria, claro, o pós-Bolsonaro legítimo – e explora a natureza antiestablishment do bolsonarismo: “Não abdiquei de tudo para trocar afagos mentirosos com víboras. Não lutei contra tiranos insanos para me sujeitar aos esquemas espúrios dos batedores de carteira da ocasião. Esse é o momento para resgatarmos a direita. Não para a enfiarmos nas mãos do opositor da ocasião”.

    O momento para resgatar a direita – que só poderia ser resgatada do bolsonarismo – coincide com o da ausência de Jair e com a articulação por viabilizar Tarcísio. A dissidência à direita está contratada. Só não sendo certo que Eduardo a possa controlar.

  9. Um retrato da direita errante, às vésperas de eleições que em tese teria chances, mas insiste em jogá-la fora, sob a tutela de interesses particulares do clã Bolsonaro e sua claque de fanáticos

    AGENDA NEGATIVA DA DIREITA TIRA A ESQUERDA DAS CORDAS, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    O PT decerto não tem grande autoridade para liderar manifestações populares contra a impunidade, seja devido aos escândalos de corrupção em administrações passadas, cujos personagens ainda são celebrados pela sigla, seja porque parcela relevante de seus deputados ajudou a aprovar a vergonhosa PEC da Blindagem na Câmara dos Deputados.

    Mesmo assim, com as adesões maciças de partidos de direita e centro-direita à infâmia, mais o apoio despudorado da oposição à anistia para Jair Bolsonaro (PL) e demais condenados por tramar um golpe de Estado, a esquerda ganhou fôlego para voltar a encher ruas com atos promovidos no domingo (21) nas 26 capitais estaduais e em Brasília.

    Nas metrópoles mais populosas, São Paulo e Rio de Janeiro, os protestos atraíram público similar ao reunido pelo bolsonarismo no 7 de Setembro —em torno de 40 mil pessoas em cada local e ocasião, de acordo com levantamento de especialistas da USP.

    Trata-se de mais um alento político ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que estava nas cordas até há menos de dois meses em meio a baixa popularidade, impactos da má gestão da economia e a perspectiva de uma CPI para investigar descontos fraudulentos nos benefícios do INSS.

    No início de agosto, o petista ganhou a oportunidade de liderar a defesa do país ante uma agressão estrangeira —o tarifaço aplicado por Donald Trump numa tentativa patética de chantagear as instituições encarregadas de processar e julgar Bolsonaro. De lá para cá, a aprovação ao governo subiu de 29% para 33%, conforme pesquisas do Datafolha.

    A situação de Lula está longe de ser confortável, já que a reprovação a seu desempenho chega aos 38%. Mas seus adversários o ajudam graciosamente ao se afastarem da moderação e abraçarem a agenda tóxica bolsonarista.

    Ainda segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros aptos a votar declararam neste mês ser contrários à anistia; no final de julho, 61% disseram que não votariam em candidato que prometesse perdão a Bolsonaro —como faz o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aposta do centrão para herdar os votos do ex-presidente na disputa pelo Planalto no próximo ano.

    É espantoso que, faltando tão pouco tempo para a campanha eleitoral, a pauta da direita brasileira se concentre nesse cortejo indecoroso ao golpismo e à impunidade. O discurso moralizador, a esta altura, está desmoralizado; nada se apresentou até aqui em ideias inovadoras para a economia, a educação, a saúde e a segurança pública capazes de ir além das bolhas ideológicas.

    Nessa toada, deve-se temer mais um pleito presidencial de debate indigente. O país estará encalacrado em uma grave crise orçamentária que exige desde já planejamento e reformas difíceis, mas esses não são temas que hoje interessem às principais forças políticas nacionais. A depender delas, ao que parece, não sairemos da inércia da polarização.

  10. Herculano

    Silêncio Ruidoso…

    O que será que o governo mandou para o Vereador Geovano como resposta para história do transformador e, assim fazer desaparecer flagrante improbidade… Será que o Pedro passou para o nobre edil uma listinha de cargos…. ???

    1. Pois é. Com a palavra, o nobre vereador. Uns tem listas, outros, apenas listinhas…E a maior parte, viúvas de Marcelo de Souza Brick, que está no PP, mas, nunca saiu das asas de Giovano e o PSD minguado de Gaspar

  11. Quando as candidaturas avulsas saírem das gavetas da Câmara e Senado Federal, e o coeficiente ELEITORAL PARTIDÁRIO acabar, o Brasil eliminará a METADE dos seus problemas.

    1. Perfeito. Somado ao voto distrital e a não reeleição por mais de dois mandatos seguidos para a Câmara Federal, Assembleias Legislativas e Câmaras municipais, feitas de feudos, oligarquias e agora sob ameaça de serem tomadas por facções, milícias e máfias

  12. O PAÍS ESTÁ NA DIREÇÃO ERRADA, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo

    A pergunta, feita comumente pelos institutos de pesquisa, parece simples: o país está caminhando na direção certa ou errada? Na primeira impressão, a questão refere-se ao governo central, responsável por levar a nação para este ou aquele lado. Então, sim, há nas respostas uma avaliação do governo federal. A última pesquisa Genial/Quaest, de setembro, trouxe má notícia para o governo Lula. Para 58% dos entrevistados, o país caminha na direção errada — resultado estável em relação à pesquisa do mês anterior. Para 36%, estamos na direção certa.

    Isso combina com outra avaliação: 51% dos brasileiros desaprovam o governo Lula, ante 46% que aprovam. Tem lógica: se o governo vai mal, o país não pode ir bem. Mas não é apenas isso. O cidadão mora no seu município, não na Federação, de modo que o ambiente percebido em seu entorno deve influenciar na avaliação geral. Considerando que as pessoas não distinguem bem as atribuições de cada nível de administração, a culpa tende a ser atribuída ao “governo em geral”.

    Sobra também para os políticos, que exercem parcela do poder. E que costumam aparecer mal nas avaliações específicas. Ao dizer, portanto, que o país vai na direção errada, o cidadão expressa um sentimento geral, um mal-estar com o rumo das coisas.

    Inflação incomoda bastante. É verdade que, na análise econômica, a inflação brasileira está em queda. Os números não deixam dúvida. Mas há uma diferença entre a inflação efetivamente medida e a percepção. Inflação menor quer dizer que os preços, na média, subiram menos que no mês anterior. A percepção de quem vai ao supermercado muda pouco: os preços continuam em alta. Ou, o que dá na mesma, não caíram.

    Claro que uma inflação de alimentos elevada e constante irrita a população e derruba a avaliação do governo federal. Aconteceu isso com a gestão Lula no primeiro semestre. Depois, a inflação arrefeceu — alguns preços tiveram mesmo queda. Significa que o país entrou no caminho certo? Parece que não. Depois de um ambiente prolongado de inflação pressionada, as pessoas guardam uma espécie de “memória inflacionária” — um sentimento geral de que as coisas continuam caras. E de que a culpa é do governo. São necessários meses e meses de estabilidade para apagar essa memória.

    Muitos governantes se enganam com isso. Observam uma queda no índice de inflação e deduzem daí que a situação está resolvida, e a população perceberá. Nos Estados Unidos, Biden e os democratas caíram nesse erro. Afinal, haviam derrubado a inflação para um nível de 2% ao ano, depois de bater em quase 10%. Mas Trump fez campanha o tempo todo falando de uma inflação ameaçadora. Deu certo. Os preços altos ainda estavam na memória dos americanos.

  13. POLÍTICOS BLINDADOS CONTRA O POVO, por Bruno Carazza, no jornal Valor Econômico

    A pressão popular, com milhões de pessoas nas ruas nesse domingo em todo o país, será suficiente para fazer com que deputados e senadores desistam de aprovar o pacote de benesses que os deixarão a salvo de qualquer responsabilização por crimes praticados durante seus mandatos (e mesmo fora deles)?

    Essa pergunta certamente vai nortear os debates durante esta semana, mas há uma questão que a precede em importância: por que nossos parlamentares se tornaram tão desconectados da sociedade, a ponto de perderem o pudor de propor e aprovar algo que é claramente impopular, por colocarem seus interesses pessoais acima dos desejos da maioria da população?

    Já faz tempo que pesquisas de opinião indicam o descrédito que o cidadão brasileiro nutre pelos políticos e pelas instituições políticas. A mais recente, publicada no início deste mês pela Quaest, revela que 63% dos entrevistados não confiam nos partidos políticos, enquanto 52% avaliam mal o Congresso Nacional – mesma credibilidade detida pelos juízes de futebol, talvez a categoria mais vilipendiada na história do país.

    Ainda assim, os políticos se sentem à vontade para aprovarem propostas contrárias à opinião do brasileiro médio, principalmente nas searas do combate à corrupção, da transparência pública e da autoconcessão de vantagens.

    Em geral nós culpamos o próprio eleitor por essa situação. “O brasileiro não sabe votar”, “as pessoas não têm memória”, “a população não tem educação para escolher os seus representantes” e “os políticos são um retrato de quem os elegeu” são frases frequentemente utilizadas para explicar o baixo nível do nosso Congresso.

    Longe de querer descartar totalmente essas explicações, há fatores institucionais que levam a essa desconexão entre nossos representantes eleitos e o cidadão que depositou neles seus votos e esperanças.

    O sistema eleitoral brasileiro está estruturado sobre duas bases que geram uma baixa responsabilização dos políticos por seus atos e posicionamentos.

    De um lado, as eleições se dão em distritos eleitorais muito grandes (os Estados) e, no caso da Câmara, o processo de escolha se dá de forma indireta – primeiro se contabilizam os votos recebidos de forma agregada pelos partidos para, só aí, serem escolhidos os mais votados dentro da agremiação. Sob essa lógica, o vínculo entre o eleitorado e o deputado ou senador é frágil, o que dificulta a cobrança, como acontece nos sistemas em que o voto se dá em distritos menores e eleições majoritárias.

    Para piorar, apesar de o processo de definição dos congressistas estar baseado nos partidos, essas instituições são extremamente amorfas no Brasil. Em geral as legendas estão pouco enraizadas na sociedade, têm pouca identidade ideológica e suas estruturas de governança são bastante frágeis. Diante desse quadro, as siglas têm pouca ascendência sobre seus correligionários, dispondo de poucos incentivos para punir comportamentos que possam prejudicar a imagem do partido junto ao eleitorado, tal qual acontece nos países que dispõem de poucos partidos e regime de lista fechada.

    Essa combinação de eleições em distritos grandes, proporcionais e com muitos partidos fracos torna muito difícil para o eleitor punir os maus políticos nas urnas, pois a força do seu voto é diluída diante de centenas de candidatos e dezenas de partidos. Isso explica, por exemplo, por que tantos políticos sobreviveram à exposição pública apesar das evidências de terem recebido malas e malas de dinheiro durante a Operação Lava-Jato.

    Em abril de 2017, o ministro do Supremo Edson Fachin abriu inquéritos contra 53 deputados e senadores por corrupção, entre outros agentes políticos. Passados oito anos, o Congresso atual conta com 20 deputados (de Aécio Neves a Eunício Oliveira) e cinco senadores (inclusive Ciro Nogueira e Humberto Costa) que escaparam da famosa “Lista de Fachin”. E outros tantos continuam na política ocupando cargos nos Estados, em estatais ou na própria estrutura de seus partidos.

    Se ser penalizado nas urnas já era improvável, tornou-se quase impossível graças aos milhões de reais colocados à disposição dos detentores de mandato nos últimos anos com os fundos eleitoral e partidário e as emendas parlamentares. Com acesso privilegiado a esses recursos, deputados e senadores têm muito mais chances de serem reeleitos do que candidatos desafiantes.

    Com o bolso cheio de verbas para distribuir nas suas bases e muito mais dinheiro público para financiar suas campanhas, os parlamentares têm muita segurança para aprovarem medidas impopulares, como anistias, penduricalhos e afrouxamento de regras de prestação de contas.

    A população, como fez ontem, pode ir às ruas para protestar, mas os políticos sabem que as pessoas têm mais o que fazer e não têm disposição para viver em constante mobilização.

    Resta o Judiciário, que de tempos em tempos faz expurgos na classe política, como aconteceu na Lava- Jato ou recentemente no julgamento do 08 de janeiro.

    Com a PEC da Blindagem, eles querem eliminar a última ameaça que resta contra eles em nosso frágil sistema político.

  14. A MÁFIA BRASILEIRA QUER IMPOR A SUA LEI, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    A execução do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes, numa emboscada na Baixada Santista, é mais do que um crime bárbaro. É um símbolo. Sua ousadia – planejada para intimidar – expõe a presença de organizações que já não operam só como facções prisionais, mas como verdadeiras máfias. O Estado está sendo desafiado às claras, e sua autoridade, testada nos termos da lei do crime.

    Nas últimas décadas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras facções acumularam poderio bélico e financeiro sem precedentes. Estima-se que apenas um esquema de lavagem de dinheiro desbaratado pela recente Operação Carbono Oculto tenha movimentado R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, infiltrando-se em fundos de investimento e no mercado formal de combustíveis. As fintechs, turbinadas pela popularização do Pix, abriram brechas para lavar dinheiro ilícito em larga escala. O transporte coletivo de São Paulo, avaliado em bilhões de reais anuais, foi em parte cooptado por empresas ligadas à facção, como revelado pela Operação Fim da Linha. O crime organizado já não apenas lucra: ele diversifica, captura contratos e compra poder.

    Esse é o traço distintivo da organização mafiosa: a fusão entre o poder criminal e a economia legal, a corrupção de agentes públicos e a intimidação de opositores. Ao ameaçar candidatos, financiar campanhas e até ensaiar candidaturas próprias, o PCC sinaliza uma escalada que transcende o narcotráfico. O risco já não é apenas para a segurança pública, mas para o Estado Democrático de Direito. O Brasil pode até estar longe de se tornar um narcoestado, mas está mais perto do que há 20 anos e, em diversos enclaves dominados pelas facções, já é.

    A experiência internacional ensina que o enfrentamento desse fenômeno exige mais do que repressão ostensiva. A Itália só conseguiu conter a Cosa Nostra com uma legislação antimáfia que combinou investigação financeira, confisco e reutilização social de bens, isolamento carcerário de líderes e, sobretudo, uma estrutura nacional de coordenação blindada contra a cooptação. Os EUA, com o Rico Act, minaram a base econômica das famílias mafiosas. Já no Brasil, a iniciativa de criar uma agência nacional contra o crime organizado foi retirada de um projeto de lei antimáfia por pressões corporativas. Cedeu-se a disputas de poder entre instituições, e o resultado foi um retrocesso grave.

    É urgente resgatar a espinha dorsal dessa proposta. O País precisa de uma legislação moderna que inclua compliance antimáfia para entes públicos e privados, capaz de detectar, punir e desfazer contratos contaminados pelo crime. É preciso dar aos órgãos de controle a capacidade de bloquear ativos de forma preventiva, proteger colaboradores da Justiça e isolar líderes em presídios de segurança máxima sob regime realmente diferenciado. Tudo isso complementado por investimentos em inteligência, cooperação internacional e maior integração informacional e operacional entre União, Estados e municípios.

    Operações de inteligência e cooperação, como a Carbono Oculto, ou a captura de Tuta, um dos principais líderes do PCC, na Bolívia, abalaram de fato o poder econômico da facção. Já iniciativas populistas e violentas, como a Operação Escudo na Baixada Santista, multiplicaram mortes sem atingir o núcleo financeiro das organizações, apenas reforçando a lógica da vingança. O bom combate não é medido em cadáveres, mas em ativos bloqueados, redes desmanteladas e territórios reconquistados pelo Estado.

    Lincoln Gakiya, um dos promotores mais respeitados no enfrentamento ao PCC, tem alertado: se o Brasil não cortar o mal pela raiz, o crime organizado avançará até se tornar parte estrutural do Estado. A advertência é sombria, mas realista. O País já perdeu tempo demais. A cada prevaricação, as máfias agradecem.

    A execução do delegado Fontes deixa claro que já não estamos diante de facções periféricas, mas de conglomerados criminosos aptos a desafiar de frente as instituições da República. Ou o Brasil se dota de instrumentos à altura desse desafio, ou sua democracia e seu desenvolvimento se tornarão reféns da lei das máfias.

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