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O NÓ NA AULA TÁTICA DE JORGINHO MELO, AS VIÚVAS, AS CARPIDEIRAS E OS AMANTES PROFISSIONAIS

Artigo e Trapiche revisados e alterados as 9h23min, deste 25 de janeiro de 2026. Resolvi sair do meu viciante ócio e colocar mais um artigo na gaveta. Não resisti esperar a segunda-feira diante dos fatos e rebuliços na política catarinense. Vou tentar ser breve.

Então: perguntar não ofende. Agora que o governador Jorginho Melo e presidente do PL, deu um cavalo de pau e anunciou o prefeito reeleito de Joinville,  Adriano Silva, com as bençãos do clero partidário como seu vice para a reeleição de outubro, o Novo, de Gaspar vai continuar entisicando o governo de Paulo Norberto Koerich, PL?

Fiz esta pergunta. Um deles me respondeu e a resposta é sintomática daquilo que escrevi e continuo abaixo: “tudo é novidade. Estamos avaliando“.

Com este gol de placa de tática eleitoral de Jorginho Melo, PL, o que nunca foi de direita e já esteve até no governo de Dilma Vana Rousseff, PT, a impichada (ou alguém já se esqueceu quem mandava no Dnit de Santa Catarina, o quanto as rodovias eram ruins e a duplicação sul da BR 101 se atrasava?), quem realmente está com o pincel na mão são o aproveitador mor MDB, o PP que é parceiro oportunista, bem como a intenção do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, PSD, de ser candidato viável a enfrentar Jorginho em outubro.

As melancias – tanto no ditado popular quanto na designação de ser uma cor por fora e outra por dentro – estão se ajeitando neste solavanco sem tamanho do caminhão político, desta semana. Este filme é antigo. 

Aos fracos de memória lembro suscintamente. Jorginho Melo, nasceu na Arena para ser vereador em Herval do Oeste, o ex-bancário do finado BESC – inclusive foi gerente aqui – fez fama mesmo no PSDB e no velho PL cheio de problemas de Valdemar da Costa Neto

“A VINGANÇA SERÁ MALIGNA”

Jorginho não é um qualquer. Basta dizer que foi presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina que não é para fracos e de lá encurralou o governador de plantão, mesmo que fosse um suposto aliado seu. Jorginho deixou isso para trás. Foi a deputado Federal para depois se tornar senador, defensor ferrenho de Jair Messias Bolsonaro, PL, nas horas mais difíceis e de lá governador. 

Então, com todos os defeitos que Jorginho possui e são muitos, não o subestime. E por que? Jorginho, como poucos, sabe usar e manipular o poder. É um escolado e diplomado. Sabe, como poucos, e ao seu modo é claro, mover as peças neste complicado jogo de xadrez. Sabe esperar a hora do bote, inclusive e principalmente, contra os espertos. Veja esta.

Para se viabilizar candidatura a governador em 2022, Jorginho Melo, PL, primeiro foi as origens: o PP e o MDB. E eles, matreiros e rançosos – e por isso definham –  como sempre, deixaram-no na mão. No fundo, e Jorginho sabe disso. Jorginho foi eleito na onda da direita e principalmente agarrado ao bolsonarismo que tinha na reeleição de Carlos Moisés da Silva, Republicanos, o traidor do bolsonarismo. Criou-se o voto útil. E no segundo turno foi mumu, como seria com qualquer um que lá estivesse: Jorginho venceu Décio Nery de Lima, PT.

ASSOCIAÇÃO DO POLÍTICO A UM EXÍMIO ADMINISTRADOR, MAS QUE NÃO APITARÁ NADA

Agora, Jorginho de Melo, PL, com o domínio pela mão de ferro como presidente do PL catarinense, com a arte do exercício do poder que possui por natureza, vivacidade, experiência e de quem é sedento por mais, com a máquina estadual na mão, Jorginho mirou um outro lado de sucesso administrativo de Santa Catarina: o maior colégio eleitoral e com a fama – e todas as pesquisas mostram isto destacadamente –  por excelente avaliação de Adriano Silva, Novo, coisa que falta à Jorginho na percepção do eleitorado catarinense. As pesquisas também mostram isto contra o político Jorginho.

Ao anunciar Adriano Silva, Novo, com tanta antecedência como seu vice para a corrida de  outubro, o governador e político Jorginho está sendo pragmático e não apenas dando o troco, como muitos despeitados, viúvas partidárias e até analistas no ambiente jornalístico insistem, ao MDB e PP que ele, matreiramente, cozinhou com cargos por três anos para não ser incomodado por gente acostumada a criar problemas para vender soluções. Jorginho, no fundo, está dando as cartas e desmanchando os blefes dos jogadores profissionais como ele.

Esta gente – MDB, PP e outros – não contava com a astúcia de um jogador político adulto, em ambiente contaminado. Jorginho ao anunciar Adriano está dizendo que quer sair do círculo vicioso criado por gente egressa ou que está no PP e no MDB, que no fundo são todos vindos das velhas UDN, PSD e PTB. Jorginho quer apenas solidificar o campo da direita – pois esta onda continua na polarização – e vencer. E depois? Isto será outra história. Jorginho pode ser rotulado de tudo, menos de inerte, ousado (no âmbito do poder em si) e trouxa.

AS VIÚVAS E CARPIDEIRAS

E Gaspar nesta história? A reboque de tudo e todos, sem qualquer protagonismo, porque a outra ponta não está amarrada: o PSD. João Rodrigues, prefeito de Chapecó, é outro tão águia quanto Jorginho. João até poderá ir para o sacrifício se este sacrifício valer a pena. Amarrado Adriano, não será surpresa se Jorginho, oestino, fechar mais ainda a porteira num acordo com o PSD embrulhando João Rodrigues para se salva-lo no presente e alimentando esperanças no futuro.

Este ensaio do PSD viúvo (Gelson Merísio, Solidariedade) com Décio Nery de Lima, presidente do PT catarinense e eterno saco de pancadas nas eleições a governador, na sexta-feira, foi um sinal isolado e desesperado por uma boia de salvação. Uma boia furada, sem densidade e sem votos, pelo jeito.

Retomando. Estão ameaçados de ficarem pelo caminho os então temidos e agora envelhecidos e miados MDB e PP. 

Como se vê, Paulo Norberto Koerich, PL, o que infesta a sua administração e deixa na mãos dos velhos do PP e de gente totalmente estranha a cidade vinda daquilo que não serviu ao PL de Blumenau e na administração de Egídio Maciel Ferrari, é outro que vai ficar com o pincel na mão. Não é protagonista. Nem político. Nem administrativo. E ainda não tem resultados para mostrar à cidade.

E o que falar de Ciro André Quintino, MDB (foto ao lado), o malabarista que o mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP, colocou na presidência da Câmara para assinar sozinho resoluções que deveriam ser colegiadas da Mesa Diretora, a decorativa? 

Ciro, presidente do MDB de Gaspar, é cabo eleitoral dos dois maiores perdedores nesta jogada de Jorginho: o deputado Federal de Jaraguá do Sul, Carlos Chiodini – o que queria ser vice de Jorginho -, secretário de Agricultura e Abastecimento, bem como o deputado estadual por Ibirama, Jerry Comper, secretário de Infraestrutura e Mobilidade, o que queria ser candidato a deputado Federal no lugar de Chiodini.

Ciro vive em Florianópolis engrossando as diárias falando com ambos todas as semanas. Ciro foi outro que foi engolido pelas circunstâncias e ainda não percebeu o tamanho do vácuo onde está metido.

Como se vê. Enquanto no palácio há festa, na periferia há velórios com viúvas e carpideiras. E o primeiro que marcou a reunião de família para discutir o espólio, foi o MDB catarinense. Será nesta terça-feira. E na sala, mais uma vez, estarão infiltrados os amantes profissionais para ver como se apoderar de quinhões desta partilha. Nem mais, nem menos. 

É disso, que a maioria que está na política hoje em dia – os que não aparecem, mas se beneficiam de todas as formas -, vive. 

TRAPICHE

Diálogo com os meus leitores I. Identificado como Lauro de Oliveira, apareceu na área de comentários do último artigo VEREADORES DE GASPAR SURFAM NA DISPONIBILIDADE GRATUÍTA DAS REDES SOCIAIS PARA A MARQUETAGEM FÁCIL DAS PERIPÉCIAS DELES. APENAS BUSCAM POR FALSA BOA IMAGEM. MAS, QUANDO ESTES MESMOS CANAIS – AS REDES SOCIAIS – OS EXPÕEM, DESNUDANDO-OS, VIRAM PIT BULLS ATÉ MESMO CONTRA OS SEUS PRÓPRIOS ELEITORES E ELEITORAS . Ele foi mais ou menos na linha do que comento hoje e acima.

Diálogo com os meus leitores. II. Escreve Lauro de Oliveira: “O problema era o Marcelo Brick?! Claro que não, os problemas são as raposas velhas….. PP e o MDB (Raiz)…. Spengler, Schmitd, Bornhausen e agora Koerich (que sempre foi PP)”.

Diálogo com os meus leitores III. Continua: “o problema é Rodrigo Althoff?! Claro que não, os problemas são as raposas velhas….. PP e o MDB (Raiz)…. Spengler, Schmitd, Bornhausen e agora Koerich (que sempre foi PP)”.

Diálogo com os meus leitores IV. E Lauro de Oliveira conclui: “façam a pergunta e sempre usem essa resposta pra ver que cada vez ela tem mais sentido… Tomara que na próxima eleição venham pessoas novas, digo de idade, digo de vários partidos e digo também, que possam fazer totalmente diferente“.

Diálogo com os meus leitores V. Como se vê, eu não escrevo ao léu. A cidade que se expressa ou principalmente a que tem medo de expressar, sabe exatamente onde está o perigo e a decadência. Mas, a perguntar que não quer calar é: jovens apareceram ou foram expurgados (Adilson Luiz Schmitt, MDB de 2005/08) ou foram ou se deixaram se enquadrar pelas “raposas velhas” (Kleber Edson Wan Dall, MDB 2017/24)?

Diálogo com os meus leitores VI. Eu sei o que é ser dissonante com os que mandam na cidade e não aparecem, principalmente. Pago um preço caro por isso. E lamento informar ao meu leitor Lauro de Oliveira não se “trata apenas de velhas raposas e muito menos só dos Spengler, Schmidt, Bornhausen e agora Koerich (que sempre foi PP)”. 

Diálogo com os meus leitores VII. No fundo, e há muito para Gaspar, a que insiste mais uma vez em ser um apêndice de interesses mal concebidos locais e políticos de Blumenau, falta uma liderança e um propósito para a cidade. Quando ainda chamam Gaspar de “Coração do Vale” ou de “Capital Nacional da Moda Infantil” isto tem muito a dizer sobre o nada que não fomos e zero sobre o futuro, aquilo que queremos ser.

Diálogo com os meus leitores VIII. Tome como exemplo o campeão de votos, o vereador Alexsandro Burnier, PL. Aonde a jovem liderança está? Caminhando pelas estradas que levam a Brasília, reclamando dos calos, encostado na imagem nacional do deputado federal mineiro Nikolas Ferreira, PL, para ficar bem na onda e com a sua bolha. Ele não deveria estar em Gaspar e Santa Catarina caminhando para solucionar os múltiplos problemas da cidade e das pessoas? Pois é. Muda, Gaspar!

Diálogo com os meus leitores IX. Ou seja, respeitando a opinião do leitor Lauro de Oliveira, é isto que circula na cidade diante de tanta decepção, mais uma vez. Não se trata apenas de “PP e o MDB (Raiz)…. Spengler, Schmitd, Bornhausen e agora Koerich (que sempre foi PP)”. Muito menos de novos nomes, novos partidos ou de gente jovem na idade e nas ações políticas e administrativas com resultados para a cidade, cidadãos e cidadãs. 

Dialogo com os meus leitores X. Trata-se de liderar mudanças onde os velhos interesses possam ser incluídos em nome de uma nova ordem. A simples exclusão desses interesses sempre será um grande problema para realmente mudar. É a tal transição. Todos sempre rejeitam – ou têm medo – da ruptura. Esta é a arte. Pergunte a Adilson Luiz Schmitt, sem partido; Pedro Celso Zuchi, PT, Kleber Edson Wan Dall, MDB, e ao iniciado, Paulo Norberto Koerich, PL. Estamos na era da Inteligência Artificial. Gaspar está exigindo dos seus, diploma de datilografia para mudar. Credo. Muda, Gaspar!

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16 comentários em “O NÓ NA AULA TÁTICA DE JORGINHO MELO, AS VIÚVAS, AS CARPIDEIRAS E OS AMANTES PROFISSIONAIS”

  1. JORGINHO GASPARENSE!

    Quando um governador carrega raízes numa cidade conhecida, isso vira ativo político.
    Dá orgulho, rende discurso e ajuda a construir imagem. “É dos nossos” funciona bem.
    Especialmente quando ninguém faz muita questão de revisitar o passado com lupa.
    Raiz é bonita no slogan. Na prática, ela só explica o método.

    Como governador, Jorginho entrega algo aceitável.
    Nada que empolgue, nada que afunde.
    O que, perto do padrão recente, já parece mérito.
    Os anteriores governaram olhando o próprio reflexo. O Estado vinha depois.
    Teve até bombeiro que virou Governador e resolveu confrontar quem acreditou nele. Apagou incêndio com gasolina.
    Um episódio constrangedor que ajudou a redefinir o conceito de decepção.

    Jorginho joga outro jogo. Não é estabanado. É habilidoso.
    Um bailarino político. Sabe com quem dançar, quando trocar o par e como manter o ritmo sem tropeçar.
    Governa por acomodação. Junta interesses, distribui espaço e constrói uma sensação de ordem.
    Funciona. Pelo menos enquanto ninguém pergunta o preço.

    A possível aproximação do NOVO ao próximo mandato anima e preocupa.
    Anima pela ideia. Preocupa pela prática. Ideia nova em ambiente velho costuma virar figurante.
    Recebe palco, mas não escolhe o roteiro.
    Serve mais para dar verniz de renovação do que para mudar o enredo.

    MAS ALGUÉM AINDA ACREDITA QUE FIGURINO NOVO MUDA ROTEIRO?

    A raposa segue experiente.
    A ovelha ensaia a estreia.
    E o espetáculo continua o mesmo.

  2. QUEM DESMORALIZA O STF, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo

    O presidente do STF, Edson Fachin, gastou quatro parágrafos para descrever as funções do Banco Central, da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do próprio Supremo. O resumo desse trecho da nota divulgada pelo ministro na semana passada é o seguinte: o BC cuida do sistema financeiro, a PF é “indispensável” na apuração de crimes, a PGR denuncia, e o STF garante a Constituição.

    Óbvio, não é mesmo? Nas bem traçadas linhas, o sistema parece uma máquina em funcionamento harmônico, com todos cumprindo suas funções constitucionais de modo exemplar, incluindo o ministro Dias Toffoli.

    Isso não tem nada a ver com o desenrolar real do caso Master — um tumulto de fraudes, corrupção e comportamento impróprio de autoridades, como a imprensa independente apura e divulga todo dia. Para Fachin, entretanto, o STF é alvo de ataques e do “irresponsável primitivismo da pancada”. O objetivo seria desmoralizar a Corte para atingir o “coração da democracia”.

    Aqui, o ministro lembra o papel do Supremo na defesa da democracia contra a tentativa de golpe. Está certo. Mas isso não dá um habeas corpus permanente ao tribunal, como se o eximisse de qualquer crítica. Ainda mais considerando que o processo contra os golpistas está praticamente encerrado, com os chefões já na cadeia.

    A história agora é outra — e nada harmônica. Nos episódios de hoje, o que desmoraliza o STF? Uma crítica dura e até injusta ou o comportamento impróprio de ministros? Fatos revelados pela imprensa ou o silêncio constrangedor das autoridades envolvidas? Fachin conclui com frase de efeito: “Transparência, ética, credibilidade e respeitabilidade faz (sic) bem ao Estado de direito”.

    O ministro Dias Toffoli é frequentador assíduo do resort Tayayá, para onde vai sempre acompanhado de seguranças. Aliás, foi pela escala dos seguranças — fato ainda não colocado sob sigilo — que jornalistas descobriram as movimentações do ministro. Também descobriram os relatórios de voos de um jatinho no trajeto Brasília-Ourinhos, cidade paulista na região do resort. O mesmo jatinho que levou Toffoli a Lima, para assistir a um jogo de futebol, na companhia de um dos advogados da defesa no caso Master.

    Tudo que tem de transparente aí foi descoberta da imprensa. O que não está transparente: quanto custaram todas as viagens? Quem as pagou? Isso cabe critérios nos critérios éticos? Tem dinheiro público. Com 128 dias de diárias, em feriados e fins de semana, o governo gastou R$ 460 mil com os seguranças do ministro.

    Noutra frente de investigação, O GLOBO apurou que, quando compraram participação societária no Tayayá, aplicando nisso R$ 4,5 milhões, dois irmãos de Toffoli, José Eugênio e José Carlos, tinham patrimônio que nem chegava a R$ 400 mil. Depois venderam parte dessa participação por R$ 6,6 milhões. O comprador foi o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Master, e operador de fundos de investimentos.

    Jornalistas também chegaram a uma empresa chamada Maridt, tendo José Eugênio como diretor-presidente e sede em Marília, interior de São Paulo. Visitas a esse endereço encontraram uma casa mais do que modesta, deteriorada. Lá reside a mulher de José Eugênio, que disse levar vida dura e que não sabia nada disso de empresa e de resort. Trata-se de uma empresa laranja?

    De novo, tudo que tem transparente aí foi resultado de investigação de jornalistas. Não era de esperar que Fachin desse essas explicações. Quem mais tem a explicar é o próprio Toffoli. Mas cabe ao STF analisar o comportamento de seus ministros. Disse Fachin na sua nota: “Eventuais vícios ou irregularidades alegados serão examinados nos termos regimentais e processuais”. Quem fará isso? O próprio Supremo, afirma o presidente da Corte.

    A ver. O Supremo tem reagido como corporação, em que uns membros defendem os outros. E a nota de Fachin não é um bom começo. Começa definindo como ataques contra a democracia as reportagens que exibem os estranhos interiores desse caso Master — um caso que vai muito além da liquidação de um banco.

  3. AS DUAS FACES DO MASTER, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo

    A intervenção do Banco Central em instituições de crédito sempre foi novela de um só capítulo. Nos casos dos bancos Econômico, Nacional e Bamerindus os auditores iam lá, arrolavam os malfeitos e, aos poucos, o caso sumia.

    A quebra do Master e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias.

    Uma é a das fraudes, que podem afetar 1,6 milhão de credores, num montante de R$ 41 bilhões. Segundo o ministro Fernando Haddad, o Master pode vir a ser “a maior fraude bancária” da História do país.

    A outra é o que parece ser uma operação para abafar as conexões de Vorcaro e a balbúrdia que se estabeleceu no Judiciário. O ministro Dias Toffoli baixou uma ordem de sigilo nas investigações. Determinou que a Polícia Federal só avançasse nos seus trabalhos depois de obter sua autorização. Finalmente, resolveu que quatro peritos, por ele indicados, tivessem acesso às provas guardadas nos computadores e nos celulares dos investigados. Toffoli foi defendido pelo presidente do tribunal, que considerou “regular” sua atuação.

    Somaram-se episódios girafescos. A mulher do ministro Alexandre de Moraes tinha um contrato milionário para serviços advocatícios. Noutra ponta, Toffoli foi ao Peru ver uma partida de futebol no jatinho de um empresário amigo, em companhia de um advogado de Vorcaro. O juiz Paulo Fernando de Britto Feitoza, do Tribunal de Justiça do Amazonas, mandou retirar do ar reportagem publicada pela Folha sobre processo de análise do Incra a respeito de projeto de crédito de estoque de carbono que tem como investidores parentes de Vorcaro.

    O que era uma fraude bancária, tornou-se uma crua exposição das condutas impróprias e erráticas de magistrados. No olho desse furacão está a galeria de conexões do banqueiro Daniel Vorcaro.

    O Banco Central interveio em 1995 nos bancos Econômico e Nacional. O Econômico era de Ângelo Calmon de Sá, ex-ministro da Indústria e Comércio (1974-1979), filho de uma família cujas conexões com o poder remontavam ao tempo do Império. Numa de suas salas, guardava numa pasta listas com doações a políticos. O Nacional pertencia aos filhos de José de Magalhães Pinto, ex-governador de Minas e ex-ministro das Relações Exteriores. Um de seus diretores, José Luiz de Magalhães Lins (1929-2023), foi um arquivo vivo do poder em Pindorama. Nos dois casos, as investigações pararam ao chegar às conexões dos bancos com o andar de cima.

    No caso do Master a coisa foi diferente. Daniel Vorcaro é neto de um imigrante italiano, seu pai nunca foi ministro nem governador.

    Ele entrou para o mundo financeiro em 2018 e quebrou sete anos depois. Foi Vorcaro quem teceu a rede de conexões do Master. Audacioso, oferecia eventos, parcerias, negócios e empréstimos a poderosos deste século. Na queda, viu-se amparado, mas teve contra ele as investigações da Polícia Federal, que foi mantida ao largo nos casos do Econômico e do Nacional.

    Abafar a caso do banco Master tornou-se um empreendimento arriscado: brigar com polícia pode ser um mau negócio e brigar com a Federal é certamente uma péssima ideia.

    O caso do Master está ainda no meio do caminho. A primeira metade, a das fraudes, toca um disco velho. A do abafa toca um disco novo e ainda está na segunda faixa.

    MADAME NATASHA

    Madame Natasha coleciona discursos e votos do ministro Edson Fachin. A senhora resolveu conceder-lhe uma de suas bolsas de estudo pela seguinte frase:

    “É induvidoso que todos se submetem à lei, inclusive a própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações.”

    Como o doutor não mencionou quem ameaça o tribunal, poderia ter dito apenas o seguinte:

    “O Supremo não se curva.”

    O CONSELHO DE TRUMP

    O Conselho da Paz de Trump prevê que ele terá a presidência vitalícia do organismo por tempo indeterminado e poderes ilimitados.

    Falta-lhe apenas que essa presidência seja hereditária. Por via das dúvidas, seu genro Jared Kushner, terá assento no Conselho.

    Kushner é um influente conselheiro de Trump em questões diplomáticas e negócios imobiliários. Em Gaza, tem os dois pés fincados.

    TALLEYRAND E O MERCOSUL

    Com o aparecimento de lombadas na implementação do Acordo do Mercosul com a União Europeia, apressadamente festejado em Brasília, vale lembrar o sábio francês Talleyrand (1754-1838):

    “Um diplomata que diz ‘sim’ quer dizer ‘talvez’. Um diplomata que diz ‘talvez’, quer dizer ‘não’. E um diplomata que diz ‘não’, diplomata não é.”

    FOTOGRAFIAS

    A fotografia de Liam Ramos, o menino de 5 anos detido por agentes da imigração americana junto com o pai, ao sair da escola, fará história. Liam está de touca, pelo frio de Minnesota, e é conduzido por um agente da temível polícia do ICE.

    Um vizinho pediu aos agentes que deixassem a criança aos seus cuidados, mas não foi atendido e o garoto foi levado para o Texas, a horas de voo.

    A imagem arrisca ir para o mesmo arquivo da fotografia de um garoto da mesma idade, de boné, com os braços levantados, saindo de um prédio do gueto de Varsóvia em 1943.

    (Apesar de terem aparecido diversos candidatos, o menino polonês nunca foi positivamente identificado.)

    Em tempo: Os judeus do gueto de Varsóvia eram exterminados.

    FINGINDO QUE ENSINO

    Depois de ter tentado barrar a divulgação do resultado da avaliação das faculdades de medicina, a Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares) questiona os resultados na Justiça.

    O MEC pode aplicar diversas sanções às faculdades reprovadas mas, para encurtar o caminho, basta que a Viúva não lhes conceda novos financiamentos do Fies.

    O Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies, foi uma gracinha criada na penumbra de Brasília para estatizar a inadimplência das faculdades privadas.

    O repórter João Gabriel revelou que entre as faculdades reprovadas, algumas cobravam mensalidades de até R$ 15 mil. Basta verificar em quantos casos a conta vai para a Viúva.

    Descobrirão, em casos extremos, estudantes que não aprenderam, numa faculdade que não ensinou, mas a Viúva paga religiosamente as mensalidades.

    TARCÍSIO VAI A BOLSONARO

    Quinta-feira Tarcísio de Freitas visitará na prisão o ex-presidente e anunciará seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.

    A decisão decorre da gratidão e do conforto. Ele gosta de ser governador de São Paulo e conhece o ofidiário de Brasília.

  4. Se a colegialidade será prevalente daqui para frente no Supremo, restará saber se as abusivas exceções monocráticas serão ratificadas para continuarem, escandalosamente, permanentes. Por enquanto, apenas malabarismo de palavras, ou o mau uso delas, como a essencial transparência. A insegurança está aumentando entre os brasileiros e brasileiras. Eles, cada vez mais, enxergam com clareza, um sistema dominador protegido funcionando contra a nação.

    COLEGIALIDADE SERÁ O PRINCÍPIO ORGANIZADOR DO SUPREMO, por Edson Fachin, presidente do STF, no jornal Folha de S. Paulo

    Encontramo-nos às vésperas do ano judiciário de 2026, período que constitui fase preparatória para a retomada dos trabalhos jurisdicionais, com vistas a conferir previsibilidade, eficiência e coerência jurisprudencial.

    De modo especial, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem o dever de assegurar segurança jurídica, proteger a ordem constitucional e garantir o funcionamento adequado das instituições republicanas, em observância às expectativas sociais de tutela jurisdicional efetiva.

    Por isso, diante da reafirmação do papel constitucional da corte, de fortalecimento da cultura democrática e de cumprimento da missão institucional de salvaguarda do Estado de Direito, o STF tem agora o dever de preservar a instituição e transmitir essa responsabilidade às gerações futuras.

    O Supremo, assim, prepara-se comprometido com a construção de um Judiciário compatível com as demandas do século 21, socialmente acessível, juridicamente estável e funcionalmente responsável. Reformas serão conduzidas sem rupturas, com urgência racional e sem açodamento decisório.

    Há legado jurisdicional que merece ser preservado. Em períodos de exceção, ministros como Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins defenderam a independência judicial, sendo afastados não por omissão ou abuso, mas por observância estrita ao dever funcional. Permanecem como referência histórica porque o ordenamento jurídico não se submete, em definitivo, às rupturas autoritárias.

    A pauta até este momento definida para a abertura do ano judiciário, a partir de 2 de fevereiro, reflete esse compromisso institucional e compreende matérias de alta complexidade constitucional, como o papel do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os limites da proteção previdenciária e a regulação das relações laborais na economia de plataformas digitais. São temas com impactos relevantes sobre a organização federativa, a política econômica e a seguridade social, representando hipóteses paradigmáticas de jurisdição constitucional com natureza contramajoritária e defesa dos direitos fundamentais.

    Há linhas que serão seguidas. A diversidade de formações e experiências constitui ativo institucional que amplia a capacidade deliberativa e a compreensão dos conflitos constitucionais. Nesse contexto, a colegialidade configura o núcleo metodológico da jurisdição constitucional do STF, permitindo a convergência de perspectivas distintas e assegurando que a decisão judicial seja produto de deliberação coletiva.

    Além de técnica deliberativa, a colegialidade será princípio organizador da corte, estruturante da legitimidade das decisões e instrumento de estabilização institucional, na medida em que transforma divergências qualificadas em consenso deliberado ou em decisões fundamentadas, transparentes e controláveis.

    A condução da agenda observará o calendário político-institucional do país. Em ano eleitoral, o tribunal deve atuar com prudência, distinguindo matérias que demandam pronunciamento imediato daquelas que admitem diferimento, preservando-se a neutralidade institucional e a estabilidade do processo democrático. A Constituição permanecerá sempre como parâmetro normativo.

    O contexto demanda incremento da interlocução entre os Poderes da República, o Ministério Público, as Defensorias Públicas, a advocacia e a sociedade civil, com vistas à preservação do pacto democrático.

    A ética pública, a transparência e a responsabilidade institucional estão na agenda e configuram requisitos indispensáveis ao exercício da jurisdição constitucional. A legitimidade do tribunal decorre da autoridade de seus precedentes, da previsibilidade de sua atuação e da confiança social na administração da justiça constitucional.

    Magistradas e magistrados em todas as unidades da Federação exercem suas funções com seriedade e independência para promover justiça, segurança jurídica e pacificação social sob a égide da ordem constitucional democrática. A eles se soma este Supremo Tribunal Federal, também convocado pelo tempo e pelas circunstâncias a preparar-se mais e aprimorar continuamente o exercício de sua missão constitucional. Há, ainda, muito a fazer.

  5. Que rasteira o Jorginho deu no MDB de Chiodini tirando a vaga acertada para vice.

    Só não foi pior que a rasteira que o Kleber deu no Brick em 2022, ao desistir do “acordo” para sair a candidato de deputado estadual.

    Bons tempos. Rsrsrsrs

    Boa semana. Atentos.

    1. Jorginho Melo, PL, conhece bem e não é do seu governo, o MDB catarinense chupim. Agora, terá que se contentar com o resto do ninho ou procurar outro, sem garantias de que será alimentado.

  6. Mas, a fraqueza do jornalismo profissional brasileiro – como nunca se viu antes – se apresentou à medida que ele permitiu as redações se tornarem militâncias ideológicas e um desequilíbrio na necessária pluralidade opinativa de seus articulistas e até de leitores. Faltaram freios e contrapesos no próprio jornalismo bolha. Ninguém tem a verdade. Ela precisa ser descoberta e discutida, sempre

    CASO MASTER EXIBE VALOR PÚBLICO DO JORNALISMO PROFISSIONAL, editorial do jornal Folha de S. Paulo

    Se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. A ideia, expressa pelo historiador britânico Lord Acton no final do século 19, ilumina uma tendência das organizações políticas que não zelam pelos freios e contrapesos.

    A crise de desconfiança que se aproxima da cúpula do Judiciário brasileiro dialoga com a profecia de Acton. Durante muitos anos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vieram acumulando poderes atípicos para colegiados da última instância constitucional.

    Canetadas coletivas e individuais reformaram o sistema partidário, derrubaram e reescreveram leis e emendas à Carta, mandaram soltar, prender e soltar de novo, produziram sucessivas reviravoltas jurisprudenciais, censuraram, enterraram escândalos de corrupção confessada e atropelaram legisladores, governantes, delegados e procuradores.

    Tanta força gravitacional fatalmente atrairia a cobiça de agentes públicos e privados interessados em fazer valer as suas demandas. Contratações de advogados parentes de ministros e convites para salamaleques com lobistas tornaram-se lugar-comum. Cedo ou tarde viriam as tentativas de corromper sumos magistrados.

    Ainda não se sabe se a máfia instalada no banco Master atingiu esse limiar, mas já se divisa a dificuldade de investigar às claras um caso quando ele começa a incomodar ministros da corte. Afinal, eles podem muito — Alexandre de Moraes acaba de sacar da algibeira da heterodoxia mais um inquérito secreto — e de suas decisões não cabe recurso.

    No episódio do Master, convivas do ex-banqueiro investigado na política partidária e em outras paragens da burocracia tampouco pretendem encontrar autores e cúmplices do descalabro, quando não se empenham em sabotar apurações e intimidar fiscais.

    A convergência de forças tão poderosas no sentido de abafar o caso teria prevalecido não fosse a atuação da imprensa profissional. Do trabalho metódico de repórteres e editores de veículos compromissados com perseguir fatos tem dependido o direito dos brasileiros à informação sobre essa fraude gigantesca e tentacular.

    Os conflitos de interesse de julgadores e suas decisões incomuns, bem como a intrincada engenharia das fraudes bilionárias e suas ramificações, foram escancarados pela imprensa e por isso já não podem ser ocultados sob o manto do pacto de silêncio.

    Ao concorrerem entre si pela primazia da notícia para cumprir o contrato com seus leitores, ouvintes e espectadores, os veículos prestam um notável serviço público nesse caso. Suprem, pela investigação independente e crítica, parte da lacuna deixada por instituições de Estado quando seus integrantes abandonam a equidistância prudencial.

    As revelações da imprensa profissional atendem às demandas de uma opinião pública perplexa com os acontecimentos em Brasília, que exige apuração profunda dos indícios de vultosas fraudes e corrupções em torno do Master.

  7. TRUMP QUER A GROELÂNDIA PORQUE SABE QUE O AQUECIMENTO GLOBAL É REAL, por Celso Rocha de Barros, no jornal Folha de S. Paulo

    A tentativa trumpista de roubar a Groenlândia da Dinamarca prova que a direita, no fundo, sabe que o aquecimento global é real. Afinal, a ilha dinamarquesa só ganhou relevância política porque, graças ao aquecimento global, o oceano Ártico tornou-se muito mais navegável.

    Em um artigo publicado na revista Nature Reviews Earth and Environment de março de 2024, os pesquisadores Alexandra Jahn, Marika M. Holland e Jennifer E. Kay mostraram que o aquecimento global criou uma possibilidade até outro dia impensável: um Ártico sem gelo durante boa parte do ano.

    Suas estimativas indicam que, entre 2020 e 2030, já podem ocorrer setembros sem gelo no Ártico, algo que se torna bastante provável em 2050. Daí em diante o cenário depende cada vez mais de nossa capacidade de reduzir as emissões de carbono: com altas emissões, em 2100 pode haver um Ártico sem gelo entre maio e janeiro. Com emissões reduzidas, o período sem gelo cairia para agosto-outubro.

    As consequências para o clima global são impensáveis, mas ninguém se importa com isso fora Marina Silva, Greta Thunberg e mais uma minoria ínfima de seres humanos que se recusa a cometer genocídio contra os próprios descendentes.

    Como mostra a baixa eficiência eleitoral do ambientalismo, o ser humano médio aceita que seu neto definhe sob intenso sofrimento ainda na primeira infância, desde que o preço da gasolina não suba nesta semana.

    Por isso, o derretimento do Ártico vem chamando atenção, sobretudo, pelas oportunidades econômicas e geopolíticas que descortina.

    Um Ártico sem gelo é uma rota marítima muito mais rápida entre América do Norte, Europa e Ásia do que, por exemplo, o Canal de Suéz. É uma alteração importante da geografia econômica do mundo.

    Ampliam-se, igualmente, as possibilidades de guerra naval no extremo norte. Sempre foi, em tese, possível que Estados Unidos e União Soviética se invadissem pelo Ártico. Mas a experiência alemã no inverno russo (por comparação, uma primavera amena) fez com que nenhum dos lados se animasse com a ideia.

    Quando se leva isso em conta, fica claro que o plano trumpista de roubar o Canadá faz parte da mesma visão de roubar terra no norte porque a catástrofe ambiental deve promover a valorização imobiliária da região.

    Além disso, os ricos de Silicon Valley vêm investindo na mineração da Groenlândia. Muitos deles acreditam que a Groenlândia pode ser um bom lugar para instalar utopias capitalistas independentes de qualquer regulação estatal. O bilionário trumpista Peter Thiel, por exemplo, acredita que experimentos como esses seriam uma boa alternativa agora que “a democracia não serve mais à liberdade”, o que se deveria, em grande parte, ao direito das mulheres votarem.

    Nesse cenário, a Groenlândia deixaria de pertencer à Dinamarca, um país com indicadores de bem-estar muito melhores do que os dos Estados Unidos, para se tornar uma mistura de Banco Master com a ilha do pedófilo Jeffrey Epstein.

    O “experimento de desregulamentação” de Epstein, aliás, funcionava nas Ilhas Virgens Americanas, o último território que os Estados Unidos compraram da Dinamarca. Em algumas questões importantes, as mulheres não tinham direito ao voto.

  8. O ALVO NÃO SÃO AS COTAS: É O SEU DIPLOMA QUE ENTROU NO MEIO DE UMA DISPUTA POLÍTICA, por Aurélio Marcos de Souza, advogado, ex-procurador geral de Gaspar (2005/08), graduado em Gestão Pública pela Udesc. Artigo, originalmente, publicado nas redes sociais do autor.

    Formei-me há mais de 25 anos e vivi uma época em que estudar em uma universidade era privilégio de poucos. Só consegui concluir meu primeiro curso porque tive acesso ao FIES, um financiamento federal que permitiu pagar a faculdade ao longo do tempo. Trago essa experiência porque ela ajuda a entender por que a discussão atual em Santa Catarina não é abstrata nem ideológica: ELA AFETA DIRETAMENTE A VIDA DE QUEM ESTUDA E DE QUEM PAGA IMPOSTOS.

    Hoje, existe um conflito claro entre 2 (duas) exigências diferentes. O Governo Federal determina que universidades que oferecem FIES e ProUni sejam obrigadas a manter políticas de cotas raciais. Isso não é opcional: é uma condição legal para que a instituição participe desses programas e receba recursos federais. Ao mesmo tempo, o Governo de Santa Catarina aprovou uma lei que proíbe cotas raciais nas universidades que recebem verbas estaduais, como o programa Universidade Gratuita. Ou seja, a mesma universidade recebe duas ordens opostas.

    Na prática, a instituição fica obrigada a escolher qual lei vai cumprir. Se decidir seguir a exigência federal para não perder o FIES e o ProUni, o Estado pode cortar imediatamente os repasses do Universidade Gratuita. Quem paga essa conta não é a reitoria, mas o aluno de baixa renda que depende desse auxílio para estudar. Muitos desses estudantes não são cotistas raciais, mas podem perder o benefício no meio do semestre e simplesmente não ter como continuar pagando a mensalidade.

    Se, por outro lado, a universidade optar por obedecer à lei estadual e acabar com as cotas raciais, ela entra em irregularidade com o Ministério da Educação. Isso pode resultar no descredenciamento do FIES e do ProUni. Nesse cenário, estudantes que já utilizam financiamento ou bolsas federais correm o risco de ter seus contratos suspensos ou não renovados. O prejuízo atinge alunos em andamento, inclusive aqueles que estão perto da formatura.

    O ponto central é que essa disputa não atinge apenas um grupo específico. Ela ameaça todo o sistema de permanência no ensino superior. Universidades dependem de um equilíbrio entre recursos estaduais e federais para manter cursos, professores e estrutura. Quando esse equilíbrio é rompido, surgem cortes, demissões, fechamento de cursos e evasão estudantil.

    E é aqui que entra a responsabilidade de quem vota.
    • Você concorda que decisões políticas sejam tomadas sem explicar quem vai pagar a conta depois?
    • Você acha justo que estudantes percam o direito de concluir a faculdade por causa de uma briga entre governos?
    • Quando o debate vira slogan, quem protege o aluno que só quer estudar?

    Na próxima vez que alguém prometer soluções simples, vale perguntar: quem ganha com essa decisão — e quem fica pelo caminho?

    1. Excelente e clara avaliação, no meu particular entender, ressalto desde já. Os radicais querem apenas falar para os seus públicos e suas bolhas de convertidos. Para eles, não interessa à pluralidade da construção. Prevalecem os picaretas das ideias. Enterram-se os estadistas, os líderes e os que promovem resultados concretos para a sociedade.

  9. Como o Centrão se articula para esvaziar a CPI do Banco Master no Congresso
    Wesley Oliveira
    Por Wesley Oliveira
    Gazeta do Povo

    Dê de presente
    CPI do Banco Master Congresso
    Fachada do Congresso Nacional: Tentativa de esvaziar CPI do Banco Master ocorre em meio ao recesso do Legislativo

    Mesmo com assinaturas suficientes para a criação de comissões parlamentares de inquérito, a apuração do escândalo envolvendo o Banco Master enfrenta forte resistência nos bastidores do Congresso Nacional. O movimento é liderado por setores do Centrão, que atuam para postergar ou esvaziar a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) diante do risco de que uma investigação parlamentar exponha uma rede extensa de relações políticas e jurídicas mantidas pelo fundador e CEO da instituição, Daniel Vorcaro.

    Embora haja apoio formal à investigação entre parlamentares de todos os campos, da oposição, do próprio Centrão e até entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a disputa deixou de ser pela coleta de assinaturas — etapa já superada — e passou a se concentrar no controle do escopo, do ritmo e do momento político das apurações.

    Hoje, há ao menos três requerimentos prontos para a criação de CPIs: um na Câmara dos Deputados, um no Senado Federal e outro para uma comissão mista entre as duas Casas do Legislativo. Ter o apoio mínimo, no entanto, não obriga a instalação dos colegiados. Os presidentes das Casas não têm prazo regimental para dar andamento aos pedidos, o que permite que, havendo acordo político, as CPIs simplesmente não saiam do papel.

    No caso de CPIs mistas, o controle é ainda mais sensível. Há precedentes de que basta a leitura do requerimento em sessão do Congresso Nacional para que a comissão seja instalada. Assim, a simples postergação da convocação dessas sessões se tornou um instrumento eficaz para atrasar indefinidamente o processo, mantendo a investigação em estado de suspensão.

    Nos bastidores, parlamentares admitem que o principal fator de resistência à CPI é a chamada “bancada ligada a Daniel Vorcaro”. Antes de ser preso, em novembro, após a deflagração da Operação Compliance Zero, o empresário construiu uma rede de interlocução com lideranças influentes do Congresso, especialmente em partidos do Centrão — uma articulação que hoje é vista como um dos maiores entraves à investigação parlamentar.

    Entre os nomes mais citados estão o senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP, e Antônio Rueda, dirigente do União Brasil. Ambos são apontados como pontes políticas de Vorcaro em Brasília e teriam participado das articulações para viabilizar a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), operação posteriormente vetada pelo Banco Central.

    A proximidade entre Vorcaro e o núcleo do Centrão também se refletiu em iniciativas no campo legislativo. Em 2024, Ciro Nogueira apresentou uma emenda à PEC 65/2023 propondo elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ.

    Críticos da proposta afirmaram, à época, que a ampliação da garantia beneficiaria diretamente bancos médios com forte captação junto a investidores — perfil no qual o Banco Master se enquadrava. A iniciativa passou a ser citada, nos bastidores, como exemplo do grau de influência política exercido pelo grupo ligado à instituição.

    Com a liquidação do Banco Master pelo BC, os desembolsos do FGC para cobrir depósitos e aplicações de clientes atingidos pelo grupo Master, que inclui hoje o Will Bank, podem somar até R$ 46,9 bilhões. O montante representa quase 40% da liquidez que a instituição tinha em junho de 2025, de R$ 121 bilhões

  10. Eu fiz um comentário no seu ultimo Blog, sobre exatamente sobre mudanças, Gaspar tem que acordar e deixar os antigos capitães do Mato para atrás e sair a buscar de soluções efetivas. Um detalhe porquê nunca fomentaram “Capital Nacional da Moda Infantil” ??

  11. ESTÁ FALTANDO HUMILDADE AO SUPREMO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    Supõe-se que a nota divulgada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, em defesa da Corte e da atuação do ministro Dias Toffoli no inquérito do Banco Master pretendia sinalizar força institucional. Em vão. Ao endossar o colega, sem ressalvas, por sua condução do caso amplamente questionada pela comunidade jurídica e pela opinião pública, Fachin expôs mais fragilidade – inclusive pessoal – do que firmeza. Ademais, manteve vivas as suspeitas que o próprio Supremo deveria dissipar.

    Segundo Fachin, Toffoli age na “regular supervisão judicial” das investigações, com respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. A impressão que se tem, data maxima venia, é de que Fachin sentiu-se compelido a pagar um pedágio, digamos assim, para ministros que, ao que parece, são bem mais fortes do que ele nos arranjos internos do STF. Só isso explica sua omissão, na nota, diante da pletora de evidências de que a relatoria de Toffoli no caso Master pode ser tudo, menos “regular”.

    É fácil enumerar em texto dispositivos constitucionais e princípios democráticos dos quais ninguém de boa-fé haverá de discordar. Difícil – e corajoso – seria deixar de lado o espírito de corpo e enfrentar os fatos que colocam em xeque a regularidade daquela supervisão e, principalmente, a própria competência do STF para exercê-la.

    À omissão soma-se o fato de Fachin incorrer no velho cacoete de tratar críticas legítimas ao STF como “ameaças” ou “ataques”. Ora, criticar a Corte ou cobrar explicações por comportamentos impróprios de seus ministros não constitui ataque à instituição nem muito menos ao Estado Democrático de Direito. Ao contrário: é um exercício de cidadania que só os fortalece. Para piorar, ao desdenhar da “pressão midiática”, Fachin desqualifica o papel da imprensa profissional, que se limitou a divulgar fatos de interesse público e a formular perguntas sobre o caso Master, seus executivos e autoridades que permanecem no ar.

    Em paralelo à nota de Fachin, o decano do STF, ministro Gilmar Mendes, foi a uma rede social celebrar a decisão da Procuradoria-Geral da República (PGR) de arquivar sumariamente os pedidos de impedimento de Toffoli formulados por parlamentares. Mendes falou em “funcionamento regular das instituições” e em “decisões (de Toffoli) fundadas em critérios jurídicos objetivos”. É mais uma retórica absolutamente dissociada da realidade factual.

    Como já sublinhamos nesta página, e juristas em uníssono já o expuseram ao Estadão, há razões legais para o impedimento de Toffoli como relator do caso Master. É ocioso voltar a enumerá-las. Há, também, muitas perguntas ainda sem respostas. Por que o inquérito do Banco Master tramita no STF, se os investigados não têm prerrogativa de foro? Por que o ministro relator impôs sigilo às investigações? Que interesses, afinal, estão recebendo guarida na mais alta instância judicial do País?

    Essas dúvidas, não sanadas por Fachin, só se fortaleceram após virem a público as relações pessoais e familiares de Toffoli com pessoas ligadas a investigados sob sua jurisdição. Ainda que, a priori, não se esteja diante de ilícitos, só essa proximidade pessoal do relator já expõe um conflito de interesses incontornável. Não admiti-lo é falta de humildade, como se os ministros do STF fossem seres morais superiores, e não servidores públicos submetidos a controles republicanos.

    É nesse contexto que causa perplexidade a decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de arquivar os pedidos de afastamento de Toffoli. Não se pode condenar quem veja esse comportamento do chefe do Ministério Público Federal como submissão ao Supremo, não à ordem jurídica que o parquet tem por missão constitucional defender. A PGR não pode se rebaixar à condição de apêndice da Corte, muito menos de um punhado de ministros, sob pena de acabar com sua independência.

    O Supremo não é uma instância imune ao escrutínio da opinião pública. Seu poder é contrabalançado por mecanismos de controle previstos na Constituição, entre eles a crítica social e a fiscalização do Senado. Colocar a Corte em um pedestal, acima de qualquer questionamento, como fez Fachin, não a fortalece – só aumenta a desconfiança.

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