Nem delegado, o que investiga e olha a ficha corrida dos que escolhe e que se aproximam da sua administração. Nem prefeito que age, reage, lidera, articula, concilia, dá transparência como antídoto aos críticos e cria resultados para atender às expectativas de promessas imaginada para cooptar os insatisfeitos eleitores e eleitoras. Promessas feitas quando candidato para se eleger, exatamente, ao notar a insatisfação do governante de plantão.
Nesta semana, depois de seis meses de intensa agonia e unanimidade contra a cidade, tomada pela incompreensão dos cidadãos e cidadãs a um setor – há outros como a Saúde e o Planejamento Territorial na mesma situação e voltarei ao tema – essencial para resultados simples de manutenção da cidade – e não vou tocar em obras mínimas necessárias para se iniciar -, Paulo Norberto Koerich, PL, decidiu que vai trocar o secretário de Obras e Serviços Urbanos, Vanderlei Schmitz, por outro.
O que poderia ser uma tardia correção de desgastes permanentes ao governo de Paulo e Rodrigo, ensaiou-se, vejam só, num desgaste ainda maior. Inacreditável. Quem mesmo orienta essa gente?
O ENSAIO PELA RÁDIO PEÃO, A COMUNICAÇÃO DOS ANOS 25 DO SÉCULO XXI DA PREFEITURA DE GASPAR
Informalmente, circulou ontem pelas redes sociais, mas principalmente, nervosamente, pelos aplicativos de mensagens de que o ex-presidente do Samae, de Blumenau e de Gaspar, Cleverton João Batista, mais um vindo de Blumenau e do quase inexistente MDB de lá, e que por mais de uma década que sequer elege vereador por lá, seria o substituto de Vanderlei. O quase indicado Cleverton, velho conhecido por lá em ações policiais no Samae de lá foi aqui homem de confiança – seja na secretaria de Planejamento Urbano e no Samae – de Kleber Edson Wan Dall, MDB, bem tanto com Luiz Carlos Spengler Júnior Como com Marcelo de Souza, PP. Credo.
A comunicação de Paulo mudou, mas e é ainda tão torta a que o deixou na mão por meses. Ou ela trabalha contra ele, ou continua a serviço de curiosos, bruxos e arapongas que dominam o governo de plantão. Ela não desmentiu, não esclareceu, nem sequer confirmou a demissão de Vanderlei. Transparência, zero. E por que? Porque não se posicionou minimamente sobre esta mudança. A prefeitura é um ente público exposto. Prefeito e secretários, também. Devem explicações, esclarecimentos. Se não fazem, criam e alimentam desinformações contra eles próprios. Nem mais. Nem menos.
Paulo e Rodrigo eleitos, sob as bençãos de Jair Messias Bolsonaro e Jorginho Melo, ambos PL, prometiam tudo mudar em Gaspar? Como aconteceu com Bolsonaro em Brasília e está acontecendo com Jorginho, em Florianópolis, nada mudou até agora. O mofo tomou conta. E a decepção também.
Diante da grande repercussão negativa – incluindo entre o PL, União Brasil e bolsonaristas – da possível indicação de Cleverton, tudo foi colocado em banho maria. E o chefe de Gabinete Paulo Norberto Koerich, PL, Pedro Inácio Bornhausen, PP, que já teve a mesma função no governo de Kleber, assumiu interina e informalmente – entre tantas informalidades – a “interinidade” informal de secretário de Obras e Serviços Urbanos de Gaspar.
PAGA-SE IMPOSTOS DUPLAMENTE PELA INÉRCIA E LIDERANÇA GOVERNAMENTAL
O resultado de seis meses da falta prioridades, de ações efetivas e coordenadas do ex-secretário Vanderlei, somado ao vácuo criado, bem como à indefinição da interinidade as quais estão retratadas em toda a cidade, nas quase mil indicações dos vereadores pedindo o básico do básico, este vídeo abaixo é simbólico e insofismável. Ele vale mais do que mil palavras dos meus textões que o atual governo os têm como perseguição.
Este vídeo, tomou conta da cidade ontem pelas redes sociais. Ele é o registro do desespero e de uma atitude racional de um empresário. Ele teve que contratar uma retroescavadeira para que, vejam só, seus clientes, empregados, insumos e produtos pudessem sair e entrar da sua empresa na Rua João Zermiani, no Gaspar Mirim. Mais custos. Mais prejuízos no caixa. Mais perda de competitividade com os concorrentes. E em algo que é obrigação do município fazer naquilo que ganha de retorno – direto e indireto, incluindo empregos – com os impostos gerados pelas atividades empresariais do empreendedor. Vergonha.
O governo de Paulo já tinha dado abundante amostra na falta de foco, escolha das prioridade e capacidade gestão dos múltiplos problemas e da cidade. E não pode reclamar que os herdou. Primeiro porque se apresentou na campanha como a solução e sabia de tudo o que encontrou. Segundo, porque não se preparou para superar o que jurou que superaria. Terceiro, porque está aproveitando parte da equipe de quem acusava de não ter solução, o governo anterior.
Paulo e Rodrigo vem perdendo de goleada, como tenho demonstrado, rotineiramente aqui, para os nossos municípios vizinhos tanto em articulação, assim como em soluções, enfrentamentos e criatividade.
Muitas desses problemas só são estampados aqui, por diversos e óbvios motivos. Aliás, todos eles bem conhecidos da cidade.
UMA SEMANA DESASTROSA. A CONTA ESTÁ CHEGANDO
Estas duas semanas parecem que Paulo, Rodrigo e sua equipes desafiaram o bom senso além da conta. O BRASIL DISCUTIU O FUTURO SUSTENTÁVEL, QUALIDADE E GESTÃO DOS MUNICÍPIOS EM FLORIANÓPOLIS. PARTE DA GASPAR QUE GOVERNA FICOU À MARGEM DAS TROCAS DE EXPERIÊNCIAS
A foto que abre este artigo de hoje, mostra o claro, reiterado desprezo do governo de Paulo e Rodrigo, secretaria de Agricultura e Aquicultura, bem como a de Obras e Serviços Urbanos, contra o patrimônio público – parte dele criado e preservado desde a administração de Tarcísio Deschamps (1983/88). Eles fizeram a festa as pressas e nas coxas para se livrarem do vexame de dar vazia e, desrespeitosamente ao contribuinte, abandonaram para degradação, ao relento, por dias, e até ser criadouro de dengue o material usado na expo-feira. Impressionante.
E o Hospital de Gaspar? Nenhuma novidade. Mais uma vez, ele voltou a ser manchete não nos veículos de comunicação que são ameaçados de processos se tocarem neste assunto e por causa desse silêncio imposto pelos poderosos e falta de debate público, tudo isso se agrava por lá contra os cidadãos e cidadãs, doentes, vulneráveis e esperançosos de simples atendimento, diagnóstico e cura. A denúncia foi, mais uma vez, do vereador Ciro André Quintino, na Câmara. Os demais? Voltarei ainda ao tema.
Não é à toa que a página no Instagram chamada “Gaspar Mil Graus”, ao pedir que seus leitores e leitoras dessa opinião sobre o governo de Paulo e Rodrigo pitacos sobre o governo deles, houve uma assustadora chuva de reclamações. O que é isto? Realidade. Se estes políticos, que são a continuidade de Kleber, Luiz e Carlos e Marcelo rejeitados maciçamente nas urnas tivesse lido e refletido o que se expressa aqui, estaria o atual governo melhor posicionados. Preferiu o enfrentamento ao mensageiro e não aos problemas. Voltarei ao tema. Ridícula foi a orientação do Paulo para procurar a Ouvidoria. Atestou que está surdo. Mas,…
Agora. Como alternativa para se disfarçar Paulo está aparecendo no gabinete em fotos com crianças como se fosse época natalina e o vice Rodrigo, que sempre foi esquerda, gastando dinheiro público em audiências públicas em Florianópolis, para validar a não obrigatoriedade da vacina contra a Covid, só para estar mais próximo dos eleitores e eleitoras negacionistas, pois lhes falta resultados práticos para a cidade. Meu Deus.
FALTA FUNDAMENTO, LEI E DOCUMENTAÇÃO
E neste mar de contradições, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano, numa a orquestração relâmpago do novo secretário de Planejamento Territorial, Michael Jackson Shoenfelder, passou a régua num canetaço contra a mobilidade para atender os empresários da construção civil alegando que não havia lei clara sobre o assunto. E se não há lei vale o que se pede. E contra a acessibilidade, diante do olho fechado do Ministério Público.
O que se alegou para isso e vai virar mais uma lei de exceção na Câmara? Que a revisão obrigatória do Plano Diretor de Gaspar atrasada por dez anos – contratada, caramente paga e engavetada – não estava concluída e as demandas empresarias seriam urgentes. Ao invés de resolver o Plano Diretor para pela lei igualar as oportunidade para todos, resolveram as demandas particulares à margem da lei. E mais, demitiram o diretor que deveria estudar e botar para rodar os estudos do novo plano diretor.

E se nada fosse uma orquestra bem afinada do velho governo de Kleber e os então candidatos Paulo e Rodrigo condenavam para o voto fácil, a Ampe – Associação das Micros e Pequenas Empresas de Ilhota e Gaspar – a mesma que criou a tal a Capital Nacional da Moda Infantil para Gaspar – fez circular um “Comunicado Oficial” em caixa alta, com denúncia pública a Ouvidoria do Município e ao Ministério Público – neste, aliás, pode ser um tiro no pé se ela resolver ouvir os fiscais e servidores efetivos -, reclamando da morosidade das análises dos projetos na prefeitura e insinuando que há corpo mole por parte dos servidores municipais. Uma parte é do jogo jogado. A outra é parte do jogo combinado, do jogo marcado, do compadrio. É a volta da prática do governo Kleber, Luiz Carlos e Marcelo. É para pressionar e respaldar o que se fazia, foi interrompido e está sendo retomado na nova “gestão” da secretaria de Planejamento Territorial, Procuradoria Geral do Município e Chefia de Gabinete.
Os funcionários e fiscais atingidos pela “nota oficial da Ampe” ficaram emputecidos e prometem ir ao Ministério Público Estadual. Dizem que 80% desses alegados atrasos nas liberações de licenciamentos é culpa dos próprios empreiteiros, proprietários, e empreendedores. Alegam, que eles não apresentam a documentação necessária ou pedida, todas exigidas por lei em vigor. Esses empreiteiros, proprietários e empreendedores, com relacionamentos próximos aos poderosos do antigo e novo poder de plantão, acham que à simples aproximação dos poderosos e o bafo dos políticos vão intimidá-los.
Na outra parte da morosidade está à afronta à lei Federal e que o município não tem interferir. Estes servidores de carreira, temem que fazendo errado e como querem seus superiores, podem, sozinhos, responderem por prevaricação e perderem a nomeação. Preferem o PAD – Processo Administrativo Disciplinar, pois neles tem como se defenderem e apontarem a coação indevida dos superiores. Muda, Gaspar.
13 comentários em “ERA PARA MUDAR, SEGUNDO JUROU-SE NA CAMPANHA ELEITORAL. MAS, MENOS DE SEIS MESES DEPOIS E VÁRIOS INDÍCIOS DE QUE ESTAVA PIORANDO, FINALMENTE COMEÇOU A KLEBERIZAÇÃO DO GOVERNO DE PAULO E RODRIGO, EM GASPAR”
VELHAS IDÉIAS RONDAM A ELEIÇÃO DO PT, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Ao surgir em 1980, o Partido dos Trabalhadores distinguiu-se das agremiações tradicionais da história brasileira, em particular da oposição consentida pela ditadura militar agônica de então. De saída, fez da disputa interna entre correntes diversas, ainda que sempre à esquerda, uma marca.
A democracia partidária, todavia, subordinou-se à realidade do poder. Em seu primeiro grande teste, a prefeitura paulistana conquistada em 1988, o assembleísmo petista resultou em balbúrdia administrativa.
Figura de proa da legenda desde a origem, Luiz Inácio Lula da Silva sempre buscou impor sua vontade aos correligionários. Ao chegar à Presidência da República, vencendo o pleito de 2002, sacramentou seu “diktat” —do qual decorreram cismas, como aquele em que foi criado o PSOL.
No maior revés de sua história, o processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, o PT se viu ainda mais dependente do comandante. O período em que Lula ficou preso aprofundou o caráter messiânico de sua liderança.
De 2017 até março deste ano, o PT foi presidido por Gleisi Hoffmann, sob a bênção lulista. Hoje ministra das Relações Institucionais, ela dava vazão às insatisfações do partido com a política econômica de Fernando Haddad —nada que seja estranho ao estilo do presidente em terceiro mandato de gerir partido e governo.
Com a vacância no comando petista, foi aberta a campanha que acaba com o pleito deste domingo (6). Lula ungiu Edinho Silva para o cargo, com algum dissenso na forma da candidatura do ex-chefe da sigla Rui Falcão.
Demais nomes na disputa, Romênio Pereira e Valter Pomar, são a concessão usual às alas radicais. A disputa interna, como não poderia deixar de ser, foi tomada por ataques à política econômica.
Na semana derradeira da refrega, os adversários de Edinho assinaram carta conjunta pedindo mobilização popular contra os juros do Banco Central e a maioria conservadora do Congresso Nacional.
O favorito na eleição tem a reputação de moderado, pelos padrões petistas. É Lula, no entanto, quem hoje ensaia tomar o rumo da radicalização.
Acossado pela impopularidade e pela dificuldade de governar, expressa na crise do IOF, o cacique petista recorreu ao usual “nós contra eles”, desta vez propagando que a culpa pelos problemas do país é de um conluio entre parlamentares à direita e super-ricos avessos a impostos.
Edinho, até aqui, não deu sinais de adesão ao confronto, seja com outras forças políticas, seja com a política de Haddad —quando muito, defendeu corretamente a revisão de isenções tributárias e fez uma proposta exótica de novo cálculo da inflação para permitir a queda dos juros.
Se não será capaz de renovar o ideário do PT, sua gestão poderia, na melhor hipótese, contribuir para a pacificação de relações com os demais partidos. Será preciso, entretanto, combinar primeiro com Lula.
O PT, Lula, Haddad, Gleisi e a esquerda do atraso dizem que o IOF é para taxar ricos e dar aos pobres. Mentem. São os pobres que pagam o pato porque não possuem educação financeira. O PT, Lula, Haddad, Gleisi e a esquerda do atraso sabem disso. E se estabelecem nas narrativas falsas. E ficam loucos quando se esclarece tudo isso… E com dados
SUBIR IMPOSTOS É IÚTIL, por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo
O assunto está certo: o desastroso sistema tributário brasileiro. O debate tem muita coisa errada. Começando pelo IOF, Imposto sobre Operações Financeiras. Os ricos certamente pagam IOF quando compram um carrão importado ou torram uma nota no cartão de crédito internacional. Logo, aumentar esse imposto é uma medida de justiça tributária, certo? Errado. Quem está enrolado numa dívida de R$ 300 no cartão de crédito também paga IOF. Ou quem compra uma blusinha no cartão de débito também morre com imposto.
No geral, o IOF incide sobre as operações de crédito. Logo, aumentar esse imposto prejudica quem está endividado, certo? Certo. E quem está mais endividado? Os mais pobres. Alguns dados, recolhidos de pesquisa da Confederação Nacional do Comércio: entre as famílias na faixa de renda de 0 a três salários mínimos, 81% estão endividadas. Entre quem ganha acima de dez salários mínimos por mês, 67% têm dívidas. E entre os que têm dívidas atrasadas? De novo, os mais pobres são a maioria, proporcionalmente: 37% estão inadimplentes. Os mais ricos? Quinze por cento de inadimplentes.
Logo, aumentar o custo do crédito, via IOF, prejudica todo mundo que toma dinheiro emprestado. Só que o peso das despesas com empréstimos é maior entre as famílias mais pobres. Na verdade, o problema principal do Brasil está na elevada carga tributária. Aqui, os impostos pagos por pessoas físicas e empresas somam 34% do PIB. Na média dos países latino-americanos, a carga fica em torno dos 20%.
Na cobrança de impostos, o Brasil parece os países europeus mais ricos. Na distribuição — nos gastos públicos e serviços prestados pelo governo — parece o Brasil mesmo que a gente conhece. Isso é custo Brasil, o preço de fazer negócios por aqui. Brasileiros pagam muito imposto no consumo. Nos meios gastronômicos e no setor da indústria de bebidas, costuma-se dizer que o vinho brasileiro tem um grande inimigo, os impostos. Somando as taxas estaduais e federais, dá uns 60% do preço de venda ao consumidor. Dirão: azar dos ricos que tomam vinho, especialmente os que consomem o estrangeiro, a que se acrescentam IOF e imposto de importação. Mas e os impostos sobre o consumo de cerveja e chope? Nada menos que 55%.
Está em curso no Brasil uma reforma tributária, que muda — e melhora — o sistema de cobrança dos impostos sobre consumo. Mas a carga elevada se mantém, porque desde o início dos debates se considerou que o governo, nos três níveis, não poderia perder receita. E não poderia mesmo, porque os gastos têm aumentado todos os anos. Esse o problema central. Os impostos aumentam porque os gastos aumentam. O governo federal bate recordes de arrecadação, e ainda falta dinheiro.
Há também outro problema importante, que leva a distorções. Dividendos recebidos por acionistas de empresas não são taxados, mas os lucros das empresas são pesadamente taxados antes da distribuição aos acionistas. Nos países com sistemas tributários mais equilibrados, é o contrário. A empresa, a pessoa jurídica, paga bem menos que no Brasil. Em compensação, o acionista, pessoa física, morre com imposto pesado. Por que o Brasil adotou sistema diferente? Um motivo é óbvio: é mais fácil cobrar de uma empresa que de muitos e muitos acionistas individuais.
Hoje, com os meios eletrônicos da Receita Federal, já é possível fazer a reforma completa: taxar mais os acionistas e menos as empresas. Reduziria o custo Brasil. Enfim, há muito mais que IOF nessa história. História, aliás, longe do fim. Ontem, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu tanto o aumento do IOF decretado pelo governo como o ato do Congresso que cancelou o decreto do Executivo. Zerou o jogo e chamou todos para uma conversa.
No que vai dar isso? Provavelmente em aumento de outros impostos. Há demanda por gastos em todo o setor público — Executivo, Legislativo e Judiciário. E o pessoal não vê outra saída senão arrecadar mais. E, por falar nisso, e em apostas, a Caixa acaba de aumentar o preço de suas loterias. Essa bet pode, não é mesmo?
O Brasil que elegemos e come vorazmente os cada vez mais altos impostos on line e que os políticos dizem ainda serem pouco para a farra cotidiana
CAMARA VAI PAGAR DESPESAS DE 30 DOS 44 DEPUTADOS QUE FORAM A LISBOA, por Weslley Galzo, no jornal O Estado de S. Paulo
O XIII Fórum de Lisboa, organizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, levou 44 deputados em missão oficial de Brasília para a capital de Portugal nesta semana. Dentre os parlamentares, 30 solicitaram que a viagem fosse com “ônus” à Câmara. Com isso, a Casa vai arcar com todas as despesas, como hospedagem, deslocamento e custos adicionais.
Os deputados que pediram o ressarcimento das despesas serão reembolsados após a apresentação das notas ficais. Por esta razão, ainda não é possível estimar quanto o deslocamento em massa de parlamentares a Lisboa custou aos cofres públicos.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), está entre os deputados que solicitaram o reembolso dos valores. Na lista dos viajantes, também figuram seis parlamentares que são parte em processos no STF: Arthur Lira (PP-AL) – ex-presidente da Casa –, Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Luís Tibé (AvanteMG), Paulinho da Força (Solidariedade-SP), Rodrigo Gambale (Podemos-SP) e Baleia Rossi (MDB-SP).
Como mostrou o Estadão, o Senado vai custear a ida de seis senadores ao evento. O afastamento de parlamentares do País precisa ser comunicado às Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, a quem cabe autorizar a ida dos solicitantes.
Os deputados e senadores podem optar por duas formas de deixar o País: em missão oficial, representando a Casa da qual fazem parte, ou como participantes em determinado evento, o que também exige comunicação ao comando do órgão.
Os parlamentares ainda podem escolher se desejam deixar o País com ou sem ônus à instituição da qual fazem parte – ou seja, se querem ser reembolsados por todos os gastos existentes na viagem ou não.
LAI. A lista de deputados custeados pela Câmara foi divulgada pela direção da própria Casa Legislativa a partir de um pedido de Lei de Acesso à Informação feito pelo Estadão. Procurada, a direção da Câmara não quis se manifestar.
Apelidado de “Gilmarpalooza”, o evento provoca, anualmente, o deslocamento de significativa parcela do poder político de Brasília para a capital de Portugal. O evento é realizado na Universidade de Lisboa e trata de diversos assuntos – neste ano, o tema é “O mundo em transformação: direito, democracia e sustentabilidade na era inteligente”. Mas são as atividades paralelas e fora do escopo acadêmico que mobilizam parte dos presentes.
Além da classe política, o evento reúne empresários de grandes companhias, advogados dos escritórios mais renomados do País e acadêmicos. A união desses diferentes grupos, mas que podem partilhar interesses em comum, torna as festas, os almoços, os passeios e os jantares organizados paralelamente ao evento atrações à parte e altamente concorridas.
Na edição deste ano, por exemplo, a Associação Latinoamericana de Internet (ALAI), que representa as big techs, ofereceu um almoço a participantes seletos do fórum.
‘COISA ERRADA’. Ontem, Gilmar indicou que não se abala com o apelido dado ao Fórum de Lisboa. “Se quiserem, podem continuar chamando de ‘Gilmarpalooza’”, afirmou o magistrado antes de dar uma gargalhada durante entrevista coletiva.
“Vocês veem aqui vários governadores, senadores e deputados na condição de palestrantes e, depois, de assistentes, participando dos eventos”, disse o ministro, para quem “ninguém” vai ao fórum “fazer coisa errada”.
Esclarecedor. Ler até o fim é importante. Como diz o autor, compra quem quer esta jogada do PT, Lula, Haddad e da esquerda do atraso que nos trata completos ignorantes e bonecos de uma narrativa que não se sustenta num mundo em ebulição nas redes sociais e aplicativos de mensagens
PT POSA DE PALADINO DA JUSTIÇA SOCIAL, por Pablo Ortellado, no jornal O Globo
Desde a semana passada a esquerda se engajou numa campanha contra o Congresso e os BBBs — Bilionários, Bancos e Bets. Nesta semana, a campanha virou “oficial”. Na quarta-feira, o perfil do governo federal publicou uma charge com um cabo de guerra tendo, de um lado, o povo trabalhador com a descrição “avanço” e, no outro lado, madames e engravatados com a inscrição “retrocesso”. Em seu perfil pessoal, Lula publicou uma foto, no meio da multidão, segurando o cartaz “Taxação dos super ricos”. O PT religou sua máquina de prestidigitação, tentando fazer parecer que sua inabilidade de navegar o sistema político é, na verdade, luta de classes.
O argumento do governo é que sua agenda de reformas tributárias, que inclui a reforma do Imposto de Renda (IR) — com isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais e tributação obrigatória para quem ganha acima de R$ 600 mil anuais — e o aumento do IOF, encontrou resistência no Congresso porque os mais ricos se recusam a pagar sua parte dos impostos. Isso, prossegue o argumento, obriga o governo a passar a conta aos mais pobres, com cortes no orçamento de saúde e educação. A intransigência do Congresso, reflexo de compromisso com a classe empresarial, conclui o raciocínio, obriga o governo a mobilizar trabalhadores e a classe média a promover enfrentamento “nas ruas e nas redes”.
O diagnóstico é completamente equivocado. É falsa tanto a suposição de que o impacto distributivo das medidas é significativo como a de que o governo está realmente empenhado em combater a desigualdade. É falsa também a alegação de que o foco da resistência às medidas se deve ao fato de atingirem o “andar de cima”.
Quando a reforma do IR foi proposta, o foco da resistência não foi a tributação obrigatória para quem ganha acima de R$ 600 mil por ano. Foi a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, como o debate público da época claramente mostra. Os entes subnacionais, estados, mas sobretudo prefeituras, exigiram um sistema claro de compensação para a perda de recursos. Quase um quarto da arrecadação líquida do IR é repassado a elas pelo Fundo de Participação dos Municípios. Além disso, ficam com o IR retido na fonte sobre salários de servidores e pagamentos a fornecedores. Como mais de 70% dos servidores municipais ganham até R$ 5 mil, a nova faixa de isenção praticamente zeraria essa retenção.
Não foi diferente com o aumento do IOF. Na sociedade, o principal argumento foi que oneraria o crédito, aumentando o custo de capital num momento de juros elevados. Mas mesmo isso foi o que menos se discutiu no Parlamento. Na votação acelerada nas duas Casas, o recado era contra o atropelo do governo, que não negociava com o Parlamento e atrasava o cronograma de pagamento das emendas. Ninguém ali supôs que julgava o mérito da questão. Até PDT e PSB votaram majoritariamente contra.
É pouco crível supor que medidas tão moderadas na progressividade tributária provocariam reação feroz das elites econômicas contra o governo. Mas o governo prefere se enganar — e enganar a sociedade — a reconhecer que está perdido e não sabe administrar o Congresso com a nova configuração de forças trazida pelas emendas impositivas.
Naturalmente, o fato de enfrentar dificuldades políticas para aprovar suas medidas não significa que, sem essa provocação do Executivo, o Congresso faria qualquer outra coisa para corrigir as iniquidades tributárias. Aquilo é um antro de interesses paroquiais, movido a emendas e fundo partidário — com as conhecidas exceções.
Ao tratar suas dificuldades como fruto de resistência de classe, e não da sua inabilidade política, o governo quer se apresentar como paladino da justiça social, apostando na cegueira ideológica da militância. Olhando sobriamente para o Brasil, quem poderia aceitar essa imagem? Com o intervalo do período Temer-Bolsonaro, o país é governado pelo PT há 16 anos e segue com uma das piores desigualdades da América Latina, comparável à de um país africano.
Se pegarmos a redução da desigualdade no período que vai de Lula 1 a Dilma 2 e a projetarmos no futuro, ainda faltariam 15 anos para atingir a desigualdade da Argentina — isso se os ganhos dos anos iniciais se mantiverem no mesmo ritmo no futuro e não houver qualquer tipo de sobressalto.
O PT espera que o Brasil vote num discurso militante de combate à desigualdade por 32 anos — quase duas gerações! — para entregar, no melhor cenário, a desigualdade da Argentina? E se mesmo isso der errado, a culpa é da resistência das elites e não da inépcia do partido?
Esse é o discurso que o governo quer vender. Compra quem quiser.
era de se esperar outra coisa? Impressionante. Sobrou para todos os brasileiros e os larápios de idosos pobres, doentes e analfabetos se safando. Como sempre. E com ajuda do aparelho estatal para agir e se proteger
TOFOLLI TORNOU A CONTA DA FRAUDE NO INSS AINDA MAIOR, editorial do jornal O Globo
É justo que os aposentados e pensionistas lesados no escândalo do INSS sejam ressarcidos dos descontos indevidos. Mas foi um erro o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, ter autorizado que a despesa fique fora dos limites do arcabouço fiscal — como se não representasse mais gastos para um governo que se revela incapaz de controlar suas despesas. Na quinta-feira, ele homologou o acordo de ressarcimento proposto pelo governo federal. Embora a decisão tenha efeito imediato, ainda será analisada pelo plenário da Corte.
A estimativa do Planalto é que a devolução comece de forma escalonada em 24 de julho, para 1,5 milhão de beneficiários que sofreram descontos não autorizados entre março de 2020 e março de 2025, com valores corrigidos pela inflação. O INSS diz ter recebido 3,6 milhões de contestações de segurados. Em 2,16 milhões, os sindicatos e entidades associativas acusados das fraudes nem sequer responderam, por isso o ressarcimento será imediato. Em 828 mil casos, as entidades apresentaram documentos que dizem comprovar a autorização, mas há denúncias de que essa documentação também pode ter sido fraudada, por isso ela está sob análise.
Não se sabe o total da devolução. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estima que fique em R$ 2 bilhões. Não está claro também de onde virão os recursos. A Advocacia-Geral da União (AGU) pediu à Justiça o bloqueio de bens de entidades e responsáveis acusados das fraudes. A operação da Polícia Federal que expôs a roubalheira apreendeu carros de luxo, joias, quadros e outros bens. Mas decerto não serão suficientes para cobrir o ressarcimento e, ainda que fossem, seu uso com esse fim dependeria de processos morosos, enquanto a devolução aos lesados tem de ser imediata.
Os aposentados são os únicos inocentes na história. Muitos nem tinham noção dos descontos ilegais. Segundo as investigações, as entidades associativas fraudaram documentos para justificar os descontos, e o INSS foi logrado. Isso aconteceu desde antes de 2019, mas ganhou vulto no governo Luiz Inácio Lula da Silva, quando sindicatos inescrupulosos se sentiram à vontade para aproveitar o esquema. Não dá para dizer que o governo tenha sido surpreendido. São inúmeros os relatos de que autoridades foram alertadas sobre o comportamento atípico dos descontos associativos, que cresciam havia anos sem explicação. A despeito dos avisos, o INSS não agiu para interromper o descalabro. O escândalo levou à queda do ministro da Previdência, Carlos Lupi, e do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto.
As demissões não resolvem o rombo no bolso dos aposentados, por isso é justo que o governo — responsável final pelo processamento e pagamento de pensões e aposentadorias — providencie a devolução. Mas o Planalto deveria tirar o dinheiro de outras despesas. Infelizmente, a resistência do governo a promover cortes ou adotar medidas estruturais que contenham os gastos públicos leva à tentativa de excluir todo tipo de despesa extraordinária das regras fiscais. Com sua decisão, Toffoli endossa a incúria. Como não dispõe de recursos — dentro ou fora do arcabouço —, o Tesouro terá de ir ao mercado tomar mais dinheiro emprestado, pressionando juros já nas alturas. Os contribuintes acabarão arcando com o custo da roubalheira duas vezes: no ressarcimento e na dívida mais alta.
“NÓS CONTRA ELES” É TIRO NO ALVO OU NO PÉ? por Vera Magalhães, no jornal O Globo
O limiar que separa um tiro em direção ao alvo e um que acerta o próprio pé na política é bem mais tênue que noutros momentos da vida, literais ou metafóricos. No caso da efetividade da nova versão do discurso do “nós contra eles” adotada pelo governo Lula, o sucesso ou o fracasso da estratégia mora em detalhes que não são descartáveis nem parecem fáceis de calibrar diante da profunda cizânia entre o Executivo e o Congresso.
O primeiro fator essencial que poderia levar a que se desse um tiro n’água foi notado pelos responsáveis por colocar a campanha na rua: não adiantava o “nós” serem apenas os pobres beneficiários de políticas sociais, e “eles” serem todo o resto da sociedade. Por uma questão de matemática básica, Lula perderia o embate ao dividir a sociedade assim.
Daí por que a classe média, fatia maior e mais heterogênea do bolo demográfico (e eleitoral), foi rapidamente colocada do lado de Lula no cabo de guerra, tradução escolhida por uma das muitas peças publicitárias lançadas para martelar a ideia.
Projetos como o que amplia a isenção do pagamento de Imposto de Renda da Pessoa Física para quem ganha até R$ 5 mil têm a capacidade de demonstrar que Lula governa também para essa classe média, da qual a cada rodada de pesquisa parece estar mais afastado.
Se conseguir trazer para puxar sua corda os profissionais liberais, os tais empreendedores que trabalham por aplicativos, os profissionais da saúde e outros incluídos no novo esforço de comunicação, o presidente pode, sim, lograr algum êxito em sair das cordas na disputa com um Congresso que foi com muita sede ao pote na ânsia de tentar vencer o governo por nocaute. O combate dá toda a pinta de que será decidido por pontos, com cada um dos lados encaixando golpes mais ou menos efetivos ao longo dos próximos 15 meses.
Que alguma coisa se moveu, é nítido. Nas palavras de especialistas em marketing político e pesquisas que ouvi a respeito da eficácia da nova estratégia, ao partir para o contra-ataque, o governo e o PT ao menos deram um argumento a seus militantes, que andavam meio desnorteados e acuados pela sucessão de derrotas e de falta de rumo do presidente e de seus ministros.
Contribuiu para isso que, pela primeira vez desde a posse, os vários feudos dentro do governo falam a mesma língua. Pelo menos por um tempo, o alvo do PT deixou de ser a política econômica de Fernando Haddad, e o ministro também fez um ajuste em seu discurso para soar “mais petista”, na definição de um observador.
Ter gente disposta a defender seu ponto é um pressuposto da era em que a política se faz na arena digital, mais que na praça pública literal. Mas aqui está um dos limiares tênues de que falei na abertura do texto: se o discurso do “nós contra eles” descambar para atos de invasão de bancos e outros espaços dos “ricos”, como se viu em São Paulo ontem, o que poderia ser um argumento capaz de sensibilizar uma fatia ampla da sociedade — que as últimas ações do Congresso foram todas em causa própria ou em benefício de lobbies poderosos — virará prova de que está de volta o PT radical. E o que poderia ser uma virada de jogo virará do dia para a noite nova queda de avaliação.
Da mesma forma, num momento de tantos embates no front interno, parece desprovida de sentido a decisão do presidente de visitar Cristina Kirchner. Aliados dizem que o gesto tem motivações pessoais, por Lula ter enfrentado uma prisão que também classifica como injusta. Só que a política cada vez menos tem espaço para arroubos voluntaristas, e a associação do PT à esquerda de países como Argentina e Venezuela é um dos pratos favoritos da extrema direita. Dar de bandeja um tema para a oposição num momento desses é, aí sim, meter uma bala no próprio pé.
NÓS, QUEM? CONTRA ELES, QUEM? por Celso Ming, no jornal O Estado de S. Paulo
Houve um tempo em que o presidente Lula anunciava que governava para o interesse de todos os brasileiros, inclusive dos que votaram contra ele.
Hoje, vai sendo imposto o mantra do “nós contra eles”, sem que fique claro quem sejam esses “nós” e quem sejam esses “eles”. Nós, os pobres? Nós, os proletários? Nós, os do Partido? Nós, os democratas? Contra quem? Contra a direita? Contra a Faria Lima? Contra os mandachuva de sempre? Seja o que – e quem – for, é o discurso da polarização, que pretende antecipar o debate eleitoral.
No momento, serve para defender o renitente aumento de impostos, em detrimento de um mínimo de objetividade: como é que o aumento do IOF, que deveria servir apenas para fins regulatórios – e não arrecadatórios –, beneficiaria o “andar de baixo” e não os lobbies favorecidos pelo Congresso, se atinge em cheio as pequenas e médias empresas, os microempreendedores individuais (MEIs) e o comércio que pratica o crédito denominado “risco sacado”?
Na falta de um inimigo claro, as velhas esquerdas que se agrupam ao lado do governo Lula ainda tentam se apegar à estratégia da diversidade, de parca densidade sociológica e ideológica, da defesa dos direitos das minorias (negros, mulheres, população LGBT+), ainda que resvalem para discursos extremistas, que pregam mais o ódio ao outro do que o combate às discriminações vigentes. Poderiam refugiar-se na defesa dos valores da social-democracia. Mas têm, em relação a ela, um entendimento confuso e inconsequente, quando se aliam a governos autoritários, como os da Venezuela, de Cuba, da Rússia e do Irã.
Como a questão central desse discurso não é de lógica aristotélica, cabe perguntar se, ainda assim, consegue colar na sociedade e no jogo político.
Quando perde votos e capacidade de mobilização, o governo apega-se a dois falsos diagnósticos: o de que é preciso melhorar a sua comunicação, e aí nomeia outro marqueteiro; e o de que é o de que falta diálogo com as bases – e se põe a fazer sermões, sem dar ouvidos ao outro lado.
Apesar das fartas políticas populistas e distributivas, a popularidade do governo Lula desliza ladeira abaixo. A percepção geral é de que a política econômica se aprofunda para o campo disfuncional. Novos rombos somam-se aos anteriores. A dívida pública vai crescendo, se aproxima dos 80% do PIB. Para pagar os lesados pelas fraudes do INSS, que até agora não haviam sido coibidas, o governo decidiu que vai aumentar a dívida e, assim, descarregar a conta sobre o contribuinte.
Muito antes da Inconfidência Mineira e da Derrama, sabese no Brasil, que há um limite para a extorsão tributária. Chega o momento em que o contribuinte não aguenta mais, mesmo quando as autoridades se esforçam para difundir a versão de que são os mais ricos que rejeitam a carga tributária e a empurram sobre os mais pobres. E quando a sociedade não aguenta mais, as consequências políticas ficam inevitáveis.
Quando Brasília e Gaspar parecem ser tão iguais…
O MINISTÉRIO DO EGO DE LULA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
Tem sido difícil, mas há dias em que o governo de Lula da Silva se supera. Foi o que ocorreu quando o Palácio do Itamaraty – outrora um dos mais respeitados templos da sobriedade diplomática mundial – foi mobilizado para criticar um artigo da revista The Economist. Não uma resolução da ONU, não uma denúncia jurídica, não uma ameaça à soberania nacional, mas uma opinião jornalística. Resultado: uma nota oficial assinada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira – quiçá ditada pelo chanceler paralelo, Celso Amorim –, que trata Lula como uma espécie de divindade contemporânea, um Buda com barba, ou, vá lá, um Kim Jong-un tropical.
Bater boca com a imprensa virou, tudo indica, uma nova função de Estado em Brasília. O próprio presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) já deu expediente como missivista contra artigos da The Economist e editoriais deste jornal. Mas nada se compara ao Itamaraty, que agora assume a função inédita de departamento de relações públicas do ego presidencial. A The Economist teve a temeridade de observar o que qualquer um com olhos e memória já percebeu: Lula está mais interessado em liderar o mundo do que o Brasil. Sua cruzada diplomática se apoia em um narcisismo que seria tocante se não fosse ridiculamente oneroso – para o erário e a reputação do País. A revista não acusou Lula de crimes, não forjou dossiês, não desrespeitou instituições: só cometeu a heresia de não bajular o demiurgo, expondo a contradição entre o discurso messiânico e a prática caudilhesca.
A réplica do chanceler não retificou erros factuais (o que chegaria perto de aceitável), mas compôs um salmo laudatório, declarando que Lula sustenta “os quatro pilares essenciais à humanidade e ao planeta: democracia, sustentabilidade, paz e multilateralismo”. Faltou um quinto pilar: a humildade – mas este Lula queima em holocausto diário em seu altar pessoal.
O chanceler Vieira nos informa que Lula “logrou criar uma ampla aliança global contra a fome e a pobreza”, ignorando que seus feitos no G-20 consistiram em consensos burocráticos e promessas vagas. É pungente a fé de Vieira em seu guia, mas talvez seja papel do Itamaraty promover os interesses do Estado brasileiro, não as ambições de seu presidente.
A megalomania que emana do Planalto é antiga, mas agora transborda. Lula já declarou que Deus “deixou o sertão sem água” porque Ele sabia que um dia o petista traria a salvação hídrica. Noutra ocasião, afirmou que seu corpo sofreu mais que o de Jesus Cristo. Isso antes de concluir que só Jesus “talvez” faria melhor na Presidência. Para quem se atribui missões celestiais, não surpreende um chanceler travestido de apóstolo.
Vieira pinta Lula como um campeão da democracia de autoridade moral “indiscutível” e um “parceiro confiável” no sistema multilateral. Difícil conciliar esse retrato com a insistência do presidente em ameaçar a liberdade de expressão sob pretexto de “moralizar” a internet. Lula disse que quer regular as mídias e redes sociais para punir “canalhices” – e, pela réplica de Vieira à The Economist, vê-se bem o que tem em mente.
Já seu compromisso com a paz e o Direito Internacional é tão seletivo quanto seus aliados. Putin, Maduro, Ortega e os aiatolás podem contar com sua tolerância. Contra Israel, Lula é valente. Já contra tiranos que prendem opositores, manipulam eleições e matam manifestantes, oferece panos quentes e um discurso mole sobre “soberania”.
A nota do Itamaraty não desmente a The Economist: a comprova. A caricatura do estadista messiânico, enamorado de si próprio, descolado da realidade e obcecado em manter o monopólio moral da política é cada vez mais indistinguível de um retrato fiel, que foi reafirmado ponto por ponto pela prosa vexatória do ministro das Relações Exteriores – agora convertido em um dos hagiógrafos de Lula.
É o velho projeto lulopetista de fusão entre partido, governo e Estado, com o agravante de que agora a diplomacia brasileira serve a um culto à personalidade. Quando se aciona o Itamaraty para defender Lula da opinião de uma revista, já não se está mais governando: está-se venerando. E isso, no fim, é menos uma demonstração de força do que de fraqueza.
https://ndmais.com.br/politica/bonecos-com-rostos-de-politicos-expostos-sc/
“Protesto com bonecos de prefeito e vereadora causa polêmica no interior de SC”
Imagina se a moda pega…
Vão faltar varas para segurar os bonecos
Pode haver desmatamento ilegal e outro crime ambiental
Ou faltará celas
TAXAR OS RICOS PARA DAR AOS POBRES, QUE CONTINUARÃO POBRES, uma reflexão de Leonardo Lopes, no X
Alguns questionamentos básicos que qualquer jornalista decente deveria fazer antes de noticiar que “a fortuna dos 1% mais ricos acabaria com a fome do mundo”.
– Este dinheiro todo está na conta bancária deles ou são ações de empresas e bens intangíveis?
– O que aconteceria com estas empresas e seus funcionários?
– Por que um americano ou um europeu bilionário tem de pagar para acabar com a fome num país da África onde seus líderes são bilionários roubando seu próprio povo?
– Acabado este dinheiro, a fome voltaria? Se sim, em quanto tempo?
Qualquer pessoa decente se sente incomodado com gente passando fome pelo mundo, mas só canalhas usam dados manipulados e divulgam uma solução rasa e irreal para um problema tão sério, por motivações políticas, para no final das contas, continuar colocando no poder gente que explora a pobreza dos outros para enriquecer.
VOLTO. Os mesmos questionamemntos são plausíveis no Brasil. Por que taxar os ricos no discurso se quem faz este discurso não olha para os seus próprios bolsos e como rouba os pesados impostos que impõe, de todos os meios e formas contra o povo, e ao mesmo tempo se mantém nos privilégios de penduricalhos que aviltam à própria lei em vigos, alguns deles, com a obrigação de aplicá-la na isonomia perante a norma vigente?
OS DONOS DO PODER, por Felipe Salto, no jornal O Estado de S. Paulo
O clássico Os donos do poder, de Raymundo Faoro, publicado em 1958, nunca foi tão atual. Na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, onde me graduei, ganhei um exemplar das mãos do estimado Professor Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, há 20 anos.
Apreendi sua mensagem, que é muito clara: o Estado brasileiro compõe-se, em muitos casos, de estamentos, fatias ou nacos de poder voltados a interesses privados. Atacar esses interesses desperta os instintos mais primitivos dos que operam esse sistema não republicano.
O episódio do decreto presidencial do IOF, especialmente no capítulo mais recente – sua derrubada pelo Congresso seguida de judicialização – é sintomático. Vivemos uma situação delicada e perigosa, em que a responsabilidade fiscal é confrontada diuturnamente.
Sem respeito ao dinheiro público, todos brigam, quase ninguém tem razão e o pão continua a faltar. O essencial, cuidar dos interesses dos que mais dependem do Estado, torna-se secundário. O privilégio aos amigos do rei, principal. Responsabilidade fiscal não é tecnicismo de especialista, mas o único caminho para promover políticas públicas sustentáveis, fazendo cumprir a Constituição Cidadã.
O Poder Legislativo age como se fosse o responsável por governar o País e o Executivo está, cada vez mais, de mãos amarradas. Não consegue conduzir o programa de governo pelo qual se elegeu. As propostas, sem entrar no mérito, são dinamitadas pelo Congresso, que nada coloca no lugar.
Veja o exemplo da tentativa de aumentar a progressividade e a justiça do sistema tributário da renda. A alíquota mínima de 10% (em termos efetivos) aguça os donos do poder, que se fazem presentes por meio de pressões sobre políticos eleitos. Tende-se à preservação de sinecuras, facilidades, benefícios e incentivos de toda sorte.
A situação econômica do País é boa, neste momento. Mesmo com juros muito elevados, o crescimento econômico ainda é relevante e o desemprego segue em patamares baixos. É verdade que a desaceleração encontrará lugar, até como resultado da política monetária contracionista em curso. Os dados mais recentes do comércio e dos serviços indicam o início desse processo. Mas, justamente por isso, a inflação está mais contida e as projeções já apontam patamar abaixo de 5% até o encerramento do ano.
Para crescer de modo sustentável, perene e de modo robusto, precisaremos reencontrar a rota do planejamento e do Orçamento transparente e equilibrado.
As contas públicas estão desorganizadas. A despeito do esforço do ministro Fernando Haddad e do amplo conjunto de ações aprovadas desde 2023, as soluções pelo lado dos gastos públicos pendem de propostas estruturais, como a que Josué Pellegrini e eu formulamos em artigo no Estadão ( Propostas para Fernando Haddad, 5/6,
A6), e de apoio político.
O Congresso, ao contrário do discurso de suas lideranças, dá de ombros a qualquer agenda de controle de despesas. Aumenta subsídios, distorce projetos como o da reforma tributária, fabricando exceções e penduricalhos, e espeta mais e mais faturas bilionárias no Tesouro.
O caso das emendas parlamentares é o mais escancarado. Em audiência pública organizada pelo ministro Flávio Dino, no Supremo Tribunal Federal, falei sobre a inconstitucionalidade do modelo atual. Os gastos novos, ano a ano, derivados das emendas, não são compensados por reduções de outras despesas, como manda o artigo 166 da Carta.
A sustentabilidade da dívida, preceito constitucional, desmancha-se no ar na esteira do aumento de 700% das emendas, entre a média do biênio 2016/17 e os valores pagos de 2024. Não sobra qualquer espaço para o Executivo entregar as metas fiscais estipuladas e restabelecer as condições de sustentabilidade da dívida pública como proporção do PIB.
O Executivo tem culpa no cartório, também, por não ter proposto, bem antes, uma agenda de saneamento das despesas públicas. Mas as iniciativas concebidas, incluindo o pacote do fim do ano passado e a MP 1.303, recebem do Congresso torcidas de nariz e atitudes de reiterada deslealdade.
O País torna-se, assim, ingovernável. O Orçamento é a base para garantir o bom financiamento das políticas públicas, planejar o futuro e financiar o desenvolvimento econômico e social. Hoje, ele se transformou em verdadeiro piloto automático. Os gastos obrigatórios crescem sem parar, as despesas discricionárias estão cada vez mais comprometidas, principalmente pelo avanço das emendas impositivas, e as receitas já não dão mais conta de resolver a equação fiscal.
O corte de benefícios tributários está prestes a ser anunciado. São centenas de bilhões de reais, como mostrei no artigo da última quinzena neste espaço (19/6, A6), que seguem erodindo as contas públicas, sem qualquer avaliação a sério e corte efetivo. Nessa frente, mesmo com o atual mandato presidencial já em estágio avançado, pode-se promover importante conjunto de mudanças.
Vejamos se, desta vez, prevalecerão os interesses públicos ou se o Congresso, novamente, escolherá o lado dos donos do poder de sempre.
ESTRATÉGIA TRESLOUCADA, por Willian Waack, no jornal O Estado de S. Pauloi
É óbvio que o PT sem Lula corre o sério risco de resvalar para o ocaso. As últimas decisões políticas do chefão estão acelerando esse processo.
A causa principal é a perda de leitura da realidade por parte do próprio Lula. Leia-se mudanças sociais no País, alteração das relações de força entre os poderes e o enfraquecimento das capacidades físicas e intelectuais do líder.
Tem remotas possibilidades de sucesso as mais recentes decisões “estratégicas” para ganhar as eleições de 2026 e reverter poderes do Congresso. De novo, pelo óbvio: não reúne a massa crítica política necessária nem para um nem para o outro.
Lula se encontra hoje vítima da tática “boa constrictor” (o nome científico da jiboia) do Centrão, e sua ida ao STF para anular o decreto legislativo que anulou o decreto executivo não vai folgar o aperto dos anéis dessa gulosa serpente. Ao contrário, qualquer que seja a decisão do Supremo.
Acelerou o emprego de uma tática política eleitoral que os velhos revolucionários chamavam de “salto adiante”. Repaginou a velhíssima “luta de classes” superada há muito por enormes transformações sociais, tecnológicas, culturais e econômicas – que ele e seu partido não conseguiram entender.
Partiu para o embate quando sua popularidade é no mínimo sofrível, seu governo é mal avaliado, a diferença que lhe deu a vitória em 2022 diminuiu em vez de aumentar, a capacidade de mobilização tradicional (sindicatos e “movimentos sociais”) evaporou, as ruas, quando ocupadas, o são pelos adversários.
Como símbolo, Lula padece de óbvio desgaste de imagem – raivoso, reclamão, vociferante, repetindo os mesmos bordões e incapaz de exibir a malícia e o humor de antigamente. Quando tenta, parece patético. E deixando transparecer a tutela de uma primeira dama que é exatamente o retrato da classe média arrivista que o PT afirma detestar.
Lula julga ter dado a volta por cima em relação à Lava Jato, condenação e prisão. Essa não é a percepção de vastíssima camada do eleitorado, incluindo quem votou nele em 2022 para se ver livre de Bolsonaro.
Corrupção, má gestão das estatais, o apoio a ditadores amigos e o cansaço generalizado com um governo gastador que só pensa em arrecadar tem enorme peso político. Chama-se resistência social a Lula e ao PT.
Há personagens políticos que desembarcaram e preservaram ainda em vida certa graça e uma forte aura pessoal, como Mandela ou Pepe Mujica. Outros não souberam fazê-lo, e causaram danos ao partido e à própria imagem, como Joe Biden.
Na velhice, Lula propaga ressentimentos, é vingativo e toma decisões estratégicas tresloucadas. Arrisca-se a ser lembrado assim.