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O FEDOR DO LIXO. DEPOIS DE ONZE ANOS, JUSTIÇA DE GASPAR CANCELA A INDISPONIBILIDADE DOS BENS DE ATÉ R$1,1 MILHÃO – VALORES DA ÉPOCA – E DIZ QUE OS CINCO REAJUSTES DO LIXO DADOS POR ADILSON LUIZ SCHMITT QUANDO PREFEITO (2005/08) PARA REEQUILIBRAR O CONTRATO SAF 211/2005 COM A ANTIGA RECICLE, HOJE VEOLIA, FORAM LEGAIS. A AÇÃO PÚBLICA DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA DE 2015 FOI DO MINISTÉRIO PÚBLICO. A DECISÃO VAI EM LINHA AO QUE JÁ TINHA ESCLARECIDO O TRIBUNAL DE CONTAS. CABEM RECURSOS.

UMA IMAGEM SENDO PASSADA A LIMPO

Este texto foi revisado e ampliado às 15h41min de 29.08.2026. O juiz da segunda Vara da Comarca de Gaspar, Willian Borges dos Reis, em longa e técnica sentença, concluiu pela improcedência total da Ação Civil Pública por Atos de Improbidade Administrativa contra o ex-prefeito Adilson Luiz Schmidt (2005/08). Ele foi eleito pelo MDB e hoje está sem partido. Beneficiado pela mesma decisão, o sócio e gestor da então Recicle, de Brusque, e hoje a multinacional Veolia, Adalberto da Silva.

A liminar da indisponibilidade de bens R$1.118.892,00 ao cálculo da época e com a atualização poderia mais que duplicar este valor nos dias de hoje, foi pedida pela então promotora da Comarca, Chimelly Louise de Resenes Marcon. Ela foi concedida pelo então juiz da Comarca, Rafael Germer Condé. À decisão a favor de Adilson, Adalberto e a Recicle é datada de ontem, dia 28 de agosto de 2026. Dela cabem recursos.

Quem atuou na defesa de Adilson, foi o seu então ex-procurador geral (2005/08), Aurélio Marcos de Souza. Foi ele quem referendou, naqueles tempos, todos estes reajustes. “Eu era um jovem advogado à época, mas este assunto me chamava muito a atenção. E exatamente pela complexidade dele, o grande envolvimento de interesses concorrenciais e principalmente, os componentes políticos contra a administração de Adilson, tomei precauções excessivas. Envolvi os pares procuradores efetivos, bem como técnicos na área de contratos e licitações da prefeitura, além de consultas ao Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina. Eles tinham mais experiência e sabiam de todos os limites para manter o serviço coleta e destinação dos resíduos (Aurélio sempre corrige quando alguém denomina os resíduos de lixo) aos gasparenses, diante do crescimento da cidade, da necessidade expandir, qualificar e destinar a coleta dos resíduos“, justificou Aurélio.

Hoje, Aurélio Marcos de Souza é graduado em Gestão Pública pela Udesc, e graduando em Engenharia Civil e Engenharia Ambiental. Estes conhecimentos acadêmicos lhe dão hoje, a convicção de que teria agido naqueles dias do governo de Adilson de forma adequada em favor das decisões do prefeito. Tanto que agora, de tanto se enfronhar academicamente neste assunto, Aurélio – como cidadão gasparense e morador de Gaspar, é autor de uma denúncia. Ela ensejou uma Ação Civil Pública pelo Ministério Público com aval do grupo técnico de apoio de Florianópolis. Esta Ação pede esclarecimentos – que ainda não foram mandadas ao Ministério Público pelo atual governo de Paulo Norberto Koerich, PL – sobre como é calculado a quantidade e a qualidade de lixo para se formular as licitações dos prestadores de serviços nos dias de hoje.

Para Aurélio Marcos de Souza, a Ação Civil Pública contra Adilson teve um tom político e outro de vingança. Para Aurélio, o MP no papel dele foi levado a erro. “Todos em Gaspar sabem que Adilson tentou governar sem os ‘donos da cidade’ e por causa disso, paga caro até hoje, sem falar no imprudente e sem provas entrevista ao então comunicador Júlio Carlos Schramm, na Sentinela do Vale. O que estava ruim, piorou. Ela os atiçou e o deixou Adilson como único alvo preferido. Ora, se houvesse fundamentada irregularidade – já previamente descartada pelo próprio Tribunal de Contas e na recomendação da aprovação das contas dele – esta Ação deveria ter sido proposta lá em 2005 e não em 2015, tempo do governo de Pedro Celso Zuchi, PT“, relembra Aurélio. Só para lembrar. Zuchi foi sucessor de Adilson. E a primeira coisa que fez foi condenar a Recicle e montar a sua própria empresa coletora de lixo, a Say Muller, com frota alugada da noite para o dia em Curitiba. Fatos antigo e irrefutáveis. É história.

Retomando. E por quê o advogado do ex-prefeito, politico e médico veterinário na ativa na cidade Adilson envereda por estas dúvidas? Muitas delas estão expressas indiretamente, depois de tanto tempo, na decisão do juiz Willian Borges dos Reis. A perícia levada aos autos trabalhou contra o próprio argumento do Ministério Público. E para matar a cobra e mostrar a cabeça dela, o magistrado diz textualmente na sentença:

“A conclusão do Tribunal de Contas foi inequívoca ao afirmar que o erário do Município de Gaspar não sofreu prejuízo em decorrência dos acréscimos previstos no primeiro termo aditivo. O voto reconheceu que a fundamentação administrativa utilizada para formalizar os acréscimos foi ‘rasa’ e poderia ter sido melhor organizada, mas distinguiu esta deficiência formal da existência de dano material“

Na sentença, ao livrar o MP ao pagamento das custas e honorários de sucumbência, o juiz Willian Borges dos Reis, ressaltou também, que não viu demonstração de má-fé dos autores da Ação Civil Pública, o Ministério Público. Adilson deixou a prefeitura há quase 20 anos. O assunto em questão tem mais de 20 anos. A sentença demorou onze anos. E não vai terminar tão cedo. Justiça que tarda, falha. Este tipo de questionamento rondou e enfraqueceu o político e gestor público Adilson Luiz Schmitt. E fez a festa não apenas adversários, mas quem ele correu da prefeitura para não mandar nele.

TRAPICHE

O ex-prefeito de Gaspar, Kleber Edson Wan Dall (2017/24), eleito pelo MDB, e hoje no Podemos e fazendo campanha para o governador Jorginho Mello, PL, ao lado de Paulo Norberto Koerich, PL, foi absolvido nesta semana por unanimidade pelo Tribunal de Justiça da Ação penal por suposto uso indevido da marca de governo Avança Gaspar, para promoção pessoal e político de campanha.

O dono da Ação era o Ministério Público a partir de uma denúncia em novembro de 2025. Ela apontava que entre 2018 e 2021, quatro ações publicitárias teriam extrapolado o caráter informativo e sido utilizadas para promover pessoalmente o então prefeito e sua gestão. Kleber Edson Wan Dall, Podemos, provou que os canais institucionais da prefeitura e os dele nas redes sociais, estavam separados.

Não tem jeito. Na mesma semana que a Polícia Civil resolveu bater mais uma vez na casa do “ex-dono” de Blumenau no governo do ex-prefeito de lá, Mário Hildebrandt, PL, Michael Jackson Schoenfelder Maiochi e que veio dar aqui como o homem forte de Paulo Norberto Koerich, PL, num momento dos cartel da pedreira, suas sucessoras na secretaria de Planejamento Territorial, Camila Beatriz Tillmann e Aline Fonseca Pereira Bratfisch foram vistas acessando e esclarecendo os efetivos sobre documentações do tempo delas na secretaria.

Em Gaspar e Blumenau estão dobrando as apostas e a polícia de olho aqui e lá. Michael Jackson Schoenfelder Maicon já está com tornozeleira eletrônica. E corre o risco sério de substituí-la por uma detenção preventiva. Aqui, o risco é de os escândalos aumentarem ainda mais nesta associação, até não explicada, a razão de tanta gente que não serviu em Blumenau ter aportado aqui para dar as cartas e não se consegue fazer um saneamento disso.

Nervos a flor da pele. Está no ar uma previsão nada boa do tempo para este sábado, domingo e segunda-feira no Vale do Itajaí. Se a coisa vier ruim, quem vai se dar mal são Jorginho Mello, PL, que mal se preparou para o que está anunciado e para quem, está lá em José Boiteaux incitando os índios contra a urgente e necessária manutenção da barragem Norte para ver os quase um milhão de eleitores – uma parte que ainda vota nessa gente – afogados e arruinados.

Então quer dizer que o vereador carioca que quer ser Senador por Santa Carlos Bolsonaro, PL, além da falta de conteúdo ou se comprometendo com pautas catarinenses, tratando Caroline De Toni, como coadjuvante – na farinha pouca, o meu pirão primeiro -, ainda faz a produção de seu material de campanha no Rio de Janeiro, ignorando a economia de Santa Catarina? Credo!

Então quer dizer que funcionário público está usando veículo público em horário de serviço para distribuir material político para a promoção do seu grupo político ideológico, que se diz arauto do combate os desvios do setor que é sustentado pelos pesados impostos de todos os brasileiros? Credo!

Agora me diz uma coisa. Tem candidato a deputado Federal que não conseguiu sair ainda do seu bairro em Gaspar. E quando sai desse quadrado viciado, é para fazer troça de assunto que nem diz respeito a Santa Catarina para ganhar likes na sua rede social? Cruzes!

O candidato João Rodrigues, PSD, conheceu o poder zero do MDB e PP de Blumenau. Veio aqui, e passou vergonha na caminhada que fez pela cidade. Também soube que o PSD é outra caricatura. Serviu, ao menos, de boneco para fotos de gente sem votos e que está em campanha lá e aqui. E pensar que aqui tinha gente que dizia que o MDB daqui fosse igual a Blumenau. A profecia está se cumprindo.

A campanha a eleição municipal será daqui a dois anos. Ainda bem, pois há tempo para sacudir a poeira – do tombo – e dar a volta por cima. Incrivelmente, em menos de dois anos depois de serem eleitos com margens folgadas nas urnas e com discursos de mudanças, Egídio Maciel Ferrari e Paulo Norberto Koerich, respectivos alcaides de Blumenau e Gaspar, e ambos do PL, não são espelhos e líderes em suas comunidades para puxar votos a reeleição de Jorginho Mello, PL. A única coisa em comum dos dois é que são policiais com fama de bons investigadores e ex delegados de polícia. O que provou não ser um predicado. pois lhe faltaram o essencial até aqui: capacidade de gestão para resultados à sociedade.

Este vídeo abaixo, é revelador. É antigo. Assim tem muitos. É de um empreendimento ainda com problemas na área urbanística. Mas, isto é o de menos. É só olhar as pessoas e empresas. O dono do terreno não tem nada a ver com a observação.

O que se deve olhar e refletir. “Mudam” administrações e partidos, tanto em Blumenau como em Gaspar, e até em Florianópolis. Mas, vira e mexe, eles todos estão lá misturados e até coisa passando de pai para filho. No passado e no presente. E nas campanha políticas, conforme a maré, os gatos juram que não são pardos. Normalizou-se o erro. Imagens gravadas são eternas. Muda, Gaspar!

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18 comentários em “O FEDOR DO LIXO. DEPOIS DE ONZE ANOS, JUSTIÇA DE GASPAR CANCELA A INDISPONIBILIDADE DOS BENS DE ATÉ R$1,1 MILHÃO – VALORES DA ÉPOCA – E DIZ QUE OS CINCO REAJUSTES DO LIXO DADOS POR ADILSON LUIZ SCHMITT QUANDO PREFEITO (2005/08) PARA REEQUILIBRAR O CONTRATO SAF 211/2005 COM A ANTIGA RECICLE, HOJE VEOLIA, FORAM LEGAIS. A AÇÃO PÚBLICA DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA DE 2015 FOI DO MINISTÉRIO PÚBLICO. A DECISÃO VAI EM LINHA AO QUE JÁ TINHA ESCLARECIDO O TRIBUNAL DE CONTAS. CABEM RECURSOS.”

  1. A EXTREMA ESQUERDA, por Augusto Franco, no X

    Por que está errado ficar falando de extrema-esquerda para estabelecer uma simetria com a extrema-direita?

    A extrema-direita engoliu, digeriu e dejetou a direita. Os efluentes fragmentados continuaram existindo independentemente do bolsonarismo.

    Mas com a esquerda deu-se o contrário.

    A esquerda (populista), ao se tornar hegemônica, anexou a extrema-esquerda (classista ou identitarista). PSOL, PC do B, PV, Rede e PSB estão coligados (e subordinados) ao PT. PCB, PSTU, PCO e UP concorrem só para manter seus grupelhos, mas na verdade, estão na campanha Lula. Aliás, todos os fascistas linchadores da UFRJ, disfarçados de antifascistas, também estão na campanha Lula.

  2. ANO QUE VEM SERÁ DE CRISE OU DE ESTELIONATO ELEITORAL? por Carlos Alberto Sardenberg, no jornal O Globo

    O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro não apresentaram propostas para atacar o maior problema da economia brasileira hoje, o crescimento constante da dívida pública, equivalente a R$ 10,8 trilhões, ou 82% do PIB. Na entrevista da Globo, escaparam dos números, mas deixaram alguns sinais do que podem fazer.

    Lula assegurou, com ênfase:

    — Meu compromisso é com o crescimento.

    A ideia: com o país crescendo, tudo o mais se resolve.

    O senador disse que sua eleição provocará tal ganho de credibilidade que os juros cairão imediatamente. E tudo entrará nos eixos. Ambos estão errados.

    Lula não elaborou sua ideia — nem havia tempo para isso —, mas ela ecoa uma teoria bastante conhecida no pensamento econômico da esquerda: a saída pelo crescimento. A tese sustenta que o valor absoluto da dívida não importa. Na entrevista, Lula garantiu que não se preocupa com os R$ 10,8 trilhões da dívida. Nessa perspectiva, o mais importante é o valor relativo, a relação dívida/PIB. Eis o ponto central: se o PIB crescer mais que a dívida, a relação cai, sem que se precise fazer qualquer corte nas despesas que alimentam o déficit.

    O corolário dessa tese é a redução taxa básica de juros pelo Banco Central. Não por acaso, Lula voltou a reclamar do BC. Essa teoria, também chamada desenvolvimentismo, formulada nos anos 1940/1950, tem sua lógica. Ou um encanto. O problema é que nunca funcionou. Por aqui, a última tentativa foi no governo Dilma. Semeou crescimento, com forte expansão dos gastos, e colheu inflação e recessão. Quando a crise estava instalada, tentou uma saída pela ortodoxia — aliás, detonada pelos economistas do PT. A crise só foi debelada no curto governo de Michel Temer, que estabeleceu o teto de gastos e encaminhou a reforma da Previdência. Mas o governo Bolsonaro furou o teto com os gastos eleitoreiros.

    A “saída pelo crescimento”, embora possa ter êxito no início, não se sustenta. Déficits primários, causados pelos gastos acima da arrecadação, obrigam o governo a tomar empréstimo para tapar o rombo. Sobe a dívida, aumenta o custo de rolar esse passivo. Mesmo com o BC mantendo juros artificialmente baixos, as taxas sobem nos mercados e elevam a dívida do Tesouro. O ciclo se completa com a alta da inflação e juros mais altos, que inibem o crescimento.

    O governo Lula obteve crescimento do PIB acima de 3% nos dois primeiros anos. Em 2025, caiu para a faixa dos 2%. Cai de novo neste ano. E a previsão para 2027 está na casa do 1%. A inflação só não sobe porque o BC mantém os juros elevados. Mas o crédito caro leva famílias e empresas à inadimplência.

    Nos últimos três anos e meio, o gasto do governo aumentou acima da arrecadação. Para 2027, Lula promete um gordo superávit, sem mexer no arcabouço e sem mexer nas despesas obrigatórias, crescentes. Difícil acreditar que a mesma política produza resultado diferente. O maior problema está no crescimento da despesa previdenciária. Aposentadorias estão indexadas ao salário mínimo, que recebe aumento real todos os anos. Lula nem pensa em mudar isso.

    E Flávio Bolsonaro? Foi questionado. Eliminará o reajuste do salário mínimo acima da inflação? Não. Desindexará a despesa previdenciária do salário mínimo? Não. Como resolverá o problema? Pela mágica. Flávio disse que os juros cairão no dia seguinte à sua vitória, tudo se resolvendo com esse ganho imediato de credibilidade. Credibilidade importa. E é certo que o mercado responderia com otimismo à derrota de Lula. Mas isso será passageiro se o novo governo não construir uma política econômica ortodoxa, de austeridade. E Flávio já disse que não mexerá nos pontos cruciais das despesas, nem aumentará a carga tributária.

    Tudo considerado, as manifestações dos dois candidatos mostram que 2027 será um ano de crise e de baixo crescimento. Se o governo, seja de Lula, seja de Flávio, se assustar e tentar a austeridade, teremos um estelionato eleitoral. Sem credibilidade.

  3. O BRASIL GARANTE O HAMBURGUER SUBSIDIADO ÀS VÉSPERAS DAS ELEIÇÕES DOS EUA, por Demétrio Magnoli, no jornal O Globo

    O Canadá conta uma história; o Brasil, o reverso dela. Na partida, os dois engajaram-se em negociações comerciais com os Estados Unidos, que implodiram de encontro às exigências imperiais da Casa Branca. Então, um escolheu a via da resistência, ajustando seus atos às palavras, enquanto o outro optou por um servilismo suplicante mascarado por discursos palanqueiros.

    As exportações representam quase um terço do PIB canadense — e mais de 70% delas têm os Estados Unidos como destino. O Canadá perde muito, no curto prazo, com a decisão de enfrentar a guerra comercial deflagrada por Trump. Mas, na defesa de seus interesses de longo prazo, a sociedade canadense uniu-se ao redor da estratégia de retaliação, que conta com respaldo de 76% da população.

    As exportações não representam mais que 15% do PIB brasileiro — e menos de 10% delas têm os Estados Unidos como destino. A China, nosso maior parceiro, absorve mais de 30% das exportações brasileiras, seguida pela América do Sul e pela Europa, com cerca de 15% cada uma. Contudo o governo rende-se ao lobby dos negócios dos exportadores: renuncia à retaliação e usa a Lei de Reciprocidade apenas como muleta de discursos eleitorais “soberanistas”.

    O Canadá reagiu às tarifas punitivas taxando as exportações dos Estados Unidos, dólar por dólar, nos mesmos patamares — e diversas províncias mantêm o boicote a destilados americanos. O país fornece a vasta maioria do gás e da eletricidade importados pelo agressivo vizinho e cerca de 60% do petróleo, além de potássio e minérios críticos. No degrau seguinte, estuda-se a imposição de impostos de exportação sobre esses produtos.

    “Vá se danar”, foi o recado de Doug Ford, primeiro-ministro da província de Ontário, ao presidente americano. Na verdade, Ford usou palavra ligeiramente diferente, antes de concluir:

    — Trump nos subestima. Eis o grande erro.

    Percorrendo trajetória oposta, o Brasil caiu de joelhos. Lula obteve, em longo telefonema a Trump, a reabertura de negociações, com a meta minimalista de alargar a lista de exceções esculpida pelas conveniências da Casa Branca. Trata-se de atender aos interesses imediatos de setores exportadores, como se representassem o interesse nacional. É a nação definida como coleção de grupos empresariais. Nada de retaliação assimétrica via exportações de nióbio, aviões regionais ou carnes.

    A carne ilumina a servidão voluntária brasileira. Confrontado com inflação de alimentos, Trump abriu uma importação extraordinária de 300 mil toneladas de carne para hambúrguer, sem cotas ou tarifas, mas exigindo desconto de 25% dos exportadores. Único país capaz de fornecer imediatamente tal quantidade, o Brasil prontificou-se a exportar. As celebrações unem a Casa Branca à trindade JBS, Marfrig e Minerva Foods. Os Estados Unidos tarifam o conjunto da economia brasileira; em troca, o Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas das eleições americanas.

    O objetivo estratégico do tarifaço contra o Canadá é eliminar a indústria automobilística do país, transferindo-a para os Estados Unidos. A Casa Branca almeja, desse modo, enfrentar o avanço chinês no mercado global de veículos. Contudo o resultado provável será romper as cadeias produtivas integradas nos três países da América do Norte, cedendo o mercado canadense às empresas da China. Chrystia Freeland, antiga vice-chefe de governo do Canadá, acerta na mosca ao qualificar as tarifas punitivas como “mau negócio mesmo para os Estados Unidos”.

    Mark Carney, primeiro-ministro canadense, conclamou sete meses atrás, em Davos, as potências médias democráticas a se unirem contra a guerra tarifária de Trump. A maioria delas preferiu o caminho do apaziguamento, o que só estimula a Casa Branca a multiplicar suas investidas. Mesmo quase sozinho, o Canadá decidiu quebrar o ferrolho da jaula americana em que a História e a geografia o trancaram.

    O Brasil, que vive fora da jaula, tecendo redes de intercâmbios globais, escolhe a submissão na hora do aperto.

    — Não há interesse em retaliar ninguém — assegurou o apaziguador Alckmin, deixando a Lula o papel farsesco de proferir bravatas dirigidas ao público interno.

    Inexplicável? Nem tanto: os Joesleys nos governam.

  4. Esse vídeo do Loteamento Vale das Figueiras é uma vergonha. Na época dessa gravação o loteamento já estava embargado. Um dos “entrevistados” já estava com os bens bloqueados por sua atuação em Blumenau. Um dos empreendedores está de tornozeleira por merenda, o secretário de planejamento na época foi exonerado (pediu?) da Furb por lecionar em horário que deveria dar expediente em Gaspar. Fora os “convidados” presentes, envolvidos na Lava Jato. Serve só pra lembrar que o grupo do Kleber era o mesmo do Mário, e hoje, do Paulo!

    1. A obra suspeita na barranca do Itajaí iria atender uma das obrigações do loteamento que não foi cumprida: o trevo alemão, coincidentemente no mesmo local.

      1. Essa gente da pedreira – ou do cartel de empreiteiras, segurança e merenda escolar – trata todos os pagadores de pesados impostos como tolos, usando recursos públicos de forma indireta, naquilo que deveria estar incorporado do empreendimento para deixá-lo viável, modelo e valorizado. E corre-se um grande risco de um escândalo nacional quando este assunto chegar as portas de um certo tribunal em Florianópolis. E depois sou eu o problema? Explica-se muito a razão pela qual tanto o governo passado e o atual deixaram passar o prazo para enquadrar os que fizeram o quilômetros mais caro de Santa Catarina (R$12 milhões há cinco anos) no Pasto do Jacarés se enrolar sem ninguém ser responsabilizado

        1. Coincidência ou não, Kleber começou a tirar a lama do sapatinho… O resto é na base do “eu esqueço do teu, tu esquece do meu, e o resto a gente “resolve” com os acordos de porões na tal da composição da governabilidade!”

          Será que a culpa dessa gamela repleta de lavagem podre é da nossa subserviência e da nossa OMISSÃO?

          1. Então. Há quanto tempo escrevo que os nossos gatos são pardos? E há quem teime que o daltônico sou eu

  5. O ANTIAJUSTE FISCAL DE LULA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    O programa de governo apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de reeleição diz que o petista, no atual mandato, liderou “a gestão fiscal mais republicana da história do Brasil”. E explica: “Sob a diretriz de ‘colocar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda’, a gestão realizou uma profunda reorganização fiscal que elevou a proteção social sem renunciar ao reequilíbrio das contas públicas”.

    É uma pilha de insultos. O que os petistas chamam orgulhosamente de “reorganização fiscal” foi uma série de gambiarras para driblar o arcabouço fiscal que o próprio governo criou para substituir o desmoralizado teto de gastos. Tudo a pretexto de atender a situações “excepcionais”. No governo Lula, o “excepcional” se tornou regra. Não é um acidente: é a natureza do PT – e por isso não se deve esperar nada de diferente num eventual quarto mandato de Lula, por mais que a atual equipe econômica tente sugerir o contrário.

    No final de 2005, por exemplo, Dilma Rousseff, então chefe da Casa Civil do primeiro mandato de Lula, deu uma célebre entrevista ao Estadão na qual explicou, didaticamente, que a tentativa de debater um ajuste fiscal de longo prazo, conduzida por alguns integrantes do governo, era algo “rudimentar” e que não se podia tratar desse assunto “pensando em planilha”. Para Dilma, “despesa é vida: ou você proíbe o povo de nascer, de morrer, de comer ou de adoecer, ou vai ter despesas correntes”.

    Numa época em que havia superávit primário constante em torno de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), ajudando a estabilizar a dívida pública na casa dos 51,5% do PIB, parecia confortável falar em ampliar os gastos com a “vida”, como sempre pretenderam o PT e Lula. Mas a insistência nesse modelo perdulário conduziu o País ao desastre da recessão de 2015-2016, não por acaso durante o famigerado governo Dilma. Foi em 2014, com Dilma, que começou a série de déficits fiscais que perdura até hoje, obrigando o Banco Central a manter a taxa de juros na estratosfera para premiar quem se dispõe a financiar a galopante dívida pública – que somente no terceiro mandato de Lula saltou incríveis dez pontos porcentuais, de 71,4% para 81,9% do PIB.

    Isso não tem nada de “republicano”, como se jacta o PT. É justamente o contrário. Ser republicano é, em primeiro lugar, respeitar a coisa pública. É ter consciência de que o dinheiro do contribuinte não brota em árvores e que precisa ser gasto com imensa parcimônia. É evidente que o Brasil tem grandes carências sociais que precisam ser enfrentadas, mas não a partir da presunção de que o Tesouro é uma milagrosa cornucópia. Por isso, cabe ao presidente da República, na condição de principal líder político do País, a condução do debate orçamentário, negociando com o Congresso cortes de despesas para que haja recursos suficientes para aquilo que se estabeleceu como prioridade.

    No Brasil de Lula, contudo, não é preciso negociar nada. Basta ser criativo na hora de lançar as despesas na planilha, retirando-as do arcabouço fiscal sob os mais diversos pretextos, e saciar o apetite dos parlamentares por emendas para que não façam oposição de verdade. Enquanto isso, a aritmética se impõe, razão pela qual será necessário um robusto ajuste fiscal a partir do ano que vem, sob pena de não haver dinheiro nem para pagar a conta de luz do Ministério da Fazenda.

    Mas estamos em ano de eleição, período em que os petistas ficam especialmente criativos. No mesmo programa de governo apresentado por Lula, lê-se que “trabalhamos em conjunto com o Congresso Nacional para a aprovação do arcabouço fiscal, das medidas de recomposição e justiça tributária e da redução dos benefícios fiscais” e que “foi assim que cortamos isenções tributárias e colocamos fim a benefícios ineficientes”. O que o documento não diz é que esses cortes foram modestos, porque os benefícios tributários concedidos pela União, por exemplo, continuam a consumir em torno de 4,5% do PIB.

    Em resumo, Lula tenta convencer o eleitor já calejado com as patranhas petistas de que seu governo não é o que parece e que o próximo será ainda melhor. A dificuldade de Lula para subir nas pesquisas mostra que essa farsa não cola mais.

  6. BRASÍLIA DEBATE 6 X 1 ENQUANTO JUROS AMEAÇAM EMPREGOS, Folha de S. Paulo

    Nas últimas semanas, grandes e conhecidas empresas brasileiras passaram a frequentar uma lista que nenhum país gostaria de ver crescer.

    A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A Braskem aprovou um plano de recuperação extrajudicial diante de um endividamento estimado em R$ 56 bilhões. Raízen, GPA, Tok&Stok, Habib’s e outras companhias também recorreram a mecanismos de reestruturação financeira ao longo deste 2026.

    Os problemas específicos variam, mas há um fator que aparece de forma comum a todos os casos —um ambiente de juros muito elevados por um longo período, encarecendo o custo financeiro de todas as empresas e os orçamentos das famílias.

    Enquanto o endividamento se alastra, Brasília concentra sua energia política na pauta eleitoreira do fim da escala de seis dias de trabalho por semana.

    A proposta é apresentada como avanço social e ganho para a qualidade de vida dos trabalhadores. São objetivos obviamente meritórios, mas nem mesmo se debateram a contento efetividade, impactos e prazos.

    Em princípio, tal mudança ocorre em economias que apresentam grandes aumentos de produtividade e juros baixos, pois assim as empresas têm capacidade de absorver os novos custos. Essa não é, nem de longe, a fotografia do Brasil de hoje.

    Há décadas o país tem produtividade estagnada, e o custo do dinheiro se mantém em nível sufocante nos últimos anos, sem perspectivas de redução relevante.

    O principal desafio do trabalhador brasileiro neste momento é, em alguns casos, ter apenas um dia de folga por semana ou estar empregado em uma empresa que talvez não sobreviva aos próximos anos? Essa é uma questão completamente ausente do debate sobre a 6×1, que parece desconectado da realidade do país.

    A pauta da jornada de trabalho, que inexistia até a aproximação das eleições, ocupa espaço que deveria estar sendo dedicado à questão mais fundamental: qual será a agenda para reduzir de modo duradouro as taxas de juros.

    A resposta passa pelo ajuste das contas públicas, sobretudo por meio de controle de despesas em proporção suficiente para estabilizar o endividamento do governo —hoje descontrolado e subestimado pela administração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

    Enquanto persistirem dúvidas sobre a trajetória da dívida pública e a disposição do mundo político de enfrentar o problema, os juros continuarão elevados para famílias e empresas.

    Os atuais níveis recordes de emprego, também associados à alta das despesas do Tesouro, podem dar a impressão enganosa de tranquilidade. Entretanto a atividade econômica já está em desaceleração, e essa tendência agravará as dificuldades enfrentadas pela população. Uma crise financeira afetará principalmente os trabalhadores mais pobres.

  7. A ressurreição e a linhagem do negacionismo.

    O Viking de Atestado e a Ressurreição Política: A Vitimização como Projeto de Poder

    Por que a política brasileira trocou a épica pela novela e a ciência pela gambiarra

    Os antigos nórdicos tinham um código simples: a morte honrada em batalha era preferível à vida desonrada na covardia. Era o que os levava ao Valhalla. A analogia serve para entender a inversão moral da política brasileira contemporânea.

    Diante da batalha institucional, o que vemos em um dos polos do país não é a disposição para o combate, mas a teatralização da doença. O hospital virou palanque, o atestado virou salvo-conduto e a vitimização virou estratégia. É a transformação do líder guerreiro em mártir profissional.

    1. A Ressurreição como Capital Político

    É impossível analisar o cenário atual sem reconhecer um fenômeno raro na ciência política: a ressurreição de Luiz Inácio Lula da Silva.

    Lula não é apenas um candidato que conta sua história. Sua história É seu capital político. Na literatura de construção de liderança, chamamos de “narrativa de superação”. É a trajetória do retirante nordestino, do torneiro mecânico sem diploma universitário, que chegou à Presidência, saiu, foi preso por 580 dias, teve seus direitos políticos cassados e, por uma reviravolta jurídica e política, retornou à Presidência da República.

    Goste-se ou não do PT, tecnicamente isso é um caso de resiliência política extrema. É o arquétipo da fênix. Em um país de memória curta, onde políticos somem após uma derrota, ele transformou a queda em épico. Isso gera identificação e, sobretudo, narrativa.

    2. O Familismo e a Novela como Vácuo de Projeto

    No polo oposto, o que se observa é o esvaziamento programático. Quando um movimento não tem um projeto de país para apresentar, ele precisa de um enredo para sobreviver.

    É aí que entra o que os cientistas políticos chamam de “familismo amoral” e “política do espetáculo”. As tretas internas de família – quem é o filho favorito, quem traiu quem, quem brigou no almoço – são convertidas em pauta nacional. Não há debate sobre modelo econômico, industrial ou de inserção internacional. Há apenas a novela.

    A vitimização hospitalar entra nesse mesmo roteiro. Se a narrativa de Lula é “caí e levantei”, a narrativa oposta é “me atacaram, estou doente, tenham pena de mim”. É a inversão do ethos viking. Não se busca morrer em batalha. Busca-se fugir da batalha alegando enfermidade para não ter que prestar contas dela.

    3. A Linhagem do Absurdo: Do “Não Sou Coveiro” ao Cano no Esgoto

    E é aqui que os dois temas se conectam. A proposta surreal de “colocar cano no esgoto para combater o aquecimento global” não é um fato isolado. Ela pertence a uma linhagem discursiva muito bem documentada.

    É a mesma linhagem intelectual do:

    “Não sou coveiro” – dita no pico de mortes da pandemia, negando a responsabilidade do Estado na gestão de uma crise sanitária;

    “Vão chorar até quando?” – a deslegitimação da dor do outro como estratégia de desumanização;

    “É só cagar dia sim, dia não” – dita em 2019 para desqualificar a discussão ambiental global, reduzindo a crise climática a uma questão escatológica;

    “A Terra é plana” – o símbolo máximo do negacionismo que encontrou abrigo e palanque no bolsonarismo.

    O que une todas essas frases não é apenas a ignorância. É o método. É o que a psicologia política chama de “política do deboche”: diante de um problema complexo – pandemia, fome, clima – oferece-se uma solução absurdamente simples, quase anedótica, para esvaziar a seriedade do debate.

    Colocar cano no esgoto para resolver o aquecimento global é tecnicamente risível. O aquecimento global é um problema de matriz energética, desmatamento, emissão de metano e CO2. Reduzi-lo a encanamento é tão eficaz quanto tentar curar um câncer com Band-Aid. Mas a função não é resolver. A função é confundir, viralizar e fazer com que a discussão séria pareça tão boba quanto a proposta.

    No final, ficamos com o retrato: de um lado, uma liderança que fez da ressurreição sua ideologia; do outro, um movimento que fez da vitimização, da briga familiar e da gambiarra negacionista seu único programa. Os vikings teriam vergonha.

    1. Caro. Obrigado pela leitura, interação e contribuição

      Isto é um método. Traz o que bem você explica para a Gaspar de ontem, mas principalmente a de hoje, caro leitor, mais um daqueles que eu não tenho. Qual é mesmo a diferença entre estes supostos dois lados em conflitos, mas especialistas em ilusão aos analfabetos, ignorantes, desinformados e sonhadores por mudanças? Há pelo menos quarenta anos, por ofício, assisto a mesma promessa de ressureição da cidade pelos “novos” políticos – mas, herdeiro do pior que se tinha – e a vitimização dos que se vestem de diferentes, entretanto, no fundo, são iguaizinhos aos que eles fingiram combater para chegar ao poder.

      Resumindo. Os que visivelmente assumiram o poder em Gaspar, na verdade, foram bonecos manipulados pelos mesmos donos e seus pequenos interesses imediatos de poder, de ganância e ganhos para si e os seus. Ou alguém pode me contar outra estória para falsear a história gasparense, que até historiadores por aqui douram para não serem questionados ou dar lustros aos poderosos ocos?

  8. CARLOS LACERDA E SUA MÁQUINA DO ÓDIO, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo

    Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

    Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

    Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

    Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

    Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele 17 incompletos.

    Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.

    Jornalista de grande talento, tinha raciocínio rápido, escrita clara e dedos velozes. Em 1934, lendo “São Bernardo”, viu em Graciliano Ramos um grande romancista.

    O general De Gaulle chamava-o de “demolidor de presidentes”. Demolia tudo que tinha por perto, inclusive o próprio pai: “demagogo de merda”.

    Feroz adversário de Getúlio Vargas, foi um mobilizador de vivandeiras e o caricaturista Lan eternizou-o como Corvo. Lacerda tinha uma escolta de oficiais, nove dos quais da Força Aérea. (Havia alguns do Exército, entre eles Emílio Garrastazu Médici.)

    Nas primeiras horas do dia 5 de agosto de 1954, o major Rubens Vaz escoltava-o de volta ao seu apartamento da Rua Tonelero, em Copacabana. Dois pistoleiros atiraram e morreu o major. Dezenove dias depois, às portas da deposição, Getúlio Vargas se matou. Em cerca de 40 páginas Mário Magalhães conta esses dois episódios, com a minúcia e clareza de um repórter policial.

    Afora um breve epílogo, o volume termina com a partida do “matador de Getúlio” para o exílio dos Estados Unidos. Lacerda defendia um regime de exceção para que Vargas não fosse eleito em 1950, não tomasse posse em 1951 e não governasse a partir daí. Ao fim, perdeu.

    Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite de 11 de novembro e garantiu-lhe a posse. O vencedor de 1954 teve que deixar o país.

    Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda sobra um sujeito inteligente e combativo, para pouco, quase nada. Em 1934, aos 20 anos, ele tentou se matar. Prevaleceu em 1954 e fracassou em 1955. Teria mais triunfos e fracassos até 1977, quando a morte física pegou-o aos 63 anos.

    JK TIROU O PAÍS DA MEDIOCRIDADE

    Com Lacerda nas livrarias e a campanha presidencial na rua, o livro de Mário Magalhães é como um salto do passado no presente. Lacerda cavalgava o moralismo, combatendo o “mar da lama” do governo de Getúlio. Era pouco mais que um exagero.

    Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 prometendo 50 anos e 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e um otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia envenenada pela inflação.

    No epílogo do seu “Lacerda”, Mário Magalhães salta de 1955 para Lisboa, em 1966, quando eram dois proscritos da ditadura e pensavam que, juntos, podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século, pode-se medir o legado dos dois.

    Deus os havia poupado da mediocridade.

    Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida pela doidivanas Lota de Macedo Soares. Tisnou-se defendendo a ditadura que o mastigou. JK fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com as liberdades democráticas e a fé no “monstro”.

    Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, JK estava num almoço quando lhe perguntaram o que aconteceria no Brasil.

    — O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.

    Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa, e prosseguiu:

    — Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.

    — Que monstro?

    — A opinião pública.

    Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o monstro carregou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá, ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart, em 1964.

    CORRUPÇÃO E CANDIDATOS

    A corrupção é e será um tema central da campanha eleitoral. Ela o era ao tempo de Lacerda e JK.

    Em 1960, cavalgando uma vassoura, Jânio Quadros elegeu-se presidente. Um ano depois, tentou dar um golpe de maluco e foi-se embora.

    Em 1964, instalou-se a ditadura das propostas de Lacerda.

    Cinco anos depois, terroristas roubaram um cofre na casa da namorada do ex-governador paulista Ademar de Barros.

    A senhora disse que o cofre estava vazio, e os generais acreditaram.

    Tinha 2,5 milhões de dólares; 22,75 milhões em dinheiro de hoje.

    RENAN E SUA BOMBA

    Renan Santos parece excêntrico ao dizer que o Brasil deve ter uma bomba atômica, mas a verdade é que, desde 1945, sempre houve alguém no governo trabalhando por ela. Às vezes, tinha poder e, às vezes, pensava que tinha.

    O campeão da ideia de uma política nuclear foi o almirante Álvaro Alberto (1889-1976), primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, que empresta seu nome à usina de Angra.

    Em 1951, o Conselho de Segurança Nacional discutia a construção de um reator nuclear. (Só no ano seguinte Israel criou sua Comissão de Energia Atômica.)

    Em julho de 1954, um grupo de cientistas alemães montou e testou três centrífugas para enriquecer urânio. O Brasil havia pedido licença para importá-las, e os Estados Unidos a haviam negado. Álvaro Alberto foi em frente, e elas estavam prontas para embarque no porto de Hamburgo quando foram apreendidas.

    As centrífugas acabaram vindo em 1956, mas só começaram a funcionar em 1970, quando Israel já era uma potência nuclear desde 1966 ou 1967.

    MAUS VENTOS

    Em poucas semanas a economia nacional levou os trancos das recuperações judiciais da Braskem e das Casas Bahia. Em seguida, foi para a UTI a rede de lojas Habib’s.

    Na terça-feira, pela segunda vez, a Justiça decretou a falência da Oi, que chegou a ser a maior operadora de telefonia fixa do país. Ela surgiu no festim privatista de 1998, com o nome de Telemar. No BNDES era conhecida como Telegang. No final do século passado foi uma das “campeãs” nacionais. Sobreviveu por dez anos na UTI da recuperação judicial.

  9. LULA AINDA NÃO ENTENDEU O TRABALHO DA IMPRENSA, editorial do jornal O Globo

    Há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: “O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura”. Vale, porém, aprofundar a questão.

    A Lava-Jato foi uma investigação feita por policiais federais e pelo Ministério Público, que resultou em um processo julgado por três instâncias da Justiça. Envolveu cifras bilionárias e confissões da maior parte dos agentes corruptores e daqueles que foram corrompidos. Levou à prisão empresários e pessoas que detiveram cargos públicos, inclusive o próprio presidente Lula, que sempre clamou por sua inocência.

    Em qualquer parte do mundo, uma investigação desse porte ganharia uma cobertura extensa e intensa ao longo de toda a duração dos procedimentos. Os agentes da lei tinham fé pública, e os réus jamais deixaram de ser ouvidos pela imprensa. O jornalismo profissional não é adivinho — e a ele é vedado grampear ilegalmente juízes ou promotores, como acabou sendo feito por um hacker.

    Esses grampos ilegais de fato revelaram que juiz e promotores não agiram de forma isenta e que havia conluio entre eles. A imprensa, inclusive a Globo e os demais veículos do Grupo Globo, deu ampla cobertura a essas revelações, como podem demonstrar os arquivos. O Supremo Tribunal Federal acabou por declarar a suspeição do juiz Sergio Moro, depois anulou todos os processos que pesavam contra Lula e outros ex-agentes públicos (e, novamente, tais fatos foram objeto de coberturas extensas). Não à toa, na entrevista ao Jornal Nacional na eleição de 2022, o jornalista William Bonner, então apresentador do telejornal, relatou tais fatos e disse a Lula: “Portanto o senhor não deve nada à Justiça”.

    Mas, na sequência da mesma pergunta, Bonner lembrou que a Petrobras teve de registrar em balanço o prejuízo bilionário causado pela corrupção. E perguntou se o PT reconhecia que houve corrupção. Lula, embora criticando as delações premiadas por permitirem que os corruptos ficassem com parte do roubo, reconheceu: “Deixa eu lhe dizer uma coisa: você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram”.

    Há décadas a Globo e os demais veículos do Grupo Globo dão amplo espaço para a cobertura de desvios de governos, independentemente da ideologia de seus ocupantes. O público é testemunha de que escândalos de corrupção mereceram toda a atenção no governo Lula, mas também, e com a mesma intensidade, nos governos Dilma, Temer e Bolsonaro, apenas para citar os deste século. Nas entrevistas e sabatinas, os candidatos à Presidência vêm sendo igualmente questionados. Como disse Renata Vasconcellos: o Grupo Globo cumpre sua missão de informar bem.

    Não há do que se desculpar.

  10. CANDIDATOS QUE OCULTAM VERDADES CRIAM DEFUNDOS INSEPULTOS, por Dora Kramer, no jornal O Estado de S. Paulo

    É direito de todo cidadão, eleitor ou não, cobrar franqueza e objetividade de governantes ou de qualquer um que postule o ofício da representação e, assim, pretenda ter poder de decisão sobre a vida da coletividade —em variados graus.

    A escolha pela vida pública é livre; já seu exercício implica obrigações entre as quais está no topo da lista a permanente prestação de contas à sociedade dona dos votos e do dinheiro que sustenta a atividade.

    A opção pela mentira, a meia-verdade e a dissimulação é caminho de risco; expõe seus autores ao constrangimento de se verem despidos da virtude fabricada.

    O enunciado, de tão óbvio, soa a platitude. Anormal é a desfaçatez com que candidatos à Presidência da República fazem da transgressão ao princípio básico uma banalidade. Não só escolhem ao que (não) responder como se dão ao desfrute de se indignar, mentir, enrolar, tratar perguntas como impertinência ou incompetência de entrevistadores.

    Reações que tanto revelam o autoritarismo dos espíritos como podem evidenciar a ausência de explicações plausíveis ou conter a combinação das duas hipóteses: culpa aliada à prepotência. Invertem aí o preceito da submissão de suas conveniências ao direito da população ao conhecimento de tudo o que lhes diz respeito. Direta ou indiretamente.

    Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escolheram explorar os escândalos que rondam o adversário e reivindicam atenção aos planos de governo. É do jogo, mas se refugiam em evasivas quando confrontados com as respectivas vergonhas, contradições, imprecisões e vazios de ideias.

    O presidente recorre ao velho truque de se pôr no lugar daquele que nada vê e nada sabe sobre o que se passa no seu entorno. O senador insiste em dar por superada uma questão que ficará em aberto enquanto ele não explicar para onde foi o dinheiro recebido do “irmão” Daniel Vorcaro.

    Ambos embromam, não respondem honestamente ao interesse do público nem afastam os fantasmas que os rodeiam.

  11. Adilson Luis Schmitt

    Faço um agradecimento especial ao Dr Aurélio Marcos de Souza!

    Muito obrigado, Dr Aurélio Marcos de Souza, por mais esta batalha vencida.

    Devo esta grande vitória a você!

    De coração, meu muito obrigado.

    Ganhamos mais uma, isso graças a Deus e aos teus conhecimentos jurídicos.

    Estou aqui aliviado. Muito aliviado.

    Adilson Schmitt
    Ex Prefeito de Gaspar
    Gestão 2005 a 2008

  12. O PT NÃO TEM MAIS O BENEFÍCIO DA DÚVIDA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    Espremendo-se o noticiário que envolve Fábio Luís Lula da Silva, vulgo Lulinha, o que se tem de concreto a apontar malfeitos do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é muito pouco. Aqui e ali, pipocam fragmentos de diálogos extraídos do celular da lobista Roberta Luchsinger, amigona de Lulinha, que mostram sua desenvoltura nas tratativas para tentar emplacar negócios de seus clientes no governo Lula por meio do filho do presidente. “Eu sou o Fábio”, jactou-se Roberta. Mas, até onde se sabe, nenhum contrato foi firmado pelo governo com esses clientes. Se provas há, por ora, é de que Roberta fala muito e entrega pouco e que Lulinha precisa escolher melhor suas amizades.

    Diante disso, a campanha petista deveria estar relaxada, mas, ao que consta, não está: há crescente preocupação com os efeitos do caso na candidatura Lula. Afinal, os vazamentos das investigações da Polícia Federal, a conta-gotas, atendendo a sabe-se lá que interesses, tendem a manter no ar a sensação de que o filho de Lula tem culpa no cartório. É difícil controlar danos quando não se controla o noticiário.

    Mas o prejuízo é maior por uma razão de fundo: a corrupção, no imaginário popular, é como se fosse uma segunda pele do Partido dos Trabalhadores (PT). Qualquer fiapo de desvio ético de petistas, mesmo assentado em evidências frágeis, é desde logo tratado como confirmação incontestável dessa natureza. Pudera: depois dos escândalos do mensalão e do petrolão, o PT não tem mais o benefício da dúvida.

    Não se chega a esse lugar à toa. O PT nasceu e cresceu politicamente como uma espécie de antítese moral da assim chamada política tradicional brasileira. Com a redemocratização do País, o partido cultivou com desvelo a aura de força renovadora, avessa ao fisiologismo do Centrão e aos escândalos de corrupção que marcaram o alvorecer da Nova República. No início dos anos 2000, uma de suas peças de propaganda mais célebres mostrava a Bandeira Nacional sendo corroída por ratos, em alusão explícita aos políticos de outras legendas que vandalizavam o Orçamento da União. O PT se vendia – e em boa medida era percebido – como o “partido da ética na política”.

    Essa fantasia foi rasgada mal o primeiro governo Lula chegara à metade. Em 2005, veio a público o escândalo do mensalão, esquema de compra de apoio parlamentar que culminou na condenação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de uma pletora de lideranças históricas do PT e de seus associados, jogando o partido na vala comum da má política que sempre condenou. Para piorar, os petistas jamais admitiram os malfeitos – pelo contrário, os condenados no caso foram tratados pelo partido como “guerreiros do povo brasileiro”.

    Depois, como se sabe, veio o petrolão, o assalto à Petrobras para financiar campanhas do PT e, como ninguém ali era de ferro, enriquecer ilicitamente alguns de seus mais graduados filiados, além de diretores da própria empresa. Novas e pesadas condenações de petistas sobrevieram na esteira da Operação Lava Jato. Condenado em primeira e segunda instâncias, ninguém menos do que Lula passou 580 dias na prisão, até ser solto por decisão do STF, que, em 2019, mudou seu entendimento sobre o marco inicial da execução da pena. Tudo isso deixou marcas profundas na opinião pública e criou uma má reputação que precede o que quer que o PT venha a fazer para tentar atenuá-la.

    Em razão desse histórico, é no mínimo cínico que dirigentes, parlamentares e apoiadores do PT se incomodem com o fato de que um caso como o de Lulinha seja capaz de atrapalhar a candidatura de Lula à reeleição. A reputação que precede o partido não foi construída de fora para dentro: foi forjada por sua própria trajetória no Poder Executivo. É isso o que se colhe quando um partido se apresenta como vestal da moralidade pública e, depois, protagoniza grossos escândalos de corrupção, sem jamais ter pedido desculpas por isso.

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