Venho de ambientes empresariais pioneiros de alta competição e resultados transformadores em Santa Catarina. Eram outros tempos, conceitos, dificuldades, superação e exigências, Já estamos vivemos novos, estranhos, inseguros e perigosos tempos não para indivíduos, mas para uma sociedade reconhecidamente vencedora no seu modelo contra o inconformismo.
É claro que não devemos descartar de que a arquitetura ambiental de empreender, investir e inovar – limites, legislação, transparência – dos tempos de hoje são bem diferentes, reconheço, nos conceitos, dificuldades, superação e exigências daqueles meus tempos.
Entretanto, a alma catarinense ainda é a mesma dos imigrantes originais europeus ou de migrantes gaúchos com o mesmo viés de imigração. Superados os velhos desafios se apresentam novos. Isto é uma essência cultural herdada dos que forjaram a acolhedora Santa Catarina, quase todos pobres, fugidos de guerras, catástrofes, doenças, fome. Eram comunitários e agregados em torno de igrejas e templos, para recomeçar e até, serem reconhecidos, como foram e são.
Desistir não fazia parte do manual de sobrevivência daquela gente. Está escrito. Está amplamente documentado. É memória. É história que até já sofreu tentativas de desqualificação por vários vieses vistos aos tempos higiênicos de hoje. E ao fim, esses imigrantes, migrantes, desbravadores, empreendedores e pioneiros se tornaram referência naquilo que faziam, lideravam, improvisavam, sacrificavam-se, associavam-se, sonhavam, apostavam e se estabeleciam em exemplos.
O nosso sucesso até então, estava muito ligado ao conceito darwiniano sintetizado como “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças“, dito pelo professor Leon C. Megginson, docente de Administração da Louisiana State University, em 1963, apresentou uma paráfrase das ideias de Darwin estabelecida em “A Origem das Espécies“.
OS POLÍTICOS DAQUI E FORASTEIROS COM AVAL DOS DAQUI QUEREM DESTRUIR O NOSSO LEGADO
E os políticos, unicamente na ânsia de poder, populismo, celebridade não por conteúdos e ideias, mas por likes recebidos nas redes sociais, e disputa ideológica, aos poucos vão destruindo a nossa alma. Vou comparar dois tempos. Um é o pai do modelo de desenvolvimento regional equilibrado do ex-governador (1961/66), pecuarista e engenheiro de minas nascido em Lages, Celso Ramos (1987/96), PSD, Arena, PDS e PFL, filho de Vidal e irmão de Nereu, ex-presidente do Brasil.
O outro é a destruição desse modelo começou com florianopolitano – mas com vida política em Joinville – Pedro Ivo Campos, 1930/90. Eleito pelo MDB governou abreviado pela morte entre 1987/90. Mas, nada se comparou a Paulo Afonso Evangelista Vieira, nascido em 1958 em Teresina, Piauí, e que governou entre 1995/99. Guardadas as proporções daqueles tempos.
Jorginho Mello, PL, caminha na mesma direção para a reeleição. Ele não possui uma marca de governo e pior, sem uma bandeira para continuar no Centro Administrativo, tanto que está “fugindo” de debates e até mesmo de sabatinas. Ou seja, tem pouco a dizer, prestar contas e a defender depois de quatro anos de governo, sem contar a má comunicação que o acompanha e pouco se pode fazer para melhorá-la. Triste.
Jorginho, clamorosamente, falhou no diálogo, supostamente por questões pessoais, partidárias e ideológicas, com o governo Federal, o centralizador e que leva todos os cada vez mais altos impostos arrecadados aqui e nos devolve migalhas para o mínimo de suporte ao desenvolvimento, inovação e infraestrutura.
Na infraestrutura apesar da melhoria da malha rural e interiorana, Jorginho falhou essencialmente em encontrar saídas, acordos e visões para o gargalo de uma inaceitável e perigosa “litoralização” que trava tudo na BR-101.
Temos produção, temos portos modernos, mas perdemos a competitividade e estamos presos no gargalo da BR-101, para não falar na BR-280 (São Francisco do Sul), BR-282 (Oeste), BR-470 (Médio e Alto Vale até a Serra) e até a BR-116 (Serra e Planalto Norte) em alguns trechos críticos conhecidos de há muito. A “Via Mar”, é pura marquetagem de distração eleitoral, pois já devia estar sendo feita e nela, incluído, um ramal ferroviário no trecho.
CONTRA A MASSIVA EMPREGALIDADE DO MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS INVESTIDORES
E se somos um destino turístico litorâneo, parques e de eventos – cada vez mais frequentes e maiores -, é preciso caminhos para a mobilidade. Não os temos; estamos encalacrados na temporada e fora dela. Quem vai a eventos ou sai de férias – a maioria de outros estados e até estamos atraindo europeus – para enfrentar perrengues?
Se somos um destino de balneabilidade nas centenas de praias, elas continuam anos após anos, apresentando altos índices de poluição. Investimentos, metas e soluções, zero. Bem longe do marco do saneamento. A preocupação é a não divulgação deste quadro repetitivo, como se o problema pudesse desaparecer com este ato, ainda mais com as redes sociais abertas. A única coisa que se faz é insistir na estatal Casan. Ela está inchada, descapitalizada, desatualizada e é lerda. Ela não combina com o modelo catarinense de superar desafios.
Se o “El Niño”, virou um tormento no imaginário por quem já sofreu na pele e principalmente por que não sabe bem o que é isto, pela ausência preventiva e dúvidas criadas em investimento, contrata-se como garoto propaganda um influenciador digital do meio para promover o governo. É mais barato e ao mesmo tempo cabala votos para se tornar vítima mais tarde se o pior realmente chegar. Isto é irresponsável. Quem vai apostar e investir aqui sabendo disso?
Há 44 dias das eleições de quatro de outubro, estamos discutindo se somos de direita ou de esquerda, não exatamente defendendo que quer empreender, investir, inovar produzir resultados diferenciais para Santa Catarina, Brasil e na competição internacional, gerar mais empregos, mais impostos, e principalmente qualidade de vida.
Pior do que isso, estamos importando candidatos que nada tem a ver com a nossa saga, a nossa compreensão de vencer pelo trabalho e resultados herdados dos nossos antepassados, que vieram para cá forjar histórias, exemplos e sucessos. Estamos matando e enterrando o nosso modelo catarinense de produzir e competir.
Na política, pelos políticos que só querem o poder – e não dizem o porquê – estamos nos igualando aos piores do Brasil. Estamos nos se negando a teoria de Charles Darwin. Os políticos de hoje em Santa Catarina, como acontece nas regiões mais atrasadas do Brasil, se negam a fazer a adaptação à nova realidade de exigências para a sobrevivência competitiva. O modelo político catarinense de empreender e vencer precisa de políticos líderes e comprometidos com a alma Barriga-Verde.
TRAPICHE
O governo de Paulo Norberto Koerich, PL, precisa recuperar o seu faro de investigador policial de fama. Como pode, dentro do próprio grupo de poder de plantão, pode se espalhar que vereador da base mandou recados de chantagem. Para não “assinar” a CPI das dúvidas da obra de contenção da barranca do Rio Itajaí Açú, ali na Figueira, queria mais empregos na prefeitura. Credo.
Perguntar não ofende: afinal qual é o candidato a deputado estadual de Paulo Norberto Koerich, PL? Há em Gaspar quatro candidatos e três são do espectro de direita. Por outro lado, em insinua outros quatro de fora e que provavelmente receberá o seu voto. Um líder assume riscos e se estabelece em parcerias. A não ser que Paulo não esteja pensando em reeleição. A mesma situação está na escolha de um candidato a Federal.
Credo. Antes veio o desgastes e os acidentes quase diários. E olha que durante um ano e oito meses. Depois, a solução óbvia, que todos os gasparenses, com mínima noção da obviedade indicavam, pediam e sabiam. A prefeitura de Gaspar e a Ditran Paulo Norberto Koerich, resolveram reforçar a sinalização horizontam e colocar lombadas no trevo da Paraolli. E precisa de apanhar tanto no lombo com algo óbvio, simples e barato?
Transparência para inglês ver? Com atraso de um ano e oito meses governo de Gaspar anunciou a adesão à plataforma do tal EngeGov. Ela promete transparência no projeto, licitação, contratação, recursos, pagamentos e execução de obras que são feitas no município. Excelente. O o sumido vice-prefeito, o engenheiro multititulado Rodrigo Boeing Althoff, Republicanos, até reapareceu na solenidade e nas redes sociais fazendo vídeos.
Na mesma solenidade, gente do próprio governo de Paulo Norberto Koerich, inclusive que tem a obrigação de implantação e integração da plataforma, não escondeu de que não vai fazer o menor esforço para que isso aconteça de fato a favor do cidadão, cidadã, cidade e da transparência. Então, por enquanto, é propaganda diante de tantos questionamento e se até ameaça de CPI e que recentemente foi enterrada para nada se apurar. Incrível!
Então quer dizer que o vereador carioca de múltiplos mandatos vazios e que está alugando o eleitorado catarinense para se eleger Senador da família, Carlos Bolsonaro, PL, além de fugir de todos os debates e sabatinas – talvez não tenha nada a dizer e não se pode comprometer em defesa do Estado – diz que o melhor lugar do mundo para se estar é o bairro da Tijucas, no Rio de Janeiro? E os gasparenses doentiamente em defesa e na busca de votos para ele. Qual o compromisso dessa gente? E a parceira dessa viagem suicida ideológica, Caroline De Toni, PL, que se cuide… Muda, Gaspar!
19 comentários em “O MODELO CATARINENSE VENCEDOR HÁ DÉCADAS DE DESAFIAR E EMPREENDER PRECISA DE POLÍTICOS LÍDERES COMPROMETIDOS COM ALMA BARRIGA-VERDE. É PARA DAR SEGURANÇA E PERSPECTIVAS MÍNIMAS DE FUTURO AOS INVESTIDORES E EMPREENDEDORES DIANTE DAS MUDANÇAS NO AMBIENTE TENOLÓGICO, NEGOCIAL, GEOLPOLÍTICO E ESTRUTURAL”
BOM DIA
Hoje é dia de artigo inédito.
FATOR LULINHA NA RETA FINAL, por Elio Gaspari, nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo
Em janeiro de 2024, a J&F dos irmãos Batista contratou um parecer de Ricardo Lewandowski, magistrado aposentado do STF e futuro ministro da Justiça, para seu litígio em torno da Eldorado Celulose. Em fevereiro, o banqueiro Daniel Vorcaro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes com remuneração de R$ 3,6 milhões mensais por três anos. Já o ministro Dias Toffoli suspendeu no dia 2 os pagamentos das multas devidas pela empreiteira Odebrecht, decorrentes do acordo de leniência firmado com o juízo da Lava-Jato. Dias depois, o ministro mandou investigar a ONG Transparência Brasil. Tudo normal e legal.
Nesse cenário, a advogada Roberta Luchsinger e Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conceberam um negócio de fornecer ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios com base em canabidiol. Seria um negócio de 626 milhões.
Era motivo de euforia para Luchsinger: “Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom (sic). Esse povo aqui tá em outra vibe”.
Em 2024, Antunes só era conhecido por seu povo como Careca do INSS. O escândalo do roubo praticado nas aposentadorias só viria a público no ano seguinte.
Além de Lulinha, a dupla acreditava ter como gazua o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
LULINHA E O “CARECA”
Em janeiro de 2025, Lulinha e sua família viajaram à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal. A viagem foi organizada por Marina Mantega, filha do ex-ministro Guido Mantega e “luxury travel specialist”. A vilegiatura foi paga por Roberta Luchsinger, que era financiada pelo Careca do INSS, seu parceiro no possível negócio dos frascos de canabidiol.
(Nesses dias Flávio Bolsonaro tratava com o banqueiro Daniel Vorcaro de recursos para o filme “Dark horse” e o grupo J&F, dos irmãos Batista, pagou R$ 25,9 milhões a uma empresa que comprou a participação da família do ministro Dias Toffoli, do STF, no resort Tayayá.)
Meses depois, a Polícia Federal revelou que o Careca do INSS recebeu R$ 53,5 milhões de entidades metidas nas roubalheiras contra os segurados da Previdência.
Na noite de 8 de novembro de 2024, dois passageiros embarcaram no voo JJ-8148 da Latam com destino a Lisboa. Lulinha foi para o assento 6J, e o Careca foi para o 3A. Viajaram em assentos separados, com o mesmo objetivo: prospectar empresas portuguesas para o fornecimento dos 1,2 milhão de frascos de canabidiol. Lulinha admitiu que o Careca pagou as passagens e as diárias do hotel. Careca montou uma empresa, a Candango Consulting, na cidade de Porto, e, em fevereiro de 2025, comprou um galpão por 2,7 milhões de euros.
Em dezembro, saiu da CPI do INSS a informação de que um ex-funcionário do Careca havia revelado que Lulinha recebia do patrão uma mesada de R$ 300 mil e se referia a ele como “filho do rapaz”.
LULINHA, O CARECA E MARCOLA
A venda de canabidiol para o Ministério da Saúde poderia ser um bom negócio, com o filho do presidente no lance, teria o pescoço comprido. Faltava incluir a girafa no rol de medicamentos do SUS. Incluindo-o, o que não é fácil, seria necessário licitá-lo.
A essa altura, entra Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete e guardião da porta de Lula. No início de agosto, o site Poder 360 revelou que o discreto Marcola tomou R$ 249 mil emprestados a Luchsinger, quitando-os.
Em 2024, os dois tratam também da compra de joias para o Dia das Mães (não se sabe mãe de quem).
Na quinta-feira, os repórteres Eduardo Gonçalves e Sarah Teófilo revelaram que a Polícia Federal encontrou nos celulares de Luchsinger e do Careca a minuta de um contrato e o plano de negócio da compra de 1,2 milhão de 36 tipos de remédios à base de canabidiol, sem a praga dos finórios, a licitação. O destinatário da minuta era Marcola.
“É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação”, disse Luchsinger. “. “Ele” poderia ser Marcola.
Luchsinger disse a Lulinha em 6 de março de 2024:
“Pousei. Vou lá no Berge”.
Fábio ironizou: “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”.
Berge é Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, quadro histórico da infantaria petista, hoje no Planalto.
O canabidiol não está no rol de fármacos do SUS, licitação não se suspende só com telefonemas ou almoços e nenhum frasco foi comprado. A cobiça dos finórios e a soberba palaciana bombaram uma crise a um mês da eleição.
Lulinha reclamava que dava duro e seus negócios davam em nada. Ainda bem que a Viúva não comprou o Canabidiol do Careca.
Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos. Podiam ter feito isso há meses.
A MAIOR PROEZA DE LULA 3.0
Nos dias tensos do final de 2022, quando o presidente Jair Bolsonaro e alguns generais palacianos tramaram um golpe de Estado, Natasha temeu pelas instituições. Passou o tempo e soube-se o que aconteceu: as Forças Armadas não acompanharam os golpistas.
Os comandantes militares (salvo o da Marinha) negaram-se a acompanhá-lo. O primeiro, explícito, foi o brigadeiro Carlos Baptista Junior, da Aeronáutica. Ele acaba de publicar o livro “Eu disse não — Uma trincheira antigolpista”.
Numa entrevista à repórter Bela Megale, o brigadeiro disse que, durante a fervura, ele advertiu Bolsonaro: “Presidente, olha aqui o que está acontecendo. Depois de tudo isso, quem vai levar toda essa carga são as Forças Armadas”. Bingo. Pelo comportamento de Bolsonaro, o golpismo estava deslizando para o colo dos militares.
Baptista Junior reconheceu que essa incerteza teve um preço: “As Forças perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra”.
Não é. A palavra é confiança. Felizmente a desconfiança durou pouco, graças a atitudes como a de Baptista Junior, Lula está no Planalto e 23 notáveis da trama estão presos, inclusive Bolsonaro.
Pode-se achar que o governo de Lula não tem marca, mas ter retirado as Força Armadas da frigideira foi sua maior proeza, o que não é pouca coisa.
É a economia, seus tolos. Se ela não mudar, mudam-se os teimosos que nos fazem de idiotas e nos esfolam com cada vez mais altos impostos on line para a farra de uma minoria descomprometida com projeto de país. E pelo voto.
TENTATIVA DE POLIR CREDENCIAIS FISCAIS DE LULA É FRUSTRANTE, editorial do jornal O Globo
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi destacado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como interlocutor econômico da campanha pela reeleição. Durigan não tem perdido tempo em circular pela Faria Lima para convencer o mercado financeiro das novas credenciais de Lula no campo fiscal, caso seja reeleito. Tem tentado acalmar bancos e gestoras de fundos e se mostrado aberto às críticas. A julgar, porém, pela ansiedade na flutuação de indicadores como dólar, ações e, principalmente, títulos do governo, o fracasso da iniciativa é patente.
A conversa de Durigan não convence, porque seus argumentos são frágeis e porque o retrospecto do governo — sobretudo o naufrágio do arcabouço fiscal — se encarrega de apagar qualquer vestígio de credibilidade que ainda pudesse ter. Ele insiste na balela de que Lula foi responsável do ponto de vista fiscal. Afirma que o resultado primário começou com déficit de 2,4% em 2023 e que haverá superávit neste ano. Só esquece a interminável lista de despesas excluídas desse cálculo. A dívida pública já cresceu 8 pontos percentuais do PIB nos primeiros três anos e deverá crescer 10 ao longo de todo o mandato — ante queda de mais de 3 pontos no governo anterior, sobretudo em virtude de fatores conjunturais. Fora da militância petista, poucos acreditam que a política fiscal precisa apenas de pequenos ajustes, como insinua Durigan. Quanto às conversas com economistas, parece evidente que são encenação para acalmar o mercado.
Nas duas primeiras semanas de agosto, os investidores estrangeiros retiraram R$ 18,1 bilhões da Bolsa de Valores B3. Entre os motivos, as incertezas sobre o rumo das contas públicas. O governo diz não ver problema de grandes proporções, mas os investidores têm exigido taxas cada vez mais altas para financiar a dívida. O Tesouro tem sido forçado a emitir um volume maior de títulos pós-fixados, indexados à Selic, alimentando o endividamento com a alta do juros — em julho, 49% dos R$ 9,3 trilhões da dívida federal estavam atrelados à Selic, ante 38,3% quando o governo assumiu. A taxa implícita em 12 meses que o investidor exige para emprestar dinheiro ao governo atingiu 13,2%, maior patamar desde novembro de 2016.
Ante tal quadro, era de esperar um ataque contundente de Flávio Bolsonaro, candidato da oposição mais bem colocado nas pesquisas. Em reuniões fechadas, ele promete enfrentar o problema fiscal, mas em público não sai de frases de efeito. Em sua proposta econômica, defende uma política baseada na trajetória do endividamento, mas ninguém sabe o que isso significa na prática. Até o momento, os dois principais candidatos presidenciais e seus interlocutores econômicos têm deixado muito a desejar em seus planos para conter a escalada da dívida.
A dívida não se tornou problema de uma hora para outra. É construção de vários governos. Mas sob Lula a situação se deteriorou de modo aterrador. E o road show de Durigan tem sido frustrante. Não haverá como o Banco Central reverter o quadro de deterioração no perfil da dívida sem a cooperação do Executivo, transmitindo recados claros de responsabilidade no trato das contas públicas. Esse recado deve vir de quem realmente tem poder de decisão — Lula. Ignorar o assunto na campanha só contribui para aumentar a desconfiança e agravar a situação.
COMO DELAPIDAR UMA SUPERPOTÊNCIA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou bombardear Omã, um aliado dos americanos, no momento em que precisa do sultanato para mediar uma saída da guerra contra o Irã. Na Ásia, Trump reduziu a participação americana em exercícios militares com a aliada Coreia do Sul enquanto corteja o ditador norte-coreano Kim Jong-un, que recebeu prestígio sem entregar seu arsenal nuclear. Em poucos dias, para resumir, o presidente americano investiu contra um mediador de que necessita, enfraqueceu um aliado que o fortalece e afagou um adversário que não cede. Foi um capítulo especial da tragicômica série estrelada por Trump na qual ele, em um par de anos, arruína a política externa americana laboriosamente construída por seus antecessores ao longo de décadas.
Os EUA dispõem das Forças Armadas mais poderosas, do mercado mais cobiçado e da moeda vital do planeta. Sua influência, porém, extrapola a soma desses recursos. Aliados oferecem bases e inteligência, e compromissos previsíveis os levam a correr riscos por Washington. Por décadas, essa rede permitiu transformar superioridade material em resultados políticos sem impor obediência a cada passo.
Trump explora esse patrimônio como reserva para liquidação imediata. Alianças viram faturas, e dependência, ocasião para chantagem. As negociações servem de palco para vitórias pessoais. O método arranca concessões momentâneas, mas ensina cada interlocutor a reduzir a exposição à próxima ameaça. O ganho aparece no anúncio; o custo se acumula fora das câmeras.
A ascensão da China, o cansaço com guerras prolongadas e a frustração com aliados alimentaram entre os americanos uma demanda legítima por prioridades mais claras. Trump respondeu à ansiedade de uma superpotência que teme perder posição com uma política de performance e humilhação. Sua necessidade patológica de exibir domínio oferece aos autocratas uma chave conveniente: deferência pessoal vale mais na Casa Branca que reciprocidade verificável.
Trump tinha razão ao exigir que europeus gastassem mais na própria defesa, e sua pressão ajudou a produzir esse resultado. Uma Europa mais capaz, integrada a uma estratégia comum, repartiria o peso da segurança ocidental. Mas uma Europa que se arma por temer o abandono constrói uma apólice contra Washington. A distinção vale no Pacífico. Os exercícios com Seul compram prontidão e dissuasão. Reduzi-los para punir o aliado barateia a presença americana e debilita a defesa que evita custos maiores.
Os adversários tomam nota. Pequim passou anos mapeando gargalos comerciais e tecnológicos, preparou instrumentos de retaliação e aprendeu a explorar a ansiedade de Trump por troféus. Pode oferecer compras, tréguas ou um retorno tático ao ponto de partida, permitindo que Trump anuncie triunfos enquanto usa a pausa para minimizar vulnerabilidades. A imprevisibilidade ainda intimida alvos frágeis. Repetida como método, revela os limites que pretendia ocultar.
A guerra contra o Irã expõe a mesma distância entre força e resultado. Os EUA podem destruir instalações e infligir danos devastadores. Ainda assim, não controlam o compasso do conflito: ele depende da reação de Teerã, da vulnerabilidade de Ormuz e da disposição dos países do Golfo de ajudá-lo. Cada rodada militar estreita as opções de saída. Ameaçar Omã equivale a chutar a porta por onde se pretende escapar.
Os efeitos se acumulam à medida que aliados diversificam parcerias, alvos das tarifas reorganizam cadeias produtivas e mediadores evitam riscos. Os rivais testam os limites já revelados. Pequim não precisa substituir Washington para lucrar. Basta que os parceiros dos EUA confiem menos neles e que a China já não pareça a única grande potência da qual é prudente se proteger.
Washington continuará capaz de sancionar, bombardear e obter concessões. À medida que sua liderança perde legitimidade, porém, precisa recorrer mais à coerção em troca de cooperação. A ordem resultante será mais armada e fragmentada, com menos espaço para os EUA e mais oportunidades para seus rivais.
Essa degradação é tanto mais trágica quanto é desnecessária. Nenhum rival poderia arrancar facilmente dos EUA sua rede de alianças e a confiança acumulada durante gerações. Trump faz esse trabalho por eles.
Um artigo que deveria ser lido pelos políticos – se eles conseguirem passar do título – e líderes catarinenses. Ele foi publicado antes do meu artigo, o qual trata da essência de sobrevivência do modelo catarinense vencedor, que agora os “novos” políticos querem jogá-lo na lata de lixo e tornar o estado tão igual aos de piores práticas e resultados para a sociedade como outros mendigos e dependentes da Federação
O QUE ODISSEU PODE ENSINAR AO LIBERALISMO, por Fareed Zakaria, jornalista e escritor indiano-norte americano. Este artigo foi escrito originalmente para o The Washington Post, traduzido e republicado no jornal O Estado de S. Paulo
Finalmente fui assistir ao novo filme de Christopher Nolan, A Odisseia, para curtir um grande sucesso de bilheteria – e ele superou todas as expectativas. Não tinha a intenção de comentar as várias polêmicas em torno do filme, desde as críticas de que ele é “woke” até as alegações de que é historicamente impreciso (pelo amor de Deus, trata-se de uma história de quase 3 mil anos repleta de deuses e deusas, gigantes caolhos e magia!). Mas o comentário de Ezra Klein sobre o filme me levou a refletir sobre as questões mais amplas que ele levanta, as quais me parecem interessantes e importantes.
Klein argumenta que, embora a crítica à Odisséia de Nolan como sendo “woke” – por ter escalado uma atriz negra para o papel de Helena – seja trivial e superficial, o filme é liberal em um sentido mais profundo. Nolan substitui fundamentalmente a moralidade do mundo antigo – em que a conquista e a vitória eram celebradas sem pudor – por uma moralidade mais matizada. Enquanto o Odisseu de Homero era constantemente elogiado por suas artimanhas inteligentes e astutas, o Odisseu de Nolan é assombrado pelas devastações da guerra e por seu próprio ardil, que esteve no centro da vitória: o cavalo de Troia.
A partir do cristianismo, o Ocidente substituiu gradualmente a ética pagã da conquista e dominação descaradas por uma centrada na dignidade humana universal, na compaixão e na empatia. “Bemaventurados os mansos, porque herdarão a terra”, diz o Evangelho segundo Mateus – palavras que nenhum herói homérico jamais proferiria.
HUMANIDADE. Os valores précristãos estão voltando à tona atualmente, à medida que a direita populista, muitas vezes acompanhada por um novo grupo de bilionários do setor de tecnologia, olha para trás com admiração para um mundo antigo em que força, dominação e vitória eram mais importantes do que empatia e igualdade.
Para Donald Trump, “vencer” é tudo o que importa, justificando todos os meios. Ele usa essa palavra incessantemente. Em entrevista ao programa 60 Minutes, em 2018, quando questionado sobre seus comentários depreciativos a Christine Blasey Ford, a mulher que acusou Brett Kavanaugh de agressão sexual, Trump disse simplesmente: “Não importa. Nós vencemos.” Em seu livro Suicidal Empathy, Gad Saad – um dos escritores favoritos de Elon Musk – argumenta que o Ocidente está em declínio porque se preocupa demais com muitas pessoas: os marginalizados, as minorias e até mesmo seus inimigos.
De fato, a maior conquista moral do Ocidente nos últimos dois milênios, e especialmente desde o Iluminismo, tem sido a ampliação do círculo de pessoas consideradas plenamente humanas, com igual dignidade e direitos iguais. Passamos a reconhecer a humanidade de pessoas antes rejeitadas como escravos, servos e cidadãos de segunda classe – estrangeiros, mulheres, minorias raciais, pessoas com orientações sexuais diferentes. Essas ideias se espalharam pelo mundo porque são, nas palavras da Declaração da Independência dos EUA, “evidentes por si mesmas”. Essa é uma das maiores conquistas do Ocidente, não uma doença decadente.
Mas há uma crítica séria enterrada por trás dos ataques grosseiros do movimento trumpista. É uma crítica que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche formulou e está sendo retomada por alguns dos “tech bros” de hoje.
Nietzsche temia que as ideias igualitárias do cristianismo nos tornassem menos propensos a ser extremamente ambiciosos, ávidos por riscos e temerários. Será que nos tornamos tão humanos a ponto de termos perdido os impulsos primitivos que nos tornavam heroicos?
Não devemos romantizar civilizações construídas sobre sangue, violência e conquista simplesmente porque geraram heróis. Mas elas construíram mais do que isso. As pirâmides, as catedrais góticas, as viagens de descoberta, a Revolução Industrial – tudo isso surgiu de sociedades movidas pela ambição, pela confiança e pela disposição para o sacrifício.
Muitas vezes, elas vinham acompanhadas de hierarquia e de um foco obstinado na grandeza. Parte do apelo do populismo hoje reside menos em políticas específicas do que na promessa de restaurar a grandeza nacional – de construir, de alcançar, de vencer.
Mas será que precisamos escolher entre grandeza e bondade? Afinal, as nações ocidentais nos séculos 19 e 20 foram, em sua época, as sociedades mais liberais da história da humanidade. E elas não eram nada tímidas. Construíram ferrovias atravessando continentes, aboliram a escravidão, industrializaram o mundo, criaram a bomba atômica, reconstruíram a Europa e o Japão, levaram o homem à Lua e criaram a internet.
Pense nos EUA de meados do século 20, o país que criou o moderno Estado de bem-estar social, derrotou o fascismo, construiu rodovias e aeroportos, combateu o comunismo e começou a desmantelar o legado da escravidão. Essas foram civilizações de imensa ambição.
ROOSEVELT. Os liberais não devem se desculpar por acreditarem que todo ser humano possui igual dignidade. As grandes democracias liberais do mundo conseguiram ampliar nosso universo moral ao mesmo tempo que expandiram nosso universo físico. O desafio é recuperar essa tradição liberal mais antiga.
Esse espírito será extremamente necessário à medida que desenvolvemos o que talvez seja a tecnologia mais transformadora de todos os tempos, a inteligência artificial, pois precisaremos garantir que seu incrível poder esteja enraizado em um sistema de ética e valores que valorize a dignidade humana e a igualdade – exatamente os valores que o cristianismo foi pioneiro em defender e o Ocidente fortaleceu de forma tão poderosa. Não precisamos voltar a Homero. Recuperar o espírito de Franklin Roosevelt já seria suficiente.
A CONTA CHEGOU, editorial de Veja
Desemprego em queda, salário mínimo valorizado, PIB crescendo a um ritmo acima das previsões de bancos privados e de instituições como o FMI. Aparentemente, não há nuvens negras no horizonte da economia nacional. Ocorre que os fatos são teimosos, como lembra a famosa frase cunhada pelo segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams (1735-1826). Conforme vêm alertando há algum tempo diversos especialistas, esses indicadores são frutos diretos de uma tentativa do governo federal de repetir a receita do PT de gerar progresso a qualquer custo, à base de incentivos ao consumo — uma receita que já levou o país ao abismo na gestão de Dilma Rousseff. A estratégia pode até criar alguma ilusão de prosperidade, mas é incapaz de produzir um crescimento sadio e sustentável a médio e longo prazo. Assim, o Brasil não deslancha como deveria e sofre com o efeito bola de neve: a inflação força o BC a manter os juros nas alturas, o que eleva ainda mais o custo do refinanciamento da dívida pública e, por consequência, o tamanho do endividamento total do país.
No ambiente empresarial, um dos alertas do momento crítico se dá no número recorde de pedidos de recuperação judicial. No sábado 15, a Marabraz entrou para essa lista, com uma dívida de 140 milhões de reais. No dia seguinte, foi a vez de outra rede varejista, a Casas Bahia, procurar o mesmo caminho. Nesse caso, o passivo supera a casa dos 17 bilhões de reais. Grandes grupos ficaram pelo caminho no passado por incapacidade de se adaptar aos novos tempos, sendo o Mappin um desses exemplos. Marabraz e Casas Bahia também sofreram muito com a concorrência do e-commerce e até com o dinheiro sugado pelas bets, mas isso explica apenas uma parte do problema.
Estimulada a consumir, a população começou a se endividar em níveis altíssimos, algo que pode ser fatal em tempos de juros salgados. As companhias que tentam socorro à custa de financiamentos, pagando as taxas atuais, raramente conseguem sobreviver por muito tempo, independentemente da força de suas marcas, produtos e serviços. Se não bastasse, o buraco financeiro de um grupo como a Casas Bahia obriga a cortes brutais no negócio, com o fechamento de lojas e demissões em massa. A conta das escolhas econômicas erradas definitivamente chegou e exige um debate público responsável e realista, sobretudo em um ano eleitoral. Novas promessas e bravatas de palanque não vão recolocar o Brasil no trilho certo.
A DOR E A DELÍCIA DE SER LULA DA SILVA, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende Fábio Luís Lula da Silva, vulgo Lulinha, disse em entrevista à GloboNews que os três inquéritos que tramitam contra seu cliente no Supremo Tribunal Federal (STF), por suposto tráfico de influência, seriam arquivados se o empresário não fosse filho do presidente da República. “Ele (Lulinha) carrega o peso de um sobrenome”, resmungou o defensor.
Pode ser que o causídico tenha razão. É provável que um cidadão qualquer, sem parentesco com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, jamais tivesse chamado a atenção da Polícia Federal (PF) por, supostamente, negociar contratos com a administração pública federal – sobretudo considerando que os negócios, até onde se sabe, nem sequer se concretizaram. Mas o contrário também é verdadeiro: o sobrenome que agora joga os holofotes sobre Fábio Luís é exatamente o mesmo que catapultou Lulinha da irrelevância para uma bem-sucedida carreira empresarial. Mais bem dito: Fábio Luís só é quem é na vida nacional – e só enriqueceu – por ser o primogênito de Lula.
Formado em Biologia, Lulinha começou a vida profissional como monitor do Zoológico de São Paulo. Sua trajetória no mundo dos negócios começou – e prosperou de forma espetacular – durante o primeiro mandato presidencial do pai. Em 2004, um ano após a posse de Lula, Lulinha, então aos 29 anos, criou a empresa de produção de programas dedicados a jogos eletrônicos que viria a se chamar Gamecorp. No início de 2005, a empresa, cujo capital inicial era de singelos R$ 10 mil, recebeu um aporte de R$ 5 milhões (cerca de R$ 17 milhões em dinheiro de hoje) da Telemar, depois Oi – uma das empresas tratadas como “campeãs nacionais” pelos governos petistas.
Questionado à época sobre o sucesso repentino de Lulinha, o presidente saiu-se com esta: “Que culpa tenho eu se meu filho é o ‘Ronaldinho’ dos negócios?”. Não se tem notícia de outro caso semelhante, donde se conclui que, ou Lulinha é realmente um craque da multiplicação do capital, ou, por ser filho de quem é, recebeu uma dinheirama de uma grande empresa de telecomunicações agraciada com vultosos e camaradas financiamentos do BNDES para expandir seus negócios a partir de 2006.
Aqui não nos interessa perscrutar o mérito dos inquéritos que ora pesam sobre Lulinha, que, ao fim e ao cabo, poderão ou não ensejar a apresentação de denúncia contra ele. Entretanto, se é verdade que Lulinha nunca foi condenado por nenhuma das suspeitas que o rondam há duas décadas, não se pode ignorar que seu sobrenome jamais deixou de abrir portas em todo esse tempo e, principalmente, atrair lobistas. Ser Lula da Silva, por óbvio, garante acesso irrestrito ao presidente da República, marca audiências com autoridades de diferentes escalões e, no limite, pode gerar bons negócios. Não é preciso provar crime algum para reconhecer esse fato. E quem se beneficia de seu laço de sangue com o presidente da República não pode, quando o sobrenome lhe é inconveniente, exigir tratamento de cidadão comum. O advogado de Lulinha, ao pugnar por isso, tratou-nos a todos como idiotas.
Dificilmente uma amizade como a que há entre Lulinha e a tal lobista Roberta Luchsinger, outra investigada naqueles inquéritos que tramitam no STF, despertaria tanto interesse da PF se não envolvesse um dos filhos de Lula, alguém com trânsito reconhecidamente livre em Brasília. A amizade que hoje os une como investigados até pouco tempo atrás os unia como sócios, impondo uma singela pergunta: a sra. Luchsinger teria se aproximado de Fábio Luís não fosse ele o Lulinha?
Nenhum democrata pode defender que Fábio Luís seja investigado, julgado ou eventualmente punido com mais rigor do que outro cidadão na mesma situação apenas por ser quem é. Sob esse prisma, Lula está correto ao dizer que, “se meu filho tiver culpa, ele pagará”. O problema é tentar fazer o Brasil acreditar que Lulinha é mera vítima de um sobrenome, como tentou seu advogado. Não se pode desfrutar da delícia de ser Lula da Silva e tentar dissipar a dor de sê-lo quando convém. Aí a vida é fácil.
O Estados Unidos mostram como a política econômica da Lula e do PT é um suicídio e ao mesmo tempo, não está atento à oportunidade de calibrá-la enquanto há tempo
TESOURO DOS EUA PISCOU, por Celso Ming, no jornal O Estado de S. Paulo
Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a recompra inesperada de seus títulos (treasuries) de longo prazo com o dobro de recursos, coisa de no mínimo US$ 4 bilhões, e divulgou a posição recorde da dívida pública do país, de US$ 40 trilhões, esta já mais ou menos prevista.
O mercado financeiro global foi tomado pela ansiedade. Os preços do ouro saltaram 2,82% num único dia, as cotações do dólar caíram, as Bolsas comemoraram e, como não podia deixar de ser, caiu a remuneração (yield) dos treasuries de longo prazo. Esta manobra do Tesouro diz muita coisa e terá consequências.
A recompra de US$ 4 bi em títulos cujo estoque soma US$ 40 tri é insignificante. Mais significante é a operação em si mesma e o que há por trás dela.
O objetivo da recompra é aumentar a demanda por treasuries de longo prazo. Há meses, vinha se acentuando o processo de rejeição dos treasuries de longo prazo. Ou seja, a procura vinha enfraquecendo. Isso implicou certa desvalorização dos títulos. Como passaram a ser negociados abaixo do valor de face, subiu a remuneração prevista nos contratos dos títulos em comparação com o novo valor. Isto é, os juros de longo prazo começaram a aumentar. Essa alta passou a contaminar a confiança do investidor na condução das finanças públicas dos Estados Unidos. Por trás desse aumento de rejeição de longo prazo está o medo já disseminado de que o governo dos Estados Unidos corre o risco de perder o controle da dívida e, assim, de aceitar mais inflação, fato que implica certo calote da dívida. Mais do que o tamanho da operação, contou a piscada dada pelo Tesouro: é o recibo de que há algo errado.
Os recursos a serem usados pelo Tesouro para recomprar os títulos virão da venda de euros e não de emissão de moeda. Ainda assim, espera-se mais inflação nos Estados Unidos, o que vai na contramão da política do Fed (banco central), que vinha evitando nova rodada de alta dos juros. Como essa decisão não deve parar por aí, falta saber com que recursos voltará às compras. Pode emitir títulos de prazo mais curto e, nesse caso, estará apenas alterando o perfil de vencimentos da dívida. E pode emitir moeda.
O problema de fundo continua intocado. E ele tem a ver com a perda de hegemonia dos Estados Unidos e com a redução da capacidade de obter demanda para sua moeda e para seus títulos de dívida.
A persistirem essas condições, algum nível de turbulência parece contratada. Para que o Brasil não apanhe, o que há a fazer é reequilibrar a economia, e isso implica derrubar o rombo fiscal, o que exige ação política.
A normalização pela sociedade da corrupção entre os políticos, chancelando o pensamento popular: todo político que nós próprios elegemos é ladrão dos nossos próprios e cada vez mais altos pesados impostos que eles aprovam contra nós
CORRUPÇÃO É TEMA INGLÓRIO PARA LULA E FLÁVIO, editorial do jornal Folha de S. Paulo
Em diferentes momentos antes do início pleno da disputa presidencial, tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Flávio Bolsonaro (PL) consideraram boa estratégia explorar o tema da corrupção para desgastar o outro. Nesta primeira semana de campanha oficial, porém, os dois principais candidatos ao Planalto têm mais a explicar do que a acusar nessa seara.
O constrangimento mais recente vem de novas informações vazadas da Polícia Federal a respeito das atividades de Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha —o filho do presidente é objeto de inquérito sobre a suspeita de ter tentado usar o nome para fazer avançar negócios no governo.
O caso envolve também o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, de apelido Marcola. Ele e Lulinha mantinham ligações com uma lobista, Roberta Luchsinger, que, segundo a PF, servia de facilitadora para contatos de Antônio Carlos Camilo Antunes —conhecido como Careca do INSS— no governo federal.
Já Antunes foi indiciado no escândalo dos descontos fraudulentos em pagamentos de aposentadorias. Apurou-se que ele pagou R$ 1,5 milhão a Roberta, e Marcola recebeu dela R$ 249 mil, explicados como empréstimo.
Todos negam irregularidades. Até pela natureza opaca dos vazamentos, é prematuro atribuir culpas. Mas o tempo da política é diferente. Lula declarou publicamente que o filho deve ser investigado como qualquer cidadão e afastou Marcola da campanha.
Mas a necessidade de responder sobre um caso que atinge a família e a antessala presidencial tirou do PT a possibilidade, incerta desde o início, de usar o discurso de moralidade contra Flávio.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que falava com mais desenvoltura das condenações de Lula por corrupção, foi atropelado pela revelação de suas relações com Daniel Vorcaro, principal personagem do escândalo do Banco Master, que une cooptação de autoridades nos três Poderes e um desfalque recorde no sistema financeiro.
Em um áudio também vazado, Flávio chama o ex-banqueiro de “meu irmão” e cobra dinheiro para o filme hagiográfico sobre seu pai, hoje preso por tentativa de golpe de Estado. Como se não bastasse, o candidato do PL também tem um histórico nebuloso de suspeitas de apropriação de recursos de seu gabinete parlamentar e ligações com milicianos no Rio de Janeiro.
Felizmente para ele e para Lula, a corrupção não parece ser um tema tão central neste pleito quanto já foi. Segundo o Datafolha, não mais que 9% dos brasileiros a consideram o principal problema do país. Com o acirramento da polarização política, a rejeição a um dos principais postulantes parece ser o motivo mais forte para o voto no outro.
Infelizmente para o país, tal quadro tanto empobrece o debate eleitoral quanto favorece uma apatia institucional diante dos desmandos que se sucedem à esquerda e à direita.
O alerta foi dado!
“E a parceira dessa viagem suicida ideológica, Caroline De Toni, PL, que se cuide…”
Periga ficar sem mandato?
Bom. Pelo menos poderá vender tiaras de flores nos corredores do parasitário nacional!
Há um misto de doença, cálculo mal feito e loucura reiterada
Carlos Bolsonaro, PL, não quer ir a debate, sabatina ou entrevistas em Santa Catarina e inicialmente alegou falta de espaços na agenda, mas quando se vê, está fazendo campanha para outros, servindo de garoto propaganda da família em outras cidades de fora de Santa Catarina e para outros candidatos.
Caroline de Toni, PL, também está rejeitando o debate, sabatina ou entrevistas, alegando que indo poderia ser mal interpretado pelos radicais e doidos Bolsonaroas e bolsonaristas. Prefere o sacrifício e o prejuízo contra uma candidatura que se viabilizaria muito fácil.
Noves fora, tudo balela. E todos em Santa Catarina, inclusive os bolsonaristas sabem do tamanho do furo nesta barca. Carlos não possui conteúdo e nem carisma, não sabe e não entende de Santa Catarina e de catarinenses, e não é capaz de se comunicar verbalmente (talvez entenda de rede social e já parece estar desatualizado). Não domina nada com nada.
Já Caroline de Toni, PL, é o oposto. Daria um banho e se salvaria nestes debates, sabatinas e entrevistas. Naturalmente, colocaria Carlos no fosso e abriria ainda mais o caminho para a reeleição de Esperidião Amim Helou Filho, PP. Nem mais, nem menos. Como o tiro é curto, a aposta dos Bolsonaros é ficar escondidos e receber votos não por cabala, mas por osmose. Se isto vai dar certo, só em quatro de outubro saberemos. É a mesma tática para a candidatura aberração à Câmara Federal e contra Santa Catarina e seus interesses, Jair Renan Bolsonaro, PL.
Ou alguém quer dar outra explicação? Incrível!
Boa tarde.
O senhor observou o montante que custou a tal da plataforma para acompanhar as obras em Gaspar?
R$ 350.000,00 🥸
Outra questão que sacudiu as pulgas atrás da minha orelha foi a decisão do Ministro Dias Tóffoli sobre cobrança do IPTU.
Se existe uma lei que estabelece alíquota máxima de 0,5% sobre o valor venal do imóvel,
como a prefeitura de Gaspar nos COBRA de 1 a 2%?
No caso de Chapecó, a prefeitura foi obrigada a corrigir o ÍNDICE e RESSARCIR O EXTORQUIDO..
No nosso caso, como pagamos o DOBRO e até QUATRO VEZES a alíquota constitucional, no MÍNIMO, será que teremos DESCONTO DE 50% em 2026???
Dona Odete
Obrigado pela leitura, pois segundo os poderosos ninguém me lê e nem sou a andorinha que faz verão, bem como obrigado pela interação
Primeiro assunto. É caro, caríssimo, se o que relatei se tornar realidade: mais uma ferramenta inútil e de enganação como ensaiam alguns secretários, a começar pela área que mais deveria aplaudir, atualizá-la e se orgulhar: a secretaria de Fazenda e Gestão Administrativa. É casara, caríssima, se é mais uma marquetagem só para inglês ver e enganar a população.
Segundo. Este negócio do IPTU não é 0,5%, nem 1%, 2% ou 10%. É um cálculo complexo, cheio de manhas para se chegar a este percentual sobre o valor venal ou agora, virou moda, valor de mercado, arbitrado pela própria prefeitura e que se ela desapropriar não chegará a este valor. E esta complicação se chama Planta Genérica de Valores. Não vou muito longe no exemplo. Um apartamento de 90m2 num mesmo edifício, ou seja, com todas as mesmas características, pode variar o valor do IPTU se ele estiver num andar mais baixo ou mais alto ou se está na frente da rua ou nos fundos. Imagina-se as variáveis de casas completamente uma diferentes das outras, em bairros e ruas com características diferentes. É preciso entender do assunto.
Penso que calcular 0,5% sobre o valor venal resolveria a “complexidade”, pois nele estão avaliados padrão, localização e finalidade.
Aqui em Gaspar , um imóvel avaliado em R$ 150.000,00, com a alíquota de 1%, o imposto é de R$ 1.500,00;
Se a alíquota for de 0,5%, o IPTU CAIRÁ para R$ 750,00.
Lá em Bombinhas, no bairro onde tenho casa, o IPTU é baseado na alíquota de 0,5% sobre o valor venal do imóvel.
Área construída MENOR que 38 m2 fica ISENTO DE IMPOSTO PREDIAL. Minha casa tem 32 m2.
O terreno vale R$ 600.000,00.
Paguei R$ 245,00 de IPTU em 2.026
Lá o boleto da taxa do lixo é ANUAL e vem junto com o IPTU; em 2026 paguei R$ 95,00.
Em Brusque, região central, área nobre, um terreno com 3.500 m2, uns 300 m2 de área construída, alto padrão, o pai dos meus filhos pagou R$ 950,00 de IPTU em 2.025.
Logo, moro no Bateias, a 9 km do centro, com imóvel avaliado em
R$ 150.000,00, com 70% terreno de 3.220 m2 interditado na prefeitura, e o IPTU cobrado é de R$ 1.500,00?
Só ganho desconto por conta da área de mata nativa. Mas é uma novela todo início de ano…
O senhor consegue entender o tamanho da minha INDIGNAÇÃO com a alíquota de 1 e 2% da tributação em Gaspar?
Pena que não dá pra postar fotos.
IPTU Bombinhas 2.025:
Terreno de 308 m2,
R$ 236,26.
Valor com DESCONTO de 30% para BOM PAGADOR, e pagamento em cota única.
Detalhe: rua pavimentada, com calçada, a 900 metros da praia de Bombas; a 1 km de Bombinhas, a 3 km da Lagoinha, e a 4 km da praia da Sepultura ou praia Quatro Ilhas; a 900 m da UPA 24:00; a 400 m da prefeitura, bancos, cartório, supermercado, farmácia, restaurante e padaria;e no raio de 1 km, tem escola, creche, clínica veterinária, salão de beleza e estética, lotérica, shopping, posto de gasolina, oficina elétrica, mecânica, material de construção, delegacia, borracharia, restaurantes, lojas, etc.
Logo, pagar R$ 1.500,00 no Bateias, a 9 km do centro e a 45 km da praia…
👀🥸
Dona Odete
Vivemos num mundo de provas com áudio e imagens e a espetacularização das mídias sociais. Não basta mais a palavra proferida. É, realmente, uma pena que este espaço de reflexão dos leitores e leitoras que não tenho, AINDA, não aceita imagens. Mas, para mim, a sua argumentação lógica tem mais valor.
DEBATE NO STF SOBRE DIPLOMA EM JORNALISMO É TENTATIVA DE DESVIAR FOCO DAS ARBITRARIEDADES, por Malu Gaspar, no jornal O Globo
O caso da matéria do blogueiro Luís Pablo sobre o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares de Flávio Dino poderia não ter passado de um entrevero menor, sobre o qual talvez nem mesmo os maranhenses tomassem conhecimento. Mas a reação do ministro e de seus colegas do Supremo Tribunal Federal (STF) transformou o que poderia ter sido no máximo um processo criminal e a prisão de arapongas locais em assunto de alcance nacional, ao chamar a atenção sobre até onde os “supremos” estão dispostos a ir para se manter à margem da lei.
No último capítulo dessa minissérie de mau gosto, Dino e Alexandre de Moraes defenderam que se reveja o entendimento do próprio Supremo segundo o qual não é preciso ter diploma para exercer o jornalismo. Estabelecida durante a ditadura, a obrigatoriedade do diploma caiu em 2009 depois de um amplo debate que nem vale a pena reproduzir, porque Moraes e Dino não estão nem aí para esse assunto, como suas falas deixam evidente.
Moraes partiu de uma constatação pedestre — “a liberdade de imprensa não é licença para ofender, para praticar crimes” —, para dizer que “hoje nas redes sociais qualquer pessoa começa a ofender a honra de inúmeras pessoas e se escudar na liberdade de imprensa, e claramente nós não podemos normalizar isso”. Como professor de Direito, ele sabe que a lei atual já prevê os crimes de calúnia, injúria e difamação para todo cidadão, com ou sem diploma, que difunda mentiras e desinformação sobre qualquer um.
Dino inovou ao afirmar que a dispensa do diploma “constitui um complicador, na medida em que a extensão automática desse regime de garantias (como o sigilo da fonte) a qualquer blogueiro pode levar a que o PCC e o Comando Vermelho façam concurso para selecionar blogueiros. Teriam cada um 100 blogueiros supostamente protegidos”.
Há uma coleção de falácias embutidas nessa afirmação, mas por ora basta dizer que ter diploma nunca assegurou a ética de jornalista algum. Jornalistas com diploma também se vendem, e comprar profissionais diplomados nunca foi problema nem para PCC nem para Comando Vermelho, que têm à disposição um exército de advogados, além de delegados, juízes e deputados. Com alguns bilhões à disposição, daria para comprar até ministro do Supremo.
Não é difícil de ver que se busca desviar o foco do que realmente importa: as arbitrariedades cometidas por uma ala do Supremo para evitar o escrutínio público, seja pelo uso de um carro oficial ou por um contrato milionário com o autor da maior fraude financeira da História do país.
Daí decorre o segundo objetivo: legitimar a aberração que é o inquérito das fake news, criado há sete anos para criminalizar o jornalismo profissional e intimidar os críticos. Foi por controlar esse inquérito que Moraes assumiu o caso do blogueiro maranhense. E, mesmo depois de duas operações de busca e apreensão, até agora a Polícia Federal não conseguiu encontrar evidências de que ele tenha participado de perseguição ou monitoramento clandestino — crimes com que Moraes justificou a quebra do sigilo da fonte das matérias.
Diante da péssima repercussão desses últimos movimentos, colegas de STF vieram em socorro. Falando num evento em Brasília, o decano Gilmar Mendes escapuliu quando questionado sobre a quebra do sigilo da fonte (“é o fato de todo complexo, houve uma série de crimes, más práticas”), mas fez questão de dizer que defender o impeachment de ministros do Supremo é um “equívoco” e que, se alguém se eleger senador com essa bandeira, “terá imensas dificuldades de implementá-la”, “porque o todo institucional caminhará talvez num outro sentido”.
O presidente da Corte, Edson Fachin, aproveitou o lançamento de uma cartilha sobre remuneração de juízes e penduricalhos para reclamar do “populismo que opera pela erosão das instituições”. Disse que “o Judiciário está aberto à crítica, ao escrutínio público e à correção. Mas não podemos aceitar que a crítica legítima seja substituída por campanhas sistemáticas de descredibilização e menoscabo”.
Segundo ele, é preciso separar o joio do trigo — mas não agora: “Quando joio e trigo crescem juntos, os incautos perguntam se devem logo ser arrancadas as ervas daninhas. A resposta é negativa. Ao arrancar o joio antes da hora, corre-se o risco de arrancar também o trigo. É preciso aguardar a colheita para então separá-los”.
A intenção de Fachin é boa, mas, vinda de quem tenta há meses sem sucesso convencer os colegas a aprovar um mero código de ética, a fala soou como resignada capitulação. É como se as ervas daninhas tivessem crescido tanto que já não se consegue mais extirpá-las. Virou tudo uma coisa só.
Um esclarecimento: o que chama de blogueiro, para desqualificá-lo, é formado, possui diploma e registro profissional. A Justiça pega um sem expressão. Faz método e jurisprudência. Em seguida, por falta de reação, como está havendo tardiamento, vem as grandes empresas jornalísticas e seus medalhões. E aí será tarde para a sociedade que estará silenciada, acocorada, quando não presa como na ditadura militar sob as mais variadas acusações e refém de gente doente.
A BANALIZAÇÃO DA EXCEÇÃO, editorial do jornal O Estado de S. Paulo
É espantosa a tranquilidade com que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vêm defendendo a violação de princípios constitucionais elementares a pretexto de enfrentar ameaças extraordinárias. Há mais de sete anos, o STF mantém aberto um inquérito sigiloso, o das fake news, sob a justificativa de conter ameaças à democracia – seja lá o que isso signifique a esta altura. Na verdade, esse inquérito virou o instrumento de exceção por meio do qual seu relator, o ministro Alexandre de Moraes, pratica toda sorte de arbitrariedades, sob a aquiescência ou o obsequioso silêncio de seus pares e da Procuradoria-Geral da República.
Agora, segundo Moraes e seu colega Flávio Dino, o crime organizado também tem de ser tratado pelo STF como uma ameaça existencial, tal como a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro. De fato, como este jornal já reconheceu neste espaço diversas vezes, as grandes facções criminosas são, sim, um mal a ser combatido com todas as forças a serviço da ordem jurídica e da paz social. Mas não é esse o espírito que anima esta composição do STF. Sua ambição é mais mundana: concentrar um tal grau de poder à margem de qualquer escrutínio público, até mesmo do contraste com a própria Constituição.
Durante sessão da Primeira Turma, anteontem, Dino e Moraes sustentaram em jogral que o crime organizado estaria se valendo da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte para delinquir. Cheios da certeza dos justos, Suas Excelências deram até a receita para debelar esse mal: arrebentar a jurisprudência do STF e restabelecer a exigência de diploma para o exercício do jornalismo.
Espanta que a ministra Cármen Lúcia, que participou do julgamento que em 2009 aboliu essa excrescência da ditadura militar, não tenha pedido a palavra para advertir seus colegas calouros quanto ao despropósito da proposta. Para piorar, o decano Gilmar Mendes, relator daquele caso, alinhou-se aos revisionistas em uma entrevista.
O fim da exigência de diploma para jornalistas – que nada mais é do que um atestado acadêmico, não uma condição jurídica para o exercício da profissão – foi uma justa decisão do STF em prol da liberdade de expressão e do direito à informação. Se o debate de 17 anos atrás foi orientado pelo corporativismo de algumas entidades de classe, dispostas a fechar os jornalistas num clube privé, hoje é o espantalho do crime organizado quem pauta essa discussão bizarra no STF. Já a exigência do diploma para jornalistas segue tão inconstitucional quanto sempre foi.
O assunto, já pacificado, só foi desenterrado porque o STF patrocina há anos a banalização de um estado de exceção permanente ao manter aberto o inquérito das fake news. Em março, para citar apenas um exemplo entre a plêiade de desmandos do sr. Moraes, o ministro ordenou a quebra do sigilo telemático do jornalista Luís Pablo Almeida para chegar à fonte de uma reportagem na qual ele revelou que Dino e sua família usaram um carro do Tribunal de Justiça do Maranhão para seus deslocamentos privados em São Luís. A Polícia Federal afirmou ao STF que não encontrou qualquer indício de que o jornalista tenha cometido crime para realizar sua reportagem. Mas, ainda que houvesse, não se investiga uma suspeita de crime pisoteando garantias fundamentais consagradas pela Lei Maior.
É nesse contexto – vale dizer, Dino apanhado num suposto malfeito graças ao trabalho jornalístico – que se insere essa proposta extemporânea de se voltar a exigir diploma para jornalistas. Dino ainda tentou envernizar seu argumento com uma comparação estapafúrdia entre o jornalismo e a medicina. “Há um objetivo (do sigilo da fonte): acesso à informação, e não à desinformação”, disse o ministro. “E resguardado o sigilo da fonte exatamente em nome do direito à informação, quando necessário ao exercício profissional. Teoria funcional. Porque senão o médico teria liberdade para matar e alegaria sigilo médico.”
É constrangedor, mas este jornal se sente no dever de informar ao ministro que o sigilo da fonte protege a fonte, não exime o jornalista de responder por eventual crime que cometa. Dino recorre a um sofisma travestido de silogismo, e que no fundo só revela o cinismo que passou a grassar na mais alta instância judicial deste país.
MORAES E DINO AVANÇAM CONTRA A LIVRE INFORMAÇÃO, editorial do jornal Folha de S.Paulo
Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, parecem ter dobrado a aposta em maus hábitos e ideias.
Os dois magistrados, não se sabe se de forma espontânea ou combinada, encetaram um diálogo em que defenderam rediscutir a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão —algo que simplesmente não está na pauta do Supremo.
A confabulação foi clara reação às críticas, mais que justas, que Moraes sofreu pela decisão monocrática autorizando buscas e apreensões que fragilizaram a garantia constitucional do sigilo da fonte. O caso envolve Dino, que se abalou de forma desproporcional com uma reportagem sobre suposto mau uso de carro oficial no Maranhão.
Foi para proteger o colega de um alegado crime de perseguição que Moraes resolveu investir contra o princípio da liberdade de informação e de imprensa.
Agora, os dois juízes falaram em reintroduzir um controle estatal sobre quem pode ou não exercer a profissão de jornalista.
É uma atitude completamente inadequada nos métodos. Não cabe a ministros do STF utilizar sua função jurisdicional para difundir mensagens político-corporativistas. Ao célebre “juiz só fala nos autos”, deveríamos acrescentar “e sobre os autos”.
A posição da dupla também é equivocada no mérito. Não foi sem motivos que a corte, numa decisão histórica em 2009, derrubou a exigência de diploma e registro profissional para jornalistas. Oito dos nove ministros que participaram do julgamento entenderam que a norma era incompatível com a Constituição.
Além de recender a autoritarismo, ela violava princípios fundamentais como a liberdade de expressão e de informação e limitava o pluralismo comunicacional.
Ao contrário da medicina e da engenharia, o exercício do jornalismo não envolve saber e protocolos técnicos cuja inobservância coloque em risco a população.
Uma vez que o STF já declarou a exigência inconstitucional, desenvolver um raciocínio jurídico pelo qual ela magicamente se tornaria constitucional será escandaloso. Dois dos atuais ministros da corte, aliás, participaram do entendimento de 2009 —Gilmar Mendes, na condição de relator, e Cármen Lúcia, que apresentaram votos muito consistentes pela derrubada do diploma.
Outro erro grave é o pressuposto de que a certificação acadêmica asseguraria maior aderência às leis e melhor comportamento ético, o que não tem sustentação teórica nem empírica.
Basta observar o que acontece nos tribunais. Exceto pelo STF e pela Justiça Militar, todos os juízes precisam ter diploma de direito, e a grande maioria ainda passa pelo filtro adicional da aprovação em concurso.
Isso não impede que leiamos no noticiário com incômoda constância denúncias de venda de sentenças, conflitos evidentes de interesse ou mesmo envolvimento com corruptores notórios.