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  • Herculano

O MEU 11 DE SETEMBRO DE 2001. REGISTRO



Naquele dia sai cedo de casa para estar antes das 7h no escritório da empresa em Gaspar. Era uma rotina - quem trabalhou comigo sabe que sempre eu chegava antes de todos. Rotina, se à noite não tivesse uma viagem marcada exatamente para Nova Iorque para uma reunião daquelas que me deixava preocupado por dias. Seria em White Plains. Hospedava-me rotineiramente em Manhattan e pegava o trem na Central Station. Distante do sul da ilha.


Naquele tempo, chegar 15 minutos antes do embarque em Navegantes era hábito e aceito. O 11 de Setembro cortou este barato. Fui o que fiz pelo meio da manhã daquele dia.


Viagem de executivo, era de malinha na mão com o computador enfiado dentro dela para não se perder tempo na esteira. Iria à noite por Guarulhos e de lá direto para a reunião, sem motorista esperando no aeroporto e sem reembolso de taxi. Tudo de trem e ônibus. Regras.


Por isso, parte da manhã e da tarde daquele 11 de setembro ainda trabalharia em São Paulo. Não trabalhei. Tentei entender o dia. Como tantos outros.


Desembarquei em Congonhas. Fila do táxi. A notícia era: começou a terceira guerra mundial e o mundo estava acabando. Cético, achei tudo estranho. Entro no táxi, Joelmir Betting e José Paulo de Andrade - ícones do jornalismo de rádio e líderes do horário - como baratas tontas na Bandeirantes - a rádio AM ainda se chamava assim - narravam o que viam na tevê, especulavam, entrevistavam.


Na empresa todos plugados nas telas de commodities, moedas, contratos, fretes e tevês. Reuniões informais se renovando em vários níveis de gestão. A sede mundial da empresa em Nova Iorque era um cofre para uma elite de executivos. Pouco se sabia, mas construíam-se cenários e principalmente de proteção aos negócios. Um exército de consultores externos a opinarem.


A viagem foi cancelada. Tarde da noite fui para o hotel em São Paulo e passei a madrugada atônito ao noticiário das redes internacionais, ainda surpreendidas com tudo, cenas de resgastes, patriotismo, xenofobia, análises contraditórias, histórias particulares de vidas salvas, perdidas e "milagres", pontos comuns de todas as pautas jornalísticas de eventos inesperados como este de proporções até então nunca acontecido.


Na manhã seguinte já estava em Gaspar. E a vida seguiu.


Um mês depois do 11 de setembro, fui a Nova Iorque para a tal reunião. Era outono. Chovia. Clima ameno. Já se tinha um rumo no mundo. Curioso, tentei chegar o mais perto possível. E isso era a muitas quadras das torres gêmeas onde já tinha estado lá, por duas vezes, como mero turista, para ver o que era possível do alcance do topo delas.


Desolação. E a lembrança que tenho daquele outubro de 2001 é daquele cheiro estranho e dos fios de fumaça que teimavam sair dos escombros, e vistos até onde era possível se chegar "perto". Sinistro. Sujo...