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  • Herculano

A EXCLUSÃO E O PODER DA PALAVRA

Artigo de Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial, publicado originalmente no dia 19 de agosto no jornal Folha de S. Paulo.



Antes do artigo da "doutora Cláudia", porém, escolhido entre dezenas que li neste últimos dias sobre o mesmo tema e aberrações, gostaria de escrever que, as declarações e ações governamentais de Gaspar no caso Emerson Antunes, se postas em práticas, deixariam-me fora do mundo de oportunidades.


A caminho do fim da vida, não antevi, por absoluta crença de que este tipo de debate tivesse sido superado, que voltaríamos à escuridão e que ela nos levaria de volta à uma espécie de Caverna de Platão.


A maioria dos meus leitores e leitoras, por exemplo, sem a evolução, nem poderia ter acesso à leitura, ao debate e à difusão do conhecimento para retirá-la das correntes que a prenderia nesta Caverna da ignorância, sob o jugo de alguns sabidos - sabem o que fazem e o resultado que querem - e truculentos.


Ah, mas isso é coisa da direita, do bolsonarismo, dos conservadores, de não sei o quê... Não é! Na esquerda, no progressismo é a mesma coisa, onde o exagero é o mote agressivo e até repressor. É do poder vestido de poderoso, de tudo pode, seja ele sacro, laico ou pagão.


O que se fez em Gaspar via o secretário da Educação, esboçada em opinião clara e pública, na segregação de crianças que podem acessar o ensino privado e as que são obrigadas - por motivos de miséria econômica - se educarem no ensino público, não estava exatamente no espectro bolsonarista, da direita, ou do conservadorismo.


Estava o pensamento torto, ou na falta de algum pensamento, pois o poder de uma pasta de méritos e objetivos tão nobres, foi entregue a um curioso na área, numa dívida política. Simples assim.


Poderia haver algum laço via à religiosidade fundada nas denominações neopentecostais que olha o poder políticos e econômico antes da fé. Mas, que seita é esta que exclui, e renega à interpretação da inclusão, fundamento da palavra bíblica e cristã, onde ato de acolher os fracos para serem fortes e os diferentes serem iguais perante a Deus e à comunidade?


Vamos ao artigo. Fácil de entende-lo, inclusive no exemplo da autora, bem como no desastre daqui. Temos que reaprender a conviver com as diferenças. Precisamos ser plurais, menos exclusivistas Acorda, Gaspar!


Lendo declarações mais ou menos nos termos abaixo, chamou-me a atenção a linguagem utilizada e as inferências que dela podemos fazer: “Criança com deficiência atrapalha a aprendizagem das outras”; ou “Universidade não é para todos... sim, filhinhos de papai são os que mais estão na universidade, mas pagam impostos”; ou ainda “inclusionismo”, palavra usada para justificar nossa crescente exclusão, ou, melhor dizendo, para interromper um esforço insuficiente, mas importante, para enfrentar a falta de equidade em educação.



Quando se diz que escolas devem ser inclusivas, isso significa que devem estar abertas para todas as crianças, com deficiência, típicas, de diferentes etnias ou grupos de renda. Isso é não apenas mais justo como ajuda a construir as bases para uma sociedade mais coesa e próspera. Da mesma maneira, isso, longe de atrapalhar a aprendizagem, enriquece a formação das novas gerações, expondo-as a maior diversidade. Afinal, escola não é só um espaço onde recebemos informações a serem decoradas e repetidas em provas.


Para realizar o imperativo ético de uma escola mais inclusiva, há uma dura lição de casa a ser feita, na forma de investimentos em infraestrutura e em formação de professores e, em especial no ensino superior, no apoio aos estudantes para que enfrentem uma desafiadora adaptação a um ambiente que lhes é, em alguns aspectos, hostil. Mesmo assim, o esforço em implementar as políticas públicas necessárias para que isso ocorra foi realizado com sucesso pela maior parte das nações que contam com bons sistemas educacionais.


Aliás, é isso o que estabelece o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, aprovado por 193 nações, inclusive o Brasil. O texto se refere ao compromisso de “assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade” para todos até 2030. Não se trata, como insinua uma das declarações, de uma “mania de inclusionismo” que estaria sendo adotada por parcelas da “academia”, e sim de um compromisso que assumimos.


Lembrei-me também da exclusão ao ler o noticiário sobre o Afeganistão. Excluir as meninas e as mulheres de acesso à educação ou a inúmeros outros direitos é algo inaceitável.


Em sua primeira entrevista, ao assumir o poder, o Talibã negou que isso vá ocorrer, mas, como bem mostra Levitsky em “Como Morrem as Democracias”, o poder do discurso que convoca à violência extrapola o que fazem diretamente os líderes, algo que vem ocorrendo inclusive no Brasil.


Ao conclamar hostes de seguidores a praticarem exclusão e violência, líderes se responsabilizam pelas tristes consequências de seus atos de fala. A palavra exclui, fere e mata.