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A SESSÃO DA CÂMARA FOI AO MESMO TEMPO PATÉTICA E CHEIA DE SIMBOLISMOS. SEM RESULTADOS REAIS PARA MOSTRAR, TANTO O EXECUTIVO COMO O LEGISLATIVO, PEFERIRAM GASTAR QUASE DUAS HORAS COM CORTINAS DE FUMAÇA PARA ESCONDER À FALTA DE SINTONIA INTERNA E QUE OS OBRIGARAM À UM DRAMÁTICO RECUO DELIBERATIVO

Na semana passada prometi trazer este tema. Fiz a promessa porque sabia que ele não ganharia destaque na mídia formal local, por motivos óbvios. Todos pisando em ovos com medo de perderem as verbinhas-migalhas, serem constrangidos, perseguidos e processados.

O que você não leu na imprensa de Gaspar, todavia, você também não precisa deste blog para ser esclarecido e tomar as suas próprias conclusões. Basta de três horas do seu lazer ou trabalho. Você pode vê-lo e ouvi-lo no site da Câmara por inteiro, se não tirarem a gravação dos arquivos do site. 

Na terça-feira passada, excepcionalmente, repito, a sessão durou três horas. Duas delas, foi para, humilhantemente, a maioria dos vereadores voltarem atrás e apoiar o veto do “delegado prefeito” Paulo Norberto Koerich, PL, ao projeto do vereador petista, Dionísio Luiz Bertoldi. Este PL determinava à colocação de câmeras de vigilância nas escolas e creches de Gaspar. O PL, há três sessões anteriores, havia sido aprovado por unanimidade nesta mesma Câmara. 

A outra parte dessas duas primeiras horas, foi gasta com moções contra o Abril Vermelho do MST (note-se que a moção reativa, sem notícias de invasões em Santa Catarina, foi apresentada e aprovada em seis de maio. Gente atenta, deveria ter apresentado este tema em março) e contra a obrigatoriedade da vacinação na proteção de crianças à Covid matriculadas em escolas e creches de Gaspar. Esta determinação é Federal. Está na política de prevenção a doenças. 

E qual foi o teatro? O Conselho Tutelar de Gaspar apareceu lá. Determinado e técnico, enfrentou uma claque mobilizada, organizada de negacionistas e incomodada diante das ações funcionais do Conselho. Inutilmente, de forma didática, ele se esforçou em provar que ele não é o bandido dessa história como quer fazer crer uma parcela de pais bolsonaristas e de direita radical gasparense ainda sem resultados administrativos para a cidade. Trato disso lá no TRAPICHE

Esta segunda parte pastelão tic-tac aconteceu para esconder à primeira parte da sessão pastel. E tudo com a colaboração do presidente, Alexsandro Burnier, PL, sem capacidade para fazer cumprir o Regimento Interno e a Lei Orgânica. Tanto que ele foi chamado às puas, duas vezes – uma em uma questão de ordem e a outra, no pronunciamento na tribuna pelo mais longevo dos vereadores, José Hilário Melato, PP. Ele, inclusive, chegou a se levantar da sua cadeira do plenário demonstrando desconforto incomodado com o assalto à liberdade de expressão exercida pelo grupo, inclusive ao posicionamento da vereadora Mara Lúcia Xavier da Costa dos Santos, PP.

O VETO I

Não vou entrar no mérito do Projeto do vereador Dionísio, a postura do governo de Paulo e do seu vice multi-titulado Rodrigo Boeing Althoff, também PL. A sessão-comício teve apenas dois discursos coerentes e que lavaram a minha alma mais uma vez, pois escrevi exatamente isso dias atrás: o do vereador Ciro André Quintino, MDB, um dos que voltou atrás no voto, mas segundo ele, “para dar uma segunda chance ao atual governo“. Credo! “Somos poderes independentes, mas está faltando uma conversa entre o presidente [Alexsandro] e o prefeito [Paulo] para alinhar as prioridades“. E está. Toda a cidade sabe disso e não é de hoje. Já escrevi isso dezenas de vezes. Ou é teimosia ou burrice. Convergências e mudanças para a cidade, até o momento: zero

A outra intervenção foi de Giovano Borges, PSD, outro que voltou atrás nos votos. Ele disse que o chefe de gabinete, Pedro Inácio Bornhausen, PP, que foi chefe de gabinete de Kleber Edson Wan Dall, MDB, ou seja, sinal claro de que nada mudou e possivelmente nada mudará, ainda não disse a que veio na função de intermediação política do governo com a Câmara. Bingo. Toda a cidade sabe disso e não é de hoje. Já escrevi isso dezenas de vezes. Ou é teimosia ou burrice. Convergências e mudanças para a cidade, até o momento: zero.

VETO II

A origem dos problemas de relacionamento está dentro do próprio governo de Paulo e Rodrigo; está na falta de identidade do governo; está na incapacidade de liderar os processos e principalmente de se articular politicamente; está na dificuldade de se comunicar entre eles próprios, controlar os vazamentos que negam, mas que se confirmam em seguida. 

E para complicar, há fogo amigo. Ele agora, até faz textos apócrifos, bem elaborados e os distribui nas redes sociais para acusar e constranger os seus. Cruzes. Gente valente que age anonimamente. Tudo para se livrar da responsabilidade, do enfrentamento, de processos, dos riscos, do diálogo, da convergência e da solução. É um governo que vive de fofocas e rasteiras, não exatamente contra a suposta oposição – e que no fundo será só contra o PT, seja quem for o vereador que represente o partido em Gaspar -, mas no seu próprio ninho. Incrível esta perda de tempo. Bolsonaro era assim. Falta-lhes, nestes primeiros cinco meses de governo, de verdade, resultados. Então dá-lhe fumaça preta. O Vaticano em dois dias resolveu o assunto. Então, aprendizado, zero.

Tudo começou quando o governo, o PL e o União Brasil escolheram Alexsandro, o campeão de votos, e só por essa condição, como presidente da Câmara. O Executivo ficou mais fraco. E a majoritária oposição centrista (MDB, PP, PSD) comemorou a manobra errática dos bruxos que rodeiam o “novo” governo. 

Resultado: um presidente sem experiência para o primeiro e crucial ano de governo no trato político e conhecimento da gestão de um poder essencialmente político. Um vereador em crise, que não desceu ainda do palanque, porque acha que vai ser candidato a deputado estadual. Agora, na situação, sem porrete fácil na mão contra o governo Kleber. Está perdido. Se não vestiu a liturgia de presidente, voltou a ser vereador falador na tribuna.

Se antes o governo de Paulo e Rodrigo dependia de um voto minerva de um presidente numa composição partidária, agora ele depende de dois votos da oposição para passar qualquer matéria polêmica e se tudo der certo com os seus, os quais vivem batendo cabeça entre eles. E a oposição centrista (MDB, PP e PSD) conseguiu se aproveitar desta dependência na última sessão quando Paulo precisou manter seu veto oriundo exclusivamente de um cochilo dos seus na Câmara. A oposição centrista – a então Bancada do Amém de Kleber -, com a parte mais esperta e experimentada, deu um “voto de confiança” ao “novo” governo. Senhas perfeitas.

VETO III

Sem um presidente da Câmara articulador – ninguém quer que ele seja um Júlio Garcia, PSD, por exemplo -; sem um chefe de gabinete trabalhando com as prioridades do governo e harmonizando as demandas espinhosas na Câmara; sem uma líder de governo capaz de colocar panos quentes nos pontos nevrálgicos mas que preferiu perigosamente um processo de desmoralização contra quem lhe pode ajudar com votos no Legislativo;  sem ter a quem recorrer, o governo de Paulo e Rodrigo caiu como um patinho nesta rede que dominou o governo de Kleber e que Paulo e Rodrigo juraram, para ganhar as eleições, que mudariam. 

Por outro lado, os que capturaram o prefeito Paulo e os atuais donos do poder de plantão nesta rede, mostraram, ao mesmo tempo, de que Paulo não depende mais dos seus ideológicos, atabalhoados e ou dos que pensam individualmente no sistema de poder. Ao mesmo tempo, os que foram em socorro do veto do prefeito Paulo, desmoralizaram a própria líder de governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL. Ela os acusou, há bem poucos dias, de estarem apenas em busca de empregos para os seus na prefeitura e não exatamente para melhorar e mudar Gaspar. Impressionante o tamanho da invertida e do erro tático.

Por isso, foi constrangedor ver o vídeo dela com esta fala dita dias antes na própria Câmara. Este vídeo foi repetido na terça-feira no telão Câmara pelo vereador Dionísio após ser derrotado na votação do veto. Mais cedo do que se esperava, Alyne vai se tornando o que foi Francisco Solano Anhaia, MDB, para o governo Kleber e Marcelo de Souza Brick, PP. Em pouco tempo, se continuar assim, perderá também o crédito e como uma biruta, ficará disponível ao vento que sopra e das tempestades que se armam do gabinete do prefeito Paulo e na Câmara.

O apetite desse tipo de acordo – para garantir um veto quando não se tem uma bancada majoritária e fiel -, normalmente, se conhece lendo o Diário Oficial dos Municípios, seja pelo que se indica, ou por quem deveria ser trocado, para mudar, e não sai. Então o atual governo, cada vez, mais, parece ser a continuidade do que passou, o qual foi retirado amplamente nos votos pelos eleitores e eleitoras de Gaspar.

O VETO IV

Como escrevi, não vou entrar no mérito do veto contra o projeto que instituía à obrigatoriedade das câmeras em escolas e creches municipais em Gaspar. Ora, se há uma equipe técnica na Câmara para produzir pareceres técnicos – incluindo o da constitucionalidade das matérias que vão à votação -, ela foi simplesmente, humilhada. Esses técnicos, provou o Executivo, são perfeitamente dispensáveis. Tragam o procurador geral do município no lugar deles. E nesta vala comum entraram as três comissões temáticas da Câmara, incluindo a líder do governo de Paulo e Rodrigo, Alyne, graduada em direito, que preside a principal delas: a de Legislação, Justiça, Cidadania e Redação. Votou. Aplaudiu. Resistiu. Ao final, voltou atrás, com autoridade e sem medo de ser feliz.

E seu erro não começou exatamente naquilo que tramitou na Câmara com pareceres favoráveis de todos os lados – inclusive os dela em Comissão permanente e na unanimidade de votos, incluindo o dela – pela tramitação e aprovação do Projeto de Lei, mas à falta do exercício efetivo dela como uma líder do governo, proativamente, ainda mais, sabedora confessa, de que há um chefe de gabinete do Executivo reativo, e que pelo jeito, sequer abre o site da Câmara. 

Alyne não comunicou o que se passava na Câmara. Tão pouco, dissociada, conferiu com aquilo que já estava sendo feito dentro do próprio governo: a efetiva instalação das câmeras nas escolas e creches pela secretaria de Educação, a qual estava se antecipando e resolvendo um problema, exatamente para o governo não passar por este vexame. E mesmo assim o governo conseguiu se superar outra vez: o de criar o vexame. I-na-cre-di-tá-vel!

Os quatro votos contrários foram do relator original do Projeto de Lei, Carlos Francisco Bornhausen, MDB e pela coerência não podia ser diferente; do autor do PL, o vereador Dionísio; do vereador Roni Jean Muller, MDB, o que mostra de que pode não estar na mesma balaia de acertos centrista pois ele é um dos que está na mira da CPI do capim seco; bem como a de Thimoti Thiago Deschamps, do União Brasil e supostamente da base do governo. Para manter o seu voto, Thimoti se escudou nos pareceres de constitucionalidades de técnicos sobre a matéria. Eram esses pareceres e a orientação favorável da líder de governo à tramitação, aprovação unânime, além do que a secretaria de Educação já tinha cumprido o que pedia o PL instalando as Câmeras. 

E aí que o fogo amigo no parquinho dos radicais que cercam o governo de Paulo e Rodrigo, começa, alastra-se e fragiliza todos do governo. I-na-cre-di-tá-vel! Conhecidos os resultados desta votação, vários memes logo se espalharam pelos aplicativos de mensagens. 

Um associava Thimoti – e está – ao vice Rodrigo e tratava ambos como traidores. Sem comentários. No fundo, essa gente não sabe perder. Não consegue respeitar à divergente opinião alheia. O outro meme pegava uma foto de Carlos Bornhausen com o mesmo Rodrigo, em associação semelhante para supostamente estarem armando complôs. 

No fundo o que é isto? Tudo para esconder erros, patetas e patetices na tramitação de um Projeto de Lei onde o governo errou a mão, custou-lhe caro sob vários aspectos, causou confusão, criou armações ilimitadas, quis mitigar inventando inimigos ocultos, tudo para se livrar das cobranças de falta de resultados efetivos para a cidade. Nem mais, nem menos. Gente perigosa. Muda, Gaspar!

TRAPICHE

O Ministério Público de Gaspar que cuida dos assuntos de família, infância e adolescência precisa também se interessar mais por este assunto. A parte dos negacionistas que sustenta o governo do “delegado prefeito” Paulo Norberto Koerich e do engenheiro multi-tulado Rodrigo Boeing Althoff, ambos PL, bem como parte da sua minoritária bancada na Câmara, que inclui o presidente Alexsandro Burnier, PL, e a líder de governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, estão desqualificando o Conselho Tutelar de Gaspar, por ele, simplesmente, não prevaricar, não se subordinar política partidária ou ideológica e administrativamente ao poder de plantão e estar notificando os casos de pais que se recusam a cumprir o Plano Nacional de Imunização, uma determinação federal, que nada tem a ver com Gaspar, mas que manda as crianças tomarem a vacina da Covid.

Ora, o Conselho Tutelar, com cinco integrantes eleitos pela comunidade, não age sem que haja denúncias e em multicasos tipificados em legislação própria de proteção à proteção familiar. E quem faz estas denúncias, nos casos das vacinas, principalmente? A secretaria de Saúde do município e a secretaria de Educação. Não exatamente porque essas secretarias querem. E sim, porque existe um protocolo obrigatório para isto nas matrículas nos educandários brasileiros e que penaliza quem sonegar estas informações e não denunciar aos órgãos competentes de fiscalização. É difícil compreender isso?.

Os negacionistas, travestidos de cientistas e de pais contrários a determinação legal ignoram isto em fóruns que sabem serem impróprios. Estavam lá, convocados por redes sociais e aplicativos de mensagens para constranger, passar corretivos, sob a aquiescência do presidente da Câmara, à representante do Conselho Tutelar de Gaspar, Érica Jussara Monteiro Marques. Ela foi didática. Não se abalou. Nem mesmo quando a líder do governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, sem argumentos técnicos, quis imputar ao Conselho de Gaspar uma ação política reiterada de esquerda na suposta perseguição aos pais contrários ao que determina o PNI. Érica já foi candidata a vereadora pelo PT.

Se há ideologização neste assunto é na direita, infelizmente. Passados cinco anos da criação da vacina contra a Covid e sem dados científicos que refutam os supostos males que elas possam causar aos humanos e só contra ela, os bolsonaristas continuam contra. As demais vacinas, com a mesma origem de proteção e propagação vírus na população, exatamente quando estamos com leitos de UTI estão criticamente tomados na nossa região pelas doenças respiratórias, estranhamente, eles não entram neste confronto tão aberto. Consequentemente com esse descrédito sistemático, o sistema vacinal como um todo, é perigosamente afetado por esse tipo desconfiança e guerra ideológica.

Ah, mas os pais sabem o que é melhor para os seus filhos. Talvez, se assumirem os riscos e não culpassem os hospitais pelas fatalidades que a ciência já gastou anos e bilhões de dólares para nos salvar e aos nossos filhos. Mas, o problema não é este. É o senso de cidadania e responsabilidade coletiva que está em jogo. Cada criança, se adoecida, é uma contaminante potencial de outras nas creches, nas escolas e em casa, as vezes com vulneráveis. É este ciclo de contaminação que se quer cortar com a política de vacinação preventiva e em massa. Evitar gastos com internações, remédios, sequelas e até mortes não dos filhos de pais negacionistas, mas de outros.

Isto me lembra, só para citar um exemplo, mas há outros como o de não fumar em ambientes comuns: a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança em veículos automotores, ou capacete para motoqueiros. “O estado não pode dizer o que eu devo fazer“, argumentava na época a gabola esquerda festiva nos meios de comunicação dominada por ela num tempo que não havia redes sociais e aplicativos de mensagens. Ok. Mas, o Estado, com os nossos pesados impostos – que deveriam ir para outras prioridades – é quem paga à cara recuperação do acidentado, a pensão por incapacidade, a morte, quando tudo isso pode ser evitado ou mitigado com o simples uso de um cinto de segurança ou capacete. Hoje, alguém possui dúvidas que cinto de segurança e capacete salvam vidas?

E por derradeiro. Na sessão constrangimento que perdurou até quando a representante do Conselho não tinha mais condição legal de voz e contraponto, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, insinuou que o Conselho Tutelar de Gaspar é um núcleo para palanque político de esquerda e que ele deveria ser neutro. Ótimo. Se a tese da líder de governo estiver correta, podemos dizer que a Polícia Civil de Gaspar é um núcleo para palanque da direita e que ele deveria ser neutro?

Foram como policiais, usando a imagem e a prestação de serviços da instituição que o delegado Paulo Norberto Koerich e Alyne Karla Serafim Nicoletti, ambos do PL de Jair Messias Bolsonaro, foram reconhecidos e eleitos. Existe algum mal nisso? Por que para uns uma instituição é um pecado mortal e para os mesmos outra não é no mesmo argumento? O governo de Gaspar está sem resultados e precisa dessas discussões estéreis, com os seus mais radicais, antes que eles abram os olhos e comecem a cobrança para valer de resultados pela cidade. Então criam cortinas de fumaçasTodas pretas. Mas, isto tem um prazo de validade. Por que os extremistas não chamam o Ministério Público para dançar neste caso das vacinas que é quem ao final está enquadrando os mais cientistas? Muda, Gaspar!

O Conclave I. Talvez seja a única vez na história deste século – e de outros – que um gasparense tenha participado do Conclave e dos segredos papais na Capela Sistina, em Roma, para a escolha de um Papa: o americano peruano Leão XIV. Não vejo esta comemoração histórica entre nós no fato em si e no voto – não se sabe em quem, exatamente – do cardeal Dom Jaime Spengler, gasparense do Poço Grande, arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Uma pena.

O Conclave II. Odir Barni foi contador da prefeitura de Gaspar e fundador do Sindicado dos Trabalhadores no Serviço Público de Gaspar, o Sintraspug. Também foi professor de contabilidade pública no Colégio Frei Godofredo. O fato que ele conta, aconteceu em 1986. Jaime Spengler, trabalhava nas Linhas Círculo. Era tímido. Num certo dia, ao chamar o aluno assíduo, notou à sua ausência. Mais tarde, o diretor do Colégio, Francisco Hostins (ex-vereador e prefeito), já falecido e também católico fervoroso, acompanhou o aluno Jaime à sala para a despedida e explicações da sua escolha. Tinha decidido mudar de rumo na sua vida e seguir à vocação de ser padre. Ia embora de Gaspar, para sempre.

Voltando ao mundo do diabo. O vereador Dionísio Luiz Bertoldi, PT, quando viu a virada contra o seu projeto, perdeu também a criatividade. Disse que estava de volta a Bancada do Amém Dois. Dois fatos: não é verdade até porque este rótulo fui eu quem criei; além disso, dependendo de como se dará esta configuração, teremos então, a Bancada Abacaxi, ou seja, feia por fora e normalmente, gostosa por dentro.

Nas discussões sobre o veto, é dada como certa a criação da Guarda Municipal Armada em Gaspar, mesmo quando todos no “novo” governo de Gaspar reclamando da falta de dinheiro no caixa da prefeitura, ou do povo chiando do mau atendimento no Pronto Socorro do Hospital, dos postinhos de saúde, da falta de turnos integrais, salas de aulas e contraturno, roçagem que adentra o quinto mês sem a execução e principalmente a falta simples de agentes da Ditran para organizar o trânsito e reimplantação da Área Azul, tema do segundo dia de governo de Paulo Norberto Koerich e Rodrigo Boeing Althoff, ambos PL, e até agora, paralisado na burocracia da prefeitura.

Os partidos vão escolher os novos diretórios municipais. O MDB de Gaspar marcou para o sábado a sua convenção. Mesmo estraçalhado pela sucessão de erros e envelhecido na renovação, haverá disputa: o ex-vereador e secretário municipal Celso de Oliveira, encarna o tradicional. E o vereador Ciro André Quintino, marqueteia de Florianópolis, incluindo recursos para eleitores, para obter o espólio da massa falida por Kleber Edson Wan Dall, MDB, e seus “çábios”. Qualquer resultado trará consequências no alinhamento e desalinhamento aos que usaram o MDB de Gaspar.

Outra prova da falta do que mostrar. Nas redes sociais, o “delegado prefeito” Paulo Norberto Koerich, PL, trombeteia: “Gaspar conquista o 6º lugar em geração de empregos em SC“. O ex-prefeito Kleber Edson Wan Dall, MDB, fazia exatamente isso. Nem o ex e nem o atual foram capazes de apontar o que fizeram para este resultado. Tudo que gera novos empregos é investimento privado e alguns deles, sob insegurança jurídico-legislativa (Plano diretor desatualizado, por exemplo), ou então falta de suporte na infraestrutura (como mobilidade, capacitação, creches em tempo integral, sistemas de proteção…).

O que é feita da CPI do Capim Seco? Ninguém viu. Ninguém sabe. E como no caso do veto da semana passada. Tudo corre para ser empacotado para não faltar votos na Câmara. Vai ficar como a polícia de Blumenau especializada em corrupção levantou para o Ministério Público levar adiante ou não, o caso.

Credo. Então quer dizer que o metro quadrado da disputada Expointer de Esteio, no Rio Grande do Sul, custa R$95,00 para o abrigo de animais e na ExpoGaspar, a que está a cata de expositores, R$100,00? Até agora, ninguém se interessou. Cada vez mais, esta área, por seus bruxos, prova à sua inutilidade. Era previsível.

Perguntar não ofende: o que foi feito da peitada da líder de governo, Alyne Karla Serafim Nicoletti, PL, contra a diretora do Hospital de Gaspar Aline Cristiane Deichmann da Cruz no plenário da Câmara há duas semanas e que a apontou como o centro do mal de tudo que acontece por lá? E depois dizem que eu sou exagerado e descuidado. Está gravado.

Pois é. Estão brincando com fogo, sentimentos e resistindo à realidades. Novamente uma morte no Hospital ganha as manchetes. E muitas explicações oficiais, mais uma vez, de quem não deveria se explicar. Vocês acham que eu vou repetir o que já escrevi aqui tantas vezes sobre este assunto? Não! Vou me limitar, desta vez, a republicar o artigo do pai, advogado, ex-procurador geral do município (2005/08) e graduado em Gestão Pública pela Udesc, Aurélio Marcos de Souza, originalmente publicado nas suas redes sociais dele. Impecável! Boa Semana. Se der, vem mais um artigo esta semana.

O SUPER-HERÓI NÃO VEIO

Era só uma criança.
Tinha uma bicicleta, um sorriso fácil e um mundo inteiro para descobrir.
Caiu. Como todas as crianças caem.
Levantou, como os pequenos sempre fazem.
Mas algo dentro dela não estava bem.

Foi levada ao hospital do município.
O quadro piorou.
Os pais, desesperados, conseguiram um leito especializado em outra cidade.
Faltava apenas o transporte.
Uma ambulância. Uma ajuda. Uma mão estendida.

Eles pediram. Gritaram. Imploraram.
Foram atrás das autoridades, dos que se dizem representantes do povo.
Chamaram um dos “heróis” da Liga da Justiça da vida real — aquele que aperta mãos em época de eleição e promete estar sempre presente.
Mas o herói não veio.
A capa não apareceu.
A resposta não chegou
.

Veio apenas o silêncio.
E depois, a morte.

Agora, resta um quarto vazio.
Uma bicicleta parada.
Um brinquedo que não será mais tocado.
Um pai destruído.
Uma mãe em pedaços.
Um avô sem seu neto.
Uma família, sem chão
.

E então surgiram os rostos indignados, as notas de pesar, os discursos emocionados.
Mas tudo isso vem depois.
Depois que o sangue já esfriou, depois que o corpo já foi enterrado.
Depois que o povo já chorou.

O jogo de empurra começa.
Ninguém assume. Ninguém responde.
Todos se esquivam.

Mas você que lê, pense bem:
E se fosse seu filho?
Seu neto?
Seu sobrinho?
Seu pequeno?

Não espere a tragédia bater na sua porta para perceber:
Estamos à mercê da sorte.
À espera de um herói que nunca vem.
E no fim, tudo o que aparece…
São apenas lamentações.

E agora, o Dia das Mães se aproxima.
Para muitas, será dia de flores, abraços e comemorações.
Mas para ela… será o silêncio mais cruel.

Porque nenhuma mãe deveria enterrar seu filho.
Nenhuma mãe deveria implorar por socorro e ser ignorada.
Nenhuma mãe deveria ter que sobreviver à ausência do seu pequeno.

Ela não quer homenagens.
Ela queria o filho de volta.

Essa mãe vai olhar para a bicicleta parada, para os brinquedos esquecidos.
E vai sentir a dor de um amor que continua — mesmo quando o filho já se foi.
Não há superpoder que repare isso.
Não há desculpa que acalente esse vazio.

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9 comentários em “A SESSÃO DA CÂMARA FOI AO MESMO TEMPO PATÉTICA E CHEIA DE SIMBOLISMOS. SEM RESULTADOS REAIS PARA MOSTRAR, TANTO O EXECUTIVO COMO O LEGISLATIVO, PEFERIRAM GASTAR QUASE DUAS HORAS COM CORTINAS DE FUMAÇA PARA ESCONDER À FALTA DE SINTONIA INTERNA E QUE OS OBRIGARAM À UM DRAMÁTICO RECUO DELIBERATIVO”

  1. SENSO DO RIDÍCULO, por Willian Waack, no jornal O Estado de S. Paulo

    Lula parece ter desenvolvido certa intimidade com os homens fortes que mais corteja no momento, Vladimir Putin e Xi Jinping. Aos quais passou a dar conselhos e pedir ajuda pessoal.

    O conselho foi dado por telefone para Vladimir Putin, sobre como deveria se comportar em negociações de paz nas quais o homem forte de Moscou demonstra pouco interesse.

    A ajuda foi solicitada a Xi Jinping: mandar alguém da confiança do imperador chinês ao Brasil para tratar da regulação de uma plataforma, o TikTok, à qual a mulher de Lula atribui importante atuação em favor de direitistas. Não há dúvidas de que, em matéria de controle de redes sociais, os chineses têm enorme expertise.

    Em outras palavras, o chefe de Estado de um país democrático vai pedir ao autocrata chefe de Estado de um país que vive sob o regime de partido único o empréstimo de especialista em controle de plataforma digital. Nesse contexto, é óbvio que “regular” virou sinônimo de “censurar”.

    Lula parece ter perdido de fato a noção do seu peso relativo no cenário das relações internacionais e do que significa pedir ajuda a um especialista chinês em controle de redes sociais. Do ponto de vista internacional, Lula supõe ter voz em acontecimentos de grande alcance quando nem sequer é capaz de influenciar o cenário mais próximo, o da América do Sul.

    Gestos, palavras e posturas de chefes de Estado de países como o Brasil criam fatos políticos, e os que Lula criou em Moscou e Pequim cabem na famosa categoria de tiro no próprio pé. Em Moscou e Pequim Lula assumiu um lado no grande confronto geopolítico atual, apesar de dizer o contrário.

    Não percebeu que, para o Brasil, a neutralidade pragmática tem mais inteligência estratégica embutida do que assumir, como fez na prática nas duas capitais, que o Brasil tem um “lado” nesse perigoso confronto que acompanha a dissolução da ordem internacional.

    Do ponto de vista doméstico, embaralhou uma discussão já complicada envolvendo Legislativo e STF sobre a regulação de redes sociais. Há exemplos de países democráticos (como a Alemanha, o mais conhecido deles) que contêm dispositivos constitucionais cerceando a liberdade de divulgação de determinados símbolos e conteúdos políticos (no caso, nazistas).

    Há um considerável esforço internacional, envolvendo algumas das melhores cabeças no campo do Direito, para estabelecer que mecanismos permitiriam garantir o direito fundamental de opinião e bloquear nas redes conteúdos criminosos e repulsivos. A China é um exemplo de censura, não de regulação.

    O problema com a perda de noção é o de ser acompanhada pela perda do senso de ridículo.

  2. A MÁ-FÉ “ESTRATÉGICA” DE LULA EM PEQUIM, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    A visita do presidente Lula da Silva à China foi marcada por anúncios comerciais relevantes: a promessa de R$ 27 bilhões em investimentos, acordos nas áreas de semicondutores, energia e infraestrutura, além da abertura de mercado para produtos do agro brasileiro. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, e encontros de alto nível são cruciais a uma estratégia de inserção internacional. Nesse sentido, a passagem de Lula por Pequim não pode ser confundida com sua aparição na Praça Vermelha ao lado de Vladimir Putin e seus comparsas ditadores – um episódio que manchou a diplomacia brasileira associando-a a uma celebração imperialista em meio à agressão à Ucrânia.

    No entanto, é precisamente pela relevância da relação com a China que se exige do chefe de Estado brasileiro uma conduta madura, guiada por interesses nacionais, e não fetiches ideológicos. Lula, mais uma vez, falhou nesse teste. Sua visita foi marcada por declarações e gestos que extrapolam a esfera da cooperação pragmática e o colocam como entusiasta de uma aproximação geopolítica com a China, inspirada por motivações partidárias, em detrimento da equidistância diplomática característica do Itamaraty.

    A afinidade do lulopetismo com o regime chinês e outras experiências autocráticas não é nova. Mas, na atual conjuntura, ela se torna ainda mais preocupante. Reiteradamente, Lula tem feito provocações gratuitas aos EUA, como quando declarou, aludindo às políticas tarifárias de Donald Trump, que Brasil e China estão “determinados a unir suas vozes contra o protecionismo e o unilateralismo”, como se ambos os países fossem baluartes do livre comércio. O petista foi além, ao comparar suas vitórias eleitorais à revolução comunista de 1949, violentando, por ignorância ou má-fé, o fato histórico de que os avanços socioeconômicos da China vieram da ruptura com a tirania homicida de Mao Tsé-tung e da liberalização do mercado sob Deng Xiaoping. O constrangedor episódio em que a primeira-dama Janja da Silva interpelou Xi Jinping, sugerindo enviesamento do TikTok contra a esquerda, é um emblema caricato desse voluntarismo trapalhão que permeia a diplomacia presidencial.

    Lula disfarça seu alinhamento a Pequim sob o manto de um pragmatismo virtuoso: garantir investimentos e acesso ao mercado chinês. É uma inversão da realidade. A verdade é que Lula utiliza os negócios como pretexto para satisfazer suas inclinações ideológicas e ambições pessoais. O comércio Brasil-China cresceu exponencialmente nas últimas duas décadas sob governos de diferentes matizes, inclusive sob Jair Bolsonaro e suas invectivas contra Pequim. Além disso, países como EUA, Índia, Japão e até Taiwan mantêm com a China relações comerciais robustas, a despeito de profundas rivalidades geopolíticas. A Índia, aliás, é exemplo de pragmatismo que o Brasil faria bem em emular: coopera com a China quando lhe convém, mas preserva sua soberania estratégica e não se alinha automaticamente a nenhum polo.

    O Brasil não precisa bajular ditaduras para vender soja, carne ou minério. Acima de tudo, não precisa recorrer ao ditador Xi Jinping para discutir a regulação das redes sociais, como fez Lula de forma desconcertante, desdenhando dos princípios constitucionais de liberdade de expressão e separação entre os Poderes.

    Diante da polarização entre China e EUA, o Brasil tem todas as condições de adotar uma postura independente e propositiva. Nosso histórico pacífico, a qualidade de nossos quadros diplomáticos, nossa importância ambiental e o peso de nossa economia nos conferem credenciais para atuar como voz moderadora e construtiva. Mas, para isso, é necessário que a diplomacia sirva ao interesse do Estado brasileiro – não às idiossincrasias de um líder obcecado por glórias internacionais.

    Lula, em vez de liderar o Brasil com sobriedade em um mundo multipolar, arrisca transformá-lo em satélite de uma autocracia. Ao fazê-lo, trai a tradição do Itamaraty, pisoteia valores inscritos na Constituição, como a primazia da democracia e dos direitos humanos, e arrisca alienar parceiros do Ocidente. Os negócios com a China são bem-vindos. A subserviência, não.

  3. CONGRESSO INVENTA INIMIGOS IMAGINÁRIOS, por Raphael Di Cunto, no jornal Folha de S. Paulo

    A imunidade parlamentar existe desde a primeira Constituição brasileira. Em 1824, a Monarquia já determinava que deputados e senadores não seriam presos “por autoridade alguma”, salvo com aval do próprio Legislativo ou se pegos em flagrante delito de pena capital.

    Cada deputado e senador representa milhares de pessoas, e essas vozes não podem ser caladas por enfrentarem outras autoridades, criminosos ou o poderio financeiro. É uma prerrogativa valiosíssima, especialmente em relação à liberdade de opinião e em regimes de exceção, como na ditadura militar.

    “Naqueles tempos se justificava a imunidade. Era a maneira de entrarmos numa dependência do Dops sabendo que de lá poderíamos sair”, contou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) na sessão da Câmara que alterou pela última vez a imunidade.

    Era 2001, e o Congresso buscava melhorar sua imagem ao autorizar que parlamentares fossem processados por crimes comuns. Até então, era preciso autorização prévia do Legislativo —mas alguém deve ter perdido a chave da gaveta, já que os pedidos nunca saiam dali.

    Atento à opinião pública, o Congresso se preocupava mais em ouvir a voz das ruas do que em mandar recadinhos para o STF sobre seu desconforto com a transparência do dinheiro público e com investigações contra suspeitos de condutas ilegais.

    O cenário mudou pós-Lava Jato e renascimento da direita. Há quatro anos, a Câmara quis proibir a prisão por decisão individual dos ministros do STF e impedir operações nos gabinetes. Agora, 315 deputados votaram para trancar a ação contra um colega e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe.

    O aumento da influência do PCC sobre o poder público desaconselha esses privilégios, mas não é preciso prever o futuro, basta lembrar do passado. Pelo menos quatro deputados já se envolveram, recentemente, em assassinatos, como Flordelis, Hildebrando Pascoal (o deputado da motosserra) e Chiquinho Brazão. É isso que o Congresso quer proteger?

  4. O PT REPETE O SCRIPT QUE QUASE O DESTRUIU, por Wilson Gomes, no jornal Folha de S. Paulo

    Diferentemente dos últimos governos —inclusive, mas não só, os do PT—, a administração Lula tem enfrentado vários tipos de crises, mas não acusações de corrupção ou de negligência em episódios de desvio de recursos públicos. Nosso justificado pessimismo com os padrões morais da política não deve nos impedir de reconhecer isso.

    Mas agora, com a descoberta de quadrilhas mancomunadas com funcionários públicos desviando parte da aposentadoria de velhinhos há anos, impunemente, o nível da crise mudou. Roubar a bolsa do órfão e da viúva é indignidade que ofende qualquer um com o mínimo de decência.

    Saber que o governo não só fracassou em impedir como também demorou a agir, mesmo alertado, é politicamente indesculpável. E, obviamente, é tarde demais para dizer que não sabia ou que não podia ter feito algo para impedir que bilhões fossem desviados em seu turno de guarda.

    Demorou para o governo entender que o escândalo do INSS é uma bomba política. E é curioso como ainda há quem ache que isso pode não afetar a imagem de um governo que já se encontra em seu pior momento. Agora, vem o corre-corre.

    O ministro da Casa Civil responsabilizou a Controladoria-Geral da União por não emitir os alertas em tempo e com a gravidade merecida. O ministro da CGU, por sua vez, recorreu a um vídeo para minimizar o escândalo, acusar os críticos de espalharem fake news e elogiar o rigor de Lula na apuração. O fato é que, até agora, duas demissões depois, ninguém no governo assumiu qualquer responsabilidade por inação ou conluio.

    Sem falar nas respostas que beiram o absurdo, como a alegação de que o governo, por meio da (sua?) Polícia Federal, foi quem desbaratou uma operação que atravessou todo o mandato de Lula. Ou a cartilha de 30 páginas —acreditem—, em papel, distribuída pela liderança do PT na Câmara com o título “Desmentido Nikolas Ferreira”. Sim, o PT veio com uma cartilha impressa para uma luta de reels de 15 segundos.

    O que se viu até aqui foi a repetição do velho padrão que quase destruiu o PT em gestões passadas. Em vez de reconhecer a gravidade dos fatos e reagir com compromisso com apuração e responsabilização, o governo recorre à fórmula de sempre: negação de responsabilidade, transferência de culpa, autoelogio, ataque aos críticos.

    Conhecemos esse roteiro, e ele tem dois problemas. Primeiro, é a resposta mais previsível e, por isso mesmo, a de menor credibilidade. O PT sempre nega culpa, responsabilidade ou gravidade, enquanto se autoelogia e ataca a credibilidade dos críticos —e não se afastou uma vírgula desse script neste caso. Segundo, esse tipo de resposta preguiçosa e automática é lido como cinismo e irrita mais do que convence a opinião pública.

    Mesmo em um escândalo em que a acusação é de negligência, não de corrupção, o PT não consegue adotar um novo protocolo? Não. Temos a reincidência de uma estratégia fracassada, só que agora diante de um público mais desconfiado e de uma oposição mais ágil nas redes.

    Toda crise é uma janela de oportunidade para a luta política e para a disputa pelo controle das imagens públicas dos envolvidos, por meio de uma guerrilha de atribuições de responsabilidade. Nikolas Ferreira, por exemplo, transformou o caso em um vídeo com mais de 100 milhões de visualizações. Desde o episódio do Pix, o deputado descobriu como é moleza surrar a comunicação do governo, que, incapaz de acompanhar o que se passa nas redes digitais, nunca está preparado com informações nem é capaz de produzir conteúdo para enfrentar seus detratores.

    O manual de comunicação de crise é claro: quanto maior a percepção de responsabilidade, mais o público espera reconhecimento e ação concreta. A resposta eficaz deve ser rápida, bem informada, coordenada, transparente. Ignorar, retardar ou adotar o mesmo discurso de sempre reforça a ideia de que nada mudou.

    Entre o suicídio reputacional —que seria admitir culpa plena, com risco de destruição política—, que os seus detratores desejam, e a velha negação arrogante e infantil adotada, há um meio-termo: reconhecer em que falhou, explicar como isso aconteceu e anunciar medidas concretas para impedir que se repita. Isso se chama ação corretiva. É o mínimo que se espera de quem governa.

    A crise no INSS é um teste de maturidade política para o governo. O PT tem uma chance rara de mostrar que aprendeu com os erros do passado e que está disposto a inaugurar um novo protocolo de resposta a escândalos —um que inclua responsabilização, transparência e respeito pela indignação legítima dos cidadãos.

  5. APREÇO DE LULA PELA DEMOCRACIA FLUTUA SEGUNDO A CONVENIÊNCIA, editorial de O Globo

    Uma semana atrás, editorial neste mesmo espaço criticou a ida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Moscou para participar dos festejos pelos 80 anos da vitória na Segunda Guerra, promovidos pelo autocrata Vladimir Putin. A realidade se revelou mais constrangedora do que se antevia. Nas imagens do desfile militar na Praça Vermelha, Lula — eleito empunhando a bandeira da democracia e alvo de uma tentativa de golpe de Estado — aparece ao lado de um escol invejável de ditadores. Lá estão Ibrahim Traoré, de Burkina Faso, Umaro Sissoco Embaló, de Guiné-Bissau, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Emmerson Mnangagwa, do Zimbábue e Denis Sassou Nguesso, da República do Congo. Mais distantes, o venezuelano Nicolás Maduro e o cubano Miguel Díaz-Canel. Sem esquecer o anfitrião Putin.

    “Lula se elegeu com um discurso de defesa da democracia, afirma ter combatido um golpe de Estado no 8 de Janeiro. Agora aparece ao lado não apenas de ditadores, mas também de criminosos de guerra”, disse ao GLOBO Vitelio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador da Universidade Harvard.

    Questionado sobre a ausência de líderes democráticos, Lula revelou seu desapreço pela História. Afirmou que “a Europa inteira deveria estar fazendo festa” e insinuou que outros países da União Europeia deveriam ter marcado presença em Moscou, em vez de gastar em armas para se precaver contra a ameaça russa. Ora, todos os países europeus celebram a vitória sobre o nazismo. Lula esquece que, ao invadir a Ucrânia, a Rússia mostrou não ter respeito pela integridade territorial dos vizinhos. Apelos genéricos em favor da paz de nada servem ante riscos que o próprio Lula reconhece implicitamente ao citar a luta contra a Alemanha nazista (cujo avanço foi facilitado pelos que pregavam a “paz” no Ocidente).

    Lula parece acreditar que o Brasil pode ter papel importante para que Rússia e Ucrânia alcancem a paz. “A guerra só pode acabar se os dois quiserem”, afirmou. “Então, eu vou continuar trabalhando no grupo de amigos.” Fora do círculo próximo de Lula, porém, ninguém acredita que ele possa ter relevância nas negociações. O Brasil não tem assento no Conselho de Segurança da ONU, Brasília fica a mais de 10 mil quilômetros do cenário de guerra, e os ucranianos consideram Lula parcial. Não há motivo para ser ouvido como parte isenta.

    Outro pretexto foi alegado para justificar a viagem: o déficit comercial de quase US$ 11 bilhões do Brasil com a Rússia. Em vez de aderir às sanções impostas a Putin, o Brasil se tornou grande importador de diesel russo, que se soma aos fertilizantes imprescindíveis para o agronegócio. Mas tais necessidades não justificam sua presença em Moscou. Por fim, Lula também afirmou almejar um acordo estratégico com a Rússia. Quem tem esse tipo de ligação com Putin são países como Coreia do Norte, Venezuela ou Irã. Será esse o “grupo de amigos” de Lula?

    O desfile na Praça Vermelha não passou de peça de propaganda de Putin. Outros líderes democráticos foram convidados e declinaram sem embaraço diplomático. A única explicação para o presidente de uma democracia pujante como a brasileira participar de tal pantomima em má companhia é que seu apreço pela democracia — tão propalado pelos apoiadores — flutua segundo a conveniência e a ideologia.

  6. OPOSIÇÃO DIGITAL, DEFESA ANALÓGICA, por Eliane Cantanhêde, no jornal Estado de S. Paulo

    O maior risco do presidente Lula, talvez do País, é a troca da bandeira decisiva de 2022, democracia, para uma outra, demolidora, em 2026, corrupção. Lula conquistou o terceiro mandato e impediu o segundo de Jair Bolsonaro na onda da defesa democrática e precisa ser mais ágil e convincente para não chegar à próxima eleição afogado pela narrativa da corrupção, fantasma que o acompanha desde mensalão e Lava Jato.

    Enquanto Lula, seu governo e seus aliados empacaram na era analógica, seus opositores, que foram capazes de articular um golpe de Estado, prevendo inclusive seu assassinato, estão lá adiante no planeta digital, com muito dinheiro, articulados, organizados e estratégicos, conquistando milhões de corações e almas.

    Melhor exemplo é o INSS. O governo Lula tem culpas e defesas, mas o vídeo do deputado/ator Nikolas Ferreira tem impressionante esmero técnico e político, potencializando culpas, escondendo defesas e entregando um produto de grande eficácia para massificar a palavrinha maldita, “corrupção”, e atingir Lula no fígado.

    Nikolas teve mais de 130 milhões de visualizações. Ao reagir, a ministra Gleisi Hoffmann e o deputado Lindbergh Farias não chegaram a um milhão, enquanto o governo produzia cartilhas (não lidas) e justificava que, de 12 entidades, nove foram criadas no governo Bolsonaro, quatro destas no segundo semestre de 2022, em plena eleição, e começaram a “colher frutos” e a multiplicar a roubalheira em 2023, no atual governo.

    A oposição avança celeremente e Lula anda a passos de tartaruga. O uso da FAB para resgatar a ex-primeira-dama do Peru, condenada por corrupção envolvendo justamente a Odebrecht do petrolão, foi um erro. A espera de mais de dois anos para afastar Juscelino Filho do Ministério das Comunicações foi outro, diretamente de Lula. A demora para se livrar de Carlos Lupi, nem se fala. E o que dizer sobre a troca de Lupi por seu braço direito na Previdência?

    Além dos erros, vieram as versões e o recuo sobre o Pix, numa jogada suja e bem-sucedida da oposição, e as más lembranças do petrolão e do mensalão, com a prisão e depois a tornozeleira de Fernando Collor, que se livrou da Justiça nos desvios do seu governo, mas foi condenado por corrupção na BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, exatamente nos primeiros mandatos de Lula.

    Agora, explode o caso INSS e pode não ficar nisso, depois de uma trava no Vale+, programa do, ora, ora, INSS, operado pelo PicPay, um aplicativo bancário da holding de Joesley e Wesley Batista, da J&F, que, vira e mexe, aparecem embolados com Lula e o PT. Por que o governo suspendeu o Vale+?

  7. TEM NEGÓCIO, por Carlos Andreazza, no jornal O Estado de S. Paulo

    O Parlamento, sobretudo a Câmara, já se lança a mais uma semana de férias. O maledicente dirá que o recesso talvez não seja tão mau, dada a agenda legislativa dos últimos tempos.

    Debilitada a pauta parlamentar em função da delirante campanha por anistia – impunidade – a Bolsonaro, a turma afinal se uniu para aprovar o aumento do número de deputados e para tentar malocar, contrabandear mesmo, o ex-presidente no alcance da sustação de ação penal que só poderia beneficiar Alexandre Ramagem.

    Toda essa vergonha – e então este “recesso branco” – desenvolvendo-se enquanto somos informados sobre novos detalhes da roubalheira bilionária aos aposentados, assalto facilitado por iniciativa do Congresso, agente decisivo na desmobilização de mecanismos de controle às concessões de descontos.

    O chamado Centrão – grupo de oportunistas que se articula por oportunismos em comum – jogou-se com carga total pela matéria corporativista cuja proposta corrompe o princípio da imunidade parlamentar. Essa galera farejou brecha, instrumentalizando a prerrogativa de Ramagem, para se proteger contra os processos criminais que a corrupção das emendas parlamentares fará se multiplicarem. Tem método.

    Já o bolsonarismo identificou campo para se vitimizar novamente, sabedor de que o STF – com razão, nesse caso – limitaria a extensão do artigo 53. O importante era fazer circular no zap-profundo que o Supremo xandônico teria agido para invadir-cercear o espaço de competência do Parlamento. O tribunal faz isso com frequência. Não desta vez. Não interessa. Interessa o texto. Tem método.

    Hugo Motta deixou a cousa rolar porque, ciente de que não prosperaria senão para suspender (em parte) a ação penal contra o colega deputado, seria maneira de acarinhar o bolsonarismo parlamentar insatisfeito com a forma como o presidente da Câmara mina o andamento do projeto de lei pela anistia. Tem método.

    Votaram esse conjunto desvairado de irresponsabilidades, provocada sobretudo a população ferrada, e agora terão semana de folga. Decisão do viajante Motta, cujo deslumbramento com o cargo se expressa no furor como colhe carimbos no passaporte. Vai a Nova York, para evento empresarial, e deixará trancado o Parlamento – como se a sede da fazenda.

    E o Senado? Vida mansa nos próximos dias, embora prevista – para quinta – sessão da Comissão de Fiscalização e Controle com o novo Lupi, o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, até ontem secretário executivo da pasta. Há muito a lhe perguntar. Improvável que lhe perguntem a contento.

    Davi Alcolumbre sabe matar no peito e precificar a habilidade. Ele também está viajando. Com Lula. Só viaja com Lula ultimamente. A resenha é fluente e influente. Já governa dois ministérios. Quer umas agências reguladoras, quem sabe o Banco do Brasil. Tem negócio. •

  8. O GOVERNO LULA, por Lygia Maria, no jornal Folha de S. Paulo

    O MUNDO INVERTIDO DO PT

    Lula e seu partido voltaram ao poder com discurso pela democracia, mas preferem afagar ditadores

    Em homenagem à inversão de valores e prioridades petista, esta coluna começará pelo fim.

    Na sexta (9), Lula, eleito presidente com o discurso de defesa da democracia ante o desvairado de laivos autoritários Jair Bolsonaro, curvou-se ao autocrata Vladimir Putin em Moscou.

    O evento, em comemoração ao esforço de guerra soviético para o término da Segunda Guerra Mundial, na verdade serviu como respaldo para a invasão da Ucrânia pela Rússiae contou com a presença de líderes despóticos da China, da Venezuela, de Cuba e outros países avessos ao Estado democrático de Direito.

    A desculpa por tamanha incoerência é um datado anti-imperialismo dos Estados Unidosque aceita o imperialismo russo, ditaduras latino-americanas e teocracias no Oriente Médio.

    Não à toa, no dia 7, o IBGE resolveu desenhar tal lógica distorcida e lançou um mapa-múndi do avesso, com o Brasil no centro, o Sul em cima e o Norte em baixo. O objetivo seria ressaltar a liderança do país em importantes fóruns globais como o Brics —entidade há muito inútil que reúne desde a pobre Etiópiaaté tiranos como o Irã e a própria Rússia.

    Enquanto o instituto de estatística brincava de colorir, dois dias antes uma pesquisa mostrou que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. E o vexame não para aí. Desses, 43% concluíram o ensino fundamental, 17% se formaram no médio e é assustador que 12% obtiveram diploma universitário.

    A taxa caiu de 39% em 2001 para 27% em 2009 impulsionada pela expansão do acesso à educação, mas ficou estagnada, entre 27% e 30%, desde então devido à inépcia de governos nas três esferas para melhorar indicadores de aprendizagem, que são pífios em exames locais e internacionais —note-se que, no âmbito federal, o PT ficou quase 14 anos no poder, sem contar o atual mandato.

    Esta coluna deveria ter começado por esse descalabro, e eliminá-lo deveria ser o princípio norteador das gestões petistas. Mas o PT, em seu mundo invertido, prefere afagar ditadores em nome de uma ideologia retrógrada do que cuidar do futuro do país

  9. A QUEM NÃO INTERESSA NÃO INTERESSA A CPI DO INSS, editorial do jornal O Estado de S. Paulo

    Se for acionado o tradicional sistema de blindagem vigente em Brasília, que costuma unir políticos e partidos de diferentes lados em torno de interesses em comum e enterrar ideias que podem prejudicá-los, a mais que necessária CPI para investigar as bilionárias fraudes no INSS corre o risco de morrer antes mesmo de nascer. O motivo é prosaico: embora possa ser especialmente ruim para o governo do presidente Lula da Silva, uma CPI como essa pode eventualmente apontar malfeitos do governo anterior, de Jair Bolsonaro. Eis a senha para que a turma da contemporização passe a atuar, estancando a eventual instalação da comissão. Se isso acontecer, ficará claro o que todos já intuem: que nem governo nem oposição estão preocupados com os aposentados lesados. O único cálculo, de parte a parte, é de perdas e ganhos eleitorais.

    Logo após ser deflagrada a operação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) para investigar as fraudes em descontos nas aposentadorias e pensões, a oposição não teve dificuldades para conseguir as 171 assinaturas necessárias e protocolar um requerimento com vistas a criar a CPI, enquanto o governo, atordoado e perdido, patinava entre a incompetência para gerir a crise e a habitual procrastinação do presidente Lula da Silva – que, torcendo para que o caso esfriasse por conta própria, demorou tanto a demitir Carlos Lupi do Ministério da Previdência quanto a definir quando e como ressarcirá às vítimas os recursos descontados irregularmente ao longo dos últimos anos.

    No entanto, em pouco tempo ficou claro que os malfeitos, a letargia e a omissão no caso da roubalheira do INSS transcende governos. Tudo começou em 2016, no governo de Michel Temer, mas foi em 2022, durante a administração de Jair Bolsonaro, que disparou o número de reclamações de beneficiários sobre os descontos aplicados, embora pese contra o governo Lula a demora em agir, a despeito dos alertas feitos ainda em 2023. Segundo as investigações, as entidades associativas receberam quase R$ 8 bilhões entre 2016 e 2024, dos quais R$ 2,8 bilhões apenas no ano passado. A maioria dos beneficiários não havia autorizado a cobrança ou acreditava que seu pagamento fosse obrigatório.

    Os problemas compartilhados entre o atual governo e o anterior justificaram, por exemplo, o esforço do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG) ao publicar em suas redes sociais um vídeo em que discorre sobre o escândalo. Nele, o parlamentar não só acusa o atual governo, como seria de esperar, como tenta defender Bolsonaro e desvencilhar o aliado do caso. Diante da viralização do vídeo, que repetiu a estética e o sucesso nas redes sociais de outro publicado em janeiro, quando o deputado criticou uma suposta taxação do Pix e ajudou a gerar uma crise de imagem do governo lulopetista, os exegetas do Palácio do Planalto se apressaram em respondê-lo, transferindo para Bolsonaro a responsabilidade pelo escândalo.

    Entre o sujo e o mal-lavado, os diques de contenção da CPI começaram a ser construídos. Não à toa, a oposição insiste na instalação da comissão com o foco contra o governo Lula, enquanto há governistas ameaçando mirar na gestão de Bolsonaro. Quem conhece os ingredientes que moldam o apetite ou o fastio por investigações em Brasília sabe que há uma forma implacável de neutralizar uma CPI: mostrar que, quando dois lados têm a perder, o mais seguro é não brigar. Sobretudo quando se sabe também que o Congresso teve responsabilidade pela demora na aprovação de uma proposta para garantir a exigência de controle nos descontos.

    Este jornal reafirma que o tamanho da rapina e a dificuldade do governo em oferecer respostas com prazo e intensidade adequados justificam a instalação da CPI. A apuração deve ser rigorosa e ir além deste governo, posto que 6 milhões de beneficiários foram prejudicados ao longo dos anos. Há muitas perguntas ainda sem resposta sobre o esquema e uma CPI pode ajudar a iluminá-las. Razões suficientes também para exigir neste momento uma pressão dos brasileiros para evitar que a operação abafa seja bem-sucedida.

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